Deslizes
17 Retorno
Retorno
Pansy
Adentrei meu quarto, fechando a janela com cuidado para que ninguém na casa ouvisse o barulho. Respirei fundo sentindo minhas pernas tremerem pelo esforço de subir a escada externa e lateral, pelo frio, e pelo nervosismo.
Não sabia se minha mãe ainda estava acordada, mas rezava a Merlin para que ela estivesse pensando que sua filha estava no quarto o tempo inteiro. Caminhei com passos cuidadosos até a porta e pousei delicadamente o ouvido na madeira.
Consegui escutar conversas, e pela entonação das vozes, parecia que minha família estava mais calma. Isso não me impediu de ficar com raiva. O motivo da minha pequena fuga invadiu minha mente no mesmo instante e eu me segurei para não abrir a porta e expulsar meu tio de casa.
Como ele se atrevia a isso? Eu não conseguia encontrar uma explicação plausível para meu próprio tio virar um Comensal da Morte e tentar puxar meu pai para o mesmo destino. No natal. Na minha casa. Debaixo do nariz da minha mãe.
Tranquei o maxilar e comecei a tirar o agasalho pesado e úmido do meu corpo. O cheiro do ruivo impregnava a peça de roupa e eu fechei os olhos, tentando me esquecer do momento fraco que tive ao lado dele.
Isso estava ficando cada vez mais comum...
Retirei a roupa, colocando meu pijama quente e entrando por debaixo das cobertas grossas da minha cama. Respirei fundo, tentando me acalmar e pensar com mais clareza. Meu pai nunca viraria um Comensal da Morte, eu confiava em sua força de vontade e sua personalidade... ou não.
Realmente depois da notícia de que meu tio havia se tornado oficialmente um seguidor de Você-Sabe-Quem, a confiança que eu tinha na minha família se tornou fraca e quebradiça.
Contive as lágrimas que queriam sair, o ódio que eu estava sentindo no momento ultrapassava a força da tristeza.
Lembrei-me de como o ruivo parecia calmo, apesar de tudo o que estava passando devido à guerra. Sua casa estava cheia, os amigos deviam estar comendo e conversando sobre assuntos mais saudáveis. A Toca, mesmo simples, me parecia muito mais convidativa do que minha mansão gelada.
Respirei fundo novamente e me encolhi na cama, puxando o cobertor para mais perto do rosto e fechando os olhos, procurando com isso, o sono.
[...]
Rony
Harry me olhava com paciência esperando que eu começasse a conversa. Estávamos sozinhos no quarto e eu sabia que isso era um momento raro, daqui alguns minutos o restante da família Weasley iria subir, e nossa privacidade seria nula.
– Estou preocupado com Pansy, Harry.
Ele continuou a me fitar e eu engoli em seco, me ajeitando na cama e passando a mão no rosto.
– O tio dela virou Comensal da Morte... e... e está pressionando o pai dela para tomar o mesmo caminho.
Senti que o ambiente no mesmo momento ficara tenso. Harry se remexeu inquieto onde estava e ajeitou os óculos redondos.
– Sinto muito, Rony...
– Você não tem culpa, Harry...
Ele fitou o teto e coçou a garganta, me olhando novamente.
– Como ela está?
Não precisava nem perguntar, mas algo me dizia que Harry o tinha feito apenas para que a conversa não morresse.
– Dividida...
Assim como o restante do mundo bruxo. Pensei, mas não disse em voz alta, já não bastava Harry carregar um fardo e uma culpa que não era dele, não precisava ouvir novamente que alguns bruxos do nosso mundo estavam indecisos sobre qual lado se aliar.
– Sei como ela deve estar se sentindo... para falar a verdade, acho que a maioria está na mesma situação que a dela...
Eu ia responder, mas no momento que abri a boca, a porta se abriu rapidamente e Hermione entrou, com a testa franzida e uma expressão terrivelmente conhecida no rosto.
Tentei disfarçar minha surpresa ao vê-la e me deitei um pouco mais na cama, tentando por meio desse gesto demonstrar que a conversa que estava tendo com Harry era tranquila.
Mas Hermione não tinha o rótulo de garota mais inteligente da idade dela por motivo nenhum.
– Do que vocês estavam falando?
Perguntou, sentando-se na cama ao lado de Harry. Os olhos castanhos astutos correram entre mim e ele, enquanto esperava pela resposta. Eu tentei dizer a Harry para inventar uma mentira qualquer, mas eu sabia que seria inútil tentar algum movimento com Hermione de frente para mim.
– Nada de demais... estávamos falando sobre Quadribol. Minha irmã já foi dormir?
Perguntei, tentando fazer com que Hermione se esquecesse do assunto. Ela levantou uma sobrancelha e travou os lábios. Eram gestos característicos da garota, e eu sabia que seria inútil conseguir alguma distração por parte dela.
– Já está dormindo há horas, Ronald. O que vocês realmente estavam conversando? Ouvi algo sobre o mundo bruxo.
Respirei fundo, tentando controlar minha inquietação. Harry me olhou.
– Acho melhor dizer a ela o que está havendo.
Merda, eu mataria Harry por isso. Não poderia ter me ajudado mais? Se ele falasse que Hermione estava escutando coisas sem sentido ela poderia até desistir de descobrir.
– O que está havendo? É algo em relação às Horcruxes?
Ela se alarmou. No nível de estresse que Hermione estava, eu não esperava reação diferente. Harry pousou a mão no ombro dela.
– Calma... não é nada relacionado às Horcruxes...
Ele voltou a me olhar e eu sentei-me na cama, derrotado. Odiava quando Harry concordava com Hermione em tudo. Respirei fundo e esperei pelo pior.
– Mione, você se lembra de Pansy Parkinson?
[...]
