Deslizes
2 Cotidiano
Cotidiano
Pansy
Andava pelos corredores de Hogwarts apressadamente. A aula de Poções começaria em cinco minutos e Snape não era um professor que tolerava alunos atrasados. Mesmo que a aluna no caso fosse da Sonserina. Meus pulmões queimavam devido à respiração rápida e descompassada.
– Merda.
Um palavrão baixo saiu da minha boca quando vi a porta escura das masmorras já fechada. Respirei fundo e entrei na sala. A escuridão e o cheiro dos ingredientes estranhos me engolfaram no momento em que o barulho do estalo da porta se fechando chegou aos meus ouvidos.
Um homem parecido com um morcego aproximou-se, flutuando de uma forma estranha. Eu enrijeci.
– Está atrasada, Parkinson.
Eu não tentei retrucar. Olhei para o relógio de pulso que eu havia ganhado no último natal. Prateado e com pequenas serpentes vazadas. Eu estava apenas dois minutos atrasada. Claro que eu não falaria nada com o professor irritado que estava na minha frente.
– Me desculpe.
– Que não se repita. Não tolero atrasos na minha aula.
Mordi a língua para não responder, mas amaldiçoei-o mentalmente. Eu odiava ser corrigida, eu odiava que chamassem minha atenção, principalmente em público. Eu sabia que Snape tiraria pontos pelo meu atraso se eu fosse de qualquer outra casa, mas eu era da Sonserina.
Bela maneira de começar o ano em Hogwarts.
Segui para o único lugar que estava vazio, ao lado de Draco. Ele olhou para mim com um ar de superioridade antes de empurrar as instruções que eu havia perdido, logo depois sorriu, um sorriso mínimo. Eu não devolvi o gesto, corri meus olhos pela sala escura.
Eu odiava ter que dividir a sala com a Grifinória. Os estudantes de cachecol vermelho já adicionavam ingredientes no pequeno caldeirão à sua frente. Meus olhos percorreram um por um. Longbottom parecia atordoado, mas isso era uma cena rotineira demais para prender minha atenção. Patil estava com a testa vincada para seu caldeirão, que agora soltava bolhas amarelas.
Continuei observando os alunos até meus olhos pararem na famosa dupla inseparável, Potter e Weasley. O menino que sobreviveu espremia um verme qualquer para obter muco, o ruivo fazia cara de nojo e olhava o melhor amigo. Merlin, eu detestava aquela dupla. Além de Potter ter mais fama do que o Lorde das Trevas, ainda tinha seguidores que faziam questão de engrandecer ainda mais seu feito, que era nada mais que ser um garoto de sorte. O Weasley me incomodava mais, eu não entendia como uma pessoa de família sangue puro conseguia andar com sangue-ruins. Sangue-ruins iguais a Granger.
Meus olhos pousaram nela. A garota espremia um verme parecido com o de Potter, só que fazia aquilo com experiência, e jogava o muco obtido no caldeirão, que instantaneamente fez um chiado e começou a ficar verde. Granger e seu ar de superioridade acadêmica conseguiam ser mais insuportáveis que a dupla da mesa ao lado.
Alguém atrás de mim pigarreou e eu fechei os olhos, assustando-me. Eu sabia quem era. Olhei para cima e o nariz seboso de Snape estava perto dos meus ombros, ele me olhava com fúria.
– Você tem dez minutos, Parkinson.
Saí dos meus devaneios e engoli em seco, olhando para o pergaminho que Draco havia me mostrado pela primeira vez. Poção Wiggenweld. A poção que aumenta o vigor das pessoas. Por que eu iria precisar de uma poção dessas? Eu tinha dezessete anos, por Merlin! Bufei de forma impaciente, agradecendo mentalmente que Snape já havia se distanciado, e olhei para os ingredientes. Reprimi um gemido quando eu vi que Muco de Verme Gosmento era um deles. Eu odiava verme.
Saí da cadeira rapidamente e caminhei em direção ao acervo do aluno, procurando o maldito. Um pote cheio deles me chamou a atenção, mas quando eu fui pegá-lo, meus dedos foram barrados por uma mão masculina e branca. Olhei para o dono da mão e um ruivo me olhava com indiferença.
– Me desculpe. – ele pediu.
Realmente o Weasley não estava no seu momento mais atento. Se ele tivesse percebido para quem ele pedira desculpas, não iria se perdoar nunca. Dei de ombros e peguei rapidamente o pote, ele ficou para trás, procurando algo diferente.
