Destino
11 Desencontros
Notas iniciais
Estou no quarto da Lilia no hospital, tentando descansar um pouco em uma cadeira. Miguel está no meu colo dormindo feito uma pedra.
Ela estava na cama de seu quarto exclusivo no hospital, quem diria que até pra adoecer temos o privilegio de uma área vip, se bem que ela merece. Ela sempre se dedicou bastante a sua carreira como oncologista desse hospital, então ela merece todas as atenções e privilégios possíveis.
─HYOGA! — Lilia acordou bruscamente aos prantos de novo.
─Calma Lilia! Estou aqui. — digo indo até ela mesmo com o Miguel em meus braços, e a abraçando um tanto desajeitadamente.
─Eu vou morrer Hyoga. — dizia aos soluços.
─Não, não vai morrer. Foi só um pesadelo. Está tudo bem agora. – tento acalma-la. Por sorte Miguel não acordou.
─Eu não quero ir, é terrível, ninguém me via, era tão frio e escuro, e eu estava sozinha. – ela diz apavorada. Sei bem o que ela quer dizer, já vi o Meikai também, já tive essas sensações.
─Está aqui agora, eu estou aqui com você.
Ela chorava ainda mais.
─Não me deixa Hyoga, nunca. – diz me apertando ainda mais, apesar de ela estar fraca.
─Não vou. — digo a apertando contra mim. ─Pronto, pronto. Está tudo bem, tudo bem meu amor.
Ela não conseguiu mais dormir depois daquilo então...
─...Meu estomago estava embrulhado com o horror de tudo aquilo. Não conseguia acreditar que estava na casa de meus pais, em Dublin, e não em meu apartamento em Londres, com meu marido. – leio em voz alta enquanto ela me ouve atentamente.
Eu estava lendo para Lilia um de seus livros preferidos. Miguel estava adormecido em meus braços apoiado com uma almofada.
─Esse livro é dramático demais, Lilia, que droga de marido é esse que abandona a esposa assim que ela tem a filha dos dois? – digo parando de ler e a olhando.
─Pode parecer difícil, mas isso acontece com mais frequência do que imaginamos. – ela diz dando de ombros, a olho, ela parece tão fraca, tão indefesa.
─Essa Marian Keyes escreve coisas muito depressivas, não sei por que você gosta tanto desses escritores irlandeses. – comento.
─É interessante, aquele outro livro dela “Férias!” também é muito bom. Os livros dela exploram o universo feminino com muito humor e leveza. Seus temas levam a tona muitos assuntos delicados, tais como luto, depressão pós-parto e violência doméstica. As personagens criadas pela escritora possuem perfis realistas, que permitem com que o leitor se identifique com a trajetória de vida narrada. – ela comenta.
─E você se identifica mesmo com tudo isso? – digo um tanto magoado, estou me esforçando tanto, é como se ela dissesse que de certa forma tudo que ela passa tem um toque de responsabilidade minha.
─Não foi o que eu quis dizer Hyoga, eu apenas gosto dos livros dela, o jeito que ela lida com situações difíceis de forma humorística. – ela tenta consertar.
Fico quieto, ela não me convenceu.
─Eu não sou um bom marido, Lilia?
─Não! Quer dizer, sim. Não foi o que eu quis dizer Hyoga, você é um excelente marido, eu não podia desejar algo melhor. – ela diz rápido. ─Ora, não me coloque numa situação complicada Hyoga, por favor. – ela diz suspirando.
Fico quieto olhando pra um ponto qualquer do quarto, refletindo. Ela era infeliz, e eu não ajudava em nada, sou tão insignificante assim?
─Desculpe. – digo baixo.
─Pelo o que?
─Por não ajudar, por não poder fazer nada por você.
Ela me olha arrependida, ficamos num silencio tenso.
─Que horas são Hyoga? – ela pergunta do nada.
─Hã?
─As horas. – ela repete, fico confuso.
─Duas da madrugada. – digo olhando o relógio. ─Por quê?
─Isso mesmo Hyoga, você estava tentando dormir a alguns minutos, e agora está lendo pra mim só porque eu não conseguia dormir e te pedi pra me distrair.
─Sim, mas...
─E olha pra você, está cansado, trabalhou boa parte do dia, e na outra ficou ao meu lado o tempo todo, olhe pro nosso filho em seus braços, você cuidou dele o dia todo também. Por Deus Hyoga, o que mais eu posso desejar?
─Lilia, eu quis dizer que...
─Eu te amo. – ela diz séria. ─Te amo mais que tudo. Nada disse é culpa sua, você não fez nada de errado, decidiu ficar ao meu lado mesmo sabendo de todo sofrimento e cansaço que eu te faria passar, tem ideia de quantos fugiriam de mim se soubessem? E mesmo assim você está aqui, você é um em um milhão Hyoga. Não precisa se sentir inseguro com nada, porque sou eu que sou sortuda em ter você ao meu lado. Eu sou feliz só de saber que você vai estar aqui quando eu acordar. Eu te amo Hyoga. – ela finaliza com um doce sorriso.
Fico emocionado com as palavras dela, tenho que conter minhas lagrimas, nunca me permito demostrar fraqueza na frente dela, ela não precisa de mais esse martírio.
─... senti que devia estar fora de mim, pra ter saído de Londres e deixado James com outra mulher. Eu simplesmente o abandonara! Será que enlouquecera completamente?...- continuo lendo, e ela me ouvindo, não preciso dizer mais nada, não preciso chorar, não preciso lamentar, pois tudo que preciso está aqui, ao meu alcance. ─... Eu precisava muito mais dele. – continuo lendo. ─Amava-o muito mais. Simplesmente não podia viver sem ele. – suspiro, a olho e ela permanece sorrindo. ─Te amo muito mais, preciso de você muito mais. Não posso viver sem você. – digo olhando pro livro, mas não estou lendo.
─Isso não está escrito aí. – ela comenta sorrindo.
─É, não está. – digo e a olho sorrindo também.
E assim permanecemos, leio todas as noites pra ela, pra distrai-la, com o tempo ela adormece e só assim eu posso descansar também. Ainda somos uma família, nada mudou, e isso me deixa aliviado, mesmo em seu estado delicado ainda assim ela me consola. Obrigado por existir Lilia.
...
Tenho sentido algo diferente ultimamente, com relação ao Shun.
Ele recusou meu convite. Fiquei triste, pensei bastante antes de propor aquilo pra ele, e caramba, dizer tudo aquilo foi difícil demais pra mim, nunca fui muito bom com as palavras, eu já tinha minhas duvidas se ele ia aceitar, mas confesso que estava até esperançoso. Mesmo depois de todos os episódios embaraçosos que tivemos ainda assim eu o queria por perto.
Eu quis muito protestar depois dele recusar, quis mesmo, mas pensei melhor, ele disse que tinha seus motivos pra não aceitar, mas ele tava me enrolando que eu sei.
Era estranho, há momentos que não medimos palavras um com o outro, trocamos brincadeiras com nossos próprios defeitos e não nos importamos porque sabemos que não é uma ofensa nem nada do tipo, é como se fossemos irmãos. Mas há momentos que tomamos o maior cuidado pra que nossas palavras não sejam mal interpretadas, eu faço isso com mais frequência do que se pode imaginar.
Devo ter feito alguma coisa errada, provavelmente, que o chateou. E ele não quis ser indelicado e me dizer o que foi. Mas o que diabos eu fiz pra ele? Quanto mais penso, mais confuso fico. Droga! Não sou bom marido, nem pai, e nem amigo ao que parece. Que saco, não sou bom em nada que faço. O que tem de errado comigo?
Bem... de qualquer forma parece que a semana boa já passou, terei que continuar sem ele então. É triste, mas é o jeito. Como foi que ele disse mesmo?
‘─Eu não vou sumir Hyoga... Eu vou vir sempre visitar vocês, afinal vou querer ver sempre o Miguel. E você também Hyoga, não vou deixa-lo sumir de novo.’
Acho bom ele cumprir com a palavra dele, senão vou bater na porta dele exigindo uma explicação.
É segunda, já contatei Mayuri pra vir hoje, mas ela está atrasada. E pra piorar minha situação, Tomoe não cumpriu com sua parte no trato e me colocou pra trabalhar hoje. Dá pra piorar? Exigi folga ao menos pela manhã pra que eu pudesse supervisionar a garota e explicar tudo que fosse possível.
Miguel fez um escândalo quando descobriu que Shun tinha ido embora. Só parou de chorar pelo cansaço. Tive muita dificuldade pra acalma-lo.
Já são oito horas e nada da garota. Isso é bastante insultante, acho que tomei a decisão errada ao contrata-la, apesar de Shiryu ter me alertado sobre esse defeito de assiduidade dela, ao que parece a garota mora lá nos confins do Judas. Então o jeito é esperar.
Quando menos espero o interfone toca.
─Senhor Yukida.
─Sim, pode falar Uchida.
─Tem uma garota aqui em baixo, o nome dela é Ayuzawa Mayuri. Deixo subir?
─Sim, pode mandar subir. Obrigado Uchida.
