Deslizes
12 Cumplicidade
Cumplicidade
Pansy
Abri os olhos e pisquei-os várias vezes até entender o porquê de ter acordado. Um fraco feixe de luz entrava pela cortina da janela onde eu estava e fazia com que meus olhos lacrimejassem. Eu bufei, xingando baixinho alguma menina do quarto que não teria fechado direito a cortina na noite anterior.
Eu não precisava acordar cedo em um maldito dia de domingo. Revirei os olhos e tentei me levantar da cama para fechar a cortina e voltar a dormir. Foi quando eu senti um peso incômodo em cima da minha cintura.
Eu olhei para baixo e retirei as cobertas grossas. O sol bateu na pele branca dele, algumas minúsculas sardas salpicavam o braço forte que agora estava tombado no meu corpo. Eu engoli em seco e olhei para o lado, apenas me confirmando de que o dono do peso no meu corpo era Ronald Weasley. Merda, isso não devia ter acontecido.
Eu tentei me mexer novamente para sair da cama, mudar de roupa e sumir daquele lugar antes que ele acordasse. Seu braço fez uma força adicional e ele me puxou mais para perto do seu corpo. Não estava acordado, mas parecia que seu subconsciente me queria ali, no exato lugar onde eu estava.
Desisti e relaxei o corpo, olhando para o teto do lugar onde eu estava. Que lugar era aquele? E se alguém nos visse ali? Merlin! Alguém poderia abrir a porta a qualquer momento. Olhei novamente para o lado, ponderando quanto eu teria que sacudir o Weasley até ele acordar. Mas o ruivo estava em um sono pesado, com um rápido olhar eu pude concluir isso.
Seus cabelos estavam atrapalhados, dando um ar selvagem ao garoto, as cobertas que cobriam meu corpo completamente, estavam jogadas apenas abaixo da sua cintura. Mas as pernas estavam descobertas, expondo a parte do corpo do ruivo que eu mais gostava. Sua respiração era forte e compassada. As costas eram largas e os raios de sol agora batiam nessa parte do seu corpo, clareando ainda mais a pele e os fios de seu cabelo.
Eu olhava cada parte do ruivo, aproveitando-me momentaneamente que ele estava inconsciente para se dar conta do que eu estava fazendo. Eu consegui me virar um pouco, ficando de frente para ele. Sua boca era vermelha... e carnuda. Os olhos fechados mostravam os cílios claros. Eu levantei o braço, e percebi que ele estava trêmulo, no momento que minha mão foi em direção às mechas ruivas.
O cabelo era sedoso, e a cor me fascinava. Era linda... e era errado. Um Weasley no nosso mundo era apenas uma pessoa pobre e uma vergonha para a sociedade bruxa. Eu olhei novamente para o ruivo, a pessoa que antes eu achava ridícula, insípida e inodora. Meus pensamentos haviam mudado. Ele era quente, e demonstrou-se bastante útil na noite anterior.
Imagens rápidas do sábado à noite invadiram minha mente. Seu corpo quente, seus cabelos vermelhos, o prazer de senti-lo dentro de mim, suas mãos apertando cada parte do meu corpo... lágrimas...
Lágrimas? Merlin! Lágrimas! Como eu poderia ter chorado perto dele? Uma sensação de desespero começou a tomar conta do meu corpo e eu me mexi um pouco mais bruscamente tentando sair do aperto. Eu nunca mais conversaria com ele.
Idiota! Como você pode ter compartilhado parte de sua dor com alguém como ele?
Ele resmungou algo incoerente e eu olhei para ele, temendo que ele estivesse acordando. Mas ele apenas se mexeu um pouco e voltou a respirar fortemente. Eu permaneci imóvel, só depois de alguns segundos eu constatei que seria seguro me mexer sem acordá-lo.
Relaxei o corpo novamente, os meus olhos ainda o fitando. O ruivo não tinha me criticado quando eu me abri, ele apenas...
Um sorriso perpassou pelo meu rosto quando me lembrei do seu abraço, da cumplicidade momentânea, do seu carinho nas minhas costas, do seu beijo afável.
Eu tinha cometido um erro ao abrir meus sentimentos para ele, mas algo dentro de mim falava que isso não fora totalmente um erro. Eu me sentia... leve.
