Destino

12 Confronto... Adeus?


Notas iniciais
Desculpem a demora, mas aí está. Boa leitura ^_^

Me tornei inacessível a muitos, mesmo meus amigos mais próximos tinham dificuldades pra se aproximar da minha fortaleza de indiferença.

Na vez de Adam foi até cômico. Ele estava em frente minha porta com um grande casaco reclamando sem parar.

Insistiu fortemente pra que eu o deixasse entrar pra que cumprisse sua parte de consolo agendada na mente dele.

─Porra Alexei! Me deixa entrar, meu rabo tá congelando nesse frio. — disse impaciente da minha calçada enquanto batia e tocava a campainha ao mesmo tempo. Devo mencionar que estávamos no inverno?

Ele ficou lá por uns quinze minutos, mas não foi embora, as batidas tornavam-se cada vez mais desesperadas. Acho que a missão oficial de consolo ao amigo mudou pra missão de sobrevivência quando ele viu que não me convenceria.

─Abre a droga dessa porta, porra!

─Olha a boca Adam, tem criança no recinto. Seja mais cortês. — digo até que me divertindo enquanto o observava pelo olho mágico, é pra ele aprender a não me contrariar quando digo que quero mergulhar na vodca com minhas angustias sem ninguém pra atrapalhar.

─Cortesia porra nenhuma! Eu também tenho uma garotinha me esperando em casa, mas estou aqui em frente à porta do meu amigo imbecil pra anima-lo um pouco.

─Agradeço muito.

─Mas não parece, porra! Abre logo a droga dessa porta ou eu a derrubo e te jogo aqui na neve o restante da noite. — ele ameaçou, se ele soubesse que isso não tem efeito nenhum sobre mim não colocaria tanta confiança nessas palavras.

─Você nem imagina o quanto isso me amedronta. — digo irônico.

─Por quanto tempo vai seguir com isso, Alexei? Me deixa entrar, vamos conversar.

Fiquei em silencio, não quero conversar, será que ele não entende?

─Não quero falar.

─Então não fale, mas ao menos me deixe entrar e me aquecer... Te faço companhia.

Suspirei vencido.

─Certo. — digo abrindo a porta. ─Mas em silencio. — completo e assim que giro a maçaneta ele a abre de supetão e me pega de guarda baixa com um soco e me fez bater as costas contra a porta com o impacto.

Não doeu tanto, sou um cavaleiro mesmo, mas realmente fui pego de surpresa, ando distraído demais ultimamente, não preciso nem dizer por quê.

─Mas que merda Adam. — digo aborrecido massageando o queixo.

─Você merecia. — ele diz irritado e indo pro sofá enquanto esfregava os braços freneticamente pra se aquecer.

Fecho a porta com força, mas nunca consigo ficar irritado com Adam por muito tempo, ele se tornou um grande amigo, estudamos a faculdade juntos, ele é cirurgião também e trabalhamos no mesmo hospital, desde que o vi no primeiro dia de aula logo me identifiquei. Ele era só alguns meses mais velho que eu, tinha cabelos curtos e loiros como os meus, éramos muito parecidos, muitos achavam que éramos irmãos. A diferença é que ele era um pouco mais alto e sempre pareceu ter o corpo mais forte e tinha olhos verdes.

Brigávamos bastante, não muito diferente da minha relação com o Ikki, mas o Adam era um contraste dos irmãos Amamiya, às vezes ele era compreensivo e condescendente como o Shun e outras vezes era bruto e impaciente como o Ikki. Eu o adoro.

Ele não sabe que sou um cavaleiro, e nem quero que ele saiba, não que eu não confie nele, mas sim porque em meu intimo eu tinha a necessidade de parecer normal pra alguém próximo. Que me visse por outro angulo.

Adam era como um irmão mais velho pra mim, e eu gostava da sensação de se ter um irmão. Parece tolice, mas eu o via realmente como parte de uma família que nunca tive, eu queria ter a sensação de proteção. Muitas vezes eu tive o ímpeto de dizer-lhe tudo, mas uma parte de mim lutava pra manter aquela figura fraterna que ele tinha por mim, eu não queria quebrar aquilo revelando algo que não nos acrescentaria em nada, e que o faria me ver com outros olhos, não mais protetor, mas admirado e surreal.

Quero que ele me veja sempre como eu sou, humano, e não como uma aberração mitológica. Talvez algum dia eu conte tudo a ele, mas não agora.

Criamos bons laços, e se eu não considerasse tanto Camus e Millo por laços mais fortes, seria Adam a ser meu padrinho de casamento.

Ele perdeu o pai quando tinha seis anos, e isso nos fez mais ligados ainda, a mãe dele me trata como um filho também.

Nossa relação sempre foi realmente fraterna, brigávamos muito, e nos reconciliávamos o tempo todo, como verdadeiros irmãos. Talvez eu tivesse com ele o mesmo sentimento que alimentei com Isaac. Crescemos juntos, e foi como se eu tivesse ganhado cada qual em momentos diferentes os quais mais se adequavam e eram necessários. Isaac cuidou de mim na infância, e Adam cuidou de mim na juventude. Acho que o meio termo de adolescência foi preenchido em minha frente por meus outros cinco amigos, mas Adam segue com minha vida adulta e normal, ele era o que eu achava que devia seguir, afinal ele é uma pessoa normal, meus outros amigos não, e acho que isso sim foi a grande diferença.

─Você está horrível. — ele comenta olhando pra mim.

─Novidade. — digo sentando no sofá com ele.

─E então cara...

─O que combinamos?

─Silencio.

─Certo.

Ele ficou quieto, mas foi por pouco tempo.

─Como está o Miguel?

─Como sempre, pedindo pela mãe.

Ele suspirou pesadamente, sei que ele quer falar, dizer palavras de incentivo, ao menos tentar, mas sei que minha postura decidida em não ouvir enrolação desbanca qualquer indicio de resistência dele. Então só lhe resta suspirar resignado.

Olhamos juntos pra garrafa de vodca pela metade em cima da mesa.

─Se afogando no álcool. — ele comenta. ─Está ajudando?

─Nenhum pouco.

─E porque não para?

─É anestésico.

─Hum. -olhou em volta. ─Isso aqui tá um lixo.

─Eu sei.

─Onde está o Miguel?

─No quarto, brincando. — digo pegando a garrafa e enchendo o copo de novo, ele me olha inquisidor, mas não me incomodo.

─Vou ver ele. — ele diz e se levanta indo pro quarto.

Pouco depois ele retorna com o Miguel no colo, todo sorridente, natural já que eu raramente tenho o deixado sair pra ver outras pessoas, afinal eu não saio também.

─Ele já jantou?

─Já.

─Já tomou banho?

─Não está vendo?

─Ele está dormindo na hora certa?

─Adam, eu posso estar uma droga, mas não deixei de cuidar do meu filho, viu.

─Não foi o que Annia me disse.

─Annia anda espalhando bobagens demais por aí.

─Porque não foi trabalhar hoje? – ele diz colocando o Miguel no chão pra brincar.

─Estava ocupado.

─É, tô vendo. – diz irônico.

─Foi Annia que te mandou aqui?

─Eu vim porque sou seu amigo Alexei, e estou preocupado com você.

─Não tem com o que se preocupar.

─Já deu uma boa olhada no espelho?

Dou de ombros.

─Por um acaso não está querendo assumir o papel de papai Noel esse ano no shopping, quer? – diz apontando pra minha barba, que ultimamente estou com uma preguiça desgraçada pra cortar. ─Só que você se esqueceu de um detalhe Alexei, o papai Noel é gordo, você está indo pelo retrocesso, está secando, não anda se alimentando?

─Às vezes, não sei.

─Annia tem vindo te deixar algumas coisas?

─Tem. – tenho que admitir que Annia realmente tem sido uma amiga incrível nesses últimos tempos, e realmente está preocupada comigo, apesar das minhas insistentes palavras pra fazê-la pastar longe daqui. Tenho que pedir desculpas a ela.

─E porque não está comendo? Lembre-se que saco vazio não para em pé.

─Porque estou sem fome ora.

─Acha que uma greve de fome vai trazer Lilia de volta?

Suspirei pesado dessa vez.

─Escuta aqui Adam, se veio pra me encher o saco igual a Annia pode se retirar agora mesmo.

─Estamos preocupados com você, porra.

─Eu sei me virar sozinho.

─Dá pra ver.

Ficamos num silencio pesado.

─Como estão a Wendy e a Nina? – pergunto pela mulher e filha dele.

Adam se casou com uma americana, acho que todos que conheço formam uma grande salada mista de nacionalidades. Nina é a adorável filha dele, antigamente Lilia e Wendy faziam planos de como fariam o Miguel e Nina se casarem no futuro. Digamos que eu e Adam ficávamos até que satisfeitos em nos ligarmos realmente em parentesco.

─Estão ótimas.

─Que bom.

─Devia levar o Miguel pra brincar lá em casa com a Nina qualquer dia desses.

─É, quem sabe.

─Estou falando sério Alexei. Quando foi a ultima vez que saiu dessa casa?

─Hoje de manhã pra pegar o jornal.

─Mentira, tem pilhas de jornais se acumulando na sua porta.

─Certo, vai me punir por não ter lido as noticias nos últimos dias agora?

─Vai à merda Alexei! Estou cansado disso, sei que está sofrendo e isso me dói muito cara, nunca quis te ver assim, mas você já está beirando o desespero desse jeito, quer acabar com sua vida agora?

─Ao que parece você não sabe que já estou desesperado há meses Adam, quando Lilia esteve naquela cama no hospital não teve um único momento que eu estivesse tranquilo, essa dor não é de agora.

─Todos nós sentimos falta dela.

─Então quer marcar o placar de quem sofre mais? Mas que merda Adam, estou cansado de vocês vindo aqui pra me encher o saco.

Eu disse irritado praticamente gritando com ele, e pude ver que isso realmente o magoou, seus olhos já diziam tudo.

─Acho que seu sofrimento não o faz perceber no que você está se transformando. Tem pessoas aqui que te amam e te querem todo o bem do mundo Alexei, mas parece que você quer se consumir nesse sofrimento até que ele te leve pro abismo onde nenhum de nós possa te alcançar. Te considero muito Hyoga, é a única pessoa mais próxima que posso chamar de irmão, e nunca pensei que diria isso, mas você realmente está se tornando uma droga de um filho da puta imbecil.

Olho indiferente pra ele.

Ele suspira.

─Olha... eu estou preocupado com minha saúde. – ele comenta.

─Hum? – paro de beber imediatamente e olho preocupado pra ele.

─Eu não ando me sentindo muito bem ultimamente, acho que eu até comentei com você.

─Comentou não.

─Certo, então estou comentando agora.

─Hunf.

─Então... eu vou fazer uma biopsia amanhã, e estou meio... nervoso. Você poderia vir comigo?

─É claro. – digo logo. ─Vai fazer no hospital mesmo?

─Não, isso deixaria Wendy nervosa, ainda não contei pra ela, vou fazer em uma clinica no centro. Te passo o endereço, poderia me encontrar lá?

─Sim, claro. – digo preocupado. ─Vai ficar tudo bem Adam. Tenho certeza que esse exame vai dar negativo. – tento anima-lo.

─Tomara. – ele diz meio desconfiado, estranhei, talvez ele esteja nervoso mesmo.

No dia seguinte deixei o Miguel com Sasha e fui a tal clinica, assim que estacionei vi Adam me esperando na entrada, ele pareceu feliz em me ver.

─Isso é uma clinica mesmo? – digo estranhando o lugar, parecia mais um consultório terapêutico.

─É claro. – fiquei olhando a fachada quando ele pegou alguma coisa do bolso. ─Quer? – diz me oferecendo uma pastilha.

─O que é isso?

─É de menta.

─Não obrigado. – digo dando de ombros.

─Vai, pega um. – diz insistindo.

─Tá, tá. – só pego pra não ficar de teimosia e fazer logo as vontades dele, já que ele deve estar nervoso. ─Então, vamos entrar? – pergunto colocando a pastilha no bolso e ele percebeu.

─Ao menos finja que aceitou de bom grado Hyoga. – ele diz impaciente por causa da porcaria da pastilha que eu não coloquei logo na boca.

─Tá Adam. Você tá um saco hoje. – digo pegando a pastilha do bolso e engolindo de uma vez só.

Ele viu e sorriu satisfeito.

─Vamos. – ele diz sorrindo e entrando na clinica.

A recepcionista nos viu e foi logo falando.

─É só seguir o corredor até a penúltima porta a esquerda. – orientou.

Quando chegamos à sala o Adam me deixou passar primeiro, estranhei, e logo em seguida foi falando.

─Desculpe Hyoga, é pro seu bem. – disse e fechou a porta atrás de mim e só ouvi a tranca. O que está acontecendo?

─Adam? – digo tentando abrir a porta, mas estava mesmo trancada.

Olhei em volta, era uma sala toda pintada de branco e com uma luz clara bem forte, tinha uma decoração bem simples, uma ou outra planta, poucos móveis, uma mesa de mogno no centro, com uma cadeira de cada lado, uma estante com poucos livros e no canto da sala um divã com uma cadeira ao lado. A frente dava pra um jardim, a parede toda de vidro onde uma fonte do lado de fora jorrava agua continuamente e moderadamente escorrendo pelo vidro. Na mesa tinha um mp3 tocando baixo uma melodia calma.

É realmente um consultório terapêutico. Mas que porra é essa? É melhor comprar seu caixão Adam.

─Adam, abre a porra dessa porta agora! – digo irritado, parece até uma vingança dele por ontem.

─Só aguarde um pouco Alexei. – ele diz do outro lado.

─Porque me trouxe aqui seu imbecil? – digo forçando a maçaneta. ─Abre logo, droga!

─Não se preocupe Hyoga, daqui a pouco você vai se sentir melhor. – era uma voz feminina, Annia?

─Annia? Você está por trás disso também?

─É pro seu bem Alexei. – ela diz meio receosa.

─Sua idiota! Vou derrubar a porra dessa porta e vocês dois vão me pagar por isso. – digo extremamente irritado gritando com os dois. ─Não sou nenhum maluco psicótico que vocês precisam amarrar em uma camisa de força, seus imbecis!

Ouço-a chorar.

─Tudo bem Annia. – Adam diz. ─Ele só está um pouco revoltado, ele não está falando sério. – ele tenta consola-la.

─Porra nenhuma! Estou falando sério sim. – grito com eles. ─Abram a porra dessa porta agora!

Ouço-a chorar mais ainda. Estranho, estou me sentindo mais sonolento.

─Me perdoa Alexei, mas você não quis conversar comigo... você precisa conversar com alguém. – ela diz aos soluços. ─Você vai ver que vai se sentir melhor.

─É, eu vou melhorar sim, vou melhorar quando vocês abrirem a merda dessa porta e me deixarem ir pra casa e ficar sozinho em paz. – digo socando a droga da porta, ouço ela se espantar.

─Hyoga, cala a droga da boca, Annia não merece ouvir isso de você. – Adam diz irritado.

