Destinados à Payre
4 A história do anjo
Alexis viu o choque. A descrença. E então a raiva. Os olhos dela pereceram duas chamas violetas. Os cabelos platinados dançavam ao redor do rosto enquanto ela sacudia a cabeça cheia de fúria que mal conseguia conter. Angel, era óbvio, ficava com raiva muito fácil. Parecia fria, mas era na verdade o tipo de pessoa que transbordava emoções. Descontrolada e linda. E como da primeira vez em que a viu, o cheiro de jasmim o tentou.
Naquela tarde no pátio da escola, de uma maneira que nem ele próprio se julgava possível, ficou preocupado com ela. Desesperado a havia levado para a enfermaria assim que percebeu que a garota em seus braços não estava bem. Tentou ficar com ela, pois por algum motivo não queria se afastar, deixá-la sozinha, mas a doutora não permitiu. Assim que a médica viu a paciente, tentou afastá-lo o mais rápido possível. Disse que a garota se chamava Angel Lancaster e era apenas uma situação de falta de vitaminas. O guardião da garota a havia informado que isso poderia acontecer, mas não era nada grave, ela precisava apenas descansar e se alimentar. Alexis a deixou, mas ao ver a mochila que alguém tinha deixado sobre uma mesa, sem pensar muito, a levou consigo. Tinha um chaveiro preto muito gasto, era a letra “A” com asas.
Saindo de lá foi logo falar com a Diretora, queria saber o que aconteceria a Angel e ao Ren. A diretora Sullivan, que já havia sido informada da situação toda, achou melhor dar apenas uma advertência por escrito no relatório disciplinar dos dois. Angel era uma aluna nova que tinha um histórico complicado, só havia entrado na Alpha graças aos contatos do avô com vários membros importantes do Conselho. George Lancaster era, além de tudo, muito amigo do Presidente do Conselho, Angus Baker, neto do fundador da Alpha. E Ren já havia sido punido o bastante ao ser humilhado na frente de todos por apanhar de uma garota. E apanhado muito.
Ao ficar sozinho em sua sala no GEA, Alexis repensou sobre tudo que havia acontecido naquelas horas. Suas atitudes incomuns, a confusão em sua mente, a vontade sem sentido de voltar para a enfermaria e ver se Angel realmente estava bem. O perfume de jasmim. O calor do corpo feminino. A sua vontade de bater ainda mais em Ren ao ouvir da diretora que o rapaz havia apanhado porque tinha barrado a entrada da garota na escola, zombando da sua roupa esfarrapada. Ele, segundo alguns alunos, a empurrou contra a parede antes de tomar o primeiro soco que o levou ao chão. Alexis sentiu raiva de Ren, quando tudo ele sempre lhe despertou foi desprezo e indiferença.
Raiva. Desejo. Preocupação. Confusão. Em algumas horas ele havia sentido tudo isso. Havia ficado curioso no início, sobre onde essas sensações novas poderiam levá-lo. Agora, para seu desgosto, sentia medo.
Seu pai sempre deixou bem claro. Um Rei não deveria sentir nada. Era preciso pensar no povo, no bem estar das pessoas, mas com a cabeça, com a razão e a lógica. As pessoas iam querer usá-lo, manipulá-lo e destruí-lo se ele mostrasse qualquer fraqueza, como os sentimentos que ele havia sentido. Apenas estes já seriam o suficiente para levá-lo a ruína.
Um único sentimento havia quase acabado com seu pai, o poderoso Rei Hamad Aziz Al-Saud. O amor. Ele havia amado devotamente a esposa Saray e ela o traiu com o melhor amigo dele. Fugiu com o amante, abandonando o marido e o filho de apenas cinco anos. O casal morreu algumas semanas depois em uma ilha grega. Foi divulgado pela mídia que terroristas haviam atacado o Sheik que acompanhava a rainha Saray o que resultou na tragédia. Alguns anos mais tarde Alexis soube a verdade. Ouviu da boca do pai que ele mesmo havia eliminado a sua maior fraqueza. Ele mandou explodir a mansão onde estavam o amor de sua vida e o amigo de infância. Os traidores.
