Testes

Rony

– Ei, Rony! Acorda!

A voz de Harry me despertou de um sonho estranho que eu estava tendo. Eu pisquei meus olhos algumas vezes para a imagem à minha frente tomar foco. Ele estava sentado na minha cama, já vestido.

– Se não acordar, juro que vou conjurar uma aranha e jogar em você.

Assustei-me brevemente com ameaça dele, mas depois voltei a relaxar meu corpo na cama macia e quente, puxando os cobertores em direção ao meu corpo novamente.

– Você não sabe conjurar uma aranha, Harry.

Senti as cobertas deixarem meu corpo e o frio me assaltar no momento em que disse minha conclusão. Abri os olhos novamente e olhei indignado para Harry. Não era possível que já estivesse de manhã, parecia que eu havia deitado há menos de dois segundos.

– Hoje são os testes para a vaga do time de Quadribol. Você não disse que tem vontade de ser goleiro?

A nova informação me pegou desprevenido. Eu abri os olhos completamente e me sentei na cama rapidamente, ficando tonto devido ao sono. Harry riu e jogou minhas roupas para mim.

– Mione já está nos esperando. Vamos, sabe que ela não gosta de esperar.

Bufei e xinguei algo incoerente, antes de me levantar da minha querida cama e espreguiçar, para sentir meus ossos se estalando. Harry não me esperou e desceu. Ele era ansioso demais, principalmente quando se tratava em contrariar Hermione.

Coloquei as roupas de qualquer jeito, passando as mãos pelos cabelos e pegando o manto, junto com a mochila, que pesava toneladas.

Desci as escadas do dormitório e os dois me olharam. Hermione passou os olhos por todo meu corpo e fechou a cara quando eu bocejei, desejando bom dia em meio a esse processo.

– Você está um lixo, Ronald.

Revirei os olhos, pedindo paciência para aguentar a falta de humor da garota. Ela estava ansiosa demais devidos aos N.I.E.M’s e eu e Harry que sofríamos com isso. Bom, mais eu do que Harry. Olhando para meu amigo, vi que ele estava melhor do que eu, a blusa enfiada para dentro da calça e o manto já jogado no corpo. Mas seus cabelos não estavam penteados. Qual era a diferença que Hermione tinha comigo, Merlin?

Joguei meu manto por cima do meu corpo, agradecendo mentalmente que os elfos domésticos tinham o colocado em um lugar quente durante a noite. Passei a alça da mochila nas minhas costas e segui Hermione e Harry, que já saíam pelo buraco do retrato da Mulher Gorda.

– Quais aulas vamos ter hoje?

Harry puxou um pedaço de papel amassado do bolso das vestes e olhou para o cronograma.

– Temos Defesa Contra as Artes das Trevas a manhã inteira.

Meu ânimo se elevou instantaneamente. Hermione andava rapidamente ao nosso lado. Chegamos ao Salão Principal, que estava cheio de estudantes conversando sobre assuntos diversos em voz alta. Meu estômago roncou quando eu vi a comida farta que já estava em cima da mesa.

Sentei-me ao lado de Neville, que conversava com minha irmã sobre Herbologia e algumas plantas que eu nem sabia que existiam. Harry e Hermione sentaram na minha frente, um ao lado do outro. Como sempre.

Eu peguei um pedaço grande do bolo que estava na minha frente e enchi meu copo de suco de abóbora. Hermione me olhava com a fisionomia séria.

– O que foi? – perguntei.

Alguns farelos de bolo saíram da minha boca e Harry riu, mas ela continuava com a mesma fisionomia.

– Como consegue comer tanto? – ela perguntou.

Eu dei de ombros e ela sorriu, revirando os olhos.

– Eu estou com fome. – respondi.

– E ele precisa se alimentar, Mione, os testes de Quadribol para o time da Grifinória vão ser hoje.