Depois de alguns minutos ela chega e eu abro a porta pra ela. Uma garota com os cabelos tão ruivos quanto os de Camus, pude ver que ela era cheia de sardas que a faziam parecer uma garotinha, nem parece que tem vinte anos. Com saia xadrez e blusa preta com uma banda estampada que eu nunca tinha visto antes. Uma roqueira, é meio riponga, mas posso lidar com isso.
Só faltaram os pircings nos lábios e sobrancelhas, sorte dela não ter, senão eu ia incorporar aquele vilão do filme ‘o Justiceiro’ e arrancar aqueles trecos imaginários dela na base do alicate, nenhum tribunal me condenaria por colocar juízo na cabeça dessa garota. Tinha o cabelo preso por um rabo de cavalo e exibia um largo sorriso, é, tenho que admitir que ela é bem bonita. Shiryu disse que ela era um tanto diferente, mudava de estilo junto com as estações, é curioso, estamos no começo do verão, acho que ela devia pensar melhor e usar esse estilo rock roll só no inverno, só acho, mas não me importo com o que ela veste desde que cumpra seu trabalho direito. Estou até curioso pra saber o estilo dela na próxima estação.
─Bom dia... – diz animada, mas quando me viu melhor se calou de repente, que foi? Tem alguma coisa errada em mim?
─Bem vinda... Entre. –dou passagem, mas ela continua me olhando com uma cara surpresa.
─Que foi?
─Na-nada. – ela disse sem jeito e enfim entrou.
─Fique a vontade. – digo. ─Com licença. — pego sua mochila, pesada inclusive, e coloco no sofá.
─Ah, obrigada. Sou a Mayuri. – ela diz me olhando, porque ela tá vermelha?
─É, já sei. Eu sou...
─Meu patrão. Yukida Alexei. – ela completa.
─É, digamos que sim. – nunca me habituo com essa intitulação.
─Desculpe o atraso senhor Yukida, o ônibus demorou e ainda por cima estava cheio, eu não tinha dinheiro pro metrô, teve um cara no ônibus que ficou empatando meu caminho pra descer, ele era enorme, daí quando eu desci e fiquei procurando o endereço daqui de novo, parece que essas ruas mudam de lugar, sei lá, eu não sou muito boa em me localizar e ainda por cima ter que andar com essa mochila pesadíssima. — ela falava sem parar.
─Tudo bem... Foi uma manhã difícil então.
─Isso é normal... E onde está o senhor Shun? – diz olhando em volta.
─Ele não está aqui, só aquele dia mesmo. Eu estava trabalhando então não pude entrevista-la.
─Ah tá. E o Miguel?
─Na cozinha, venha. – vamos pra cozinha onde o Miguel ainda tá resmungando.
─Oi Miguel. – ela acena pra ele que só se emburra.
─Essa é a Mayuri, Miguel. – pego-o no colo, mas ele se encolhe em mim quando me aproximo da Mayuri.
─Desculpe, ele é sempre assim com as babás.
─Não faz mal, é bom ele não se habituar a estranhos logo de cara.
─Tem razão. – tem logica nisso. ─Aqui. — pego uma lista com instruções que escrevi e entrego pra ela.
─O que é isso?
─Instruções pra cuidar do Miguel, alergias, horários... Esse tipo de coisa. Verifique sempre que necessário.
─Ah... É bem detalhada né. – diz folheando a lista.
─Sou sistemático, é bom se habituar a isso.
─É, também sou fã da homeostase.
─Hum?
─Homeostase. – ela repete. ─Quis dizer de modo retorico que também sou um pouco metódica.
─Isso eu entendi, mas você não precisa forçar-se a ser tão eloquente. – digo, mas não consigo reprimir um sorriso irônico.
─Ah, er... não estou forçando, mas de certa forma, só por estar aqui já garante que sou bastante persuasiva, certo?
Falar daquele jeito pareceu amenizar seu nervosismo.
─Hum, você é instigante Mayuri, bastante afoita e ardilosa. – comento. ─Gosto disso. – digo sorrindo, essa garota é muito mais do que parece, estou me satisfazendo com minha escolha aos poucos.
─Obrigada, juro que não vou dissuadi-lo com relação a me contratar, darei o meu melhor.
─Não se precipite, nós mal começamos. – digo sorrindo, ela parece se atenuar quando usa palavras que possam desafiar seu raciocínio lógico e rápido, então se isso a deixa mais a vontade podemos continuar assim.
─Entendi. Ah, o senhor Shun disse que o Miguel é bem quietinho, então eu pensei se daria tempo de estudar, trouxe até meus livros, tem problema?
─De forma alguma, ele dorme à tarde, pode usar esse tempo.
─Ah, obrigada senhor Yukida. – diz sorridente. Ela tem um belo sorriso.
Fomos pra sala eu levei o Miguel pro quarto pra poder conversar com a Mayuri.
─Bom, sente-se Mayuri. – ela obedientemente me ouve e fixa o olhar em mim de novo pra logo depois baixar a cabeça rapidamente.
─Algum problema? – pergunto estranhando esse acanhamento dela. Estou a intimidando por acaso?
─Não, não é nada. – diz ainda acanhada.
─Está nervosa?
─Um pouco.
─Isso não precisa ser uma experiência ruim, só quero lhe fazer algumas perguntas simples, dar algumas instruções e acertos quanto ao seu trabalho aqui, não se preocupe.
─Ah, er... entendi. – estranho, Shiryu não me disse que ela era tão acanhada assim.
─Bem Mayuri, antes que começarmos posso lhe oferecer alguma coisa? Agua, café, chá?
─Não obrigada, estou bem.
─Certo, então é o seguinte Mayuri...
Explico tudo que é preciso. Ela parecia esperta, fazia perguntas relevantes e solicitava algumas coisas. Aquela aparência não faz jus a seriedade dela. Percebi que ela ficava vermelha o tempo todo quando eu a ouvia, está tão nervosa assim?
─Entendeu tudo? – pergunto quando concluo a explicação.
─Sim, claro. – diz sorrindo. ─Os filhos do senhor Nigihayami tinham quase a mesma rotina, estou habituada.
─Hum. Isso é ótimo.
─E agradeço muito pela oportunidade senhor Yukida... er, tenho que chama-lo assim? – diz sem jeito.
─Digamos que é o mais apropriado. De alcunho que não vai ser. – sorrio tentando amenizar as coisas pra ela.
─É, tem razão. Prometo não desaponta-lo. – diz sorrindo.
─Eu é que agradeço. Ah, eu dei uma olhada em seu histórico acadêmico, é brilhante. Parabéns!
─Obrigada, e o senhor é médico, certo? Formou-se onde, se me permite perguntar?
─Na Academia Médica de Moscou I. M. Sechenov.
─É a universidade médica mais velha de todo o leste europeu. – ela diz surpresa.
─Conhece?
─Já ouvi falar, ela tem uma excelente reputação internacional.
─De fato... Sabe Mayuri, quanto a isso, tem algo me incomodando. – a olho desconfiado. ─Você disse ao Shun que gostaria de cursar medicina, mas não conseguiu vaga em nenhuma universidade aqui em Tóquio, não foi?
─Er, sim, mas... – diz sem jeito, te peguei.
─Vamos falar sobre isso um minuto, está bem? – sorrio, ela parece cada vez mais incomodada.
─Umm... errr... tá, tá bom.
─Tenho que dizer que você é contraditória Mayuri, sua ficha escolar é excelente, e já percebi que você é bastante inteligente e faz uso da linguagem culta com grande maestria, além de ter uma vasta base acadêmica por ser incrivelmente esforçada, então... como é possível que você não tenha conseguido nenhuma bolsa de estudos pra medicina aqui em Tóquio dada sua extraordinária capacidade intelectual?
─Bom, er... eu, eu não quis mentir para o senhor Shun, apenas omiti informações que acho irrelevantes.
─Você disse a ele que não conseguiu vaga por ser muito concorrido, isso não é só omitir informações.
─Eu sei, mas... olha senhor Yukida, tem certas coisas que as pessoas não gostam de falar, eu só não quis mencionar meus problemas, e sinceramente não acho que seja importante para o senhor.
─Bom, sou todo ouvidos.
─Acontece que eu não quero falar. – diz determinada, mas ainda relutante.
─Hum. Entendo. – já esperava por isso. ─Tudo bem, apenas quis lhe entender. Espero que não tenha soado tão inadequado.
─Eu compreendo, sou a pessoa que vai cuidar do seu filho, então é justo querer me conhecer melhor. Talvez eu possa lhe falar sobre isso, mas não acho que o momento seja conveniente.
─Ok, posso esperar. – digo sorrindo, ela é mesmo mais do que aparenta. ─Bom, já que esclarecemos isso então está tudo certo.
─Sim, claro. Ah, tem uma coisa que tenho achado estranho também, senhor.
─O quê?
─Sua esposa, ela está viajando ou alguma coisa assim? – ela pergunta do nada.
─Não, ela... faleceu a um ano atrás.
─Oh, desculpe. – diz arrependida.
─Tudo bem.
...
Estou em casa olhando pro teto, não tem um segundo sequer que eu não me martirize por ter recusado o convite do Hyoga pra morar com eles. Sou um idiota, idiota.
Não sinto vontade de fazer nada, nem de escrever, nem ler, não sinto vontade nenhuma.