Sentimentos deixavam as pessoas loucas. Irreconhecíveis. Descontroladas. O pai de Alexis nunca mais foi o mesmo depois daquilo. Tornou-se um tirano, duro, implacável. Poderoso e temido. E só Alexis sabia, também insano. O Rei ainda chorava escondido, como uma criança, pedindo perdão à falecida esposa. Dormia somente com mulheres que lembravam a antiga rainha e caso alguma de suas inúmeras amantes engravidasse, Alexis lembrava de quatro casos, mandava tirar a criança. Não queria uma mistura do seu sangue com o de outra mulher. Mas detestava olhar para o próprio filho.
Quando Alexis tinha doze anos o Rei havia tentado, bêbado, arrancar os seus olhos com uma adaga. Eles eram da mesma cor dos de Saray e aquilo o transtornava. Depois disso os dois nunca mais se trataram normalmente e só se viam em alguns eventos públicos. Alexis nunca conseguiu entender as atitudes tanto do pai quanto da mãe, mas as experiências passadas em sua infância haviam provado que o melhor a fazer para se proteger de possíveis dores e decepções, era não sentir. E se sentir, deveria eliminar a fonte o mais rápido possível, antes que tudo estivesse perdido. Ele nunca precisou agir daquela forma. Até conhecer aquela garota estranha.
― Meu Deus! Quanta bobagem! — Angel gritou, trazendo Alexis das suas recordações. — Sério. Você é normal?!
― Mais do que a maioria das pessoas. Mas poderíamos ficar discutindo sobre a questão do conceito de normalidade por horas.
― Cara, você vem com um papo de que meio que ficou a fim de mim, assim, do nada! E depois quer me expulsar da escola por isso??!!
― De certa forma, sim, a situação geral é essa.
Angel arrancou a mochila das mãos dele.
― Então vamos esclarecer alguns pontos. Eu também não quero estar aqui. Eu não ligo a mínima para você, por mais bonito que seja, não rola de ficar interessada em qualquer pessoa. Logo vou dar um jeito de sair desse lugar cheio de imbecis como você e seu coleguinha Ren. Eu sempre faço isso! E pode acreditar, vou procurar ser o mais rápida possível dessa vez. Então até lá vamos ser felizes nos ignorando mutuamente. Boa noite!
Angel saiu da sala com um estrondoso bater de porta.
Alexis deitou no sofá e, após um longo tempo novamente refletindo sobre tudo, adormeceu.
No dia seguinte acabaria notando que, mais uma vez agindo fora de si, havia dormido ali mesmo, embalado pelo suave perfume de jasmim que Angel havia deixado na sala.
Mais do que nunca teve a certeza de que ela precisava sair logo daquela escola.
***
Angel sentiu o sol no rosto. Eram raros os momentos em que conseguia sentir aquela paz. Desde que entrou naquela escola, há quatro dias, não havia frequentado as aulas. Levantava cedo, antes de qualquer outro aluno, pegava seus livros, o Chin-gu, que era seu diário, algum lanche e ia para o telhado do prédio mais alto do Campus Escolar. Lá ela lia, dormia, pensava e escrevia em seu diário. Ele havia sido um presente de Hye Kyo, sua babá. A bondosa senhora coreana havia presenteado Angel com ele dizendo que seria uma ótima forma de desabafar tudo o que quisesse, seus medos, sonhos e sua fúria. Ele seria seu amigo, por isso Angel o chamava de Chin-gu (amigo em coreano).
A garota observou a calma a sua volta. O mar distante, o bosque que separava o Campus Escolar do Campus Universitário. Sabia que mesmo os mais ricos daquela escola tremiam só de pensar em não conseguir entrar na Universidade Alpha. Ela achava engraçado como algo já tão elitizado poderia ser ainda mais exclusivo.
A Universidade Alpha ficava na mesma ilha da escola e era a melhor instituição de Ensino Superior do mundo. Mesmo os alunos que garantiam vaga em Harvard e Oxford podiam não ser suficientemente capazes de conseguir uma vaga na prestigiada Alpha. Não adiantava poder, influência ou dinheiro, só as melhores notas e currículos impecáveis entravam.
