Traços

Rony

– Acalme-se, Ronald!

A voz de Hermione chegou aos meus ouvidos, mas eu apenas sentei-me na poltrona por perto, juntando-me a Harry e a ela. Minhas mãos estavam fechadas em punho e eu olhava para a lareira, que deixava meu corpo quente. Eu não precisava disso, meu corpo já estava quente demais. De raiva.

– Você pede como se fosse fácil. – eu disse.

Hermione bufou e Harry pousou a mão na perna dela. Eu vi que ela ficou um pouco desconcertada com aquilo, mas ela não fez nenhum gesto para retirar a mão dele.

– Rony tem razão, Mione...

Ela arqueou as sobrancelhas, mas não respondeu nada, apenas pegou um livro e o abriu, cobrindo o rosto inteiro e ficando fora de cena. Apenas Hermione conseguia fazer isso, sumir para ler, estando no lugar. Era seu modo de falar que não ia discutir mais o assunto. Harry olhava para ela, mas voltou sua atenção para um pergaminho que estava escrito o primeiro esquema do jogo de Quadribol. Isso me fez lembrar daquela morena. Engoli em seco e me levantei.

– Aonde vai?

Harry me perguntou e eu cocei a cabeça. Era uma boa pergunta. Eu precisava pensar um pouco, ficar sozinho.

– Tomar um banho.

Ele assentiu e voltou sua atenção para o pergaminho, Hermione ainda lia e não se pronunciou. Eu saí pelo retrato da Mulher Gorda. Já estava tarde, mas eu era monitor, tinha aval para andar pelo castelo de Hogwarts até certo horário. Os corredores estavam vazios.

Caminhei em direção ao banheiro dos monitores, o barulho dos meus passos era o único som presente na escola. Avistando a porta preta e grande, abri sem pestanejar e entrei no banheiro. Vazio. Respirei aliviado, me lembrando de que havia deixado a moeda dentro do manto da escola, que ficou na poltrona de frente para a lareira.

E se tivesse alguma mulher dentro do banheiro?

Eu estava ficando distraído. Realmente precisava de um banho para relaxar e pensar na merda do dia que eu tive.

Abri as diversas torneiras e as águas saíram coloridas, ficando transparente ao chegar à banheira de tamanho anormal. A espuma foi se formando nas bordas e bolhas coloridas saíam. Respirei fundo e comecei a desabotoar a blusa. Retirei toda a roupa e entrei na água quente.

Meu corpo relaxou imediatamente ao contato. Apenas a luz da lua penetrava pela vidraça do banheiro, que ficava ao lado da banheira. Pousei minha cabeça no encosto e fechei meus olhos, concentrando-me em continuar relaxado e calmo.

Mas no momento que repassei meu dia na cabeça, pensei seriamente em desistir do banho e procurar as masmorras para estrangular Pansy Parkinson.

Eu iria enfrentar uma detenção no dia seguinte por causa da garota. Uma detenção de Snape. Eu preferia um Avada Kedrava no meio do peito a ter que aguentar detenções com Snape. Tinha certeza de que o professor no mínimo nos colocaria para limpar o estoque da escola, ou ficaríamos espremendo vermes a noite inteira. Isso se ele não pedisse ajuda para Flith, aí sim a desgraça seria total.

Bufei de ódio e soquei a água. Os respingos caíram no meu olho e eu xinguei mentalmente a garota da Sonserina.

O rosto de Parkinson apareceu na minha mente. Os cabelos pretos e extremamente lisos iam à altura dos ombros. A franja era lisa também. Eu tive tempo suficiente para decorar seu cabelo no dia em que ela riu da minha cara, no teste de Quadribol. Sua risada ainda retumbava na minha cabeça. Uma risada de deboche, a mesma risada que eu escutei a vida toda, vindo de várias pessoas. A começar por Draco Malfoy.

Por mim, os dois poderiam se dar as mãos e irem para Azkaban para serem beijados por Dementadores.