─Que se foda! – digo realmente furioso. Estou incrivelmente intolerante no momento, isso não tinha acontecido até então. Mas a culpa é deles.

Só ouvi os passos deles se distanciarem. Esse imbecil, filho da mãe! Vou matar ele lenta e dolorosamente, ele e a Annia.

Não sou nenhum louco varrido pra precisar consultar uma droga de psicólogo. Não é só porque estou um pouco deprimido que precisavam chegar a isso.

Minha visão vai ficando turva. Estou ficando tonto, tenho que me sentar.

Sentei na cadeira de frente à mesa. O que há comigo? Suspiro pesadamente enquanto massageio os olhos.

Vejo uma jarra e um copo de agua na mesa, pego e bebo de uma única vez, minha boca está seca, porque estou assim? Foi aí que me lembrei de um detalhe, a porra da pastilha que o Adam me deu, era calmante? Esse imbecil vai me pagar por isso.

Olho pra mesa e vejo uma pasta marrom. Nela tem escrito no canto: Paciente: Alexei Hyoga Yukida.

Ao que parece a dupla dos meus amigos idiotas passaram todos os detalhes do meu estado deprimente pro tal psicólogo.

Estou sem meus óculos então tenho que forçar a vista pra ler.

“Humor depressivo ou irritabilidade; ansiedade e angústia; desânimo; desinteresse; falta de motivação e apatia; desesperança; desespero; desamparo e vazio; pessimismo; baixa autoestima;”

Mas que merda é essa? Minha ficha tem tudo isso mesmo?

Foi quando ouvi a porta se abrindo. Um sujeito entrou e trancou a porta de novo. Minha vista realmente não está muito boa, tenho que forçar pra poder focar e enxergar o sujeito.

─Oi Alexei. – sorri debilmente como se tivesse acabado de ter um orgasmo.

─Quem é você? – digo emburrado.

─Sou o doutor Nikolai. — um sujeito de apenas alguns anos mais velho que eu, se passando de sábio. ─É um prazer conhecer o cirurgião chefe do hospital de maior prestigio de Moscou. – diz sorrindo e oferecendo a mão em cumprimento. Ignoro.

─Bom... – diz sem jeito e se sentando em sua cadeira de frente pra mim. ─Vamos começar? – ele diz sorrindo e pegando a pasta da minha mão.

─Abre a droga daquela porta. – digo sério apontando pra trás.

─Ora Alexei, vamos conversar um pouco tá bom. – diz sorrindo. ─Seus amigos tiveram tanto esforço pra te trazer aqui. Que tal ao menos tentar?

─Falei pra abrir a porra da porta. – digo pausadamente e ameaçadoramente levantando e batendo forte com as mãos na mesa.

Ele permanece sorrindo, esse cara tá tranquilo demais pro meu gosto.

Minha cabeça roda de novo e tenho que me sentar pra não perder o equilíbrio.

─Temos duas horas Alexei, vamos conversar um pouco, até lá o efeito do calmante passa e você vai poder ir pra casa, o que acha?

─Eu acho que você não entendeu o que eu falei. – digo irritado massageando as têmporas. ─Eu quero ir embora, agora!

─Você não vai a lugar algum. – ele diz sério agora. ─Ou você se acalma ou vamos começar tudo de novo, tenho várias seringas com calmante aqui nessa gaveta, você pode até dormir um pouco, mas quando acordar vamos conversar.

Olho ameaçadoramente pra esse sujeito atrevido, se eu estivesse em meu estado normal ele já teria visto gelo por todo lado.

─Acho que você não tem amor a sua vida. – digo irritado.

─Está me ameaçando Alexei?

─Se você quer ver assim, por mim tudo bem.

─Certo, vou ignorar isso. – ele diz suspirando. ─Vamos conversar um pouco, como você se sente?

─Irritado.

─Ah, isso parece obvio. – diz rindo. ─Que tal falar um pouco sobre você?

Fiquei emburrado cruzei os braços e desviei o olhar pra um ponto qualquer da sala. E ele só me observava.

E assim permanecemos.

─Sabe por que está aqui Alexei? — ele disse calmamente, querendo que eu dissesse alguma coisa já que estávamos a mais de quinze minutos naquele silencio.

─Estou aqui porque meus amigos babacas fizeram um complô contra mim e me fizeram vir aqui bancar o retardado.

Ele suspirou cansado, como se estivesse lidando com uma criança.

─Você está depressivo Alexei, sabe disso não é? Você precisa de ajuda.

─Quer parar de dizer meu nome a cada cinco segundos, por favor, não sou nenhum doente mental pra me tratar feito criança, e pro inferno com sua opinião. Não preciso de droga de ajuda nenhuma.

─Seus amigos estão preocupados com você Alexei.

─Pouco me importa.

─Por favor, Alexei, me ajude a ajuda-lo, não quer falar um pouco sobre como você se sente?

─Não me venha com esse papo, sei pelo que estou passando, e se falar resolvesse alguma coisa eu falaria pelos cotovelos, mas essa droga de dor não vai passar só porque estou falando com você.

─É um começo, você vai ver que falar sempre alivia a tensão.

─Já falei pra não tentar me enrolar, não sou nenhum amador, sou médico também droga, acha mesmo que não estudei psicologia pra lhe dar com o psicológico de pacientes? Posso lhe dar uma aula agora mesmo se você quiser. — digo irritado.

Ele me olhou sério, acho que feri seu ego, ótimo, um ponto pra mim.

Ele começou a anotar alguma coisa em minha ficha em cima da mesa.

─O que diabos está escrevendo aí? — digo irritado, acho que ele está fudendo com minha ficha só por causa do que eu disse agora, sei bem que se as coisas forem muito sérias segundo a bosta do diagnostico dele eu posso até ser obrigado a me internar pra resolver o problema de meu cérebro danificado de amargura.

─Hum, irritabilidade, arrogância e apatia. — ele comentou.

─Foi isso que escreveu aí?

─Uma atitude assim é sintoma de uma depressão nervosa, bem comum, mas também agressiva, não aceitar ajuda também é sintoma, você está deprimido e zangado ao mesmo tempo. Mas você já sabe né, já fez aulas de psicologia não é mesmo?

Filho da puta!

E ainda por cima ele diz com um sorriso que poderia até soar irônico, mas acho que pode até ser minha mente se confundindo pra formar mais motivos pra odiar esse cara.

Fiquei calado contendo minha imensa vontade de esmurrar esse babaca.

─Agora não quer mais falar? — ele pergunta.

─Vai pro inferno. — digo irritado.

─Hum, seus amigos disseram que você está tendo perda do apetite e retraimento social.

─...

─Está tendo redução do interesse sexual também?

─Vai se ferrar, isso não é da sua conta.

─Hum, estou vendo que sim. Não que falar sobre Lilia?

Fico calado.

─Sobre seu trabalho então? — esperou, mas não respondi. ─Diz aqui que você não está se saindo muito bem ultimamente. — continuei calado, ele me olhou e continuou a ler. ─Bom, vamos ver aqui, perda de prazer nas atividades diárias (anedonia), alterações cognitivas (diminuição da capacidade de raciocinar adequadamente, de se concentrar ou/e de tomar decisões), psicomotoras (lentidão, fadiga e sensação de fraqueza, falta de concentração), falta de tato ao lhe dar com os pacientes, mas por incrível que pareça não consta nenhum erro médico, porém só de ouvi-lo agora posso apostar que não está longe disso.

─Pode até ser, quem sabe se você for meu paciente. — digo o olhando ameaçador.

─Por favor Alexei, acha que é o primeiro que me ameaça?

─Tenho certeza que não. – digo e ele me olha aborrecido, bom, com pequenas vitorias até que me satisfaço.

─Saiba que você está sendo até gentil pros padrões que recebo aqui com frequência. – ele comenta.

─Então acho que devo me esforçar mais.

─Normalmente você é irônico e sarcástico assim? Beira a neurose.

─Vai se ferrar.

─Não quer falar um pouco sobre sua vida?

─Já disse que não.

─Tem dormido nos últimos dias? Parece bastante abatido, insônia também é um sintoma.

─...

─Tem bebido?

─...

─Seus amigos disseram que sim. — ele comenta, vou recomeçar a planejar o assassinato do Adam.

Ele suspirou.

─Sei que está triste Alexei, sei que dói. Às vezes procurar conforto com a família ajuda bastante.

─Sou órfão. — digo irritado.

Ele calou-se de imediato.

─Perdi minha mãe quando eu tinha seis anos, ela morreu afogada na minha frente, — ele me olha surpreso, ótimo acho que sou capaz de traumatiza-lo e tirar aquela pose arrogante dele. -... Depois fui mandado pro Japão, um país completamente estranho pra mim, e eu nem entendia droga nenhuma do que eles falavam, depois sofri por vários anos em... — me calei antes que revelasse algo mais sobre meu treinamento e depois nas várias lutas que travei, as muitas vezes que saí arrebentado, das muitas vezes que também fui parar em um hospital por causa disso. ─Porque diabos estou te contando isso? — digo irritado comigo mesmo por estar caindo na dele e começado a falar como ele queria.

─Porque parou? Estava se saindo bem. — o filho da mãe é esperto.

Fiquei calado de novo, achando ter conseguido alguma vitória com meu silencio.

─Entendo sua revolta Alexei, você já sofreu muito, e parece mesmo ser muito injusto perder a esposa amada também, mas tente ver de outro angulo, você não tinha ninguém, mas conheceu a Lilia e viveu prósperos anos com ela, e ela ainda te deu um filho, que é uma companhia pra vida toda e isso é maravilhoso.

─Meu filho. — digo me tocando, isso é um baita de um detalhe, como não percebi que ando tão afastado dele ultimamente?

─Isso mesmo, seu filho, quer me falar um pouco sobre ele?

─Ele é perfeito. – acabo falando sem conseguir conter um sorriso.

─Hum, isso é ótimo. Ele tem quantos anos?

─Dois. — por um momento sinto uma falta tremenda do Miguel, como se eu não o visse a décadas.

─Tem alguma foto dele? — ele diz sorrindo meigamente.

─Tenho sim. — digo pegando minha carteira. ─Espera um minuto aí. — estou caindo na dele de novo.

─Que foi?

─Está me enrolando de novo.

─Ora, por favor, Alexei, pensei que já tínhamos superado a indiferença.

─Boa tentativa. — digo cruzando os braços de novo.

─Não ia me mostrar a foto do seu filho? — ele pergunta frustrado.

─Não.

─Bom, então vou ter que montar uma imagem dele em minha mente... Ele dever ter cabelos pretos? Castanhos?... Não? Bom, deve ter olhos verdes. Pele clara... — ele continua falando e me fazendo perder a paciência com aquelas suposições erradas.

─Tá, tá, aqui. — digo pegando minha carteira e tirando uma foto pequena em que estamos todos reunidos, inclusive a Lilia.

Ele pega a foto com um grande sorriso vitorioso, foi aí que eu me toquei da minha burrice, tenho que admitir que esse cara é bom no que faz.

─São lindos, seu filho se parece com você.

─Hum.

─Parecem muito felizes. Quando tiraram essa foto?

─No Natal, meu sogro a tirou.

─É sua casa?

─Sim.

─Excelente decoração, foi você que escolheu?

─Foi a Lilia.

─Ela tem bom gosto.

─Ela sempre teve bom gosto pra tudo, ficou semanas escolhendo tudo. — digo sorrindo. ─Acredita que ela só escolheu esse sofá minúsculo porque os outros não combinavam com o papel de parede, depois ficou com vontade de trocar tudo porque percebeu que o sofá era pequeno demais, acabou que tivemos que comprar dois conjuntos, um combinando e outro não, a sala ficou pequena, e nem tinha tanta gente assim pra sentar neles. — digo rindo quando me lembro da Lilia andando pela loja e colocando mil e uma condições pro vendedor providenciar o sofá ideal.

─Ela era criteriosa. — ele comenta sorrindo.

─Era sim. — sorrio triste.

─Fale como foi esse dia. — ela diz balançando a foto.

─Foi um dia divertido, mesmo dando tudo errado, mas acho que tudo que acontece fora do contexto é pra tornar tudo melhor do que planejamos. Nesse dia fizemos a ceia com antecedência, Lilia cozinhava divinamente, mas toda a confusão começou quando faltou o orégano. Ela disse que não ia conseguir fazer nada sem orégano, e era véspera de Natal, tudo é em falta.

─É verdade.

─Mas Lilia era bastante teimosa, então eu tive que ir atrás do bendito tempero, enquanto isso ela preparava as outras coisas com a ajuda da mãe dela...

Comecei a falar e falar, ele me ouvia atentamente, fazia perguntas, rimos, comentávamos alguma outra coisa. Quando dei por mim percebi que tinha falado tudo.

Senti aquele vazio me corroendo. Estou infeliz, sinto a agonia crescendo em mim, a batida do meu coração fica lenta, minha alegria era ligada a ela, e quando ela se foi fiquei desconectado com todo o resto.

Lilia está distante de mim, em algum lugar obscuro. Sinto que poderia fazer o mesmo que Orfeu fez por Eurídice, iria até o Hades atrás dela, por que não o faço? Pelo Miguel.

Não me identifico mais comigo mesmo. Penso em minha casa, em meu quarto vazio e escuro onde só há o brilho da lua entrando pela janela. E ela ilumina o lado vazio da minha cama.

Sinto sua alma, presente por alguns momentos, fecho os olhos, ouço ela me chamando e respondo de volta, mas ela não me escuta quando eu a chamo. Assim que desperto dos meus pensamentos sei que ela não está lá.

Estou no meu limite, sinto uma saudade incontrolável, sinto a dor estagnada em meu coração. Queria sentir novamente o beijo dela, olhar em seus olhos, sentir seu perfume, abraça-la, dizer a ela o quão linda ela é. Dizer que a amo.

Sinto falta, tanta falta.

Quando dou por mim percebo minhas lagrimas caindo incontrolavelmente, olho pro terapeuta que me observa com grande preocupação.

─Você quer um copo d’agua? – ele pergunta receoso.

Só aceno positivamente. Ele me entrega o copo, mas minhas mãos estão tremulas e logo depois que me entrega acabo me descuidando e imediatamente vejo a agua congelar instantaneamente dentro do recipiente e logo deixo o copo cair, só ouvimos estilhaços contra o chão, o barulho agudo de cacos e gelo se espalhando.

─Desculpe. – digo nervosamente.

─Tudo bem, fique calmo Alexei. – ele diz se levantando e se aproximando de mim. ─Como isso congelou? – ele diz olhando surpreso pros estilhaços.

─Não me toque. – digo rápido quando ele vem pro meu lado e imediatamente ele se contém.

─Desculpa, é que eu queria verificar se você está bem. – diz preocupado. ─Aqui ficou tão frio. – ele diz estranhando e esfregando os braços enquanto olhava em volta. ─Não está com frio? – ele me pergunta.

─Preciso ir.

─Mas...

