Destino.
19 Finalmente um Abraço.
Notas iniciais
Julie narrando:
Sua expressão mudou completamente com a minha pergunta, ele me encarou com aquele olhar sombrio, admito que sempre fico paralizada com seu par de olhos castanhos escuros.
Eu gosto dele, sei que gosto, mas também tenho muito medo, as vezes penso que entre esse sentimento e o medo, o medo prevalece na maioria das vezes.
Poxa, hoje ele mostrou para mim que eu estava um pouco errada: Ele mostrou que não é aquele completo monstro, mas é oitenta por cento, admito que fiquei com raiva quando ele ficou olhando para minha cara quando eu estava no chão, seu chefe me empurrou, e me fez cair, ele nem me ajudou.
Depois diz que sua função é proteger...
Voltei a realidade, e vejo que o rapaz já não estava na cela, pelo contrário, ele se sentou no banco, e começou a ouvir música, sem se importar com o meu celular e com a minha pergunta.
– Ei, eu te fiz uma pergunta! — Gritei, ainda parada.
– Uma pergunta muito fútil que não merece ser respondida por mim. — Ele simplismente falou, como se fosse o dono do mundo.
– E o meu celular? — Apontei para o aparelho que estava no chão.
– Compra outro ué, quando sair daqui.
Esse policial tem o dom de me irritar profundamente, e olha que eu sou uma pessoa calma e meiga.
Peguei meu celular, me sentei na cama.
– Pode ao menos tirar as minhas algemas?
Ele bufou, mas aceitou, passou pela cela, e tirou as algemas sem me dizer nenhuma palavra. Voltou a se sentar no tipico banquinho de madeira, de frente para mim.
Me apoiei na parede, eu queria algo para me esquentar, esse mundo espectral é muito frio... sinto falta do calor de Campinas.
Me virei para a pequena janela com grades, era de lá que vinha o frio da noite.
Olhei para o Daniel, nossa... aquela jaqueta azul marinha deve ser bem quentinha, ele está só no conforto, enquanto eu estou aqui — sofrendo — nesta prisão.
Ouvi um barulho, olhei para baixo. Sim, vinha do meu celular, que estava sobre minhas coxas.
– Viu, ainda funciona. — Afirmou Daniel.
Sorri com aquilo, pelo menos meu dinheiro não foi jogado no lixo.
Tentei atender à ligação, porém, a tela passou de esbranquiçada para totalmente preta.
'' Deve ser a bateria... '' – Pensei ao ver aquilo, mas o celular ainda tocava, tentei atender novamente, sem sucesso.
Olhei feio para Daniel, que parecia distraido com os fones.
'' Droga, ele quebrou meu celular! '' – Tá bom, eu sei que foi sem querer, mas um pedido de desculpas seria bom de vez em quando.
Começei a chorar baixinho... não queria que aquele sem coração ouvisse o meu pranto.
Eu tinha um motivo para chorar: O único aparelho que iria me tirar — nem que seja um pouco — da saudades dos meus amigos estava completamente destruído.
Fechei lentamente os olhos, a tristeza e o frio eram grandes naquele momento.
– Moço? — O chamei, tentando disfarçar minha voz roca por conta do choro.
– Que foi garota?
– Não tem um edredom para mim? Estou com frio. Por favor.
– Não... eu não tenho. — Daniel fechou os olhos, ouvindo a música.
Meu cerebro estava cansado, não tinha como eu lutar contra o sono desta vez.
Meus olhos se fecharam como duas cortinas no inverno.
##
– Psiu — Senti um braço me sacudir.
Abri lentamente os olhos, e me deparei com Daniel à minha frente.
– Huh? Já amanheceu? — Perguntei sonolenta, percebi que dormi de braços cruzados por causa do frio.
– Não, mas eu tenho um lençol aqui. — Respondeu o fantasma, vi então que ainda era noite, e que eu só estava dormindo à quinze minutos.
– Que gentil. — Sorri. — Mas não tinha um edredon não?
– Então se não quer... fica pra mim... — Comentou se virando para sair. Com a coberta.
– Não, calma...
– Não, não tinha um edredon, só achei esse lençol aqui, é melhor aproveitar porque amanhã de manhã a empregada já vai leva-lo para a lavanderia. — Fez uma pausa rápida. — Eu posso te cobrir... — Ele esticou o pano fino, me encolhi na cama para me esquentar mais, ele cobriu o meu corpo com o lençol. — E... M-me... — Parecia fazer um grande esforço para falar, eu ouvia atentamente. — M-me des-desculpe, pelo celular. Pronto, falei. — Disse de um modo frio, porém, eu admirei aquela atitude.