O que Parkinson ganhava com tudo aquilo? Com certeza o fato de eu ser melhor amigo de Harry, que era o ser mais odiado por sonserinos, iria influenciar na sua vontade de me azarar. Mas tanto assim? A garota quase enfartou na aula de Poções por causa de um maldito ingrediente.

Eu tinha certeza de que se tivesse sido um sonserino a pegar o último, ela daria um jeito.

Passei a mão pelo cabelo molhado, colocando-o para trás quando algo me chamou a atenção. Meu braço estava com marcas leves de unhadas. Olhei mais de perto e me lembrei da responsável. Parkinson havia apertado meu braço, tentando inutilmente me causar dor e fazer com que eu soltasse o ingrediente.

Mas ela não me causou dor. Pensando melhor, pelo contrário, eu havia gostado muito da sensação de unhas femininas enterradas nos meus braços. Unhas grandes. As unhas dela.

Sobressaltei-me ao pensar na sonserina daquela maneira. Relembrando da sensação de suas unhas cravadas na minha pele e do seu perfume doce no dia do teste para o time, meu corpo reagiu da pior maneira possível.

Engoli em seco tentando voltar meus pensamentos para outra coisa. Nas aulas e deveres para o dia seguinte. Nos N.I.E.M’s. Até na ascensão de Você-Sabe-Quem. Mas as imagens da garota segurando meu braço e me olhando com fúria nos olhos não conseguiam sair da minha cabeça. Os olhos negros, a pele branca, e quente... eu havia sentido no momento que segurei-a pelo braço com raiva. Sua pele era como seda ao toque.

Pare com isso. Você não quer pensar em Parkinson desse jeito.

Meu corpo não estava me ajudando. O simples pensamento de sua mão em torno do meu braço me fez arrepiar e ficar duro. Meus pensamentos não me obedeciam e colocavam imagens na minha cabeça que eu tinha certeza que se tivesse são, eu não iria pensar. Será que a sensação de sua mão em torno de outra coisa seria tão boa também?

Balancei a cabeça e saí rapidamente da banheira. O ar gelado passou pelo meu corpo, ajudando a melhorar minha situação. Se eu quisesse voltar como uma pessoa normal para o dormitório. Caminhei em direção ao armário dos monitores. Procurei uma porta trancada com um cadeado mágico, meu nome gravado no objeto, indicando-me que a porta era minha.

Disse a senha e o cadeado se abriu. Peguei minha muda de roupa e vesti, sacudindo os cabelos e calçando os sapatos. Espreguicei. Eu estava mais relaxado, em termos. As reações do meu corpo foram inquietantes demais. Dei de ombros e abri a porta do banheiro, saindo pelo corredor ermo de Hogwarts.

[...]

– Você demorou.

Harry já estava de pijama, o pergaminho aberto com as táticas e jogadas de Quadribol ainda estava na sua frente, mas já ficara mais rabiscado. Os pontinhos corriam pelo pergaminho e setas saíam dos pingos, indicando as jogadas que ele havia pensado. Eu olhei para meu amigo e dei de ombros.

– Queria relaxar um pouco. – esclareci.

Ele sorriu para mim e se levantou, coçando os cabelos e bagunçando-os mais ainda. Enrolou o pergaminho e fez um gesto para eu acompanhá-lo.

– Vamos, amanhã teremos um dia cheio. Especialmente você.

Concordei com um gesto de cabeça e subi as escadas, seguindo-o. Harry se afundou na cama e desejou boa noite. Eu respondi e fechei os olhos, adormecendo no mesmo momento.

[...]

Pansy

– ... Quadribol.

A palavra me chamou a atenção na hora do café da manhã. Os meninos estavam reunidos em circulo e conversavam entusiasmados sobre o primeiro jogo do campeonato de Quadribol. Eu permaneci calada, mas escutava com cautela e tentava memorizar qualquer informação adicional. Draco gesticulava muito e Nott não piscava. Por que um simples jogo fascinava tanto os homens?

– O primeiro jogo será da Grifinória contra Corvinal. O time de Potter está forte, mas acho que se nós azararmos da maneira correta, aquele ruivo idiota vai tremer e pode ficar desorientado.