─Você estava errado. – digo sem olha-lo.

─Hã?

─Falar não ajudou. – digo e de uma única vez forço a maçaneta e abro a porta quebrando o trinco.

Tenho certeza que ele esta cheio de duvidas, e extremamente surpreso, mas no momento não estou a fim de ser discreto e nem de explicar nada, não suporto mais ficar aqui. Tenho que sair, rápido.

Passo pela recepção e Adam e Annia estão sentado em um sofá aguardando.

─Alexei! – dizem surpresos quando me veem.

Passo rápido por eles e corro pro meu carro. Não suporto mais ficar aqui.

Me ligaram diversas vezes, deixavam recados angustiados, mas não atendi ninguém, não retornei pra ninguém, e fiquei a noite toda bebendo sem parar.

Já era tarde, então me dirigi pra casa. Mas eu ainda estava desorientado e dirigia bêbado feito louco e aos prantos. Quase bati o carro de novo, mas consegui desviar a tempo.

Parei no acostamento nauseado, suspirei cansado e encostei a cabeça no volante, pensando em Lilia, pensando no passado, em minhas lembranças. Pensando em tudo que perdi.

Uma náusea e uma ânsia terrível passou-se por mim, um mal estar tremendo e em poucos segundos desci do carro e comecei a vomitar, todo o efeito do álcool estava finalmente aparecendo, eu não conseguia parar de vomitar, o pior é que acho que já tinha uns dois dias que eu não comia nada, estava apenas na base da bebida, meu estomago estava vazio e aquilo não passava, parecia que iam sair até as tripas do meu corpo.

Tão rápido quanto veio aquela sensação passou, restou apenas o torpor, e estomago doendo, a dor de cabeça, a fraqueza, ou seja, eu estava só o bagaço.

Voltei pro carro cambaleando, entrei e sentei na marra, meu celular tocou e eu ainda levei um tempo pra achar ele no meu bolso, quando atendi era minha sogra.

─Onde diabos você está Alexei? — perguntou nervosa e enfurecida.

Tive uma conversa bem séria com ela mais tarde, e isso me fez abrir os olhos para o Miguel e me fez perceber que eu poderia perder muito mais se eu não melhorasse. Logo mudei minhas atitudes e aos poucos me forcei a superar aquela depressão.

Até hoje Adam acha que isso é efeito daquela consulta com aquele psicólogo.

...

Me despedi de Misaki e do Ichiro rapidamente no aeroporto e me dirigi pro apartamento do Hyoga. Misaki até me deu uma pequena caixa com um pequeno bolo de chocolate que ela comprou já no aeroporto pra levar pro Miguel, ela lembrou mesmo.

Ainda estava com minha mala, peguei um taxi, estou atrasado.

Quando cheguei a frente ao prédio dele tinha uma carro saindo, o taxista aproveitou a vaga e eu imediatamente me apressei pra descer e ligar pro Afrodite ao mesmo tempo, mas de tão nervoso que eu estava deixei o celular cair, sou um tapado mesmo. Baixei pra pegar o celular que já chamava, logo o Afrodite atendeu.

Ele disse que a festa já tinha acabado. Droga. Paguei logo o taxista e subi rapidamente, ao menos vou deixar meu presente pro Miguel.

...

Liguei pra companhia aérea e me informaram que o próximo voo pra Moscou sairia em uma hora e meia, devido as frequentes nevascas que estavam ocorrendo por lá os outros voos foram cancelados e o único estimado a seguir o itinerário era aquele.

Tive que arrumar tudo às pressas, uma mala com algumas coisas minhas e do Miguel, eu disse a todos o que tinha uma emergência e teria que partir com o Miguel, Camus nos levou ao aeroporto no meu carro.

Deixei Mayuri encarregada de cuidar do meu apartamento enquanto estou fora.

Miguel ficou aos prantos por sair daquela forma, queria ficar, lamentavelmente isso foi acontecer justamente no aniversario dele. Isso é triste.

Entramos no carro e eu fui atrás ajeitando o Miguel em sua cadeira, e tentando acalma-lo ao mesmo tempo já que ele não parava de chorar. Foi quando senti uma presença familiar. Camus deu a partida e eu ainda dei uma olhada pra trás, vi um taxi estacionando, mas não vi ninguém. Hum, deve ter sido minha imaginação.

...

Subi rapidamente e lá só estavam algumas pessoas arrumando a bagunça.

Millo, Seiya e Saori, Shiryu, Shunrei e as crianças... e a Mayuri. Hunf.

─Oi Shun. – disse Shunrei quando me viu.

─Oi gente.

─Oi senhor Shun. – Mayuri diz animada. Hunf, estupida.

─Cadê o Hyoga e o Miguel? – pergunto acomodando minha mala no canto.

─Ah, sobre isso... – Millo diz se aproximando.

Ele me conta tudo.

─Eles... foram embora... por quanto tempo? – digo angustiado.

─Ah, disso eu não sei, o Hyoga disse que vai ficar o quanto for preciso, o estado do sogro dele é delicado, talvez demore semanas pra ele se recuperar. – disse Millo.

Fico tão triste, sinto um remorso tremendo e uma angustia crescendo cada vez mais dentro de mim. Vou ficar sem vê-los, e agora não é por escolha minha, talvez demore semanas, tenho medo que ele decida ficar por lá definitivamente. Saori percebe.

─Eles voltam Shun, não se preocupe. – ela diz sorrindo.

─Voltam, mas a bagunça fica por nossa conta né. – diz o Seiya aborrecido limpando uma mesa.

─Fica quieto aí Seiya, faça seu serviço sem reclamar. – diz Shiryu.

─Ah, o Hyoga vai ficar me devendo essa. – diz indo pra cozinha com uma louça suja.

─Quer bolo Shun? Ainda tem. – Shunrei diz sorrindo e me chamando.

─Não obrigado. – digo contendo o nó na minha garganta, quero chorar, chorar muito. ─Acabei de chegar de viajem, vim direto do aeroporto pra cá.

─Ah, entendo, deve estar bastante cansado. – ela diz compreensiva.

─Um pouco. – suspiro. ─Aqui. – digo entregando o bolo da Misaki.

─Ah, é pro Miguel? – ela diz pegando.

─É.

─É uma pena, mas vou guardar na geladeira de qualquer forma. Vou preparar um pedaço de bolo pra você levar também. – ela diz sorrindo e vai pra cozinha.

Todos continuam com a arrumação. Os filhos do Shiryu estão num canto comendo bolo e brindando com uns balões.

Olho em volta, esse lugar me trás boas recordações da semana que passei com eles. Céus, sinto mais falta ainda deles.

─Senhor Shun. – Mayuri sorri se aproximando. ─Faz tempo que...

─É, faz tempo. Com licença. – digo aborrecido e com uma completa falta de educação e vou me sentar no sofá. Ela parecia triste e surpresa e voltou pros seus afazeres, melhor assim, não quero papo com essa garota.

─Er... Millo. – o chamo enquanto ele desenrola um barbante de uns balões perto de onde estou sentado.

─Hum. – ele diz sem me olhar, parecia concentrado em desembaraçar aquilo.

─Faz tempo que eles foram?

─Hã? – diz me olhando. ─Não, saíram ainda a pouco, não viu o carro saindo? Daqui eu vi o seu taxi chegando assim que eles saíram. – ele diz apontando pra varanda.

─Hum?

─Ora Shun, bem na sua frente, precisa de óculos viu. – ele diz se enroscando no barbante e se entrelaçando juntos com os balões.

─Mas o carro do Hyoga é um Toyota. – digo.

─Era, ele trocou já tem três semanas. – ele comenta me olhando estranho por eu não saber sobre isso. ─Falou que tava dando problemas demais, então ele comprou outro, o Honda cinza que você viu saindo. – ele diz aborrecido e estourando os balões de uma vez já que não conseguiu desenrolar nada.

─Ah, não sabia. – digo surpreso, bem que ele falou mesmo.

Ouço um toque de um celular, e aquela garota prepotente atende. Ignoro.

─Ora, faz quanto tempo que vocês não se falam? – Millo pergunta estranhando.

─Bom... – foi aí que eu me toquei. ─Peraí, você disse que eles acabaram de sair?

─Foi.

─Então se eu correr ainda posso encontra-los. – digo me levantando rapidamente.

─Eu não contaria muito com isso, mas... – não deixo ele terminar, corro pra encontra-los.

─Espera aí Shun. – Shunrei disse vindo com uma pequena caixa de doces onde ela guardou o bolo pra mim.

─Valeu. – digo pegando correndo a caixa e pegando minha mala e saindo.

─Espere senhor Shun. – aquela garota abusada me chama, não estou a fim de falar com ela, essa idiota não percebe?

─Estou com pressa. – digo impaciente.

─Mas é que o senhor Yuki...

─Agora não. – digo logo, não espero ela falar, tenho que correr.

...

Fui pra área de embarque, me identifiquei, mas a garota ficou meio receosa ao me dar uma noticia.

─Err... O voo pra Moscou das cinco foi cancelado senhor Yukida. – ela diz.

─O que? Não tem nem uma hora que eu liguei pra cá confirmando. – digo aborrecido, estou a fim de descontar minhas frustrações nela.

─É que acabou de ser cancelado senhor, a previsão meteorológica de Moscou acabou de alertar que tem uma tempestade chegando, então por medida de precaução todos os voos pra lá foram cancelados. – droga, bem que o Adam avisou.

─E não tem nenhum voo pra São Petersburgo ao menos? – pergunto outra possibilidade de chegar lá, assim ao menos eu iria de lá pra Moscou de trem.

─Não senhor, a previsão é que a nevasca vem do su-sudeste e atingira todo o oeste do país chegando a afetar até mesmo os voos europeus.

─Saco! – digo aborrecido suspirando. ─É só uma nevezinha, qual o perigo nisso?

─Na verdade é bem arriscado senhor. – ela diz baixando o olhar.

─Hunf. – droga. Bem que eu poderia ir pra lá usando minha velocidade de cavaleiro, essa nevasca não significa absolutamente nada pra mim, mas eu tenho que levar o Miguel comigo, e seu corpo infantil e frágil não suportaria uma viajem a essa velocidade e temperatura. Então o jeito é esquecer essa possibilidade.

─Calma Hyoga. – Camus diz ao meu lado com o Miguel em seu colo ainda choramingando.

─Qual a previsão pra sair algum voo? – volto a falar com a atendente que até ficou encolhida quando falei com ela, será que estou tão intimidador assim?

─Não se sabe senhor, talvez amanhã pela manhã. – diz ainda em duvida, acho que ela inventou aquilo, talvez por medo de eu surtar se ela dissesse que não há previsão.

─Droga! – digo massageando os olhos.

─Não se preocupe que assim que confirmar algum voo ligaremos pro senhor. – ela diz com um sorriso forçado.

─Certo. Obrigado. – digo ainda irritado.

Pego o celular e ligo pra Mayuri pra avisar que estamos voltando.

─Você está instável demais Hyoga. – Camus diz me censurando quando vamos saindo da área de embarque.

─O Adam disse que o estado do Andrey é delicado Camus, devo estar ao lado deles num momento como esse.

─Eu sei, mas tem que aceitar as circunstancias. – ele diz tocando meu ombro gentilmente. ─Você precisa se acalmar, relaxar um pouco. Vem, vamos tomar um chá na lanchonete daqui. – ele diz calmamente e seguimos pra tomar a droga do chá, nem me perguntem por que sempre obedeço ao Camus, mas afinal ele é um dos poucos que sabe me acalmar.

Ficamos lá descansando por um tempo até o Miguel perturbar de novo.

─Papa, quero ir pa casa. – Miguel diz choramingando.

─Já vamos Miguel. – digo enfim vamos pra casa.

Passamos pela área de desembarque e muitas pessoas vão saindo ao mesmo tempo e ocupando o espaço. Sinto novamente uma presença familiar, olho em volta, tem pessoas pra tudo que é lado, mas não reconheço ninguém. Minha mente deve estar brincando comigo, só pode.

...

Cheguei ao aeroporto de novo às pressas, tive que pegar um taxi de novo e ainda por cima com essa mala. Passei pela área de desembarque pra chegar à área de embarque, senti a presença do Hyoga se distanciando, e ao longe eu vi um avião decolando. Droga, cheguei tarde demais.

Suspiro angustiado e sento numa das cadeiras de um lugar mais vazio. Pra lamentar.

Sou um idiota, idiota, a culpa é minha, fui eu que evitei o Hyoga e agora mais que tudo quero vê-lo, mas perdi a oportunidade e agora nem sei mais se voltaremos a nos encontrar.

...

Cheguei em casa e todos já tinham arrumado boa parte da bagunça, mas ainda faltava muito. Agradeci aos meus amigos e fiquei com a Mayuri arrumando o restante, enquanto o Miguel brincava com os presentes que ganhou, bom, ao menos o aniversario não foi totalmente por agua abaixo.

Mayuri disse que o Shun apareceu. Ah, agora esse tratante aparece, mas disse que ele logo foi embora sem explicar nada direito. Hunf, tenho outros problemas em minha mente agora, e ficar me martirizando pela ausência do Shun de novo não está na lista.

...

Estou no meu apartamento me afogando em lagrimas e na bebida de novo.

Hyoga se foi, se foi de novo, talvez resolva ficar por lá, talvez encontre alguém. Talvez se apaixone. Eu o perdi, pra sempre.

Já são oito e meia. Estou na sala com meu laptop aberto olhando pra uma pagina em branco. Tenho que continuar esse livro, tenho que parar de pensar no Hyoga, tenho que me concentrar... Não adianta, já estou há horas nisso e nada me vem à mente. Comprei um estoque inteiro de uísque quando vinha pra casa, e agora já estou na sexta garrafa.

Acho que até já extingui meu estoque de lagrimas, pego meu celular, fico olhando pra foto do Hyoga. Quero tanto falar com ele, ligo pro seu celular, mas instantaneamente cai na caixa de mensagem, é logico, ele está fora de área.

“─Oi, você ligou pro Dr. Alexei Yukida, deixe seu recado que eu retorno assim que possível. Até.”

Próprio dele, breve e objetivo. Sorrio, em ouvir a voz dele, passo a ouvir as mensagens anteriores que ele deixou, ele realmente parecia angustiado.

Alguém bate. Droga, quero ficar sozinho. Vou atender a muito contragosto.

─Ichiro?

─Oi senhor Shun. — ele diz sorridente.

─Não tem nem vinte e quatro horas que voltamos da viajem Ichiro, vê se descansa rapaz. — digo entediado e vou fechando a porta.

Ele é um fanático, há momentos que eu simplesmente me canso de tanto ver ele, ficar por tempo demais com alguém é sufocante.

─Espera senhor Shun. — ele diz segurando a porta.

─O que é? — digo impaciente.

─Vim pra passar o relatório da viajem.

─Segunda fazemos isso. — vou fechar a porta e ele novamente impede.

─Mas é que... Bom, poderíamos adiantar logo isso. – ele tenta argumentar.