Meu braço voltou a se levantar, um pouco mais trêmulo pelas conclusões de segundos atrás. Eu não procurei seu cabelo dessa vez, meus dedos passaram levemente pelas suas costas, descendo um pouco.
– Isso é bom.
A voz rouca dele chegou aos meus ouvidos e eu estaquei, meu coração acelerou quando meu corpo constatou que o maldito ruivo estava acordado. Eu retirei rapidamente minha mão de suas costas e tentei sair da cama, mas ele apenas me abraçou mais forte, depositando um beijo na curva do meu pescoço. Eu ignorei o arrepio que correu pelo meu corpo.
– Bom dia.
Sua voz saiu embaraçada por causa do sono. Ele estava com a boca encostada no meu pescoço quando falou. Eu fechei os olhos, fazendo o possível para ficar o mais imóvel que eu conseguisse.
– Desde quando está acordado?
A risada quente dele bateu na minha pele. Seu braço fez uma força maior na minha cintura e agora eu podia sentir sua pele contra a minha por debaixo do cobertor.
– Desde quando você está tentando fugir de mim.
Merda, se isso era verdade, ele tinha sentido todos os toques em seu corpo, em seu cabelo, na sua pele...
Concluí que o melhor para mim seria sair dali. Eu cutuquei com a unha o braço dele e ele entendeu o que eu queria, retirando-o de cima de mim e me deixando livre pela primeira vez. Suspirei de alívio e saí da cama rapidamente.
Tentei ignorar a sensação estranha que percorreu meu corpo quando eu me virei para a janela, tentando ver em que parte do castelo estávamos. Parecia que meu corpo sentia falta do corpo dele, e por mais que eu ignorasse, ele sempre protestaria de alguma forma a falta de contato.
– Se quiser tomar um banho, há um banheiro ali.
Eu olhei para ele. O Weasley apontava para uma porta em anexo no quarto. Havia um banheiro ali? Que tipo de lugar é esse? Não fiz as perguntas em voz alta, em vez disso, acenei levemente com a cabeça e entrei no banheiro, trancando a porta e respirando fundo.
Não era grande, mas era lindo. E nesse exato momento era a desculpa perfeita para eu não encarar os olhos azuis do ruivo. Eu não queria olhá-lo nos olhos. E cada segundo que passava, eu achava ainda mais estranha a sensação que meu corpo estava tendo.
Por que eu não queria olhá-lo nos olhos? Por que essa necessidade de querer ficar perto dele? E por que essa falta de coragem de não ficar perto dele?
Muitas perguntas, nenhuma resposta.
E eu não queria ficar com tais pensamentos pela manhã. Eu poderia me dedicar a isso mais tarde, quando estivesse longe dele, mas não agora.
Entrei debaixo da água quente do chuveiro, ficando alerta a qualquer som vindo de fora do banheiro. Mas estava silencioso, e eu apenas aproveitei o banho relaxante, pensando como eu o encararia nos olhos depois da noite anterior.
Não pelo sexo, mas pela cachoeira de lágrimas que eu havia derramado ontem. Ele não tinha obrigações nenhuma de me confortar, e saber que ele foi carinhoso e fez isso sem reclamar, me deixava com mais raiva.
Fechei a torneira do chuveiro e me enrolei em uma toalha que estava ali, respirando fundo e fechando os olhos momentaneamente quando girei a maçaneta da porta para sair do banheiro.
Surpreendi-me quando vi o quarto vazio.
Eu corri para o quarto, pegando as peças de roupas que estavam jogadas em cada canto do chão. Tive tempo apenas de colocar a lingerie, logo que abotoei o sutiã no meu corpo, eu escutei o estalo da porta se abrindo e me assustei.
Mas era apenas ele.
O Weasley trazia uma bandeja com o que parecia ser o café da manhã. Eu fiquei na dúvida se sorria ou se ficava preocupada. Alguém poderia tê-lo visto. Seria praticamente impossível andar com uma bandeja assim por Hogwarts em um dia de domingo sem chamar a atenção.
Eu pigarreei e ele olhou para mim, dando um sorriso mínimo e depositando a bandeja na cama.
– Você ficou louco?
Ele voltou a olhar para mim, sentando-se na cama e pegando um pão, para levá-lo à boca. Ele franziu a testa, demonstrando que não havia entendido minha pergunta. Eu suspirei e passei a mão nos cabelos molhados.
