Destino
10 Despedida
Notas iniciais
As entrevistas seguiram de uma forma curiosa, descobri que o mundo pode mesmo ter diversos tipos de pessoas estranhas.
Tinha até um rapaz, o que é estranho, pois eu verifiquei o sobrenome, mas quem imagina que um homem iria querer um emprego desses né?
Das candidatas, ou não tinham experiência, ou eram menores de idade ou eu achei esquisitas demais pra levar em consideração.
Embora eu tenha ouvido todas de uma a uma ficou muito difícil escolher alguém qualificado, já que nenhuma parecia de fato digna ou apta para o serviço, e é claro que eu vou escolher o melhor pro Miguel.
Mas não pensem que todas eram ruins, algumas pareciam bem confiáveis, o problema é que eram bonitas demais, e não é isso que quero e não estou a fim de repetir meus motivos.
Não tinha pensado muito em quais perguntas fazer, mas elas iam surgindo nas conversas, mas as perguntas típicas eram:
‘Porque se candidatou a essa vaga? Você tem experiência com crianças? Você considera-se responsável e competente?’
Acho que algumas foram até um pouco desesperadas demais. Comentavam coisas incoerentes com a conversa.
‘Puxa, o senhor é tão bonito, o senhor é modelo?’ ‘Nossa, seu apartamento é lindo, se eu trabalhasse aqui eu o manteria sempre assim. ’ ‘Seu filho é um anjo, ah, não é seu? Mas mesmo assim é lindo. ’
E acho que algumas não vieram nem com o objetivo de conseguir a vaga, mas sim de flertar.
‘O senhor é casado? Tem namorada?’ ‘Poderíamos sair qualquer dia desses. ’
Acho que nenhuma dessas conhecia as regras pra uma boa entrevista.
Miguel brincava no quarto dele enquanto eu falava com as candidatas, vez ou outra ele vinha perturbar por alguma coisa.
E acho que ele já sabia pra quê eu recebia tantas pessoas, por isso ele me atormentou muito durante as entrevistas.
Já eram quase cinco quando faltava a ultima garota, mas ela estava tão atrasada que eu acho que nem vinha mais então comecei a arrumar tudo pra terminar logo com aquilo, não achei que fosse tão cansativo.
Foi quando alguém bateu na porta. Abri e tinha uma garota a espera.
─Oi, sou a Mayuri, Ayuzawa Mayuri. — disse com um sorriso aberto.
─ Ayuzawa? Seu horário já passou faz meia hora.
─Eu sei, desculpe, é que tive muito trabalho pra chegar aqui. — diz com olhos de suplica.
Pensei seriamente se deveria seguir com a entrevista, só pela assiduidade dava pra descartar essa garota de imediato, mas pensei melhor, não sou tão mal a esse ponto então a deixei entrar. Ela entrou pedindo licença e toda sorridente por eu ter cedido ao atraso, melhor não se animar tanto.
─Pode se sentar Mayuri.
Parecia bem jovem, era ruiva e bem branca, me lembrou do Camus. E apesar de parecer meio desengonçada com o fracasso de um estilo meio roqueiro, e mesmo por estar desarrumada não escondia a beleza sublime dela, mas só pela arrumação eu já tinha outro motivo pra descarta-la. No entanto, ela demostrava uma afetuosidade que até então eu não tinha visto em mais ninguém que passou por aqui hoje.
─Quer beber alguma coisa? – digo quando ela me entrega o currículo.
─Um copo d'agua se não for pedir muito senhor... – diz esperando que eu me apresente.
─Sou Amamiya Shun.
─Muito prazer. — disse sorrindo.
Entreguei um copo de agua pra ela que parecia ter vindo de um deserto, pois bebia a agua como um camelo. Liguei o gravador como das outras vezes.
─Bom... Qual sua idade Mayuri?
─20. – ela parecia mais nova.
─Tem experiência? – digo abrindo o currículo dela e vendo que tem sim experiência, e longa, pena que não como babá.
─Cuidei de meus irmãos desde criança e trabalhei como babá por alguns meses.
─É mesmo? Aqui não diz nada.
─É que foi breve, a senhora pra quem trabalhei logo ficou disponível então não precisaram mais de mim, também comecei a cuidar de outra criança recentemente, mas não deu certo, pois ficava muito longe de casa então tive que desistir.
─Ah. Pra quem você trabalhou nesses meses?
─Pra família Nigihayami, é bem conhecida, acho que o senhor já deve ter ouvido falar. – disse sorrindo. É sério? Nigihayami?
─Como soube dessa vaga Mayuri? – digo querendo tirar a prova das minhas suspeitas.
─Primeiro por uma ligação e depois pelo jornal.
─Ligação?
─Sim, acho que de um senhor Yukida. – diz parecendo tentar lembrar.
─Sério? Indicada por Shunrei e Shiryu Nigihayami? – digo relacionando tudo, ela é a mesma garota que Shiryu falou aquele dia.
─É, foi o que o senhor Yukida disse, como o senhor sabe? – disse confusa.
─São meus amigos.
─Oh, faz sentido. Eu não aceitei a proposta do senhor Yukida porque eu estava cuidando dessa outra criança, mas como eu disse não deu certo.
─Poderia ter dito isso logo, o ‘senhor Yukida’ precisava de alguém urgente.
─É que não contei muito com essa vantagem, o senhor Shiryu me deu a recomendação, mas fiquei sem jeito de colocar aí por ter recusado de inicio. – diz sem jeito.
─Hum. Shiryu falou muito bem de você.
─É mesmo? – diz sorrindo animada.
─Bom, e quantos irmãos você tem?
─Dois mais novos.
─Ah, nossa. Então de certa forma você tem bastante experiência.
─É, se ver por esse lado.
─E... Você estuda?
─Sim, faço enfermagem na Universidade de Kawasaki.
─Hum, é longe.
─Na verdade eu queria medicina, mas é difícil conseguir uma vaga aqui em Tóquio, então teve que ser enfermagem mesmo, e só consegui vaga na cidade vizinha.
─Ah, entendo. Por isso quer trabalhar? Pra pagar seus estudos?
─Na verdade é mais pra ajudar em casa mesmo, é que minha mãe anda tão atarefada então comecei a ajudar.
─Trabalhava em algum outro lugar antes. – digo vendo a recomendação.
─Sim, num Maid Café. — ela disse um pouco vermelha. ─Era perto da minha casa, mas tive que sair, pois estava interferindo nos meus horários da faculdade que é à noite.
─Hum. Você mora longe daqui?
─Moro em Nakano. – agora entendo porque ela demorou tanto, eu também moro em Chiyoda e não costumo frequentar outros bairros de Tóquio, deve ser difícil pra ela. Acho que agora eu devo ter soado como um riquinho metido.
─É longe também, por isso se atrasou?
─Não, é que eu não sou muito boa pra me localizar, então levei um bom tempo pra encontrar o endereço daqui. — disse sem jeito.
─Veio de taxi?
─Não, não, taxi é muito caro, peguei o metrô.
─Entendo.
─O senhor não é o pai dele não é? — ela disse do nada.
─Hã? — só aí eu percebi o Miguel perto de mim encolhido perto do sofá, só dava pra ver seus olhinhos irritados pra Mayuri.
─Vem Miguel. — digo pegando ele.
─Quem é Shu? – disse se encolhendo em mim.
─Essa é a Mayuri.
─Pode me chamar de Mai. — ela disse sorrindo e o Miguel só se emburrou, do mesmo jeito que fez comigo da vez que nos encontramos.
─Liga não, ele é assim mesmo.
─Ah. Sou acostumada. Ele é uma graça. – ela disse acenando pra ele que só se escondeu mais.
─Ele não é meu, é do meu amigo.
─Porque é o senhor que está fazendo as entrevistas?
─Meu amigo está trabalhando agora.
─Ele é médico? – ela perguntou animada.
─Sim, como sabe?
─Tem um jaleco pendurado na entrada. – ela é bem observadora.
─Ah sim... Poderia ser meu não é?
─O senhor não tem perfil de médico.
─Não?
─É que eu já convivi bastante com médicos, digamos que eles têm certo padrão de comportamento.
─Convivia é?
─Sim, minha mãe é enfermeira, às vezes ela me levava pro trabalho dela quando não tinha opção.
─Eh, curioso. Bom, e você não acha que trabalhar aqui te deixaria sobrecarregada Mayuri?
─Não, sou acostumada a trabalhar duro.
─Hum.
Essa garota parece boa, mas nada diferente do habitual, como previsto o Miguel a detestou, mas ainda assim ela é bonita, mas é apenas uma garota comum, porém não posso descartar as outras opções também.
─Bom, acho que isso é tudo, ligarei pra dar uma resposta. – digo.
─Tá bom, agradeço seu tempo senhor Amamiya. – diz quando apertamos as mãos.
─De nada. Até. – digo me despedindo na porta enquanto ela dá um aceno pro Miguel no sofá que acaba retribuindo o gesto.
Gostei dela, de certo modo. Acho que seria perfeita pro emprego. Bom, pensarei nisso depois.
Cinco horas. Vou dar uma volta com o Miguel já que a chuva deu uma trégua.
Voltamos seis e meia e o Hyoga já tinha chegado.