─Eu tô cansado Ichiro. — digo suspirando. ─Vai pra casa garoto.

─Não vai demorar muito. — ele diz com uma expressão suplicante.

─Tá, tá, entra aí. — digo abrindo passagem pra ele. Saco, acho que ele não percebe quando está sendo inconveniente.

─O senhor estava escrevendo seu manuscrito? — ele diz sentando no sofá e tirando algumas coisas de sua mochila.

─É. — digo entediado.

─Mas não tem nada escrito aqui. — ele comenta olhando pro meu laptop.

─Você veio pra trabalhar ou só fazer perguntas Ichiro? — digo sentando ao lado dele e pegando a garrafa de uísque e enchendo meu copo de novo.

─O senhor está bebendo? — ele diz surpreso.

─É o que parece. — digo tomando uma grande dose de uma vez. ─Você quer? — ofereço indiferente, ele recusa, dou de ombros.

─O senhor está bem senhor Shun? — ele diz preocupado.

─Diz logo o que temos que fazer Ichiro. — mudo logo de assunto, esse garoto não entenderia como é sofrer por amor.

Ele me olha preocupado e parecia até magoado.

─Bom... — ainda parece triste e começa a falar um monte de coisas sobre investidores, livrarias, itinerário, Londres, algo sobre negócios, nem estou prestando atenção.

Suspiro e continuo bebendo. Penso no Hyoga e no Miguel que a essa altura devem estar em um avião indo pra cada vez mais longe de mim.

Sinto vontade de chorar de novo, suspiro e baixo a cabeça e massageio os olhos, não é hora pra isso.

─Tudo bem senhor Shun? — Ichiro diz preocupado tocando meu ombro.

─Tudo, não se preocupe. — digo me encostando do braço do sofá, quase deitando e coloco as mãos no rosto suspirando pesadamente, você nem sabe o quanto tem me feito sofrer Hyoga.

─Shun. — Ichiro me chama, o que deu nele pra me chamar diretamente agora?

─Estou bem Ichiro. — digo ainda deitado de olhos fechados.

Sem mais nem menos sinto um peso sobre mim. Abro os olhos e o Ichiro está inclinado sobre mim.

─Ichiro?

Ele coloca uma mão no meu rosto e começa a me acariciar. Seus olhos mostravam algo que eu nunca tinha visto antes, ele tinha uma expressão... Apaixonada?

─O que tá fazendo Ichiro? — digo preocupado com aquela aproximação, cada vez mais ele pressionava seu corpo contra o meu.

Estava praticamente deitado em cima de mim, o que deu nele?

─Ichiro! — o chamo, mas ele não me ouve, acaricia meu rosto, mexe no meu cabelo e desce a mão pelo meu pescoço.

─Ichi... — ele me beija de repente.

Pela surpresa estou sem ar, desde quando ele gosta desse jeito de mim?

Tento afasta-lo, mas a bebida me deixou zonzo e não tenho tanta força assim.

Ele força meus lábios com os dele e isso me faz entreabrir a boca forçadamente dando a ele a oportunidade de introduzir sua língua na minha boca.

Fecho os olhos com força enquanto ainda tento afasta-lo. Ele passa a acariciar minha cintura, meu peito, isso não vai acontecer, desde quando é tão fácil assim alguém me mobilizar?

Junto forças e consigo tira-lo de cima de mim e joga-lo pra frente, levanto e ele me olha surpreso, deve estar se perguntando de onde eu tirei tanta força.

─Por que fez isso Ichiro? — digo me levantando rapidamente.

─Como assim "porque"? Eu tenho mostrado tanto que gosto de você Shun, e você simplesmente não percebe? – ele diz aborrecido. Mas olha, quem deveria estar zangado aqui sou eu.

─Que tolice é essa agora? – digo mostrando minha irritação também. Acho que é a primeira vez que discuto com ele.

─Eu estou apaixonado por você. – ele grita.

─O que?

─Há muito tempo, desde que o vi pela primeira vez, porque acha que eu quis tanto trabalhar com você? — ele diz exaltado. ─Porque você não vê? — ele diz baixando a cabeça. Droga, isso é tudo que eu precisava, uma dose a mais de dor de cabeça e consciência pesada, eu nunca percebi mesmo que ele gostava de mim.

─Ichiro. — sento perto dele de novo, mais calmo.

─Você não gosta de mim não é mesmo? — ele diz olhando pros próprios pés.

─Olha Ichiro, eu lamento nunca ter percebido isso, realmente estou muito surpreso, não imaginei que sentisse algo assim por mim. – ao que parece Misaki tinha razão desde o inicio com relação ao Ichiro.

─Você gosta de outra pessoa? — ele pergunta me olhando nos olhos.

─Eu...

─Gosta daquele seu amigo não é mesmo?

─Hã?

─Eu vi o jeito que você olha pra ele. Eu sempre o observei atentamente, você nunca olhou pra ninguém daquela forma... Ele tem muita sorte. – diz baixando o olhar.

─Isso não importa. — digo suspirando.

─Porque não?

─Ele não gosta de mim, ele me considera simplesmente um amigo.

─Falou com ele?

─Não, mas eu sei, sempre soube, e é terrível sentir isso... Desculpe se eu nunca notei você Ichiro, nunca quis que isso acontecesse.

─Eu percebi que você estava deprimido mesmo durante toda a viajem. – ele comenta.

Olho pra ele e sorrio.

─Talvez se eu tivesse te notado a mais tempo eu não estaria sofrendo agora Ichiro.

─Shun. — ele diz pegando a minha mão. ─Se eu me esforçar eu sei que posso fazer você gostar de mim.

─Ichiro...

─Me dê uma chance, só uma. — diz me olhando suplicante.

─Não sei se é uma boa ideia, trabalhamos juntos e...

Ele me beija de novo de surpresa, mais gentil dessa vez. Não o afasto, me deixo levar, deve ser o álcool falando mais alto... Mas também não sinto nada, é como se minha boca estivesse dormente.

Tento sentir, mas não consigo. Penso no Hyoga de novo. É ele que eu quero, é ele que eu amo. Quero toca-lo, sentir os lábios dele nos meus, inconscientemente vou montando a imagem dele enquanto beijo o Ichiro.

Imagino que é o cheiro dele, a pele, os lábios finos tomando os meus. Agarro seu pescoço e ele me abraça pela cintura e deita sobre mim. Abro um pouco os olhos e o que vejo é a pele alva do Hyoga, são seus cabelos loiros que estou segurando. Volto a fechar os olhos e sinto cada vez mais prazer só de imaginar que poderia ser ele.

Ficamos um tempo nesse contato.

Quando já estamos sem ar nos separamos. Olho pra ele e não são os olhos azuis claros do Hyoga que eu vejo, são escuros, ele não é loiro, e sua pele não é tão clara. Não é ele.

Fico mais triste ainda.

Ichiro sorri, talvez deve ter entendido que aquele beijo foi um sim.

Não estou a fim de explicar pra ele, ele pode ser uma boa consolação, sei que sou um imbecil por estar usando ele dessa forma, mas é que foi tão bom ao menos imaginar que fosse o Hyoga, que são mãos alheias que me tocam quando fantasio com ele e não as minhas próprias.

Ele me beija de novo e nos aconchegamos mais no sofá, faz tanto tempo que ninguém me toca assim. Ele passa a beijar o meu pescoço enquanto abre a minha camisa.

Não, sinto como se estivesse traindo o Hyoga, mesmo que não tenhamos nada, mas é como trair meus sentimentos por ele. Desculpe Ichiro.

─Espere Ichiro. – digo me desvencilhando dele. ─Isso não é certo.

─Por favor, Shun, você gosta de mim também, sei que sim, pelo menos um pouco, sei que posso fazê-lo me amar. – ele tenta me persuadir, mas não adianta, esse lugar no meu coração já é ocupado pelo Hyoga.

─As coisas não são assim Ichiro, você é meu assistente, trabalhamos juntos e...

─Por favor, Shun, uma chance, só uma chance. – ele suplica voltando a me beijar, ainda não sinto nada.

Suspiro me meio ao beijo, o que eu tenho a perder afinal? Nos separamos e ele me encara em expectativa.

─Vamos sair um pouco Ichiro? – digo enquanto ele me olha confuso.

...

Já eram nove horas quando terminamos a arrumação. Miguel tinha tantos brinquedos novos que nem se importou com a hora e não parecia ter o mínimo de cansaço.

Coloquei até alguns balões e enfeites no quarto dele, pra ele brincar depois, afinal o aniversário dele não foi o sucesso que eu queria então tenho que recompensa-lo de alguma forma.

─Finalmente terminamos senhor Alexei.­ – Mayuri diz suspirando enquanto terminava de passar um pano úmido em uma mesa. É sábado então ela não tem aula, tenho sorte de tê-la aqui pra me ajudar.

─É verdade. – digo massageando o ombro. ─Vamos jantar? – digo terminando de arrumar uma cortina de uma janela. Não tenho certeza, mas boa parte dessa bagunça tem mais cara de Seiya e de Jabu do que das crianças.

─Tá, tô com fome mesmo. – diz se sentando no sofá. ─Não vai ser bolo de novo não, né? – ela diz preocupada.

─Nãão, chega de coisa doce por hoje. — digo logo. ─Quer comer fora? – digo suspirando e sentando ao lado dela no sofá, minha cabeça está começando a doer.

─Não, tô cansada, vamos comer aqui mesmo. Vou preparar alguma coisa. – diz levantando.

─Não esquenta, você está cansada, vou pedir alguma coisa por telefone. – digo e procuro meu celular no bolso. ─Onde foi que eu deixei o celular?

─Eu o vi em cima da mesa da cozinha. – ela comenta.

Levanto e vou buscar, mas ele não está lá. Acho que o perdi em meio a bagunça quando começamos. Pedi a comida pelo telefone da Mayuri e depois passamos a procurar meu celular por toda parte. Afinal o Adam e a Irina podem ligar a qualquer momento, ou até mesmo a companhia aérea.

─Achei! – Mayuri grita animada do meu quarto.

─Até que enfim. – digo indo até ela.

Verifiquei e tinha algumas chamadas perdidas. Do Adam e do... Shun?

A campainha toca.

─Vai lá ver, deve ser a comida. – digo a ela enquanto verifico minhas chamadas.

Adam só me ligou pra dizer que a situação do Andrey continuava a mesma e como a Irina estava. Perguntou se eu consegui algum voo.

O Shun... bom, pra ele eu não retornei, e ele também não deixou recado. Depois daquela conversa com o Ikki resolvi que o melhor é me manter afastado mesmo. Estou com pensamentos confusos demais com relação a ele, esse afastamento é melhor pra nós dois. Sei que pedi pra ele vir, mas não estou a fim de encara-lo no momento.

Mayuri disse que ele veio correndo do aeroporto pra cá mais cedo. Mas não me importo, se ele queria me ignorar então agora vai provar do próprio remédio, até porque nem estou mais tão preocupado com meus sentimentos agora, minha preocupação no momento está direcionada pra Moscou que é onde eu deveria estar nesse momento.

Paguei a comida sentamos no tapete da sala e começamos a comer, até que estou me habituando à companhia e as conversas com a Mayuri. Ela é animada e carismática, gosto disso. Miguel já está habituado a ela, não fica mais com birra e até a obedece, melhor assim.

Ela realmente tem esse ar maternal que poucas garotas tem, talvez por realmente ter cuidado de crianças desde cedo, ela é esforçada e me ajuda bastante. É como se ela fosse quase um Seiya da vida, sinto até uma afeição fraternal por ela, como uma irmã mais nova, bem como ela disse, e pressinto que ela sente o mesmo, até nos falamos mais normalmente agora, confio plenamente nela, embora eu ache que ela ainda me esconde alguma coisa.

...

Fui com Ichiro a uma boate em Kabukichō, quero beber, mas com o Ichiro não dá pra ficar no lugar mais privado, não estou a fim e dispensa-lo e nem de dar um passo adiante dando uma resposta logo de cara pra ele. Então um lugar publico é a melhor opção pra retardar as coisas.

Ele fica receoso quando entramos em um lugar mais afastado. Escolho uma boate qualquer, afinal eu sei que o Hayato frequenta Kabukichō, principalmente nos finais de semana, tenho receio de encontra-lo por aí senão do jeito que estou posso acabar dando nele a surra que o Afrodite me impediu de dar aquele dia. Por isso vamos a uma boate bem afastada onde tenho certeza que não vou encontra-lo.

Sento no balcão e peço minha bebida. Ichiro fica olhando preocupado pra todo lado. Provavelmente ele não frequenta esses lugares. Nem eu, mas quem disse que eu ligo, só quero encher a cara pra esquecer o Hyoga um pouco.

─Esse não é um lugar muito bom Shun. – ele diz olhando em volta enquanto estou bebendo sem dar a mínima pra ele.

─Cala boca, senta aí e bebe Ichiro. – digo impaciente.

─Mas...

Faço um gesto pra ele fechar a matraca e logo ele obedece, mas não é que eu tenho poder sobre ele mesmo. Sorrio tolamente pensando nisso enquanto vejo-o começar a beber mesmo a contragosto.

Olho em volta e ele realmente tem razão, isso aqui é um buraco. A musica é ruim, o lugar também. E tenho quase certeza que é uma boate gay, mas não estou a fim de prestar atenção nesse detalhe. Até a bebida é uma droga, mas não ligo, ainda falta algumas garrafas pra que eu me sinta totalmente inebriado, o problema de ser um cavaleiro é que nada faz efeito rápido sobre nós, e logo agora que eu quero perder a noção de tudo ainda levo um tempo pra conseguir. Saco!

Ficamos assim por um tempo, só bebendo, pelo menos eu sim, o Ichiro só fingia.

Estou totalmente zonzo, mas não paro de pensar no Hyoga um minuto sequer, droga, droga.

Sai da minha cabeça Hyoga, que inferno! Fico incomodado e inquieto.

─Tudo bem Shun? – Ichiro pergunta, ainda não me acostumei com ele me chamando diretamente, gostaria do ‘senhor’ de volta, cadê o respeito dessa joça?

─Infelizmente ainda estou bem. – digo com a cabeça baixa no balcão.

Acho que agora já estou começando a ficar intolerável. Ele fica preocupado e pega no meu ombro.

─Acho melhor irmos. – ele diz.

─Acho melhor você ficar quieto e me deixar beber em paz. – até o barman ficou olhando estranho pra nós.

─Quem de vocês está dirigindo? – ele pergunta se aproximando de nós.

─Sou eu, algum problema? – digo impaciente.

─Não posso deixar você sair assim. – ele diz. Ah, mais essa agora, até um buraco desses tem regras de boa conduta?

─O que você não pode é deixar meu copo ficar vazio. – digo irritado.

─Acalme-se Shun. – diz Ichiro.

─Shun? – ouço uma voz familiar atrás de mim.

Olho pra trás, Hayato? Droga!

...

