Destino

9 Cotidiano


Notas iniciais
Aí está, investi muito em dialogos nesse capitulo, mas não se preocupem que os proximos vão correr com o tempo rapidinho ;) ah, desculpem pelo titulo tosco, sou péssima pra dar nome aos bois :P Boa leitura.

Camus é como um irmão pra mim e a voz segura e sã dentro da minha cabeça. Foi a primeira pessoa pra quem liguei quando Lilia morreu. Bom, isso não é propriamente verdade. Tecnicamente, telefonei pra minha sogra primeiro. Eram altas horas da noite quando Lilia morreu, e meu cérebro ainda cansado tentava se adaptar aquela nova realidade, então logo depois que me forçaram a sair do quarto de Lilia com Adam ao meu encalço tentando me acalmar, mas assim que ele saiu do meu lado meu estado tinha se alterado rapidamente, acho que aquele foi o momento exato do meu colapso, congelei minhas emoções como sempre faço quando não sei o que fazer. Tratei de ligar pra minha sogra e dar a péssima noticia.

─Alô? — meu sogro atendeu ainda grogue de sono. ─Alô?

Dava pra ouvir a escuridão em seu quarto, o silencio pesado que eu acabara de quebrar.

─Quem é?

Não consegui falar. Falar seria abrir a porta para o bando furioso da minha realidade que protestava em frente à minha embaixada.

─Alô? — repetiu ele.

─Babaca! — bateu o telefone.

Lilia estava morta e meu sogro me achava um babaca. Eu entendia que era verdade, mas não conseguia aceitar.

Lilia estava morta na cama de um dos quartos próximos. Minha Lilia, fria, sem vida com um médico dando seu horário de óbito. E eu sou um babaca. Isso simplesmente não parecia possível, pelo menos a parte de Lilia, pois estou realmente me convencendo aos poucos que sou um babaca.

Gente normal reage com violência a experiências desse tipo, certo? Gritam negações angustiadas e caem no chão soluçando, ou batem furiosamente na parede, até não conseguirem mais distinguir se os sons de algo se rachando vem da parece ou dos punhos quebrados. Mas tudo o que eu consegui fazer foi ficar de pé no meio do corredor, massageando o pescoço e me perguntando que diabos fazer.

Até porque se eu me permitisse ficar agressivo quebrando tudo acabaria colocando aquele hospital a baixo. E isso é uma péssima ideia, Saori ficaria furiosa comigo e poderia até esquecer que eu acabei de perder minha esposa pra uma doença terrível e me punir, doença que inclusive ela poderia ter curado se não tivesse feito a estupida promessa aos deuses do Olimpo que não se envolveria mais entre o ciclo de vida e morte dos mortais, que era controlado por Hades, foi o trato pra manter a paz na terra, e agora mais que nunca vejo que foi a pior decisão que ela já tomou, pensando bem, teria sido até bom eu ter surtado e revelado que somos cavaleiros, seria minha vingança. Soei muito egoísta?

Meu primeiro instinto foi ligar pra alguém. Meu primeiro instinto foi ligar pra Lilia. Disquei o numero de seu celular, sem saber ao certo o que esperava ouvir. A caixa de mensagens atendeu instantaneamente. ‘Oi, você ligou pra Lilia Yukida. Por favor, deixe o seu recado e retornarei sua chamada assim que possível. Obrigada, tchau. ’ Ela gravara essa mensagem uma noite na cozinha, e dava pra ouvir ao longe Miguel rindo enquanto eu fazia caretas pra ele na tentativa de distrai-lo enquanto eu a esperava pra que ela o colocasse pra dormir.

Eu ouvira a mensagem tantas vezes nos últimos anos que há muito já deixara de prestar atenção nela. Dessa vez, porém, ouvi sua voz calma, confiante, seu tom distraído ao gravar apressadamente a mensagem, o ruído discreto da sua família ao fundo. Ela não podia ter morrido. Estava bem ali no telefone, ela mesma. Os mortos não tem caixa de mensagem. Ouvi o bipe e percebi que minha mensagem ia começar a ser gravada. "Oi, amor", disse eu estupidamente, mas não consegui falar outra palavra, portanto desliguei.

Como vou lidar com isso?

Como vou lidar com isso?

Me pergunto diversas vezes.

Lilia está morta. Tentei entender. Ela não vai voltar. Nunca mais vou vê-la. Nada disso fazia qualquer sentido pra mim. Eram apenas palavras, nada além de hipóteses sem comprovação. O que eu deveria fazer agora? Lilia está morta. Lilia está morta. Lilia está morta. Parecia importante registrar o conceito em sua totalidade, para que eu pudesse funcionar, para que eu pudesse fazer o que fosse preciso.

O que precisava ser feito? Eu não fazia a mínima ideia. Mexa-se Hyoga. Ligue pra alguém. Deve haver alguém que saiba o que fazer. Peguei novamente o telefone.

─Alô! — rosnou Millo.

─Quero falar com Camus.

─Hyoga? — perguntou ele, zonzo de sono. ─Santo Zeus! Você sabe que horas são? — ele pergunta, não estou a fim de calcular o fuso horário pra ele.

─Duas e quarenta Millo. Preciso falar com Camus.

─Ah, aqui ainda é uma e quarenta. Mas ele está dormindo. — respondeu com firmeza.

Normalmente Millo é alegre e calmo, mas nunca o tire de um sono tranquilo que ele acorda pra lá de irritado. Mas eu preciso falar com Camus, é só ele que me ocorre quando não sei o que fazer, ele é meu mestre, é meu tutor. É minha família.

─Não dá pra esperar. — digo.

─Está tudo bem? — ele pergunta preocupado agora.

─Preciso falar com o Camus.

Depois de uns ruídos rápidos e abafados, Camus atendeu o telefone, meio rouco e totalmente confuso.

─Hyoga, o que houve? — ele pergunta de seu jeito educado que esconde o possível palavrão que ele segura, ele é controlado em qualquer momento, não importa o quão filho da puta você esteja sendo.

─Lilia faleceu agora a pouco Camus. — digo eu, e finalmente algo frio e duro se encaixou dentro de mim.

─O quê?

─Lilia morreu. Parou de respirar a alguns minutos.

─Meu Deus! Você tem certeza?

─É claro Camus, sou médico, acabei de sair do quarto dela.

─Porra! — ele exclamou. Estou mesmo falando com o Camus certo? Ouço-o fungar, acho que posso até sentir seu coração bater mais alto, Camus a adorava. Quis lhe pedir pra não chorar, mas até então eu não havia chorado e achei que alguém devia fazer isso por mim. Camus é controlado demais pra isso, mas com certeza ele contaria a Millo, e então ele sim poderia chorar por nós dois.

─Vou pra aí. — ele diz de imediato.

─Não precisa.

─Cala boca Hyoga. Daqui a pouco estarei aí.

─Tudo bem.

─Já ligou pros seus sogros?

─Não.

─Quer que eu ligue?

─Não.

─Que pergunta idiota, desculpe.

Sua respiração fica ofegante enquanto ele anda pelo quarto se vestindo rapidamente, dizendo a Millo pra calar a boca.

─E o Miguel?

─Está com meus sogros. Camus?

─O quê?

─Não sei o que fazer.

─Respire. Inspire e expire. Inspire e expire.

─Não sei o que pensar.

─Você está em estado de choque. Muito bem, vou avisar Atena e sairei do santuario daqui a pouco.

Segundos depois, ouvi um barulho de batida forte.

─Puta que pariu! — esse não pode ser o Camus, porra, na hora que eu mais preciso de alguém controlado ele me apronta essa.

─O que houve?

─Bati na porra de não sei o quê e derrubei tudo... já vi Millo, que saco. – diz irritado.

─Cuidado. – o advirto.

─Tudo bem. Fiquei calmo, logo estarei aí. — ele diz e dá uma pausa. ─Hyoga.

─O quê?

─Eu sinto muito. – diz lamentando.

─Eu sinto mais. – digo e desligo.

E lá estou eu. Por mais que eu tente não voltar sempre acabo no mesmo lugar, sempre.

Velórios. Eles duram uma eternidade aos olhos do enlutado. Ficar rondando o viúvo, lamentando, lembrando as qualidades do extinto, equivale a importunar pelo exagero. Por mais estranho que possa parecer existem regras de etiqueta e boas maneiras em velórios.

Primeiro que nunca se devem dar três beijinhos e perguntar: "Tudo bem? Como vai? Você viu se esta ou aquela pessoa chegou? Como vai sua tia, prima, cunhada? Onde está o café?".

As ultimas coisas que se quer ouvir é: “Foi vontade de Deus”, pro inferno com essa ideia. “Deus não nos dá tristezas que não possamos suportar”, então tenta você suportar essa dor pra ver se consegue. “Não estava pronto para isto”, é claro que não, muito menos eu, sua observação é idiota e inútil. “Não sabia que ela estava tão doente”, mil desculpas, esqueci-me de publicar nos jornais sobre isso. "Sei bem como se sente", não você não sabe, pois ainda vive em seu universo cor de rosa onde nada nem ninguém o afeta. “Não chore. Logo a saudade abranda.”, primeiro que eu não estava chorando e segundo que saudade não abranda droga nenhuma, ela corrói, corrói tudo que você ainda tem de bom. “Quanto custou o funeral? O de mamãe saiu pela metade do preço”, e eu lá quero saber quanto custou suas lágrimas, estou viúvo, porra, e a ultima coisa que quero pensar é no preço do caixão. Vai pro inferno com suas dividas. “Minhas condolências. Tão nova coitada. Poderia ter acontecido a qualquer um de nós”, é, poderia mesmo, um acidente pode acontecer a qualquer minuto também, por isso é melhor você ficar esperto, você é tão novo também.

E pelo amor de Deus, nunca diga: “Isso logo passa! Logo você está casado novamente.”, nunca me diga isso, pois eu posso te matar e me suicidar depois.

Depois de horas naquilo eu achei que teria paz, mas o pior ainda estava por vir.

O sol está se pondo, estamos a enterrando. Miguel está no meu colo com a cabeça entre meu ombro e pescoço, estava em prantos há algumas horas, está exausto. O padre diz algumas palavras, e depois de um tempo começamos a assistir enquanto o caixão de Lilia era baixado à sepultura, preso a duas cintas de pano. Mesmo um pouco distante, pude ouvir o rangido do caixão batendo nas laterais de pedra do tumulo recém cavado, depois do som agudo de terra carregada de calcário contra o caixão de madeira seca, quando nele despejam as primeiras pás. Ela estava enterrada. A minha Lilia debaixo do solo, dentro de uma sepultura aberta como uma ferida no cemitério de Novodevichy.

No epitáfio da lápide segue-se com a seguinte inscrição: “Aqueles a quem amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. Aqui jaz Lilia Poznanski Yukida, esposa dedicada e mãe amorosa. 1981-2012”.

Tenho que dizer que Andrey pensou mesmo em tudo, tenho fortes duvidas se ele não planejava isso há mais tempo, mas ele já estava me dando nos nervos, já até planejava mandar fabricar um busto de bronze de Lilia e construir um mini mausoléu com a estatua de São Miguel, estava beirando a obsessão, talvez seja o jeito dele de lhe dar com a perda, não pensando muito a respeito e se mantendo ocupado com outras coisas em sua mente. Irina teve que refrear esse impulso mórbido dele, ou eu mesmo o refrearia, e em minha condição atual não seria nada bom.

Estou sozinho.

Em frente à cova dela, o tumulo ainda não estava erguido, então só tinha a terra fofa recém cavada com uma lapide de pedra em frente, a lama escorrendo por meus sapatos por causa da chuva torrencial que está caindo sem piedade sobre mim, meu desejo de chuva no enterro dela sempre se realizavam em meu inconsciente, o problema é que isso não é um sonho, é um pesadelo.

Estou com frio, isso é possível? Logo uma pessoa como eu sentir frio com uma chuva?

Acabo sentando no chão, alguém vem pro meu lado, posso sentir a presença dela de forma tão intensa que momentaneamente minha respiração fica entalada no nó da minha garganta e sinto um arrepio na nuca.

Estou cansado.

─Oi amor. – digo a ela. ─É você mesmo que estou sentindo ou apenas o buraco que você deixou?

─Oi. – ela diz, sinto tanta falta de ouvir a voz dela.

─Você me deixou. — digo.

─Você sabia que isso ia acontecer. — ela diz. ─Sabia que tinha que estar preparado.

─E você também sabia que eu nunca estaria.

Ela se cala, a olho, ela não está vestida de branco como se imagina nos filmes, mas sim de preto, um vestido longo e preto enquanto fixa o olhar em sua própria lápide, mas está saudável.

─Sinto sua falta. — digo com lágrimas nos olhos.

Ela me olha, e sorri.

─Eu te amo. — digo.

Ela continua complacente, sorrindo, mas eu sei, a Lilia de meus sonhos não me ama, pois ela nunca responde de volta. Ela volta a olhar pra seu tumulo em silencio e acabo por fazer o mesmo.

Estou triste.

─A neve é melhor. — ela diz.

─Hã?

─Nunca gostei de chuva. — ela diz.

─Sei disso.

─Não, você não sabe, há muitas coisas que você não sabe. — ela diz.

Volto a olha-la, e não está com a aparência saudável de antes, está pálida, doente como em seu ultimo dia de vida.

─Isso é tudo culpa sua Hyoga. — ela diz com voz amargurada enquanto analisa seu próprio estado deplorável, os poucos cabelos que ainda tem caem enquanto a chuva cai sobre ela que até então não a afetava.

─Lilia. — tento chegar nela, mas ela se afasta.

─Eu não queria ficar, mas você insistia e insistia, doía muito, mas eu fiquei, fiquei por nossa família... — diz chorando. ─Está vendo? — diz pegando o que sobra dos cabelos. ─Não era pra acontecer, eu devia ter ido muito antes disso.

─Estava lutando por sua vida. — me defendo.

─Mas eu não queria. — diz gritando. ─Eu já estava farta dessa dor, farta dos martírios, dos remédios, do hospital... De você, eu estava farta de você Hyoga. — ela dizia descontrolada.

─Por que está me dizendo isso? – não quero discutir, mas parece que todo o cansaço de meses cai sobre mim de uma única vez, estou sem forças.

─Eu disse, sempre disse, eu tinha que ir Hyoga, mas você não ouvia, não deixava. Admite Hyoga, não era por mim, era por você mesmo, você não queria ficar sozinho de novo, pois era assim que você estava quando eu te conheci, sozinho, triste, sem esperança.

Fico calado, eu estava assim mesmo, desesperado.

