Destinados à Payre

5 Minhas motivações


Mona mal prestava atenção na reunião, estava preocupada.

Era o planejamento do tradicional Baile da Primavera da Alpha, promovido anualmente pelo GEA. Além de ser uma festa muito aguardada pelas meninas que queriam fisgar um bom partido, era também perfeita para contatos de negócios. Alguns dos figurões mais poderosos do planeta, parentes dos alunos, recebiam um “convite de honra” para participar. Quem recebia o convite fazia questão de comparecer. Além de ser uma oportunidade inestimável para fazer contatos longe do público e da mídia, era realmente uma grande honra. Somente os mais notáveis recebiam os limitados e famosos cartões bordados em ouro com o conhecido símbolo da Alpha. A letra grega que simboliza o infinito mesclada com a cabeça de um lobo.

O pai a havia informado por e-mail que iria comparecer ao baile daquele ano. Aquilo a deixava um pouco nervosa. Harrison Mason Dewis estaria presente e provavelmente estava muito contente por ter essa oportunidade durante a sua campanha presidencial.

Mona observou de soslaio Alexis que ouvia algo do rapaz franzino ao seu lado, Louis Derring, filho do atual Primeiro ministro francês e Diretor financeiro do GEA. Ela suspirou irritada. Aquele garoto, como sempre, iria monopolizar a atenção de Alexis, numa tentativa de mostrar seus vastos conhecimentos na área de finanças.

Ainda fitando atentamente Alexis, Mona refletiu que ele provavelmente iria sozinho ao baile, se é que iria, mesmo recebendo centenas de rosas brancas. Assim como ela. Fora assim no ano passado. O primeiro ano em que participaram do Baile, pois a festa era apenas para os alunos do Ensino Médio. Para convidar um par, a garota ou o garoto, entregavam uma rosa branca com uma indicação de quem havia enviado a flor. A pessoa que recebeu, para aceitar, devolvia pessoalmente uma rosa vermelha.

Três coisas sempre ficaram muito claras. Quem não conseguia um par era um tremendo fracassado. Quem não ia era a escória da escola, então era preferível ir mesmo que sozinho. E nada disso se aplicava a Alexis. Ninguém tinha certeza se ele iria ou não. No ano passado ele havia comparecido, quase no final, desacompanhado.

A mesma extravagância acontecia com seu pai, o Rei Hamad, embora recebesse o cobiçado convite todos os anos, só havia comparecido no ano anterior. E fez questão de levar um cortejo que incluía várias princesas, lindas e de sangue muito azul, para, em pleno baile, apresentar ao filho como candidatas a futuras rainhas. Algo meio Cinderela. Só que sem a coisa da menina pobre e órfã com duas irmãs feiosas.

Mona ouvira comentários de que o Rei estava disposto a comparecer ao baile daquele ano novamente. A garota mordeu os lábios ansiosa. Como poderia convencer o pai de que estava fazendo progresso com Alexis se ele veria com os próprios olhos que não ficara mais íntima do rapaz do que há a três anos atrás, quando ingressou na Alpha? Além disso, também estaria presente para ver o desfile de princesas muito sorridentes que dançariam com o príncipe sob a aprovação do Rei Hamad.

Tinha que ser honesta consigo mesma, sabia que esse plano estava todo na sua cabeça, o pai nunca a empurrou nessa direção, nunca disse que a valorizaria mais se ela se tornasse a futura rainha de Quidar, país do qual Alexis seria o futuro líder. Mas Mona sabia que se fizesse um casamento tão fabuloso como esse, seu pai nem pensaria mais no idiota do seu irmão. Ela seria a favorita. Ela seria o seu orgulho. Seria dela que ele falaria em suas reuniões e para os amigos mais próximos. Então ela poderia esquecer o que um dia soube por descuido de sua avó e de sua mãe.

Ela sempre havia idolatrado o pai. Ele era um homem poderoso e forte que havia se casado com uma mulher como sua mãe, Nayara Borbón-Dos Sicilias, uma deslumbrante condensa espanhola. Todo o país falava das proezas de Harrison Dewis, no estrangeiro todos o respeitavam. Mona queria ser o orgulho de um homem como ele.

Aos treze anos, ela estudava em uma escola feminina muito famosa e tinha as melhores notas. Era a melhor aluna. Era o ídolo das colegas. Simpática, inteligente e elegante. Todos a elogiavam e falavam do quanto ela era o maior tesouro do seu pai. Mona era feliz. Mas um dia estava de férias em casa, o que era raro, geralmente passava as férias viajando com as amigas, foi correndo para a sala ao ouvir que sua querida avó os estava visitando. Ao chegar à sala onde sua mãe e sua avó conversavam, parou em choque com as primeiras palavras que ouviu:

–- E pensar que a Mona foi um acidente quando estavam tentando ter um menino! — a avó falava em tom baixo. — Ainda bem que eram gêmeos e o outro era um garoto, acho que meu filho teria interrompido o tratamento se não fosse assim.