Terminamos de jantar e descansar um pouco, quando já eram dez e meia fui levar Mayuri em casa. Meu celular tocou quando eu já estava no carro com Miguel e a Mayuri.

─Alô!

─Alexei? — disse uma voz pouco familiar.

─Sim, quem é?

─É o Ichiro, lembra-se de mim?

─O assistente do Shun? — digo surpreso.

─Sim, sim, isso mesmo.

─Como conseguiu meu numero? O que houve? – digo incomodado, o que esse subalterno idiota quer?

─Consegui no celular do senhor Shun, desculpe ligar a essa hora é que eu não tinha mais a quem recorrer, o senhor Shun não está bem e...

─O que? Fique calmo. O que houve com o Shun? – digo preocupado agora.

─O senhor Shun me trouxe numa boate, ele estava deprimido, acabou bebendo demais, bebendo mesmo, nem sei como ele ainda tá vivo – ele diz surpreso. ─... daí o babaca do ex-namorado dele, o Hayato, apareceu, quis levar o Shun com ele e eu fui tentar impedir e... -a voz dele soava fanha, mas não perguntei por quê.

─Fale devagar rapaz, sua voz tá soando esquisita. Além do mais porque me ligou? Sabe que o Shun tem um irmão não é?

─Eu liguei pra ele, o Ikki, ele me disse que não podia vir e falou pra eu ligar pra você.

─Ele o quê? – digo irritado. ─Espera aí. — digo e desligo, imediatamente disco o numero do Ikki.

─Ikki seu filho da mãe imbecil! – digo irritado.

─Já vi que o Ichiro já falou com você. — ele diz tranquilamente.

─Falou sim, vai você pegar seu irmão.

─Você não queria ver ele? Então tá aí sua oportunidade, pato idiota.

─Não dá, eu tô ocupado, e também não é uma boa ideia ver ele agora, estou com problemas demais.

─Vai se ferrar pato, ficou enchendo o saco por mais de mês e agora não quer mais ver ele? Além do mais eu não vou poder mesmo, porque você acha que eu fui embora cedo da festa do seu filho? Eu estou na Grécia agora.

─Então volta ora, pra quê serve seu cosmo?

─Já falei que não dá.

─E porque não?

─Quer mesmo que eu fale?

─Claro que quero.

─Você interrompeu na hora que eu e o Shaka íamos...

─Tá, tá entendi. — digo logo.

─Que bom então. Agora vai buscar ele e resolvam isso de uma vez... cunhado. –disse provocante e desligou na minha cara, frango idiota! Pensa que manda em mim, não quero nem imaginar em que posição ele deve estar com o Shaka nesse exato momento.

O imbecil não sabe que tenho coisas mais importantes pra me preocupar do que ir socorrer o irmão alcoólatra dele? Ah é, ele não sabe, saiu da festa antes de eu receber a noticia sobre Andrey, mas isso não justifica.

Volto a ligar pra ele.

Assim que ele atende vou logo falando.

─Vou buscar ele, mas não pense que pode mandar em mim sua galinha imbecil, ah, não volte a desligar na minha cara. — digo irritado.

─Puta que pariu! Seu pato imbec... — desligo antes que ele continue, dava pra ver que a voz dele soava ofegante, sorrio vitorioso só de saber que o interrompi bem na hora que ele tava... Deixa pra lá. Depois ainda dizem que a vingança não é boa.

Certo, certo, tenho que buscar o Shun agora.

Mas eu não quero ver o Shun, não com outro cara. Pra começar porque ele estava com o Ichiro em uma boate? E segundo, porque ele aceitou ficar com esse babaca do Hayato?

Sinto raiva do Shun só por saber a quantidade de imbecis que tem estado atrás dele ultimamente.

Suspiro, o que eu faço?

─Senhor Yukida? — Mayuri diz esperando já que estou olhando pro nada com uma expressão irritada.

─Vamos ter que mudar o caminho Mayuri. — digo sério.

─Vamu onde papa?

─Vamos buscar seu tio Shun. — digo sério.

Ele se anima todo.

─Tio Shu, tio Shu. — diz alegremente.

─Finalmente. – Mayuri diz.

Eu deveria estar feliz em finalmente rever o Shun também, mas não tem como eu me encher de expectativas em saber que vou tira-lo bêbado de uma boate com dois babacas atrás dele.

Retornei pro assistente puxa saco.

─Alexei. — ele diz exaltado, parecia muito nervoso.

─É senhor Yukida, criatura. — digo irritado.

─Porque está irritado? — ele diz aborrecido também.

─Porque será né. — digo sarcástico.

─Você vem ou não? Venha, por favor, a situação é séria.

─Tá, tá, qual a situação exatamente?

─O senhor Shun está com esse Hayato ainda na boate, ele está totalmente bêbado, só fala coisa com coisa.

─E você não pode tira-lo daí?

─Se eu pudesse não teria ligado. — ele disse aborrecido. ─O idiota disse que ia levar o Shun pro apartamento dele eu acho, você tem que vir logo antes que eles saiam.

Suspiro, onde você foi se meter Shun?

─Certo, certo. Fique calmo, onde é essa boate?

─Em kabukisho.

─Ok, estou a caminho. – digo e desligo.

Olho pra Mayuri que ouvia tudo confusa. Ainda bem que ela está aqui, vou precisar dela.

Cheguei a tal boate, era um buraco, porque o Shun veio pra cá?

Retornei uma quadra longe dali, não quero meu filho perto de um ambiente desses, mesmo que eu ache que não vou demorar muito.

─Espere aqui Mayuri. – digo e ela assente obediente.

Liguei pro Ichiro e ele já me esperava perto da entrada com um monte de papel toalha no nariz contendo um sangramento, agora eu entendo porque a voz dele soava estranha.

─O que houve com você? – pergunto quando me aproximo.

─O babaca do Hayato me deu um soco.

Rá, bem feito.

Me aproximo e verifico o estado dele.

─Não está quebrado. – digo depois de analisar, está sangrando, mas não há um desvio aparente do septo. Verifico e mexo seu nariz pra tirar a prova, ele geme de dor.

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─Aguenta. – digo sem o mínimo de compaixão. O nariz dele faz uns barulhos de ranger ou triturar quando é movimentado, então sem nenhum aviso eu o coloco no lugar de uma vez, aí sim ele geme de dor mais alto ainda. ─Vai melhorar agora. – digo e tiro um lenço do bolso e entrego pra ele conter o sangramento.

─Obrigado. – ele diz ainda com dor, até que ele é resistente.

─Porque vieram pra cá? O que estavam fazendo juntos? – digo irritado.

─Estávamos no apartamento dele e viemos pra cá depois, eu tentei leva-lo embora, mas o Shun é muito teimoso às vezes e...

─Apartamento dele? Vocês dois? Sozinhos? – estou querendo soca-lo e deslocar esse nariz de novo.

─Sim, mas não fizemos...

─Esquece. – digo extremamente irritado, porque estou assim? ─E então, onde ele está?

─Lá dentro, o Shun está numa das mesas do fundo com o Hayato e mais alguns amigos dele.

─Então vamos busca-lo. – digo e vou entrando.

─Não! – ele diz me segurando. ─Não viu o que ele fez comigo?

─E daí? Estou com pressa. Anda!

─Não, temos que pensar em outro jeito de tira-lo de lá.

─Então fique aí pensando enquanto eu vou lá. – digo me desvencilhando dele e vou entrando de novo, não é surpresa saber que o acesso nesse buraco é livre.

─Espere Alexei. – ele tenta me conter, mas já estamos dentro.

Fico olhando em volta, isso é praticamente um bordel, gay inclusive. Tem uma droga de musica alta tocando enquanto um bando de bêbados e depravados se agarram e dançam por toda parte. Alguns caras esquisitos e metidos a manchões ficam olhando torto quando me veem, acho melhor ninguém mais tentar arrumar confusão comigo, estou de péssimo humor. Em contrapartida tem outros caras sorrindo insinuantes pra mim, acho melhor ninguém tentar passar a mão na minha bunda também, ou vai acabar perdendo ela.

Consigo avistar o Shun quase dormindo em uma das mesas dos fundos com um babaca falando no ouvido dele enquanto praticamente o agarra, acho que o babaca é o Hayato. Meu sangue ferve só de ver aquilo, sinto cada vez mais vontade de socar esse sujeito até deforma-lo.

Vou seguindo na direção deles e evitando ao máximo que algum desses indivíduos toque em mim. Puta que pariu, Shun! Só você mesmo pra me fazer entrar em um lugar assim pra procura-lo.

Ichiro me alcança e me segura de novo.

─Tá fazendo o quê, idiota? Me solta. – digo irritado.

─Não vai conseguir nada assim de cabeça quente. – ele tenta me advertir.

─Então fica vendo. – digo e vou até a mesa.

O babaca do Hayato tenta beijar Shun que já totalmente zonzo e não consegue impedir.

─Shun! – o chamo, então ele e mais uns quatro caras que estão na mesa me olham.

Ele me olha com os olhos quase fechados.

─Não acredito, é você mesmo? – diz surpreso e sorrindo.

─Vamos embora. Agora! – digo e o puxo pelo braço, mas o babaca com ele o segura também.

─O que? Quem é você? – diz irritado mantendo Shun perto dele.

Ele percebe Ichiro perto de mim.

─Ah, Ichiro. – diz com um sorriso provocante. ─Voltou e trouxe reforço? Não pense que esse idiota aí que você trouxe vai servir de alguma ajuda. – diz e insinuantemente beija o Shun na boca.

Ok, foi ele que pediu.

─Não tenho nada a ver com Ichiro, tenho a ver com o Shun. – digo e o puxo pela gola da camisa pra logo em seguida lhe dar um belo soco que até ecoa quando ele bate com as costas na parede próxima e cai, acho que coloquei força demais, mas não me arrependo nenhum pouco.

Todos em volta se exaltam e ficam na defensiva enquanto acodem o amigo babaca deles. Todos nos observam e até param de tocar aquela droga de musica, ainda bem, minha cabeça já tá latejando e essa poluição sonora só faz minha raiva aumentar.

─Hyoga! — Shun surpreso tenta se levantar também, mas o babaca perto dele o empurra de volta pro banco, ele está zonzo demais pra se manter de pé, quanto será que ele bebeu?

─Então você é o Hyoga. – ele diz levantando e limpando o sangue na boca, acho que ele deixou alguns dentes caírem, mas espera aí, como ele sabe quem eu sou? ─Vai se arrepender por isso seu imbecil!

Ele parte pra cima de mim, mas o cara é lerdo pra caramba, então eu desvio facilmente, o imobilizo e o jogo no chão.

Acho que praticamente todos na boate ficam amedrontados nos observando.

─Peguem ele. – ele grita pros amigos.

Tão de brincadeira comigo né. Sou um cavaleiro, porra! Lixos como vocês não podem sequer me tocar. Dou golpes simples em cada um que se aproxima pra me agredir, só ouço gemidos, fracotes.

Ichiro me observa amedrontado também, idiota, se eu realmente quisesse, ele já teria apanhado há muito mais tempo.

─Tá esperando o quê? Pegue o Shun. – digo irritado olhando pra ele que imediatamente me obedece.

─Agora escuta aqui seu verme. – me aproximo do babaca do Hayato no chão e o puxo pela gola da camisa de novo. ─Você nunca mais vai se aproximar do Shun, ou você vai perder mais do que alguns dentes, entendeu!

─Porque você se importa? – ele ainda provoca, esse idiota tem coragem.

─Porque ele é meu! – digo e ameaço dar outro soco nesse babaca, ele se encolhe esperando o pior. Não, não vale a pena. Jogo-o de novo no chão e ele permanece lá amedrontado, é, o recado foi dado, e acho que foi recebido.

Todos ainda nos observam, saímos da boate com o Shun e mesmo os seguranças que chegam depois não nos impedem.

Chegamos lá fora e eu até já me sinto mais calmo, acho que eu só precisava socar alguém mesmo.

─Onde esta o carro dele? -digo despreocupado enquanto vejo Ichiro se matar pra segurar o Shun.

─No fim do estacionamento dos fundos.

─Segura ele direito. — digo incomodado com aquilo, é meu amigo que ele está carregando, porra.

─Ele é pesado.

─Que pesado o quê. Anda, trás ele, meu carro está mais lá pra frente.

Ele me acompanha com muita dificuldade. Considero isso como uma punição por ele não ter impedido o Shun de ter vindo pra cá.

Chegamos perto do meu carro, Mai e o Miguel olham curiosos pra nós.

─Coloque ele aqui na frente. -digo abrindo a porta do passageiro pra ele colocar o Shun.

─Shu. – Miguel diz animado quando reconhece.

─O que ele tem? — Mai pergunta preocupada.

─Está bêbado. -digo logo.

─Shu tá dodói papa?

─Não filho, só está com muito sono. Faz silencio pra ele dormir tá. – digo sorrindo pra ele que alegremente assente.

─Seria melhor ele ir lá atrás e... -diz Ichiro.

─Seria melhor é você calar a boca. – digo irritado, me enganei ainda estou instável, ele se encolhe só de me ouvir falar, será que o assustei tanto assim? ─Ele está cheirando a posto de gasolina, não o quero assim perto do meu filho.

Fico esperando enquanto o vejo tentar colocar Shun sentado.

─Tá esperando o que? — digo impaciente.

─É difícil, e também estou machucado.

─Nos braços? — estou sem paciência.

─Não, mas tá difícil.

─Ah, pelo amor de Deus. — pego Shun dele e o coloco de uma vez sentado, mas Shun se agarra em mim na mesma hora.

─Hyoga? É seu cheiro. — diz afundando o rosto no meu pescoço e segurando minha camisa.

Shun, o que aconteceu com você? Fico triste só de vê-lo assim, não sinto raiva, sinto é tristeza, compaixão, e ternura por ele, além de algo estranho em mim que ainda não sei explicar o que é.

─Sou eu Shun, de novo. Agora fica quietinho, vamos pra casa.

─Pra casa? Eu não tenho casa, ou tenho? Devo ter, mas não é um lar. — ele diz totalmente fora da terra, zonzo. Por Deus, ele está tão vulnerável.

─Você tem um lar Shun, vamos pra lá agora. Pode dormir. – digo colocando o sinto nele.

─Mas...

─Dormir. – digo acariciando seu rosto e mantendo os olhos fechados. ─Xiii. Isso, quietinho. – o vejo sorrir e se aconchegar no banco. ─Bom garoto. – sorrio vendo-o voltar a ser meu querido Shun adorável.

Pego a chave dele em seu bolso.

─Certo. Agora você leva o carro dele Ichiro e...

─Não vai dar.

─Por quê?

─Bom, é que... eu... eu não sei dirigir.

─Tá de brincadeira comigo né? – dá pra essa noite ficar pior? ─Quantos anos você tem?

─Vinte e quatro, mas é que eu não tirei a carta ainda e...

─Certo, certo. – o que eu faço? Fico pensando enquanto ele me olha envergonhado. ─Vou dar uma olhada lá então. – o jeito é o carro ficar mesmo, apesar de esse lugar horrível não parecer ter nenhuma vigilância. ─Fiquem aqui. – parece que eu arranjei mais dois filhos.

