Deslizes
8 Quadribol
Quadribol
Rony
Era véspera de jogo de Quadribol. Estávamos no final do dia. As últimas aulas do dia haviam sugado toda a energia que ainda tinha em nossos corpos, e mesmo assim Hermione estava com livros esparramados pela mesa do Salão Comunal e escrevia freneticamente em um pedaço de pergaminho.
Harry olhava para ela, a mão pousada no queixo, sustentando a cabeça que insistia em cair por causa do sono. Eu estava deitado no sofá, olhando as chamas da lareira e pensando em tudo o que ele havia falado para nós, minutos antes.
As aulas de Dumbledore estavam sendo cada dia mais produtivas na visão de Hermione, mas a cada vez que Harry entrava pela porta e falava mais uma lembrança da adolescência de Você-Sabe-Quem, eu ficava mais confuso. Por mais que eu me esforçasse, eu não conseguia entender a conexão que cada lembrança fazia uma com a outra. Hermione sempre tomava notas do que Harry descrevia para ela em um pedaço de pergaminho, e nesse momento a menina estava inclinada sobre um, escrevendo sobre Tom Riddle.
Meus olhos começaram a se fechar, como se cada pálpebra pesasse duas toneladas. Hermione bufou, jogando os pergaminhos para cima, e eu me assustei, sentando-me no sofá no mesmo instante.
– Assim não dá! Vocês estão dormindo!
Olhei para Harry e ele estava sentado também, um pouco grogue de sono, o cabelo mais bagunçado do que o normal. O rosto de Hermione estava vermelho. Se a situação não fosse tão caótica e eu ainda tivesse força, eu poderia até rir.
– Estamos com sono, Mione. Amanhã temos jogo.
Se o objetivo de Harry era acalmá-la, ele não tinha o alcançado. Ela se levantou de um salto e pegou os pergaminhos na mesa, colocando-os acima da pilha de livros e jogando-os no braço, enquanto olhava para nós dois com seu ar de indignação e começava a caminhar para as escadas.
– Se para vocês dois o futuro da sociedade mágica é menos importante que um jogo de Quadribol...
Harry já abria a boca para retrucar, mas ela desejou boa noite e subiu para o dormitório feminino. Harry retirou os óculos e esfregou os olhos. Eu dei de ombros. Meu amigo me olhou.
– Hermione está ficando obcecada com isso.
Ele se levantou e eu acompanhei seu gesto, passando a mão no pijama amassado. Harry começou a subir as escadas lentamente e eu o segui.
– Eu acho que não podemos fazer nada até que Dumbledore nos diga o objetivo dessas aulas.
Chegamos ao quarto e eu me calei no mesmo instante. O que Harry estava fazendo com Dumbledore era um assunto particular, e meu amigo só tinha permissão para contar a mim e a Hermione. Neville sabendo disso iria causar alguns problemas.
Harry se deitou, tirando os óculos de aros redondos e colocando-os em cima do criado-mudo como de costume. Desejou-me boa noite e logo em seguida apagou. Eu me virei de costas para ele e não demorei muito a dormir.
[...]
Focava meus olhos em um pedaço de frango que estava na minha frente, tentando ficar alheio à conversa que era travada na mesa da Grifinória. Mas com os gritos de Dino chegando cada vez mais altos nos meus ouvidos, eu não estava tendo muito sucesso.
O dia do meu primeiro jogo havia chegado e eu só pensava em fugir de Hogwarts para não passar vergonha em frente a todos os alunos da escola. Eu sabia que havia treinado muito no sábado e estava pronto. Mas cada vez que alguém batia em minhas costas e me desejava boa sorte como se eu fosse o único responsável pela vitória, meu psicológico ficava cada segundo mais abalado.
Meu estômago estava começando a sentir isso.
Hermione percebeu meu nervosismo. Ela era a única que não estava empolgada em demasia por causa do jogo. Empurrou um copo de água para mim. Eu olhei para o líquido, ele tinha uma coloração estranha, parecia sujo.
– Tome.
Era uma ordem. Eu conhecia esse tipo de tom de Hermione. Não objetei e engoli o líquido em um só gole. Ele desceu fazendo borboletas dentro do meu estômago e de repente eu senti um resfriamento em cada célula do meu corpo, seguido de alívio. Olhei para ela, decidindo se a agradecia ou se a xingava.