A televisão está ligada a horas num canal de propagandas que eu sequer estou prestando atenção.
Estou me acabando em salgadinhos e refrigerante, já que também não sinto vontade de cozinhar nada saudável pra mim. Penso no Hyoga, ele cozinha tão mal, mas estou sentindo até falta das gororobas que ele tenta preparar.
Acalme-se Shun. Lembre-se o porque de você ter recusado o convite dele. Tento ouvir meu bom senso falar, mas ultimamente tenho ignorando ele ao máximo, então a cada minuto fico tentado a discar o numero do Hyoga, que inclusive já está selecionado a horas esperando que eu tomasse a decisão e clicar no botão. Não! É cedo demais. Se eu ligar agora vai dar muita bandeira, Hyoga pode achar estranho.
Já sinto falta deles. Se eu for ao menos um pouco importante o Miguel já deve ter percebido que eu fui embora e deve estar chorando, fico triste só te imaginar. Nesse momento o Hyoga deve estar conversando com essa nova babá, essa tal Mayuri deve estar tentando conquista-lo, tomara que esteja fracassando miseravelmente. Tomara que o Hyoga a ache esquisita demais. Tomara que a demita na primeira semana. Não! Não posso ficar pensando nisso, o Miguel precisa dela, o Hyoga também, porque eu não vou voltar, não posso voltar. Céus, isso tá sendo difícil, e hoje ainda é o primeiro dia. Droga!
...
Já é terça. Mayuri teve muita dificuldade com o Miguel ontem, disse que ele não parava de chamar pelo Shun.
Mas não achei certo ligar pro Shun logo agora e ficar importunando logo cedo, mas já se passaram dois dias.
Cheguei cedo do trabalho, pois a Mayuri tem que sair cedo pra ir pra faculdade dela que é a noite. Quando entrei tinha uma música alta tocando, será que os vizinhos reclamaram? Era rock, ou pop, sei lá, e outra voz feminina soava estridente na falha tentativa de imitar a voz do vocalista, não vi ninguém na sala então me dirigi pra cozinha.
Assim que entrei vi o Miguel na cadeira dele e de a Mayuri indo pra todo lado com uma panela e encenando estar tocando uma guitarra.
Eu estava numa posição que não permitia nenhum dos dois me ver ali.
─Canta comigo Miguel. — ela disse animada.
Foi aquilo mesmo que eu contratei?
─Nooo, você canta muito mal Mai. — Miguel reclamou colocando as mãozinhas nos ouvido.
Não pude deixar de rir.
─Ah para, eu não sou tão ruim assim. — ela disse resmungando enquanto colocava uns ovos inteiros num prato e foi enfeitando o prato com o que tinha disponível na mesa, formando um rosto alegre, achei o gesto adorável, uma prova que era uma garota que tinha seus momentos de graciosidade.
─É si, parece cadeira arrastando. — Miguel disse emburrado, de onde foi que ele tirou aquela expressão? Tenho que parar de deixá-lo assistir os comerciais de novela.
─Magoou. — ela disse chegando perto dele e colocando o prato a sua frente.
─Hunf.
─Agora abre a boquinha.
─No quero. — disse virando o rosto quando ela chegou com a colher perto dele.
─Ah por favor Miguel, tá tão gostoso olha, huumm. – diz pegando um pedaço de bacon do prato e comendo um pedaço.
─Tá no.
─Tá sim, tem olhinhos de gema, nariz e boca de bacon, e cabelos lamen. E a clara parece até os óculos da carinha.
Miguel ficou olhando pro prato e fez uma careta.
─Dá medo isso aí.
Ri de novo, esse meu filho é uma piada, não se parece em nada com as crianças daqueles comerciais americanos, até porque essa garota tá oferecendo é um ataque cardíaco pro meu filho.
─Você tá com fome que eu sei, então vou desmanchar essa carinha, mas você vai ter que comer de qualquer jeito.
─No.
─Por favor Miguel, facilita pra mim, vamos.
─Noo, saiii. – diz emburrado empurrando pra longe a colher que ela oferecia.
─Vamos lá Miguel, você não quis comer nada desde que seu pai saiu. Sei que você está com fome. – ela tenta persuadi-lo.
Ela suspira.
─Vou pegar sua vitamina. Peraí. – diz indo até a geladeira.
Quando ela saiu o Miguel comeu um pedaço de bacon do prato. É, parece que ele tá com fome, mas ainda tá com birra.
Quando ela ia voltando pude ver claramente o Miguel derrubando a colher de proposito.
Quando a garota abaixou pra pegar abaixo da cadeira do Miguel ele virou o prato que caiu em cheio na cabeça da garota.
Ah droga, estou tendo uma prova viva do porque o Miguel não se fixa em nenhuma babá.
─Ai!! — ela resmunga e eu rapidamente vou de encontro aos dois antes que ela levante a cabeça e piore sua situação espalhando aquela comida pela roupa.
─Não levanta a cabeça senão vai sujar sua roupa também. — eu disse segurando a cabeça dela baixa.
─Papa.
─Senhor Yukida?
─É, sou eu. Venha pra pia pra lavar isso.
Digo guiando-a pra pia.
─Desculpe por isso. – me desculpo pelas travessuras do meu filho.
─Ah eu levei um susto, no momento pensei que era ele caindo em cima de mim. Mas não se preocupe, criança é criança.
─Mesmo assim desculpe.
─Papa. – Miguel fica choramingando.
─Fica quieto aí que eu já falo com você Miguel. — digo com o olhar mais severo que consigo fazer, e acho que surte efeito, por causa do modo que ele se emburrou.
Pego a mangueira curta da pia e passo a limpar a sujeira que o Miguel fez nela.
Ela não parava de falar.
─Fiz uma carinha tão bonitinha no prato do Miguel, pensei que ele gostava dessas coisas. Meu irmão gostava, mas minha mãe ficava brigando pra parar brincar com a comida, mas o senhor sabe, criança que é criança apronta mesmo, senão tá doente.
─Hm.
─O senhor não é de falar muito né. Desculpe se eu falo demais, acho que o senhor Shun já lhe disse isso.
─Hm. Pronto. – digo terminando de limpa-la. ─Fique com a cabeça baixa que eu vou pegar uma toalha pra você. – digo a deixando ali e vou atrás da toalha.
Quando volto ela já tem espremido os cabelos e me esperava ainda de cabeça baixa, então eu a ajudei a se enxugar.
─Mil desculpas Mayuri. – digo ajeitando a toalha nos ombros dela.
─Sem problemas senhor Yukida, não foi nada de mais.
Ela levantou a cabeça e ficou me olhando fixamente de novo e imediatamente ficou vermelha.
─Que foi? – digo confuso com aquele olhar dela.
─Na-nada. – diz vermelha eu acho, era difícil distinguir com aquelas mexas ruivas caindo pelo rosto dela.
Olho pro Miguel.
─Isso não foi nada educado. – digo sério e ele se encolhe todo já esperando pela bronca. ─Peça desculpa a ela Miguel. –ordeno.
─Mas papa...
─Peça. — não costumo ser tão severo com ele, mas a situação pede.
─Dicupa Mai. – diz se encolhendo.
─Tá desculpado Miguel. – ela diz sorrindo ternamente pra ele.
Massageio os olhos. Seria tão mais fácil se Shun estivesse aqui. O quê? Shun? Porque eu pensei isso? Normalmente eu sempre pensava: “Seria tão mais fácil se Lilia estivesse aqui.” Porque pensei diferente dessa vez?
Droga, minha mente está brincando comigo. Devo estar cansado, é isso. Tem que ser isso.
─Mais uma vez desculpe Mayuri. – digo a olhando.
─Já falei que não foi nada demais senhor Yukida. – ela sorri como uma garotinha.
─Vai ter que lavar o cabelo depois disso. – digo tirando um pedaço de bacon que ficou preso no canto da orelha dela.
─Quando chegar em casa eu lavo. – ela diz e pareceu constrangida com meu gesto, ficou vermelha de novo e baixou a cabeça.
─O que você tem? – pergunto estranhando aquele comportamento de novo, ela evita me olhar e parece incomodada.
─Nada não. – parecia insegura.
─Hum. Pode tomar um banho aqui se quiser, eu dou o jantar do Miguel enquanto isso.
─É sério?
─Eu não sou do tipo que brinca. – digo sério.
─Mas eu vou chegar atrasada.
─Sem problemas eu a levo.
─É que não quero incomodar.
─Vai logo antes que eu me arrependa.
─Tá bom, tá bom, eu vou.
Garota teimosa.
Levei Mayuri em casa. É incrível como ela sempre arruma um assunto interminável e fica horas falando pelos cotovelos.
Voltei pra casa e senti um vazio, Miguel ainda está perguntando pelo Shun, e eu já esgotei minhas desculpas.
Sinto falta do Shun, já se passaram dois dias, acho que não vai ficar muito estranho se eu ligar agora. Ligo, ligo, mas sempre cai na caixa de mensagem.