─Mas...

─Entre no carro Ichiro. – digo já sem paciência e ele logo percebe, deve estar com medo de mim depois que me viu dar uma palavrinha com o tal Hayato, por isso ele resolveu tomar cuidado com o que fala comigo, melhor assim.

─Vai onde papa?

─Já volto filho. – digo pela janela.

Droga, minha dor de cabeça está me matando.

Encontrei o carro do Shun bem nos fundos então o levei pra um lugar que parecia mais iluminado e um tanto mais seguro, mas não garanto nada, peguei a mochila dele que estava dentro e tudo que fosse importante, não sei pra quê ele anda com tudo isso.

Tomara que o Shun não fique muito zangado quando voltar amanhã e vir que o carro dele está sem os pneus, os bancos e até mesmo sem a tinta. Será que o seguro dele cobre bebedeiras desenfreadas?

Quando já estou voltando meu celular toca, é do hospital, mais essa agora.

─Alô!... Oi Hana... não, meu voo foi cancelado, mas talvez eu viaje amanhã de manhã... não posso ir, estou muito ocupado... e o Nishimura?... qual é a situação?... Certo, certo. Aumente a dose de morfina, verifique a dosagem com o ambulatório. – chego no carro e coloco a mochila no porta-malas, ainda bem que Ichiro entrou no carro senão eu ia amarra-lo e joga-lo no porta-malas também. ─Isso mesmo Hana... não sei, talvez já tenham chegado do ambulatório, pergunte ao Furuya... Já falei com a Tomoe sim... É, imaginei que sim... certo, pode deixar... Ok, até. – desligo e entro no carro, todos estão quietinhos me observando como se vissem alguma figura alienígena.

Olho pra cada um, Shun está quieto, dormindo. Ichiro está emburrado no banco de trás com o Miguel na cadeirinha no meio ao lado dele, com o dedinho na boca enquanto observa o Ichiro, e Mai permanece curiosa a tudo.

─Já vamu papa?

─Sim, filho.

Céus, minha cabeça tá latejando. Baixo a cabeça no volante por um tempo. Tenho que juntar energias, essa aventurazinha só fez piorar meu stresse, além de eu ter mil coisas na cabeça, Andrey, hospital, viajem, e agora essa de tentar entender porque Shun veio parar aqui.

─Que foi papa?

─O senhor está bem senhor Yukida? – Mai pergunta preocupada.

─Me deem só um minuto. – digo baixo, tenho que me concentrar, fico alguns segundos quieto.

─Papa. – ele me chama choroso, ele sempre percebe quando não estou bem.

─Pronto, pronto, estou bem filho. – digo e o olho. ─Mayuri coloca o travesseiro que está aí atrás pra apoiar a cabecinha dele, pra ele ficar mais confortável, daqui a pouco ele vai dormir. – digo e me inclino pra ajuda-la.

─Ele já está cansado senhor Yukida. – ela diz enquanto executa a tarefa.

─Parece... Tá com sono filho? – ele fica coçando os olhinhos.

─Aram.

─Pode dormir, faz que nem seu tio Shun, tá.

─Poque esse moço tá com o nariz vemelho papa? Ele tá dodói? – ele diz olhando pro Ichiro.

─Sim, mas ele vai ficar bom, tá. – digo sorrindo.

Ichiro se inclina pra mim e toca minha testa, mas o quê? O que esse idiota está fazendo?

─Você está ardendo em febre. – ele comenta quando tiro as mãos dele de mim.

─Estou bem. – digo aborrecido. Pego uns analgésicos no porta-luvas e tomo um de uma vez e em seguida jogo a caixa pro Ichiro. ─Tome um comprimido Ichiro, isso aí provavelmente vai ficar roxo, então é melhor você colocar gelo quando chegar em casa.

Ele assente obediente, mas ainda parecia irritado.

Olho pra Shun que permanece quieto, verifico e ele esta dormindo mesmo.

─Como ele está? – Ichiro pergunta.

─Vai ficar bem.

─Ainda bem. – ele diz aliviado.

─Certo, senhores. O itinerário é o seguinte: Mayuri, vou deixa-la em casa primeiro, Ichiro, você é o próximo, você mora em Shinjuko certo?

─Não precisa me levar, basta me deixar na estação que de lá eu sigo sozinho. – diz orgulhoso, ele não tem ideia do quanto estou tentado a larga-lo por aí mesmo.

─Pare de bobagens, Shun ficaria chateado se eu não cuidasse de você também, você é minha responsabilidade agora.

─Mas...

─Vamos indo. – digo ligando logo o carro e seguindo sem dar a ele a oportunidade de protestar. ─Ah, a proposito, esse é o Ichiro, Mayuri. E Ichiro, essa é a Mayuri, minha baby-sister e aluna. – só agora os apresento.

─Oi. – ela diz sorrindo sem jeito pra ele.

─Oi. – ele diz envergonhado também.

─Como isso aconteceu? – ela pergunta.

─Levei um soco.

─Não quebrou?

─Não, Alexei colocou no lugar.

─De um jeito carinhoso, inclusive. – comento sarcástico e ele me olha irritado. ─E eu já falei que é senhor Yukida. – digo e ele só me olha irritado.

─O que isso quer dizer? Aluna? – ele pergunta pra Mayuri.

─O senhor Yukida é meu tutor, mas nada muito oficial. – ela diz sorrindo.

─E o que você estuda?

─Medicina é claro. – comento e ele me olha irritado de novo, só faço rir daquela cara emburrada dele.

─Medicina, que legal. – diz sorrindo pra Mayuri.

─E o que você faz Ichiro? É amigo do senhor Shun?

─De certa fora, sou assistente dele.

─Ah, e é difícil?

─Não, é bem simples. Faço administração então já pratico.

─Que legal, devia conhecer o senhor Nigihayami, ele é um excelente administrador.

─Na verdade eu o conheci através do senhor Shun.

─Nossa que coincidência.

─E como você conhece o senhor Nigihayami?

─Trabalhei como babá pra ele.

─É mesmo uma coincidência.

─Pronto, agora que somos todos amiguinhos vamos ficar quietos senão o Shun acorda. – digo.

Eles concordam obedientes, me sinto um motorista de ônibus escolar. Miguel adormeceu depois de um tempo.

Deixei Mayuri na casa dela e segui pra casa do Ichiro, assim que chegamos ele desceu e eu desci também.

─Agora me explica como foram parar naquela boate. – digo sério cruzando os braços de frente pra ele, isso não é da minha conta, mas eu vou ficar me remoendo de angustia se não souber.

Ele me olha apreensivo.

─Bom, é que eu fui ao apartamento do Shun e...

─Está o chamando diretamente agora?

─É. – ele diz vermelho. ─Eu fui ao apartamento dele pra passar o relatório da viajem, chegamos hoje e...

─Disso eu já sei.

─Quer me deixar falar, por favor. – ele diz impaciente também.

─O que eu quero saber é porque vocês foram juntos pra aquela boate.

─O Shun me chamou. – ele diz mais confiante, me olhando com um sorriso irônico. ─Nós nos beijamos. – ele diz mais audacioso ainda.

─Vocês o quê? — digo surpreso e irritado.

─Eu gosto muito do Shun, faz muito tempo que eu...

─Não quero saber o que você sente por ele. – digo aborrecido, eu sabia, desde que o vi percebi que ele era interessado no Shun, o que me surpreende é que o Shun tenha correspondido, fico cada vez mais fulo da vida com essa historia.

─Ele também gosta de mim. – ele diz me advertindo.

─É mesmo? Então como ele foi parar na mesa do babaca do Hayato? – digo irônico.

─Esse sujeito apareceu do nada quando estávamos bebendo, e o Shun já estava muito bêbado, ele ficou zangado quando viu aquele sujeito, quis até arrumar uma briga, mas na condição dele não tinha a mínima chance, ele tentou acertar um soco no Hayato e acabou perdendo o equilíbrio e caiu em cima dele, o babaca já entendeu de outra forma e resolveu levar o Shun com ele pra mesa pra conversarem, você me entende... tentei impedir, mas o imbecil acertou um soco em mim em cheio, eu revidei é claro. – ele diz orgulhoso.

─Não me diga, não vi ele com nenhum arranhão quando eu cheguei. – digo sarcástico.

─Acontece que ele tinha companhia né. – tenta se justificar.

─Sei.

─Hunf. O Shun estava desse jeito aí mesmo. – disse apontando pro Shun adormecido no carro. ─Está bêbado demais, não tinha força nem pra ficar de pé direito, começou a falar coisas... – ele diz desconfiado.

─Hum?

─Não era importante. – ele corrige logo. ─Não se dá ouvidos pra o que uma pessoa bêbada diz.

─Hum.

─Tentei tirar ele do babaca do Hayato de novo, mas não adiantou, liguei pro irmão dele daí ele me mandou ligar pra você, e é isso. – ele conclui.

─Err... vocês estão juntos agora? – pergunto sem jeito, porque eu perguntei isso?

─Bom, eu... não sei o que dizer ainda.

─Ele disse que gosta de você?

─É claro... e você, porque disse pra aquele babaca do Hayato que o Shun era seu? – ele diz aborrecido.

─Força do momento, idiota. – digo irritado por ele ter lembrado daquilo. ─Ele nunca foi meu, e nunca vai ser. Não me importo com isso. – digo logo desviando o olhar.

─Hunf. – fica aborrecido também. Que droga é essa? Estamos discutindo pelo Shun? ─Obrigado, por ter ido ajudar. – ele diz baixo.

Olho pra ele de novo.

─Não fiz isso por você. – digo logo. ─O Shun é um amigo que prezo muito, mesmo nessa situação.

─Amigo. – ele repete.

─É, amigo. – digo e me retiro.

─Vai levar ele pra onde?

─Pro meu apartamento é claro. – digo entrando no carro.

─Deixa ele aqui comigo. – ele exige.

─Pra quê? Você já provou que não tem capacidade de cuidar dele. – digo sem olha-lo, com certeza ele está irritado. ─Não se preocupe, ele vai ficar bem. – digo voltando a encara-lo, ele assente mesmo estando obviamente relutante em me deixar levar o Shun.

Dou a partida e o deixo aborrecido lá.

Cheguei ao meu prédio e peguei o Miguel adormecido no colo, Uchida (o porteiro) me viu chegando então me ajudou a levar o Shun pelo menos até o elevador.

─Ele não parece bem. — ele comenta apoiando o Shun em seu ombro quando saímos do carro.

─E vai ficar pior amanhã. — comento.

─Como ele ficou assim?

─Detalhes a parte Uchida. — suspiro.

Ele deu de ombros.

─Ah, chegou uma encomenda pro senhor, deixei na sua porta. — ele diz quando chegamos ao elevador.

─Ah, valeu mesmo Uchida. — sorrio e pego o Shun dele o apoiando no meu braço também, acho que virei um burro de carga.

Cheguei à porta e com dificuldade a abri.

Shun bem que poderia acordar e facilitar as coisas pra mim. Não, melhor não, não sei como ele fica quando tá bêbado, vai que ele comece a fazer besteira, então é melhor ficar dormindo mesmo.

Joguei-o no sofá só de mal, e fui colocar o Miguel na cama.

Quando voltei o Shun ainda estava do mesmo jeito que deixei.

Olho pra ele, esse idiota me ignorou por tanto tempo e agora que o tenho aqui é desse jeito.

Ainda estou irritado com o que o imbecil do Ichiro disse. Não consigo engolir essa historia que eles dois... Deixa pra lá.

Ele realmente não parece bem, parece abatido, triste, porque ele foi pra aquele lugar?

Ele está pálido, pego em seu rosto e verifico sua temperatura, está febril, ao menos eu acho que sim, não tem como ter certeza afinal eu também estou febril, droga, não me sinto nada bem, estou dolorido, nem me lembro a ultima vez que tive uma indisposição tão grande como agora, realmente preciso descansar, apesar da minha mente estar repleta de problemas.

Ichiro imbecil, Shun imbecil, porquê eu me importo? Não, eu não me importo... Droga, eu me importo.

Ao menos eu tive a chance de socar o babaca do Hayato, fiquei tentado a socar o assistente imbecil também, mas isso não é da minha conta, Shun já é adulto, sabe o que faz e com quem faz, então que se dane.

Toda a saudade que eu sentia dele foi substituída por raiva.

Levo-o pro quarto e o jogo na cama do quarto de hospedes. Idiota, me deu trabalho, e ainda por cima se agarrou com o assistente imbecil. Isso não sai da minha cabeça, em pensar que aquele subalterno imbecil tocou o Shun, beijou ele, ah droga. Porque estou pensando nisso? Eu deveria pensar em Andrey, isso sim.

Hunf. Vou esquecer isso, amanhã ele se vira, volta pra sua vida agitada e me esquece.

Não ligo mais, se queria me afastar, então conseguiu.

Saio do quarto irritado, ligo pra companhia aérea, mas ainda não tem previsão do voo sair. Estou com vontade de descontar minha raiva na atendente, mas pensei melhor, não, tenho que descontar é no Shun quando ele acordar.

Pego a encomenda que Uchida deixou na minha porta, uma caixa grande, abri, era um presente pro Miguel, dos meus sogros, a data do despacho era antiga, eles calcularam bem a entrega. Sorrio, mesmo passando por momentos difíceis eles não se esquecem de nós, tenho sorte de ter entrado na família da Lilia, e mesmo sem ela meus sogros não me abandonaram em nenhum momento.

Estou tão preocupado com eles, perderam a filha só tem um ano, seria muito injusto Irina perder o marido agora também. Odeio imagina-la sofrendo, considero-a uma mãe, e até Andrey como um pai. Céus, estou tão preocupado com os dois. Tenho que voltar logo.

Vou pro quarto e guardo o presente, amanhã o Miguel abre. Minha cabeça ainda dói, os remédios nem fazem mais efeito em mim.

Estou tendo um dia de cão, saco.

Tenho que descansar um pouco, senão quando eu chegar a Moscou vou ser completamente inútil se estiver abatido também.

Deito um pouco, esperando que o cansaço faça seu trabalho.

...

Onde estou? Olho em volta, esse lugar é bastante familiar. Levanto ainda tonto, será que estou sonhando de novo? Meus sonhos sempre me levam de volta pra esse lugar, se for assim o Hyoga deve estar na cozinha com o Miguel nesse exato momento. Fico feliz em poder vê-los ao menos em sonho.

Está escuro, chego à cozinha, mas não tem ninguém, onde eles devem estar? Vou até o quarto do Hyoga, ah, achei.

Sorrio vendo-o dormir. Sinto tanta falta dele. Me aproximo e sento ao seu lado na cama.

Nesse momento eu o acordo e ele deve me olhar sorrindo, me dizendo palavras doces e carinhosas. É meu sonho, então tem que acontecer do jeito que eu quero.