Sentei-me novamente na cadeira e Draco respirou fundo com certa impaciência. Sua poção estava roxa e soltava bolhas estranhas. Eu olhei o pergaminho, a poção devia estar verde. Reprimi um sorriso e respirei fundo para não vomitar ao espremer o verme e ver o muco gosmento sair. Joguei no caldeirão e ele chiou. Olhei para Draco e ele arqueou as sobrancelhas para mim, me empurrando o resto dos ingredientes que ele não havia usado.
Eu joguei tudo no recipiente, tentando seguir a ordem e as instruções corretamente. Mas algo dera errado. A poção começou a ficar vermelha e depois escureceu. Parecia que eu tinha feito uma maldita poção negra, e não o que Snape queria.
O professor fez um gesto perceptível com a varinha e tubos de vidro flutuaram para todas as mesas.
– Guardem suas poções e coloquem seus nomes. Deixem na minha mesa ao sair da sala.
Eu tentei empurrar mais um pouco de muco para dentro do caldeirão, mas foi inútil. Snape me deu um olhar severo no mesmo momento e eu suspirei, colocando a poção negra no tubo e rotulando com meu nome.
Os alunos começaram a sair de cabeça baixa, a única que parecia realmente satisfeita com o resultado da aula era Granger. Peguei minha mochila que estava absurdamente pesada devido aos livros, passando a alça pelo ombro, saindo da sala e caminhando em direção ao corredor norte.
Já era hora do almoço. Todos da escola se agrupavam famintos no Salão Principal esperando o melhor banquete do dia. Graças a Merlin a aula de Poções havia acabado. Eu, como uma sonserina, deveria amar Poções, mas realmente não era uma matéria que eu me saía bem, e eu odiava me sair mal em algo.
Juntei-me aos sonserinos na mesa que ficava à esquerda, sentando-me ao lado de Draco, que travava uma discussão sobre Quadribol com Crabbe e Goyle. Eu revirei os olhos, mas mantive minha atenção focada no trio.
– Os treinos para os jogos começam essa semana.
Draco falou para seus dois capangas e Nott sentou-se ao lado do trio, subitamente interessado na conversa.
– Sabe quem é o novo capitão do time da Grifinória?
Todos se inclinaram ligeiramente para Draco, movidos pela curiosidade.
– Potter.
O nome do garoto que sobreviveu saiu como vômito da boca do loiro e Crabbe e Goyle riram. Eu continuei a comer minha comida, mas minha atenção ainda estava focada nos garotos.
– Amanhã Potter fará uma seleção para novos jogadores.
O sorriso na boca de Draco era maldoso. Eu sabia que ele estava querendo aprontar algo para cima dos grifinórios. De repente me senti completamente interessada na conversa.
– Acho que podemos dar uma força a eles, não?
Todos acenaram afirmativamente, um sorriso maldoso em todos os lábios. Voltaram a comer. Eu imitei o gesto e olhei para meu relógio de pulso, já estava quase na hora de subirmos para a aula de Adivinhação. Merlin, eu odiava aquela aula. Para ser sincera, a única aula que eu gostava era a de Defesa Contra as Artes das Trevas. Porque poderíamos pelo menos tentar machucar alguém da Grifinória quando praticávamos feitiços, mesmo que corrêssemos o risco de pegar uma detenção.
Um pigarro ao meu lado me fez sair dos meus pensamentos. Olhei para o dono do som e Draco me olhava com diversão.
– O que foi?
– Pensativa, Parkinson?
Vinquei a testa e fiz um gesto para Draco continuar o assunto com os meninos. Eu não tinha a mínima ideia do que estavam conversando.
– Não faça disso um hábito, senão se juntará à Lovegood.
Olhei com apreensão a loira na mesa ao lado, a mesa da Corvinal. A menina mencionada usava um colar de rolhas e lia uma revista chamada O Pasquim que estava de cabeça para baixo. Sinceramente, se um dia eu me juntasse a tal ser humano, eu pediria para me matarem.
Risadas chegaram aos meus ouvidos e eu voltei a minha atenção para nossa mesa. Todos riam da piada de mal gosto de Draco, menos eu.
– Vamos, temos que subir.
Puxei minha mochila novamente para meu ombro, levantando-me. Todos os alunos saíam pela porta grande a fim de caminharem para as aulas. A massa de sonserinos pegou o corredor da esquerda para subir para a aula de Adivinhação, seguidos pela massa de alunos da Lufa-Lufa.
Draco me seguia, junto com Crabbe e Goyle, logo depois, Nott e Blaise se juntaram a nós. Todos conversavam possíveis maneiras de azarar os testes de Potter. Começamos a subir as escadas que davam para a Torre Norte. Merlin, não sei por que aquela louca fazia questão de nos ensinar coisas absurdas no fim do mundo, eu sempre chegava bufando.