─Oi, você ligou pra Shun Amamiya, não posso atender agora, então deixe seu recado que eu retorno assim que possível... Ou assim que eu lembrar que tenho que ver as mensagens, ou quando eu ouvir e depois lembrar é que é pra responder, o que vier primeiro. Agora é só esperar o bip. ♪ ta-nã-nã-nã-nã-nã ♪. Brincadeira, sou eu rsrsrsrsrsr. O bip é agora. Tchau.
Sorrio só de ouvir a mensagem, só de ouvir a voz dele.
Dá o bip, tenho que deixar uma mensagem.
─Oi Shun, sou eu. Está ocupado? Miguel sente sua falta. Me retorna tá.
Porque ele não atendeu, será que está mesmo muito ocupado?
.
Hyoga me ligou, achei que ele ia demorar mais pra isso. Eu estava assistindo Tv enquanto acabava com as bebidas do Ikki da minha geladeira. É, estou bebendo sem parar agora.
Quando vi a tela do meu celular picando ‘Hyoga’ sem parar meu coração faltou parar, fiquei tentado a atender, céus como eu quero falar com ele, mas tenho que fazer o que é certo, se eu atendê-lo vou desmoronar de vez e vou chorar, quero que ele saiba que me faz sofrer.
Eu disse a ele que não ia sumir, mas não achei que fosse tão difícil seguir com isso.
Ouvi seu recado, seu tom despreocupado. Ele disse que o Miguel sentia minha falta, disso eu não tenho duvida, mas e ele? Ele sente a minha falta?... bom, isso não importa, não vou retornar.
.
Mais dois dias se passaram. Tenho que dizer que os dias têm sido bem longos. Sinto falta do Shun.
Tentei parecer mais espontâneo no ultimo recado, céus porque ele não atende?
─Oi Shun, você não respondeu minha ultima mensagem... Sabe, a Mayuri está indo bem, fez jus à recomendação do Shiryu, mas o Miguel ainda não gosta dela rsrsrsrs... Gostaria que você estivesse aqui, Miguel anda muito tristonho ultimamente. Bom eu... Só me retorne tá.
Chegou o final de semana e eu ainda não tinha falado com o Shun, ele não me atende. Será que está viajando? Está tão ocupado assim?
Fico ansioso pra reunião de cavaleiros, quero vê-lo, quero saber por que ele não me responde. O que há de errado?
Ele não apareceu.
Perguntei ao Ikki e ele também não soube responder, mas disse que tinha conversado com o irmão no dia anterior. Conversou. Então porque a mim ele não atende?
─Ele deve tá em reunião de novo, normalmente ele não vem quando isso acontece. — é isso que o Ikki disse.
Estou desanimando, tinha tantas expectativas de vê-lo hoje. Peraí, expectativas?
Liguei de novo pra ele no domingo, mas novamente ele não me atendeu.
─Shun, tem algum problema com seu celular ou você esqueceu mesmo de me retornar? Porque não foi à reunião ontem?... Queria te ver, Miguel sente muito sua falta... Me retorna. – será que estou soando hostil nesses recados?
.
Nessa primeira semana eu já estava sem o mínimo de inspiração pra escrever meu livro, mas do contrario me dediquei totalmente ao trabalho burocrático com Ichiro, tinha que distrair minha mente de algum jeito, e ficar em casa olhando pro teto só me faria ficar mais deprimido ainda, até porque eu já acabei com o estoque de uísque do Ikki.
Céus, estou com tantas saudades. Quero tanto rever o Miguel. O sorriso dele, sua voz infantil, ouvir ele me chamar de seu jeito peculiar, sinto falta de sua risada envolvente, de sua mente infantil. Das brincadeiras, das conversas.
E o Hyoga. Ah, no Hyoga sinto falta de tudo. Do cheiro dele, de sua voz, de vê-lo dormir, de observa-lo quando tenta cozinhar. Rio só de imaginar.
Mas não posso vê-lo, não ainda.
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É segunda, estou de folga hoje, então dou uma folga pra Mayuri também. Já que estou em casa resolvi visitar o Shun e descobrir o que está havendo.
Fui até o apartamento dele com o Miguel. Bati, bati, e nada. Nem ao menos sei se ele estava lá, o porteiro disse que não o viu sair, então onde ele pode estar?
Pensei naquele assistente dele, estão juntos? Trabalhando ou...? Não, não vou pensar em coisas precipitadas, além do mais isso não é da minha conta.
Ainda me sinto estranho com tudo isso, embora eu tente não me importar, ainda sim eu me importo, o que há comigo?
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É segunda, continuo deprimido na cama, fiquei lá o domingo inteiro, só comi besteira, e não atendi ninguém.
No entanto o Hyoga continua insistindo em me ligar.
Meu apartamento tá uma zona, eu quase não saio mais, só pra alguma coisa do trabalho que o Ichiro marca, ou pra conversar com Misaki, fora isso só tenho saído pra comprar bebidas e besteiras pra não morrer de fome.
Nem sei mais se tenho roupa limpa, por isso estou jogado na cama só de cueca.
É de tarde, por incrível que pareça o Hyoga veio bater na minha porta. Céus, eu não estava preparado pra isso.
Quando ouvi a campainha a muito contragosto me levantei, quando verifiquei pelo olho mágico meu coração faltou saltar pela boca quando vi ele e o Miguel. Imediatamente ocultei meu cosmo. Porra! Porque o porteiro não avisou que tinha alguém subindo? Tomara que o Hyoga não tenha verificado minha presença antes.
Ele bateu até não querer mais, me chamou e eu gostei de ouvir a voz dele, e até mesmo a do Miguel resmungando, que fofo. Ele ligou pro meu celular e dei graças a Zeus por ter lembrado de colocar no silencioso. Ficou uns dez minutos insistindo, mas dava pra ver que ele não tinha certeza se eu estava ali.
Ele desistiu e foi embora. Parecia muito triste, não dava pra ver direito, mas ele não parecia muito bem.
.
É a terceira semana, ligo pro Shun quase todos os dias, ou será que é todo dia mesmo? Sei lá, nem estou contando mais.
Me sinto cada vez mais deprimido, acho que eu já mencionei que ter o Shun convivendo comigo por um tempo foi a melhor coisa que aconteceu em minha recuperação até hoje, acho que por isso estou piorando de novo.
Não sinto fome, nem vontade de fazer nada, estou me esforçando pro meu desempenho no hospital não cair, mas está difícil. Penso em beber, não! Não posso, seria catastrófico.
─Shun, o que está acontecendo? Porque não quer falar comigo? Me retorne, por favor. — estou soando cada vez mais desesperado nessas ligações.
Já estou lendo o terceiro livro dele, sim, foi o Shun mesmo que escreveu isso, ele próprio e por alguma razão me sinto perto dele quando leio. Shun é bem criativo, a historia tem umas reviravoltas bem interessantes, é cativante, não é pra menos que todos são best seller. Talvez por não ser yaoi eu não me sinto tão desconfortável em ler.
Miguel está se habituando a Mayuri com o tempo, apesar de ter sido preciso eu ter uma conversa bem sério com ele pra parar de atirar coisas nela.
Infelizmente ele continua perguntando pelo Shun o tempo todo. Quando posso saio mais cedo do trabalho pra passar mais tempo com ele e diminuir o sofrimento da babá.
Mais uma semana passou, estou na reunião de cavaleiros e pra variar Shun não apareceu.
─Escuta Ikki, o celular dele tá funcionando normalmente?
─Sim, por quê?
─Nada não.
─Até falei com ele hoje de manhã. — ele comenta
É, Shun está realmente me evitando de todas as maneiras.
─Ele parecia chateado com alguma coisa? — pergunto.
─Não, aparentemente. O Shun sempre esconde os problemas dele, mas ele parecia bem, por quê?
─Nada, só queria saber.
Isso tudo deve ter relação com não ter aceitado meu convite, devo tê-lo intimidado, sou um idiota mesmo, acho que o pressionei demais.
─Oi Shun, já sei que você não quer falar comigo, mas ainda não sei por quê... Só acho que seria mais honesto da sua parte me dizer o que eu fiz, porque ficar me ignorando não é nada legal. — fico em silencio alguns segundos. ─Desculpe se fiz alguma coisa errada. Apenas quero que saiba que você faz muita falta, Miguel ainda pergunta por você o tempo todo e... Eu também sinto sua falta.
Ele não retorna.
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Eu evitei o Hyoga ao máximo.
Ele me ligou praticamente todos os dias, algumas vezes pra dizer coisas tolas, perguntava sobre meu livro, comentava qual capitulo estava terminando.
Comentava coisas engraçadas sobre a historia e os personagens.
O pior é quando ele dizia que o Miguel continuava perguntando por mim.
Quis como nunca retornar, mas pensei melhor. Não posso mais falar com ele, pelo menos por um tempo, quando eu me sentir mais seguro de mim mesmo. Quando eu puder me aproximar sem doer tanto.
Acho que já tem três semanas que eu sequer vou à reunião de cavaleiros.
Falei com o Ikki a alguns dias, ele disse que o Hyoga tem perguntado por mim o tempo todo.
Não tem um dia sequer que eu não encha a cara, acho que estou virando um alcoólico. O fato de eu ser um cavaleiro impossibilita que os efeitos da bebida sejam extremos em meu corpo, então só vou me sentir meio grogue quando estou aproximadamente na sétima garrafa de uísque.