– Alguém te viu?
Ele gesticulou negativamente com a cabeça, mas pela primeira vez, eu vi certa impaciência em seus gestos.
– Eu fui diretamente à cozinha. Sei alguns atalhos no castelo. Não sou burro, Pansy.
O ruivo me chamando pelo primeiro nome me alertou de que a noite anterior havia sido mais íntima do que eu me lembrava. Ele me olhou de canto de olho, vendo que eu não havia ficado muito confortável com esse pequeno momento e bufou, dando de ombros e se deitando novamente.
– Se não quiser comer, não coma.
Meu estômago roncou no mesmo instante. Eu me aproximei um pouco da cama e me sentei na ponta, pegando um pão pequeno e mordiscando. Ele permanecia calado, seus braços estavam cruzados para trás da cabeça e ele olhava para o teto. Estava pensativo.
– Posso saber em que está pensando? – perguntei.
Os olhos azuis me fitaram brevemente, mas se voltaram para o teto. Ele respirou fundo.
– Em tanta coisa...
Continuei a comer o pão enquanto esperava por uma resposta mais elaborada. Ele se remexeu inquieto na cama e me olhou.
– Tudo bem. Ontem você me confidenciou algo... e mesmo que eu ache essa sua insistência em ser fria bem irritante, acho que posso te responder apenas isso...
Ele se sentou na cama e me fitou.
– Harry está com problemas, Pansy.
Ele me disse a frase com simplicidade, mas eu pude sentir a preocupação fluir junto às palavras. Eu fiquei em estado de choque ao escutar o que ele havia me dito. Eu nem me preocupei em ficar inquieta ao ouvir meu primeiro nome de novo.
Se o ruivo fosse uma pessoa normal com amigos normais, eu não daria importância ao que ele estava me contando. Mas ele não era normal, e seu amigo também não. Seu amigo era Harry Potter.
E se Harry Potter estava com problemas, o mundo inteiro poderia estar com problemas. Tirando os Comensais da Morte.
Eu permaneci calada, olhando para ele, esperando por mais. Claro que ele não me contaria isso se os problemas de Potter fossem algo como mulheres ou preocupação com os N.I.E.M’s. Algo estava acontecendo. Algo importante. E sério.
– Bom... só posso te falar isso.
Ele sorriu minimamente, como quem pedia desculpas. Não conversou mais, seus olhos azuis fitaram a janela, ficando mais claros por causa da claridade que entrava pelo vidro. Ele estava calado, e mesmo que o ruivo estivesse presente no cômodo, ele parecia distante... como nunca havia ficado.
De repente eu percebi. Harry Potter estava com problemas. E se Potter estava com problemas, o que ele estava fazendo me entregando café na cama? Por que ele não ia ajudar seus amigos em vez de ficar tentando me agradar?
– Preciso ir. Coma um pouco, sim?
Ele anunciou, respondendo todas as minhas perguntas. Ele não iria ficar comigo. Tentei ignorar a sensação de vazio que já me perturbava apenas em vê-lo se mexer na cama para sair.
Eu engatinhei até ele e peguei seu rosto com as duas mãos. O ruivo me olhou, sua testa levemente franzida. Sem pensar muito, eu encontrei seus lábios em um beijo calmo, sem desejo, apenas para sentir a maciez de sua pele, a temperatura elevada de sua boca.
Ele correu as mãos pelos meus cabelos, acariciando levemente os fios enquanto se separava de mim. Seus olhos azuis me fitaram com cuidado, e apenas com um olhar, eu pude sentir que seria a última vez que teríamos um momento calmo como esse. Ele beliscou minha bochecha, levantando-se da cama.
– Espera!
Eu pedi, puxando seu braço. Ele me olhou curioso, e um pouco surpreso com o gesto repentino.
– Quando vou te ver de novo? – perguntei.
Ele sorriu. Não um sorriso de alegria. Era um sorriso diferente, como se ele estivesse me dizendo que não sabia a resposta. Ele deu de ombros e apontou para o café da manhã, saindo do quarto no mesmo instante.
De repente uma sensação de vazio se apossou do meu corpo. E eu fiquei estática.
Eu estava sozinha. Mas ao mesmo tempo, acompanhada de pensamentos perturbadores.
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