Mas nada daquilo interessava a ela. Sinceramente nem entendia porque o avô, aquele velho arrogante, insistia para que ela estudasse. Como sempre, era uma questão de manter a imagem. Se Angel pudesse escolher, estaria viajando pelo mundo, descobrindo coisas novas, saciando sua mente curiosa. Mas não, George Harrington Lancaster jamais permitiria a mínima felicidade a sua detestável neta. Ele a queria agindo como uma garota normal da alta sociedade, estudando em escolas prestigiadas e frequentando as festas mais exclusivas. O fato de ter conseguido que ela entrasse na Alpha mostrava o alcance do seu desejo. Mas Angel não tinha o menor interesse naquela palhaçada. Era absurdo. Como ela poderia ter uma vida normal?
Deitando de costas no chão, esticou os braços para cima e fechou os olhos. Sem mãe, sem pai, sem irmãos, sem qualquer pessoa que se importasse ou se preocupasse de qualquer forma com ela. A única que a amou estava morta. E ela havia causado isso.
Angel sentiu a dor no pé esquerdo, sabia que não era real, já havia passado dois anos desde que a ferida havia sido feita, mas sua mente parecia não entender essa lógica. Sempre doía quando pensava naquilo. E por consequência, sentiu os pulsos, cobertos por faixas pretas, arderem e também as costas.
Levou uma das mãos ao peito, na altura do coração. Ele batia tão calmamente que quase a irritava. Quanto tempo ainda tinha? Um, dois, três anos? Dez? Nenhum médico sabia dizer com precisão. E ela havia ido a vários, graças a Hye Kyo que incansavelmente tentava mantê-la viva. Mesmo a custa da própria vida. E mesmo depois de morta ela não havia desistido. Angel sorriu dolorosamente para o vazio ao lembrar da amiga tagarela. Ela havia sido mais do que uma amiga. Foi sua mãe.
Hye Kyo havia trabalhado com Hannah, mãe de Angel, quando ela era apenas uma adolescente com um incrível talento para tocar piano. Quando Hannah casou com pai de Angel, Edmund e mudou-se para a Inglaterra, abandonando seu sonho de ser uma famosa pianista, Hye Kyo resolveu continuar sendo sua secretária e amiga. Hannah a considerava uma irmã, tendo sido criada desde pequena em um orfanato na América, nunca soube o que era ter alguém cuidando dela.
Hye Kyo amava Hannah e sofria vendo a amiga nas mãos do sogro autoritário, mas Hannah e Edmund eram felizes e se amavam profundamente. Quando Hannah e Edmund morreram, Hye Kyo transferiu todo seu amor à filha de sua amiga, Angel, a quem até mesmo deu o nome.
Angel sempre soube que Hye Kyo a amava. Ela era mais familiarizada ao ódio e a indiferença, mas reconhecia o amor de sua babá, tão profundo e forte. Mas sua mente de criança sentia muito mais a dor de ver seus parentes por parte de pai, os únicos que tinha, e o próprio avô afastando-a deles. Eles a consideravam uma maldição. A menina que nasceu para destruir a família Lancaster. Descobrir isso foi o que a levou a beira do precipício, de onde ela se jogou três vezes ao longo dos seus dezessete anos.
No dia do seu aniversário de oito anos George a levou para ver o túmulo de sua família. Ela ficou contente. Sempre era Hye Kyo que a levava até lá e, além disso, seu avô estava disposto a passar o dia do seu aniversário com ela. Até então ela comemorava sozinha com a babá e alguns empregados, procurando sempre não incomodar o avô ou qualquer parente que estivesse na mansão Lancaster naqueles momentos. Feliz, Angel seguiu o avô, sem saber que ele a guiava ao inferno.
Era uma bela tarde de sol, porém com muitas nuvens no céu que o encobriam com frequência. Mas, muito contente ela só via os lindos raios que tocavam o seu rosto sorridente através da janela do carro. Finalmente um aniversário especial!
Quando chegaram ao cemitério, assim que desceu do carro, Angel percebeu que outros veículos estavam estacionados e alguns parentes caminhavam em direção ao mausoléu da família Lancaster. Um pouco hesitante com aquela situação incomum seguiu o avô em silêncio. Por algum motivo já não estava tão feliz.
Embora ninguém comentasse, percebia que aquelas pessoas não gostavam dela. Notava cochichos e sussurros mesmo entre as crianças sempre que ela estava presente. Os primos não se aproximavam dela. Nunca.