─Eu fiz um favor por você, fiquei ao seu lado, lhe dei uma família, mas foi um erro, pois em troca você só prolongou meu sofrimento, eu já estava cansada, eu só queria paz, mas você não me deixava ir.

─Não sabia que se sentia assim.

─É claro que sabia, mas estava evitando a verdade.

Estou cansado.

Olho pro céu, a chuva continua a cair, meus sentidos parecem mais apurados, por isso o som oco das gotas contra o solo parecem bem mais altos agora. Minhas lagrimas quentes se confundem com as gotas de chuva, fecho os olhos e deixo a chuva levar meu pranto.

─Eu te amo. – digo e olho pro lado, e então o momento passa e lá estou eu sozinho de novo, ela se foi.

E lá estou eu, sentado em frente sua cova e debaixo daquele temporal, tudo vai ficando cada vez mais frio, minha vista está enevoada e vejo a chuva desaparecendo aos poucos e acabo desaparecendo também.

Estou cansado.

Hyoga acabou dormindo comigo ali, mas teve pesadelos a noite toda, ele se remexia inquieto ao meu lado, chamando por ela, não consigo acorda-lo. Então eu o abraço numa tentativa de ao menos acalma-lo, depois de um longo tempo ele finalmente se tranquiliza.

...

Acordei de mais um sonho com o Hyoga, um sonho nada casto. A luz matutina entrava pela fresta da janela do quarto que balançava com as cortinas semiabertas, parecia estar caindo uma leve garoa, o ar estava úmido.

Onde estou? Tentei me localizar e me vi abraçado a alguém. A camisa branca subia e descia com a respiração desse alguém, olhei pra cima e me assustei quando vi o rosto adormecido e calmo do Hyoga, daí eu lembrei.

Acabamos nos aconchegando e dormindo de qualquer jeito quando estávamos abraçados ontem, ele ainda estava com a roupa que chegou. As emoções devem ter sido tão desgastantes pra ele que acabou exausto e dormindo ali comigo. Eu velei seu sono por um tempo, até porque ele ficou inquieto a noite inteira então não consegui dormir direito também.

Não posso negar que foi uma sensação maravilhosa dormir com ele, mesmo que não tenhamos feito nada, mas mesmo assim ter ele ali comigo era surreal. Era como acordar de um sonho e entrar em outro.

Só que tinha um detalhe: ele estava congelante. Sei que ele está vivo apenas pelo subir e descer do peito dele, mas não nego que de inicio fiquei meio em duvida. Sei que isso é natural dele, é um cavaleiro do gelo, e sei também porque já entrei no quarto dele diversas vezes quando ainda vivíamos juntos na mansão, era uma atitude bastante maluca, mas vê-lo dormindo me fascinava desde sempre, nem sei por quê.

Prestei atenção no rosto dele, na pele clara, com a boca entreaberta e avermelhada e tive que conter o ímpeto de beija-lo, nos cabelos loiros caindo despojadamente sob os olhos e balançando com a brisa que vinha da janela, como fios de sóis ondulando. Como eu não podia chegar tão perto assim do Hyoga, por várias vezes, eu optava por observar os cabelos do Miguel clinicamente pensando se os do Hyoga eram realmente parecidos, e agora, aqui, vejo que eles realmente são idênticos, igualmente dourados e leves.

É possível desejar alguém mais do que o corpo é capaz de suportar? Sinto que cada vez que olho pro Hyoga encontro algo novo pelo quê me apaixonar. Mas eu o amo? Nem sei como é sentir isso, deve ser algo parecido com o que sinto agora, pois é sufocante e igualmente frustrante, saber que ele não vê tudo isso que tem me causado. Ou talvez eu só esteja sendo mesmo precipitado com meus sentimentos, do mesmo modo que fui até hoje com tantos outros.

Hyoga é diferente do Hayato. Hyoga é terno e carinhoso nas medidas e nos momentos certos. Hayato era possessivo e totalmente fora de sincronismo comigo, tem momentos que eu simplesmente quero um tempo pra mim, mas ele não entendia isso. Digamos que ele era até grudento demais e como comprovei tantas vezes, ciumento.

Hyoga tem uma beleza natural e singela, que ele pouco percebe ou se importa pra exibir-se com ela, embora ele o faça inconscientemente. Hayato esforçava-se o tempo todo pra se manter belo, já mencionei que ele é um advogado? Por isso ele tinha que manter a boa aparência. Seus cabelos castanhos eram um pouco mais escuros que os meus, traços faciais fortes, corpo esbelto, sim, ele não era de se jogar fora. Eu o conheci através de um amigo de faculdade quando fomos a uma boate pra relembrar o passado. Hayato se aproximou como quem não quer nada, a essa altura meu amigo já tinha se entrosado com outro alguém na boate, então só me restou conversar com o Hayato mesmo, bebemos, conversamos, na ocasião tenho que dizer até que foi um papo bom, ele tinha conteúdo, então acabei me interessando por ele, mais alguns drinques e já estávamos nos amassos num canto escuro da boate, passamos a noite no apartamento dele, quando dei por mim já achei que estivesse apaixonado. Porem o tempo foi me fazendo abrir os olhos.

Hayato era muito criterioso com a própria aparência, ele tinha praticamente um salão de beleza no apartamento dele, onde ele era o único cliente, devo mencionar também que ele tinha um ciúme tremendo de seus utensílios de beleza caros, há uma grande diferença nesse sentido entre ele e o Hyoga, as únicas coisas que eu percebi existirem no banheiro do Hyoga é: o shampoo, o sabonete, o barbeador e a escova de dente com o creme dental. Dá pra saber quem é o desesperado nesse contexto só por esses detalhes né.

Hayato é um daqueles caras de soberba exagerada, e isso o tornou um arrogante intolerável em muitos momentos, uma prova disso é de ele sempre tratar mal o garçom quando este vinha nos atender, não importa o quão refinado fosse o restaurante que estivéssemos, e olha que ele nem era tão bem de vida assim, por muitas vezes era eu que pagava a conta, e ele pouco se importava, na realidade ele não tinha o mínimo problema com isso, pois ele sabia que dinheiro nunca me faltou, sempre pelas rendas do que minhas criações geravam, digo que de certa forma ele aproveitou meu sucesso melhor do que eu mesmo. E ele não sabe nem de longe do numero exagerado na minha conta no banco proveniente de minha parte na herança do Kido e que eu pouco mexi.

O Hyoga é diferente, ele é educado e cavalheiro, e já ouviram a expressão que ‘os russos sempre pagam a conta’? Mesmo quando são só amigos das pessoas da mesa. Alguns chamam isso de cavalheirismo, mas pra mim soa muito mais como machismo. Se você se oferecer para dividir a conta é considerado uma ofensa pelo cara russo. Se propuser rachar a conta, eles também acham absurdo. Uma vez quando o Hyoga chegou razoavelmente cedo do hospital, saímos pra ir rapidamente a uma lanchonete, quando terminamos de comer o Hyoga simplesmente tirou a carteira e pagou a conta como se fosse o gesto mais comum da face da terra, eu que sou acostumado a pagar a conta, por isso achei estranho.

─Que foi? – ele disse confuso quando me viu olhar irritado pro dinheiro em cima da mesa junto com a nota do garçom.

─Porque não dividimos a conta? – eu disse irritado, estou vivendo debaixo do teto dele uma semana inteira de graça, eu queria dar minha contribuição pra essa relação também ora.

Ele só me olhou e balançou a cabeça como se eu tivesse feito uma pergunta idiota.

─Para o bom entendedor meia palavra basta Amamiya, e a palavra é: ‘vamos’. E sem discursões. – disse já com o Miguel no colo. ─Você vem? – ele disse de pé me esperando.

─Hunf, você não manda em mim. – digo irritado, mas fui com ele mesmo assim, ele que me aguarde, quando chegamos em casa eu desabei as palavras, ele estava sentado no sofá entediado enquanto eu ia de uma lado pro outro colocando os mil e um motivos dele ter parecido um completo machista no tal ocorrido, será que estou parecendo um neurótico?

Depois que eu terminei meu longo discurso ele calmamente foi me explicar porque agiu assim.

Não fiquei muito convencido então fui pesquisar, descobri que realmente na Rússia os homens se comportam assim. Inclusive existem restaurantes que entregam cardápio sem preço pras mulheres e com preço pros homens. Mas foi aí que eu me toquei, porque eu estava tão irritado? Aquelas informações levantadas só eram plausíveis caso fossemos um casal, parecemos um casal? E desde quando eu me pareço a mulher? Bom, vou ignorar isso.

Tirando isso, era evidente a diferença entre o Hyoga e o Hayato, as diferenças por quem eu achei que estivesse apaixonado e por quem eu acho estar apaixonado no momento.

Será que estou sendo precipitado? Meus sentimentos pelo Hyoga são realmente verdadeiros dessa vez? Talvez eu só não tenha visto o quadro todo ainda, minha fascinação pelo Hyoga devem ter me cegado pros possíveis defeitos dele. Mas o que foi que eu fiz aquele dia? Eu me irritei com ele por encontrar um defeito em seu comportamento, mas ainda assim não deixei de gostar dele, pelo contrario, percebi que achei mais excitante ainda vê-lo em uma posição tão máscula, embora machista, ainda mais pra alguém que sempre é tão cavalheiro como ele, acho que existem os limites entre gentileza e obrigação, e ele deve confundir os dois, além do mais eu o conheço há anos, então acredito que já sei todos os defeitos dele, mas não deixei de gostar em nenhum momento.

O que foi que eu vi de tão interessante no Hayato afinal de contas?

Eu pensava nisso quando o Hyoga se remexeu um pouco me apertou mais contra ele e me fez ficar muito próximo de seu rosto, e isso me fez perceber outro detalhe de nossa atual situação.

Por mais constrangedor que seja e nem sei como isso aconteceu, mas talvez eu tenha me animado demais em meus sonhos, porque eu estava com minha perna esquerda entre as dele, e o apertava perto da virilha e isso estava pra lá de sugestivo. Devo lembrar que eu tive um sonho erótico com ele? Minha ereção já estava bastante dolorida e ele também tinha uma daquelas ereções matinais, sei por que eu estava o apertando também e isso fazia um volume em suas pernas, e que belo volume.

Não nego que a situação era mais estimulante ainda pra piorar minha situação, eu estava ficando cada vez mais excitado. Droga, e se ele acordar?

Procurei ignorar meu baixo ventre por enquanto e passei a explorar o corpo dele melhor.

Dessa vez ele estava numa posição que eu podia observa-lo bem de perto. E céus, que corpo, como é possivel que um cara que não tem tempo pra nada, muito menos pra se exercitar podia ter um corpo tão bonito e sarado? Eu sei por que estou verificando com minhas proprias mãos o peito forte dele. E estou com as pernas fortes dele entre a minha.

Acho que aquele corpo ainda era efeito do tempo dos duros treinamentos pelo qual passamos, mas mesmo assim, ele já até se casou e eu já ouvi tantas vezes que homem quando se casa engorda, mas o Hyoga não, ele não se aplica a muitas regras da natureza, deveria ser mesmo um crime ser tão bonito assim. Por sorte a natureza foi bem generosa comigo também, principalmente porque eu nunca tenho tempo pra me exercitar, só eventualmente saio pra correr, mas tudo ainda continua no lugar, embora eu nunca tenha tido tantos musculos assim quanto esse loiro.

Acho que ele ainda treina, só pode, não é possivel, embora nós tenhamos obrigação de nos manter em forma, caso o santuario invente de nos colocar em campo de novo, estamos sujeitos a isso ainda.

Ele estava tão perigosamente perto, a boca dele se mexia levemente com a respiração e eu via os lábios avermelhados entreabertos e o minimo de uma fileira dos dentes brancos dele aparecia, só mais um pouco e eu podia beija-lo, mas não é o certo a se fazer, sei disso, mas quem disse que sou uma pessoa correta? Além do mais é culpa dele por estar me provocando tanto.

Quando finalmente venci meu lado correto e me decidi por beija-lo me aproximei mais dele, só que acabei levando um susto quando eu ouvi o bipe de algum aparelho eletronico, droga, logo agora, o que será? Olhei brevemente para o criado mudo do lado do Hyoga e vi que se tratava do Pager dele, parou um minuto pra depois voltar tocar de novo, olhei pro Hyoga que ainda mantinha-se sereno, ele se remexeu um pouco, mas continuou dormindo, achei adoravel.

Será que é do hospital? Ele me disse que estaria de folga hoje, eu sei por que um dos motivos de ele ter saido ontem com Millo é que não precisaria acordar cedo hoje.

O aparelho parou de vibrar por um tempo e então foi o celular dele, que estava ao lado do Pager, que passou a tocar, bem mais vibrante e em alto e bom som.

Não deu outra e o Hyoga apertou os olhos suspirando e enfim foi despertando. Rapidamente fechei os olhos e fingi que dormia, não me perguntem por que fiz isso.

Ele se mexeu bruscamente, acho que se assustou com nossa proximidade, parou de se mexer um pouco, deve estar analizando a situaçao assim como eu fiz há alguns minutos e raparado bem em como meu corpo estava colado ao dele, deve estar se perguntando como acabamos assim. O celular ainda tocava, ele se remexeu de novo e pegou o aparelho.

─Alô! – disse com a voz cansada.

Outro pesadelo com ela, outro? Não, é o mesmo, a mesma droga de pesadelo que me assombram todas as noites desde que ela morreu, nunca vão parar.

Mas não quero falar de minha desgraça agora, porque eu teria que refletir a respeito e não tenho feito outra coisa ao longo desde ultimo ano. Existem partes do meu cérebro que continuam a pensar incansavelmente nisso e em Lilia, um departamento de pesquisa e desenvolvimento inteiramente dedicado a descobrir novos meios de sofrer, lamentar e sentir pena de mim mesmo. E tem mais: é um departamento extremamente competente. Por isso, deixarei que se encarregue disso.

Acordei dolorido, deve ser efeito da bebida de ontem. O toque insitente do meu celular enchia o quarto, quando reparei num peso em meu braço esquedo, abri os olhos e levei um susto quando vi uma cabeleira castanha, mas o quê? Quando foi que eu... ah é o Shun.

Ele estava abraçado a mim. Estou sonhado? Como foi que acabamos assim? Isso tá muito esquisito, não me lembro de ter concordado em dormir com ele, mas não vou discutir, provavelmente ele não planejou isso também, provavelmente.

Por um momento torci pra que fosse Lilia, mas aqueles cabelos ondulados não eram loiros, eram como um mar de ondas cor de mel. Definitivamente não é ela, por um rapido momento achei que fosse mesmo uma garota, ele ainda dormia tranquilamente, de tão perto pude ver a quão rosada era a pele dele, parecia boa de tocar, afastei esses pensamentos idiotas quando lembrei que tinha um aparelho irritante enchendo meus ouvidos e me tirando a paciencia logo cedo. Atendi.