Acaricio sei rosto, ele parece tenso, preocupado, e ainda por cima está um pouco febril.

─Hyoga. – o chamo, mas ele não acorda.

Ele é tão lindo. Passo a mão pelo seu peito que se mexe devagar.

─Hyoga. – ele se remexe um pouco e se vira pra mim de lado.

Acaricio seus cabelos, me inclino e beijo seu rosto. Sussurro em seu ouvido.

─Acorda meu anjo.

Ele finalmente desperta e quando me vê se levanta bruscamente e se afasta de mim.

─Shun?! – diz surpreso. Isso nunca aconteceu em meus sonhos.

~

Senti uma presença e quando finalmente desperto dou de cara com o Shun perto de mim. Que susto!

Ele me olha surpreso, quem deveria estar assim sou eu.

─Você devia estar dormindo. – digo me levantando do lado oposto da cama e acendendo o abajur.

─Eu queria te ver. – ele diz subindo na cama e sentando bem no meio dela.

─Você está bêbado e fora de si, vai dormir e para de me encher. – digo suspirando e massageando os olhos.

─Não fala assim comigo. – ele diz e quando o olho ele está próximo de novo. ─Senti tanto sua falta. – ele diz se ajoelhando na cama e enlaçou meu pescoço com os braços.

─Para com isso Shun. – digo tirando os braços dele de mim.

Ele olha muito magoado e baixa o olhar.

─Sonho? – ele comenta baixinho.

Suspiro, ele realmente não parece bem.

─Vem, você precisa descansar. – digo o pegando pelo braço, mas novamente ele me agarra e me puxa pra cima dele na cama.

─Você me deixou. – ele diz magoado com a cabeça no meu ombro.

─Como assim eu? Foi você que me ignorou por tanto tempo. – digo indignado.

─Você fez isso primeiro. – ele diz me apertando.

─Já chega, vai tomar um banho pra esfriar a cabeça, vai se sentir bem melhor e vai me deixar em paz. – digo me levantando com dificuldade, ainda estou dolorido e um pouco fraco.

Puxo ele e o arrasto pro banheiro mesmo com os protestos dele.

Empurro-o pra dentro do boxe, ligo o chuveiro e fecho a porta do boxe. Só o ouço inspirar fortemente quando a agua gelada cai nele, fora que eu esfriei mais ainda com meu cosmo.

─Hyoga, abre a droga dessa porta. – ele diz aborrecido batendo no vidro. É, parece que ele despertou um pouco.

─Isso é pra você aprender a não me ignorar por tanto tempo, não atender minhas ligações, ficar enchendo a cara por aí, e ainda por cima se agarrar com assistentes imbecis. – digo aborrecido e segurando a porta.

─Era pro nosso bem, seu imbecil. – ele diz tentando forçar a porta.

─Nosso bem? – olho pra ele todo molhado e irritado.

─Abre isso. – ele diz tentado rodar o registro de agua, mas não adianta, eu congelei ele.

─Porque se afastou Shun?

─Já falei. – ele diz.

Virei-me de novo dele.

─Eu fiz alguma coisa errada? – pergunto.

Ele não responde, ficamos em silencio por um tempo. Porque estou me sentindo estranho agora que ele está perto? Será que é mesmo aquilo que eu e o Ikki conversamos? Não, não quero pensar nisso, não era pra isso acontecer, não sinto atração pelo Shun.

─Senti sua falta. – digo baixo. Ele não responde, olho pra ele e o vejo encolhido no canto do boxe abraçando os joelhos e com a cabeça baixa.

─Shun? – será que eu exagerei? Abro imediatamente e desligo a agua. O boxe inteiro está embaçado e muito frio. Droga, eu exagerei mesmo. Me aproximo dele.

─Desculpe. – ele sussurra sem me encarar.

─Hum?

─Achei melhor me afastar, não queria lhe fazer mal algum Hyoga. Mas acontece que eu me apeguei demais a vocês, e senti que se eu aceitasse sua proposta de morar aqui só me faria ficar ainda pior. Tem ideia do quanto eu queria isso? Zeus sabe o quanto eu quis aceitar. Mas não é o certo. – ele diz baixo.

─Hã? Porque diz isso?

─Eu gosto de você Hyoga. – ele diz e finalmente me encara com lagrimas caindo abundantemente. Seu rosto está vermelho, com seus cabelos castanhos caindo pelo rosto, seus olhos verdes brilham com as lagrimas, e ele ensopado e encolhido de uma forma tão vulnerável. O que posso dizer, ele estava adorável.

─Shun. – ele tremia muito, toco seu rosto e faço uma caricia, o que estou fazendo?

─Senti muito sua falta também. – ele diz e me abraça de repente.

O abraço também. Acabo me molhando, e a agua fria me dá um choque térmico por causa da febre, mas não me importo, quero apenas estar aqui, com ele.

─Pronto, está tudo bem, tudo bem. – digo acariciando suas costas e ele chora mais ainda.

Ele se afasta um pouco pra me olhar nos olhos. Vai se aproximando lentamente e fechando os olhos. Me sinto tão estranho com tudo isso. Não é certo, mas sinto como se isso não importasse agora, como se nada mais importasse.

Mas ainda não é o certo. O impeço virando um pouco o rosto. Ele não se importa, segura meu rosto com as duas mãos e se aproxima de novo dos meus lábios, quando finalmente me alcança permanecemos imóveis só com os lábios encostados. Ele está frio, ele todo está gelado.

Depois de um tempo ele entreabre os lábios e começa a me beijar de verdade, lentamente passo a corresponder, e instintivamente seguro sua cintura. Ele me agarra pela nuca e aprofunda o beijo, nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas aí estou eu, beijando meu amigo de infância.

O beijo vai ficando cada vez mais intenso, ele insinua sua língua contra meus lábios e imediatamente permito entreabrindo os meus também. O que estou fazendo? Seus lábios eram macios e doces, aquele contato foi uma completa novidade pra mim, faz quanto tempo que não permito que ninguém se aproxime assim de mim? Porque estou permitindo agora? Porque logo o Shun?

Ele puxava meu cabelo, me agarrava como se eu pertencesse unicamente a ele. Aperto sua cintura, e vou me entregando aquele momento sem me importar mais com nada, está acontecendo, então não vou me opor.

Nem sei quanto tempo isso durou, quando ficamos sem ar nos separamos, mas não nos afastamos e ficamos com a testa apoiada uma na outra. Sentindo a respiração quente um do outro próxima.

─Isso é real? – ele pergunta.

─É. – digo ainda ofegante.

Ele abre um largo sorriso segura meu rosto de novo e volta a me beijar. Bem mais intenso dessa vez. Novamente me entrego, tenho que admitir que ele beija divinamente. Dessa vez ele passa a acariciar meu peito e começa a desabotoar minha camisa.

Interrompo o contato imediatamente.

─Não Shun. – digo tirando suas mãos de mim.

─Mas...

Pensamentos ruins rondam minha mente rapidamente. Ichiro, aquele imbecil estava tocando o Shun da mesma forma hoje mais cedo, fora que ele disse que o próprio Shun confessou que gostava dele. E agora ele quer me tocar? Lembro-me, isso não é certo. Não vou permitir que ele me toque.

Me afasto dele enquanto ele me olha confuso.

─Se permanecer assim vai acabar se resfriando. – digo me levantando. ─Vou pegar umas roupas pra você e amanhã você pode ir. – digo sério já me retirando.

─Hyoga. – ele se levanta também e seguram minha mão.

─Você tem razão, nos afastar é o melhor pra nós dois. -digo e me afasto. Isso não pode continuar assim, passamos dos limites, rompemos a barreira de nossa amizade quando nos beijamos. Não é certo.

Tenho que me lembrar do porque estou aqui, do que realmente importa. Lilia. Miguel. É só eles que eu amo, e só tem lugar pra eles na minha vida. Foi só um impulso, e não vai acontecer de novo.

...

Passei a noite toda me martirizando pelo ocorrido com o Shun. Droga, isso não podia ter acontecido, será que ele lembra?

Mayuri veio hoje, pedi ontem a ela, caso eu precise de ajuda se for sair as pressas de novo.

Acho que já estou o dia todo no telefone, ligo pra Adam pra perguntar sobre o Andrey, outrora ligo pra companhia aérea pra perguntar se já tem algum voo disponível, e depois pra Irina pra consola-la de algum modo, e ainda por cima estou fazendo consultoria pro hospital que não para de me ligar. Tomoe é mesmo muito insistente.

Estou dividido em tantas coisas, e ainda por cima Shun está aqui. Nem sei o que vou dizer a ele sobre o que aconteceu ontem.

Já é tarde, passa das onze e o Shun ainda não acordou, ele vai acordar com uma ressaca terrível com certeza.

Pedi o almoço e estava separando em uns pratos enquanto a Mayuri alimentava o Miguel com alguma coisa que ela mesma preparou, ah, ela é uma excelente cozinheira também.

Adam me ligou quando eu estava esquentando uns legumes pra almoçarmos. Apesar de não ter nem duas horas que eu liguei pra ele.

─Como ele está? – pergunto.

─Na mesma, mas você sabe que as melhoras são quase imperceptíveis mesmo.

─Tomara que ele acorde logo.

─Ele vai, não se preocupe. – ele tenta me animar. ─Ainda não deram nenhuma previsão de voo? -Adam pergunta.

─Nenhuma, cancelaram até os voos pra São Petersburgo. – comento.

─Mas também né Alexei, aqui tá só o gelo, quase 258 K (-15 °C).

─Só uma nevezinha, nem é grande coisa. -digo indiferente.

─Nevascas Hyoga, nevascas. Tiveram até que fechar algumas estradas, algumas cidades estão em estado de alerta, inclusive aqui, o transito tá parado, ninguém se atreve a sair, estou até preocupado com Nina e Wendy lá em casa. Disseram que o tempo só vai melhorar a partir de amanhã.

─Está no hospital desde ontem?

─É, não posso deixar Irina aqui sozinha, estou verificando o estado do Andrey a cada hora.

─Obrigado mesmo Adam, deve estar muito cansado.

─Eu tirei um cochilo por um tempo aqui, estou bem... mas que batidas são essas? — ele reclama.

─Ah, é o Miguel brincando. – digo olhando pro Miguel batendo sem parar em um brinquedo e cantando alguma coisa ao mesmo tempo. Mayuri tem dificuldade pra dar a comida dele já que ele está inquieto.

─Não tô nem te ouvindo direito. – ele fala mais alto.

─Pelo amor de Deus, Miguel. – digo já aborrecido. ─Pare com essas batidas pelo menos por alguns segundos. –minha dor de cabeça só piorou desde ontem, e ele ainda acha de brincar logo com aquele tambor que ele ganhou ontem do Seiya, tinha que ser o Seiya mesmo.

─Mas papa.

─Já falei. – ele obedece, mas continua cantarolando. Suspiro. ─Guarda isso aí Mayuri. – falo pra ela.

Ela guarda o brinquedo e finalmente consegue alimenta-lo.

Volto a falar com o Adam.

─E a... Annia? – devo mencionar que Annia é enfermeira chefe do mesmo hospital.

─Ela está o tempo todo com a Irina também. Pergunta por você o tempo todo. Isso pode soar até como uma ofensa, mas ela está feliz que você tenha um motivo pra voltar. – ele comenta.

─Não sei se eu agradeço ou se fico com raiva dela.

─Eu agradeceria. Ela tá se esforçando bastante.

─Ela sabe que você me conta tudo?

─Deve saber.

─Viu só.

─Ah, dá um credito pra garota Hyoga.

─Falou o cara que está a tempos tentando me jogar pra ela.

─É pro seu bem. Você precisa de alguém.

─Chega Adam. – digo impaciente, não quero discutir isso de novo, mas não adianta, ele continua falando.

─Preciso desligar agora, vamos almoçar.

─Tá, te ligo mais tarde. – ele diz.

Assim que desligo meu celular toca de novo.

─Senhor Yukida. – diz uma voz feminina.

─Sim. – digo enquanto sirvo um prato pra Mayuri e entrego pra ela.

─Gostaria de avisar que um voo pra São Petersburgo foi remarcado pra hoje à tarde.

─Jura? – digo animado, até que enfim.

─Sim, sei que não era o que o senhor queria mas...

─Não tem problema, já serve, que horas sai?

─Às duas da tarde senhor.

─Esse vai sair mesmo né? – digo desconfiado.

─Sim senhor, o mal tempo deu uma trégua naquela região. Então ele está confirmado sim.

─Graças a Deus. – digo aliviado.

─Posso confirmar suas passagens senhor?

─Sim, claro. Muito obrigado.

Digo e desligo, só então eu percebo o Shun por perto.

...

Acordei totalmente zonzo, dolorido e com uma ressaca terrível.

Olho em volta e não estou no meu apartamento, então foi real mesmo? Olho pras minhas roupas, mas não são minhas, são do Hyoga. Sorrio, aconteceu, realmente aconteceu.

Nos beijamos, ele correspondeu, e apesar de ele ter rompido contato comigo, ainda assim ele correspondeu, deve estar confuso, então eu realmente tenho uma chance, eu tenho uma chance. Faz tanto tempo que não estou tão animado e esperançoso.

Ouço o som discreto da voz do Hyoga ao longe, e do Miguel cantarolando alguma coisa.

Vou pelo corredor e paro na entrada da cozinha e já vejo a silhueta de Hyoga indo de um lado pra outro com uma pequena panela enquanto falava ao telefone.

Aquela garota também está ali. Me irrito só de vê-la. Ela alimentava o Miguel, sentado em sua cadeira e batia sem parar um tamborzinho de brinquedo enquanto cantarolava alguma musiquinha de desenho animado.

─Pelo amor de Deus, Miguel. Pare com essas batidas pelo menos por alguns segundos. – Hyoga disse aborrecido, vish, ele acordou de mal humor.

─Mas papa.

─Já falei. Guarda isso aí Mayuri. – ele fala pra garota.

Miguel obedece, mas continua cantarolando.

Ele volta a falar no telefone.

─E a... Annia? – ele pergunta. ─... Não sei se eu agradeço ou se fico com raiva dela... Ela sabe que você me conta tudo?... Viu só... Falou o cara que está a tempos tentando me jogar pra ela. – quem é essa Annia? ─Chega Adam. – ele diz impaciente. ─Preciso desligar agora, vamos almoçar.

Ele desliga, mas o celular toca de novo.

─... Sim... Jura? – ele diz animado. ─Não tem problema, já serve, que horas sai?... Esse vai sair mesmo né?... Graças a Deus... Sim, claro. Muito obrigado. – não entendi nada.

Depois de um tempo ele serve um prato pra ele também e se senta.

Fico vacilante em entrar. Ainda não me lembro de tudo que aprontei ao Hyoga na noite anterior, e dado o mal humor dele acho que não fiz coisa boa além do beijo que dei nele, será? Não, senão com certeza eu lembraria.

─Vai ficar parado aí pra sempre Amamiya? — ele pergunta sem ao menos olhar pra mim. Sempre me esqueço de que temos percepções melhores do que as pessoas normais.