– Você me deu uma Poção do Relaxamento?
Ela assentiu com a cabeça e eu engoli em seco. Isso não era bom. Inclinei-me para ela, apoiando o cotovelo na mesa de madeira escura.
– Hermione, sei que suas intenções foram as melhores. Mas não acha que isso pode me prejudicar? Digo... eu preciso sentir a tensão do jogo.
Ela arqueou as sobrancelhas em um gesto característico e pegou um livro, o abrindo em uma página específica. Eu continuei a olhando.
– Não seja ridículo, Ronald. Se eu não desse essa poção a você, você não duraria dois minutos em cima de uma vassoura.
Eu tranquei meu maxilar e abaixei a cabeça, terminando de comer meu almoço. Escutei o baque do livro pesado de Hermione bater na mesa e voltei a olhar para ela.
– Rony, a poção não vai estar tão forte no final do dia. Fique tranqüilo.
Ela se levantou e pegou a mochila, saindo do Salão Principal. Harry pegou meu braço e eu fui puxado para a mesma rota, tendo tempo apenas tempo de pegar minha mochila e terminar de engolir o resto do suco.
[...]
Pansy
A escola inteira estava agitada. Os alunos seriam liberados da última aula a fim de caminharem para o estádio de Quadribol e se postarem na imensa arquibancada.
Draco e os meninos estavam ansiosos. Não pela partida em si, mas pelo fato de terem a oportunidade perfeita para sabotar o time de Potter. Eu estava animada também, e seguia o grupo discretamente até a entrada à esquerda, que nos levava para a parte de baixo das arquibancadas.
De onde estávamos; eu podia ver os calçados dos alunos pisando forte, como se cada pessoa ali estivesse pulando. Os gritos chegavam altos até meus ouvidos, mesmo que um pouco abafados devido à madeira que nos separava.
Draco parou em um lugar em específico, uma luz batia em seu rosto e eu pude ver que havia um buraco lá, suficiente grande para duas pessoas observarem o jogo sem serem vistas. Ele olhou para trás, certificando de que todos estavam presentes. Quando seus olhos pousaram em mim, Draco fez uma careta.
– O que está fazendo aqui?
Todos os meninos viraram-se, ficando um pouco surpresos com minha presença. Eu olhei para Draco sem entender o motivo da pergunta. Nott pigarreou e também olhou para o loiro. Cruzei os braços.
– Há algum problema com minha presença? – perguntei.
Nenhum ousou responder, mas Draco franziu o nariz e voltou a olhar para o buraco na arquibancada. Ele retirou uma varinha de madeira clara do bolso. Eu conhecia Draco o suficiente para saber que a varinha não pertencia a ele. Ele a roubou? O loiro olhou para mim.
– É só você prometer não fofocar com ninguém depois do jogo.
Eu dei dois passos à frente e Nott recuou, assim como Crabbe e Goyle. Blaise continuou na mesma posição, mas carregava um ar divertido no rosto.
– Está me chamando de fofoqueira, Draco?
Minha mão foi em direção ao bolso, segurando a varinha apenas como precaução. Mesmo que eu fosse amiga dele, eu não deixaria um garoto metido e com o cabelo milimetricamente arrumado me xingar de qualquer coisa.
Draco não me respondeu, em vez disso olhou novamente para o buraco. Foi quando os pés acima de nós fizeram barulhos irritantes e ensurdecedores. Os alunos estavam gritando mais e pulando. De onde eu estava eu podia escutar a narração do jogo de Quadribol. Havia começado.
Crabbe e Goyle estavam atrás de Draco, como se fossem dois seguranças particulares. Eu duvidava de que fosse algo muito diferente disso. Blaise apenas se apoiou em uma madeira, cruzando os braços e observando tudo de longe. Nott ficou entre mim e Draco. Eu aproveitei sua indecisão para me deslocar entre os dois e ficar ao lado do loiro, onde eu podia observar perfeitamente o jogo.
Os jogadores eram apenas borrões vermelhos e azuis. Eu só conseguia distinguir tudo por causa das cores extremamente diferentes. Mas meus olhos procuraram apenas uma pessoa, e essa, eu conseguia ver perfeitamente.
O goleiro não se mexia muito.
O Weasley estava na extremidade da esquerda, bem perto de onde estávamos. Eu escutava a narração com cuidado e meu coração estava acelerado com a possibilidade de acontecer algo de inesperado no jogo.
