Deslizes
16 Conforto
Conforto
Rony
Hermione conversava animada com minha mãe enquanto a ajudava a colocar os pratos na mesa, Harry estava sentado no sofá, de frente para a lareira, conversando com Lupin. Eu conseguia escutar os gritos de Ginny de longe, e conhecendo minha família como conhecia, poderia afirmar que Fred e George eram os responsáveis.
Apenas Percy não estava presente na ceia, e minha mãe não conseguiu deixar de suspirar quando viu seu lugar sendo ocupado por Tonks. Todos começaram a comer, mas o ambiente n’A Toca estava longe de ser igual ao de anos atrás.
Parecia que meu pai havia envelhecido anos, mesmo que tivesse passado apenas dois desde que Você-Sabe-Quem voltara. Minha mãe ficava contente em ver a família reunida, e sempre quando alguém pedia mais comida, seu sorriso aumentava, mas não era a mesma Molly que todos conheciam e estavam acostumados.
Harry agora ria de Tonks, e isso era algo raro de ver. Lupin conversava com Hermione e Ginny, e meus irmãos estavam aos cochichos, o que não era um bom sinal. Nunca.
A família estava reunida, e mesmo que sentíssemos falta de Sirius e Percy, a ceia foi animada e reconfortante. Era bom estar em casa, enfim.
[...]
Harry discutia algo com Hermione, mas logo se calaram, Lupin e Tonks entraram na sala. Eu estava de pé, observando os flocos de neves caírem através do vidro. A noite estava fria, e a lareira acesa teve que ser ajudada por magia para aquecer de forma satisfatória o cômodo inteiro.
Mesmo que eu estivesse presente na sala, não conseguia dedicar minha atenção à conversa, meus pensamentos estavam longe.
Foi quando algo chamou a minha atenção.
Um vulto preto se destacava da paisagem branca que eu fitava. Franzi o cenho; se eu não soubesse das proteções que colocaram n’A Toca, eu acharia que era um Comensal da Morte, ou algo parecido. Mas não era.
Quem quisesse entrar, teria que saber o endereço correto e passar pela barra invisível de proteção que havia em torno do local. Mas apenas uma pessoa com boas intenções conseguiria passar. Cortesia de Dumbledore.
Eu não alarmei as pessoas, e parecia que ninguém da minha família havia percebido o vulto que estava parado do lado de fora. Todos conversavam, sendo divididos entre a cozinha espaçosa e a sala minúscula, mas aconchegante.
– Rony?
Harry me chamou e eu enfiei as mãos no bolso, tentando disfarçar meu súbito interesse pelo outro lado da janela. Assustei-me quando me dei conta que não tinha mais ninguém na sala. Mas ele percebeu, e eu não me surpreendi com isso. Harry me conhecia melhor que qualquer um naquela casa. Ele se aproximou de mim e semicerrou os olhos, para depois me olhar.
– Sabe quem é?
Eu neguei com a cabeça, mas Harry parecia divertido. Eu continuei fitando-o e ele se afastou da janela.
– É ela, Rony.
Foi minha vez de olhar com dificuldade o outro lado da janela. Não era possível que Pansy estava viva ainda, contando o tanto de neve que desabava do lado de fora e o frio que estava fazendo.
– Vai deixá-la morrer congelada?
Harry perguntou, irônico. Eu engoli em seco, olhando para a porta perigosamente perto da cozinha. Harry abriu a janela, aproveitando que felizmente estávamos sozinhos na sala. O gelo entrou e o vento cortou minha pele.
– Vá antes que sua mãe pergunte onde você está.
Eu não objetei. Pulei de uma vez, plantando meus pés na neve fofa que estava acumulada no chão. Harry fechou a janela, deixando uma pequena abertura para que eu pudesse abri-la novamente ao voltar. Ele não ficou olhando, apenas saiu para nos dar privacidade, mesmo que ela estivesse longe.
Tive que andar bons passos até chegar onde o vulto preto estava. Era ela. Pansy Parkinson estava no quintal da minha casa, em meio a uma tempestade de neve.