─Oi filho. — ele disse sorrido, estava sentado no sofá.
─Papaa. – disse alegremente como sempre quando via o pai.
Hyoga pegou o Miguel e se deitou no sofá com o Miguel deitado abraçado na barriga dele, oh coisa boa, parecia bastante aconchegante, eu também queria caber ali.
─Oi Hyoga. — eu digo irritado por ele não ter me cumprimentado também, podia ser até um beijo, nada demais.
─Oi Shun. — ele disse sorrindo quando se virou brevemente pra mim, ah, basta ele sorrir pra mim que minha barreira de irritação entra em declínio.
Ele estava acariciando as costas do Miguel que tava todo aninhado em cima do pai, sorrindo de olhinhos fechados, coisas de pai e filho.
─Que cara é essa Amamiya? — ele diz rindo.
─Hunf. -mesmo assim dou um sorriso discreto. ─Você chegou cedo. – digo sentando perto deles, poderia até disponibilizar colo e acariciar os cabelos dele se ele permitisse.
─Só fiquei em clinica algumas horas, não tinha nenhuma cirurgia marcada pra hoje, então eu só supervisionei o tratamento de alguns dos meus pacientes.
─Ah.
─E então, como foi as entrevistas?
─Ah, foi meio estranho, a gente conhece cada figura.
─Foi tão estranho assim?
─Bom...
Conto a ele os detalhes de cada pessoa que entrevistei, ele ouvia atentamente, dando opiniões, riamos, comentávamos coisas curiosas, falei pra ele sobre a ultima garota. Enfim, era ótimo conversar com ele, nisso o Miguel simplesmente continuava deitado no peito dele sentindo o subir e descer da respiração, sortudo. De certo modo estávamos até tendo um momento em família, ou sou eu que quero ver dessa forma?
Seis e meia, estou me arrumando pra minha reunião. O encontro de cavaleiros é só sete e meia, por isso o Hyoga ainda esta na sala passando o tempo com o Miguel, ele lê o meu primeiro livro quando eu vou pra sala já arrumado pra perguntar o que ele acha, ainda bem que eu trouxe algumas roupas formais quando preparei minha mochila pra passar a semana aqui com eles.
─Como estou? – digo de frente pra ele.
─Bem. — Hyoga disse olhando rapidamente por cima do livro.
─Tem certeza? Acho que estou muito simples. – digo apesar de as reuniões serem sempre bem formais.
Vesti uma camisa social branca e uma calça social preta com meu blaser preto também. Acho que dá pro gasto.
Hyoga voltou a me olhar estranho.
─Você não pretende se embonecar pra essa reunião não é Amamiya? – ele diz parecendo aborrecido.
─Hum? Não, é que eu acho que estou um tanto sem graça, vou me encontrar com o diretor adjunto da Jump Comics e...
─E com seu assistente. – o que há com ele?
─Sim claro, ele tem que estar presente, afinal foi ele que cuidou de toda a parte burocratica, preciso dele.
─Hm. – diz dando de ombros. ─Está melhor assim.
─Acha mesmo?
─Parece mais natural, gosto de você assim.
─Gosta? – digo sorrindo debilmente.
─Bom, eu só estou falando que você fica melhor assim, só isso.
─Eh... Obrigado. – acho que estou vermelho.
Hyoga voltou a atenção pro livro.
─Bom, eu vou indo. – digo pegando minha chave e a carteira.
─Ok. – ele diz sem ao menos me olhar, será que meu livro está tão interessante assim pra ele ou ele só está me ignorando mesmo?
─Até mais tarde Hyoga, nos vemos na reunião, acho que não vou chegar muito tarde.
─Tá.
─Mas você vai me esperar?
─Hm. – o idiota está me ignorando?
─Então talvez eu nem apareça. – digo em desafio.
─Hm. – é, esse idiota está me ignorando, às vezes ele me faz detesta-lo tanto que sinto vontade de estapea-lo, assim como também tem momentos que ele me faz ficar perdidamente facinado por ele, sem duvidas ele é unico pra mim.
─Hunf. Tá me ouvindo seu loiro metido? – digo irritado.
─Claro que estou. – diz aborrecido também.
─Porque você está assim? – digo chegando perto dele.
─Assim como? – diz voltando pro livro.
─Irritado.
─Não estou irritado, nem aborrecido e nem te ignorando. – diz tapando seu rosto com o livro. ─Apenas queria que você não tivesse que ir pra essa reunião. – diz com a voz abafada pelo livro.
─Hã? – ele me quer por perto? ─Porque não quer que eu vá?
─Essa semana já está acabando Shun. Está acabando. – diz com um tom que me parece triste.
─Hã? – estou confuso, o que ele quer dizer com isso?
─Você nem vai ficar conosco semana que vem, queria que passassemos mais um tempo... juntos. Eu trabalhei tanto essa semana, quase não passamos tempo todos juntos. –Estou falando com o mesmo Hyoga que conheço?
Realmente, eu estive com o Miguel o tempo todo, mas raras vezes estivemos todos juntos. Percebi isso e fiquei triste, mas não achei que ele visse dessa forma também.
Aproximo-me e sento perto dele no sofá e afasto o livro de seu rosto, ele não me encara, permanece olhando pro nada.
─Eu não vou sumir Hyoga. – digo sério, o que ele está pensando? Que eu estou louco pra me livrar deles?
─Não, mas vai se afastar.
─Admito que não vai ser como se estivessemos sempre juntos, mas só vamos voltar pra rotina, eu nem sempre estive aqui lembra? – digo sorrindo.
─É, nem sempre. – ele diz ainda sério.
─Eu vou vir sempre visitar vocês, afinal vou querer ver sempre o Miguel. – digo olhando pro Miguel brincando distraido perto de nós. ─E você também Hyoga, não vou deixa-lo sumir de novo.
Ele finalmente me olhou e sorriu.
─É, tem razão.
─Bom, eu vou indo, senão vou me atrasar. – digo levantando e me despedindo do Miguel com um beijo em sua cabecinha loira. ─Nos vemos na casa da Saori. Tchau. – digo e saio.
O que há com ele? Ele nunca fala daquele jeito, parecia até... carente. Senti uma grande vontade de abraça-lo, mas o que estou pensando? O Hyoga não é assim, é só coisa da minha cabeça, ele só estava sendo retorico. Ele nunca diria com todas as letras que sentiria minha falta ou que necessitava da minha presença, assim como não poderia querer dizer isso com outras palavras, ele é um completo enigma pra mim, e embora ele mesmo não perceba isso acaba por torna-lo confuso demais pra qualquer um. Por isso não sei o que dizer exatamente ou como agir.
Bom, vou esquecer isso por enquanto, tenho que me concentrar nessa reunião.
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Pensei tanto hoje, parece que essa semana voou, semana que vem o Miguel vai ter uma babá nova e o Shun vai se afastar de nós.
Não passamos muito tempo juntos, o trabalho ocupou boa parte do meu tempo, então não pude desfrutar por inteiro da presença do meu amigo. Confesso que a situação hoje de manhã foi um tanto constrangedora, até demais, e também pungente devido nossa conversa meio conturbada, alem de Shun ter se comportado de forma estranha quando Ikki esteve conosco.
E depois de tudo que falamos um ao outro percebi que nosso afastamento no passado foi realmente culpa minha, por isso queria consertar meu erro, não gosto de deixar fios soltos, quero me redimir com Shun, passar algum tempo com ele, alem do mais fui relapso por ter focado tanto no trabalho essa semana e não ter tentado dar-lhe a devida atenção, eu devo tanto a ele mais do que posso contar.
Por alguma razão minha afeição por ele cresceu, não sei se pela convivencia ou pela saudade do tempo que ficamos afastados, mas passar esse periodo com ele me fez ansiar por mais, gosto dele, e o quero por perto.
Será que estou sendo muito egoista? Talvez ele não queira mais ficar, apesar de eu ter visto que ele gostou mesmo de ficar com o Miguel, mas ainda assim sinto que ele quer voltar a sua vida cotidiana, mesmo sendo solitario.
Ouvi-lo falando com aquele assitente dele de uma forma tão animada me causou uma sensação estranha, não imaginava que outras pessoas falassem assim com Shun, com animação ou mesmo intimidade, na minha mente o Shun que conheço é afetuoso, carinhoso, e alegre o tempo todo, mas é sozinho.
Nunca imaginei que isso fosse diferente fora do meu universo que é o que idealizo. Então ninguem tem o direito de interferir ou entrar nele, é estranho eu sei. Assim esse assistente dele soou mais como uma presença impertinente, uma peça de reposição que não tem outra função além de substituir outra mais importante enquanto esta passa por reparos, e que surgiu como um meio de conter a solidão de meu amigo, mas minha presunção se limita a achar que minha simples presença deveria dar conta e ser o suficiente pro Shun não se sentir tão solitário, então esse sujeito deveria ser descartado e tirado do meu universo egocentrico.
Eu sei, sou um idiota... um idiota solitário que está catando até mesmo as migalhas da companhia de um amigo que estava apenas fazendo uma gentileza, e que não entende que é só mais uma peça de um imenso quebra-cabeça na vida de Shun. Talvez eu não seja tão relevante assim, sou um periodo, uma imagem rápida que passou na vida de Shun e que logo será substituida por outras e mais outras.