A menção do ruivo me fez dedicar mais da minha atenção à conversa. Eu agora olhava para o grupo descaradamente. Nott acenou com a cabeça, mas Blaise o interrompeu.

– Como vamos fazer isso, Draco?

Draco sorriu.

– Pensaremos nisso à noite. O Weasley fica abalado com pouca coisa.

Draco deu de ombros, Blaise e Nott riram. Continuaram a comer. Eu suspirei e corri meus olhos pelo Salão Principal. Os alunos comiam e conversavam alegremente, fazendo gestos e cumprimentando uns aos outros com sorrisos.

Automaticamente meus olhos pousaram na mesa da Grifinória, então eu vi. O trio ternura, como sempre juntos. Potter mostrava um pergaminho para o ruivo, a sangue-ruim lia um livro gigantesco e nem parecia saber o que se passava ao seu redor. Continuei a fitar a dupla. Potter olhava do pergaminho para o melhor amigo, mas intercalava com olhares para sua amiga. Sorri maldosamente. É Weasley, essa batalha você já perdeu há muito tempo.

– Ei! Pansy!

A voz de Draco tirou a minha atenção do trio. Eu olhei para o loiro e ele sorria. Arqueei as sobrancelhas para ele desembuchar de uma vez o que queria. Minha paciência pelo garoto ainda não havia voltado.

– O que acha que Snape pedirá na detenção hoje?

O suco de abóbora parou na minha garganta e eu quase engasguei. Eu havia me esquecido da detenção de hoje. Merda, será que teria algum jeito de fugir daquilo? Olhei com fúria para Draco e dei de ombros.

– Não me importa.

Nott sorriu e deu uma cotovelada em Blaise, piscando para o menino. Eu fitei os dois, questionando-os com olhos. Blaise se virou para mim.

– Você deu um belo show na última aula de Poções.

Reprimi um palavrão e senti meu corpo esquentar, mas não perdi meu tempo respondendo. As aulas já iam começar e eu não gostava de chegar atrasada. Apenas olhei para Blaise, pegando minha mochila e jogando-a nas costas para subir para a maldita aula de Adivinhação.

Os alunos já saíam de suas respectivas mesas e caminhavam para os corredores da escola. Eu abaixei minha cabeça e comecei a andar rapidamente. Se eu demorasse mais dois minutos no salão, voltaria para lançar uma Cruciatus em Blaise, Draco e Nott.

O que estava acontecendo com aqueles meninos para ficarem tão chatos?

Os alunos se amontoavam na entrada e eu andava devagar agora, quando um trio me chamou a atenção. Eu conseguia ver apenas as costas, mas era um trio inconfundível. O primeiro tinha cabelos pretos e bagunçados, a outra era mais baixa e possuía cabelos cheios e castanhos. Mas o que realmente prendeu minha atenção foi o terceiro integrante. Tinha cabelos ruivos e lisos, era o mais alto, tinha as costas largas.

Eu estava bem perto deles, mas minha presença passou despercebida. De repente o trio parou e eu quase bati nas costas do ruivo. Imediatamente seu cheiro chegou ao meu nariz. Era cítrico, uma mistura perfeita. Era delicioso.

Saí do meu estado de torpor quando eles pegaram o corredor da esquerda, indo para a sala de Firenze. Engoli em seco e me xinguei devido aos meus pensamentos.

Respirei fundo e apressei o passo, indo para a primeira aula do dia.

[...]

Nove horas da noite. Finalmente o dia havia acabado. Saí exausta da última aula e fui em direção ao Salão Principal, faminta. Estava cheio, como de costume, procurei meu lugar habitual e me sentei de frente para os meninos. Crabbe conversava com Goyle sobre algo que eu não entendi. Enchi meu prato rapidamente e comecei a comer, rezando para que meu estômago se enchesse com facilidade, para poder subir e tomar um banho quente, me enfiar debaixo do meu cobertor macio, e dormir.

