Deslizes

18 Sala Precisa


Sala Precisa

Algumas semanas depois

Pansy

Era dia de visita a Hogsmeade, mas eu não estava muito interessada em ir ao povoado bruxo. Semanas haviam se passado e eu ainda não tinha conseguido conversar com o Weasley. Sempre quando eu o avistava pelos corredores de Hogwarts, eles estavam cheios demais, qualquer conversa com ele chamaria atenção, para dizer o mínimo.

Porém, o colégio bruxo estava vazio naquele dia, a maioria dos estudantes estava em Hogsmeade e os alunos do primeiro e segundo ano se dividiam entre estudar as matérias atrasadas na biblioteca e atormentar a Lula Gigante.

Eu seguia o primeiro roteiro. Andava pelos corredores com a mochila pesada, tentando achar um caminho mais curto para chegar à biblioteca e estudar. Se eu não me conhecesse tanto, diria que estava preocupada com os N.I.E.M’s, mas a verdade era que eu tentava ocupar minha mente com outros assuntos.

Foi quando eu o vi.

Ele virou no mesmo corredor que eu, no lado oposto; os olhos azuis cravaram-se nos meus e ele engoliu em seco. Estava com Potter e Granger, como sempre. Mas não foi isso que me chamou a atenção. A garota me olhava de um jeito diferente, e eu poderia jurar que seu rosto se contorceu em um gesto de desaprovação.

Minhas perguntas internas foram respondidas quando a sabe-tudo enfiou seu braço atrás do de Harry e puxou-o, entrando na biblioteca primeiro que eu e o ruivo. Fiquei com vontade de ir atrás da garota e gritar com ela. Mas quem era eu para tomar tal atitude? Ela sabia, e eu não poderia fazer nada, a não ser confrontar o culpado, que no momento me olhava com um pouco de nervosismo.

Respirei fundo e apressei os passos, aproximando-me dele. Estava a centímetros de distância, já podia sentir o seu calor contra minha pele. Ele se assustou com minha reação repentina, mas ficou imóvel, esperando. O corredor estava vazio, e minha vontade era a de beijá-lo. Mas eu não o fiz.

– Ela sabe?

Perguntei sem muitos rodeios e o Weasley franziu o cenho, mordendo a boca carnuda. A tentação de beijá-lo cresceu um absurdo, mas eu mantive minha postura.

– Ela quem?

– Não se faça de bobo, Weasley. Sua amiga Granger sabe de algo?

Remexeu-se inquieto, ajeitando a alça da mochila no ombro forte e me fitou, para depois olhar um menino do primeiro ano que estava passando pelo corredor sem muito interesse ao que estava à sua volta.

– Eu contei a ela o que nós temos.

Mesmo já sabendo da resposta, não estava preparada para a reação que meu corpo teve. Todo o meu sangue ferveu e eu comecei a sentir um calor anormal. Eu sabia que isso não era um bom sinal. Potter poderia até saber, mas Hermione Granger ter conhecimento do que eu tinha com o ruivo era um fato um tanto quanto irritante.

– O que nós temos?

Perguntei em um tom baixo, sibilando. Ele se afastou um pouco.

– Sim, Pansy. O que nós temos.


A voz saiu entrecortada, mas certa. Percebi que ele dizia meu primeiro nome com muita naturalidade, como se me conhecesse desde pequena.

– Nós não temos nada, Weasley.

Já eu não conseguia chamá-lo pelo primeiro nome. Eu continuei o fitando, esperando a reação que minhas palavras poderiam fazer no ruivo. Surpreendi-me quando ele se aproximou mais um pouco, o rosto estava sério e ele parecia muito irritado.

– Se nós não temos nada, por que continua atrás de mim? Você poderia me dar um tempo, sabe que eu estou com problemas, e que ando ocupado.

A respiração dele estava batendo contra meu rosto. Os olhos haviam escurecido devido à raiva. Ele estava com o maxilar travado. Sua resposta atingiu minha mente como uma agressão física, e eu me surpreendi quando senti meus olhos embaçarem.