─Alô!

─Oi senhor Yukida.- disse uma voz masculina.

─Hideki? – eu disse confuso, ele é um dos enfermeiros recepcionistas do hospital onde trabalho, o que ele queria tão cedo? Ele está mais do que ciente que não vou trabalhar hoje.

─Sou eu, desculpe ligar a essa hora, eu lhe acordei?

Afastei o celular do ouvido pra verificar as horas.

─Ainda são seis e meia, é claro que me acordou. – digo impaciente.

─Desculpe, desculpe. – ele diz e posso imaginar claramente que esteja com o telefone entre o pescoço e o ombro e passa a lixa nas unhas enquanto me dá alguma nóticia, que tenho certeza que não vou gostar, enquanto sorri como um personagem de desenho animado.

─Fale logo o que quer Hideki. – digo impaciente, tenho assuntos mais importantes pra pensar agora, o primeiro deles é formular uma boa explicação pra eu estar abraçado de um jeito muito constrangedor com meu amigo.

─Isso pode parecer bastante improprio, eu sei que o senhor exigiu sua folga pra hoje e que já estava tudo decidido, mas a senhora Tomoe escalou o senhor pra cobrir plantão hoje.

─O quê? – tinha que ser a Tomoe mesmo, ela é a diretora do hospital, e tem me feito praticamente de escravo essa semana, ela está com dificuldade pra contratar novos clinicos e me colocou pra fazer essa parte, eu e mais uma legião de médicos que estão revoltados com o excesso de trabalho por conta da má administração dela, ela é nova no cargo por isso não se situou ainda com os problemas do grande hospital. Eu posso entendê-la, mas não posso deixar de me revoltar também.

─Desculpe mesmo senhor Yukida, sei que trabalhou muito a semana inteira mesmo fora de seus horarios, mas não tinhamos opção, o senhor Nishimura ainda se encontra indisponivel. – foram os plantões de Nishimura que cobri durante a semana.

─E não tem mais ninguem que pode fazer isso?

─Não senhor.

─Eu falei que teria assuntos importantes pra cuidar hoje. – digo me lembrando das entrevistas com as possiveis babás pro Miguel.

─Sabemos senhor, mas... – ouve-se uma falha na estatica da linha rapidamente, como se alguem tivesse pego o telefone rapidamente e passado pra outra linha.

─Sou eu Alexei. – disse uma voz feminina.

─Tomoe? – ela devia estar por perto vendo o Hideki tentando me convencer.

─Sou eu sim, lamento muito te pedir isso de novo, mas eu preciso mesmo de você Alexei. – ela diz quase implorando.

─Já conversamos sobre isso Tomoe. – digo cansado, mas não menos decidido. Parecia haver uma falha de hierarquia aqui, afinal é ela que é minha chefe, embora não tenha sido ela que realmente me contratou, mas sim o senhor Noguchi, que é o administrador oficial do hospital, e que agora está de férias. Tomoe é apenas substituta, assumiu tem quase duas semanas, mas ela só tem uns vinte e sete anos, é jovem, pouco experiente e falha miseravelmente em sua posição de administradora temporaria, e todos os medicos em sua maioria são mais velhos que ela, então isso a faz confundir sua propria posição, então é claro que pra ela o respeito vem em primeiro lugar, nem preciso dizer que ela tem uma dificuldade tremenda de repreender alguem, mas as vezes ela beira a neurose, deve estar passando por uma grande pressão pelo conselho de médicos, e isso torna seu trabalho cada vez mais dificil, não posso deixar de sentir pena dela.

─Eu sei, eu sei, mas não tenho opção. Olha, pra parecer menos injusto saiba que eu escalei Hana pra cumprir clinica hoje também, e olha que ela nem demorou tanto assim pra aceitar. – ela disse em tom de que eu deveria me tornar mais empatico. Hana também trabalhou exaustivamente a semana inteira como eu, mas eu sei que ela estava devendo horas, ela mesma me disse.

─Boa tentativa Tomoe, mas eu sei que Hana quer pagar as horas que deve. – digo com o ar de uma pequena vitoria.

Ela suspira.

─Vamos fazer assim, cumpra só meio periodo então, venha só à tarde. – tentou negociar.

─Estarei ocupado o dia todo. – digo, embora não saiba pra qual horario Shun marcou as entrevistas, mas sei que não leva tanto tempo assim.

─Ora por favor Alexei, sei que está cansado, eu também estou, nem fui pra casa ainda. – ela diz já impaciente.

─Hum. – como se isso fosse grande coisa pra mim, cansei de fazer isso em meu trabalho na Russia. ─Acho que você pode tentar algo melhor.

─Ok então, te dou dois dias de folga depois disso.

─Agora estamos nos entendendo. Poderia até ser quatro.

─Nem pensar, vão ser dois.

─Três?

─Tá, tudo bem então, pode ser três, mas nenhum dia a mais.

─Se eu descontar todas as horas extras que fiz vou ficar uns dois meses de folga.

─Nem pense em fazer isso, preciso muito de você. E acabou a negociação, três dias e pronto.

─Uma hora você vai ter que me dar sosego, trabalho aí há um mês e tenho horas pra cobrir praticamente dois.

─Ah por favor, depois falamos nisso, tá bom.

─Ok, acho que posso conviver com isso por enquanto.

─Aff, Fala de você e eu que só tenho duas semanas e é como se fosse um ano inteiro, não sei como ainda não fiquei louca com vocês e esse hospital. – ela disse suspirando, achei melhor não comentar que ela já está quase louca mesmo, e ainda por cima exagerada.

─Não diga isso muito alto, senão vai atrair desespero de seus subordinados. – eu disse sarcastico.

─Você não parece dezesperado. – ela diz enfezada.

─Digamos que no momento você precisa mais de mim do que eu de você.

─Não vou discutir isso.

─Otima decisão.

─Certo, certo. Então posso contar com você?

─Ok.

─Talvez eu não esteja aqui hoje à tarde.

─Mas eu tenho que estar né. – digo já me arrependendo.

─Veja pelo lado bom, amanhã você fica livre.

─Vou tentar, mas tem uma parede branca na frente minha frente bloqueando minha visão.

─Prometo que você não vai se arrepender. Até mais Alexei. Obrigada.

─Tá. Até. – digo e assim que desligo me arrependo, saco.

Bom, pelo menos terei três dias de folga.

Suspiro e volto a olhar pro Shun, mesmo depois daquela conversa ele não acordou. Agora posso ver de perto o trabalho que é acorda-lo de manhã. Vontade de sacudi-lo pra ele aprender a acordar cedo não falta, mas não vou fazer isso, vai que ele planeje se vingar.

Olhei-o melhor, ele é realmente adoravel, é estranho reparar isso em um homem, mas sempre achei isso do Shun.

Mesmo naquela posiçao o cabelo dele não desalinhava por completo, não sei como chamar isso, mas os japoneses tem uma coisa estranha que parece ser natural deles, tão singelo, mesmo que não queiram ou pareçam querer, eles tem uma simetria e perfeccionismo que nada parece desalinhalos, nem suas roupas, nem cabelo, nem gestos, sempre serenos e muitas vezes sem qualquer erro. Shun é assim, embora eu ache que ele não perceba, e de algum modo sou facinado por isso nele.

Acho que muitos quando olham rapidamente pra ele já imaginam que ele seja homossexual, por causa daquela imagem androgena que ele passa, não que ele queira, mas ele todo já parece sensivel e delicado só de olhar, porem depois de tanto tempo que convivo com ele, e o tanto que tenho percebido, ele em nada parece com uma garota, é apenas uma pessoa que é mal interpretada.

Acho melhor me levantar, não é nada normal ficar assim tão perto dele, e só vou sair à tarde, mas agora não consigo mais dormir mesmo.

Tentei ser o mais leve possivel em meus movimentos, mas o Shun não parece ser tão leve nessa posição, e ainda por cima ele estava apertando minha virilha com a perna, nem sei como acabamos assim, e nem quero pensar besteiras, afinal eu bebi ontem não é mesmo, por isso fiquei aliviado quando vi que estavamos vestidos, mas a situação não deixa de ser pra lá de sugestiva, por isso quero sair logo daqui. Fora que meu baixo ventre já tá doendo. Afastei a perna dele de mim.

Ouvi a conversa do Hyoga, e acho que entendi boa parte dela, acho que ele vai ter que trabalhar de qualquer forma. Depois de um tempo que achei até estranho ele voltou a se mexer, tentava levantar sem me acordar. É claro que minha perna já o estava incomodando então ele a afastou, então achei de representar que estava acordando de uma vez.

─Hyoga? – digo fingindo estar acordando, mas não me afasto um milimetro sequer dele.

─Bom dia. – ele diz sério e se inclinando pra longe de mim aos poucos, acho que cauculei mal a reação que ele teria em nos ver naquela situação, deve estar de mal humor.

─Bom dia. Que horas são? – pergunto me aconchegando ainda mais no peito dele, na maior cara de pau, acho que ele está com vergonha de me afastar de uma vez.

─Quinze pra sete. – ele diz olhando pro celular e depois colocando na mesinha ao lado.

─É cedo.

─É. Como foi que acabamos assim? – ele pergunta arqueando uma sombrançelha enquanto olha nossas posições.

─Não tenho ideia. – estou sendo muito cinico? ─Vai voltar a dormir? – digo ainda no peito dele o olhando.

─Não. – ele diz sério e aproveitou e levantou, ficou sentado ainda do meu lado, mas resolveu o problema de me tirar de cima dele, acho que era a parte mais dificil, já que eu não queria sair tão facilmente, ele não queria soar ofensivo pra mim me tirando de supetão de cima dele, eu compreendo, até porque percebi que sua voz não soava irritada.

─Por quê?

─Shun, a que horas você marcou as entrevistas? – ele não responde minha pargunta pra fazer outra totalmente fora do contexto.

─À tarde, por quê? – digo, mas já estou assimilando os fatos. Fiquei a semana inteira atendendo ligações de garotas que queriam uma chance no emprego.

─Droga. – ele diz suspirando.

─O que foi?

─Vou ter que trabalhar hoje à tarde. – até que eu não fiquei tão triste com aquela noticia, eu mesmo queria selecionar o tipo de mulher que cuidaria do Miguel, escolheria uma feia, gorda e velha pro Hyoga sequer se atrever a olha-la.

─Ah, pode deixar comigo então. – eu digo, e ele pensa um pouco na sugestão, como se tivesse outra escolha.

─Eu queria estar presente. – ele comenta.

─Eu sei.

─Você sabe o perfil de garota que eu quero?

─Imagino.

─Acha que pode dar conta?

─Sem sombra de duvidas, umas vinte garotas confirmaram presença, então liguei pra cada uma e defini bem o horario delas.

─Bem pensado.

─Eu sei.

─Fico te devendo mais essa. — nenhum de nós toca no assunto dramatico de ontem, e isso de certa forma me deixa aliviado.

─Vou procurar alguem que eu odeie e te darei as instruções do assassinato pra que você pague sua divida. – brinco, quero anima-lo, ele está sério demais.

─Isso é crime. – diz sorrindo.

─-Não é crime se ninguém descobrir. – digo feliz por ele entrar na brincadeira e deixar a situação menos tensa.

─Mas agora eu sei.

─Então conta que eu vou ser obrigado a cometer outro crime, dessa vez contra você.

─Isso tá sério, e como sou um cumpridor da lei sinto dizer que vou acabar te denunciando, mas não se preocupe que eu levo bolo pra você todos os domingos na cadeia.

─Que sorte a minha, aprisionado entre grades, mas olha que coisa boa: vai ter bolo todo domingo.

─De nada. – ele diz rindo.

─Rá-Rá.

─Você anda assistindo séries policiais demais. – ele comenta.

─Acontece quando não se tem nada pra fazer.

─Então arranja, já pensou em jardinagem? Ouvi dizer que é muito relaxante.

─Nunca te vi cuidando de nenhum matinho.

─Por isso que eu disse que só tinha ouvido falar.

─Acho que você precisa fazer outras coisas além de dormir também.

─Vou pensar nisso por enquanto e quem sabe eu esqueça que você é um delinquente. – diz olhando pra um ponto qualquer do quarto, ele sorri e balança a cabeça.

─O que foi? – pergunto.

─Nada, é só que... eu... – passa as mãos pelo rosto e afasta um pouco o cabelo dos olhos. ─Obrigado Shun, obrigado mesmo. – diz e olha pra mim sorrindo, olho bem pra ele, posso ver a dor em seus olhos.

─Como você está? – pergunto me sentando e o olhando de frente.

─Melhor. – diz baixando o olhar.

Não sei o que deu e mim, não sei por que arrisquei tanto, mas vê-lo daquele jeito, e ainda mais depois de ter visto de perto que ele nunca dorme bem, me apressei e o segurei pela nuca e o puxei pra mim dando um beijo demorado em seu rosto, e perigosamente perto do canto de sua boca.

Senti ele estremecer ante meu contato repentino, e ficou paralizado de repente.

─Espero sinceramente que esteja melhor mesmo. – digo me afastando.

Ele estava com os olhos bem abertos, sem reação e começou a olhar pros lados sem saber o que fazer.

─Bom, eu... eu vou me levantar. – ele diz se levantando rapidamente, sou obrigado e deixa-lo ir. ─Pode voltar a dormir se quiser. – ele diz rápido, nervoso.

─Vou tentar. – fiz besteira, que novidade heim Shun, estragou tudo como sempre faz.

Ouço ele suspirar, deve estar tentando se acalmar e manter a postura fria como sempre faz quando não sabe como agir. Ele vai até a janela com uma expressão imparcial, é, ele conseguiu de novo.

─Acho que vai chover o dia todo. – ele diz olhando lá fora.

─É relaxante.

─E como. – ele comenta sorrindo dessa vez e levantando os braços pra se alongar, posso ouvir estalos. ─Vou tomar um banho. – ele diz e volta-se pro banheiro que fica pro lado de onde estou deitado.

Ele fecha a porta e depois de um tempo eu só ouço o chuveiro ligar. Sorrio, parece que a situação não passou por tanta estranheza assim, mas também me sinto frustrado por ele não ter aparentado nenhuma consideração a respeito de tanta intimidade que partilhamos a poucos minutos, afinal dormimos juntos não é mesmo?

Sinto o sono voltando e acabo dormindo de novo.