O que poderia acontecer de inesperado em um maldito jogo de Quadribol, Pansy?
Eu pensei, balançando milimetricamente a cabeça para não deixar ideias tolas entrarem na minha mente.
Com a narração, eu pude perceber que a Grifinória não estava indo mal, apesar do jogo estar sendo bem disputado. Draco começou a ficar inquieto ao meu lado quando a Weasley marcou o terceiro ponto para a Grifinória. O loiro olhou para os meninos. Blaise não se mexeu, mas os outros três chegaram mais perto de nós dois. Eu escutei a risada de Draco mesmo com a gritaria do estádio.
– Acha que já está na hora?
Os meninos não responderam, apenas sorriram. Esse foi o aval para Draco pegar a varinha desconhecida e apontar para alguém em específico. Depois que a magia foi feita, eu vi um jato quase transparente sair da ponta da varinha e parei, lembrando-me subitamente da conversa que havia tido com os meninos no café da manhã do sábado.
O alvo era ele. Eu sabia disso. Olhei rapidamente para o campo de Quadribol e meu pescoço estalou com o movimento brusco. Procurei um ponto vermelho em frente aos três aros da Grifinória e quase suspirei de alívio quando vi que o ruivo estava bem.
Mas algo estava errado. Ele parecia atordoado com alguma coisa, como se alguém tivesse lançado um Obliviate diretamente em seu cérebro. Ele parou de se mover na vassoura e eu cerrei os olhos, tentando adivinhar o que poderia estar acontecendo.
De repente a vassoura de segunda mão do ruivo acelerou e parou, e o corpo dele balançou perigosamente, fazendo o menino vincar a testa, sem entender o que estava acontecendo. Parecia que o objeto tinha vida própria. Eu conhecia essa magia. Potter havia sido vítima dela no seu primeiro ano de Hogwarts. Lembro-me perfeitamente dela porque eu e todos os sonserinos rimos do Menino-Que-Sobreviveu na época.
Mas no momento isso estava longe de ser engraçado. Pelo menos para mim. Draco e os meninos riam quando a vassoura do ruivo rodopiava perigosamente em volta dos aros de prata. Eu prendi a respiração.
– O que acham de um pouco mais de força?
Eu olhei para Draco, mas não disse nada. Um sorriso malicioso percorreu o rosto de Nott e Draco apontou novamente a varinha para o ruivo, murmurando algo incoerente. O conhecido jato quase transparente saiu da ponta do pedaço de madeira e eu olhei para o Weasley.
A vassoura agora fazia movimentos mais bruscos, ele estava tentando controlá-la e eu podia escutar os gritos de indignação da platéia. Draco ainda apontava a varinha, como se quisesse que o feitiço apenas ficasse mais forte.
Eu escutei um barulho vindo do campo e me virei. A vassoura do ruivo havia batido em um dos aros prateados e ele estava segurando o objeto apenas com uma mão, quase despencando de uma altura de quase cinquenta metros. Eu engoli em seco.
Desliguei o meu senso sonserino e meu cérebro entrou no piloto automático. Sem pensar duas vezes eu peguei fortemente o pulso de Draco e abaixei a varinha. Ele olhou para mim, incrédulo. A vassoura ainda estava desgovernada, mas o Weasley tinha conseguido segurar com a outra mão.
– O que está fazendo? – ele perguntou.
Eu engoli em seco.
– Draco, você pode matá-lo. Isso não ficará bem se alguém nos descobrir.
Ele riu e apontou a varinha novamente para a vassoura, fazendo-a girar. Eu escutava a narração e parecia que os dois apanhadores travavam uma guerra para pegar o pomo de ouro. Sem pensar muito, peguei minha própria varinha e apontei para o buraco, soltando uma faísca vermelha, denunciando a presença de alunos em um local proibido. Draco finalmente abaixou sua varinha e olhou para mim com fúria.
– O que você fez, sua idiota?
Eu não respondi, apenas o olhei com ódio e cuspi. Ele desviou no mesmo momento por reflexo. Vi Draco levantar a mão, mas antes que seu braço abaixasse para desferir o golpe, foi barrado por uma mão negra. Blaise olhava para Draco incrédulo.
– Você não quer fazer isso, Draco.
O loiro trancou o maxilar e me olhou.
