Deslizes
15 Transtorno
Transtorno
Pansy
Eu olhava para os flocos de neve que caíam do lado de fora da minha casa. Estranhamente, pela primeira vez desde que tinha começado a estudar em Hogwarts, eu estava com saudade do lugar. As paredes de pedra do castelo, no momento, pareciam muito mais convidativas e calorosas do que as paredes de cor clara da minha casa. Respirei fundo. Definitivamente o natal não era mais o mesmo.
Um pio de uma coruja me despertou dos meus pensamentos e eu me virei. A coruja branca me fitava com seus olhos arregalados, um pergaminho úmido estava aberto perto das patinhas do animal, e ela me olhava com carinho. Eu tinha certeza de que a coruja não era dele. Uma coruja tão peculiar custaria bons galeões. Galeões que a família Weasley não possuía.
Eu passei os dedos nas penas da ave e ela me bicou levemente, como se estivesse agradecendo o carinho. Havia um pouco de pão em um pratinho para ela, assim como água. A coruja havia chegado muito molhada ao meu quarto, e eu estava só esperando a neve melhorar para abrir a janela e soltá-la novamente.
– Deve estar louca para voltar para seu dono, não é?
Ela piou mais baixinho e fechou os olhos, se encolhendo e dizendo para mim por meio do gesto que estava confortável onde estava. Eu sorri e olhei novamente o pergaminho úmido. Mesmo com a neve, a mensagem havia chegado intacta. As letras da carta me diziam que ele havia a escrito rapidamente, mas de forma decidida.
Eu peguei o pedaço de pergaminho e tornei a ler a carta, procurando respostas nas entrelinhas pela vigésima vez.
Pansy,
Como você está? Você demora a responder as minhas cartas e eu me preocupo com você. A cada dia que passa me sinto um idiota escrevendo isso, mas você sabe que eu sou insistente, e conhecendo você do jeito que conheço, você deve escrever em centenas de pergaminhos e depois escolher a carta que vai mandar, sem contar as horas intermináveis que fica pensando se vai responder ou não...
Eu sorri automaticamente com essa parte. Por mais que eu quisesse escrever para ele e responder suas cartas, eu havia demorado cerca de dois dias para decidir mandar a primeira. Como o Weasley poderia me conhecer assim em um espaço tão curto de tempo? Eu olhei novamente o pergaminho, ainda sorrindo, continuando a leitura.
Por aqui está tudo bem, tirando meus irmãos que estão enlouquecendo minha mãe. Você sabe... minha família não é uma família normal, e o número de irmãos que tenho poderia assustar qualquer um. Mas minha casa sempre fica cheia nessa época, e eu até gosto... me distrai um pouco dos meus problemas...
Quanto a isso, você sabe que não posso falar muito sobre o assunto. Mas o ambiente está tenso, e isso é algo anormal para minha casa em uma época igual ao natal. Eu não posso negar que uma guerra está se formando lá fora, e arrisco dizer que você já sabe do que estou falando.
Eu temo pela minha família, Pansy. Felizmente ela tomou o lado sensato, mas não o lado mais fácil. Eu sei que muitos bruxos que você conhece acham que somos vergonhas para os sangues-puro, mas eu não me arrependo de lutar por trouxas. São seres humanos, assim como minha família. E ela pode ser pobre, lutar por sangue-ruins e ser anormalmente grande, mas são pessoas boas.
Espero sua carta.
E estou com saudades...
Rony W.
Eu li inúmeras vezes a penúltima linha da carta. Eu sabia perfeitamente que o ruivo não iria colocar algo assim se não estivesse sentindo de verdade, e tentei ignorar a sensação de felicidade e torpor que consumiu cada célula do meu corpo quando eu li tais palavras. Era algo bobo, mas era algo. E ele estava com saudades de mim...
Mas o restante da carta me preocupava muito. Eu temia por ele, e mesmo que eu não conhecesse sua família, eu temia por ela também. Eu não era mais ingênua a ponto de negar que a família Weasley era formada de pessoas boas. Ele pertencia a ela, e ver que ele estava preocupado, me deixou mais preocupada ainda.
Respirei fundo e peguei a varinha, apontando para o pergaminho e murmurando o feitiço para que a tinta sumisse. Havia feito isso com todas as cartas, depois as colocava em uma caixinha dourada e selava com um feitiço que apenas eu conseguiria desfazer. Conhecendo minha mãe tão bem, isso era a atitude mais inteligente que eu poderia tomar.
A neve estava mais fraca. Eu cutuquei a coruja branca e ela fez um movimento engraçado com a cabeça, abrindo as asas grandes como se estivesse se espreguiçando. Eu abri a janela, e ela deu uma última bicada no pedaço de pão antes de voar e se mesclar à neve do ambiente. Não demorou mais de cinco segundos para a ave sumir em meio aos flocos. Eu fechei a janela e virei-me, caminhando para fora do quarto.
Ao descer as escadas, eu percebi que meu tio travava uma conversa séria com meus pais, mas as vozes carregadas cessaram no momento em que apareci na sala. Minha mãe se levantou, sendo seguida por meu pai e pelo meu tio. Os outros familiares já estavam na mesa.
– Estávamos só esperando por você, querida.
Eu sorri e caminhei em direção à mesa, onde meus primos novos estavam olhando a ceia de natal com olhos famintos, mas não podiam encostar em nada, até que o restante da família estivesse reunida. Eu me sentei ao lado da minha mãe, enquanto meu tio se sentou ao lado da sua mulher.