No momento que Harry citou o assunto Quadribol, os alunos interessados, incluindo minha irmã, para meu espanto, se aglomeraram em torno da gente. Perguntas cada vez mais entusiasmadas e em voz alta chegavam aos meus ouvidos. Hermione pegou um livro grosso de dentro da mochila. Eu consegui ver o título na capa de aparência antiga. Estudos Avançados no Preparo de Poções. Ela respirou impaciente, o abrindo para começar a ler.

Meu estômago começou a embrulhar, me deixando com ânsia de vômito e com uma sensação que me era muito familiar. A sensação que eu sempre sentia ao ficar nervoso por algo que eu iria passar.

Como eu me sairia no teste? E se eu passasse vergonha? Harry não poderia me ajudar... mesmo sendo capitão do time, seria desonestidade demais ele me escalar apenas por ser meu melhor amigo. E eu também não queria aquele tipo de caridade de ninguém.

Fred e George conseguiram entrar para o time, por que eu não conseguiria?

Hermione me olhou significamente, me dando um sorriso de cumplicidade e chegando perto de mim para eu poder ouvi-la através das vozes altas e gritadas fazendo perguntas.

– Você vai se sair bem, Rony.

Eu dei um sorriso desanimado para ela e larguei o pedaço de bolo no prato, bebendo o resto do suco de abóbora. Barulhos de asas chegaram aos meus ouvidos e eu olhei para cima. Hora do correio. A coruja da minha família pousou na minha frente com dois pergaminhos amassados e um pequeno pacote.

Eu peguei o primeiro e joguei-o para o lado, sabendo que seria O Profeta Diário falando algo inútil do paradeiro de Você-Sabe-Quem. Hermione o pegou e o abriu, correndo os olhos atentamente pelo pergaminho.

O outro pergaminho era mais escuro. Eu o abri e dentro havia um pequeno bilhete escrito com letras horríveis que me fez reconhecer o autor imediatamente.

“Para você beber depois dos testes. Não precisa agradecer, você precisará.”

Vindo de Fred, isso não era algo para me ajudar. Eu vinquei a testa ao procurar o pacote que era para estar na minha frente, mas Harry o pegou primeiro e já o abria, para retirar dali um pequeno frasco que continha um líquido rosa claro. Eu e Harry nos entreolhamos e demos de ombros para o suposto presente.

Uma risada abafada nos fez olhar para o lado.

Hermione tentava disfarçar, mas eu a perfurei com os olhos antes de perguntar.

– O que foi?

Ela me olhou, pedindo desculpas com os olhos e apontando para o frasco que estava na mão de Harry.

– Isso é uma Poção do Esquecimento, Rony.

Tranquei meu maxilar e xinguei Fred mentalmente, fazendo uma anotação mental para descontar a brincadeira no natal. Levantei-me da mesa rapidamente, meu humor saindo de cada parte de mim e abandonando meu corpo em um segundo. Harry olhou para o grupo de alunos da Grifinória.

– Vejo vocês nos testes!

Ele e Hermione me seguiram. Andei pelo corredor, dando passos largos em direção à sala de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Chegamos à porta familiar e Harry a abriu, para entrar na sala. Moody já nos esperava com a mesma fisionomia emburrada de sempre.

Os alunos da Grifinória entraram rapidamente na sala, preenchendo as carteiras vazias. Eu me sentei ao lado de Hermione e Harry. Minutos depois, alunos com vestes em detalhe verde começaram a entrar pela porta e meu humor foi ao chão.

– Abram o livro na página quarenta.

Peguei o livro surrado da mochila, quando escutei um assovio ao meu lado. Olhando para a origem do som, vi Malfoy e seus dois capangas, junto com mais alguns alunos da Sonserina que eu não conseguia identificar, já que minha visão estava vermelha e meu corpo começava a se esquentar de raiva.

– Ei! Weasley!

Perfurei Malfoy com o olhar, Harry e Hermione também se viraram para o grupo.

– Boa sorte nos testes! Espero que você consiga a vaga. Porque assim a Taça será nossa.

Minhas mãos fecharam-se em punho, mas Harry foi mais rápido, puxando a gola das minhas vestes, forçando-me a me virar.

– Não enche, Malfoy.