Droga, o que foi aquilo? Por um momento pensei mesmo que ele ia me beijar na boca, a primeira coisa que me veio em mente era de dar um soco nele, mas de forma alguma eu chegaria mesmo a agredir o Shun, nunca fiz isso na vida, e olha que ele já mereceu, mas essa ideia sumiu tão rápido quanto veio, e em vez disso fiquei paralizado, porque não fiz nada? E se realmente acontecesse, o que eu faria?

Aquilo foi estranho, e pior, eu dormi com o Shun, dormi com um homem, e mesmo que não tenhamos feito nada demais ainda assim eu dormi com ele.

Certo, certo, não pode ser tão ruim assim, se ele não colocar a situação em palavras eu também não vou, vou fingir que não aconteceu e espero que ele contribua com minha indiferença.

Me afastei dele da forma mais neutra que pude sem que ele perceba que quero fugir. Não posso me afastar de imediato ou bruscamente porque sinto que isso podeira soar ofensivo pra ele, ele puxou uma brincadeira e eu aproveitei pra me afastar aos poucos.

Quando já estou de pé enrolo um pouco e vou pro banheiro pra aliviar logo minha principal necessidade, essa patetica ereção. Tomara que o Shun nunca saiba que isso acabou piorando porque ele ficou esfregando a coxa dele em mim enquanto ainda dormia.

Droga, droga. Fiquei excitado por causa de um homem. Isso não pode ser bom, não pode ser bom.

Quando enfim acordo, olho o rádio/relogio do Hyoga em cima do criado mudo e vejo e que já são oito e meia. Levanto preguiçosamente e de longe ouço a televisão da sala ligada no noticiario matutino.

Lá encontro o Hyoga com o Miguel em seu colo com um tchawan (tigela) de seja lá o que for que ele tentou fazer ali.

Acho que era comestivel, já que o Miguel estava comendo, deve ser seguro, o Hyoga não daria nada toxico pro filho, mas ainda assim sinto pena do garoto que está sendo usado como uma pobre cobaia da comida do Hyoga.

Enquanto isso Hyoga variava em tomar um simples café enquanto assistia o noticiario, acho que ele não consegue tolerar a propria comida por isso não fez nada pra ele mesmo.

Acho que o Miguel engordou um pouco desde que vim pra cá, comia comidas que não eram feitas só de leite e algum produto industrializado feito com rapidez.

─Bom dia. – ele diz sorrindo. Estava com uma bermuda e uma simples camiseta, era estranho vê-lo assim, até então eu só o tinha visto vestido formalmente ou com alguma roupa pra dormir. Mas até que ele ficou muito bem naquele estilo.

─Shu. – Miguel disse com a boca suja daquele treco.

─Bom dia. – cumprimento também sorrindo pros dois enquanto sento na poltrona ao lado.

Olhei melhor pro prato do Miguel e arqueei uma sobrancelha.

─Coitadinho. – digo balançando a cabeça, ainda bem que o Miguel não reclama.

─Que foi? Dá pra comer. – Hyoga diz percebendo meu olhar.

─Como é possível você cozinhar tão mal?

─Valeu mesmo viu. – diz se fazendo de ofendido.

─Você precisava saber. – digo, como se ele já não soubesse.

─Tudo bem, eu já sabia, posso conviver com isso e meu coração continua aberto. – ele diz rindo, acho que não sou o primeiro a adverti-lo de sua comida perigosa.

─Vou tomar um banho e depois vou preparar alguma coisa pra nós. – digo me levantando.

─Não quero comer esses trecos esquisitos que vocês japoneses comem pela manha. – Hyoga reclama.

─Escuta aqui cozinheiro de prisão, vai comer o que eu achar melhor pra vocês dois, entendeu.

Ele suspirou olhando pra cima.

─Faça o que quiser então.

Tomei meu banho e depois fui pra cozinha. Do contrario do que ele pensa vou fazer um café no estilo americano, até porque percebi que o Hyoga está emagrecendo com essa mania de comer fora de hora, ou nem mesmo comer, então tenho que alimenta-lo bem também. Acho que faz bem pra ocasião, tradicionalmente o café da manhã dos japoneses, que é uma das principais refeições do dia, é feito como sendo praticamente um almoço. Mas quem disse que sou tradicional?

Preparei ovos mexidos com presunto e pão e um suco de frutas. Diferentíssimo de um café da manhã japoneses, então o Hyoga não tem do que reclamar.

Em algum momento que estive preparando o café o Hyoga e o Miguel vieram pra cozinha esperar, fico meio nervoso com ele ali, aquela proximidade de antes ainda sonda minha mente.

Acabo me desajeitando e derrubando coisas.

─Que foi? Tá vivo? – ele comenta estranhando meu nervosismo.

─Escorregou. – digo o olhando irritado, porque o idiota não percebe tudo isso que causa em mim?

─Promete que não vai ter peixe aí? Normalmente vocês japoneses só comem peixe. – Hyoga diz sorrindo irônico.

─Você está sendo guiado por estereótipos. – digo o censurando. ─E continua rindo aí que eu posso acabar derrubando acidentalmente alvejante na sua porção. – ameaço.

─Seria uma lastima você ter que preparar tudo de novo. – ele diz rindo, não sei como ele tem essas respostas sempre na ponta da língua.

─E quem disse que vou? – o desafio.

─Você não vai ficar com fome, vai? – diz me desafiando também.

─Eu disse que poderia derrubar alvejante na SUA porção. – o lembro.

─Você não me deixaria com fome. – ele não pergunta, mas sim afirma cheio de confiança.

─Como tem tanta certeza?

─Você não me encheria o saco pra comer e depois me negaria comida.

─Talvez eu mude de ideia sobre isso. – digo, mas ele realmente está emagrecendo.

─Você não come nada mesmo quando vai trabalhar Hyoga. – me viro pra ele preocupado enquanto preparo a mesa e ele me ajuda.

─Às vezes como alguma coisa, biscoitos, ou bolinhos, normalmente tenho pessoas comigo o tempo todo no trabalho, e elas acabam percebendo quando não me alimento, então de certa forma eu tenho sempre alguém cuidando de mim.

─Mesmo assim, percebi que você está emagrecendo muito.

─Você repara demais. – ele diz balançando a cabeça. ─Vamos comer ou vai mesmo jogar alvejante na minha parte?

─Tá, vamos comer. – digo, mas fiquei preocupado.

Nos servimos e começamos a comer.

Hyoga estava tentando ensinar o Miguel a comer sozinho.

─Assim... Isso, agora segura firme... – diz colocando a colher na mãozinha do Miguel que pegava desajeitadamente.

─Acha mesmo que ele consegue? – digo enquanto como.

─Com três anos a criança tem melhor coordenação motora, tanto para flexão como para extensão e tem melhor controle do polegar. – ele comenta como um especialista no assunto.

─Ainda assim acho que tá muito cedo pra isso.

─Nessa idade tem-se maior desenvolvimento da inteligência e poder de dedução, atenção mais desenvolvida e observação de detalhes então tem facilidade de aprender mais rápido, mesmo que por imitação. Já é até uma fase de desfralde, mesmo com alguns deslizes, mas com o tempo ele aprende. – ele continua.

─Seu pai acha que você é superdotado Miguel. – digo olhando pra ele que só sorri.

─É até bom você falar assim com ele. – diz me olhando.

─Hum?

─Conversar normalmente com a criança é importante, não imitar a fala infantil o faz desenvolver melhor seu raciocínio e fala.

─Ah.

─E eu sei o que estou fazendo viu.

─É mesmo? Posso ver que você já teve muitos filhos né. – digo irônico.

─Não é só porque é meu primeiro que eu não sei cuidar, e você? Não estou vendo sua prole por aqui. – diz irônico.

─Idiota.

─Foi você que começou. – diz dando de ombros. ─Além do mais o Miguel é muito inteligente sim, algumas crianças demoram certo tempo, mas de maneira geral os três anos é o marco psicológico, motor e social, é até uma fase que as crianças começam a ingressar na escola, onde pode desenvolver as habilidades mais simples e socializar ao mesmo tempo, e o Miguel tem desenvolvido essa parte muito rapidamente pros padrões da maioria.

─Está dizendo isso porque é seu filho, ainda acho que está sendo precipitado.

─São estudos comprovados Shun. – diz pacientemente mesmo com minha teimosia. ─Quer mesmo questionar um pai e que ainda por cima é médico?

─Grande coisa, eu me dou muito bem com crianças e acho que me saio bem também pra cuidar.

─É, olhando por esse lado você tem razão, você cuidou muito bem do Miguel essa semana, ele está ótimo, percebi que ele se apegou bastante em você.

─Se apegou mesmo, o Isao e o Akira não chegaram a tal ponto comigo, e olha que eu convivi bastante com eles. Não sei definir, mas eu e o Miguel nos apegamos mesmo, o que é estranho, já que ele me detestou de inicio.

─Realmente. Que bom que se deram tão bem. – disse sorrindo.

Continuamos a comer até o Miguel falar.

─Papa.

─Hum.

─Viu a mama ontem papa? — Miguel perguntou do nada.

Hyoga rapidamente olhou surpreso pra ele. Droga, só agora que eu percebi esse detalhe, eu deixei o Miguel se lembrar da mãe dele de novo.

─Er... Vi, vi sim.

─Quando ela volta papa?

─Já conversamos sobre isso Miguel.

─Mas papa, eu quero a mama.

─Já falei, coma seu café em silencio.

─Eu quero ela, o Shu tabem viu, né Shu?

Hyoga olhou sério pra mim.

─Esquece isso Miguel. — eu disse tentando amenizar as coisas.

─Mas eu quero minha mama.

─Não devia tê-lo deixado assistir. — ele disse olhando pra mim, preferi ficar calado. ─Vem. — pegou o menino no colo.

─O que foi que eu disse sobre sua mãe?

─Que ela tá no céu com Deus?

─Isso mesmo.

─Mas ela nunca mais volta?

Hyoga ficou calado por um tempo.

─Não. — ele disse e os olhinhos do Miguel encheram de lágrimas.

─Mas eu quero, vai buscar ela papa.

─Filho. — disse suspirando e abraçando o menino enquanto acariciava as costas dele. ─Se eu for busca-la eu não vou voltar também.

─No?

─Não.

─No quero perder meu papa. — disse apertando o Hyoga.

─Então não posso ir.

─Mas eu a quero ela.

─Eu também quero, mas temos que nos conformar. Ela está feliz lá no céu, não quer que ela seja feliz?

─Quero.

─Então vamos deixar ela lá, sendo feliz, tá bom?

─Tá. — disse mesmo choramingando. ─Posso dumi com papa hoje?

─Sempre que você quiser.

─O Shu tabem pode?

Rapidamente nossos olhares se encontraram.

─Er, o Shun não vai poder filho.

─Poquê?

─Bom, eu já tenho minha cama Miguel. – digo.

─Mas eu quero, faz ele dumi com a gente papa. – Miguel insistiu.

Hyoga fez um sinal pra mim dizer alguma coisa, mas olha que malandro, jogando a responsabilidade pra mim.

─Eu gosto da minha cama Miguel.

─Mas eu quero Shun com meu papa e eu.

─Já quer demais Miguel. Volte a comer. — disse sério colocando um Miguel emburrado de volta na cadeira.

─No gosta do meu papa Shu? – Miguel diz emburrado olhando pra mim.

─É claro que gosto. – digo.

─Enton poque não que domi com a gente?

─Er, bom, as coisas não são assim Miguel, eu, eu não posso dormir com vocês porque, porque... Porque mesmo Hyoga? – jogo pra ele agora.

─Porque... Er, porque você se mexe muito. – disse rápido.

─É, é isso, eu iria atrapalhar o sono de vocês.

─Mas...

─Já chega de teimosia Miguel. – Hyoga disse.

─Mas papa.

─Já falei, agora pode descer pra brincar. – Hyoga disse rapidamente colocando o Miguel no chão.

O menino ficou cheio de duvidas, mas foi assim mesmo, ele já tinha terminado de comer mesmo.

─Isso tá complicado. — Hyoga disse o vendo ir pra sala.

─Desculpe tê-lo deixado ver o vídeo... bom, desculpe ter visto o vídeo também.

─Como encontrou? – finalmente estávamos falando no assunto.

─Eu estava brincando de esconde-esconde com o Miguel e ele foi se esconder no seu guarda-roupa, daí eu acabei achando lá.

─Hm. Faz muito tempo que o Miguel não pergunta por ela.

─Desculpe o fazer lembrar.

─Era inevitável, crianças fazem muitas perguntas nessa idade.

─Mesmo assim, agora ele lembrou, e está triste. Desculpe.

─Uma hora ele supera, acho até que ele se sai melhor que eu.

─Desculpe fazer você lembrar também.

─Eu me lembro dela o tempo todo Shun.

─Mas eu fiz você ver algo muito doloroso, eu... Sinto muito.

─Quer parar com isso. – ele diz já impaciente.

─Hã?

─Pare de se desculpar, droga.

─Por que está zangado?

─Não estou zangado.

─É claro que está.

─Estou irritado porque você não para de pedir desculpas.

─Mas eu...

─Para. — disse sério.

Fiquei quieto por um tempo. Mas que ótimo, agora já estávamos brigando, há quanto tempo isso não acontece?

─Lilia era mesmo incrível. – comento.

─É. – ele disse tomando o suco sem me encarar.

─Deve ter sido muito doloroso ver ela doente.

─É. – o Hyoga é um imbecil quando quer ser, porque ele não fala mais, caramba?

─Porque nunca me falou sobre isso? Porque não mantivemos contato? Porque sinto que sou o único que não sabe de nada, o único que não viu aquele vídeo? Se era pra nós porque o Millo não nos mostrou? – resolvi confronta-lo.

─Porque eu pedi. – disse me encarando agora.

─Hã?

─Você não vai parar né? Eu já disse que lamento muito ter me afastado tanto, juro que senti falta de vocês, você não foi o único que não viu o vídeo, ninguém viu aquilo, Millo não mostrou a ninguém porque eu não deixei.

─Mas por quê?

─Porque eu planejava vir pro Japão, eu queria vê-los, queria muito que você a conhecesse pessoalmente Shun, mas não deu, é isso, não pudemos vir, pode entender isso? E não sei mais, naquela época eu estava feliz de verdade, e não pensei em nenhum detalhe assim, muito menos nesse vídeo, o Millo ainda não tinha editado ele ainda, ele enrolou muito, e quando eu enfim me toquei desse detalhe eu pedi a ele não mostrar a ninguém, não sei por que fiz isso, mas de alguma maneira eu queria guardar aquelas lembranças só entre mim e Lilia. – ele falou já impaciente.

─O que custava uma simples viagem? Porque o Shiryu a conheceu então?

─Porque ele foi me visitar mesmo com minhas insistências pra ele não ir. Quando ele foi ela não estava muito bem, não queria que nenhum de vocês a vissem daquele jeito, não queria que se lamentassem por mim.

