Rumores

Rony

Se eu não estivesse acompanhando as aulas diariamente e se não estivesse olhando a janela no momento em que McGonagall estava ensinando os feitiços, eu diria que o ano estava passando calmamente. Mas não estava, e a neve me confirmava isso. Dezembro havia chegado e os alunos estavam eufóricos devido ao natal. Eu poderia estar contente, mas eufórico não. Claro que rever minha família e ficar n’A Toca enquanto minha mãe nos entupia de comida sempre era algo delicioso, mas infelizmente eu tinha preocupações a mais esse ano.

Eu olhei para o lado, os olhos de Hermione estavam fixos em cada movimento que McGonagall fazia com a varinha, já os olhos de Harry eu não podia dizer para onde estavam dirigidos. Ele estava dormindo. Não um sono de tédio como costumávamos nos entregar nas aulas da professora Trelawney no terceiro ano, mas um sono de cansaço. Eu sabia perfeitamente o motivo do seu sono. Harry havia chegado bem tarde na noite anterior, ficando com Dumbledore até quase de madrugada. Era injusto meu amigo passar por isso tudo sozinho. Se eu pudesse fazer mais... até ir às aulas com ele eu iria. Mas como Dumbledore mesmo disse; aquela era uma missão para ele.

Respirei fundo e meus pensamentos foram parar na guerra. Alguns alunos olhavam para a professora, desinteressados com tudo. Outros escreviam avidamente em pedaços de pergaminhos, como se isso fosse ajudar futuramente nos N.I.E.M’s. Não tinham ideia do que realmente se passava no mundo bruxo, e mesmo que todos em Hogwarts soubessem que Você-Sabe-Quem havia voltado e que Comensais estavam tentando entrar no castelo, eles confiavam totalmente suas vidas à Dumbledore.

Era impressionante a calma que os alunos ficavam quando o diretor estava por perto. Infelizmente alguns não davam valor aos bruxos e aos Aurores que sacrificavam suas seguranças para proteger a escola. Eles nem tinham ideia da existência da Ordem da Fênix, e, para ser sincero, suas vidas e opiniões não mudariam muito se soubessem desse fato.

Meus pensamentos automaticamente foram girando em direção à Pansy. Eu me lembrava perfeitamente da história que ela havia me contado. E Merlin, eu agora agradecia sempre que podia por minha família ser unida e lutar em um só lado. Como uma garota da idade dela conseguia carregar isso apenas para ela? Eu duvidava muito que Pansy compartilhava suas angústias com alguma amiga sonserina. Para falar a verdade, eu ainda não entendia o motivo da garota ter me contado parte do seu passado e do seu problema. O que Pansy realmente pretendia com aquilo?

Uma sensação estranha percorreu meu estômago. Será que ela confiava em mim? Se ela confiava em mim a ponto de se abrir comigo, o que ela realmente sentia por mim? Pior, o que eu sentia por ela? Na certa eu via Pansy como uma garota que me proporcionava prazer, mas não só como isso.

Meus pensamentos foram cortados por duas palmas que McGonagall deu, acordando os alunos e dizendo para todos que a aula havia terminado. Eu me virei da janela que estava fitando e olhei para Harry. Ele estava com os olhos inchados, mas parecia surpreso por ter dormido sem querer na aula de Transfigurações.

Mesmo que meus problemas fossem maiores que os de Pansy, não eram comparados aos problemas que Harry tinha. Hermione já pegava os livros e colocava-os na mochila pesada, enquanto nós dois espreguiçávamos. Ela nos olhou emburrada, mas não disse nada. Pela cara que fez, já era mais que certo que a garota sabia que não havíamos acompanhado devidamente a aula.

– Hora do almoço. Estou faminto.

Eu coloquei a alça da mochila no ombro e Harry fez o mesmo. Nós três começamos a andar pelos corredores e Hermione me olhou.

– Rony, você sempre está faminto.

Eu olhei incrédulo para ela, enquanto ela e Harry riam da minha cara. Isso era injusto, eu era jogador de Quadribol, precisava me alimentar direito.

[...]

Pansy

Comia devagar o almoço grandioso que estava à minha frente. Eu tinha certeza de que todos os alunos da Sonserina haviam percebido minha mudança de humor. Eu já não perdia mais meu tempo fazendo intrigas e bolando planos contra todos, e realmente havia muito tempo que não conversava com Draco. Não que isso me incomodasse, mas mesmo que eu quisesse, não conseguiria me aproximar novamente do loiro, ele estava tão estranho quanto eu, e muito quieto.