Isso me trás novamente o retraimento, as imagens passadas em minha vida parecem tão mais lentas e sem cor que tudo soa como uma completa solidão.
Solidão. Essa palavra tem me sondado tanto ultimamente, e percebo agora que eu estava mesmo solitário, apesar de eu ter sempre o Miguel ao meu lado, talvez seja a hora de eu procurar alguem como o Millo disse, já está em tempo, ou até passou do tempo. Porém eu não quero ninguem, não ainda.
Ultimamente meus amigos, especialmente Adam e Millo, tem me empurrado qualquer garota que conhecem por aí.
Mas, honestamente, que tipo de encalhada se dispõe a sair com um viúvo depressivo de 28 anos, que tem um filho pra criar, e sem nenhum objetivo na vida além de se afogar em lágrimas e na bebida(embora eu já tenha parado!)?
Imagino mulheres estranhas, esquálidas, com vestidos de camponesa largos demais, óculos enormes e vários gatos em casa, com os quais conversam como se fossem crianças. Ou então mulheres tristes, gordas, com uma alegria nervosa, autodepreciativas, suando a camisa e raspando o tacho dos primeiros encontros em sua constante busca por um orgasmo que não dependa de pilhas. Ou divorciadas, sofridas, perigosas porque odeiam os homens e vivem à procura de uma nova escarradeira onde cuspir sua bile, ou afogadas no medo e na solidão, prontas a agarrar o primeiro que esteja, quem sabe, disposto a partilhar sua cama e a prestação da casa.
E sinceramente não cheguei a tal ponto de desespero, e não estou disposto a partilhar a cama com nenhuma desse tipo, me tornei um bocado obsessivo com meu luto e não quero dividi-lo com ninguém que me pareça terminantemente triste, de tristeza e solidão já basta a minha.
Se eu estiver atrás de uma transa fácil basta fazer uma ligação e pronto, nem preciso saber o nome da dita cuja, já que não a verei mais além das duas horas que eu encomendar. E também não estou a fim de fazer isso. Não estou a fim de fazer nada, droga.
Lilia. Estou pensando de novo nela. Pensando em como posso me imaginar com outra mulher em minha vida.
Não posso simplesmente apagar todas as minhas memorias da noite para o dia, não posso esquecer momentos que foram tão felizes.
O que acontece é que não se deve nem se pode esquecer, e mesmo forçar um relacionamento que mesmo com toda força de vontade do universo não vai me levar a lugar nenhum. Afinal, quando me imagino em um novo relacionamento tentando ser novamente feliz, minha mente trás lembranças de minha vida passada com Lilia e acabo por me perguntar em como posso me sentir feliz com outra pessoa sendo que minha esposa está morta, logo me sinto culpado, e assim eu mesmo acabo por me sabotar e estragar uma felicidade construída com grande esforço, mesmo que momentânea.
Inferno! Lá vou eu de novo, como foi que minha mente foi me levar de Shun para a Lilia? Droga. Não já falei que divagar demais me faz ficar deprimido? Pois é, então é melhor eu parar por aqui.
Mas tenho que dizer que tem algo mais que fica martelando em minha mente, não sei por que, mas acho que não vou gostar nenhum pouco desse assistente do Shun. Tolices e mais tolices. Estou pensando demais.
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Essa reunião tá um saco. Como é possivel que as pessoas sejam tão chatas?
Ichiro fala alguma coisa sobre contrato, o cara da Jump Comics diz alguma coisa sobre divulgação, Ichiro fala outra coisa sobre e Shueisha, outras coisas são ditas sobre o grupo Hitotsubashi. Enfim, nem estou mais prestando atenção.
Minha mente vai de encontro ao Hyoga de novo, estou perdendo os últimos momentos que posso ter com ele e o Miguel por causa dessa reunião entediante.
─... Seria ótimo não é senhor Shun? – disse Ichiro do nada me tirando de meus pensamentos, os dois olhavam sorrindo pra mim esperando uma resposta.
─Hã? Er... sim, sim, é claro. É ótimo. – digo sem ter a mínima ideia do que eles estavam falando.
─Então podemos cuidar disso também... – continuou o diretor adjunto, mas não estou mais prestando atenção de novo.
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Já são nove horas. A reunião seguia-se normalmente. Miguel estava todo animado brincando com os gemeos do Shiryu.
E eu, bom, eu bebi um pouco, conversei com todos, até mesmo com Ikki, falei com Shiryu sobre a babá, joguei cartas com os outros, enfim, socializando de certa forma.
Estou com Millo agora, bebemos enquanto ele me conta bobagens da sua mente maliciosa como sempre, mas eu não estou prestando atenção. Penso em Shun, porque será que ele está demorando tanto? Essa reunião é tão importante assim?
─...Daí você entra e já paga uma taxa pela reserva de uma mesa que boa parte do tempo você nem usa, imagina um drinque de um champanhe francês que o Camus gosta, caro pra caramba!... o que compensa mesmo é o atendimento, tem uns garçons bem bonitos lá, Camus faltou me esganar quando eu só olhei pra um deles...
Ele falava animado sobre alguma boate que ele e Camus foram, e eu só acenava olhando pra ele, mas ao mesmo tempo sem olha-lo, sem ouvi-lo e sem prestar atenção em nada, mas acho que sou bastante convincente. Você pode me pegar se perguntar qual foi a ultima coisa que ele disse, pois eu não vou saber responder.
Depois de um tempo Millo se calou e ficamos olhando pra nossos amigos, olhei pra Camus que conversava tranquilamente com Mu em um sofá no canto do salão, fiquei olhando pra ele, sério, compenetrado, com movimentos leves e firmes, é totalmente o contrario de Millo. Muitos dizem que eu me pareço bastante com Camus, em gestos, linguagem e seriedade e leveza. Será que sou assim mesmo? Não me imagino desse jeito, ainda mais que alguém como Camus tenha um relacionamento com alguém como o Millo.
Observei as particularidades de cada um, de Millo, de Camus. Eles não pareciam formar um casal. Eram tão... diferentes. Como será que eles...
─Quer me perguntar alguma coisa? — Millo pergunta quando percebe que estou olhando por tempo demais pra ele.
─Não, só estava pensando em uma coisa aqui. – digo divagando de novo.
─Sobre mim?
─É, mais ou menos.
─O quê?
─Melhor não, você não vai gostar.
─Fala logo. – ele insiste.
─Só estava pensando em você e Camus... Em qual de vocês é o, er... Passivo.
Ele faltou cuspir sua bebida.
─Mas que pergunta é essa? E logo você perguntando isso.
─É que nenhum de vocês parece afeminado. – tento argumentar.
Ele riu alto. Escandaloso, em vez de ele ficar com vergonha sou eu que fico.
─Faz silencio Millo. — falo pra ele ser mais discreto.
─E porque a pergunta?
─Nada, só pensando mesmo.
─E qual de nós você acha que é? – ele sorri insinuante.
─Sei lá, você? – digo arriscando.
─E logo eu?
─Não sei, acho que sim.
─Hum. Fique você sabendo que nós variamos.
─Ah.
─E ainda temos uma vida sexual bastante ativa.
─Não perguntei isso. – lá vai ele começar a falar besteira.
─Por isso não dói muito, afinal é o tempo todo né.
─Não quero saber Millo.
─Às vezes usar vaselina também ajuda.
─Já falei que não quero saber.
─Você que perguntou.
─Mas não pedi detalhes do que você e Camus fazem na cama, ora.
─Informação extra não faz mal a ninguém, vai que você precise. –ele diz rindo, sei bem o que ele quis dizer.
─Tenho certeza que não vou.
─Vai por mim Hyoga, você com certeza seria o ativo, e pode ter certeza que um homem é muito mais apertado, por isso é muito mais prazeroso do que com uma mulher.
─Millo!
─Mas tem que tomar cuidado senão o passivo pode sentir muita dor, por isso na maioria das vezes é o passivo que controla o ritmo de tudo.
─Cala boca Millo.
─Pra isso a vaselina, senão dói muito, por isso vá devagar.
Peguei minha bebida e me levantei.
─Espera Hyoga. — ele diz rapidamente quando vê que vou sair. ─Só tô brincando, vou parar.
─Hum. – volto a sentar e ele fica quieto por um tempo.
─Não quer mesmo saber? – ele diz rindo.
─Aff.
─Quer tentar com alguém em particular? – diz insinuando de novo, sei bem de quem ele está falando.
─Não, nem pensei nisso.
─Sei.
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Saco, parecia que aquela reunião tinha durado uma eternidade.
Estou atrasado pra reunião de cavaleiros, mas ainda tenho que levar o Ichiro em casa, droga, estou com vontade de joga-lo do carro em movimento e obriga-lo a ir a pé mesmo, posso até me imaginar dando uma rizada maléfica enquanto faço isso, exagerei eu sei, mas assim não vai dar tempo de ver o Hyoga e o Miguel, ele sempre vai embora cedo, quero vê-los ao menos uma ultima vez.
─... Daí o contrato poderia até ser prolongado caso o senhor queira. — Ichiro disse e só agora percebo que ele estava falando.
