Destinados
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A fome era grande e ele sabia que os malditos Guardiões estavam vagando por ai, protegendo seus preciosos humanos da sua presença. Contudo, precisava se alimentar. Há muito descobrira que os medos dos adultos tinha mais sustância, quando maior o medo deles mais ele ficava satisfeito, podia passar meses sem precisar se alimentar quando achava a vítima certa, o único problema era o gosto horrível que aquele tipo de medo tinha. Já o medo puro de uma criança, isso sim era saboroso. Um manjar dos deuses, e como um doce, quanto mais ele consumia mais desejava consumir. Além de não alimentar o bastante, não dava para saciar a fome só o prazer.
Infelizmente era difícil encontrar um adulto com as defesas baixas, o mundo andava tão violento que penetrar o subconsciente de uma pessoa e tirar dela o seu mais primitivo temor, era complicado demais. Ele estava fraco para caçar. Por isso entrou na primeira casa que achou aberta, farejava um nível de preocupação que para se transformar em medo só precisava de um toque. Se alimentou do homem que temia pela saúde de alguém, o medo nele não era forte o bastante, mas agora ele podia ir caçar. Ia se alimentar de outros moradores da vizinhança, quando foi interceptado por uma criaturinha humana, uma menina, no corredor.
— Oh! Olá – ela disse inclinando a cabeça para o lado.
Não havia medo nela. Ele detestava aquelas coisinhas que não sentiam medo, por que os pais não lhes contavam historietas assombradas? Ou os deixavam assistir filmes de terror antes de irem para a cama? Ou lhes dissesse coisas estupidas como se desobedecer, o bicho-papão vai te pegar? Esse tipo de coisa deixava qualquer criança apavorada e com certeza ao ver um estranho em sua casa no meio da madrugada, correria apavorado para a cama dos pais. Maldito século vinte e um que tirava o medo e a inocência das crianças.
— Você é o diabo? – ela perguntou em voz baixa – Veio me buscar?
Diabo? Ele? É claro que não. Era um bicho-papão. Um devorador de medo. Um observador de sonhos. Um pesadelo vivo. Outra coisa que ele tinha para detestar, os humanos mexiam tanto com forças sobrenaturais que quando se deparavam com um ser de sua espécie, agia como se fosse uma piada de mau gosto. Ele desapareceu deixando a criança parada sozinha no corredor.
Passou por algumas casas pela redondeza se alimentando, quando ficou satisfeito resolveu ir para bem longe, buscar um lugar onde o medo fosse eterno, talvez para uma região de guerra. Enfiou a mão no bolso da capa preta, caminhou um pouco enquanto se decidia para onde ir. Sem perceber tinha parado diante da primeira casa onde entrou naquela noite e observava uma janela por onde se via um facho de luz verde. Por que tinha ido parar ali? Quem era mesmo a pessoa que morava naquela casa? Sim, um pai preocupado com a saúde da filha. Medo bobo e sem graça, mas que lhe deu força para continuar em pé.
Num piscar, ele estava dentro do quarto de luz verde, luz de um pequeno brinquedo brilhante. A criança adormecida se remexia em seu sonho, mas não tinha medo vindo dela. Sua presença devia estar lhe causando agitação, era natural. Ia sumindo quando a coisinha humana abriu os olhos castanhos e o fitou.
— Veio me buscar agora? – a voz fraca era um sussurro.
— Te buscar? Por quê? – sussurrou de volta.
— Estou morrendo – ela explicou, pausadamente – E você é um diabo. Vai me levar para o inferno?
— Não sou o diabo.
— Tem os olhos de um. Igual dos filmes. Anjo tem olho azul.
Ele não pode deixar de sorrir, ainda que seu sorriso fosse apenas uma sugestão de movimento labial.
— Não está morrendo, só está febril.
— Ah! Já bebi meu remédio.
Ele não devia estar conversando com aquela criaturinha, nunca gostou de brincar com a comida, só que ela lhe despertava a curiosidade.
— Por que pensou que eu ia leva-la para o inferno?
— Meninas boazinhas vão para o céu, eu sou má.
— Má? O que fez para ser má?
— Matei a mamãe quando nasci e deixei o papai pobre.
Ela tossiu e fechou os olhos. Ele tocou a testa dela, estava quente demais para uma pessoa tão pequena. Talvez ela não sobrevivesse até o fim do dia seguinte. Seu interesse por ela sumiu assim que concluiu que ela era uma refeição perdida. Sobre a cabeceira da cama dela havia um grande mapa, ele fechou os olhos e apontou para um lugar á esmo e desapareceu. Tinha milhares de fonte de alimento pelo mundo, para que se preocupar com uma que estava morrendo?
