Deslizes
14 Conclusão
Conclusão
Pansy
Os dias da semana passavam como mágica. O natal estava chegando e os alunos de Hogwarts já faziam planos em voz alta para todos escutarem. Eu comia meu café da manhã em silêncio, pensando no que eu teria que viver no mesmo período.
Se eu pudesse escolher, eu realmente não voltaria para casa, eu passaria o natal em Hogwarts. Mas eu sabia perfeitamente que se eu tomasse essa decisão, meus pais me matariam. Tentei me convencer de que parte da minha vontade em ficar, era pelo fato dos meus primos mais novos irem ao jantar de natal todo ano. Não, por mais que eu tentasse me enganar, eu tinha certeza de que eu realmente estava temendo minha família.
Depois da conversa que eu havia escutado entre as meninas do dormitório, eu sabia que a família Parkinson estaria eufórica. O jantar seria preenchido com conversas sobre as forças de Você-Sabe-Quem e o que ele estaria planejando para o mundo bruxo.
Em vez do natal, teríamos uma maldita reunião familiar sobre os negócios futuros da família. E eu odiava quando meus pais participavam delas. Eu sabia que minha opinião não iria ser levada em conta caso alguém tentasse convencer meu pai a se juntar ao Lorde das Trevas. Mas se alguém realmente me perguntasse sobre isso, escutaria a mesma resposta de sempre.
Escolher um lado seria a decisão mais equivocada que eles tomariam.
Meus pensamentos foram cortados quando três grifinórios entraram no Salão Principal. Eles sempre desciam juntos, isso era rotineiro. E eu sempre procurava vê-lo um pouco. Mas me surpreendi quando o Weasley nem virou a cabeça em direção à mesa da Sonserina, como ele fazia sempre. O ruivo passou diretamente e sentou-se à mesa da Grifinória, e mesmo que ele estivesse de frente para mim, seus olhos não deixaram o prato em que ele comia. Potter e Granger conversavam baixinho, e mesmo que eu não soubesse exatamente o que estava acontecendo, algo dentro de mim me falava que boa coisa não era.
Normalmente o trio estava sempre sorrindo. Não. Dessa vez os três comiam silenciosamente. Minha atenção foi totalmente dedicada ao ruivo. Ele permanecia com os olhos azuis colados à mesa e Potter estava ao lado, do mesmo modo. Eles pareciam... cansados.
O que realmente estava acontecendo com eles? Será que eles estavam escondendo alguma informação que ninguém de Hogwarts sabia? Não era possível que Dumbledore não comunicaria aos alunos caso algo acontecesse, certo?
Eu tentei ignorar a sensação de vazio que ficava em mim sempre que o ruivo não me olhava. Semanas haviam se passado desde que o vi e o toquei pela última vez, e sinceramente, seu distanciamento já estava me dando nos nervos. O sinal tocou e eu vi os alunos se levantarem das mesas, indo em direção à saída do Salão para caminharem até as primeiras aulas do dia.
Eu me levantei também, e em um impulso, meus olhos correram pelo salão. Foi aí que eu o vi. Potter e Granger já haviam se levantado da mesa. O Weasley ficou, mexia na mochila e parecia procurar algo. Ele não me viu, e quando me dei conta, já estava apenas alguns passos de distância da mesa da Grifinória. De repente, eu senti dois olhos cinzentos me perfurarem e me virei, fitando Malfoy.
O loiro azedo me olhava com curiosidade, e realmente eu lhe dava razão. Não era algo comum uma sonserina andar na direção contrária que todos os alunos de sua casa andavam, na direção da mesa da Grifinória. Virei o rosto milimetricamente e percebi que o Weasley não estava mais sentado. Respirei fundo para tentar achar o controle que havia perdido.
Calma, Pansy, você não ia fazer isso.
[...]
Rony
Eu passei exatamente ao lado dela. Mas ela estava tão focada em alguém que não me viu. Eu pude sentir seu cheiro peculiar e fiz uma força sobrenatural para resistir à tentação de agarrá-la ali mesmo e dizer a ela tudo o que estava se passando comigo.
Eu não era burro. Eu podia notar os olhos negros me perfurando toda vez que eu descia para tomar meu café da manhã. Mas eu simplesmente ignorava, achando que com isso, Pansy iria desistir de tentar descobrir algo.
Claro que foi tolice minha dizer a ela que Harry estava com problemas. O que eu estava fazendo? Pansy era da Sonserina, e mesmo que ela estivesse passando algum tempo comigo, ela era amiga de Malfoy.