─Você não é tão convincente quanto pensa Hyoga, isso não justifica nada, acha que é especial? Muitas pessoas tem câncer Hyoga, muitas pessoas morrem disso, posso imaginar o quanto foi doloroso, mas isso não justifica nada. Você me tirou da sua vida, tirou todos nós.

─Eu já pedi desculpas, droga.

─Pare de se desculpar também, inferno.

Ficamos nós dois irritados um com o outro, sem nos olhar, sem nos tolerar.

─Como ficou sabendo do Hayato? – pergunto sem encara-lo.

─Millo me contou.

─Hum. – parece que o Millo é o meio termo disso tudo, estou até com vontade de colocar toda a culpa nele.

─Desculpe não ter estado aqui quando você precisou, porque não me contou? Porque não tentou falar comigo? –ele disse, ora vejam só, estamos invertendo os papeis.

─Porque você se importa? Eu sequer sabia onde você estava, fiquei sem jeito de pedir seu contato aos outros, porque iria parecer ridículo que eu que sempre fui tão ligado a você seja o mais afastado, que sequer saiba nenhuma noticia sua a anos, você disse que ia voltar, você disse. Eu esperei por muito tempo que você ligasse, mas isso nunca aconteceu. – ele me olhou surpreso.

─E o que estou fazendo aqui?

─Mas que saco Hyoga, você só voltou porque queria se afastar das lembranças, você mesmo me disse isso, eu não te confrontei antes porque pensei em não tornar sua situação mais dura ainda, eu sei que você sofre, eu sofri também, todos nós temos nossos motivos pra estar tristes. Eu sei que já que você não manteve contato eu devia ter tomado uma atitude também, mas sou orgulhoso também, na minha cabeça a culpa era sua de estarmos tão distantes, então se tinha alguém que devia se desculpar aqui era você. – desabafei.

Afinal estávamos mesmo falando em tudo isso, acho que evitamos esse assunto por tempo demais.

─Isso é ridículo. – ele disse, acho que não existem as palavras 'Me perdoe' no vocabulario do Hyoga.

─Nós dois somos ridículos.

Ficamos em silencio por um tempo.

─Desculpe. — dissemos juntos.

Nos olhamos e acabamos por sorrir, realmente somos ridículos.

Virei o rosto, porque diabos eu sou sempre o mais emotivo? Estou com vontade de chorar, por tudo que foi dito entre nós, e pelo que não foi.

─Porque você nunca fala dela?

Ele suspirou baixando o olhar.

─Já te disse que não me sinto pronto ainda. – fico triste, queria muito que ele se abrisse comigo.

─Desculpe por... por ser tão idiota, por sempre chorar por tudo. – digo enxugando os olhos. ─Acho que não mudei nada em todos esses anos.

─E eu já falei pra não se desculpar, principalmente por ser você mesmo, porque eu te adoro do jeito que você é. — ele disse sorrindo.

Sinto mais uma onde desse sentimento que está crescendo cada vez que ele me fala essas coisas.

─Olha Hyoga, sobre ontem e... e hoje de manhã nós... – digo querendo me explicar.

─Eu queria que víssemos isso de outra forma. – ele logo diz.

─Hã? Como assim?

─Não acho bom colocar tudo isso em palavras, seria como um comprometimento, uma forma de tornar o que... Você sabe, tornar no nível de importância maior do que já é, não quero engrandecer nada. Afinal não fizemos nada demais, certo?

─Ah, bom, é verdade, não fizemos nada demais, somos amigos, os amigos fazem isso.

─É. – ele confirmou.

─O tempo todo. – completo.

─Pois é. Por isso eu queria só...

─Esquecer?

─É, mais ou menos. – ele diz sem jeito massageando o pescoço. ─Te ofendi? – ele diz preocupado.

─De forma alguma. – digo, mas ofendeu sim, queria que ele tivesse relevado o acontecimento, afinal foi uma grande coisa pra mim sim. ─É uma coisa normal, até porque não fizemos nada mesmo, só dormimos.

─É uma coisa que acontece com todo mundo.

─E o tempo todo.

─Não que seja tão rotineiro que possa se repetir. – ele logo advertiu.

─Por que não vai? – digo triste.

─Não.

─Entendo.

─A não ser que tenha sido importante... Foi importante pra você? – ele pergunta.

─Absolutamente... E pra você?

─Nem lembro mais. – confirmou. ─Entramos em consenso então?

─Entramos. – confirmo mesmo não concordando.

─Ótimo. Não falaremos mais disso.

─Certo.

Encerramos o assunto e ficamos comendo em silencio.

Mal percebemos que o Miguel tinha voltado.

─Vamo po paque hoje Shu? — Miguel diz se aproximando de mim.

─Hoje não vai dar Miguel.

─Mas poquê?

─Seu tio vai estar ocupado hoje Miguel. — Hyoga disse pacientemente.

─Mas eu quero ir papa.

─Não me ouviu? Para de teimosia e vai brincar.

─Então leva eu papa?

─Vou trabalhar Miguel.

─Mas eu quero.

─Você está muito mimado ultimamente. — Hyoga comenta sério, acho que isso é em parte minha culpa, fiz tudo que Miguel queria essa semana, devo tê-lo acostumado mal.

─Vai brincar, mais tarde conversamos.

─Papaa. — insiste.

─Miguel. — Hyoga diz sério e autoritário.

O menino fica todo muxoxo de novo, tadinho, Hyoga é muito severo às vezes.

Miguel vai pra sala emburrado.

─Fez tudo que ele pedia não é? — ele perguntou me olhando enquanto eu via o Miguel indo pra sala.

─Hã?

─Ele está muito birrento e teimoso ultimamente.

─Só um pouco de mimo Hyoga, não faz mal a ninguém.

─Esses mimos o deixam indisciplinado. Tem que impor limites e ser mais severo.

─Mas eu sou severo quando eu quero.

─Sei.

─É sério.

─Sei.

─Quer parar Hyoga. — digo irritado. ─E a culpa é toda sua.

─Minha? Porque?

─Porque eu quero ora, ponto final.

Ele me olha estranho balançando a cabeça.

─Amamiyas. — diz sem parecer dar a mínima pro meu aborrecimento.

Foi aí que nos demos conta que o Miguel tinha voltado sorrateiramente com cara de arrependido.

─Papa. — diz manhoso chegando perto do Hyoga.

─Que foi Miguel?

─Dicupa papa. -diz escondendo o rostinho na cintura do Hyoga e segurando a camisa dele em suas mãozinhas.

─Owwnn- digo comovido com tanta fofura.

Hyoga rapidamente me olha sério.

Dou de ombros pra birra dele também.

─Tá desculpado. — Hyoga diz afagando os cabelos do Miguel.

Miguel levanta o rostinho todo sorridente pro Hyoga e levanta os bracinhos pedindo colo.

Hyoga pega ele que se encolhe todo em seu peito.

─Quando eu chegar nós vamos passear tá bom.

─Jura papa?

─Juro, de coração. — diz fazendo um xis em seu peito, me vem a mente um déjà vu, não de quando o Miguel fez isso comigo, mas estranhamente de mim e do Hyoga, lembrei que ele fez o mesmo gesto quando partiu. Perguntei se ele ia voltar quando estávamos no aeroporto nos despedindo.

─É claro que volto. — ele diz sorrindo.

─Promete? — digo caindo em prantos.

─Prometo. De coração. — e aí fez o mesmo gesto de agora a pouco e me abraçou.

Demorou muitos anos, mas ele realmente cumpriu a promessa.

─Quando você chegar já vai estar de noite Hyoga. — comento.

─Sim, mas nós vamos a reunião hoje Shun.

─Ah é mesmo, a reunião na casa da Saori.

─Daí você vai poder rever o Isao e o Akira, Miguel.

─Meus amiguinhos. — diz todo sorridente e se remexendo todo no colo do Hyoga, animado.

─É, seus amiguinhos. — diz sorrindo. ─Mas só vamos se você parar com essas teimosias. Quando eu disser uma coisa é pra obedecer, se ficar com birras vai ter castigo na hora, entendeu? Estamos de acordo?

─Tá bom, papa. — diz se aquietando e concordando obediente.

─Ótimo. Isso vale pro seu tio também, é pra obedecê-lo da mesma forma, certo?

─Si papa.

─Que bom, agora pode ir.

...

Estávamos na sala brincando e acertar uma pilha de legos com outros legos, e Miguel ria alegremente quando acertava.

Hyoga estava deitado no sofá e vez ou outra cedia a insistência do Miguel a participar da brincadeira.

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─Sua vez papa. – Miguel dizia colocando uma peça de lego na mão do Hyoga que preguiçosamente pegava e mesmo sem olhar acertava a pilha enquanto o Miguel batia palminhas comemorando.

Hyoga suspirou olhando pro teto.

─Tenho que dar uma geral nesse apartamento. — ele disse levantando brevemente e olhando em volta pra depois deitar de novo.

─Arrumar o quê? — pergunto olhando em volta e a meu ver tá tudo em ordem, mas considerando que é o apartamento do Hyoga então ele deve estar vendo um lixão.

─Meu quarto e o do Miguel estão uma bagunça, a área de serviço também, tô cheio de roupas pra lavar, e tenho que varrer e passar um pano nos outros cômodos. Oh saco de preguiça desgraçada. — ele reclama.

─rsrsrsrs. Só você pra esquentar com uma coisa dessas heim Hyoga.

─É que eu tô com preguiça.

─Você só tá cansado.

─Também... Bom, vou começar. — disse levantando. ─E você vai ajuntar esse monte de brinquedos que estão espalhados por aí viu Miguel. – disse olhando pro filho.

─Tô com peguiça papa. — disse suspirando como se fosse gente grande.

─Não quero saber. — Hyoga disse.

─Agora eu vi. — digo rindo do jeito que o Miguel falou. ─Pensa que é gente grande.

─De qualquer forma você não tem escapatória Miguel. – disse já de pé. ─Agora vai. – o menino ficou emburrado, mas obedeceu. Gostaria de ter aquela autoridade que ele tem.

Depois de um tempo o Hyoga começou a limpar o apartamento. Varreu aqui e ali, passou um pano, limpou estantes, mesas, lavou roupas, tudo ao mesmo tempo.

Eu quis ajudar, mas ele não deixou, então me limitei a ajudar o Miguel a recolher os brinquedos.

Demorou quase uma hora e meia, mas ele terminou. A casa estava um brinco.

Depois disso o Hyoga foi tomar outro banho, e eu e o Miguel ficamos no quarto dele brincando.

─Pronto, agora a casa está apresentável pras entrevistas. – ele disse vindo enquanto ajeitava a gola da camisa polo que ele vestia no caminho.

Estava com uma calça rip-stop clara, e uma camisa polo azul clara também, calçado com um loafer cinza, outra vez informal, tudo nele parece planejado mesmo quando ele tenta parecer simples, e não consegue, pois aparenta sempre, não sei a palavra, talvez, sofisticado?

─Aonde você vai?

─Sair.

─Disso eu já sei, quero saber pra onde.

─Vou ao shopping, tenho que comprar uma coisa, mas não demoro muito. – disse sorrindo, fiquei curioso, o que ele ia comprar?

─Vai no chopin papa? – Miguel perguntou.

─Vou, quer ir? – disse sorrindo pro filho e acenou positivamente todo animado.

Ele foi dar um banho no garoto e arruma-lo.

─Não vou demorar muito. – ele disse na porta com o Miguel, eu estava no sofá digitando novamente meu manuscrito.

─Tá, compra chocolates pra mim. – peço.

─Já vai se empanturrar dessa coisa de novo? – ele disse, devo mencionar que sou viciado em doces desde sempre?

─Aff, quero fazer algo diferente pra sobremesa. – me justifico.

─Sei. – ele diz desconfiado.

─Ah, cala boca e vai comprar.

─Tá, eu vou, mas se eu te ver comendo compulsivamente isso aí vou tomar na hora.

─Vai logo. – digo irritado tacando a almofada na direção dele, mas ele sai rindo antes que eu o acerte.

Fui com o Miguel ao shopping pra comprar um gravador de voz na loja de eletrônicos, pra que o Shun grave a entrevista com as garotas e eu possa ouvir depois, tive a ideia quando estava no chuveiro. Aproveitei e comprei um rádio/despertador pro Shun, tenho certeza que ele vai ficar zangado, e rio só de imaginar.

Miguel adora sair, mas muito raramente saio assim com ele, ia chamar o Shun, mas não queria demorar e tenho certeza que o Shun é um daqueles que aproveita a oportunidade pra ficar andando, e quando eu vou a algum lugar é com um objetivo e quero cumpri-lo rápido.

Perdi a conta de quantas vezes fiquei preso aos ataques compulsivos das compras de Lilia em shoppings.

Lilia tinha muitos vestidos, muitas joias, bolsas de grife, sapatos, perfumes, e o Miguel também tinha de tudo, tudo que ela via em vitrinis que a facinavam ela corria pra comprar, beirava uma consumidora compulsiva, então era obvio que eu quase nunca tinha ideia de presentes pra dar a ela, já que ela praticamente tinha de tudo.

Quem custeava todas as despesas da casa como alimentação, contas de cartão e tudo mais era eu, o salario dela era livre, e devo dizer que era um otimo salario, então já dá pra imaginar a situação né. Meu proprio salario chegava até a ser mais alto que o dela, então digamos que dinheiro nunca foi problema, fora que eu ainda tinha todo o dinheiro da conta de herança do Kido, do qual eu quase nunca toquei, acho que só pra custear meus estudos e moradia antes que eu começasse a trabalhar.

Lilia vivia comprando coisas pra mim também, coisas exageradas das quais algumas eu sequer usei uma unica vez, meu guarda-roupa era enfurnado de coisas inuteis que nunca mexi. Ternos caros, camisas e calças sociais, e vários pares de sapatos que eu frequentemente discutia com Lilia pra parar de comprar, afinal eu só tenho dois pés, ora. Deixei boa parte de tudo aquilo em minha casa na Russia.

Às vezes Lilia me arrastava ao shopping, acabava me fazendo de boneco e me obrigava a vestir o que ela quisesse pra ver o que ficava melhor em mim e que conbinasse com o que ela fosse vestir também, me sentia um manequim, o marido da Barbie, e ela tinha um bom olho pra moda, o estranho é que não era sempre já que ela ficava com preguiça às vezes de se enfurnar no guarda-roupa e acabava vestindo qualquer coisa, mas tinha vezes que era a maior cerimonia só pra se vestir, principalmente porque ela apreciava e muito o modo que Camus se vestia das vezes que ele e Millo vieram nos visitar, Camus era elegante, sempre foi, acho que isso foi um dos poucos pontos que eu insisti em não herdar dele. Mas eu me vestia sempre bem por pressão da Lilia.

