Destino.
44 Será que é tarde de mais?
Notas iniciais
Daniel narrando:
Eu me encontrava em casa, estava assistindo televisão apenas para me distrair, mas aquilo não estava funcionando. Larguei mais cedo do trabalho hoje, foi apenas por pura obrigação, Demétrius disse que eu precisava esfriar a cabeça. Acabei aceitando.
Estou bem preocupado com a Julie, até agora não tive noticías sobre ela. Já faz quase um dia que não a vejo, eu espero que ela esteja bem.
Felizmente com aquele rádio policial era possivel se comunicar com qualquer um do emprego.
- Nicolas. — O chamei pelo rádio, que na verdade é uma espécie de Nextel. — Soube alguma coisa sobre a Julie? — Perguntei, eu estava tão preocupado que ficaria até feliz em saber que ela estava com o Nicolas, sã e salva.
- Não, não sei de nada ainda. Mas fica tranquilo, o Demétrius disse que ela está bem.
Me aliviei com aquilo.
- Ela está na cela?
- Não sei. Sinceramente eu ainda não a vi hoje. — Me respondeu, um pouco mais preocupado.
Desliguei o rádio, agora o que me resta é esperar até amanhã para eu voltar ao trabalho... Tomei um banho quente, lavei o cabelo, me perfumei, coloquei uma roupa leve. Me deitei, e esperei o sono vir ao meu encontro.
##
Sem a Julie, era mais um dia comum e decepcionante no trabalho, era como se faltasse metade de mim.
- Espero que ela esteja lá na cela. — Dizia para mim mesmo na frente do espelho grande do quarto, isso era como se fosse um incentivo. Ajeitei meu uniforme, apertei um pouco mais a gravata e coloquei o quepe. — Sou lindão. — Pisquei para o espelho. E sai do quarto. Indo em direção ao trabalho.
Cheguei no corredor, eu andava apressado, estava mais otimista do que antes, mas minha decepção chegou quando eu olhei para a cela 78.
Juliana não estava ali...
Sai à sua proucura, passei pelos corredores, perguntei para os outros policiais e até mesmo para uma detenta, acho que o nome dela é Renata, ou Rute... ahhh, é Rebecca. Ela disse que não viu Juliana hoje.
Eu estava cada vez mais preocupado, ela nunca sumiu por tanto tempo assim, a não ser que Demétrius a tenha posto na solitária de novo, mas... ele iria me avisar.
Subi alguns andares, e então cheguei em um lugar pouco frequentado da prisão. Aquele lugar era repleto de portas, paredes (não eram grades) então não dava para ver se tinha alguém por lá.
- JULIE! — Começei a gritar pelo seu nome, na esperança de ser respondido.
Nada...
Continuei a gritar, ainda andando e de olho em tudo... Eu prestava a atenção em cada detalhe, até mesmo naquele barulho chato de ratos roendo algo.
- S-so...soco-rro... — Ouvi alguém gritar fraquinho, era quase imperecebivel.
- Tem alguém aqui? — Bati na porta em que surgiu a voz. Derrepente não ouvi mais nada. Bati novamente. — Responda!
- M-me ajud-dem... — Ouvi novamente a voz, seguido de uma tosse forte.
- Meu Deus... — Sussurrei, proucurando a maldita chave daquela porta. Com o nervossismo acabei deixando o molho de chaves cair. — Calma, a ajuda já está indo... — Gritei, ainda do outro lado, me agachando para pegar as chaves.
Finalmente abri a porta e mesmo sem saber quem pedia ajuda, eu estava nervoso, entrei com rapidez, a sala era branca e assustadora me deixou até um pouco cego com a cor forte.
Depois que eu me recuperei vi que quem pedia ajuda era a Julie.
Fiquei chocado com aquilo, sua roupa estava suja e um pouco rasgada, como se tivesse brigado com alguém, ela sangrava um pouco, e estava fraca, bem fraca. Caida no chão.
Corri até ela, e me agachei.
- Meu amor, o que fizeram com você? — Perguntei, mas Juliana não tinha forças para responder.