Afrodite tem me ligado com frequência também. Me convida pra sair, mas sinto vontade de fazer isso também.
Acho que minha única companhia ultimamente é o Ichiro, só falamos de trabalho, mas por alguma razão ele adora ficar comigo.
Na segunda semana o Hyoga já me deixava mensagens mais angustiadas, perguntava por que eu desapareci, porque não retorno suas ligações. Ele está me torturando.
.
Já tem mais de um mês.
Cheguei cedo do trabalho e decidi passear um pouco com o Miguel e a Mayuri, ficar em casa só me faria ficar mais deprimido ainda.
Coloquei Miguel no escorrega pra ele se divertir ao menos um pouco, acho que a única hora que ele não pensa tanto no Shun é nesses momentos.
Nem mesmo os gêmeos do Shiryu parecem substituir essa lacuna que o Shun deixou. Estou preocupado com ele.
Mayuri não era mais tão odiada por ele, até que ela tá durando bastante, as outras não ficavam nem uma semana.
Ela é tagarela, pergunta o tempo todo sobre meu trabalho, mas como pude ver muitas vezes, ela é esforçada.
Desistiu de incorporar a roqueira inconsequente e agora se veste normalmente. Melhor assim.
Ela ainda fica incomodada comigo às vezes, ainda não sei o que é.
─... Daí minha mãe achou estranho que meu irmão estivesse quieto demais, quando ela foi verificar encontrou ele na sala e viu mingau pra tudo que é lado, nos móveis, na parede, em tudo rsrsrsrsrs. Foi o maior trabalho pra limpar. – ela comentava animada sobre alguma coisa que boa parte eu não ouvi.
─Hum. – nem a olhava, fixei minha atenção no Miguel que parecia mais animado quando um garoto maior o chamou pra brincar nos tubos.
─O senhor parece distante senhor Yukida. – Mayuri comentou do nada.
─Hum? – a olho.
─Sabe, faz tempo que não vejo o senhor Shun.
─É. – comento indiferente e volto a atenção pro parque, tantas pessoas. Em pensar que a algumas semanas atrás eu estava passeando aqui com o Shun e o Miguel.
─O senhor também não tem visto ele né? – ela pergunta.
Olho pra ela.
─O que?
─Bom, é que eu vejo o senhor ligando pra ele praticamente todos os dias. Porque não vai à casa dele pra ver se não tem algo errado?
─Já fiz isso.
─Então insista. – diz mais firme.
Olho pra ela estanhando.
─O Miguel pergunta pelo senhor Shun o tempo todo, e o senhor está emagrecendo muito e tem se preocupado com ele, liga todos os dias, parece distraído quase o tempo todo. Isso não está lhe fazendo bem. Vai acabar adoecendo. – ela comenta.
─Mayuri... – tento falar que ela já está falando demais.
─Tá na cara que o senhor Shun faz falta, senhor Yukida. – ela continua. ─O senhor Ikki não sabe nada sobre isso?
─Hum? Conhece o Ikki?
─Mais ou menos, uma vez o senhor Ikki foi à casa do senhor Shiryu quando eu ainda estava lá, parece que era alguma reunião sobre algum contrato da fundação Graad com uma empresa de construção licitada pelo senhor Shiryu, e o senhor Ikki que estava cuidando do projeto de construção de sei lá do quê. A senhora Shunrei falou que o sobrenome dele era Amamiya, então já que vocês são todos amigos ficou fácil deduzir que eles sejam irmãos.
Olho sorrindo pra ela.
─Você deduziu isso por lógica ou pela sorte mesmo? – pergunto.
─Por lógica é claro... bom, vai um pouco na sorte também. – ela diz rindo.
─Hum. – sorrio, ela é mesmo inteligente. ─É, eu já falei com o Ikki também.
─É ele parecia legal... Eu vi o livro do senhor Shun que o senhor está lendo em cima da mesa, ele é famoso heim.
─É.
─Só li o primeiro. É muito bom.
─Estou no terceiro, se quiser eu lhe empresto o segundo. – digo indiferente.
─Jura? Que legal, os livros dele são muito procurados, por isso são caros.
─São é?
─Sim, como o senhor não sabe?
─Ganhei aqueles do Shun.
─Ah tá. Ele está escrevendo o quinto volume né?
─É.
─Talvez seja por isso que ele está tão ocupado, não é?
Será que é isso?
─Não sei, deve ser. – duvido muito.
─Sabe aquela parte do primeiro livro que... – ela começa a comentar sobre o livro, então a conversa vai se animando. Um ponto de vista diferente sempre é bem vindo.
A animação dela é cativante, acho que foi a primeira vez em um mês que estou rindo um pouco.
Ela falava animada, até então percebi que ela fala pouquíssimo de si mesma, normalmente é sempre da família, da faculdade, disciplinas, mas nunca dela mesma.
Ela percebe que estou a olhando seriamente de novo e para de falar por um tempo, novamente está vermelha.
─Algum problema?
─Nada. – diz sem jeito, isso não pode ser acanhamento, achei que já tínhamos passado dessa fase.
Ela continua evitando me olhar, ficou inquieta. Ela já tá me dando nos nervos com esse comportamento, porque todas as garotas que contrato são assim comigo, droga? Mayuri não pode continuar assim, preciso que ela haja naturalmente, não quero trocar a babá do Miguel de novo.
─Falo sério Mayuri. O que há com você? Toda vez é que eu a olho você fica vermelha. Pareço intimidador?
─Não, não. É que...
─Fala. – digo pacientemente.
─O senhor é... é muito bonito. – ela diz extremamente vermelha.
─Hum?
─Na entrevista quando eu falei com o senhor Shun e ele falou do senhor eu achei que o senhor era gordo, careca e feio. – ela comenta completamente vermelha. ─Mas quando eu o vi fiquei meio sem jeito. O senhor é mesmo muito bonito, então eu fico meio sem jeito em olhar pro senhor.
─Ah, é isso... err... obrigado, eu acho. – o que foi isso? Acha que vou ser mais legal com ela se ficar me elogiando? Não foi uma boa ideia quando Sasha me disse algo parecido, mas pelo menos ela esperou mais tempo, o que há com essa garota? Esse comentário inútil foi um tanto inadequado e fora de hora. ─Você sabe que esse comentário é totalmente inapropriado não sabe? – digo.
─É, eu sei, desculpe, falei besteira. – ela diz mais vermelha ainda, se é que isso é possível. ─Mas foi o senhor que perguntou.
─É verdade... mas não foi nada demais. – digo logo. ─Você é bonita também. – retribuo o elogio.
─Acha mesmo? – ela diz sorrindo.
─Acho. – digo indiferente.
─Isso não vai ficar estranho vai? – ela diz receosa.
─Não, desde que você se lembre de que sou oito anos mais velho que você. – digo de forma subentendida com um sorrindo irônico.
─Nem pensei nisso senhor Yukida. – ela diz emburrada e vermelha.
─rsrsrsrsrs. Estou brincando Mayuri, esquece isso, mas não precisa ficar com vergonha toda vez que eu olho pra você, isso é irritante.
─Foi mal. – ela diz mais tranquila. ─Oito anos é? – disse depois de um tempo.
─Anram.
─O senhor tem idade só pra ser meu irmão mais velho.
─Bem colocado. – comento sorrindo e ela ri também.
Aquilo foi bem esclarecedor, foi bom a conversa ter seguido aquele rumo.
Ficamos um tempo em silencio.
─Você tem razão, o Shun faz muita falta. – comento.
─É, eu sabia. – ela diz sorrindo. De certa forma era bom ter alguém pra conversar.
.
No começo da terceira semana estava pior. Não tinha mais tanto trabalho então eu fiquei sem ter o que fazer, minha angustia só estava aumentando, estava ficando sufocante ficar em meu apartamento, então fui fazer uma caminhada. Não fiquem chocados quando eu digo que foi no parque perto do prédio do Hyoga. Eu sei, eu sei. Mas eu só queria vê-lo, se eu tiver sorte posso até avista-lo de longe brincando com o Miguel.
Quero vê-lo, mas sinto ciúmes ao mesmo tempo, em saber que ele pode estar exibindo ele e o Miguel num parque cheio de mulheres solteiras ou mães divorciadas. Ele não vê que é fácil qualquer um se apaixonar por ele?
É perigoso deixa-lo tão livre.
Da primeira vez que descaradamente fui ao parque não o encontrei. Ainda assim fiquei decepcionado, nos próximos dias repeti o ato a continuei sem vê-lo. Fiquei a quarta semana inteira nessas aventuras que dependiam da sorte, não tinha horário e nem lugar marcado, então era muito difícil encontra-los. Na sexta-feira daquela semana eu avistei Mai com o Miguel passeando pelo parque ao entardecer.
Fiquei os observando de longe. Miguel emburrado, como esperado por estar com ela, dava pra ver que ela se esforçava, que era carinhosa e muito paciente, mas Miguel não dava o braço a torcer. O que é estranho já que nem demorou tanto pra ele gostar de mim, mas essa garota já convive com eles a mais de mês, Miguel já deveria estar habituado a ela.