Eu achava até curioso também o modo como se deram tão bem, Camus foi o que mais aprovou Lilia, ele até dizia ser sua nora, ou mesmo cunhada.

Nunca me preocupei muito com que roupa eu usava, desde que tapasse o necessario pra mim estava bom. Era ela que praticamente me vestia quando saiamos juntos.

E eram sempre os mesmos dialogos, como certa vez:

─Me deixa vestir qualquer coisa Lilia. — eu resmungava enquanto ela procurava uma camisa pra mim.

─Não... Deixa eu ver, hum... — dizia analizando as várias fileiras de camisas nos cabides pendurados e todos encriquilhados, acho que o guarda roupa já não suportava a quantidade de roupas que ela enfiava ali.

─Qualquer coisa serve. — eu dizia.

─Você não vai com qualquer coisa pra jantar no restaurante mais refinado da cidade Hyoga. — ela dizia com voz cencurada sem me olhar.

─Então podemos escolher um carrinho de cachorro-quente dali da esquina.

─ Camus e Millo não iriam concordar com isso.

─Eles não ligam onde vamos comer Li.

─Mas eu sim, não fiz reservas ha semanas pra ficar só por isso mesmo.

─Que bobagem. — eu dizia emburrado.

─Cala boca Hyoga, deixa eu te embonecar um pouco.

─Que coisa fresca... Nem quero imaginar o que Adam diria se soubesse que você faz isso comigo toda vez que vamos sair pra esses restaurantes de almofadinhas. Ele iria zombar de mim até enjoar.

─Primeiro que o Adam não é nenhum exemplo de bom gosto, então ele não tem como entender, e segundo que não tem nada de fresco nisso.

─Tem sim, acho que sou o unico homem que deixa a mulher emboneca-lo, onde é que já se viu. Quando é que você vai entender que eu não sou nenhum modelo Lilia? – reclamo, reclamo e de nada adianta, ela não liga.

Ela me olha e sorri insinuante.

─Se bem que você é tão gostosinho como um. Sou a unica das minhas amigas que tem um marido tão lindo quanto você Hyoga, então me deixa aproveitar sua beleza, vai. — dizia com a voz manhosa vindo pra perto de mim e sentando-se no meu colo na cama.

─Você tem muita sorte de ser linda Li. — eu dizia suspirando.

─Fazer o que se você me ama né. — ela dizia rindo passando os dedos pelos meus lábios antes de me beijar.

Eu correspondia na mesma intensidade a trazendo pra mais perto e colando nossos corpos. Agora acho que me esqueci de dizer que ela estava só de toalha e eu só com uma calça.

As caricias se tornavam mais intensas e quentes. Em poucos segundos eu estava sobre ela beijando despudoradamente seus seios. Nos atracavamos como dois adolescentes enlouquecidos de desejo.

─Hy-hyoga, vamos nos atrasar.

─Que seja. — eu dizia continuando as caricias.

─Não podemos, o Millo e o Camus vão ficar nos esperando.

─Tenho certeza que um atrazosinho não vai fazê-los perder a fome, do contrario, vai é aumentar.

─Vamos Oga, eles quase nunca vêm nos visitar e eu ainda tenho que arrumar o Miguel. — ela dizia, eu levantava suspirando.

─Você é muito chata.

─Alguem tem que ser a razão por aqui... — disse pegando meu rosto em suas mãos. ─Mas prometo que quando chegarmos eu te recompenso.

─Hm. Promessa é divida viu. — eu dizia emburrado.

─E eu vou quitar. — dizia sorrindo enquanto levantava.

─Vai ter juros. — eu dizia sorrindo e lhe dando uma palmada antes dela vestir a toalha de novo enquanto saia da cama.

Ela levantava aos risos e voltava pro guarda-roupa.

─Mamaaa — Miguel gritava do quarto dele.

─Vai lá ver o que ele quer enquanto eu escolho sua roupa Hyoga.

─Tá... — eu dizia preguiçosamente.

Fui pro quarto do Miguel e o vi choramingando de pé no berço.

─O que foi meu bebê?

─Hum.hum. — estava inquieto.

Pelo cheiro vi que tinha deixado um presente na frauda.

─Nossa Miguel! Que cheiro heim. — eu dizia enquanto trocava a frauda dele. ─Sua mãe tem que parar de te dar queijo.

Ele sorria distraido com um molho de chaves de brinquedo.

─Pronto. — eu terminava de limpa-lo e o pegava levantando no alto. Ele continuava sorrindo e balançando o brinquedo.

─Bom garoto. — eu dizia com aquele sorriso bobo no rosto, estava me habituando aos poucos naquela condição de pai. Eu não tinha ninguem que me guiasse, que me dissesse como agir, o que fazer, estava aprendendo tudo sozinho. Raramente o senhor Posnanski dizia alguma coisa relacionada a crianças, mas ele não era exatamente um pai completo, afinal ele não teve filhos pequenos, passou a criar Lilia quando ela tinha oito anos, então essa lacuna de anos fazia uma grande diferença. Logo ele não era exatamente um bom candidato a dar dicas sobre criação de filhos pequenos. Tinha o Shiryu, mas ele praticamente estava no mesmo barco que eu então não ajudava muito também.

Mas eu acho que estava me saindo bem.

─Já Hyoga. — disse Lilia gritando do quarto.

Coloco o Miguel de volta no berço que faz um beicinho quando eu me afasto, aquilo me deixava feliz, aos poucos ele queria mais minha companhia.

─Daqui a pouco sua mãe vem emboneca-lo também filho. — eu dizia sorrindo e afagando seus cabelos macios antes de retornar pro quarto.

Vejo Lilia com duas peças de roupa pra mim na mão e um vestido azul marinho esticado na cama.

─Acho que este está bom. — dizia analizando as roupas na mão que combinavam com o vestido dela, uma camisa social azul escura e um paletó azul marinho também.

─Otimo, agora somos um casal de espioes.

Ela me direcionava um olhar censurado.

─Cala boca e se veste. — dizia jogando a roupa pra mim.

Vesti a camisa enquanto ela se encaixava no vestido justo.

Tirei a calça que usava pra vestir a outra.

Quando terminei percebi o olhar dela sobre mim com um sorriso malicioso.

─Gatinho das neves. — ela dizia rindo. ─Sabia que eu adoro quando você faz esse olhar inocente quando faz qualquer atividade trivial?

─Era só no meu olhar que você prestava atenção? — eu dizia insinuante.

─É claro que não. — dizia rindo.

─Pervertida.

─Até parece que sou só eu.

Eu ia até ela e a beijava carinhosamente enquanto ela passava as mãos pelos meus cabelos.

─Você está linda.

─Você também, mas precisa cortar o cabelo. — dizia enquanto tirava umas mechas dos meus olhos.

─Você também, tá com pontas duplas. — eu dizia rindo enquanto enrolava uma mecha do cabelo encaracolado dela nos meus dedos.

─Hunf. Apelão. — dizia se fazendo de magoada. ─Vou arrumar o Miguel e depois me maquiar e logo estarei pronta pra sair.

─Ok.

Penteei o cabelo, me perfumei e coloquei o relogio no pulso e a carteira e as chaves do carro no bolso antes de ir ajuda-la com o Miguel.

Ela o vestiou como um perfeito cavalheirinho.

Por incrivel que pareça existem roupas sociais que parecem fofas em crianças.

Depois ela penteou o cabelo dele com muita dificuldade já que ele ficava coçando a cabeça ao mesmo tempo.

Enquanto isso eu arrumava a bolsa do Miguel.

─Agora ele parece um pequeno espião também. — eu dizia rindo.

─Não tá não. Tá um bebê galante né filho. — ela dizia fazendo gracinha pra ele que estava todo animado.

─Vai conquistar muitos corações lá no restaurante né filho.

─Até que poderia. — dizia Lilia sorrindo. ─Bom, agora vou me maquiar.

─Otimo, essa é nossa deixa pra assistir TV filho. — eu dizia indo pra sala e ficava com ele no meu colo enquanto assistiamos um programa de auditorio qualquer na televisão enquanto a esperavamos.

Mais um jantar em familia com nossos amigos.

Tem certa diferenciação da forma que vejo cada um com quem criei uma relação verdadeira de afeto.

Camus é como meu irmão mais velho, logo ele sempre será mais sábio e experiente, mas não é realmente o meu conforto. Adam é como um irmão adotado que encontrei no meio de caminho de minha vida, vivemos uma parte importante de nossas vidas juntos, mas ele não é a quem recorro quando quero afeto. Shiryu, Seiya e Ikki são meus irmãos de infancia, mas são daquele tipo como o Adam, a diferença é que os conheci bem antes. Shun não, Shun é como aquele irmão caçula com quem sempre me identifiquei. Tecnicamente era ele que vinha até mim a procura de afeto, embora ele não saiba é ele que a seu modo ingenuo e doce conforta minhas angustias.

Senti uma imensa falta do Shun quando Lilia morreu. Ele sim saberia como agir, iria chorar, negar e no fim aceitar, faria tudo que eu deveria fazer, mas que minha criação me torna incapaz de cumprir esse ritual, porém ele me confortaria ao mesmo tempo. Diria que tudo ia ficar bem.

Sou diferente da maioria das pessoas, minha necessidade não é ter alguem ao meu lado acariciando meus cabelos enquanto caio em prantos num colo a procura de sustentação, não sou assim, não faz meu genero, sou do tipo que apenas quer sentir a presença de alguem especifico, não precisa dizer nada, não precisa se aproximar nem me tocar, quero apenas que esteja ali e me conforme simplesmente com sua presença.

Durante os dias que se seguiram depois da morte de Lilia eu contive minha nescessidade de ligar pro Shun. Mas o que eu diria?

‘Oi Shun, faz tempo né. Acabei de perder minha esposa, ah é, eu me casei, e até tenho um filho. Gostaria muito que você viesse me confortar, se você pegar um avião agora mais rápido você chega. Sinto sua falta. Tchau. ’

Isso já soa ridiculo na minha cabeça imagine se eu dissesse a ele.

Por isso desistia da ideia de partilhar meu sofrimento com ele antes que meu dedo clicasse em dicar seu numero. Será que se eu ligasse mesmo ele viria? Pelo jeito que ele se queixou, sim, ele viria.

Não quero pensar nisso, no que poderia ou devia ter feito, mas não fiz. Assim como não quero pensar em minha atual situação. Gostaria de acordar desse pesadelo, gostaria de não ter que explicar ao Miguel que ele perdeu a mãe, que nunca teria uma familia completa como na Tv, que nunca mais ela iria lhe confortar nas horas do medo quando acordasse de mais algum pesadelo.

Quero alguém ao meu lado. Quero um colo familiar.

Shun. Quero ligar pra ele, quero o colo dele. É meu amigo, meu amigo querido desde a infancia, é meu irmão.

Naquele momento ele me abraçou e seu corpo quente me aninhava, não era exatamente o que eu queria, ele nunca entende o que eu quero de verdade, nunca entendeu mas sempre se sai bem e me dá mais do que preciso e que eu nem sabia que precisava, mas funcionou da mesma forma e até melhor. Senti tanta falta disso, senti tanta falta dele.

Eu pensava nisso enquanto via o Miguel brincar de pular os degraus da escada rolante na direção contraria que eles iam. Já tinha comprado o gravador e o despertador, mas não custa nada andar um pouco né, até sinto falta.

─Vamos pra casa Miguel. – digo o chamando e ele vem pra mim todo sorridente.

─Poquê o Shu não veio papa? – ele pergunta enquanto nos encaminhamos pra saida.

─Queria que ele viesse?

─Si, o Shu disse que nunca me deixaria.

─Ele disse?

─Si, juradinho de coração. – disse sorridente no meu colo.

Porque o Shun prometeria algo assim? Isso tá complicado. Pensei que ele já estivesse cheio de nós e quisesse que a semana acabasse logo. Me enganei.

─Você que pediu isso pra ele?

─Si.

─Ah.

─Olha papa! Sovete. – disse apontando pra um quiosque que vendia sorvetes.

─Tá bom, tá bom. – compro um sorvete pra ele.

Então sentamos num dos bancos de lá e ele fica no meu colo se deliciando com seu sorteve de chocolate. Chocolate?

Ah, lembrei que tenho que comprar o chocolate do Shun.

...

Hyoga saiu com o Miguel e pouco depois fui preparar o almoço.

Ikki ligou pra mim enquanto eu digitava meu manuscrito e esperava o arroz cozinhar.

─Shun.

─Oi irmão. O que foi?

─Onde você está? Preciso da minha camera. – peguei a camera dele emprestada faz quase um mês e não devolvi só de mal, é pra ele apreder a não sumir com meus melhores quadros de lá de casa. Ele pegou uma foto que tinha todos os cavaleiros de ouro só porque o Shaka estava na foto com uma pose legal.

─Pra quê? –digo já impondo resistencia.

─Assunto meu com o Shaka. – diz e posso até imaginar o sorriso insinuante dele.

─Hum, sei bem o que vocês planejam, só devolvo se você devolver meu quadro que você pegou.

─Ah, mas aquela foto tá tão legal – ele protesta.

─Não quero saber, é minha. Porque você não faz copia, ora. Trás meu quadro que eu devolvo a sua camera, ela tá aqui comigo, mas eu não estou em casa.

─Onde você tá?

─No apartamento do Hyoga.

─Tá fazendo o que aí?

─Assunto meu. – na verdade eu peguei a camera pra tirar umas fotos do Miguel.

─Sei. – diz desconfiado.

─Vai vir pegar?

─Vou, e levo seu precioso quadro. – diz resmungando. ─Onde é? – ele diz e eu lhe passo o endereço, não demora muito e ele chega.

─Tá aqui oh. – diz ainda na porta me entregando uma sacola com o quadro.

Dou uma boa olhada como quem verifica se a joia é verdadeira.

─Hum. Tudo em ordem, pronto, tá aqui sua camera. – digo passando a camera dele e o deixando entrar.

Ele dá uma boa olhada em volta.

─Olha aí. – diz impressionado fazendo um gesto afirmativo. ─Tenho que admitir que aquele pato metido tem bom gosto. –diz parando no meio da sala e olhando as fotos na estante.

─Cadê ele?

─Saiu um pouco, daqui a pouco ele tá aí.

─Hum. E o que você tá fazendo aqui?

─Lembra que eu me prontifiquei pra cuidar do Miguel?

─Sim, mas isso foi sábado passado, ficou com eles a semana toda?

─Foi.