─Ah tá. — digo só pra não deixa-lo no vácuo.
─E então, o que o senhor acha senhor Shun?
─Hum?
─Sobre o contrato.
─Ah, er... Bom?
─O senhor nem tava me ouvindo né?
─Estava, bom, mais ou menos.
Ele suspira pacientemente.
─Bem, deixemos isso pra lá por enquanto, estou cuidando disso ainda, quando eu tiver mais detalhes eu lhe aviso.
─Tá.
─E como está seu irmão?
─Hã? Meu irmão?
─O senhor disse que ficaria afastado essa semana por causa de uns assuntos familiares, e só seu irmão me vem a mente.
─Ele está ótimo.
─Hum. E o que era o problema então? Desculpe, estou sendo indiscreto?
─Não, imagine. O Ikki é meu irmão de sangue, mas eu tenho muitos amigos que considero como irmãos também, amigos de infância, era um deles que eu estava ajudando essa semana.
─É um daqueles da foto antiga do senhor?
─Sim.
─Qual deles?
─O loiro.
─Hum.
─O nome dele é Alexei, ele precisava de ajuda essa semana e eu me prontifiquei.
─Ah. Bom, e esse seu amigo, ele é casado? Divorciado? Solteiro?
─Ele é viúvo, por quê?
─Nada. O senhor é muito ligado a ele?
─Sou. — digo sorrindo.
─Ah. Ele... Ele era casado com uma mulher?
─É claro que sim, porque essa pergunta? — digo confuso, porque ele quer saber tanto do Hyoga?
─Nada, é que fiquei curioso, só isso.
─Hum. Ele tinha uma esposa, tem até um filho.
─Ah.
─Você iria gostar dele Ichiro, é meio sério, igual a você.
─Hum.
─Quer saber, acho que essa seria uma boa ideia. — digo pensando na ideia de levar o Ichiro comigo na reunião e poupar tempo. ─Você fez outros planos pra essa noite Ichiro?
─Não. — ele diz animado. ─Por quê? Quer me levar a algum lugar reservado pra ficarmos a sós senhor Shun?
─Hã? Não, só queria que viesse comigo a um lugar, é que eu estou meio atrasado e preciso correr, se você não tiver nenhum compromisso poderia vir comigo e me pouparia tempo.
─Ah. – acho que ele desanimou.
─E aí? Você pode? Ou quer que o leve em casa logo?
─Bom, eu não tenho nenhum compromisso, dediquei essa noite só pro senhor.
─Hum? Pra mim?
─Nã-não, quer dizer, não exatamente, quis dizer que dediquei essa noite pra reunião com o senhor e o pessoal da Jump Comics. — diz apressado.
─Ah, então você quer vir comigo? É uma reunião que sempre vou pra reencontrar meus amigos de infância.
─Gostaria sim.
─Então vamos. — digo sorrindo e mudando meu caminho, ao menos vou ver o Hyoga e o Miguel antes que vão embora.
Assim que chegamos Ichiro foi logo me perguntando.
─Aqui é a reunião? — diz impressionado olhando a frente da mansão da Saori quando passamos pelo portão principal.
─Sim, por quê?
─Aqui é a mansão dos Kido, os donos da fundação Graad, é uma empresa multinacional de grande prestigio e que é administrada pelo renomado administrador Nigihayami. — ele comenta impressionado.
─Sim, a dona Saori Kido e o administrador Shiryu Nigihayami são meus amigos de infância.
─Oohh, não sabia que o senhor tinha amigos tão importantes senhor Shun. — ele diz animado. ─E eles estão aqui?
─Sim.
─Oohh, vou conhecê-los?
─É claro.
Ele olha pra frente nervoso e começa a se ajeitar.
─Como estou senhor Shun? — diz arrumando suas roupas.
─Está ótimo Ichiro, não se preocupe.
─É que essa é uma grande oportunidade senhor, li muitos artigos em revistas importantes de economia falando sobre o sucesso da fundação Graad decorrentes da excelente administração do senhor Nigihayami, ele é o modelo dos grandes negócios, desde que assumiu a administração da fundação deu margem a grandes investimentos na Europa e no ocidente, ele é incrível.
─Ah, o Shiryu é mesmo ótimo no que faz. — digo tranquilo, nunca parei pra pensar assim no trabalho dele, sei que tem sucesso, mas não sou de me impressionar tanto com essas coisas, diferente do Ichiro que está cursando administração, e com certeza isso deve ser mesmo incrível pra ele.
Ele fica inquieto e ansioso.
─Fique calmo Ichiro. — digo quando termino de estacionar e olho pra ele.
─Como o senhor Nigihayami é, senhor Shun?
─Como assim?
─Como devo falar com ele? Tenho que parecer informal ou mais profissional? O que o senhor acha?
─Haja naturalmente rapaz, sem drama, o Shiryu não liga pra essas coisas.
─Tem certeza? Não sei não.
─Claro que tenho, e para com isso. — digo o vendo alisar demais aquele cabelo com os dedos.
Assim que entrei procurei pelo Hyoga no salão.
Todos pareciam distraídos conversando ou jogando cartas ou simplesmente bebendo.
Fiquei decepcionado por não vê-lo e nem mesmo o Miguel, será que cheguei tarde demais?
Ichiro estava ansioso ao meu lado fiquei feliz em avistar Shiryu conversando com Shura, então fui até eles.
─Vem Ichiro. -digo já andando na direção deles.
─Aonde senhor Shun? — disse nervoso olhando pros lados.
─Vou te apresentar o Shiryu.
─Mas já? Eu nem ensaiei o que vou dizer ainda.
─Ora, já disse, seja você mesmo. -digo sem paciência, tenho que encontrar o Hyoga então não estou muito a fim de ficar ouvindo as divagações do Ichiro.
─Mas... – tentou protestar, mas já estávamos perto deles.
─Oi gente. — digo acenando pra eles.
─Oi Shun. — Shiryu e o Shura dizem sorrindo.
─Este aqui é o Ichiro, meu assistente.
─Er... O-oi. – diz nervoso fazendo uma reverencia exagerada.
─E estes são Shiryu e Shura, Ichiro.
─É um prazer conhecê-los. -disse e percebo que ele está suando muito, acho que estou sendo impiedoso em não ajuda-lo nesse momento, mas não consigo tirar o Hyoga da cabeça.
─Ele é estudante de Administração Shiryu.
─É mesmo? Que bom. — Shiryu diz tranquilo e sem dar a mínima importância pro estado agitado do Ichiro que com certeza ele percebeu.
─Sou um grande admirador do seu trabalho senhor Shiryu. – Ichiro diz animado.
─Ah, bom. Obrigado, eu acho. -Shiryu diz sorrindo sem graça.
─Posso falar um instante com você Shiryu? — digo já o puxando pelo braço.
─Hã?
─Onde está o Hyoga e o Miguel? — digo quando nos afastamos um pouco e o Shura começa e conversar com o Ichiro.
─Ah, estavam aqui a alguns minutos. — diz olhando em volta. ─Ele estava conversando com o Millo.
─Mas eles já foram embora?
─Ah, não, não, senão ele teria vindo se despedir de mim. Devem estar por aí.
─Ah que bom. – digo aliviado. ─Quero te pedir um favor amigo. — digo sorrindo diante do olhar confuso dele.
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Continuei ouvindo o Millo falando besteira, por sorte o Miguel veio pra mim pra pedir pra ir ao banheiro. Graças a Deus! Obrigado por me salvar filho.
Eu o levei, ele brincou bastante por isso já estava cansado e sonolento, então comecei a aninha-lo enquanto andava pelo grande jardim da mansão da Saori, por sorte a chuva fina que caiu o dia todo deu uma trégua agora à noite, mas o clima ainda estava um pouco frio, então eu coloquei o moletom e um capuz no Miguel antes de caminhar com ele por aquele jardim. Ele já estava adormecido quando meu celular tocou. Era o Adam.
...
─...Mas Irina não disse tudo então, Andrey está cada vez pior Hyoga, eu sei, eu mesmo estou cuidando do tratamento dele. – Adam disse preocupado.
─Quais as chances de virar úlcera? – digo preocupado.
─Grandes. – droga, mas essa agora, não achei que a saúde de Andrey estivesse tão comprometida assim.
─Não quero te alardear Hyoga, apenas achei que você devia saber.
─Tudo bem Adam, fez bem em me contar. Ele me pareceu tão bem quando me ligou hoje. Vou falar com Irina, pra saber como ele está se sentindo.
─Tá bom.
─E aí, como a Wendy e a Nina estão?
─Estão ótimas, sentem falta de você e do Miguel.
─Mande um abraço pra elas. Pena que o Miguel não pode falar, está dormindo. – digo aninhando-o.
─É uma pena, Nina também já está dormindo.
─Você não está de plantão hoje?
─Não, graças a Deus... e você?
─Também não.
─E aí? Já arrumou alguma japonesa por aí?
─Já vai começar? – digo aborrecido.
─Só quero ficar a par da situação da sua calça, seu cinto não vai segura-la por muito tempo.
