Destino.

76 Não queria ser pai.


Julie narrando:

Daniel ficou calado, olhando para a frente, parecia paralizado ou então pensativo. Acho que aquela pergunta foi um choque para ele. Não sei direito... eu não queria fazer essa pergunta, já que não tenho muita certeza, mas ele estava insistindo, me perguntava se eu estava bem... e a minha dor de cabeça... Ela ainda não passou. Além de eu me sentir mais cansada do que o normal, e na segunda volta, eu juro que senti vontade de vomitar.

- Porque me perguntou isso? — Senti ele visivelmente nervoso.

- Por nada. — Tentei esconder, na verdade eu ainda estava confusa.

- Preservativo? — Pausou e olhou para mim. — Não usei. — Eu temia aquela resposta. Já que na primeira vez, ele usou, e eu não tive esses sintomas.

- Hum... — Olhei para baixo.

- Você acha que está... grávida? — Sussurrou a última palavra.

Ele estava mais ansioso do que eu. Estalava seus próprios dedos, por puro nervossismo. O rapaz esperava minha resposta.

- Não. — Menti. — Eu não estou, está tudo bem comigo. — Repiti essa frase baixinho algumas vezes, era como se fosse um exercicio mental. — Pode voltar para o seu trabalho amor.

- Tem certeza? Você está mesmo bem?

- TENHO! ESTOU BEM! DROGA! — Gritei, e na mesma hora me arrependi. — Desculpa, desculpa... — Dei uns beijinhos no seu rosto com cuidado para as outras não verem.

- Mudança rápida de humor. — Ele me fitou desconfiado.

- Não, não é isso... é que quando eu estou com dor de cabeça, eu fico assim. — Assegurei, mas ele não acreditou. Mesmo sendo verdade.

- Hum... Vem, eu vou te levar para a enfermária. — Ele tentou puxar o meu braço, sem sucesso.

- Não vou a lugar algum. Vou continuar aqui. — Teimei.

- Mas meu amor, você precisa ver se está grá...

- Não estou! — Não sabia ao certo, sinto que estava. Mas eu não queria fazer o teste, afinal, querendo ou não as pessoas vão ficar sabendo e eu vou ouvir muitas perguntas do tipo ''Quem é o pai?''

Com muito custo consegui deixa-lo mais calmo, disse que eu me sentia melhor quando na verdade eu estava cada vez pior. Coloquei um sorriso falso no meu rosto, ele logo acreditou.

Ele voltou a observar as detentas de longe. Ele observava mais a mim, porém, eu tentava fingir que eu estava bem.

Dei uma corridinha, consegui dar a sexta volta. Felizmente o meu enjoo já havia passado, mas o cansaço não. Nem mesmo a dor de cabeça.

Continuei me esforçando muito para não parar no meio da pista, não queria que Daniel vinhesse até a mim, e me perguntasse.

##

- Julie, não adianta me enganar, está na cara que você não vai conseguir dar dez voltas.

- Estou na oitava, eu consigo.

- Não. Não consegue, está quase morrendo aqui.

- Eu adoraria morrer. — Brinquei, mas ele levou a sério.

- Será que não para de pensar em morte? Porque isso? — Pausou — Olha, eu vou te levar para a cela. — Ele puxou meu braço, eu estava sem forças para lutar contra.

- Ei! Porque ela pode parar e a gente precisamos completar dez voltas? — Uma presa levantou a voz para o policial.

- Huum... qual é o seu nome mesmo hein? — Ele perguntou sorrindo.

- Carla. — A detenta também sorriu.

- Mais dez voltas para você Carla.

- O QUE?

- Assim você aprende a me respeitar e não gritar comigo. Vamos! Mais dez voltas! Agora!

Ela começou a correr de novo, olhei indignada para Daniel, que ainda ria da detenta.

- Deixa de ser mal, o que custava responder pra ela? Também acho injusto dez voltas.

- Aff amor, eu não gosto dessas mulheres. Elas fizeram muito mal, merecem o que estão passando agora.

- Nunca aprende... — Sussurrei. — Nós somos todos iguais. Você não é melhor do que ninguém.

- Tanto faz. — Ele me levantou. — Vou te levar para a enfermária.

- Não! — Gritei, fiz uma pausa e ele me fitou. — Eu quero ir no banheiro, tomar um banho. — Arrumei uma desculpa. Derrotado, ele concordou.

##

Tomei meu banho, até tentei vomitar mas não consegui. Sentia enjoo, dor de cabeça e cansaço. Me olhei no espelho, já vestida, passei a mão pela minha barriga.

'' Eu preciso conversar com ele. '' - Pensei, sorrindo.

Sai do banheiro e ele estava no corredor, olhava para o teto, e demorou alguns segundos para notar que eu estava ali, bem na sua frente.

- Desculpe, eu só estou um pouco pensativo — Revelou.

- E se eu estiver mesmo grávida? — Dei um leve sorrisinho. — Vai ser bom.

Ele negou, balançando a cabeça.

- Não vai ser bom. Não quero ser pai.

- Porque não?

- Nunca gostei de crianças.

- Mas... — Não acredito que ele não gosta de crianças. — E se... quer dizer... ele é o seu filho. — Se é que eu estou grávida.

- Olha, eu até gosto dos pirralhos, mas... entenda. Se você está grávida, só irá nascer daqui a nove meses, concerteza outra pessoa será o pai, já que você não estará mais aqui. — Falou, triste. — Eu não queria ser pai, e se eu for, queria ficar com vocês dois, mas não vou poder.

- Mas se eu morrer... — Ele me interrompeu.

- Você não vai morrer, ouviu? Não quero! Eu já estou confuso de mais com essa estória, vou te levar pra enfermária, você faz o teste e pronto.

- Eu quero ir para a minha cela. Não vou a enfermaria. — Neguei, cruzando os braços. Admito que fiquei um pouco chateada com ele.

- Tudo bem então. — Assentiu. — Vamos.

##

Se passaram quatro dias, eu me sentia cada vez pior: Cansaço, enjoo, acho que perdi uns dois quilos nesses quatro dias, já que eu não conseguia comer nada, só de sentir o cheiro da comida eu já queria vomitar, e o pior é que eu não vomitava.

Só bebia água, mal consigo levantar, estou fraca. Meus batimentos cardiacos estão acelerados, mas nada disso me fez pensar: ''Eu vou para a enfermaria, fazer o teste de gravidez.'' — Não vou fazer, não quero que ninguém me pergunte quem é o pai.

Notas finais
Palpites? Ela está grávida?
A resposta será revelada no proximo capitulo.