─Só você mesmo heim Shun.

Diz ainda olhando em volta.

─A esposa dele era muito bonita. – ele comenta olhando um quadro deles.

─É, era mesmo.

─Ela era bem legal também.

─Você a conheceu? – digo incrédulo.

─É claro, até te falei.

─Falou não.

─Falei sim, não discuta com minha memoria. Foi naquela vez que você ainda estava escrevendo seu segundo livro. Estava sentado na sala tão concentrado que pelo que eu estou vendo nem ouviu o que eu tava falando. -Ikki disse balançando a cabeça em desaprovação.

Fico tentando lembrar. Acho que me lembro de uma vez que ele veio me perturbar pra reclamar de outra briga que teve com o Shaka, mas eu estava tendo mil ideias pro meu livro e estava escrevendo antes que eu esquecesse, acho que é por isso que não liguei pra ele, pensei que ele estava só reclamando mesmo.

Deixei minha mente recordar.

.

─... Por isso que ele é um imbecil, nunca mais falo com ele. — Ikki disse irritado andando de um lado pro outro falando do Shaka enquanto bebia um uísque que ele mesmo trouxe, normalmente era ele que enchia minha geladeira de bebidas, e praticamente só ele tomava, normalmente nas horas que vinha reclamar da vida, acho que ele previa que ia brigar com o namorado de novo e vinha pro meu apartamento pra reclamar, já tinha virado até rotina, por isso ele precisava manter o estoque, e minha geladeira era a adega dele.

─Ficou sabendo? — ele continuou depois de um tempo.

─Hum? — digo ainda distraído.

─O pato casou. — ele disse bebendo mais um belo gole da bebida.

─É mesmo? — digo nem sem ao menos processar aquela informação que logo é descartada da minha mente.

─Eles foram hoje ao santuario, eu estava falando com o idiota do Shaka quando eles passaram por Virgem. O pato me apresentou ela.

─Hm.

─Lilia eu acho. Muito bonita.

─Hm.

─Estavam em lua de mel, mas só ficaram lá algumas horas, só de passagem o pato só queria mesmo nos apresentar a esposa. Depois eles iam pra França eu acho.

─Hm. — eu disse digitando sem parar.

─Ele disse que se der tempo eles passam no Japão.

─Ah.

─O pato teve sorte, o idiota tinha uma dificuldade danada de falar com garotas né?

─Hm.

─Tá me ouvindo?

─Anram.

─Ele perguntou por você. Mandou um abraço.

─Hum.

─Disse que sente falta de todos nós. Também sinto falta, apesar dele ser um pato chato eu gosto dele.

─Hum.

─Ele cortou o cabelo, ficou bem diferente, mas ficou bom.

─Ah.

─A Lilia é russa também, foi o que ele disse, é estranho, dois russos, parecem até irmãos. – disse rindo.

─Hum.

─E nós nem nos parecemos em nada, e olha que nós dois somos japoneses.

─É.

─Você nem tá me ouvindo Shun.

─Anram.

─Viu só.

─Hum? – digo e finalmente olho pra ele.

─Aff. Tá igual o idiota do Shaka que não me escuta.

─Tô ouvindo Ikki, é que estou ocupado aqui. – digo já irritado também. Ele resmungou alguma coisa e foi pra cozinha pra se embebedar mais ainda.

.

─Agora lembra? – Ikki pergunta enquanto forço minha mente.

─É você falou mesmo, só agora que me toquei disso. – digo surpreso com essa lembrança. Poxa, já estou me arrependendo de tudo que eu disse pro Hyoga mais cedo.

─Viu, te falei. E como ele está?

─Hum?

─O pato, como ele está?

─Vai indo, mas ainda parece triste.

─Imagino, deve ser difícil pra ele, pelo menos ele tem o filho dele.

─É, Miguel é tudo pra ele, é um garoto maravilhoso, e o Hyoga também é um ótimo pai.

─Não é pra menos que tem tantos interessados nele.

─Hum?

─Naquela reunião que você não foi esse pato metido também chamou muita atenção, não foi só o Miguel. Todo mundo acha ele atraente.

─Todo mundo acha isso? Até você?

─É claro, não sou cego, é estranho dizer isso daquele pato, mas ele é muito bonito mesmo, mas se eu disser isso ao Shaka ele me mata. – disse rindo.

─Se o Hyoga te ouvir falando assim dele ele vai surtar e te matar também.

─Imagino, ele é hetero né... mas eu prefiro alguém mais afeminado.

─O Hyoga percebeu alguma coisa sobre isso?

─É claro que aquele pato idiota não percebeu nada, ele ainda está muito preso a memoria da falecida esposa, e não vai ser fácil tirar isso dele, por isso ele não percebe nada em volta.

─Hm. — fico triste.

Ikki ficou me olhando estranho por um tempo.

─Ah droga, não acredito não. – ele disse me olhando e balançando a cabeça decepcionado.

─Hã? O que?

─Você.

─O que tem eu?

─Conheço esse olhar. Você se apaixonou por ele Shun.

─Eu? Eu não, andou bebendo de novo Ikki?

─Não mente pra mim, te conheço muito bem.

─Não estou apaixonado. – digo me esquivando dele e indo pra cozinha e ele me segue.

─Shun tem ideia de onde está se metendo?

─Como assim?

─Só tem um ano que a esposa dele morreu Shun.

─E daí?

─Acha que vai ser fácil conviver com um cara que vive no passado? Eu sei como é, ele não vai esquecer ela tão facilmente e se apaixonar por você só por simplesmente estar convivendo com você Shun.

─Já falei que eu não estou...

─Ele não vai se machucar com essa historia porque ele já está machucado Shun, o único prejudicado nessa historia vai ser você.

─Está dizendo que ele nunca vai se apaixonar por mim também Ikki? Que dizer... não que eu esteja, sabe, apaixonado por ele.

Ikki me olhou balançando a cabeça.

─Pare com isso... sai de perto dele enquanto você ainda pode... Você ainda pode não é?

─Você só tá falando asneira Ikki, é claro que eu posso me distanciar do Hyoga quando eu quiser, não estou apaixonado por ele.

─Sei.

─Mas acontece que ele precisa de mim.

─Hum, se você não se afastar dele logo é você que vai ficar dependente dele Shun.

─Você só tá falando besteira Ikki.

─Que droga Shun, porque você tem sempre que gostar de coisas impossíveis?

─Hã?

─Esqueceu-se daquele babaca do Hayato?

─Não coloca ele nisso Ikki.

─Você que sabe, só tô tentando ajudar... Esquece o Hyoga, tô só avisando.

Eu o olhei irritado. Ouvimos a porta, era o Hyoga.

Eu e Ikki nos entreolhamos rapidamente. Eu me sentia estranho com meu irmão ali.

Já eram umas onze horas quando eles chegaram, estavamos na cozinha e Miguel correu atrás de mim enquanto o Hyoga tirava os sapatos na entrada.

─Shu. – disse correndo sorridente pulando pro meu colo.

Percebi que o Ikki não tirava os olhos de nós, desconfiado.

─E aí. Divertiram-se? – digo pegando ele no colo.

─Si.

─Que bom... Comprou meu chocolate? – grito pro Hyoga. ─Se não comprou vai voltar agora mesmo.

─Tio Ikki. – Miguel diz animado quando percebe meu irmão ali, isso desperta o lado amoroso do Ikki.

─Sim. – Hyoga grita da sala. ─Desculpe a demora, é que aquela droga de carro não quis pegar quando eu ia saindo do shopping... Vou mandar logo pro conserto, senão da próxima vez que eu pegar aquela joça imprestável vou congelar e soltar ladeira abaixo, e é bom não ter ninguém pelo caminho, senão só lamento. — parecia aborrecido com o tal ocorrido.

Hyoga veio pra cozinha e viu Ikki, mas não parecia surpreso.

─Ora, vejam só o que o gato trouxe pra casa. – disse Hyoga com um sorriso provocante enquanto colocava a barra na mesa.

─E aí, projeto de Barbie. — Ikki disse com aquele jeito dele.

─Vai se ferrar Amamiya. — Hyoga disse, mas não estavam brigando, era o jeito deles se cumprimentarem, com provocações.

─Primeiro as damas. – disse rindo.

─Não tinha o que você queria Shun, trouxe um parecido aí. — Hyoga disse olhando pra mim.

Eu estava sem graça, parecia que com o Ikki ali era estranho conversar normalmente com o Hyoga, como se tivéssemos fazendo alguma coisa errada.

─Ah. Er... Obrigado Hyoga.

─O que foi? — Hyoga disse estranhando meu jeito.

─Nada não. — o Hyoga me olhou desconfiado enquanto colocava outras sacolas em cima da mesa.

─Hm. – disse e foi até a geladeira pegar uma garrafa de agua.

─E ae... Como vai pato? — Ikki disse logo.

─Vou bem. Obrigado. E você frango?

─Estou ótimo, pato. Resolvi dar uma passada por aqui e pegar minha câmera com o Shun.

─Não pretende estragar a câmera com alguma foto sua né?

─Se o Shun já não tirou alguma foto sua então acho que já estragou.

─Isso é impossível. Tirar uma foto minha faria é que sua câmera ficasse nova.

─Eu odeio romper o circulo amoroso de vocês aí, mas... – digo indicando que o Miguel que estava ouvindo tudo.

─Cês tão bigando papa? – pergunta preocupado.

─Não filho, só estou demostrando meu amor incondicional por seu tio Ikki.

─Hum. Ah si. – Miguel disse sorridente.

─Vem cá garotão. – Ikki disse pegando o Miguel do meu colo, menino ficou todo animado. ─Problemas com o carro pato?

─É... Sede? — Hyoga perguntou pro meu irmão quando foi pegar um copo no armário.

─Não, valeu. Que carro é?

─Um Toyota RAV4. – Hyoga sempre gostou de carros grandes.

─Olha aí, ostentação heim. – Ikki disse rindo.

─De quem é mesmo aquele Honda Civic lá em baixo, oh engenheiro?

─Só mais um mimo. – Ikki disse com ar de altivez.

─Motor de 2.0? – Hyoga perguntou.

─ 150 cv e 6.300 rpms.

─Transmissão automática?

–Com cinco velocidades. Sistema flex e com rodas de liga leve.

─Olha aí. – Hyoga disse impressionado.

─Aff, vão começar. – eu disse já impaciente, o que é isso? Conversa de macho?

Eles só me olharam rindo por minha falta de compreensão.

─Está mesmo tendo problemas com o seu? – pergunta sacudindo o Miguel que não parava de rir.

─Na verdade eu estou adiando a ida daquele carro na revisão faz tempo. Há alguns meses eu bati, sorte que o Miguel não estava comigo.

─O carro tem que ir pra revisão de quatro em quatro meses pato.

─E quem disse que eu tenho tempo ora.

─É sério isso? – eu disse preocupado.

─O quê?

─Que você bateu o carro.

─É, mas não me machuquei sério, foi só um susto.

─Pensei que você tinha comprado aquele carro aqui no Japão quando veio pra cá. – Ikki disse.

─Não, tenho ele faz uns dois anos. Mandei-o pra cá pela transportadora. Estou de olho naquele Honda CR-V.

─São bastante parecidos. – Ikki disse.

─O Honda tem suas vantagens. – ele disse sorrindo. ─Acho que vou trocar.

─Como bateu o carro Hyoga? – retomei o assunto, eles tinham essa mania de mudar de assunto, evitando falar das coisas que realmente importam, mesmo que o Hyoga tenha mudado o rumo da conversa de proposito e pareça incomodado, mas eu realmente fiquei preocupado.

Ele me olhou e suspirou descômodo.

─Bom, eu... foi a mais de um ano atrás. – ele disse olhando pro Miguel de repente. ─Lilia estava no hospital, já estava mal. Eu fui em casa pra tomar um banho e trocar de roupa pra voltar logo depois, afinal já fazia uns três dias que eu não saia daquele hospital. Assim que cheguei em casa me ligaram do hospital dizendo que Lilia estava tendo uma falha respiratória, então eu corri de volta, eu estava cansado, e ha alguns dias sem dormir e comer direito, então meus reflexos não estavam dos melhores, fora que eu estava muito preocupado e nervoso. – ele deu uma pausa, não olhava nenhum de nós e fixava em um ponto na mesa. ─Eu passava por uma avenida movimentada, não sei direito o que houve, foi muito rápido, mas sei que foi culpa minha, bati do lado de uma caminhonete e acabei perdendo o controle do carro, não deu outra fui pra fora da avenida e o carro bateu no meio fio. Foi uma batida forte, mas não muito séria, tive apenas algumas escoriações. Por sorte mais ninguém se feriu. – ele completou, sério e nos olhou brevemente para depois desviar o olhar e fixar de novo na mesa e beber mais um gole de agua. ─Enfim, por sorte o Miguel estava com minha sogra na ocasião, o carro foi rebocado e tive que pegar um taxi. – ele disse sorrindo, um sorriso triste. ─Quando cheguei ao hospital eles já tinham estabilizado Lilia, acabou que foi só um susto também... mas ela morreu três dias depois daquilo.

Ficamos em silencio.

─Hyoga eu sinto mui...

─Quer que eu dê uma olhada no seu carro? — Ikki disse e imediato. ─Eu entendo um pouco de mecânica. – ele falou e o Hyoga voltou a sorrir, seu semblante era mais tranquilo agora.

─Valeu frango, mas eu entendo de mecânica também. O problema é no motor de partida, semana passada eu testei a tensão da bateria e verifiquei se os cabos e os terminais estão limpos, não estão em boas condições e ainda com mau contato.

─Fez um teste na bateria para checar se está funcionando corretamente?

─Fiz, tá com um barulho esquisito. Usei um interruptor de simulador de partida e conectei à bateria, a queda de tensão da partida deu menos de 9 Volts.

─Tem que checar a bobina também, a ignição, enfim, nesses problemas na linha de combustível e de ignição do veículo, que são os mais comuns de ocorrerem.

─Já vi isso, o pinhão tá batendo no volante então o primeiro estágio está cumprindo, o próximo estágio é que não está funcionando, nesse caso, o induzido que pode estar com defeito por causa da falta de rotação ou de contato da chave magnética. Então eu medi as espirais do induzido, e fiz um teste para ver se estão em curto-circuito na carcaça.

─Estão em curto?

─É. O desgaste nos dentes do pinhão acontece quando a chave na ignição é mantida por muito tempo depois que o motor funciona, acho que é necessário trocar o pinhão, e até o volante, dependendo do estrago.

─É, vai ter que desmontar o motor de partida mesmo. – Ikki disse pensando.

─E isso só na oficina mesmo, tem que levantar ele pra checar outros possíveis problemas decorrentes desse. – Hyoga concluiu.