─Pela amor de Deus, Adam! Já não mandei você parar de assistir tantos filmes pornôs? – escapei do Millo pra entrar em algo pior, Adam consegue ser mais pervertido que o Millo. Sei que ele tira esses jargões parvos desses filmes depravados.
─Não posso parar, isso me dá umas ideias pra praticar com a Wendy. – ele diz rindo.
─Droga! Seu degenerado. Eu podia dormir sem essa. Agora isso vai ficar sondando minha mente a noite toda.
─Então estou te dando incentivo, certo? – posso até imaginar o sorriso insinuante dele.
─Ah, claro, é tão excitante imaginar meu amigo imbecil trepando com a mulher dele. Que tipo de depravado diz uma coisa dessas pro amigo?
─Eh, pense nisso de forma positiva, não se pode viver sem sexo pra sempre.
─Sou a prova viva que é possível.
─Devia parar com isso. Se demorar muito ele não levanta mais.
─Cala boca Adam!
─Olha, porque não volta? Pelo menos pra fazer uma visita rápida. Annia vive perguntando por você.
─É, eu... eu não tenho retornado as ligações dela ultimamente.
─Está fugindo. – ele repreende.
─Não estou. É que... nosso ultimo encontro não foi dos melhores.
─Não dá pra entender você Alexei, a mulher te agarra e você simplesmente foge? Ela não quer só sexo como as outras, Alexei, ela realmente gosta de você... de vocês dois.
─Ela era a melhor amiga da Lilia, Adam. – me defendo.
─Lilia se foi, Alexei. – ele diz e imediatamente me calo.
─Pra mim não. – digo depois de um tempo.
─Uma hora você vai ter que superar isso Alexei... Já passou um ano.
─Isso mesmo Adam, só passou um ano.
Ele fica em silencio por alguns segundos. Adam não é tão retraído quanto eu, mas há momentos que ele não sabe lidar comigo, e das vezes que consegue é porque eu deixo, mas ultimamente não consigo ligar comigo mesmo, estou me suportando tanto ultimamente que não sou capaz de medir palavras com ninguém. Então é melhor poupa-lo do martírio de tentar me animar ou conversar sobre isso de novo, embora ele já tenha tentado diversas vezes.
─Preciso desligar. – digo logo.
─Vai me evitar de novo?
─Não estou.
─Fala comigo Alexei. – fico em silencio.
Adam é tão bom amigo, não falamos muito sobre isso, mas nossa amizade vale muito pra ambos, sei que ele se sente mal por mim, sei que está tentando me ajudar, o que ele não sabe é que estou tentando fazer o mesmo por mim mesmo, mas tenho falhado miseravelmente em todas às vezes, gostaria de ter sensibilidade pra dizer que não é culpa dele, não é ele que falha, sou eu.
─Se não falar eu acho um jeito de te arranjar outro terapeuta aí pelo Japão. – ele brinca.
─Olha Adam, eu...
─Hyoga. – ouço uma voz atrás de mim, é o Shun.
─Ah, oi Shun. – digo sorrindo, finalmente ele apareceu.
─Shun? Quem é? Quem é? – Adam diz animado. ─É uma garota?
─Hã? Não, não. – digo voltando a falar com ele. ─É um amigo.
─Shun não é nome de mulher?
─AmigO. É claro que é nome de homem.
─Tem certeza? A voz soou fina, verifica lá em baixo que...
─Escuta Adam, nos falamos depois tá.
─Mas...
─Depois. Tchau! – digo e desligo rapidamente, se eu deixar ele enche o saco a noite toda.
.
Procurei por toda parte, mas enfim eu avistei o Hyoga sentado num dos bancos do jardim da mansão com o Miguel dormindo com a cabecinha em seu ombro enquanto ele falava distraído no celular.
─É, eu... eu não tenho retornado as ligações dela ultimamente... – ela? Ela quem? ─Não estou. É que... nosso ultimo encontro não foi dos melhores... –encontro? ─Ela era a melhor amiga da Lilia, Adam. – ele diz um pouco exaltado, com quem será que está falando? ─Pra mim não. – ele diz depois de um tempo, parecia triste...─Isso mesmo Adam, só passou um ano... Preciso desligar... Não estou... Olha Adam, eu...
─Oi Hyoga. — digo logo, ele parece surpreso em me ver.
─Ah, oi Shun. — diz sorrindo enquanto afasta o celular do ouvido.
─Hã? Não, não. — diz voltando a falar no celular. ─É um amigo... AmigO. É claro que é nome de homem... Escuta Adam, nos falamos depois tá... Depois. Tchau! — diz e desliga rapidamente.
─Quem era? — digo sorrindo.
─Um amigo. — ele diz um pouco vermelho.
─Ele parecia insistente.
─Ele é. -diz sorrindo. ─Sinto muita falta dele.
─Ah... Ele é da Rússia também?
─É. Você sabe né? Entendeu tudo.
─Hã?
─Você já entende quando eu falo em russo. – ele diz rindo.
─Ah. Então você sabia? – digo incrédulo.
Ele riu.
─É claro, faz tempo.
─Como?
─Você faz as expressões exatas do que eu falo.
─Ah... – ele me enganou direitinho nem percebi que ele prestava atenção nas minha expressões. ─Aprendi com o tempo, afinal, meu melhor amigo fala russo né.
Ele me olhou sorrindo.
─E o meu fala japonês.
Hyoga, sempre me surpreendendo.
Sento ao lado dele no banco.
─Miguel parece bastante cansado.
─É, ele ficou na maior correria com os gêmeos.
─Imagino... Pensei que não daria mais tempo de nos vemos.
─Daria, eu estava te esperando.
─Estava?
─Sim, não iria embora sem te ver né.
Sorrio envergonhado baixando o olhar.
─Será que eu posso. — digo apontando pro Miguel.
─Ah, sim claro. — diz passando cuidadosamente o Miguel pra mim.
Com ele já no meu colo fico acariciando aquela face de bebê.
─Nunca me canso de olhar pra ele. — digo sorrindo ternamente.
─Você daria um ótimo pai, Shun.
Só aí eu percebo o Hyoga me olhando atentamente.
─Acha mesmo?
─Com certeza.
Miguel se remexeu um pouco no meu colo e foi abrindo os olhinhos.
─Shu. — diz animado quando me vê.
─Oi Mick. — digo colocando ele sentado no meu colo e ele me abraça.
Despois de um tempo ele vai adormecendo de novo, então eu o devolvo pro Hyoga.
─A chuva deu uma trégua agora. -digo.
─É. – ele diz olhando pras estrelas enquanto aninha o Miguel.
─O que você achou das entrevistas Shun? Gostou de alguma?
─Não sei, acho que a ultima, talvez, depois eu te passo as gravações e você vê por si só.
─É, conversei com Shiryu e a Shunrei a respeito daquela garota, mas ainda estou pensando.
─Hum.
Passou-se um tempo em silencio, apenas observávamos a noite.
─Sabe Shun, eu andei pensando... – ele deu uma pausa, parecia pensar cuidadosamente no que ia falar. ─Essa semana foi ótima, foi muito bom ter você por perto. – eu o olhei e ele estava vermelho olhando as estrelas.
─Eh, pra mim também, adorei ficar com o Miguel e com você. – vi ele sorrir.
─Então... Er, se... Quem sabe, se você quiser... Bom, você me disse que anda tão solitário não é? – ele estava inquieto, massageava o pescoço, se mexia o tempo todo, olhava para os lados, o que há com ele?
─Sim, boa parte do tempo, quando não me distraio com o trabalho.
─É, faço isso também... Então... Umm... err... Você, já que você gostou de ficar conosco, poderia ficar por mais tempo. – ele é tão fofo quando fica envergonhado. Sorrio vendo-o assim.
─Hã? – ele está me convidando a ficar com eles? Alguém me belisque, por favor.
─É que... Bom, Miguel se apegou muito a você, seria ruim que essa aproximação quebrasse assim tão rápido.
─Acho que sim... mas o que está sugerindo exatamente?
─É que, bem... quem sabe, se você aceitar, poderia ficar morando conosco. – ele está muito vermelho e não me olha nos olhos. Que clima é esse? Porque me sinto estranho?
─Morando? Mas e a babá?
─Contrataria do mesmo jeito, assim você teria mais tempo livre pro seu livro, mas estaria sempre presente. É sua companhia que quero pro Miguel e... E pra mim... Só que você concordar é claro.
─Ah, isso... isso foi bem inesperado. – digo surpreso, não imaginei que ele faria um convite desses, principalmente por causa do episodio constrangedor de hoje de manhã, achei que ele se sentisse inseguro comigo por perto.
─Er... Se você não quiser não tem problema, só estou dizendo que gostei de ter você ao meu lado. – ele diz rápido. Acho que dizer tudo isso está sendo bem embaraçoso pra ele.
─Isso é um tanto repentino Hyoga, eu adorei ficar com vocês esse periodo, mas essa é uma decisão importante pra se tomar assim tão depressa. — eu queria aceitar, zeus sabe o quanto eu quero, mas eu pensei bastante no que o Ikki disse, não posso esperar nada do Hyoga, ele está sendo gentil, como sempre, ele não me quer por perto da mesma forma, não temos um relacionamento romantico, não temos intimidade, e assim como o Ikki disse ele não vai gostar de mim apenas por estar convivendo comigo, não devo alimentar esperanças, além do mais passar mais tempo com eles só prejudicaria a mim, já que está cada vez mais sufocante ficar perto deles, mesmo que eu aprecie cuidar do Miguel.