Percebi que o Hyoga não estava presente, deve estar trabalhando como sempre. Ele realmente é dedicado em sua carreira de médico.
No sábado daquela semana eu já tinha decidido não ir à reunião na mansão. Inventei uma reunião e até avisei o Ikki pra não haver suspeitas. Se eu posso enganar meu irmão, que tem complexo de perseguição e paranoia, então posso enganar qualquer um. Tomara que funcione com o Hyoga, mas ele é esperto, já na primeira semana descobriu que tinha algo estranho e já suspeitava que eu o estivesse evitando.
Quinta semana. Voltei a me arriscar a caminhar pelo parque pra observa-los, no meio da semana eu os encontrei, Miguel brincava com umas crianças num escorrega do parquinho enquanto o Hyoga e a Mai conversavam num dos bancos próximos. Estavam de costas, mas imagino que estavam animados. Fiquei triste. Eu já esperava por isso, mas não queria que realmente acontecesse, eles estão seguindo sem mim. Estão felizes sem mim.
Quis muito ir até lá e dar um beijo bem dado no Hyoga pra mostrar pra todos ali que ele era meu, eu pegaria o Miguel e iriamos embora dali juntos.
Que tolice Shun, isso seria catastrófico.
Tenho que parar de ficar espionando eles de longe.
Ichiro consultou o contrato com a editora e me deu a noticia que teríamos que viajar pra divulgação do livro.
É, acho que essa viajem é bem apropriada.
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Quinta semana.
Estou de folga, então estou aproveitando pra divagar enquanto estou sentado na porta de vidro da minha varanda, uma chuva torrencial cai lá fora.
Mayuri está na sala com o Miguel brincando. Ele já está mais habituado, ao menos brinca com ela agora.
Olho pro sino dos ventos pendurado na sobra da varanda do andar de cima, balançando com o vento e fazendo aquele tilintar sem fim.
Eram de cristais azuis, era bonito. Foi Shun que pendurou ali.
~~~
‘─O que é isso aí? – perguntei enquanto ele pendurava aquilo com o auxilio de uma cadeira.
Acho que era uma quarta-feira daquela semana que ele passou conosco.
─Não sabe? Isso é um sino dos ventos. É uma antiga tradição do feng shui, dizem que além de harmonizar, equilibram o ritmo das energias do ambiente, limpam as energias ruins, relaxam e embelezam. – ele diz sorrindo enquanto executa a tarefa.
─Isso é discurso de hippie Shun. – digo rindo e ele se emburra.
─Cala boca que você não sabe de nada de decoração Hyoga, além do mais eu comprei pra enfeitar mesmo. – diz descendo da cadeira e se colocando ao meu lado enquanto olhamos pro enfeite balançando com a brisa.
─Acha certo colocar agora? O fūrin normalmente se coloca no inicio do verão, já estamos em agosto, o verão começou mais cedo este ano. – comento.
─Ah, então você sabia. – ele me olha brevemente rindo. ─Não faz mal colocar agora, além do mais é só um enfeite, certo? – ele diz me olhando e sorrindo, Shun tem um belo sorriso, porque será que eu nunca reparei isso?
─Tem uma loja de lembranças no fim da rua. Passei lá quando vinha pra cá. Aqui. – diz tirando um cartão do bolso e me entregando. ─O cartão de lá.
─Hum – olho e guardo no bolso.
─Ficou bonito. – ele comenta e olhamos pro enfeite de novo. Ele sorri tão livremente, tranquilo.
A brisa da noite nos refresca. Seu cabelo parece tão leve, sua pele é rosada. Shun é bonito. Não entendo porque ele está sozinho, mas se ele tivesse um namorado provavelmente não estaria ali comigo.
─É, ficou bonito.’
~~~~
Céus, sinto tanta falta dele. Ligo pra ele, mas novamente cai na caixa de mensagem, não sinto vontade de deixar recado dessa vez.
Onde está aquele cartão? Procuro na carteira, e lá está ele.
Quando a chuva passa vou até aquela loja, não tenho nenhum motivo pra isso, apenas quero ir até lá.
Uma senhora está no balcão.
─Bem vindo. – diz sorrindo educadamente. ─Procurando alguma coisa em especial, filho?
Ah claro, você viu meu amigo por aí?
─Não, eu só... – o que eu vim fazer aqui mesmo? ─Eu só... – ela fica me olhando, esperando uma resposta.
─Quer comprar alguma lembrança pra sua namorada? – diz sorrindo gentilmente.
─Não sei, o que sugere? – o que estou fazendo?
─Hum, deixa eu ver... – diz pensando. ─Que tal um vaso? – diz pegando um vaso de cima de uma das várias estantes. ─É cristal. – o olho indiferente, estou pra dizer que não gostei quando avisto um outro vaso na mesma estante.
Um vaso médio, de um tom esverdeado, enfeites modestos, delicado, me faz lembrar o Shun.
Estou sentado à mesa da cozinha com a cabeça baixa e olhando pra esse vaso nem sei quanto tempo. Não sei por que o comprei, simplesmente o fiz, até comprei umas flores no caminho pra colocar nele. Lírios brancos, Shun gosta de lírios brancos.
─Está tudo bem senhor Yukida? – Mayuri pergunta preocupada na porta da cozinha.
─Hum?
─O senhor está aí a tanto tempo. Tudo bem?
─Ah, tudo bem, não é nada.
─É um vaso muito bonito. – ela comenta.
─É.
─Bom, está no meu horário, já vou indo, Miguel ainda está brincando na sala, dei uns biscoitos com leite pra ele.
─Ah sim. Obrigado pelo trabalho duro.
─Por nada. Amanhã o senhor vai estar disponível pra me ensinar? – ela me pediu então estou a ajudando nos estudos agora.
─Sim, estarei de folga, começaremos cedo.
─Entendido. Tchau senhor Yukida.
─Tchau. – volto a olhar pro vaso, penso em Shun, o que está acontecendo comigo? Sinto tanta falta dele, como nunca senti.
Aperto meu peito e uma sensação ruim vai tomando conta de mim, respiro pesadamente. Pela primeira vez a tanto tempo sinto vontade de chorar. O que está acontecendo comigo?
Mais uma reunião de cavaleiros. Novamente pergunto ao Ikki pelo Shun.
─Não sabe? Ele tá viajando. — Ikki me disse.
─O quê? – digo surpreso. ─Pra onde?
─Pra um tour pela Ásia, pra divulgar o livro dele, tem alcançado bastante sucesso pra fora, ele me disse que em seguida eles vão pra Europa eu acho.
─Europa? Ah, er... parece legal... – não sei explicar, mas essa informação me fez sentir pior, sou um hipócrita, eu deveria estar feliz por meu amigo, mas eu realmente queria que ele não estivesse viajando. ─Quanto tempo de viajem?
─Uma semana eu acho.
─Hum.
─Vocês não tem se falado? – ele pergunta desconfiado.
─Como poderia? Ele praticamente sumiu. – digo aborrecido.
─Hã? Não sumiu não, tenho visto ele frequentemente, ele só viajou ontem. – ele comenta.
Já cansei disso. Cansei de ir ao apartamento do Shun, cansei de ligar pra ele, e cansei de perguntar ao Ikki o seu paradeiro. Cansei de ser ignorado.
─Shun. – estou deixando outra mensagem. ─O Ikki me disse que você está viajando... Fico feliz que tudo esteja dando certo na divulgação do seu livro... — suspiro. ─Se não quiser mesmo falar comigo não precisa retornar, vou parar de importuna-lo, só queria dizer mais uma coisa... Semana que vem é o aniversário do Miguel, então vou fazer uma festa de aniversário pra ele, vai ser simples, é no meu apartamento, vai ser sábado que vem a tarde, Ikki me disse que você volta na sexta, certo? Gostaria muito que você fosse, poderíamos esclarecer logo tudo isso. Vou espera-lo... Olha, essa é minha ultima mensagem, apareça, ao menos pelo Miguel... Sinto sua falta.
...
Hyoga está desistindo de mim.
Dia após dia vejo a luz entrar pela minha janela e desaparecer no final do dia.
Fico horas afinco olhando pro relógio despertador que o Hyoga me deu.
Choro todas as noites, tenho sonhos com o Hyoga que acabam se tornando pesadelos quando acordo e ele não está aqui.
Estou bebendo todos os dias também. Ikki já veio aqui pra me dar uns sermões. Ele sabe.
─Se sente tanta falta deles porque não volta então? – ele diz aborrecido indo de um lado pro outro no meu quarto.
─Não posso, assim é melhor. Com o tempo vou esquecê-lo. – estou esparramado na minha cama de qualquer jeito olhando pro relógio.
─É mesmo? Estou vendo o progresso. – diz irônico olhando em volta. ─Pelo amor de Zeus, Shun! Já deu uma olhada nisso aqui?
─Só tá um pouco desorganizado.
─Levanta essa carcaça morta daí, e vê se põe uma roupa descente, virou nudista agora?
─Tô com preguiça de lavar a roupa.
─Desse jeito não vai ter nada pra vestir quando for viajar no domingo. Já preparou sua mala?
─Mais tarde eu faço isso.
─Vai agora, e não quero desculpas, você vai à reunião amanhã, já tô de saco cheio de ouvir o pato perguntar por você.