– HÁ QUANTO TEMPO ISSO ESTÁ ACONTECENDO?
O rosto dela estava vermelho e os cabelos pareciam mais cheios. Eu peguei a coberta e a puxei para meu corpo, como se isso me protegesse do ataque de fúria de Hermione. Sinceramente, eu não sabia se ficava com medo, ou se ria com a situação.
– Ah... Alguns meses?
Respondi. Ela bufou e começou a andar em círculos pelo quarto, esquecendo-se completamente de que todos estavam dormindo e que seu grito possivelmente acordara alguns.
– E por que não me contou antes?
– Por Merlin, Hermione! Não é nada de demais!
Harry pegou o braço dela e puxou-a para o colchão, fazendo-a se sentar. Eu o agradeci mentalmente por isso, Hermione já estava perigosamente parecida com um leão da Grifinória.
– Não é nada de demais, Ronald? Você já pensou nas consequências que isso pode ter?
Franzi o cenho e pensei em todas as possibilidades de continuar o que estava tendo com Pansy, mas realmente não pude responder a pergunta, eu nem sabia qual era minha ligação com a menina, para dizer a verdade.
– Er...
– Ela é amiga de Draco Malfoy, Ronald. Sonserina. E tem fama de ser uma das garotas mais maldosas de Hogwarts, apenas pelo fato de gostar de fazer intriga!
Não gostei muito do que Hermione me disse, mas eu entendi perfeitamente seu argumento. Ela a via com outros olhos, e para dizer a verdade, eu também já pensara isso de Pansy. Como poderia dizer que ela estava errada?
Não poderia.
– Mione... ela não é assim...
– Você disse algo para ela?
– Sobre?
– Horcruxes!
Falou em um tom um pouco mais baixo. Eu ia responder, mas Harry se adiantou.
– Tenho certeza de que Rony não disse nada sobre esse assunto com Pansy, Hermione.
A garota se acalmou um pouco e me olhou para analisar minha reação. Eu ergui as duas sobrancelhas para ela, e ela pareceu acreditar na minha inocência.
– Ela sabe de algo?
– Só que estamos com problemas... mas creio que isso é visível para qualquer um que estude em Hogwarts.
Ela não objetou. Sabia que eu estava com a razão. A guerra estava no auge e os bruxos não eram burros. Levantou-se e colocou o cabelo cheio para trás da orelha. Caminhou até sua cama, que ficava mais longe da minha, e se sentou, pegando a varinha.
– Acho que precisamos dormir, amanhã temos que acordar cedo para voltar a Hogwarts.
Concordei imediatamente, não querendo estender a conversa. Harry retirou os óculos e se deitou. Copiei o seu gesto, mas Hermione continuou sentada na cama. Olhei para a garota e ela parecia travar uma luta interna.
– Rony?
Grunhi algo incoerente para dizer que estava a escutando.
– Acha que pode confiar nela?
Pensei por alguns segundos e não cheguei a nenhuma conclusão. Não sabia se podia confiar inteiramente em Pansy, mas sabia que ela confiava em mim, senão não teria chorado nos meus braços e me contado o que estava se passando com sua família, não?
– Não sei, Mione... esquece isso.
Uma sensação desconfortável começou a tomar conta do meu corpo. Eu queria poder responder a pergunta de Hermione com convicção, mas sabia que não podia confiar totalmente em Pansy.
– Nox.
A voz da garota retumbou pelo quarto, no mesmo momento que a única fonte de luz da sua varinha apagou-se, deixando o cômodo completamente escuro. Relaxei no mesmo instante. Estava cansado, e com sorte conseguiria acordar inteiro para voltar a Hogwarts.
Não demorou muito para que eu ouvisse as respirações pesadas de Hermione e Harry, e para que eu conseguisse achar o meu próprio sono.
[...]
Pansy
Estava ansiosa para voltar a Hogwarts, pela primeira vez eu preferia o castelo à minha casa. Uma sensação de alívio percorria meu corpo, alívio por ter saído do ambiente tenso que passei nos dias de natal.
Abaixei a cabeça, ficando envergonhada dos meus próprios pensamentos. Não queria detestar minha família e minha própria casa, e não queria demonstrar fraqueza, mesmo que essa fraqueza só se revelasse para mim. E para ele.
Onde o ruivo estava? Havia andado pelo corredor do trem de Hogwarts diversas vezes e não conseguia vê-lo. Estava na cabine dos monitores esperando ele entrar, para que eu pudesse lhe dizer que estava tudo bem, que não passou de um susto e que ele não precisava achar que eu era fraca para aguentar a pressão da guerra.
Mas ele não aparecera.
Estava com Potter? Certamente... senão já teria o visto.
A porta se abriu e eu tentei não demonstrar minha ansiedade ao me virar para trás e ver quem havia entrado.
Draco Malfoy parecia mais cansado do que normal. As olheiras acinzentadas, antes raras, agora estavam mais comuns no seu rosto. O cabelo que era sempre alinhado estava um pouco embaraçado, como se o garoto tivesse passado a mão várias vezes pelos fios quase brancos em um gesto de ansiedade.
Franzi o cenho, mas não disse nada. Tinha muito tempo que eu não conversava com Draco, e ele não parecia muito atento a esse fato. Para dizer a verdade, ele estava alheio a tudo o que se passava à sua volta.
Ele sentou-se em um banco longe de mim, olhando pela janela, o olhar vazio...
Não fiquei muito tempo o fitando, porque logo quem estava na minha mente era o Weasley. Sabia que não o veria no trem, e se eu tivesse sorte, esbarraria com ele no jantar de boas-vindas.
Quem sabe?
Remexi-me inquieta e deixei meus olhos vagarem pela paisagem que passava lentamente pela janela igual Draco estava fazendo.
Quem sabe...
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