─Tudo bem, não precisa responder agora, mas gostaria que você pensasse a respeito. – ele pareceu desanimar.
─Tá, vou pensar. Prometo. — digo fazendo o mesmo gesto peculiar dele fazendo-o sorrir.
Voltamos a olhar as estrelas pouco encobertas pelas nuvens.
─É muito bom relaxar um pouco. — ele diz do nada.
─Você precisa né. — digo e o vejo baixar o olhar.
Olha pra ele e pro Miguel encolhido em seus braços, gostaria de ter uma camera agora pra registrar esse momento.
Aproximei-me mais dele com o pretexto de acariciar a Miguel adormecido, mas o Hyoga não se importou.
─Como foi a reunião? – ele pergunta.
─Foi chata. – ele ri.
─Ah, eu até me esqueci de perguntar, como foi ontem na boate com o Millo?
─Chato.
Acabo rindo também.
─Ele me deu o maior trabalho. – ele comenta.
─É o Millo né.
─Junstamente por isso. – ele diz e acabamos rindo juntos.
A noite estava otima, novamente estamos juntos, gostaria de ficar ali pra sempre, mas o momento se desfaz quando ouvimos uma voz vinda de trás de nós.
─Senhor Shun. – era o Ichiro se aproximando.
Ele parecia animado da conversa que teve com o Shiryu que acho que se cansou dele, pedi que distraisse o Ichiro o máximo possivel, e até que conseguiu por bastante tempo.
Eu e Hyoga nos levantamos quando ele se aproximou.
─Ah sim, Ichiro esse é o Yukida Alexei, meu amigo. E Hyoga esse é meu assistente Yamato Ichiro. – digo os apresentando.
─Oi. – Hyoga disse sério, estranho ele parecia mais tranquilo ainda a pouco.
─Oi. – Ichiro diz ficando sério também.
Ficaram de frente, era estranho coloca-los no mesmo campo de visão, Ichiro parecia mais velho, embora fosse o contrario, e também um pouco mais alto que o Hyoga, desse jeito o Hyoga pareceu mesmo só um garoto, sorrio só de ver. Pareciam bastante incompativeis.
.
Esse tal Ichiro era um sujeito que parecia ter por volta de uns vinte e cinco anos, era mais alto que eu, de cabelos negros e olhos azuis escuros, era sério, mas não parecia um japones, lembrava mais um daqueles ingleses metidos que tomam chazinho fraco as três da tarde com bolinhos enfeitados, ou um daqueles caras de filmes de ação que faz papel de segurança e morre já no começo, um figurante. Não sei por que, mas não gostei mesmo dele.
─E esse bebê lindo é o filho dele, é o Miguel. – Shun diz animado ainda nos apresentando.
─Eh, seu filho. – ele diz me olhando indiferente.
─É, meu filho. – sei quando estou soando como uma geleira, e é isso mesmo que quero demostrar agora.
─Se parecem. – grande observação, acho que ele merece um premio. ─Você é japonês? – ele perguntou me olhando por inteiro, estranhando meu nome Yukida já que eu não me pareço nada com um japonês.
─Não, sou descendente. – digo sério. ─E você é ingles? – pergunto mesmo sem me importar. Odeio ter que inclinar o olhar pra falar com alguem, mas infelismente esse inepto é mais alto que eu.
─Não, meu avô era.
─Hum. – pronto, essa informação mudou minha vida.
Acho que estou sendo sarcastico demais, tenho que parar com isso. Ele não pareceu gostar de mim também, e quem disse que eu ligo.
─E como foi conversar com o Shiryu, Ichiro. – Shun diz logo, acho que ele percebeu alguma hostilidade no ar.
─Bom, a conversa com o senhor Nigihayami foi ótima, ele é mesmo incrível como eu imaginei. – ele diz sorrindo animado pro Shun, incrível como a criatura pode mudar de humor tão rápido.
─Que bom que gostou de conhecê-lo, Shiryu é mesmo incrível. – Shun disse sorrindo.
─Ele disse que posso fazer uma visita a fundação, disse que o senhor pode marcar pra mim. – ele sorri feito um tolo quando fala com o Shun.
─Bem, posso cuidar disso sim. – Shun diz sorrindo.
─Eu vou indo Shun, já é tarde, Miguel já está cansado. – interrompo, pra não ficar mais tempo com esse sujeito por mais que eu goste da companhia do Shun.
─Mas já? – ele diz olhando a hora. ─São dez horas, eu ia levar Ichiro em casa e voltar com você. – ele comenta.
─Voltar comigo?
─Sim, eu disse que ia te dar as gravações e ainda algumas sugestões das entrevistas.
─Ah. Entendo... – sorrio, achei que ele nem ia mais voltar comigo. ─Bom, você vai demorar?
─Não, não. Ichiro mora em Shinjuku, é perto né Ichiro.
─É que... bom, eu queria ficar mais um pouco. – o assistente intrometido diz, obviamente achava que ficaria a noite toda na companhia do Shun.
─Deixe-o ficar então Shun, ele pega um taxi. – digo com um sorriso sarcástico direcionado pra Shun e esse rapaz. Estou sendo completamente infantil, eu sei, acho até que se eu estivesse no lugar desse sujeito iria querer me socar, afinal sou eu que estou arrumando sarna pra me coçar.
Porque estou agindo assim e porque não consigo evitar? O que há comigo?
Ele fez uma expressão emburrada depois do que eu disse.
─Sou responsavel pelo Ichiro, Hyoga. Comprometi-me então tenho que leva-lo até a porta de casa. – Shun diz sendo gentil como sempre, adoro esse jeito dele, mas na situação atual não gosto nenhum pouco, e esse inepto do assistente dele ainda provoca, ele arqueia uma sombrançelha com um sorriso ironico quando me olha. Definitivamente ele tá procurando treta também.
─Então não vai dar pra esperar. – digo enquanto volto a acariciar as costas do Miguel que ficou um pouco inquieto.
─É uma pena. – Shun diz parecendo desanimado. ─Então eu posso er... ir depois? – ele diz um pouco vermelho.
─É claro, você é sempre bem vindo. – digo sorrindo.
─Tá bom. – ele diz mais animado. ─Nos vemos mais tarde então, você não vai dormir cedo vai?
─Não se preocupe, vou espera-lo, mas qualquer coisa você tem a cópia da chave né?
─Ah, é mesmo.
─Então eu já vou me despedir de todos. Tchau Shun, e... – digo fingindo não lembrar o nome do subalterno.
─Ichiro. – o assistente inepto completa num tom aborrecido.
─É, isso aí mesmo. – digo sorrindo irônico com ar vitorioso. Estou sendo ridículo eu sei.
Volto pro salão pra me despedir do pessoal.
.
O que deu no Hyoga agora? Ele agiu de um jeito estranho, ele e o Ichiro. Pareciam que estavam se desafiando, estranho, achei que eles iam se dar bem.
─Vamos voltar pro salão também senhor Shun? – Ichiro diz mais animado quando o Hyoga saiu.
─Hã? Ah sim. – digo distraído enquanto pensava no Hyoga.
─Só vamos ficar mais um pouco viu Ichiro, depois vou te levar pra casa. – o advirto.
─Tá bom... o senhor vai pra casa desse seu amigo depois?
─Sim, por quê?
─Nada não.
─O que achou dele? – pergunto tentando entender porque eles agiram daquela forma.
─Bom... – parecia relutante.
─Pode falar Ichiro.
─Ele é... legal. – diz não parecendo muito convincente.
─Você está usando antífrase. – digo desconfiado.
─É, quase isso. – ele diz rindo, é eu sabia.
─Vocês foram bastante frios um com o outro, o Hyoga não é assim, não tanto, desculpe por ele.
─Tudo bem, eu também fui não é?
─Por quê?
─Bem, er... nada em especial. – disse vermelho. ─Ele é mais jovem do que imaginei. – ele comenta mudando de assunto rapidamente.
─Ele é mais velho que nós dois. – digo e rio da expressão de surpresa dele.
─O que ele faz?
─Ele é médico.
─Ooww. – diz surpreso.
─É.
.
Ficamos só mais um pouco, então eu levei Ichiro em casa e voltei pra casa, quando cheguei vi o Hyoga cochilando no sofá, me esperando.
Estava de óculos com meu livro sobre si, parecia cansado. Chego perto afastando seus cabelos, poderia ficar aqui o observando a noite toda.
Hyoga é tão moe quando está assim, adorável.
─Hyoga. – o chamo.
Ele vai acordando, abrindo aquelas lindas janelas azuis.
─Oi Shun. – diz sorrindo encantadoramente quando me vê, todos meus músculos se contraem e meu coração sempre bate mais rápido quando o olho assim tão natural, porque não consigo controlar meu corpo quando estou perto dele?
─Melhor você ir pra sua cama. – sugiro.
─Mas...
─Você está cansado. – digo logo. ─Amanhã conversamos melhor sobre as entrevistas, é domingo.