A risada satisfeita e sarcástica chegou aos meus ouvidos e eu fechei meus olhos, concentrando-me em não avançar em Malfoy e descontar minha raiva.

Moody começou a dar instruções e falar sobre feitiços. Mas eu não estava interessado na aula naquele dia. Olhava para a janela. De onde eu estava, conseguia ver perfeitamente o campo de Quadribol. Meu estômago embrulhou e eu pensei em desistir de tentar entrar no time.

Era tolice. Eu nem tinha uma vassoura digna para voar. Mas o orgulho era maior quando se tratava de desistir. Malfoy e os sonserinos iriam me infernizar o resto do ano, assim como Harry. Eu seria mais uma vez o fraco da família.

É. Eu ia tentar, pelo menos. Nem que para isso eu tivesse que passar vergonha diante de toda a escola. Respirei fundo e olhei para Moody, mas meus pensamentos estavam em outro lugar. O dia ia ser longo...

[...]

– Rony! Acalme-se, por Merlin!

Saíamos da última aula do dia. Sinceramente, eu não sabia da importância de Adivinhação. Mesmo que Firenze fosse melhor que a professora Trelawney, por mais força mental que eu fizesse, eu nunca conseguia achar um significado para a posição das estrelas.

– Ronald!

A voz de Hermione tirou-me dos meus pensamentos e eu olhei pela primeira vez à minha volta. Hermione estava ao meu lado, junto com Harry e Ginny. Minha irmã olhava para mim com diversão. Ela também tentaria uma vaga no time. A única diferença era que minha irmã era boa em Quadribol, então ela não estava nervosa. Já estávamos no Salão Principal. Eu me sentei à mesa da Grifinória e os alunos se aglomeraram para comentar os eventos do dia.

O cheiro da comida me enjoava. Aéreo a tudo, não conseguia nem acompanhar o assunto da conversa.

– Rony!

Harry me chamou e eu finalmente saí do meu estado hipnotizado para olhar para ele. Hermione estava de cara fechada e Harry parecia fazer força para não rir.

– Não deixe Mione falando sozinha.

– Me desculpe.

A expressão da garota se desanuviou no mesmo momento. Ela olhou para mim, eu conseguia detectar caridade em seus traços.

– Você está verde, Rony. Coma algo, vai precisar.

Neguei com a cabeça e Harry olhou para o relógio.

– Já está na hora. Você tem uma vassoura?

Neguei novamente e Harry sorriu minimamente.

– Vou pegar uma para você, da escola. Vejo vocês em breve.

Assenti e engoli em seco. Harry sumiu em questões de segundos. Os alunos ainda comiam e bebiam, aproveitando o único momento de descontração antes de voltar para os dormitórios e começar os trabalhos e deveres. Levantei-me e percebi que estava zonzo.

Um aperto no meu braço chamou minha atenção. Hermione me olhava calmamente, sorrindo para mim.

– Vai dar tudo certo, Rony.

Eu sorri para ela, dando de ombros. Eu daria o meu melhor para entrar no time.

Caminhei em direção ao portão que dava para o campo de Quadribol. Ainda estava claro, não chovia e não ventava. Perfeito.

Harry já estava no campo. Um baú, que eu julguei ser para guardar as bolas, estava perto dele. Ele sorriu para mim quando me aproximei e me entregou uma vassoura de aspecto velho. Ginny estava com a vassoura de Fred. A de George havia quebrado quando eles tinham se despedido dignamente de Hogwarts. Merda, meu irmão não servia nem para isso.

Alguns alunos de Grifinória chegavam ao campo, outros iam para as arquibancadas. Neville acenou para mim em um gesto de cumplicidade. Eu sorri. Mas meu sorriso morreu quando eu vi alunos que eu não queria ver entrando no campo. Malfoy, Crabbe, Goyle, Blaise.

Respirei fundo e Harry olhou para mim, pedindo-me mentalmente para eu ficar calmo. Eu sabia que Malfoy faria de tudo para desconcentrar as pessoas que estavam ali para fazer os testes, principalmente eu. Respirei fundo e subi na vassoura, tomando impulso com os pés e rezando para que tudo desse certo.