Ele não usa um tom irritado, mas me parece impaciente, acho que vou ter que seguir com o confronto.

Mayuri e o Miguel se viram e me percebem ali.

─Shuuu. – Miguel diz animado com aquela vozinha infantil estridente pela animação.

─Oi Mick. — digo sorrindo e me aproximando dele, senti tanta falta dele. Pego ele no colo e o abraço fortemente.

─Oi senhor Shun. – Mayuri diz sorrindo.

─Oi. – digo sério pra ela.

Me afasto um pouco e o olho pro Miguel. Ele sorri encantadoramente, mas rapidamente ele me olha serio.

─Shu feio. – diz e aperta o meu nariz.

─Ai!

─Shu jurou juradinho e no cumpriu com a pomessa. – ele reclama irritado, ele lembra mesmo.

─O quê?

─Você prometeu alguma coisa pra ele. – o Hyoga diz indiferente.

─Shu falou que nunca, nunca me dexaria. – Miguel diz emburrado.

─Ah, foi isso. – digo triste e olho pro Hyoga que permanecia distraído mexendo a comida. ─Me perdoa Miguel, não quis te abandonar, mas tive meus motivos. Me perdoa? – digo sorrindo pra ele.

Ele fica sério e olha pro Hyoga.

─Papa.

Hyoga só acenou positivamente pra ele.

─Eu perdoo o Shu, mas nunca, nunca faz isso de novo viu Shu. – ele diz fazendo um biquinho.

Sorrio, gostaria que fosse fácil assim com o Hyoga.

─Agora coloca ele de volta no lugar que a Mayuri tá dando o almoço dele. – Hyoga diz sério, ignoro aquele mal humor e faço o que ele diz.

─Tenho um presente pra você Miguel, está no meu... onde está meu carro? – digo lembrado agora.

─Trouxe ele pra cá hoje de manhã. – Hyoga diz sem me encarar.

─Ah, obrigado Hyoga. – digo sem jeito.

─O senhor já está melhor senhor Shun? – Mayuri pergunta.

─Estou. – digo indiferente.

─Poderia nos dar um minuto Mayuri. – Hyoga diz sério. ─Leve o Miguel.

Ela percebe o clima, assente e obedece. Só ouvimos a televisão sendo ligada. Garota esperta.

Fico até relutante com o que vou ouvir dele. Como um filho com medo da bronca de um pai.

Hyoga me olha sério por um tempo. Estou cansado disso, se ele for dar alguma bronca então que dê de uma vez ora.

─Está tão estressado assim? — pergunto um pouco irritado por causa da dor de cabeça, acho que estou testando a paciência dele, não é uma boa ideia no momento, mas a ressaca sempre fala mais alto.

Sento a mesa, gostaria de pegar um café, mas com o Hyoga ali irritado me faz pensar melhor nessa ideia.

─Não estou estressado Amamiya. — Hyoga rebate minha provocação invalida. ─Acredito que é você que está uma droga, como consegue ficar de pé depois de tudo que bebeu ontem? – ele pergunta sarcástico.

─Certo Hyoga, não acreditei mesmo que em um momento como esse você iria tripudiar, mas essa sua raiva é tão grande assim? Porque se for é bom dizer logo o que eu fiz pra que minha mente comece a se martirizar de uma vez, porque ficar aí me punindo gratuitamente não vai adiantar de nada já que eu não me lembro de tudo que te fiz ontem, e nem ao menos sei exatamente como cheguei aqui. – não se surpreendam com minha ousadia, afinal estou de ressaca.

─Eu não seria tão desafiador assim se estivesse no seu lugar. — ele diz parecendo irritado agora por eu ter o desafiado.

Opto por ficar calado e baixo o olhar. O clima está muito tenso.

─Como está a dor de cabeça? -ele pergunta depois de um tempo.

─Terrível. — declaro.

Ele tirou do bolso seu estoque de comprimidos pra enxaqueca e jogou pra mim, meus reflexos não estão dos melhores, mas eu consigo pegar. Ele foi até a geladeira e pegou um copo de agua e entregou pra mim, me surpreendi com a forma neutra que ele estava me tratando, mas não era uma boa hora pra discutir aquilo, e ele estava mesmo certo, eu não deveria estar tão desafiador dado às circunstancias.

─Conseguiu pegar. Bom começo. – ele comenta.

Apenas sorrio e tomo o comprimido.

─Você não se lembra mesmo de ontem? – ele diz sério.

─Apenas algumas coisas. – digo sem jeito. ─Só lembro que eu sai com o Ichiro e... você foi me buscar, certo?

─Certo. – ele diz. Ele fica calado um pouco, pensando.

─Obrigado Hyoga, por tudo e...

─Você veio aqui mais cedo ontem não foi? – ele pergunta.

─Foi, mas não te encontrei, juro que tentei chegar a tempo, quis esclarecer tudo e...

─Eu não tenho tempo pra isso Shun. – ele diz logo. ─Se veio então já deve saber que eu sequer deveria estar aqui agora.

─É, o Millo me falou. Eu lamento. Pensei que você já tinha ido. O que aconteceu?

─Meu voo foi cancelado. – ele explica.

─Ah.

─Você lembra de... quando nós... – ele estava sem jeito.

─Lembro. – digo o encarando, mas ele desvia o olhar.

─Não devia ter acontecido. – ele diz.

Fico magoado.

─Não significou nada pra você? – pergunto indignado.

Ele me olha, mas não por muito tempo.

─Desculpe. – ele diz, mas não responde minha pergunta. ─Eu lamento, não queria que me interpretasse errado.

─Está dizendo que...

─Eu não sinto atração por você Shun. – diz sério. ─Aquilo foi um impulso, e não vai acontecer de novo.

─Mas...

─Eu tenho coisas mais importantes pra tratar agora. – ele diz.

Me levanto bruscamente enquanto olho irritado pra ele.

─Seu idiota. – digo irritado.

Ele me olha surpreso.

─Você sempre faz isso Hyoga, assume logo que gosta de mim também.

─O quê?

─Você correspondeu.

─Já falei que foi só um impulso. – ele se defende.

Dou a volta na mesa e me aproximo dele, percebo que ele se retrai quando me aproximo.

─Vai dizer que isso não é nada? – digo e puxo sua camisa e o beijo bruscamente, mas foi rápido.

Imediatamente ele rompe o contato e me afasta.

─Mas que droga, não faz isso. – ele diz ofegante se levantando. ─Você se agarra com aquele seu assistente idiota e agora quer tentar algo comigo? – ele diz indignado.

─O quê?

─O imbecil do seu assistente me contou. – droga Ichiro.

─Aquilo não foi sério. – tento me explicar.

─Ouça. – ele diz sério. ─Sente-se. – disse zangado. Pôs as mãos nos meus ombros e me obrigou a sentar na cadeira onde ele estava sentado, sem a menor vacilação.

Ele obviamente tentava manter sob controle uma grande raiva, droga, Hyoga estava tendo um de seus raros excessos de raiva, e tinha mesmo que acontecer justo comigo, se bem que acho que mereço.

─Não me importo com quem você fica, não me interessa, só exijo que tenha o mínimo de respeito por mim. Por isso não me toque desse jeito, não percebe o quanto isso é insultante?

Não conseguia acreditar que aquilo estivesse mesmo acontecendo. Onde fora parar o agradável, compreensivo e calmo Hyoga? Quem era aquele homem no lugar dele?

─Mas eu...

Não sabia o que falar. Estava acuado. Não conseguia fugir do azul zangado dos seus olhos penetrando os meus.

─Tem ideia do quanto eu senti sua falta? – ele diz de repente. ─De quantas vezes eu liguei pra você, de quantos recados deixei, de quantas vezes fui até seu apartamento?

─Hyoga. – era tão difícil me expressar quando ele agia daquela forma, quando se mostrava tão intimidante.

─Você me ignorou, ignorou por muito tempo, cansei disso, e quando volto a te ver é naquela situação, com outra pessoa e completamente bêbado. E logo depois fico sabendo que você se... se agarrou com aquele seu assistente. – ele diz quase fora de si. ─Acha mesmo que posso te levar a sério nessas circunstancias?

Fico calado. Meus olhos enchem-se de lagrimas. Não fiz de proposito, juro que não.

─Desculpe. – funguei. ─Não quis que isso acontecesse. – digo enxugando as lagrimas. ─Não estou chorando pra que você seja simpático comigo. – me explico.

─Ótimo. – disse ele. ─Porque não funcionaria. – ele diz sem o mínimo de compaixão.

Filho da puta sem coração, pensei brevemente, mas depois bani da minha mente esse pensamento indigno.

─Juro que não foi nada sério com o Ichiro Hyoga. – o que é isso? Ele estava com ciúmes? ─Foi ele que me beijou, e eu... eu não queria, mas acabei correspondendo porque pensei em você.

Ele me olha surpreso, mas desfaz essa expressão rapidamente.

─Já falei que não me importo. Eu fui até lá atrás de você porque você é meu amigo. E apenas isso. Entendeu?

─Mas e o beijo?

─Aquilo não devia ter acontecido, já disse que foi um impulso.

Olho magoado pra ele, não foi impulso, senti ontem que não foi, sei que ele está mentindo pra si mesmo.

─Está mentindo. – digo.

─Não estou, e é bom que acredite. – ele diz sério. ─Não podemos continuar assim, não daria certo, não depois do que aconteceu. – ele diz suspirando.

─Está dizendo que...

─Eu nunca te pediria pra se afastar do Miguel. – ele diz logo. ─Não quero que se afaste dele... de novo. – diz direcionando um olhar fuzilante pra mim.

─Mas e você?

─Não importa, você não estava me ignorando? Apenas continue a fazer isso. – ele diz com uma voz amargurada.

─Mas eu não queria...

─Meu voo sai agora à tarde. – ele diz se afastando. ─Não sei quanto tempo vou ficar fora, mas quando eu voltar vamos continuar afastados, não vou te impedir de ver o Miguel, pode vir quando quiser, mas não terá mais contato comigo. Isso é tudo. – ele diz e se retira me deixando sozinho.

Começo a chorar de novo. Droga, isso foi pior do que imaginei, foram palavras duras e sem emoção, eu não merecia isso.

Ele não tem o direito de me afastar desse jeito dele, eu sofri muito pra isso acabar assim.

Ichiro me ligou diversas vezes, mas não estou a fim de retornar, apenas mandei uma mensagem dizendo que estou bem e que quero um tempo pra mim. As ligações pararam depois disso, ele também não tem culpa de nada, é só mais uma vitima das circunstâncias que rondam minha vida, mas não adianta o quanto eu tente, não consigo gostar dele.

Mais tarde o Hyoga arrumou umas coisas pra sua viajem. Sim, ainda estou aqui.

─Ao menos me deixe leva-los ao aeroporto pra me despedir do Miguel. – digo quando ele estava na porta.

Ele pensa um pouco e olha pro Miguel.

─Ok.

Levei eles, ficamos num silencio horrível em todo o caminho. Apesar do Miguel se mostrar muito alegre em me ter junto deles de novo.

─Vem co a gente Shu. – Miguel diz animado quando íamos pra área de embarque. Ele está comigo, ao menos isso o Hyoga permitiu.

─Ele não vem Miguel. – Hyoga diz sério.

─Mas eu quero papa.

─Não posso ir Miguel. – digo o abraçando, o voo deles já ia sair.

─Vem Shu, vem. Diz pa ele vir papa. – Miguel choraminga.

─Já falei que ele não vem Miguel. – ele diz sério pro filho que começa a choramingar e fazer birra.

─Chega. – ele diz aborrecido. ─Pare de pirraça. – diz pegando o Miguel de mim.

─Papa é mau, muito mau. – Miguel diz e começa a chorar.

Olho irritado pro Hyoga.

─Você está sendo infantil. – digo.

Ele me olha indiferente. Ouvimos a voz da mulher do aeroporto anunciando que já iam começar o embarque.

─Adeus. – ele diz e se retira, mesmo com o Miguel chorado.

─Hyoga. – o chamo, ele me olha neutro de novo. ─Não é sério o que você disse, é?

─Quer que eu repita tudo aquilo de novo? – diz sério.

Baixo o olhar.

─Isso é pro nosso bem. – ele diz e volto a olha-lo, ele não se mostrava mais aborrecido, mas sim triste. ─Eu sinto muito, mas eu não posso gostar mais ainda de você Shun, isso já passou dos limites e eu tenho culpa nisso também, me perdoe. – ele diz suspirando. ─Adeus. – diz e vai.

Estou tão triste, não achei que acabaria assim. Vejo-o se distanciando com o Miguel chamando por mim. Isso é bem mais do que posso suportar, não posso suportar.

Isso tudo porque ele não pode gostar mais ainda de mim... gostar mais ainda? O que ele quis dizer com isso? Ele gosta de mim? Como assim é o melhor pra nós dois?

Porque ele se importou tanto com o que aconteceu entre mim e o Ichiro? Penso em ontem, ele correspondeu ao meu beijo, correspondeu mesmo, pude sentir que aquilo significou algo pra ele. Porque ele não admite? Será que é tão difícil assim gostar de mim? Só porque...

Me toco de um detalhe. Lilia. Ele parecia relutante em querer ir também, ele disse que voltou pra se afastar das lembranças, e agora quase forçadamente ele vai ter que voltar, se isso continuar assim ele corre o risco de piorar de novo. Deve ser difícil. Shunrei falou que ele teve até que ir a um psicólogo, ele estava tão mal assim? Como ele vai suportar enfrentar essas lembranças de novo?

Ele ainda a ama. Por isso ele não me deixa entrar em sua vida, mas ele disse que já estava gostando de mim, sei que sim, percebi isso pelo nosso beijo. Então realmente deve ser insultante pra ele estar gostando de outra pessoa mesmo quando ainda pensa em Lilia o tempo todo.

Agora eu entendo. Ele não sabe lidar com isso, e desse jeito nunca vai superar a morte dela, e eu nunca terei uma chance. Não posso deixa-lo passar por isso de novo, não posso deixa-lo sozinho. Ele querendo ou não.

Corro pro meu carro e pego minha mochila que tem algumas das minhas coisas da viajem. Corro de volta pra área de atendimento.

─Uma passagem pra esse voo pra São Petersburgo que vai sair agora. – digo pra atendente.

Notas finais
Não matem o Hyoga!!! Pra tentarem vão ter que passar por cima do meu cadaver. X( Eles finalmente se encontraram. Desculpem pelo momento, mas aquele beijo tinha que acontecer antes que o Hyoga viajasse. Desculpem por maltratar o Shun, mas vão dizer que o Hyoga não tinha um pouco de razão nessa historia toda? ¬¬ Muita coisa vai acontecer nessa viajem, e o Shun vai ter uma nova chance, principalmente num momento que o Hyoga vai estar mais vuleravel. espero que o capitulo não tenha sido tão ruim e vocês não me odeiem pra sempre :( Até o próximo. Bjs