Aproximei-me com cautela. Ela estava vestida com um longo casaco preto, que ia até os pés. Esse estava fechado. Um cachecol verde sonserino estava enrolado em seu pescoço, e ela estava com uma touca de veludo negro. O rosto estava mais pálido do que o normal, e os lábios tremiam.
Mesmo que eu não entendesse o motivo de sua visita, eu não pude deixar de notar que ela estava linda.
[...]
Pansy
O ruivo estava me observando. Por sorte o barulho do vento estava alto e ele não conseguiria escutar meu coração acelerado. Estava frio, mas eu estava aconchegante na minha roupa quente. Meus lábios tremiam devido ao nervosismo.
Já ele parecia estar sentindo muito frio.
O Weasley estava com uma calça jeans diferente. Essa era preta, e parecia nova. Um presente de natal? O suéter era o mesmo, mas ele parecia maior, como se estivesse usando muitas blusas por debaixo da primeira.
Meus olhos deixaram o corpo dele e fitaram a pequena casa estranha que estava atrás do grifinório. Era natal, e eu podia ver as luzes acesas, algumas sombras passando pela janela. Minha curiosidade estava alta, mas eu realmente não sabia o motivo de ter ido para a casa dele.
Assustei-me quando senti sua mão forte pegar o meu braço direito e me conduzir para uma árvore que estava por perto. Os olhos azuis escuros me fitavam com intensidade, e eu tive que desviar o contato. Meu rosto queimava e eu mordi o lábio.
– O que está fazendo aqui, Pansy?
Essa era a mesma pergunta que eu me fazia. Por mais que eu pensasse em um motivo, eu não conseguia chegar a um satisfatório. Dei de ombros, remexendo na neve com o pé. Era natal, e eu estava tomando o tempo do Weasley com sua família. Tempo esse que era muito importante, como ele fazia questão de frisar nas cartas.
E eu não tinha nenhum presente. Eu não tinha nada para dar ao ruivo, apenas minhas palavras.
– Eu queria te ver.
Era uma verdade. Mas não era uma verdade completa. Eu sentia falta dele, e apenas olhar em seus olhos azuis já estava me deixando mais tranquila.
Mas parecia que essa verdade não convencera o ruivo.
Ele continuou me olhando e eu desviei novamente os olhos para a neve. Escutei passos e meu coração martelou quando vi que ele se aproximara. O peito forte subia e descia de acordo com a respiração calma, algumas nuvens de fumaça saíam de sua boca quando ele a abriu.
– Eu não acredito.
Travei meu maxilar, mas não consegui olhá-lo nos olhos novamente.
– Eu estou falando a verdade.
– O que aconteceu?
O Weasley estava me pressionando. Por mais que eu quisesse mentir, eu nunca conseguiria enganar completamente o ruivo. Se eu ficasse quieta igual estava, seria a confirmação de que ele estava certo. Eu dei dois passos em direção a ele, terminando com a distância entre a gente.
Minhas mãos subiram pelo seu peito forte, sentindo a textura macia do seu suéter. Eu não o olhei, minhas mãos estavam em seu pescoço quando eu abri a boca.
– Já disse que eu queria te ver.
Fechei os olhos, meus dedos pegaram automaticamente os cabelos sedosos e vermelhos, afundando nos fios enquanto minha boca capturava a sua com calma, sentindo a maciez de sua pele, a temperatura elevada do local.
Ele gemeu e permaneceu estático, mas depois de alguns segundos com os lábios pressionados, o ruivo capturou minha cintura com força enquanto abria a boca para que eu pudesse explorá-la. O gosto era bom... doce...
Sua mão forte subiu pelas minhas costas, e mesmo que eu estivesse vestindo um casaco pesado, eu pude sentir a intensidade de seu toque; a necessidade de senti-lo tornou-se maior quando nossas línguas se encontraram, eu colei meu corpo ao dele, e pela primeira vez ele pôde sentir meu coração bater fortemente. Por causa dele.
O ruivo diminuiu a pressão dos lábios, enquanto me deixava aos poucos. Eu suspirei, ainda com os olhos fechados, tentando gravar cada segundo do beijo. Quando eu voltasse para aquele inferno, eu precisaria de sentimentos assim.