Não o respondi, apenas abaixei a cabeça e me virei, andando pelo corredor com passos apressados, tentando sair de perto dele.

Quando cheguei a um corredor seguro e longe da biblioteca, sentei-me ao lado de uma estátua de pedra de uma bruxa bem horrenda, e chorei. As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto e eu não tinha nenhuma vontade de contê-las.

Há quanto tempo estava tão sentimental? Não conseguia me lembrar da Pansy Parkinson que antes procuraria as palavras mais tóxicas para responder uma pessoa que lhe fizesse mal. Mas eu não conseguia... eu não queria.

Eu havia provocado o ruivo. Sabia que ele não ia gostar da minha negação de que tínhamos algo, mas não estava preparada para sua resposta seca. Me machucara, e me deixara com raiva.

Bufei e me encolhi, esperando a onda sentimental passar para pensar com a cabeça mais fria. Eu daria esse tempo a ele, eu não precisava dele. Eu não precisava de um pobretão me dizendo para deixá-lo em paz.

Surpreendi-me com meus próprios pensamentos, mas não tive tempo de organizá-los. Escutei o som de passos vindo de longe e permaneci onde estava, levantando a cabeça levemente e rezando a Merlin que não fosse o ruivo vindo atrás de mim. E não era.

Essa pessoa tinha os cabelos loiros, os cabelos que eu iria reconhecer em qualquer lugar do mundo. Andava com calma, mas sem Crabbe e Goyle. E foi isso que me chamou a atenção.

Lembrei-me de que no dia em que o vi saindo da mesma sala milagrosa que estive, ele estava sem a companhia de seus cães de guarda. Era incomum, para não dizer estranho e sem uma explicação plausível.

Ele não me viu, apenas continuou a caminhar pelo corredor, me passando e virando-o. Não me contive. Conseguia sentir o cheiro de algo errado de longe, e sabia que o que Draco estava fazendo não era algo certo. Levantei-me e andei na mesma direção que ele tinha virado, seguindo-o.

Fiquei em uma distância segura de vinte metros, mas consegui ver o que o loiro estava fazendo. Ele se virou para o lado oposto que eu estava, como se estivesse checando se o corredor estava realmente vazio.

Depois entrou por uma porta conhecida. A mesma porta que ele havia entrado no dia que o segui pela primeira vez. Ouvi o barulho do estalo da porta se fechando e andei calmamente até ela, mas me surpreendi quando me deparei com uma parede lisa.

Franzi o cenho, isso já estava ficando irritante. O que era aquela maldita parede? Como Draco conseguia entrar no lugar sem fazer nenhum esforço ou mágica?

Percebi que seria arriscado ficar ali, ele poderia sair a qualquer momento e não ia achar muito legal me ver do outro lado da parede, esperando com um interesse visível. Mesmo que eu não tivesse a mínima ideia de como ele sairia de uma parede bem concreta de pedras.

Virei-me e andei em direção a uma estátua que ficava por perto, a mesma que eu ficara escondida para saber onde Draco estava se metendo. Ali ninguém conseguia me ver do corredor.

Esperei. Não demorou mais de dez minutos e eu escutava outro estalo de porta. Draco saía de dentro de uma, que tinha aparecido milagrosamente igual havia feito para mim no dia em que estive com o ruivo no mesmo lugar.

Ele passou por mim e eu me assustei. Não me viu como o esperado, mas seguiu com passos firmes e... animados? O que quer que Draco estivesse fazendo naquela sala, estava proporcionando bom resultados. Eu não via o loiro tão leve há dias.

O segui novamente, tentando em vão descobrir se ele estava indo para outro lugar, mas ele apenas seguiu para o Salão Principal.

Senti-me tola perseguindo Draco Malfoy, mas nunca negaria meu corpo de saciar minha curiosidade anormal. Corri meus olhos atentamente pelo grande salão. Alguns conversavam com professores, outros estudavam nas mesas compridas de mogno escuro, outras apenas comiam os lanches comprados em Hogsmeade.