–- Sim. Aquele machista teimoso! — Nayara parecia irritada ao lembrar. — Veja como trata uma menina tão maravilhosa como a Mona? Envia para uma escola na Suíça e nem pergunta como ela está! Tantas vezes eu, ou até outras pessoas comentamos como ela é a melhor aluna e tudo o que ele sabe dizer é “melhor em uma escola de garotas? É como dizer que é a melhor formiga do formigueiro!”. Como ele pode ser tão conservador? Ele disse que ficaria realmente impressionado se ela conseguisse um excelente casamento! Mio Dios!

–- Não vejo como ela vai conseguir um bom casamento estudando só com garotas — resmungou a mais velha.

–- Ah não! Você também?

–- Muitos homens ainda acham que uma mulher realmente admirável é aquela que fisga o melhor partido. — A velha senhora deu um gole em seu chá. — E meu filho, devo admitir, entra nessa categoria. Ele não vai se importar com o desempenho acadêmico da Mona, mas com o de Ren sim, por isso está sempre em cima do garoto e negligência a menina. Ao invés de elogiar a própria filha que é tão excelente, prefere listar para todas as proezas do príncipe que estuda com o Ren. Se pudesse Harrison trocaria, como é mesmo o nome dele…?

–- Alexis.

–- Isso! Trocaria os dois filhos, a Mona e o Ren pelo príncipe Alexis!

Nayara suspirou frustrada.

–- Se Mona não fosse uma menina ele seria louco por ela.

–- Por isso ela tem que fazer um casamento que o deixe embasbacado! — Riu a avó. — E Ren precisa se tornar mais parecido com a irmã.

A garota saiu e voltou para o seu quarto sem que ninguém percebesse que ela havia escutado a conversa. Sentada em sua cama a menina pensou sobre tudo o que ouviu. Não era tonta, sempre havia percebido a predileção do pai pelo irmão mesmo ele sendo o imbecil que era. Sabia que o pai não valorizava os seus esforços, nunca havia comparecido a nenhuma das atividades que ela participou, e venceu ou foi a melhor. Era a foto do irmão que ele mantinha sobre a mesa em seu gabinete. A dela ficava em uma prateleira qualquer. Mona então tomou uma decisão. Iria sair da escola de garotas em que estava. Não seria mais apenas uma formiga. E se casaria com o príncipe Alexis.

Mas ao entrar na Alpha, com o apoio da mãe, percebeu que sua missão não era tão simples. Alexis não permitia a aproximação de ninguém, por mais simpática que se mostrasse era sempre ignorada e tratada com frieza. Durante um ano mal conseguiu trocar algumas palavras com ele. Então vieram as eleições do GEA, Alexis se candidatou para a presidência e não havia dúvidas de que ganharia.

Como era uma excelente aluna e muito popular, Mona conseguiu assumir como Diretora de Comunicação. Essa nova situação permitiu que tivesse mais contato com ele, mesmo que de forma superficial e sempre sobre assuntos relacionados com o GEA. Mas por outro lado, os colegas passaram a reparar como eles combinavam. Os dois alunos excelentes, tanto em notas quanto nos esportes, bonitos e populares. Alexis com seu jeito frio e sério e Mona com sua doçura e elegância.

Ela sabia que tinha chances de sucesso, precisava apenas usar sua inteligência e mostrar de forma lógica para Alexis que a união dos dois seria um beneficio mútuo. Assim que seu pai vencesse as eleições ela poderia colocar as cartas na mesa com maior confiança. A filha do Presidente do país mais poderoso do mundo não seria recusada, mesmo por um príncipe.

Mona olhou para suas poucas anotações feitas durante a reunião no dispositivo eletrônico a sua frente. Se o pai de Alexis não viesse ao baile tudo seria mais fácil. Poderia até conseguir uma dança e tentar convencê-lo a trocar algumas palavras com o pai dela. Agora, com um harém de princesas a vista, trazidas pelo próprio rei Hamad, nada seria tão simples. Irritada ela saiu da sala assim que os colegas começaram a se levantar com o término da reunião.

***

Ren olhou seu rosto no espelho. Virou a cabeça de um lado para o outro e sorriu. Estava tudo ok novamente. As marcas mal podiam ser percebidas. Há uma semana estava exilado em seu quarto, não tivera nenhuma vontade de expor a cara toda colorida para os colegas zoarem com ele. Ele franziu o cenho. Eles iriam torrar sua paciência de qualquer forma, na verdade. Não era todo dia que um cara apanhava como ele. E de uma bonequinha.

–- Ah, lembrando-se do seu pequeno anjo?

Henrique Baker, mais conhecido por Hank, riu ao ver a expressão do amigo através do espelho. Luca Andreani o acompanhou nas risadas. Os três eram amigos desde a infância. Filhos de famílias poderosas, loucos por aventuras e nenhum senso de responsabilidade. Luca ainda era um pouco mais centrado, mas sempre acabava seguindo os outros dois malucos.