– Isso não vai ficar assim. – ameaçou.
Eu levantei a sobrancelha em descrença. Se Draco me batesse, o mínimo que sofreria seria uma Cruciatus. Nott pegou o braço de Draco.
– Vamos, Draco. Daqui a pouco alguns professores estarão aqui.
Os meninos saíram rapidamente de onde estávamos e eu me dei conta de que o local não seria apropriado para eu ficar. Eu não tinha uma desculpa para estar onde estava. Olhei apreensiva para o campo. O Weasley estava na vassoura, salvo. Suspirei de alívio. Mas algo me chamou a atenção. O apanhador da Corvinal exibia uma bolinha dourada para a arquibancada, eu escutava e via a massa azul comemorando.
Foda-se. Eu não tinha nada a ver com uma maldita partida entre Grifinória e Corvinal. Eu só não queria o Weasley despedaçado no gramado.
Virei-me e saí.
[...]
Rony
– Rony! Você está bem?
Harry vinha correndo em minha direção, junto com Hermione e Ginny. Eu engoli em seco e tirei a proteção da cabeça.
– Sim...
Abaixei a cabeça com a vergonha da derrota. Eu sabia que parte disso era culpa minha. O que havia dado na minha vassoura? Eu sabia que não deveria ter entrado em campo com uma maldita vassoura de segunda mão. Hermione me observava com cuidado.
– Rony, sua vassoura foi azarada.
A frase de Hermione fez sentido. Eu olhei para o trio e Harry confirmou com a cabeça. Ginny apenas me olhava com pena. Mas nenhum parecia incomodado com a derrota.
– Mas...
Harry fez um gesto com a mão para me interromper.
– Foi a mesma azaração que Quirrell lançou na minha vassoura no meu primeiro ano, Rony.
Eu me lembrei exatamente do primeiro jogo de Harry, sua vassoura estava descontrolada igual a minha. Engoli em seco quando Ginny começou a andar com Hermione. Harry fez um gesto para que eu o seguisse.
– Você não capturou o Pomo.
Harry olhou para mim e parecia medir as palavras.
– Eu fiquei preocupado com você. Desculpa. Foi erro meu.
Eu fiquei indignado. Eu sabia muito bem que eu não morreria se caísse de uma maldita vassoura. Dumbledore não deixaria tal fato acontecer. Eu ia responder Harry, mas estávamos chegando perto da arquibancada. Ele encontrou os meninos, todos estavam com cara de luto, mas ninguém falou nada.
Eu só queria ficar sozinho. Comecei a andar devagar. A massa vermelha e dourada saía do campo à minha frente. Harry me olhou, mas eu apenas fiz um gesto com a mão para que ele continuasse a andar. Meu amigo me entendeu perfeitamente. Eu suspirei, trancando o maxilar. Fechei os olhos.
Quem foi o filho da puta que azarou minha vassoura? Justo no meu primeiro dia? Não poderia esperar eu fazer uma boa partida? Isso me cheirava a sonserinos. Chutei uma pedra no meio do caminho e joguei a vassoura no meu ombro, caminhando em direção ao castelo com mais raiva do que antes.
[...]
Pansy
Eu andava pelos corredores tentando achar o caminho mais fácil para as masmorras. O castelo estava cheio e barulhento. Uma multidão azul caminhava para o Salão Principal, levando as bandeiras e gritando. Eu já estava ficando estressada.
Virei-me para o corredor à esquerda tentando sair da bagunça. Escutei alguém me chamar de longe. Virei-me para trás, olhando Draco caminhar com Nott ao seu lado. Tranquei meu maxilar. Ele vinha em minha direção, mas não parecia chateado nem com raiva. O que ele carregava em sua expressão era algo mais temido. Draco sorria maliciosamente.
Ele chegou até mim e parou. Eu apenas arqueei as sobrancelhas para ele.
– Já sabemos o motivo do seu chilique lá fora, Pansy.
Eu continuei na mesma posição. Ele não iria me tirar do sério. Nott olhou para ele e Draco sorriu, virando-se para o outro lado e caminhando na direção contrária.
– Pode ficar tranquila, não contarei a ninguém que você tem uma queda pelo Weasley pobretão.
Meu coração se acelerou e de repente eu me senti quente, não de vergonha, mas de uma raiva sem controle. Engoli em seco e calmamente tirei minha varinha do bolso, tentando não demonstrar nada. Eu conhecia Draco o suficiente para saber que demonstrar raiva seria quase uma confirmação do que ele havia acabado de me falar.