Uma risada familiar chegou aos meus ouvidos e eu automaticamente me virei para a entrada do Salão Principal. O Weasley entrava com Potter e Granger. Os dois riam de algo, mas ele permanecia calado, revirando os olhos. Sobre o que conversavam?

De repente a sabe-tudo pousou a mão no ombro do ruivo, enquanto sua outra mão bagunçava seus fios vermelhos. Ele riu e se sentou à mesa, sendo acompanhado por ela e por Potter. Eu me surpreendi quando meu corpo esquentou. Quem era ela para passar as mãos nos fios do cabelo dele? Já não bastava o Potter? Tinha que pegar o Weasley também?

– Há algum problema, Pansy?

Uma garota da Sonserina me perguntou e eu percebi que estava agarrando o garfo com muita força. Afrouxei o aperto da mão e olhei para ela, dando um sorriso mínimo. A garota ainda me olhava desconfiada.

– Não, só estou com cólica.

A resposta pareceu ser suficiente para ela, que continuou a comer e a conversar com uma gorducha que estava ao lado dela. O que ela tinha com a minha vida? E o que eu tinha com a vida de Granger? Ela poderia pegar quantos homens quisesse, não? Ela poderia ficar até com o Weasley, eu não era dona dele para ter ciúmes ou reclamar de algo.

Eu me levantei da mesa, pegando a mochila e caminhando até a saída do Salão Principal.

Mas eu não senti ciúmes. A reação que tive ao ver Granger encostar no ruivo foi de pura indignação. Como alguém que demonstrava um carinho especial por Potter poderia demonstrar um carinho também pelo Weasley?

Meus pensamentos foram cortados quando Draco passou à minha frente, sem se dar conta da minha presença. Ele estava só, e isso era algo incomum, julgando que o loiro sempre estava na presença de seus comparsas idiotas, Crabbe e Goyle. Eu franzi o cenho e resolvi segui-lo, tomando cuidado para que ele não me visse. Eu infelizmente era curiosa demais para ignorar o fato tão peculiar, e se eu pudesse arriscar, diria que ele estava preocupado.

Mas infelizmente fui barrada por um grupo de pirralhos do primeiro ano que andava discutindo sobre Quadribol. Eu não consegui me desvencilhar do grupo e quando eu finalmente estava livre, o loiro havia sumido.

– Merda.

Xinguei baixinho para mim mesma e resolvi voltar para o Salão Principal. Infelizmente o dia não havia terminado e ainda teríamos aula até às cinco da tarde. Eu resolvi pegar outro corredor a fim de voltar para o Salão. Foi quando eu o vi novamente.

Draco saía de uma porta grande. Eu fiquei onde estava, sendo coberta pela sombra de uma estátua de pedra que ficava no corredor. Ele não me viu, mas ao sair de onde estava, olhou para os lados, um pouco desconfiado. Eu vinquei a testa com seu gesto, e se eu conhecesse bem o loiro, diria que Draco estava fazendo algo errado, e que não queria que ninguém soubesse. Nem Crabbe nem Goyle? Isso era estranho...

Ele virou em um corredor e eu saí de onde estava, fitando a porta que ele havia fechado, pensando seriamente se seria inteligente abri-la, ou não. Eu me surpreendi quando a porta começou a sumir, mas a surpresa não foi pela mágica, e sim pelo fato de eu ter reconhecido onde estava.

Era exatamente a mesma porta que eu havia saído dias atrás. A porta que o Weasley tinha revelado no dia em que me trouxe à mesmíssima parede. Ela agora não existia mais, apenas seus finos contornos em uma parede de pedra. Dois segundos depois, eu encarava uma parede lisa, que supostamente não continha nada.

O que eu teria que fazer para a porta reaparecer? Na certa o Weasley sabia o feitiço. Poderia perguntar para ele? Se eu fizesse isso, teria que contar para o ruivo meu motivo, e dizer que Draco havia saído dali era estranho. Algo dentro de mim sabia que o que Draco estava fazendo não era certo. Mas o que ele estava fazendo em um quarto? Seria certo contar para o Weasley o que eu havia visto? Draco teria algo com os problemas de Potter?

Uma sensação estranha percorreu meu corpo e eu saí de perto da parede, balançando ligeiramente a cabeça e voltando a andar pelo corredor, para encontrar o Salão Principal.

[...]