Respirei fundo. Ele não estava lá. Deveria estar na biblioteca conversando assuntos importantes demais para bruxos mortais. Granger estaria com ele, provavelmente dizendo ao ruivo que o que ele tinha falado comigo fora o certo, e Potter estaria concordando, porque aquele maldito garoto-que-sobreviveu parecia sempre concordar com a sabe-tudo irritante.

Decidi ocupar minha mente com algo mais proveitoso. Foi com esses pensamentos que virei-me novamente, saindo do Salão Principal e tomando o mesmo caminho que havia feito minutos antes.

Eu precisava saber como entrava naquela maldita sala, e o que realmente tinha dentro dela. Por que Draco precisava entrar em um quarto? Algo me dizia que não era pelo mesmo motivo que eu havia entrado.

Não demorei muito a achar a parede. Sabia que era ela, e estranhamente, era uma das únicas paredes grandes e sem nenhum apetrecho em Hogwarts. Normalmente elas estavam infestadas de quadros ou anúncios mágicos.

Fiquei apenas fitando as pedras cinza, tentando me lembrar se o Weasley falara algo para que a porta se materializasse. Mas não me lembrei de nada. Respirei fundo, derrotada.

A imagem do ruivo começou a se formar na minha cabeça e uma mistura de sentimento tomou meu corpo. Raiva, tristeza, vingança, carinho, insegurança... indecisão.

Raiva pelo o que ele tinha falado; suas palavras ainda retumbavam na minha mente, fazendo com que meu corpo esquentasse no mesmo momento que meus olhos embaçavam.

Vingança por ser Pansy Parkinson, e ter uma necessidade quase primitiva de fazer mal a uma pessoa que tinha me feito mal.

A insegurança e a indecisão eu tentava ignorar, mas elas me perseguiam. O ruivo teria falado aquilo para me magoar, apenas por impulso? Ou queria realmente que eu me afastasse dele? Não era possível que depois de tudo o que havíamos passado em Hogwarts...

Burra! Por que falou com ele que não tínhamos nada?

Pensei, mas não consegui resposta. Fiquei minutos olhando para o chão, quando escutei barulhos estranhos vindo da parede. Virei-me, o coração batendo acelerado ao perceber que ela estava fazendo a mesma coisa que havia feito comigo, semanas atrás.

A parede de pedra começou a se rachar, como se uma faca invisível estivesse cortando-a em um formato de arco. Não demorou muito para que a porta aparecesse para mim, e pela primeira vez, eu fiquei receosa.

Não pensei o que faria quando isso acontecesse. Para dizer a verdade, nunca achei que eu conseguiria. Eu não sabia o feitiço, só sabia o local. Foi com relutância que girei a maçaneta, entrando.

O que vi me deixou surpresa. Não era nem de longe parecido com o lugar que eu visitei. As poltronas não existiam mais, mas havia um sofá de veludo vermelho escuro, uma lareira estava acesa, deixando o cômodo bem aconchegante. O chão era carpete, bem diferente do chão de pedra que eu me lembrava do local. Não havia vela igual da última vez em que estive ali, apenas a luz do fogo da lareira iluminava o ambiente.

A porta anexa estava no mesmo local, mas eu me surpreendi foi com a pequena mesa com comida que tinha em um canto. Escutei uma respiração pesada e me assustei, temendo que fosse Draco Malfoy.

Virei-me, e achei finalmente uma parte do quarto que havia visitado. Eu me lembrava da cama grande.

Nevava muito, e eu sabia que não estava nevando na época. A janela era enfeitiçada. Mas não foi isso que me chamou a atenção. O que fez meu coração pular foi a silhueta conhecida que eu consegui enxergar, recortada perfeitamente diante dos meus olhos.

Engoli em seco e pigarreei. Ele se virou para mim, assustado ao descobrir que não estava mais sozinho.

E eu me perdi em seus olhos azuis.