Eu estava comendo, quando uma sombra um pouco assustadora chamou minha atenção. Virei-me para o lado e Snape estava parado de frente para mim, segurava a varinha e me olhava com um pouco de impaciência. Engoli o resto da torta que havia parado na minha garganta. Eu sabia por que o professor estava ali. De repente minha detenção aflorou na minha mente e eu me lembrei de que não iria para cama tão cedo.

– Espero que não tenha se esquecido da sua detenção, Parkinson.

Eu acenei para o professor e ele deu meia volta, fazendo a capa negra voar.

– Te espero na minha sala. Você tem vinte minutos.

E saiu. Eu quase chorei de raiva. Eu não teria meu momento de paz depois de um dia cheio. Meus olhos pousaram nos meninos à minha frente. Olhavam-me com indiferença e continuavam a comer e conversar. Sortudos. Depois de tudo ainda iriam para o dormitório e ficariam em frente a uma lareira quente.

Bom, eu não gostaria de me atrasar para uma detenção com Snape. Já bastava o professor bravo, ele furioso não seria algo agradável. Terminei o jantar rapidamente e me despedi dos garotos, jogando minha mochila nas costas e correndo para a sala de Snape.

Demorei cerca de dez minutos para chegar ao meu destino, quando avistei a porta conhecida da aula de Poções. Diminui os passos ao avistar o garoto responsável pela detenção. O Weasley já havia chegado, esperava de frente para a porta, as costas largas pousavam na parede, assim como a cabeça, as pernas estavam cruzadas. Permanecia de olhos fechados e uma mão segurava a alça da mochila no ombro, enquanto a outra estava dentro do bolso.

Eu tive tempo suficiente para decorar cada centímetro do corpo do ruivo. E não achei isso ruim. As roupas eram de segunda mão, eu sabia que ele era pobre e usava as roupas dos irmãos mais velhos. Para falar a verdade, toda Hogwarts sabia disso. Era ridículo.

A calça jeans surrada deixava a desejar, mas as coxas grossas por debaixo do pano me chamaram a atenção. Eu amava coxas grossas. Infelizmente essa era uma parte do corpo do homem que me agradava, e ao avistar uma do jeito que eu gostava, eu não conseguia desviar meus olhos.

O barulho da porta se abrindo fez com que eu me assustasse e o ruivo abrisse os olhos, se dando conta da minha presença pela primeira vez. Engoli em seco e tentei apagar da minha mente que estava admirando as pernas de Ronald Weasley.

Ele me olhou profundamente, e eu pude perceber os resquícios de fúria nos poços azuis, mas havia algo novo que eu não consegui identificar.

Snape pigarreou e entrou na sala novamente. Eu segui o professor e entrei, o ruivo andava atrás de mim. Ficamos de frente para a escrivaninha e Snape fechou a porta.

– O comportamento dos dois ontem na minha aula foi lastimável. E espero que isso não aconteça novamente. Eu poderia tirar mais pontos das casas, contudo, acho que o que preparei para os dois já será de bom tamanho.

Arrepiei-me com as palavras de Snape. Eu não conseguia escutar nada além da respiração pesada do ruivo ao meu lado. De repente o professor fez um gesto com a varinha e nossas mochilas desapareceram, nossas varinhas voaram para a mão dele. Snape se levantou.

– Vocês terão três horas para limpar o estoque dos alunos. Sem varinhas, sem mágica.

Ele caminhou em direção à porta e a abriu.

– Além disso, quero um relatório de todos os ingredientes que estão acabando. Não tentem sair, a porta estará lacrada. Vejo vocês em três horas.

E saiu, deixando-me sozinha com o ruivo pela primeira vez.

Eu olhei para o garoto que estava ao meu lado. Ele era muito maior que eu, mas isso não me intimidava. Seus olhos azuis me fitavam com intensidade, os cabelos ruivos jogados na testa e bagunçados faziam um contraste perfeito. Eu desci meus olhos pelo corpo dele, seu peito, mesmo tampado por um grosso suéter, marcava a roupa e mostrava que ele tinha um corpo forte. Subia e descia como se ele estivesse com dificuldade para respirar.

Olhei novamente seus olhos. Ele permanecia me olhando e trancou o maxilar.

Engoli em seco.