─É, tem razão. – diz enquanto levanta. ─Que horas são?
─Onze e meia. – ele boceja, acho que se ele dormir mesmo tudo que precisa acabaria entrando em coma.
─Desculpe, eu deitei aqui pra ler e acabei cochilando – ele diz enquanto massageia os olhos.
─Eu já tô com sono também, já vou dormir. – digo enquanto me alongo, nem sei por que estou tão cansado.
Percebo-o me olhando atentamente e sorrindo.
─Que foi?
─Nada... bom, boa noite Shun.
─Boa noite Hyoga. – boa noite meu amor.
................................................................................................................
Acordei umas nove e meia, dormi tarde ontem, tinha tantas coisas na cabeça. Pensei seriamente na proposta do Hyoga e acabei dormindo pelo cansaço sem decidir nada ainda.
Hyoga estava na sala com o Miguel e o ajudava a montar uma construção de legos e bonecos.
─Bom dia. – digo.
─Shu cordou. – Miguel diz animado.
─Bom dia Shun.
─Porque não me acordou? – pergunto confuso por ele não ter me enchido o saco pra levantar como sempre.
─Achei que devia te dar um descanso. – ele diz sorrindo. ─Melhor você ir tomar um banho pra controlar esse seu cabelo. – diz rindo olhando pra mim, não estou com meu melhor penteado.
─Eles têm vontade própria. – digo rindo também. ─Já tomaram café?
─Já.
─Oh não! Foi você que preparou?
─Pode me zoar o quanto quiser, mas você tem que admitir que o meu mingau é o melhor.
─Deve ser a única coisa que você sabe fazer, mas não quero comer isso, deixei de ser criança faz tempo, mas mesmo assim não quero ter nenhuma intoxicação alimentar assim tão cedo.
─Hunf, não se preocupe, eu fui à padaria.
─Hoje o café tá gostoso Shu. – Miguel disse satisfeito.
─Então quer dizer que os outros dias que eu faço o café é ruim Miguel? – Hyoga pergunta ao filho.
─É ruim si. – diz inocentemente sem pestanejar.
─hahahaha. Menino esperto. – digo rindo.
─Hunf. Pelo menos eu tento.
─É, pelo menos né Hyoga... bom, vou tomar uma banho e aí podemos falar das entrevistas.
─Tá.
Quando voltei pra tomar café percebi que estava com muita fome, acho que poderia até comer a comida do Hyoga se ele fizesse.
Entrego o gravador ao Hyoga e ouvimos juntos enquanto eu tomo café. Hyoga está com a pasta com os currículos e vai fazendo anotações enquanto ouve cada garota correspondente.
─Essa Takada parece ser uma boa opção. – ele comenta enquanto ouve a gravação.
─Espera um pouco. – digo com a boca cheia de bolo pra indicar que a parte ruim da gravação já estava chegando.
‘─O senhor é muito bonito senhor Shun, o senhor Yukida também é? Aceitaria sair comigo qualquer dia desses? Poderia ser nós três?’ – é a parte da conversa gravada, Hyoga só riu quando ouviu.
─Descartada. – ele diz ainda rindo e colocando o currículo de lado.
─Kuwagima... tem experiência. – ele diz olhando o currículo antes de iniciar a gravação.
─É um homem. – digo logo.
─Homem? – diz surpreso.
─Sim, e é quase um armário.
─Descartado. – ele diz logo.
Próximo.
─Misa Amane. – ele diz. Essa é bonita demais, mas não posso dizer isso a ele. ─Tem experiência.
─Ela é vulgar. –digo logo já que não tenho outra desculpa, acho que estou sendo um completo idiota, mas minha consciência não pesa tanto porque o Miguel a viu e a detestou mais que tudo.
Próxima. E assim seguiu, umas tinham cara de má demais, outras eram tímidas demais, outras atiradas demais. Boa parte já tinha sido descartada, mas juro que nem todas fui eu que dispensei, tá bom, fui eu sim, mas nem sempre foi por motivos tolos.
A ultima era a Mayuri, ela era esquisita, mas já que foi o Shiryu que recomendou então analisamos o caso com carinho.
─Ela parece ideal. – Hyoga comenta.
─Tem certeza? Não quer revisar as outras?
─Bom... – diz olhando rápido alguns currículos. ─Acho que não vai ser necessário. Como é essa Mayuri?
─Ela estava em um estilo meio roqueiro, meio desarrumada e ainda por cima chegou meia hora atrasada.
─Oh.
─Mas parecia simpática e pelo que vi é bastante esforçada. Ela faz enfermagem.
─É, bem útil também... Hum. – estava indeciso. ─Miguel a viu?
─Sim, ficou emburrado com ela.
─Como esperado... Bem, vou conversar melhor com o Shiryu sobre ela.
─Quando?
─Hoje, não te falei? O Shiryu nos convidou pra passar o dia na casa dele.
─Sério?
─Sim, ele chamou o Seiya e a Saori também, mas eles não vão poder, e o Ikki deve ter dito pra você também que estaria com o Shaka hoje, então somos só nós.
─Ah, então vamos, o Miguel vai adorar. – digo animado, vai ser otimo passar mais esse tempo de lazer com eles.
Ainda não decidi nada sobre a proposta do Hyoga, e ele nem tocou no assunto pra não me pressionar, mas estou bastante indeciso, não por não querer, mas sim por eu saber o que é o certo a se fazer.
Hyoga preparou tudo e fomos pra casa do Shiryu, passamos no mercado também pra comprar algumas coisas pro almoço. Sorte que hoje o dia está ensolarado. Miguel era só animação.
A casa de Shiryu era bem grande, acho que eles já planejavam aumentar a familia. Com um quintal cheio de brinquedos pros meninos, e até uma picina no fundo.
Assim que chegamos já vimos o Shiryu no quintal com os filhos. Então logo eles vieram ao nosso encontro.
─Tio Shi. — Miguel disse sorridente e foi de encontro ao Shiryu quando descemos do carro.
─Oi Miguel. – Shiryu disse pegando o Miguel no colo que ficou todo animado. ─Vamos entrando Hyoga. Anda Shun.
─Oi Shiryu. – dissemos juntos.
─Tio Hyo, Mick... Tio Shun. — disseram Isao e Akira quando vieram correndo pra nós.
Chegaram perto e o Hyoga pegou cada um no colo.
─Oi meninos. — disse sorrindo enquanto eles o abraçavam pelo pescoço.
─Não sabia que eles gostavam tanto de você. — eu disse olhando aquela cena.
─Tá por fora Shun, eles ficavam todos animados quando íamos visitar o Hyoga. — disse Shunrei vindo de dentro da casa também.
─E é reciproco. -Hyoga disse sorrindo e voltando a dece-los.
─Oi Shunrei. – digo a cumprimentando.
─Oi gente, vamos entrar. — disse nos chamando.
─Vamos pra picina. – disse Isao.
─Nada de bagunça viram. –Shiryu disse pros filhos.
─Vamos ficar só lá atrás pai. –disse Isao.
─Acho bom, já que sua mãe me forçou a arrumar as bagunças de vocês aqui fora. – disse suspirando.
─Para de reclamar Shiryu. – disse Shunrei entrando de novo.
─Ouviu a mulher Shyriu. – Hyoga disse rindo.
─Hunf.
─Vem Mick. — disse Akira convidando o Miguel.
─Vai ser legal. — disse Isao.
─Vamos brincar. -disse Akira.
─De quem pula mais alto na agua. -disse Isao.
─E quem ganhar. -disse Akira.
─Escolhe a próxima brincadeira. — disse Isao.
Era curioso o modo como completavam a frase um do outro, será que eles combinam isso?
─O tio Hyoga deixa, né tio? — disse Akira.
─Posso papa? — Miguel disse animado.
─Sim claro, mas só depois de eu te trocar. – Hyoga disse e o Shiryu o colocou no chão.
─Vamos. — disse Isao puxando Miguel e foram correndo pra dentro de casa.
Fomos todos pra dentro onde já dava pra sentir o cheiro da comida da Shunrei.
─Huum. Que cheiro gostoso. -eu disse.
─Shunrei está preparando sukiyaki. – disse Shiryu.
─Pelo cheiro já tô vendo que tá uma delicia. – digo quando entramos na cozinha e vemos a Shunrei preparando a comida e eu coloco as coisas que compramos em cima da mesa, estou familiarizado com esse ambiente, sempre vim visita-los.
─Trouxeram roupa de banho? -Shiryu disse.
─Sim.
─Então pode trocar o Miguel, Hyoga, pra eles brincarem na piscina.
─Miguel sabe nadar mesmo? — eu disse preocupado.
─É claro, acha mesmo que filho meu não saberia nadar Shun? — Hyoga disse rindo.
─Uii metido. — eu disse e o Hyoga só riu.
─Vou trocar o Miguel então. Cadê ele? -Hyoga disse.
─Foram lá pra fora. — Shiryu disse e ele e o Hyoga foram procurar.
Fiquei na cozinha com a Shunrei.
─E aí, deu tudo certo aquele dia Shun? — ela disse enquanto cortava alguns legumes.