Eu estava literalmente exausta. Nunca tinha pensado que os N.I.E.M’s poderiam fazer os professores darem tantos conteúdos de uma vez. Eu sabia que não poderia descansar no próximo final de semana, eu teria que fazer os quilos de trabalhos de Feitiços e Transfigurações. Sem contar que a semana não havia acabado, e eu tinha certeza de que Snape ainda passaria mais trabalho em Poções.

Respirei fundo, cada músculo do meu corpo protestando pelo gesto. Eu joguei minha mochila na cama fazendo os pergaminhos com diversas anotações se espalharem pelo colchão. Eu não me importei muito, depois eu organizaria meu material. Eu aproveitaria que o dormitório estava totalmente vazio e tomaria um longo banho.

Entrei no banheiro. Ele estava organizado, nenhuma menina havia o usado ainda e eu agradeci por isso. Odiava bagunça. Liguei o chuveiro, colocando-o na temperatura mais quente possível. Em época de neve, o corpo só pedia por temperaturas elevadas.

Esse pensamento me fez lembrar do ruivo. O que ele estaria fazendo agora? Na certa ajudando Potter com seus problemas. Estaria estudando?

Eu fechei os olhos enquanto deixava a água escorrer pelo meu corpo. Escutei um barulho vindo do lado de fora do banheiro, me alertando que eu já não estava completamente sozinha no dormitório. Bufei e comecei a passar o sabonete no corpo, enquanto a água lavava os restos de espuma do meu cabelo. Eu não iria apressar meu banho por causa delas.

Depois de vinte minutos, eu estava satisfeita. Saí do banheiro e me enrolei na toalha lentamente, passando um pente no cabelo e respirando fundo para ter paciência em aguentar a conversa entre as meninas.

Eu abri a porta e três vozes chegaram aos meus ouvidos. Mas o tom das vozes que eu sempre ouvia, estava diferente. Antes elas eram histéricas e animadas, conversando sobre os meninos mais bonitos de Hogwarts e sobre os feitiços de beleza. Dessa vez as vozes estavam baixas, e eu podia jurar que o assunto era sério.

Cada menina estava sentada em sua própria cama. Mas elas não pararam de conversar quando me viram sair do banheiro e caminhar para a cômoda ao lado da cama. Afinal, eu era uma sonserina, e o assunto que elas estavam conversando não era particular para sonserinos, era algo rotineiro e normal. Eu peguei minha lingerie e meu pijama, colocando-os rapidamente e secando o cabelo com um aceno na varinha.

Caminhei para a cama e comecei a arrumar meu material. Foi quando eu escutei diretamente a conversa.

– Mas você acha que isso é verdade?

– Claro que é verdade! Meu pai me disse isso por uma carta semana passada!

O silêncio voltou a se firmar no quarto. Eu fiquei um pouco mais atenta à conversa. Guardei o restante do material na mochila e a coloquei no chão. Afastei o cobertor de veludo verde para o lado e me afundei no colchão. Meu corpo agradeceu no mesmo segundo. Mas eu estava tensa demais a ponto de relaxar completamente.

– Mas se o Lorde das Trevas está reunindo suas forças, Hogwarts irá sucumbir?

– Disso eu não sei, mas eu sei que não vai demorar muito para termos notícias dele.

Uma garota ficou em silêncio, a outra parecia empolgada. Eu sabia que o pai da loira era Comensal da Morte. Surpreendentemente esse pensamento me fez ficar com nojo. Alguns alunos não gostavam da ideia de Hogwarts sucumbir, afinal, por mais que apoiassem a causa de Você-Sabe-Quem, gostavam demais da escola. Outros ficavam excitados apenas em pensar em guerra.

– O que você acha, Pansy?

Eu saí da minha linha de pensamento no mesmo instante. As três agora olhavam para mim, esperando por uma resposta. Eu fingi que estava indiferente e dei de ombros.

– Não sei. Minha família ainda não disse nada.

Deixei bem claro para as garotas que iria dormir. Fechei os olhos, mas eu sabia que meu cérebro trabalhava rápido demais para que eu dormisse. Elas continuaram a falar sobre a possibilidade de Você-Sabe-Quem estar mais forte e eu me lembrei do ruivo.

“Harry está com problemas, Pansy”.

Sua voz rouca ecoou pela minha mente e eu comecei a me preocupar. Será que o Weasley sabia disso? Será que esse era o motivo de ele ter se afastado? Eu devia contar a ele?

Meu coração se apertou ao pensar na possibilidade do perigo que ele corria. Depois de alguns minutos, com muita dificuldade, eu consegui dormir.