... Dez anos depois...
Aqueles Guardiões estúpidos estavam dando trabalho demais para os de sua espécie. Primeiro Breu na América do Norte. Depois os dementadores no Reino Unido. Agora estavam caçando outras criaturas pelo resto do mundo. Como se atreviam a impedir que os humanos sentissem medo? Sem o medo para que serviria os Guardiões? Transformar o mundo num circo de alegria? Os Guardiões só serviam para proteger os humanos por que gente como ele existia, sem sua gente contra o que os Guardiões agiriam?
Ele estava aborrecido, por isso estava entrando naquela casa noturna cheia de jovens, o medo deles não era saboroso como os de uma criança e nem substancial como dos adultos, era um medo fraco, composta por muita insegurança. Ele inspirou profundamente, não por causa do ar e sim do cheiro impregnado no ambiente. Como sempre a insegurança era a maior parte da energia presente, insegurança tinha gosto de nada até fracasso era mais apetitoso. Inveja e raiva era a segunda coisa mais poderosa ali, dava para sentir como se fosse uma presença respirando e caminhando. Magoa e um sutil toque de desprezo completava o resto.
Jovens decididamente era a fonte mais fraca de uma alimentação saudável. Como podiam se ocupar tanto de trivialidades sem motivos necessários? Ciúmes de um cara que nem é seu namorado? Inveja de uma garota que nasceu bonita? Incertezas idiotas que os impede de se arriscar? Raiva por que alguém está acompanhado daquela pessoa por quem nutre uma paixão infantil? Magoa por que terminou um relacionamento sem importância? Por que se preocupavam tanto com essas imaturidades? Não se davam conta de que planos para o futuro só os fazia desperdiçar o presente e um dia se prenderem ao passado?
Qual era o problema com os humanos? O que eles tinham de errado? Como funcionavam? Por que eram incapazes de sentir uma coisa de cada vez? Em seus muitos anos de vida, ele conheceu apenas uma pessoa assim. Capaz de separar a razão da emoção. Uma criança de olhos marrons que deveria já estar morta há um século ou será que a conheceu no ano anterior? O som de uma guitarra preencheu o recinto e os ecos dos gritos e aplausos o irritaram. Por que ainda frequentava aquele tipo de hospício?
Um rapaz de olhos perolados, no palco, começou a cantar, mas não era ele quem tinha chamado a atenção do bicho-papão, tinha sido a garota de vestido curto que tocava guitarra. Ele não tinha percebido a presença dela antes por que ela não sentia nada mais forte que sensações físicas. Os grandes olhos marrons dela encontraram os olhos vermelhos dele. Apesar de tanto barulho ao redor, ele conseguiu ouvir o coração dela acelerar e percebeu que ela prendia a respiração. Ele olhou-a dos pés calçados em all star preto até os cabelos presos em dois coques. Era ela mesma, a criança em quem ele ironicamente pensava á poucos minutos, não estava morta e nem era mais uma criança. Curioso como o tempo passava tão depressa para os humanos e tão devagar para ele.
Como os humanos chamavam mesmo? Destino? Seria o destino colocando-os frente a frente depois de tantos anos? Só que ela não era mais uma menina febril e delirante, era praticamente uma mulher. Uma bela mulher. O que tocavam, o que o publico gritava, o que as pessoas ao seu redor sentiam. Ele não sabia dizer, não prestou atenção em nada desde que a viu. E quando terminou, ela empurrou sua guitarra para o vocalista e saltou para fora do palco. Veio em sua direção, quase sem piscar, sem interromper o contato visual.
— Eu vim te buscar – disse uma voz muito parecida com a dele – Está pronta para partir?
Ela assentiu e uma mão muito igual á dele se estendeu. Entendeu que era ele mesmo quem estava fazendo aquilo, quando o calor do toque humano dela percorreu seu corpo.
— Estava te esperando – ela disse.
Ele a levou para fora, a multidão abrindo espaço para eles, quase inconscientemente. Ela não seria uma fonte de alimento, não do tipo que ele costumava a consumir. Itachi Uchiha tinha a vaga impressão de que aquela jovem chamada Tenten era a pessoa que ele esperou a vida toda e que tinha sido o tal Destino que o fez ir ao encontro dela.
Fale com o autor