– Vem, sente-se aqui. — O convidei, batendo minha mão no colchão.
Ele lançou um olhar de reprovação.
– Vem.. Por favor. — Insisti.
Finalmente ele aceitou, se sentando na cama, ele fez uma careta ao ver que o colchão era bem duro.
'' Será que a Bia tem razão? Será que eu devo fugir para finalmente voltar para casa e rever meus amigos? '' – Eu pensava.
Olhei para Daniel.
'' Mas eu nunca mais o verei novamente... '' — Pensamentos loucos e confusos me dominavam. '' Vamos Julie, ele não gosta de você. É melhor escolher: Ou seus amigos, ou o monstro. ''
Respirei fundo.
'' Vou precisar ser mais habilidosa quando fugir... não quero que ele me encontre. ''
– Bom, acho que vou deixar você dormir. — Anunciou Daniel. — Boa noite garota.
Segurei sua mão, ele ficou paralizado, apenas me olhando.
– Porque insiste em me chamar assim?
– Bom, é a regra, uma regra estúpida, não posso te chamar pelo nome, pois seria ''intimidade'' de mais para o Demétrius.
– Entendi. — agora tá explicado, já vi que ele não quer intimidade comigo. Lembrei de tudo o que aconteceu hoje. — E a nossa... aproximação hoje?
– Do que está falando? — Se fez de desentendido, mas resolvi explicar.
– Nossos rostos... estavam bem próximos não acha?
– Não.
– Hum... É que eu pensei que...
– Então é melhor nem pensar.
– Mas você nem sabe o que eu iria dizer. — Respondi, um pouco grosseira.
– Amor é para os fracos.
– E quem falou em amor? Eu só queria ser sua amiga.
– Huh... A-ah... hum... pensei que fosse outra coisa.
– Porque pensou isso? — Sorri.
Ele olhou para o teto, assobiou algo... talvez alguma música, estalou os dedos das mãos mas não me respondeu.
– Já sei porque. — Falei, ainda sorrindo. Ele olhou assustado para mim. — Você não é tão sem coração, você gosta de mim, não é?
Ele soltou uma risada rouca.
– Você é engraçada garota.
– Não gosta de mim? — Pensei que seria meu amigo, e que gostasse de mim.
– A única pessoa que eu gosto é de mim mesmo.
– A tá... — Disse sem graça. — Não tem porque eu ficar aqui, já que ninguém gosta de mim. — Comentei para mim mesma.
– Pretende fugir? — Me encarou seriamente.
– Hã? Oi? Não... não vou, que doideira, e-eu já aprendi a lição.
– Hum...
– Posso te abraçar?
– Não. — Fez uma pausa. — Porque isso?
– Queria te agradecer por um dia não tão ruim. — Queria sentir seu corpo junto ao meu. Essa seria a verdadeira resposta.
– Tanto faz então... — Falou um pouco sem graça.
Passou uns minutos, eu tentava por meu plano em mente.
– Vem ou não? — Perguntou ele, se aproximando um pouco, senti um arrepio em mim.
Acabei com o espaço entre nossos corpos, e nos colamos. Nesse momento, parecia que a Lei de Newton não fazia sentido pois nossos corpos ocupavam praticamente o mesmo espaço, em um abraço quente a aconchegante, admito que quase dormi em seu braços.
Não é à toa que ele é o meu guarda-costas, afinal, me senti totalmente protegida com aquele abraço. Eu sei que não era apenas um abraço comum, e sim um grande passo para o meu plano. Senti sua mão dar uma volta pela minha costa, e apertar levemente minha cintura, foi um toque quase impercebivél, mas ao mesmo tempo profundo.
Seus lábios estavam perto da minha orelha, consegui até senti um vento frio passar pelo meu corpo. Como uma corrente.
– Podemos demorar um pouco mais nesse abraço. — Comentou Daniel, quase mordendo minha orelha.
Nos abraçamos mais forte, parecia que esse abraço era mais um desejo que ambos tinham dentro de si. Emprenssei meus seios contra seu peito, continuamos assim por alguns segundos, virei meu rosto, deitando minha cabeça em seu ombro, sem esquecer meu objetivo principal, ou quase: As chaves estavam presas no seu cinto, o rapaz parecia me abraçar com força, como se eu fosse uma pedra preciosa que ele havia perdido.
Lentamente, sem me soltar dele, peguei o molho de chaves que estava no seu cinto, o coloquei no bolso do meu unifome.
'' Agora vai ser bem mais fácil para mim fugir. ''
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