Quando chegaram ao local de descanso de Hannah e Edmund, George aproximou-se do túmulo do filho e do neto. Ficou de costas e em silêncio por alguns minutos. Quando se voltou para encarar a neta, Angel percebeu que as tias, tios e primos se afastaram dela e também a observaram com ar sério e frio. Aquilo gelou seu pequeno e trêmulo coração. Não havia mais nenhum raio de sol.
–- Eu os chamei aqui porque tenho algo a dizer a todos. Achei esse lugar o mais apropriado, pois apesar de tudo, eles são os pais da menina. – Algumas cabeças balançaram em concordância, mas ninguém disse nada. – Há oito anos perdi minha família. Meu filho e meu neto. – Os olhos de George fixaram friamente nos lindos olhos violetas de Angel, iguais aos de Hannah. – Garotinha, sua mãe e seu pai não morreram em um acidente de carro. Hannah morreu ao dar a luz a você e sua irmã, Annabel, que já nasceu morta. Sua irmã está naquele túmulo. – Com indiferença apontou uma pequena lápide ao lado da de Hannah e continuou:
–- Meu filho Edmund estava indo para o hospital com meu neto Andrew quando algum incompetente o avisou da morte da esposa por telefone. Ele perdeu a direção do carro e caiu de uma ponte. Ele morreu na hora, Andrew, meu pequeno guerreiro, lutou por cinco dias pela vida, mas não resistiu e eu também o perdi. Só restou você.
Não. Não. Não! Papai, mamãe e Andrew morreram em um acidente de carro! Não é?!?! Nãããoo ééé???
Por que mentiram? Ela tinha uma irmã??
Por que todos estão me olhando desse jeito??
Pooorqueeee????
Dor. Dor. Dor.
O pequeno corpinho de Angel tremia. Ela não podia gritar. Eles, todos eles, iriam odiá-la se fizesse isso. Ela sentia sua voz falhar até mesmo dentro da sua pequena e confusa cabecinha.
Onde está Hye Kyo? Porque ela não esta aqui para me confortar? Essas pessoas não sentem a minha dor!
Sem parecer notar os olhos arregalados e as lágrimas que a criança chorava silenciosamente diante da morte tão terrível dos pais e irmãos, George olhou para os membros da família Lancaster. Todos pareciam indiferentes ao sofrimento da menina, mesmo as crianças estavam mais curiosas ou entediadas do que preocupadas.
Os Lancaster eram orgulhosos de sua linhagem e Angel era apenas a prova do que acontecia quando a pureza era maculada. Hannah, uma órfã pobre, nunca deveria ter sido aceita pela família. George maldizia a cada minuto de cada dia a sua fraqueza diante do apelo do filho em ficar com a mulher que dizia amar. Ele havia amaldiçoado a família Lancaster.
–- Menina, agora você sabe a verdade. Não precisamos mais fingir que não a detestamos.
Dor. Dor. Dor. Dor. Dor. Dor. Dor.
Agora ela sentiu a verdadeira dor.
Agora ela entendia. Eles a odiavam. Porque ela era má.
Por que ela era má?
Ela havia matado seus pais.
Sua mãe morreu porque ela nasceu. Sua irmã não sobreviveu, mas ela sim. Sozinha. Egoísta. Roubou toda a vida para si.
Seu pai tinha morrido de choque. De dor. Por ter perdido o amor que ela matou. Seu irmão tinha sido apenas mais uma vítima. Pobrezinho. Seus irmãozinhos.
Assassina. Era assim que chamavam alguém como ela, certo?
Ela precisava perguntar para algum adulto. Mas tinha medo. Sua voz não saía. E se fosse verdade? E se ela fosse realmente a culpada?
Num fio de voz, desesperadamente pedindo aos anjos e a Deus para estar enganada, perguntou ao avô, seu amado avozinho:
–- O que eu fiz de errado?
–- Você nasceu.
Angel ouviu a própria voz gritando. Mas era na sua cabeça, pois sua boca não se mexia. Seus olhos já não enxergavam nada a sua frente. Só via vultos e escuridão.
E doía. Doía tanto. Ela também estava morrendo? Foi essa dor que seus pais e irmãos sentiram? Se era a morte, então tudo bem. Hye Kyo sempre dizia que um dia, quando chegasse a hora, ela poderia se encontrar com papai e mamãe. Então agora ela poderia pedir desculpas por ter sido tão malvada para todos quando os encontrasse. Se ela fosse muito, muito boazinha eles a perdoariam. Tomara.