Mesmo detestando a professora Trelawney, eu a preferia a Firenze, pois se optássemos por estudar com o centauro, dividiríamos a sala com os alunos da Grifinória, e um dia inteiro de dourado e vermelho não era uma ideia de dia feliz para mim.
Depois do Ministério da Magia enfim concordar com Dumbledore sobre a volta do Lorde das Trevas, o diretor havia feito algumas mudanças na escola. Trelawney havia voltado, mas dividia as aulas com Firenze. O professor de Defesa Contra as Artes das Trevas era Moody novamente, mas dessa vez, o verdadeiro.
Eu quase ri ao lembrar o acontecimento com o velho Moody. O Lorde das Trevas quase pegara Potter. Mesmo com os boatos de que Dumbledore estava ficando velho e caduco, minha mãe e meu pai já haviam me falado de que o retorno do Lorde não demoraria a acontecer.
– Acho que umas vaias vão deixar o Weasley inseguro.
A voz de Blaise me fez voltar à realidade, estávamos quase no último degrau da maldita torre. Eu arfava de cansaço. Subir uma escada gigantesca não era tão mal, mas subir a mesma escada com a mochila cheia de livros inúteis sobre Adivinhação era quase impossível. Quase.
Eu olhei para o grupo, Draco ria da ideia de Blaise. Todos acenaram afirmativamente e entraram na sala escura e abafada. Trelawney já colocava as xícaras vazias em cima da mesa, separando-as em três por mesa. Eu caminhei em direção à mesa de cima, perto da janela. Minha preferida, ou a menos pior. Dava para apoiar na parede e dormir sem que a professora visse. A cortina tampava convenientemente o rosto inteiro.
Joguei minha mochila ao lado e me sentei, esperando a aula começar. O cheiro doce impregnava a sala toda, me deixando sonolenta. Suspirei para reunir coragem o suficiente para aguentar o resto do dia com uma aula sobre como ver o futuro pela borra do café.
[...]
– Ei! Pansy!
Draco me chamou e eu me virei para fitá-lo. Desacelerei os passos para deixá-lo me alcançar. Ele parou ao meu lado, junto com Crabbe e Goyle, e sorriu.
– Amanhã depois das aulas da tarde será a seleção para os novos jogadores da Grifinória.
Eu sorri para ele, já entendendo a insinuação por trás de sua fala.
– Nos vemos no campo depois da aula, Draco.
Ele assentiu para mim e fez um gesto para os outros dois meninos. Eles o seguiram e logo foram em direção ao Salão Principal. Eu suspirei, andando cansada pelos corredores do castelo. As aulas do sexto ano eram pesadas e tensas devido aos N.I.E.M’s que faríamos no ano que vem. E ser monitora ainda tomava um tempo precioso que antes eu dedicava só a mim.
Claro que ser monitora tinha algumas vantagens. Podíamos azarar de propósito alunos do primeiro ano e fingir que era alguma punição, e tínhamos o direito de perambular pelo castelo depois de todos os alunos irem dormir. Mas o que alegrava meu dia ao pensar no meu cargo de monitora era o banheiro. Gigante. Possuía diversas banheiras e torneiras de todos os tamanhos que soltavam água de todas as cores e aromas.
Se meus deveres de monitora tomavam o tempo que eu dedicava a mim, eu poderia facilmente recuperá-lo com um bom banho naquele banheiro gigante.
Cheguei ao Salão Principal apinhado de estudantes famintos. Todos conversavam em voz alta e meu estômago roncou quando eu vi a mesa cheia. Sentei-me na mesa da Sonserina e suspirei, pegando um pedaço de torta de frango e enchendo meu copo de suco de abóbora.
Os meninos conversavam animados sobre os jogos de Quadribol. Draco achava que esse ano a Taça seria nossa, pois Potter não teria jogadores bons o suficiente para ganhar do time da Sonserina.
Eu concordava com ele. Os gêmeos ruivos haviam saído de Hogwarts ano passado. Olívio Wood já tinha completado sua formação. O que restava? O famoso menino-que-sobreviveu?
Eu não me interessava muito por Quadribol, mas se isso significava competição entre casas, já estava mais que na hora da minha participação ser mais ativa.
E isso incluía minha pessoa azarando os testes para os novos jogadores amanhã. Sorri discretamente ante aquele pensamento e voltei a comer o pedaço de torta.
Amanhã seria um dia longo.
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