– O que você disse?
Ele parou de chofre. Nott também. Draco não pegou sua varinha, o garoto apenas se virou para me fitar e sorriu.
– Preocupada com o Weasley?
Um raio vermelho quase o atingiu e ele fez uma careta. De tudo o que ele esperava, a maldição Cruciatus seria a última coisa. Nott se assustou quando eu dei mais um passo em direção aos garotos. Eles se apressaram em correr pelo restante do corredor.
– Se espalhar mentiras sobre mim, a próxima será Avada Kedavra!
Draco correu e Nott não demorou muito a sumir da minha vista. Claro que era um blefe, eu poderia ser ruim em relação a algumas coisas, mas lançar uma Maldição da Morte já era algo para se pensar com mais cautela. Errar a Cruciatus foi proposital, eu só queria assustar os meninos. Claro que não ficaria muito abalada se o feitiço atingisse Draco, mas minha ideia inicial não era essa.
Meu sangue esquentou quando me lembrei dos insultos de Draco. Proteger o Weasley foi um erro. Um erro que geraria boatos irritantes por todo o castelo se o loiro azedo resolvesse abrir a boca. Como eu fui tão estúpida em relação a isso?
Eu deveria ter deixado o ruivo traidor de sangue cair pelo campo de Quadribol. Que mal faria? Claro que Dumbledore nunca deixaria um aluno morrer em uma partida de Quadribol. Puxei os cabelos e bufei, em um gesto particular de irritação. Depois agradeci a Merlin que o corredor estava deserto.
Respirei fundo e recomecei a andar, me xingando de estúpida por todo o trajeto. Eu precisava me acalmar antes de voltar para o Salão Principal e comer. Pensei seriamente em tomar um banho e depois voltar. Mas eu sabia que não conseguiria paz naquele banheiro bagunçado.
Dei de ombros e segui o trajeto para o banheiro dos monitores, ainda fervendo em raiva. Achei a porta familiar do banheiro masculino, ao lado da do feminino que estava interditado e sorri, abrindo-a. Havia sentido falta de um lugar como aquele parar tomar um banho demorado. O banheiro dos monitores masculinos era exatamente igual ao feminino.
Eu entrei com cautela para me certificar de que não havia ninguém. Fechei a porta e tranquei com um feitiço, colocando uma senha na tranca. A porta se abriria apenas pelo interior. Um feitiço que eu orgulhosamente havia inventado.
Dei dois passos à frente no pequeno corredor. Foi quando algo me chamou a atenção. Um barulho mínimo de chuveiro chegou aos meus ouvidos e eu estaquei. Havia alguém ali? Depois eu percebi uma ardência nas minhas vestes e procurei o objeto, reconhecendo a moeda que McGonagall havia nos dado. Burra.
Engoli em seco e pensei em sair sem ser vista, mas quando ia me virar, vi vestes de jogador empilhadas em um canto do chão de mármore negro.
Minha curiosidade se despertou em um segundo e eu tirei meus sapatos, junto com minhas meias para não fazer barulho. A pessoa que estava ali era muito desatenta por não ter percebido o barulho da porta.
Comecei a andar até chegar à parte final do pequeno corredor e olhei para o lado. O que eu vi fez meu coração quase saltar pela boca.
O chuveiro estava ligado, mas não havia ninguém lá. A banheira estava cheia, mas também não havia ninguém. A pessoa que eu olhava agora estava apenas com sua roupa íntima negra, olhando-se no espelho. Carregava um olhar que mesclava chateação e raiva. Eu engoli em seco. Ele não me viu.
Suas costas eram largas, traçada apenas por uma linha que a dividia. Ele pousava as mãos na pia de mármore preto e os braços estavam tensos, como se ele estivesse pensando em algo complexo. As coxas... bom... eram as coxas. A pele era branca, salpicada com um pouco de sardas no ombro. Os cabelos eu deixei por último, sabendo que quando observasse os fios vermelhos, eu não me conteria em me aproximar.
Foi o que eu fiz. Dei dois passos em direção a pia e pela primeira vez o ruivo se virou para mim, assustado com minha presença. Eu sorri para ele e ele engoliu em seco.
– Olá, Weasley.
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