George, completamente transtornado, totalmente cego ao que acontecia com a neta, despejou sua frustração e rancor, guardadas a oito anos, na criança a sua frente.
–- Seus pais não esperavam por uma nova gravidez. Sua mãe já havia mostrado sinais de debilidade na primeira gestação, então não arriscariam novamente. Mas você e sua irmã aconteceram! Edmund e aquela mulher fraca não tiveram coragem de interromper a gravidez! Agora perdi meu único filho, meu único neto e não há ninguém para continuar a linhagem dos Lancaster! Ninguém! Estão todos mortos!! – A fúria do velho percorreu os parentes que se encolheram como nem mesmo a garotinha havia feito.
Além de Edmund, George tinha apenas três sobrinhas. Mulheres. Era o fim dos Lancaster!
E tinha mais para dizer a menina. Aquela fedelha maldita. Com uma calma monstruosa declarou:
–- Você vai para uma escola interna. Vai ser uma Lancaster o máximo que seu sangue permitir. E depois sairá de nossas vidas para sempre. – Ele olhou para o túmulo do filho e da nora por alguns segundos antes de encarar a garota destroçada a sua frente. O golpe final. — Hye Kyo a levou no médico nos últimos dias por algumas dores que você estava sentindo. Garota, você tem uma doença cardíaca que vai levá-la a morte em alguns anos. Tente não destruir ainda mais essa família do que já fez, nesses anos que lhe faltam.
As pessoas à volta reagiram finalmente, murmuraram e sussurraram surpresas. Quase sentiram pena da órfã, mas logo passou. O medo de que o velho deixasse sua fortuna para aquela menina podre era algo assustador para todos. Apesar de tudo, ainda era a única filha do estimado Edmund. Mas agora estavam a salvo. Ela iria morrer. Graças a Deus!
Angel não lembra o que aconteceu depois. Quando acordou estava em um avião com Hye Kyo acariciando seus cabelos enquanto chorava baixinho pedindo desculpas por tê-la deixado sozinha. Isso nunca mais iria acontecer, jurou a babá. Angel sentiu apenas tristeza. Tinha acordado, ainda estava viva. E essa tristeza que sentia ao acordar nunca mais a abandonou. Nem a esperança de finalmente dormir para sempre.
Dois anos depois Angel cortou os pulsos com uma faca. Um dos colegas do internato onde estudava a encontrou e chamou por ajuda. Ela sobreviveu, ficaram apenas as cicatrizes e a raiva por não ter conseguido atingir seu propósito. Hye Kyo ficou tão triste com o que aconteceu que Angel deixou de lado a ideia. Por algum tempo.
Quando estava com treze anos seu avô demitiu Hye Kyo e a proibiu de chegar perto da neta. A babá havia discutido com George, pois a garota era maltratada pela família e estava morrendo sem ter sentido qualquer felicidade em sua vida. Aquilo não era justo.
Sem a única pessoa que se importava com ela por perto, Angel fugiu e se jogou de uma ponte. Alguém que estava passando a resgatou, mas a notícia circulou pela mídia. George usou todo seu poder e influência para preservar o nome da família.
Angel ficou com cicatrizes nas costas que alguns anos mais tarde cobriu com tatuagens, rosas azuis, as favoritas de sua mãe, em uma arte feita por ela mesma.
Para que o avô trouxesse Hye Kyo de volta ameaçou contar para o mundo que ela estava morrendo e por isso havia tentado tirar a própria vida, duas vezes. Além de contar toda a história da família Lancaster. George internou Angel em um sanatório e mentiu para todos que ela estava em mais um colégio interno.
Hye Kyo descobriu a verdade e, através dos laudos médicos que ela tinha da garota, provou que ela não tinha qualquer problema psiquiátrico, portanto o avô estava cometendo um crime. Caso ele não tirasse Angel do sanatório ela iria denunciá-lo e expor tudo para a mídia, pois tinha vários contatos do seu tempo como secretária de estrelas da música.
George cedeu, tirou Angel do sanatório e deixou Hye Kyo voltar para o lado da menina. Mas ameaçou, se elas tentassem qualquer coisa contra os Lancaster, ele não daria recursos para o tratamento que Angel fazia em função da sua doença. Ela certamente morreria.
Então, aos quinze anos o pior aconteceu.
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