No mesmo momento, os pratos foram preenchidos com comida, enquanto o monte que estava nas travessas diminuía. As conversas eram animadas e eu poderia até estar totalmente feliz, se não estivesse sentindo tanto a falta de uma pessoa que antes ocupava o lugar que eu estava sentada.
Aonde quer que minha avó estivesse, eu tinha certeza de que ela estaria feliz em ver a família reunida.
[...]
A família inteira estava satisfeita, meus primos já estavam dormindo no sofá. Meninos novos nunca aguentavam ficar acordados até as horas mais tardes. Minha mãe olhava para mim de cinco em cinco minutos e eu já estava ficando nervosa com isso. Vindo dela, esse tipo de atitude não era frequente.
– Espero que tome a decisão certa, Stephen.
Meu tio dizia a frase para meu pai no mesmo momento que enxugava o bigode com o guardanapo nobre de pano. Ele voltou a pousá-lo no colo e minha mãe o fitava, o repreendendo. Algo me dizia que não era para eu estar presente no momento. Isso só fez com que minha vontade de ficar aumentasse.
– Esse não é o momento certo, Connor.
Ela disse, seus olhos negros fuzilando o irmão. Meu tio deu de ombros. A sua esposa permanecia com os olhos focados no prato já vazio e limpo.
– Por que não, Sophia? Pansy já não é mais a criança que foi um dia.
– O que está acontecendo?
Perguntei em um surto de curiosidade. Por mais que eu tentasse negar, meu sexto sentido já gritava para mim que o assunto não era algo bom, os olhares dos meus pais eram a confirmação disso.
– Nada, filha.
– Já passou da hora de seu pai tomar uma decisão, Pansy!
Com isso, meu tio levantou a manga esquerda de sua blusa. O que eu vi me deixou em choque. A Marca Negra recém feita estava gravada para sempre na pele dele. Ele havia tomado a decisão. Meu tio era oficialmente um Comensal da Morte. E juntando as peças da conversa, ele estava pressionando meu pai para tomar a mesma atitude. De repente meu estômago embrulhou e a comida ingerida começou a querer voltar.
Eu empurrei bruscamente a cadeira, jogando o guardanapo na mesa com raiva.
– Com licença.
Corri diretamente para meu quarto, mas antes que eu pudesse alcançar a porta, minha mãe me puxou pelo ombro.
– Onde está a sua educação, Pansy?
Ela me fuzilava com o olhar e eu tive vontade de bater a porta na sua cara, mas infelizmente ela era minha mãe.
– Educação?
– Nunca mais saia da mesa desse jeito.
Eu abri a boca para falar algo, mas a fechei. A indignação fez com que ela se fechasse. Como minha mãe poderia estar preocupada com algo tão supérfluo como a educação em uma mesa depois de ter escutado meu tio falar abertamente sobre Comensais da Morte?
– Filha... eu sei o que você está pensando... mas seu pai está vivendo uma fase ruim... é muita pressão em cima dele...
– Ele é forte, sempre foi. Você mais do que eu sabe disso.
Cuspi as palavras e minha mãe passou as mãos nos cabelos idênticos aos meus.
– Eu não sei querida... estou preocupada com o rumo da guerra e...
Eu peguei os dois ombros da minha mãe, não a deixando concluir o pensamento tolo que estava tendo.
– Você já se esqueceu da vovó?
– Eu nunca vou me esquecer dela!
– PARECE QUE JÁ SE ESQUECEU.
Minha voz saiu com fúria, e eu sabia que todos que estavam lá embaixo haviam escutado, mas eu realmente não estava muito preocupada com o fato. Eu bati a porta do meu quarto e a tranquei, selando com um feitiço.
Minha mãe não continuou a conversa, apenas escutei o som dos seus passos diminuir à medida que ela ia se distanciando do corredor.
Respirei fundo para tentar me acalmar. Meu corpo inteiro tremia devido à força que eu estava fazendo para não chorar. Tinha certeza de que se minha avó estivesse viva, estaria muito chateada com a notícia de que seu filho havia se transformado em um Comensal da Morte, para dizer o mínimo. Ela estaria dez vezes pior do que eu estava.
Eu olhei para a escrivaninha, alguns pergaminhos estavam jogados displicentemente pela madeira. Alguns eram rascunhos de cartas, outros eram apenas rabiscos. Caminhei em direção a ela e sentei-me na cadeira, começando a escrever uma carta que seria enorme. Eu precisava dizer algo para alguém, mas era apenas nele que eu pensava. Eu precisava do conforto dele.
E escrever uma carta era algo idiota demais, no momento.
Mesmo que eu a mandasse no exato segundo, demoraria pelo menos um dia para eu receber uma resposta; se eu recebesse. Não, o que eu precisava não era da angústia da espera. Eu precisava dele. Não de suas palavras, mas dele.
Amassei o pergaminho e joguei-o no chão. Olhei para fora. A neve estava densa, mas isso não seria problema. Eu peguei um casaco bem quente do meu armário e abri a janela. Saltei, caindo no telhado do primeiro andar. A altura era pequena, cerca de um metro. Eu precisava alcançar certo ponto do quintal para poder aparatar.
Corri diretamente para a grade que cercava a casa, o pedacinho de pergaminho com o endereço dele entre meus dedos. No momento que eu cheguei ao limite, eu fechei os olhos e esperei a sensação familiar de um gancho me puxando.
Quando abri os olhos, a fitei pela primeira vez.
Não era grande, pelo contrário, ela parecia pequena demais para acomodar a família Weasley inteira, sem contar os inúmeros convidados que poderiam estar ceando no momento. Mas algo me dizia que a casa estranha era mais aconchegante do que a minha casa luxuosa.
Eu dei dois passos à frente, entrando oficialmente no limite d’A Toca.
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