Eu realmente havia me afastado, e eu sabia que Pansy tinha notado isso. Mas meus pensamentos estavam tão ocupados com as lições de Harry, com os problemas no mundo fora de Hogwarts e com a minha família, que eu tinha certeza de que não teria sossego mental por um tempo. E se eu precisasse de sossego, enfiar Pansy e seus jogos de relacionamento e sexo na minha cabeça era a última coisa que eu queria.
A garota não tinha ideia do que estava acontecendo no mundo bruxo, e mesmo que o Profeta Diário lançasse manchetes dizendo absurdos e alguns extras, não chegava nem perto da real situação.
A massa de aluno ficou mais suportável depois que todos pegaram corredores diferentes para irem até as salas. Eu quase rezei a Merlin, agradecendo que era sexta-feira e que teríamos descanso pelo menos das aulas. Eu não via a hora de pegar o Expresso de Hogwarts e ir para casa.
Desci para as Masmorras junto a Harry e Mione. Neville estava ao meu lado, conversando sobre Herbologia com Dino. Eu revirei os olhos. Não era possível que alguém pudesse ser tão empolgado com um assunto tão desinteressante quanto Herbologia.
A porta da sala de Snape já estava aberta, os alunos entravam desanimados, sabendo que teriam duas aulas seguidas de Poções. Claro que uma sexta-feira não sairia de graça.
Hermione olhou para mim com uma expressão já conhecida.
– Acho que vocês dois não podem ficar juntos.
Eu olhei incrédulo para Hermione e depois para Harry, ele deu de ombros e revirou os olhos. Mesmo que não concordasse, eu assenti, sentando-me em uma mesa mais ao fundo, enquanto Harry e Hermione sentavam-se na mesa que ela gostava de sentar. Era mais que óbvio que discutir com ela era perda de tempo. A garota havia enfiado na cabeça que se eu sentasse com Harry, um iria dormir e o outro iria planejar estratégias de Quadribol, ou qualquer coisa parecida.
Realmente ela tinha nos observado na aula de Transfigurações.
Os alunos da Sonserina começaram a entrar na sala no mesmo momento que Snape acenava com a varinha, fazendo os pequenos caldeirões funcionarem. As chamas começaram a aquecer o meu, enquanto eu abria na página que aparecia no quadro.
Se existia uma vantagem de ficar na última mesa, era ficar afastado do olhar tenebroso de Snape, e dos olhares curiosos dos alunos.
[...]
Pansy
Ele estava tão entretido no livro de Poções que não me viu parada ao lado da mesa. Os alunos da Sonserina já começavam a se sentar, e eu infelizmente havia ficado sem par. Eu me sentei ao lado dele. Os cabelos ruivos estavam jogados no rosto, de modo que eu conseguia olhar apenas os lábios vermelhos.
Assustei-me quando Severo Snape parou em frente onde estávamos e pigarreou. Eu abri o livro, olhando para o morcego enorme à minha frente. O Weasley fez o mesmo.
– Espero que eu não precise dar mais uma detenção dessa vez.
Snape deu o recado e virou-se, fazendo a capa preta flutuar para o lado com o gesto. O professor sentou-se na escrivaninha enquanto escrevia em alguns pergaminhos. Os ingredientes da poção começaram a aparecer no quadro. Foi quando ele se deu conta de que eu estava ao seu lado.
O ruivo não falou nada, e eu fiquei esperando algo por parte dele, mas ele apenas começou a depositar os ingredientes no pequeno caldeirão. Eu arqueei uma sobrancelha, dando-me conta de que já havíamos feito a poção. Poção para Confundir.
Claro, a mesmíssima poção que havia originado nossa briga meses atrás. Por isso o aviso de Snape. Na certa a poção cairia nos N.I.E.M’s, ou o professor não estaria repassando-a. Se isso não fosse tão irritante, eu poderia até rir com a coincidência.
Mas isso era irritante.
Comecei a copiar os gestos do ruivo, ficando em silêncio, esperando que ele se pronunciasse. Ele ficou calado. Alguns minutos se passaram e eu olhei para ele, cutucando-o no braço.
– Vai roubar meu Botão de Prata? – perguntei.
Ele demorou a entender, mas não reagiu de nenhuma forma, apenas deu de ombros.
– Dessa vez há o suficiente para todos. – respondeu.
Continuou a depositar os ingredientes no caldeirão. Meu sangue começou a ferver, e eu sabia que não seria paciente por dois malditos horários.
– O que está acontecendo, Weasley?