─Deu sim, Miguel dormiu a tarde toda, mas quando acordou já estava bem melhor, obrigado Shunrei, me ajudou muito.
─Por nada. Você disse isso ao Hyoga?
─Ele soube pelo Miguel.
─Rsrsrsrs. Te entregou heim. Ele se aborreceu?
─Na verdade não. — digo lembrando. ─Ficou tranquilo quando eu disse que pedi ajuda a você.
─Porque sou mãe.
─É, e enfermeira.
─Sabia que a Lilia e o Hyoga me ajudaram bastante quando decidi fazer enfermagem?
─É mesmo?
─Sim, eu vivia ligando pra eles quando tinha duvidas. Nessa época eles já estavam no segundo ano de faculdade, mas já ajudava bastante.
─Hum... – parece que teve mais de nós que conheceram a Lilia. ─Como ela era?
─Ah, ela era um amor. Me lembrava muito a Saori, era carinhosa, uma ótima mãe, e cozinhava muito bem também.
─Ela parece perfeita.
─Era uma boa amiga. – ela diz triste. ─Você passou a semana inteira com o Hyoga né? Como ele está?
─Triste, mas disfarça bem.
Ela suspira.
─Tadinho. Shiryu me disse que ele teve até que ir a um psicologo. – ela comenta.
─Sério? – digo surpreso.
─Parece que os amigos dele lá na Russia estavam muito preocupados com ele, então armaram pra leva-lo a força. Você não tem ideia de como ele estava, achei até que ele ia... você sabe, sucumbir.
─Céus, estava tão mal assim?
─E como, até que hoje ele está bem melhor, não o vejo tão bem faz tempo, acho que isso é influencia sua. – ela diz sorrindo.
─Eu? Duvido muito.
─Não se subestime Shun. – ela diz rindo.
─Já falei pra não pular em cima das roseira Isao. – dizia Shiryu vindo com os meninos.
─Ah, não acredito não que vocês estão brincando de novo perto das minhas plantas. – Shunrei disse aborrecida também.
Hyoga veio pra dentro com o Miguel.
─Peguei ele antes de entrar no meio das flores também. – Hyoga disse rindo.
─Tudo isso por causa de umas flores? – digo enquanto Shiryu e Shunrei diciplinam os filhos lá fora perto das tais roseiras.
─Você não imagina o quanto as flores são importantes pra esposa Shun. – ele disse sorrindo.
Fico o olhando enquanto ele vai pro quarto com o Miguel pra troca-lo.
O que mais eu não sei sobre você Hyoga? Quanto mais vou saber por terceiros sobre sua vida? Quando você vai confiar em mim?
...
Miguel foi brincar com os meninos. Eu ajudei a Shunrei com o almoço, e Shiryu e o Hyoga ajudaram um pouco, mas quando viram a oportunidade fugiram e foram lá pra fora conversar, malandros.
Hyoga parece tão mais espontaneo quando está com o Shiryu, na verdade é com a maioria de nossos amigos, porque ele não conversa assim comigo? Porque sinto que estou tão proximo dele, mas tem alguns momentos que sou tão distante dele?
Almoçamos e ficamos a tarde descansando perto da picina. O Hyoga fresco como é não entrou logo na picina conosco, disse que estava quente demais pra entrar, e só entrou depois de esfriar a agua. Ficou brincando com o Miguel na agua.
Olhei pra eles brincando. São tão lindos, tão sublimes, tão perfeitos... E tão fora do meu alcance.
Ikki tem razão, não posso mais continuar com isso. Tenho que me afastar enquanto ainda posso, se é que posso.
Desculpe Hyoga, falhei com você e com o Miguel, eu achei que podia entrar em suas vidas sem qualquer problema, mas houve um, eu mesmo. Não posso me envolver em uma familia e já querer tomar posse de um amor que não me pertence. Eu não sou o companheiro do Hyoga, não sou o pai do Miguel. Sou apenas o cara que se aproximou pra propor uma gentileza ao amigo e acabou por se envolver demais, mas ainda assim pode vislumbrar um pouco do que é ter uma familia.
Sei que vou sofrer, mas prefiro me afastar do que causar mais sofrimentos pra eles, já tomei minha decisão.
...
Já era o entardecer. Os meninos brincaram bastante, lancharam e até dormiram uma hora. Agora estavam apenas brincando mais quietos perto da picina.
Eu o Hyoga e o Shiryu conversavamos nas cadeiras perto dos garotos. Sobre o passado, sobre alguns acontecimentos recentes, sobre nós mesmo, sobre tudo.
Shunrei chamou o Shiryu pra ajuda-la com o jantar, então ficamos eu e o Hyoga vendo o por do sol em silencio.
─Isso é muito relaxante. — comento sério.
─Anram.
─Hyoga.
─Hum.
─Eu pensei a respeito da sua proposta. — digo tomando logo aquele assunto na conversa.
Ele ficou sério me olhando, esperando que eu continuasse.
─Em primeiro lugar, estou grato por você me fazer esse convite, sei que você pensa bastante antes de tomar qualquer decisão. Segundo que independente da minha decisão, saiba que eu pensei bastante a respeito, e o que eu decidi acho ser o melhor a se fazer.
Ele consente atento a tudo e em expectativa.
Fico meio relutante em dizer minha decisão, sei que esse é o marco pro meu fim, mas não posso mais lidar com isso.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!─E então? — ele pergunta ansioso.
─Minha resposta é não. — digo por fim.
Ele ficou surpreso, abriu a boca pra dizer alguma coisa, mas pareceu desistir do que ia falar, baixou o olhar e consentiu.
─Tudo bem. – disse assentindo.
─Desculpe Hyoga, tenho meus motivos, mas lamento não poder dizer-lhe, sei o que estou fazendo e...
─Tudo bem Shun. — ele diz sorrindo voltando a me olhar. ─Não precisa se explicar, nunca quis te colocar em uma situação complicada... Não posso negar que estou triste, mas tudo bem posso lidar com isso.
Céus, quero tanto dizer que queria ficar, e ele ainda fica fazendo esse olhar de cachorrinho sem dono. Droga, isso tá cada vez mais difícil, mas eu sei que o pior está por vir, mesmo que eu não tenha admitido pro Ikki eu estou sim apegado demais com eles e meu martírio está apenas começando, não sei mais se posso ficar sem eles.
A noite seguiu calma, mas o clima entre mim e o Hyoga era diferente. Acho que ele deve estar pensando seriamente que o motivo de eu não ter aceitado morar com eles é que ele fez alguma coisa errada, e deve estar tentando lembrar o que foi. Idiota, sempre interpretando errado.
Jantamos e conversamos mais com Shiryu e a Shunrei. Foi ótimo passar esse ultimo dia juntos, sem duvidas foi um dia maravilhoso, rimos muito, brincamos, nos divertimos. Estou tão triste por estar acabando.
Mais tarde voltamos pro apartamento deles, mas eu não ia subir com eles, minhas coisas já estão no meu carro. Acabou.
─Então... Acho que é isso. – Hyoga diz sem jeito enquanto me segue com o Miguel quando vou pro meu carro.
─É... é uma pena. – digo sincero. ─Você já escolheu a babá?
─Sim, vai ser a Mayuri. Shiryu me convenceu.
─Ah. – admito que a escolha mais plausivel mesmo. ─Posso? – digo apontando pro Miguel que novamente está adormecido nos braços dele, quero segura-lo uma ultima vez, de algum modo acho que é melhor ele estar adormecido mesmo, não sei se suportaria o choro dele me vendo ir, gosto tanto desse garoto.
─Claro. – ele me passa o Miguel e eu abraço com grande carinho esse lindo garoto. Está me doendo tanto deixar ele. Fico um tempo assim com ele, tenho que segurar essas malditas lagrimas que prometi a mim mesmo que ia conter.
─Obrigado por tudo Shun. – Hyoga diz sorrindo ternamente quando devolvo o Miguel pra ele.
─Eu e que agradeço... Nos vemos no sábado então? – digo relutante em entrar no meu carro. ─Na reunião de cavaleiros? — eu não queria ir, não quero.
─Sim, claro. – ele diz sorrindo.
─Então... – digo baixando o olhar.
─Isso não é um adeus, nos veremos em breve né. – ele diz sorrindo.
─É claro. – digo o abraçando de repente.
Provavelmente ele ficou surpreso, mas retribuiu na mesma hora.
Ficamos um tempo assim, sinto o cheiro dele, a pele do rosto perto do meu, do corpo quente. Abraço o Miguel junto. O que poderia ser minha familia, mas não é, e nunca vai ser.
─Tchau Hyoga. – digo dando um beijo na bacecinha do Miguel.
─Tchau – ele se separa de mim e surpreendentemente deposita um beijo demorado na minha bochecha. O que foi isso?
O olho surpreso e ele apenas sorri.
Suspiro, não foi nada demais. Entro no carro e dou um ultimo aceno pra ele. Sinto como se estivesse me despedindo deles pra sempre, sinto novamente o peso em meu peito quando o vi partir no aeroporto alguns anos atrás.
Vejo a distancia entre nós aumentar conforme verifico pelo retrovisor, não aguento mais segurar minhas lágrimas que agora já caem sem parar.
Sem duvidas estou realmente apaixonado.
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