Pensar no momento que eu estava vivendo na minha família fez meu corpo enrijecer, e eu não consegui evitar a vontade súbita de abrir os olhos para procurar os deles.
As orbes azuis escuras me fitaram com intensidade, e no momento que ele apertou minha bochecha, demonstrando com esse gesto característico que sabia que algo estava errado, eu desabei.
As lágrimas desceram com facilidade, molhando meu rosto e meu cachecol. O Weasley permaneceu quieto, ainda me fitando. Sem pensar muito nas consequências, eu o abracei, afundando meu rosto no seu suéter macio. Senti seus braços me envolverem, ele depositou um beijo suave na minha testa, mas esperou para que eu estivesse pronta.
Quando me acalmei, eu respirei fundo e o apertei mais um pouco. Com um dedo no meu queixo, ele fez uma pequena força para que eu o olhasse.
– O que aconteceu?
Não adiantaria omitir nada dele. Ele sempre conseguiria me desarmar, retirar meu escudo que eu insistia em erguer para que ninguém me visse em momentos de vulnerabilidade.
Com um suspiro, eu fitei a neve, e comecei a falar sobre tudo o que havia se passado comigo no natal.
[...]
Rony
Ela tremia nos meus braços, e eu tive que me segurar para não beijá-la novamente. Eu escutei tudo com calma, não a interrompendo, sabendo que se eu fizesse isso, ela nunca continuaria a história completa.
Não precisei perguntar como ela estava. Os olhos que eram tão negros e frios, agora estavam vermelhos e fracos. Os lábios que estavam acostumados a distribuir sorrisos irônicos, agora estavam trêmulos. Pansy nunca estaria tão vulnerável como estava agora.
Depois de alguns minutos em silêncio, eu consegui raciocinar satisfatoriamente.
– Você quer entrar? Minha família adoraria receber mais uma convidada...
Pansy enrijeceu. Os olhos se desviaram para minha casa, para depois voltarem a fitar o chão. Ela se afastou, mas minha mão ainda segurava sua cintura, fazendo uma força involuntária, como se eu temesse que ela sumisse.
– Eu... eu preciso ir. Não posso ficar muito tempo... minha mãe acha que eu ainda estou no quarto...
Ela se afastou ainda mais e logo eu perdi seu toque. Os olhos negros me fitaram, um brilho fora do normal estava presente nas orbes pretas, e eu não sabia dizer o motivo.
Ela se aproximou, mas depois desistiu. Balbuciou algo sem sentido e se virou, caminhando para fora do escudo protetor.
– Pansy?
A sonserina tornou a se virar, fazendo os cabelos curtos que não estavam tampados pela touca voarem pelo rosto.
– Fique calma... vai dar tudo certo.
Não era muito, mas era tudo o que eu poderia fazer por ela no momento.
Pansy sorriu minimamente e desapareceu, aparatando.
Eu suspirei, dando-me conta de que sentia um frio fora do normal e dos padrões saudáveis. Sacudi um pouco da neve que se acumulara no cabelo e corri em direção à minha casa.
Abri a janela com cuidado, entrando novamente na sala. No momento que fechei o vidro, o calor familiar percorreu meu corpo. Mas eu preferia estar com ela, no frio.
Olhei para a janela, fitando o espaço em branco que antes ela ocupava. Pude sentir uma presença atrás de mim, e não precisaria perguntar quem era.
– Como ela está?
Harry me perguntou e eu me virei para meu amigo.
– Mal. A guerra está afetando todo mundo, Harry.
Ele olhou para o chão, depois acenou com a cabeça para que eu o seguisse. Começamos a subir as escadas em direção ao dormitório. Eu só queria descansar. Apenas meu pai e minha mãe estavam acordados, conversando com Lupin e Tonks. Os outros já estavam dormindo.
– Daremos um jeito, Rony. Eu prometo.
Não respondi, apenas dei duas palminhas no ombro de Harry para que ele soubesse que eu confiava nele.
Entramos debaixo dos grossos cobertores e ele me desejou boa noite. Não demorou muito para que eu conseguisse escutar sua respiração pesada. Eu ainda fiquei acordado por alguns minutos, preocupado com Pansy, mas o cansaço venceu a batalha, e eu me entreguei ao sono com facilidade.
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