Ele me olhou, os olhos azuis estavam surpresos pela forma direta que eu havia feito a pergunta.
– Por que está assim?
Ele sabia perfeitamente do que eu estava falando. Seu distanciamento não era algo normal. E mesmo que se ele estivesse com outra garota, ele teria o bom senso de me falar, não?
– Você não entende, Pansy.
– Ah! Agora eu me chamo Pansy?
Meu rosto começou a esquentar. Eu sabia que, se passassem alguns minutos e ele não me respondesse, meus sussurros ficariam mais altos, e isso poderia chamar a atenção de todos, incluindo Snape.
O ruivo parou o que estava fazendo e me fitou com os olhos sérios.
– Eu estou ocupado. Há muitas coisas acontecendo desde que... desde que nos vimos. Eu realmente queria ter mais tempo, ter sossego. Mas não tenho.
Eu arqueei as sobrancelhas para ele em descrença. Por mais que eu quisesse acreditar na sua desculpa patética, eu não conseguia imaginar uma situação que tomasse tanto tempo do bruxo para ele poder dizer um oi para alguém.
– E não faça essa cara. Você sabe do que estou falando, mas não entende. Você não está vivendo o que eu estou vivendo, Pansy, e infelizmente não tem ideia da proporção do problema.
Eu tranquei o maxilar. Tudo bem, eu sabia que não era a melhor amiga de Dumbledore, ou de Potter, ou de Você-Sabe-Quem. Mas eu sabia que as coisas não estavam mais como antes. Seria tolice e inocência minha achar que estávamos vivendo tempos de paz.
Mas o ruivo falou de um modo como se eu fosse uma ignorante. E como se ele fosse importante demais no jogo para perder o tempo com alguém ignorante. Em outros tempos, eu ficaria com raiva, e falaria tudo de mais grosseiro que tinha no meu vocabulário para deixá-lo mal. Mas algo havia mudado, e eu me surpreendi quando meu corpo reagiu de forma diferente. Eu não estava com raiva, eu estava chateada.
Eu abaixei a cabeça, tentando por esse modo esconder o rosto. Mesmo que meus cabelos estivessem tampando minha visão, eu sabia que o ruivo estava me olhando. E temia que ele descobrisse o que eu estava sentindo.
Como se ele soubesse o que eu estava pensando, eu senti o dedo quente dele na minha bochecha, mas fingi que não havia sentido nada, e sabia que ele não tentaria de novo. Era arriscado demais fazer esse tipo de coisa onde estávamos.
– Olha, Pansy, podemos conversar isso depois do natal?
Natal. Exatamente doze dias sem vê-lo. Tentei ignorar a mesma sensação de vazio que me perseguia há dias. Eu assenti milimetricamente com a cabeça e senti o corpo forte do ruivo relaxar. Era isso, eu não precisava de mais nada dele. Já havia chegado a um ponto que minha consciência já gritava para mim: afaste-se.
Eu vi seu vulto escrevendo em algo, ele me cutucou e me passou o pedaço de pergaminho. Eu franzi o cenho, mas li rapidamente o que estava escrito.
– Por que está me dando seu endereço?
– Para você me mandar corujas durante o natal.
Afaste-se. Já.
– Isso é ridículo! Por que eu te mandaria cartas?
– Eu quero saber o que se passa com você, não posso?
Não, não pode. Por que ele queria saber o que se passava comigo agora? Ele não estava tão ocupado tentando ajudar seu amigo Potter-Especial? Que diferença fazia ele em Hogwarts e ele na... A Toca? Sua casa se chamava “Toca”? Isso tinha que ser um pesadelo...
Eu senti sua mão quente envolver a minha. Minha mão tremeu ligeiramente ao seu toque. Eu sentia falta dele.
– Promete para mim que vai escrever.
Eu olhei para ele, e esse foi meu erro. No momento em que fitei seus olhos azuis, eu sabia que não conseguiria negar nada para o ruivo.
Eu suspirei, demonstrando minha derrota.
– Prometo.
Ele apertou minha bochecha e eu corri os olhos pela sala, com medo de alguém ter visto. Mas os alunos estavam entretidos demais com Snape inferiorizando os dotes de Longbottom. No momento que sua mão deixou a minha e ele recomeçou a depositar os ingredientes no caldeirão, eu percebi.
Eu sempre sentiria falta do seu toque. Eu sempre sentiria falta de seu cheiro. Eu sempre sentiria falta dele.
Eu infelizmente estava gostando de Ronald Weasley.
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