Eles não seguiam as regras, promoviam festas e levavam bebidas e garotas para os dormitórios. Hank aproveitava-se descaradamente do seu status de herdeiro da família que fundou a Alpha e sempre havia um membro da família Baker presidindo o conselho que comandava a Alpha e nesse momento seu avô, Angus Baker, era esse membro.

–- Vai se ferrar! — Ren jogou o corpo sobre o sofá que os outros dois já ocupavam.

Aquele era o seu quarto, organizado e limpo graças a eficiente equipe de empregados que a Alpha contratava para manter os mais de quinhentos quartos em ordem, divididos em duas alas: o das garotas e o dos garotos. O Campus Universitário funcionava da mesma forma.

A escola contava com um total de 1.200 alunos, um número pequeno para uma estrutura tão gigantesca, mas a filosofia da instituição era proporcionar o melhor para os poucos privilegiados que podiam estudar ali.

A maioria dos alunos dividia o quarto com pelo menos um colega, Ren compartilhava o seu com Hank. Poucos, a maioria da realeza, tinham um só para si. Mas cada quarto era tão grande que mais parecia um apartamento de luxo.

O de Ren e Hank, por exemplo, possuía uma sala de estar, um banheiro com hidromassagem, dois closets, uma sala de estudo e outra de jogos e uma cozinha com o mais básico, uma bancada, geladeira e microondas, já que a maioria dos alunos pedia comida para a cozinha ou fazia as refeições em um dos restaurantes da Alpha.

A decoração havia sido feita de acordo com o gosto deles, com cores fortes como vermelho e marrom. Algumas fotos sensuais de belíssimas mulheres, modelos, cantoras e atrizes, estavam nas paredes. Mas não eram recortes vagabundos de revistas masculinas. Foram fotos tiradas por profissionais especialmente para combinar com o espaço que eles montaram e colocadas em molduras elegantes de artistas famosos. Ao pé dos retratos, estavam as dedicatórias das retratadas para os três rapazes. Luca também tinha alguns daqueles no quarto que dividia com um babaca qualquer.

–- Então, está pronto para encarar o mundo novamente? — zombou Luca.

–- Sim. Danem-se esses otários! Quero ver tirarem sarro de mim depois que esmagar algumas caras contra o chão!

Hank riu da ameaça do amigo. Os três eram sujeitos altos, Ren e Luca mediam 1,80m, e Hank, o mais alto, 1,90m. Eram também fortes, os músculos adquiridos nas muitas horas que faziam de academia. Aliás, ele e Luca só não estavam presentes na briga do colega com a tal garota porque estavam lutando boxe no clube naquela hora.

Por isso não entendia como Ren tinha apanhado tanto. E de uma garota! E de uma garota muito pequena, pelo que soube. Havia ficado bastante curioso para conhecer a tal Angel, mas todos na escola comentavam que não ela não era vista desde a briga. A novata não ia às aulas e nem frequentava qualquer outro lugar na Alpha. Nenhum dos clubes, academias de ginástica, bibliotecas, restaurantes ou outra das várias áreas, mesmo as externas, que a escola oferecia. Simplesmente havia sumido.

–- O que vai fazer quando encontrar ela de novo? — Luca perguntou entre divertido e curioso. — Quer dizer, se conseguir ver ela. Parece que a garota anda meio desaparecida.

–- Não sei.

Hank e Luca se entreolharam surpresos com a resposta.

Ren pegou o controle da enorme TV e ligou no jogo de basquete que estava passando. Percebendo o silêncio dos dois retrucou.

–- Durante esses dias aproveitei para iniciar as aulas de artes marciais, acho que vai ser algo bem útil. Mas não pretendo ataca-la diretamente. — Os olhos negros do rapaz brilharam de uma forma que assustou os colegas. — Bater naquela pequena megera não serviria de nada. Só pioraria as coisas. Não, eu pude pensar muito nesses dias e juntar algumas informações sobre ela graças a alguns contatos do meu pai. Eu tenho que bolar um plano que a faça ser humilhada e, com sorte, expulsa dessa escola!

Hank e Luca se entreolharam novamente. Eles só esperavam que o tal plano não terminasse com Ren apanhando ainda mais da garota.

***

{Payre}

–- Já passou tanto tempo! Quanto ainda teremos que esperar, Majestade? — havia impaciência naquela pergunta.

–- Não temos escolha além de esperar. Tudo já foi planejado há muito tempo. Ainda não deve ser o momento. Lembre-se das palavras: “Quando os quatro de Ashy estiverem reunidos, o de Erow que foi, voltará”.

As duas mulheres olharam novamente para o espelho de água, ansiosas pelo que viria. Muitos dependiam do desenrolar das vidas que observavam através daquele único canal com a Terra. Quase não havia tempo, mas o destino era caprichoso, assim como a vontade dos deuses.