[...]

Tudo estava indo bem. Eu havia pegado quase todas as Goles que Ginny e Angelina arremessavam. Depois de alguns minutos, Angelina teve que aplicar o meu teste, pois todos estavam achando que por Ginny ser minha irmã, ela estava facilitando. Idiotas. Não poderiam pensar na possibilidade de que eu realmente estava indo bem?

– Ei! Weasley!

A voz de Malfoy chegou aos meus ouvidos e eu segurei o cabo da vassoura com força. Angelina se aproximava rapidamente com a Goles debaixo do braço. Eu automaticamente virei a cabeça para olhar para o loiro.

– Essa vassoura está há quantas gerações na sua família? Cinco?

Já ia abrir a boca para falar que a vassoura era da porcaria da escola quando senti uma batida forte na cabeça. Algo duro colidiu com o lado do meu rosto e eu fiquei tonto, olhei para a menina que estava na minha frente. Uma Angelina me olhava com olhos furiosos, mas pegou a Goles e saiu.

– Preste atenção, Ronald! Chega por hoje.

Eu dei de ombros. As risadas dos sonserinos agora chegavam altas nos meus ouvidos e eu curvei meu corpo para aterrissar, mas antes passei meus olhos pela arquibancada. Hermione conversava algo com Luna. Neville parecia ler um livro surrado, o resto dos grifinórios descia os degraus das arquibancadas. O teste havia acabado. Uma risada estridente e maldosa chamou minha atenção. Eu virei a cabeça e a vi. Pela primeira vez, realmente.

A menina que sempre andava ao lado de Malfoy ria, olhando para mim. Tinha cabelos curtos, negros e lisos. Usava as vestes da Sonserina como de costume e ria de Malfoy, que agora imitava alguém familiar demais a mim. Eu travei meu maxilar, mas ela continuava me olhando com aquele sorriso zombeteiro. Aquele sorriso nojento. Seu nome era Pansy Parkinson.

Curvei-me mais e fui para o gramado. Depois que desci da vassoura, percebi que minhas pernas estavam trêmulas, bem como o resto do meu corpo. Harry correu na minha direção, sorrindo.

– Você foi bem, Rony!

Eu olhei descrente para ele.

– Eu levei uma Golada na cara, Harry!

Ele sorriu para mim e bateu no meu ombro, me puxando para a saída do campo. Ginny e os outros estavam atrás. Hermione se juntou a nós e Luna também.

Eu andava cabisbaixo. Harry conversava com Ginny e Hermione. Fiquei para trás, não queria conversar com ninguém. Malfoy passou com sua tropa e esbarrou em mim propositalmente. Blaise riu. Eu rezei para não perder a paciência.

Foi quando ela passou ao meu lado. O sorriso maldoso. Olhou para mim como se eu fosse um pedaço de comida estragada. Meu rosto queimou. Eu odiava que me olhassem daquela maneira, principalmente daquela maneira. Fazia-me sentir como se eu fosse o pior Weasley, sempre o pior Weasley.

Seu perfume doce chegou ao meu nariz e eu inalei o aroma, surpreendendo-me ao achá-lo tão bom.

– Ei! Rony!

Eu balancei a cabeça para deixar de pensar asneiras, Harry caminhava na minha direção. Olhou para a menina e logo depois pra mim.

– Não ligue para ela. É um Malfoy de saias.

Eu sorri para meu amigo, mas ele apenas me olhou.

– Você conseguiu, Rony! A vaga de goleiro foi preenchida! Por você! Alegre-se, por Merlin!

Hermione caminhou na nossa direção, sorrindo. Eu não pude deixar de acompanhar seu gesto, dei duas palmadas nas costas de Harry e acenei para Hermione. E fomos juntos para Hogwarts. Eu precisava de um banho, e de dormir. Os deveres podiam ficar para o dia seguinte, hoje eu só pensaria em Quadribol.

Eu havia conseguido, enfim.

Notas finais
Obrigada a todos que estão comentando na fanfic!