─Como ele está? – pergunto me sentando.
Ikki me olha balançando a cabeça.
─Não parece nada bem, parece abatido, assim como você.
─Isso passa, uma hora ele se esquece de mim. – digo querendo convencer a mim mesmo.
─Isso é criancice Shun, já está passando dos limites, quanto tempo já em isso?
─Cinco semanas.
Ele suspira pesadamente.
─Anda, levanta, vou te ajudar.
Não fui à reunião de cavaleiros. Contatei Ichiro e adiantei a viagem.
...
─Puta que pariu Hyoga! -Adam diz exaltado. ─Com tantas mulheres nesse mundo querendo transar com você, e você se interessa por um homem?
Contei a Adam o que está acontecendo, como estou me sentindo. Não me surpreendo com essa reação, esperava até pior.
─Não foi isso que eu quis dizer Adam, apenas não sei como chamar isso ainda. Só sei que gosto da companhia dele.
─Por Deus, isso é muito esquisito, sabia?
─Sei que é? Se é pra você, imagine pra mim.
─Bom, ao menos você está sofrendo por alguém vivo dessa vez.
─Você é tão sensível Adam. – digo sarcástico.
Ele suspira.
─Você gosta mesmo dele? – ele pergunta seriamente agora.
─Não sei, penso em Lilia o tempo todo ainda.
─Acho que eu não fiz a pergunta certa... você sente atração por ele Hyoga?
─...
─Hyoga!
─Não.
...
Essa viagem tá um saco. Infelizmente não posso ficar enchendo a cara como se eu estivesse em casa, estamos em Pequim, na China. Mais uma entrevista coletiva com a mídia. Não tinha ideia que eu era tão conhecido por aqui.
Estou tão distraído ultimamente, algum repórter pergunta como vai seguir a trama da historia do meu livro, respondo por monossílabos, e assim segue boa parte das minhas entrevistas.
Ichiro tem se esforçado ao máximo, ele percebe meu desanimo e tenta me alegrar.
─Anime-se senhor Shun. Daqui a pouco estaremos no avião de novo.
─Pra onde dessa vez? – digo suspirando.
─Europa, França. – diz animado.
Suspiro, isso tem sido tão cansativo.
Recebi a ultima mensagem do Hyoga no domingo de manhã quando chegamos ao aeroporto de Paris.
─Shun. – a única coisa que tenho ouvido ultimamente é a voz dele nas mensagens que ele deixa. ─O Ikki me disse que você está viajando... Fico feliz que tudo esteja dando certo na divulgação do seu livro... – ele parece tenso. ─Se não quiser mesmo falar comigo não precisa retornar, vou parar de importuna-lo, só queria dizer mais uma coisa... –não, ele realmente está desistindo de mim, sinto uma nova tristeza invadindo meu peito. ─ Semana que vem é o aniversário do Miguel. – céus, eu esqueci disso. ─... então vou fazer uma festa de aniversário pra ele, vai ser simples, é no meu apartamento, vai ser sábado que vem a tarde, Ikki me disse que você volta na sexta, certo? Gostaria muito que você fosse, poderíamos esclarecer logo tudo isso. Vou espera-lo... Olha, essa é minha ultima mensagem, apareça, ao menos pelo Miguel... Sinto sua falta.
Por Deus, o que eu faço agora?
...
É sábado à tarde, estou preparando a decoração pra festa do Miguel e a Shunrei, o Seiya e o Millo vieram me ajudar. Shunrei trouxe os filhos então estou aliviado que o Miguel esteja mais alegre enquanto brinca com eles.
Mais tarde vão vir os outros, sorte que meu apartamento é grande.
Penso em Shun, será que ele vem? Estou ansioso e esperançoso. Quero tanto vê-lo.
─Assim está bom senhor Yukida? – Mayuri pergunta enquanto arruma a toalha na mesa que vai ficar o bolo.
─Hum, o que você acha Shunrei? – pergunto, não entendo nada de decoração mesmo.
─Assim oh. – diz Seiya indo auxiliar Mayuri.
─Então você é a babá do Miguel? – ele diz sorrindo.
─Sim.
─Nossa, trabalhar pro Hyoga. – ele diz balançando a cabeça. ─Seja bem vinda ao grupo, e que Deus tenha piedade da sua alma. – diz rindo.
─Muito engraçado Seiya. – digo, esse pequeno pônei já quer começar logo cedo.
─rsrsrsrs. O senhor Yukida é muito legal, e o Miguel é um doce, estou feliz de estar aqui. – ela diz sorrindo.
─Poxa Mai, e comigo não foi legal? – Shunrei diz fingindo estar magoada.
─Não, quer dizer sim. Quer dizer, foi legal trabalhar pra senhora também senhora Nigihayami. – ela diz rápido.
─rsrsrsrs. Tô brincando Mai.
─Então você trabalhava pro Shiryu também? – diz Seiya. ─Faz sentido, os dois são igualmente chatos.
─Não fale muito Seiya, sua saliva pode acabar antes da festa, e isso séria uma lasti... quer saber, pode falar. – digo irônico. ─Tenho que ir buscar o bolo na confeitaria agora Shunrei, volto em uns vinte minutos.
Quando voltei eles já tinham terminado. Estava ótimo.
Miguel estava mais animado, a tanto tempo que não o vejo sorrindo assim.
A festa começou, mas o Shun não apareceu. Olho a cada cinco minutos pra entrada pra ver se o vejo.
Cantamos parabéns pro Miguel e agora ele está brincando com o gêmeos com os presentes que ele ganhou.
Dei a ele um triciclo, há algumas semanas ele tem me perturbado por um, e agora ele não para de andar nele.
Peguei-o no colo e dei meus parabéns ao meu querido filho.
─Está gostando filho.
─Si. – diz animado enquanto come seu bolo.
─Papa.
─Hum?
─Quero ota cosa de pesente.
─Pode pedir o que quiser querido.
─Jura juradinho?
─Bom, aí depende do que seja. O que é?
─Quero o Shu. — suspiro.
─O Shun não pode vir filho.
─Poquê?
─É que ele está ocupado demais ultimamente.
─Mas eu quero ele papa. – ele disse fazendo um biquinho.
─Eu também filho... também quero.
Estou desanimado, cansado. Vou pro terraço do prédio pra tomar um ar, não aguento mais isso, me sinto mais fraco, será que estou adoecendo mesmo?
─Preocupado com alguma coisa pato? – é o Ikki, sutil como sempre, mas eu sei que ele chegou sozinho, não sinto a presença do Shun.
─Parece.
Ele se aproxima e fica ao meu lado enquanto olhamos a cidade. Está bastante ventilado aqui em cima, parece que vai chover de novo. Sinto algo estranho, um pressentimento ruim.
─Ele não vem, não é? – pergunto sem olha-lo.
─Ele chega e viajem hoje. – ele comenta.
─Hum. Você não respondeu minha pergunta.
─Não Hyoga, ele não vem. – suspiro e baixo o olhar.
─Pode me dizer o porquê disso? O que eu fiz pra ele, porque ele está me evitando?
─Não tem nenhuma ideia? – diz me olhando, mas não o encaro.
─Não.
─Quando eu penso que você pode ser menos idiota você sempre me surpreende, pato. – ele diz e pega em meu ombro me obrigando a encara-lo.
─Olha Ikki, não estou a fim de brigar hoje, por favor.
Ele me olha estranho e observa a mão que colocou no meu ombro.
─Seu cosmo tá muito fraco. – ele comenta.
─Estou bem. – digo voltando a olhar pra frente. ─E então, o que eu fiz pra ele?
─Você existe, esse que é o problema pato idiota. – ele diz num tom irritado.
─Hã?
─Por quanto tempo mais vai ficar ignorando o que sente pato? Se é que você sente alguma coisa.
─Do que você está falando? – estou confuso, do que essa galinha idiota tá falando?
Ele me puxou bruscamente pelo braço me virando pra ele e me empurrou de uma vez contra o parapeito lateral, pressionando nossos corpos.
─O que diabos você tá fazendo Ikki? — digo irritado, ele queria começar uma briga? Não me lembro de tê-lo provocado tanto pra ele querer entrar nos socos tão cedo.
Ele não respondeu, porque percebi que a posição em que estávamos não sugeria que ele queria briga, e foi isso que me deu medo.
Ficou me olhando intensamente e de repente levou a mão na minha cintura e foi levantando minha camisa.
O que deu na cabeça desse imbecil?
Ahh, mas isso não vai acontecer mesmo.
Dei uma joelhada no estomago dele e rapidamente o mobilizei no chão com as mãos nas costas, graças a Deus tenho ao menos força pra isso.
─Ficou maluco, idiota? Porque tá fazendo isso? — digo enquanto ele geme de dor com a cara no chão.
─Eu só queria fazer um teste pato idiota.
─O quê?
─Eu queria comprovar uma coisa.
─Queria comprovar se eu tenho força pra quebrar seus ossos por acaso?
─Não idiota. — ele diz e começa a aquecer o corpo com o cosmo tão rápido que se eu não o soltasse acabaria queimado.
─Queria ver se você sentiria repulsa quando eu o tocasse desse jeito.