─Mas isso aí dá pra fazer em casa mesmo pato.

─Dá, mas eu não tenho garagem esqueceu frango e não dá pra fazer isso no estacionamento do prédio, as pessoas iriam estranhar se me vissem levantando tranquilamente um motor de duzentos quilos. — disse ainda tranquilamente, enquanto falavam de coisas que eu não entendia bulhufas.

─Você tem razão, as pessoas iriam estranhar que um franzino que nem você levantasse tanto peso. — meu irmão disse rindo.

─Vai tomar banho frango de quinta, eu sou mais forte que você. — Hyoga disse sorrindo e provocando meu irmão também.

Pronto já iam começar.

─Ah tá. Oh as ideia da loira.

─Loira é o escambal galinha de fogo, vai catar milho vai. — Hyoga disse rindo.

─Patos na frente. — Ikki disse rindo enquanto fazia um gesto como se desse caminho livre.

─Já chega vocês dois. — eu disse irritado.

Ambos olharam estranho pra mim.

─Foi mal Shun. — Hyoga disse.

─É. Foi mal. — Ikki disse.

─Sem graça agora frango... Vai ficar pra almoçar conosco? — Hyoga disse olhando tranquilamente pro meu irmão.

─Pode ser, que horas são?

─Quinze pra meio dia. — Hyoga disse depois de verificar o relógio.

─Ok. Vou ficar e dar a graça da minha companhia pra você Barbie.

─Tá doido pra sentir frio né galinha?

─E você quer se assar? – diz rindo.

─Já chega. – digo irritado.

─Caiu da cama hoje Shun? – disse Ikki aborrecido também.

─Em briga de irmãos eu não me meto. – Hyoga disse logo. ─Vou me trocar. – disse e se retirou.

─Devia ser mais sensibilizado Shun. – Ikki disse quando o Hyoga saiu.

─Hã?

─Evite falar de assuntos que podem ser dolorosos pras pessoas, não viu que o pato não queria falar? Ficou desconfortável e você ainda insistiu no assunto.

─É que eu não percebi. – digo surpreso. ─É sério? – olho pro pra saída lembrando do Hyoga, droga, eu o forcei a falar, porque nunca consigo ser sutil?

─Insensível. – Ikki diz balançando a cabeça.

─Ah, vai caçar o que fazer Ikki. – digo mais irritado ainda.

─Vou mesmo, onde é o banheiro?

─Fim do corredor. –digo.

─Tá. – passou o Miguel pra mim. ─Já volto. – disse e foi.

Depois de um tempo o Hyoga voltou com a bermuda e a camiseta que estava antes.

─E aí? Cadê a galinha?

─Aff, vocês dois heim. – digo censurando o tratamento que eles faziam um com o outro, depois eu que sou o insensível aqui. ─Ele foi ao banheiro.

─Porque está tão irritado? – ele pergunta estranhando.

─Nada Hyoga, nada. – digo impaciente pegando a barra de chocolate.

─Sem exageros com isso aí, viu. – ele diz com um olhar censurado.

─Já falei que é pra sobremesa.

─Sei.

─Já ouviu falar de Martabak? – digo colocando o Miguel sentado em cima da mesa.

─Não.

─São panquecas de chocolate e queijo.

─Parece esquisito.

─Tudo pra você é esquisito, o que vocês comem lá na Rússia heim?

─De sobremesa?

─É.

─Bom, tem o pão de mel de Tula; o bolo de leite de pássaro; pastilha, mas disso eu não gosto muito... tem a vatruchka, que é tipo um pastel de requeijão, tem o bolo Praga também.

─Tudo lá tem nome esquisito? – pergunto.

─Igual aqui. – diz me olhando com cara de obvio. ─O esquisito pra uns é normal pra outros.

─Realmente. – concordo. ─E então? O que você comprou?

─Ah. – disse lembrando e tirando uma caixa pequena e jogando pra mim. ─Um gravador, quero que grave as entrevistas.

─Hum. – digo tirando o aparelho da caixa. ─Boa ideia.

─Comprei uma coisa pra você também. – ele diz com um sorriso irônico enquanto empurrava a sacola pra perto de mim.

─O que é? – digo abrindo a sacola e nela tem uma caixa com um rádio/despertador, agora eu entendi aquela cara abusada dele.

─Achei que você precisava de um. – ele diz rindo.

─Idiota. – digo atirando a caixa do gravador nele e ele só se defende com os braços rindo.

─Vai dizer que não precisa? – ele disse rindo.

─Hunf. – abro e até que o aparelho é bonitinho, parece até infantil, tinha um formato esférico, era esverdeado com azulado, com um anime bastante conhecido estampado, Hatsune Miku eu acho. ─É bonito. Valeu. – digo sorrindo pra ele.

Miguel fica olhando curioso pro aparelho na minha mão.

─Por nada. – ele diz sorrindo. ─Achei que combinava com você, por ser verde eu acho, não sou muito bom pra dar presentes.

─O que vale é a intenção. – digo contendo minha grande satisfação por ele ter comprado algo pensando em mim. Ele ouviu o que disse? Presente. Isso pode significar muita coisa.

─A que horas você sai? – pergunto colocando o presente de volta na caixa.

─Por volta das uma.

─Ah, o almoço vai ficar pronto daqui a pouco.

─Ok. – ele disse sorrindo sem desviar os olhos de mim e aquilo já estava me encabulando.

Não demorou muito e o Ikki voltou.

─Desculpe pessoal, me ligaram da empresa agora a pouco, ocorreu um problema em um projeto de uma obra e vou ter que ir lá pra averiguar. – disse apressado.

─Poxa Ikki. – digo.

─Não faz mal, a noite nos vemos, não é?

─É, tá bom então. – digo triste, queria ele ali comigo, ficar sozinho com o Hyoga parecia constrangedor agora.

─Vai na reunião também pato?

─Vou sim, no vemos lá. Que pena que você não poder ficar, a comida do Shun parece ótima.

─Ossos do oficio. – diz suspirando. ─E a comida do Shun é boa mesmo, afinal fui eu que ensinei ele. – diz rindo cheio de si.

─Não exagera Ikki, minha comida é melhor que a sua. – digo.

─Se você diz. Bom, eu tenho que ir. Tchau. – disse afagando os cabelos do Miguel.

─Tchau. – dissemos todos juntos.

Ele foi e ficamos eu e o Hyoga conversando amenidades e ele me ajudava a terminar o almoço.

Fomos almoçar por volta de meio dia e quinze.

Estávamos comendo quando o celular dele começou a tocar. Ele olha o visor e dá um sorriso e atende falando em russo.

─Oi Irina, como você está?... Ah, eu estou bem sim. Muito trabalho... Sim, sim, juro... Tudo normal... Ele está ótimo, mais alegre... E o Andrey?... Sei... Ainda com isso?... Fala pra ele se cuidar, e aqueles remédios que eu receitei pra ele?... Hm, certo... Quero sim, passa pra ele... Oi Andrey... Tudo sim, e você? Irina me disse que você tá com frescura com os remédios... Hum, o que foi que eu te falei? Sei... Hm. é... Sei... Vi só o final, ficou de quanto mesmo? 3X1 certo? De lavada. Rsrsrsrsr... Verdade... Pode deixar... Ele tá aqui perto de mim... Peraí. — olhou pro Miguel sorrindo.

─Seus avós Miguel, vêm falar com eles. — o menino abriu um largo sorriso pegou o telefone todo animado, era tão fácil animar esse garoto.

─Vovóó. — disse todo sorridente falando no fone. ─Tôôô... Si, com o Isao e o Akira... Si, si. É legal. E o Shu tabem... Meu tio... Si, ele é muito bonzinho. – ele continuou falando.

─Seus sogros? – perguntei enquanto o Hyoga olhava pro Miguel falando. Naquele momento eu me senti totalmente fora do universo deles.

─Sim, eles ligam todo final de semana.

─Hum.

─Aqui papa. – Miguel disse devolvendo o celular pro Hyoga e ficou mexendo nele.

─Oi Andrey. – Hyoga voltou a falar. ─É... Shun é um amigo. – ele disse me olhando, acho que ele não sabe que eu entendo tudo que ele fala. ─É... estou longe disso ainda... – disse sério agora. ─Talvez um dia... Eu gostaria muito, começou quando? – disse voltando a se animar. ─... Sei. Em que canal?... Vou tentar assistir... Não sei, os jogos aqui são raros, mas acho que tem um estádio aqui sim... Pode ser. – disse rindo. ─Faz tempo heim... e com o Miguel segurando uma mão de isopor gigante... Certo, certo... é sério? Que pena... Tudo bem, se cuidem tá... Farei isso... Até. Abraços. – disse finalizando a ligação.

─Eles parecem gostar muito de você. — digo.

─São oficialmente minha família não é?

─É, tem razão. — digo baixando o olhar. ─E como estão? – pergunto.

─Estão bem, mas meu sogro está tendo uns problemas de saúde, é a idade chegando.

─Quando mais velhos, mais problemas se têm. – comento.

─Não exatamente, o organismo trabalha mais devagar, mas tudo depende do próprio esforço pra se manter saudável. Você pode ser jovem, mas ainda assim ter várias complicações. Hábitos de vida, hereditariedade, condições ambientais, doenças, tudo isso influencia numa vida saudável na velhice.

─De qualquer forma não deixa de ser verdade.

─De fato.

─Mas e então? Ele está tendo problemas de quê?

─Os hábitos de vida são os fatores que mais agravam os problemas de saúde, dentre eles: estresse, fumo, bebidas alcoólicas, vida sedentária, drogas, sono, alimentação inadequada. Andrey não teve exatamente uma juventude saudável, ele fumava, se alimentava mal e evitava exercícios físicos, digamos que ele está colhendo os frutos disso agora.

─Você não se alimenta direito também. – o repreendo.

─O fato de termos sido cavaleiros nos avantajaram muito nossas condições físicas Shun, somos mais resistentes e fortes, por isso nossa saúde é pouco abalada com esses fatores mundanos, talvez eu ainda demore décadas pra sentir os efeitos dessa má alimentação, parece que o tempo é favorável a nossa saúde. Uma prova disso é que nenhum de nós aparenta a idade que tem, Camus tem 34 anos e não aparenta ter mais que 25, você mesmo tem cara de ter menos de 18. – ele diz me olhando em geral.

─Nós dois temos. – digo. ─Já aconteceu de algumas vezes que não me permitiram comprar bebidas ou entrar em lugares como boate ou bares.

─É mesmo? – ele diz rindo.

─É, só deixam quando eu mostro a identidade.

─Já tive problemas com isso também, quando eu comecei a trabalhar aqui no Japão teve uma vez que eu estava me preparando pra fazer uma cirurgia, muitos ainda não me conheciam, por isso quando fui tentar entrar na sala não me permitiram passar, disseram que não era pra garotos ficarem perambulando pelo hospital, quase chamaram a segurança.

─Vish. – digo rindo. ─Deve ter sido engraçado.

─Na hora não foi. Já me confundiram com residentes, ou parente de algum paciente, ou só um garoto andando por aí mesmo. Quando estou em clinica tem alguns pacientes que assim que entram ficam em duvida se sou confiável ou alguém fazendo alguma brincadeira, já chamaram até a recepcionista pra confirmarem se sou mesmo um medico. Teve vezes que pensaram que o Miguel era meu irmão mais novo. Isso é muito irritante.

─É mesmo, uma vez quando eu estava dando autógrafos em uma livraria pensaram que eu era filho do verdadeiro Shun Amamiya, ou um garoto que veio da rua e sentou-se onde não devia, a policia já até me parou dizendo que não é permitido um menor de idade dirigir.

─Estamos no mesmo barco. – ele diz rindo.

─Muitos sentiriam inveja disso. – digo.

─Isso porque não sabem o quão irritante que é.

─Mas de qualquer forma você tem que se cuidar, mesmo que ainda não aparente, mas seus maus hábitos podem acabar te dando algum problema sério no futuro.

─Tô sabendo, mas vou me cuidar.

─Sei.

─É sério.

─Definitivamente alguém tem que cuidar de você também. — digo balançando a cabeça.

─Você tem cuidado ultimamente.

─Quer que eu fique? – digo sorrindo.

─Você não está cheio de nós?

─Cheio de vocês?

─É, uma semana conosco deve tê-lo deixado louco pra esse período acabar não é mesmo? — ele disse rindo.

─Bom, eu... – eu ia falar, mas foi meu celular que tocou dessa vez. Era o Yamato.

─Oi Ichiro... Estou sim, e você?... Sim, por quê?... Com a Jump Comics? Legal... hoje?... Tá, tudo bem, desde que não demore muito... o contrato já está sendo providenciado?... Hum, tá... nos vemos lá então. Até.

Encerro a ligação e o Hyoga fica me olhando.

─Quem é?

─Meu assistente.

─Não sabia que você tinha um.

─Preciso né. Ele é bem útil, faz muitas coisas pra mim, ligou pra me confirmar uma reunião hoje à noite com a Jump Comics.

─E a reunião lá na Saori?

─Vai dar tempo.

─Hum. Vou sair cedo do hospital então.

─É bom.

─Qual o nome dele? – ele pergunta de uma forma estranha.

─Yamato, Ichiro Yamato.

─Hum.

─Você vai gostar dele, ele é legal.

─Hum.

─O que você tem?

─Nada. — ele diz e desvia o olhar pro prato de novo.

Estranha a reação dele.

Terminamos de comer e arrumar tudo, então o Hyoga foi se arrumar pra trabalhar. Saiu exatamente as uma como ele disse, criterioso eu sei.

Bom então é melhor eu me preparar pra receber as provaveis garotas intrusas que querem tomar meu lugar aqui. Vish, dessa vez sim soou estranho.

Vai ser uma tarde longa.

Notas finais
Diga-se de passagem que o Shun tem mesmo cabelos castanhos no mangá, tá.¬¬ Vi uma foto desse cara e logo pensei no Shun, o que vocês acham? http://doblelol.com/7/takuya-kimura-shizuka-kudo-funny.htm . http://4.bp.blogspot.com/-OAYwUBopQwo/TpOZ-7Mk_zI/AAAAAAAAAec/ObjzDEWAM3A/s1600/takya+kimura.jpeg ou desse outro aqui: http://sunsunfamily.wordpress.com/2012/05/28/verified-super-junior-cho-kyuhyun/ gosto de imaginar eles reais mesmo, e vamos considerar que o Shun é japonês mesmo, por isso achei que até que poderia ser ele, o que vocês acham? algum deles parece com o Shuny? ( * 3 *) Espero que tenham gostado do capitulo. O próximo vai demorar também, desculpem :'(