Ela tossiu, e cuspiu um pouco de sangue pelo chão. Me abraçou, trêmula, retribui com cuidado para não machuca-lá ainda mais.
Juliana olhou para mim.
- V-vou s-sen-tir... s-saudad-des. — Fechou os olhos aos poucos.
Sacudi seu corpo, tentando reanima-lá, ela os abriu novamente, mais fraca ainda.
- Não se despeça de mim está ouvindo? — Disse, nervoso. A garota tocou no meu rosto, sua mão estava extremamente fria. — Você ainda vai viver muito... terá família, filhos... — Uma lágrima caiu, eu sabia que ela não teria tudo isso ao meu lado. — Terá netos... — A levantei com força, seu corpo estava totalmente mole.
A garota não tinha forças nem para se segurar em mim, aquilo me deixava ainda mais tenso. Sai daquela sala frustrado.
'' Ao pensar que à pouco tempo atrás, eu fazia isso com as detentas, a deixavam nesse estado, no mesmo estado em que a Julie está... ou até mesmo pior, eu não tinha pena... elas só não morriam na minha mão, porque já estavam mortas. '' - Eu pensava, arrependido.
- Eu já vou te levar pra enfermaria amor, você vai ficar bem. — Eu a incentivava, assim como a mim mesmo. — Julie? — Olhei para ela, estava tão calada, eu não ouvia nem o barulho de sua... respiração. — Julie, me responda. — Pedi, esperancoso, e nada. — Abre os olhos... não faça isso comigo mulher, não morra. Quero você viva. — Não queria que ela morresse, mesmo sendo até bom pois ficaria no meu mundo para sempre, eu não queria que ela morresse jovem, como eu morri.
Corria pelos corredores com ela, porque diabos a enfemária fica tão longe? Juliana continuava sem me responder, eu sabia que ela estava viva pois as vezes ela mexia seu rosto, atordoada, olhando para os lados, com um pouco de dificuldade.
Não bati na porta da enfemária e sai entrando. A enfermeira olhou assustada para a garota em meus braços, e depois olhou feio para mim.
- Dessa vez não fui eu Lucy. — Afirmei, ela ficou mais surpressa ainda. Coloquei Juliana na cama, com cuidado. — Ela está morrendo! Faça alguma coisa! — Não te pagam para ficar olhando pra minha cara...
- Calma Daniel! — Me repreendeu. — Tem uma detenta que pediu a minha ajuda, preciso ir na cela dela...
- Ela é mais importante! — Apontei para Julie, aos prantos.
A mulher ficou chocada com aquela cena, talvez devia estar se perguntando como um policial durão chegou à esse estado emocional.
- Daniel, eu não te garanto nada... — Disse a mulher, ligando uns aparelhos e colocando na Julie. — Uma coisa é cuidar de fantasmas, outra coisa é de humanos... Pobrezinha, parece mesmo fraquinha. — Olhou para Julie, com dó. Ela proucurou um aparelho para ajudar Juliana a respirar, demorou um pouco para encontrar pois não usava muito isso com frequência, afinal... aqui ninguém precisa do ar. Ela colocou no rosto da garota, enquanto a mesma estava com os olhos fechados. Mas felizmente, ainda respirava. — Os batimentos cardiácos estão bem fracos. — Disse a mulher, olhando para uma tela onde mostrava o estado da garota. — Daniel, seja bonzinho dessa vez e fique aqui, eu volto em dez minutos, preciso ver a outra detenta lá na cela 12.
- Não... mas e a Julie?
- Calma rapaz, pior do que ela está, não fica. — Não sei se encaro isso como algo bom ou ruim. — Eu volto em dez minutos.
A mulher sumiu, me deixando sozinho com a garota, peguei uma cadeira e coloquei ao lado de sua cama. Lentamente, segurei uma de suas mãos, beijei-a. E encarei aquele rostinho, um pouco pálido.
- Você vai sair dessa... — Sussurrei, na dúvida de que ela iria me ouvir.
'' E quando você ficar melhor, vou te pedir em namoro. '' - Hoje aprendi que não sabemos quanto tempo nós temos juntos, e precisamos aproveitar... cada segundo.
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