─Claro que senti idiota, você é homem caramba.
Ele me olhou e suspirou desapontado.
─Isso tá complicado. — ele diz balançando a cabeça e se levantando.
─O quê? Explica isso direito, mas explica daí. — digo mantendo distancia dele.
─Calma, não vou te agarrar de novo.
─Pra começar me explica porque me agarrou.
─Queria confirmar se você não gosto de homens.
─Claro que não gosto. Por quê?
─Senta aí. — diz sentando-se no chão e me esperando já que eu ainda olhava desconfiado pra ele. ─Senta logo pato, não vou te agarrar de novo, você não faz meu tipo.
─Hm. — sento, mesmo desconfiado.
─Olha, eu acho que não devo me envolver nisso, mas como se trata do meu irmão resolvi intervir.
─Hum? O que o Shun tem a ver com isso?
─Primeiro quero saber como você o vê, sente alguma coisa por ele?
─Bom, sempre gostei dele, sinto muito carinho por ele.
Ele me olhou sério depois baixou o olhar.
─Há alguns meses o Shun se envolveu com um babaca aí...
─O Hayato.
─É, como sabe?
─Me falaram sobre esse babaca.
─Esse virou o nome dele agora. — Ikki diz rindo.
─Continua.
─Bom, desde o começo eu não gostei desse cara, ele era controlador demais com meu irmão, mas o Shun é teimoso, não se importou com minha opinião, ele ficou arrasado quando tudo desmoronou. Foi muito difícil o fazer melhorar e eu não quero que ele passe por isso de novo.
─E porque você está me dizendo isso?
─Ele gosta de você pato.
─Porque todo mundo fica me dizendo isso? O Shun mesmo disse que só me considera um amigo.
─Acha que eu sou idiota pato? Eu conheço meu irmão muito bem, e ele conviveu com você bastante tempo, você já devia saber quando ele está mentindo.
─Mentindo?
Ele me olhou e suspirou balançando a cabeça.
─Fiquei cansado de ficar só observando, o Shun também não estava bem quando viajou, não quero que ele passe por isso de novo.
─Ele não está bem?
─Mas isso não importa, não é? Você não gosta dele né.
─Claro que gosto. Ele é meu amigo.
─Não foi isso que eu quis dizer pato imbecil.
─Eu sei que não é. – digo irritado. ─Ele sumiu, ele me disse que não ia... Sinto falta dele o tempo todo, eu não tenho dormido direito, nem me alimentando, não consigo me concentrar nem fazer droga nenhuma... eu não sei em que momento a presença dele se tornou tão importante. Com o tempo eu percebi que isso era bem mais. Imagina o quanto isso é estranho pra mim? Eu estou dependendo exclusivamente da presença do Shun, é ele que me conforta, é dele que eu preciso, ele é importante, e não só como um amigo... Deve ser por isso que ele se afastou de mim, está fugindo, e eu entendo, é uma completa ofensa que eu o veja de outra forma, mas ele não quis me dizer pra que eu não me sinta mal... E isso tudo é tão... tão esquisito. E não é como se eu gostasse de homens, porque eu não gosto, entendeu? Não gosto. Isso é totalmente fora dos meus padrões, mas simplesmente aconteceu... eu gosto só do Shun. — digo de imediato e me surpreendo com minhas próprias palavras, de onde saiu isso?
Ikki me olhou surpreso também. E sorriu.
─Eu quis dizer que... Eu só, não foi isso que... – estou nervoso, o que foi isso?
─Calma pato.
─Não pense errado frango, eu só...
─Tem ideia do quanto foi difícil pra eu admitir também? – ele diz sorrindo.
─Eu não tenho nada o que admitir.
─É mesmo? Negar é o primeiro sintoma da sua opção.
─Não tem nada de opção.
─Com o tempo você vai se conformando.
─Quer parar com isso, por favor.
Ele me olha sério dessa vez.
─Eu me lembro da Lilia. — ele disse.
─Hã? Lembra-se dela?
─Sim, eu estava no santuario quando vocês foram lá.
─Ah é.
─Sei que é difícil Hyoga. — ele disse ‘Hyoga’? Chamou-me pelo nome?
─Embora eu não a tenha conhecido bem pude ver o quanto incrível ela era, me lembrava a Esmeralda. Sei que é difícil, passei pelo mesmo, fiquei por tanto tempo angustiado e me martirizando pela morte dela, até tentei um relacionamento com Pandora.
Fiquei o observando em todo o discurso.
─Mas não deu certo entre nós, a única pessoa que me confortou de verdade foi o Shaka. Acha que gostei dele logo de cara? Eu o odiei por ele tentar algo assim comigo, mas o tempo foi passando e o modo como eu o via foi mudando, era ele que sempre estava lá, era ele que me ouvia, foi aí que passei a acha-lo atraente, então quando dei por mim eu já estava apaixonado. Não estou dizendo que você pode estar passando pelo mesmo, mas acho que pelo modo como você falou sugere que você gosta mesmo do Shun.
─Eu gosto sim, mas... mas não desse jeito. – porque estou tão nervoso?
─O tempo está passando Hyoga, eu sei que é doloroso pensar em outra pessoa mesmo quando as lembranças da sua esposa ainda é tão recente. Mas eu gostaria que você pensasse sobre o Shun com cuidado, se estou falando que ele gosta de você é porque ele gosta mesmo. Eu te conheço a muito tempo Hyoga, gosto de você, e nunca iria me opor se você e meu irmão ficassem juntos.
─Mas eu não...
─Pense sobre isso. – ele disse se levantando e foi embora.
O que há comigo? Desde quando comecei a pensar no Shun de forma diferente? Quando foi que isso começou? Não. Eu não gosto de homens, estou confundindo as coisas.
Isso é uma ofensa. Lilia, não posso fazer isso com ela, não posso gostar de um homem. Isso é totalmente errado.
Nunca daria certo, não sinto atração por ele, não me imagino seguindo uma vida com ele.
Tem razão Ikki, o tempo está passando, e é assim que vai continuar. Chega se insistir, Shun estava certo em se afastar, é o melhor pra nós dois.
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Estou em Tóquio novamente, pelo Miguel, por ele.
Mas estou com medo da reação que o Hyoga vai ter quando me ver. Ele deve estar furioso comigo.
Bom, não tenho escolha, tenho que enfrenta-lo.
...
Voltei pra festa, todos ainda estão lá, mas o Ikki já foi embora, o imbecil colocou minhocas na minha cabeça e vai embora sem mais nem menos.
Preciso de um copo d’agua. Preciso limpar minha mente. Esquecer... é isso, tenho que esquecer o Shun, definitivamente.
─Tudo bem Hyoga? – Millo pergunta vindo pra cozinha.
─Vou ficar. – digo suspirando.
Quando menos espero meu celular toca. Minha sogra?
─Oi Irina.
─Alexei. – ela diz chorando.
─O que houve? O que você tem Irina. – estou preocupado.
─É o Andrey, Alexei. Ele teve uma parada cardíaca.
─O quê? – Ah, meu Deus.
Ela chorava muito, então pareceu que alguém pegou o celular dela.
─Alexei, sou eu.
─Adam?
─Sim. O estado do Andrey é delicado, ele está na UTI.
─Meu Deus... Quando aconteceu?
─Hoje de manhã... Hyoga, eu não sei se ele vai... aguentar. – ele diz baixo.
─Passe pra Irina. – digo e ouço novamente Irina chorando.
─Alexei, estou com medo do pior. – ela diz.
─Fique calma, vou pegar o primeiro avião que eu conseguir e logo estarei aí.
─Está bem.
─Juro que tentarei chegar aí pela manhã. Vai ficar tudo bem. Descanse, estou a caminho. Passe para o Adam.
─Alexei...
─Adam, vou voltar.
─Hum? Tem certeza?
─Sim, conto com você pra cuidar de tudo enquanto isso.
─Certo, entendi. Até logo então... ah, fique sabendo logo, estamos tendo nevascas frequentes por aqui, talvez seja dificil conseguir algum voo.
─Entendo, mas vou tentar. Até logo Adam. – digo e desligo.
─O que aconteceu Hyoga? – Millo me pergunta preocupado.
─...
Estou pensando, vou voltar pra casa. Lilia, vou voltar pra casa.
Minha mente está a mil. Estou preocupado com Andrey, mas ao mesmo tempo tenho receio de voltar pra minha antiga casa. Lilia, ela está por toda parte lá.
Não estou preparado pra isso, não estou. Isso vai recomeçar. Tenho medo.
─Hyoga! – Millo volta a me chamar.
─Hum? — Millo me olha com grande preocupação. ─É o Andrey, ele... Ele teve uma parada cardíaca. — digo engolindo o seco.
Eu não estava preparado pra isso, por Deus, isso nunca acaba.
─Meu Deus! – Millo diz surpreso e triste.
Começo a discar um numero.
─Pra quem está ligando?
─Pra companhia aérea. — digo e começo a falar.
─... Sim, isso mesmo, duas passagens pra Moscou, uma pra criança. Pra hoje mesmo... Isso. Alexei Yukida... Certo, certo... Ok. Obrigado. – desligo.
─O que vai fazer?
─Voltar pra casa.
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