- Juuri! Você não deu notícias... Está bem?

- Preciso de sua ajuda. Ainda estou fugindo, mas no momento não tenho onde me esconder. Pode me ajudar...?

- Acho que sim... Estou indo para aí.

- Espere amanhecer! Me encontre junto a ponte. Estarei com uma amiga, ela é loira, tem olhos verdes, te levará até mim. Onde poderei ficar?

- Ainda não sei. Eu moro no centro da Associação dos Caçadores, mas tenho... Já sei o que posso fazer, mas não é uma certeza. Quer arriscar?

- Sim, eu arrisco.

- Estarei aí as sete da manhã.

- Estarei esperando.

Assim que desligou, discou rapidamente outro numero.

- Alô. –a voz grave do outro lado estava séria.

- Touga, preciso da sua ajuda.

- Kaien?

- Disse que se eu precisasse, deveria te procurar.

- O que há?

- Quero sair da Central. Preciso de um lugar para ficar.

- Já disse mil vezes que pode vir quando quiser.

- Mas preciso levar Juuri comigo.

- Como?

- Você entendeu. Diga, se não quiser aceitar, pois me dará mais tempo para pensar em outra solução.

- Kaien!

- Estou decidido a deixar tudo para trás, Touga. E isso inclui a vida de caçador e você. Não tenho mais tempo.

- Kaien, por favor, não faça isso. Não me dará outra opção...

- Vai me denunciar? Sabe o que fazem com os traidores por aqui, Touga? Lembra-se de Lilian Watanabe?

Deixara um puro-sangue escapar vivo... Fora torturada até seu corpo ficar irreconhecível, e solta em um deserto. Sem duvida, morta a essa altura.

- Kaien, não posso permitir isso.

- Farei uma troca, um acordo. O que você quiser. Só tem de mantê-la a salvo.

- Que tipo de acordo? –ele pareceu interessado. Ouviu-o acender um cigarro do outro lado.

- O que gostaria?

- Faça sua proposta.

- Não sei... Faço suas tarefas domésticas, seus relatórios para a Central, sei lá. A minha única condição é que a mantenha escondida e a salvo, sem tocá-la.

- Hum... É muito por muito pouco.

- Então o que quer?! –Kaien se desesperou. Se Touga não aceitasse, estaria sem opções.

- Quero ser seu dono.

- Como... Espere. Como em uma relação vampírica?!

- Sim. Como seu eu tivesse te despertado. Só então será um acordo equivalente. Se vou abrigar um vampiro, terei que agir como um. E vou me esforçar ao máximo.

- Sei.

- Kaien, é a minha condição.

O adolescente pensou no que a vampira estaria passando, fugindo dos outros sangue-puro.

- Eu... Eu topo.

- Ótimo. Quando você vem?

- Pode ser hoje?

- Claro.

- Então tá, tchau.

- Espere.

- Que foi?

- Quero deixar uma coisa clara, Kaien. Estou exigindo isso por conta de que estamos nos metendo em uma fria. E eu estou nessa por sua causa. As condições são para eu suportar uma presença indesejada em minha casa, quando ela se for, você pode ficar. Sem nenhuma condição abusiva.

- Sei, porque você é o mocinho dessa história. –ironizou, irritado com as justificativas do amigo.

- Tchau Kaien. Estou te esperando.

Desligou sem dizer mais nada. Kaien não teve outra opção que não se levantar e começar a pôr suas coisas na mala. Depois que já estava com tudo pronto, foi informar o caçador responsável pelo QG que estava indo embora, morar com Touga. Ele aceitou com a condição que Kaien prestasse contas e entregasse seus relatórios duas vezes por semana, aproveitando para treinar e receber novas missões, como o próprio Yagari fazia.

Aceitou. Pôs a mala nas costas, uma caixa com coisas mais frágeis (frágeis demais para ir na enorme mala) em baixo do braço, a espada na bainha, pregadas as suas costas também, e foi, a pé, até a casa de Touga, à dez quilômetros da central.

Chegou como saíra, apenas um pouco mais descabelado. Touga abriu a porta assim que ele fez menção de tocar no interruptor da campainha. Quando disse que estaria esperando, falava sério, pensou, um pouco aborrecido.

- Oi.

- Oi. –ele pegou a caixa do amigo, a pondo para dentro- Tudo certo?

- Sim... Ah, isso pesa. –disse, soltando a mala no chão, que quase fez um rombo no chão.

- Imagino. –falou, pegando a mala- E sua amiga?

- Chega só amanhã. Eu vou trazê-la.

- Hum... Sinta-se a vontade. Vou por isso no seu quarto. Onde ela vai ficar? Não tenho quartos o suficiente.

- Ela pode ficar em meu quarto, eu fico na sala.

- Você que sabe. Não quer ficar no meu quarto?

- Não, já estou pedindo muito...

- Não está não. Estamos fazendo uma troca, lembra?

- É... Enfim, isso vale a partir de quando?

- Não se preocupe, não vou pedir muito, não vou exagerar. Vale enquanto ela estiver aqui, está bem?

- Pode ser. Touga, o que tem para jantar? Já é hora.

- Absolutamente nada. Sou uma negação nas tarefas domésticas, se lembra?

- O que costuma comer?!

- Como fora.

- E o que tem por aqui? –murmurou, desesperado, revirando a cozinha cheia de teias de aranha do amigo.

- Nada.

- AHHHHHHHHH

- ... –Touga observou o amigo derreter até o chão, para em seguida se levantar com um olhar vidrado. O seguiu até o quarto, onde o adolescente esvaziou a mala, de onde caíram facas, panelas e conchas.

- Cozinhaaa... –com cara de zumbi ele se arrastou até a cozinha, levando com sigo todos os utensílios.

- Parou com a piração?

- Sim. –suspirou, enquanto vestia um avental- Compre isso.

Lhe estendeu displicentemente uma lista.

- O que...?

- VOCÊ QUER JANTAR OU NÃO?! –gritou, dobrando de tamanho.

- Tá... Tô indo. –murmurou Touga, saindo de fininho.

Algum tempo depois, Yagari estava sentado em uma das cadeiras (recém-limpas) de sua mesa de jantar, e observava, deliciado, os movimentos de Kaien na cozinha. No exato momento ele mexia uma sopa de legumes, após ter escorrido o lámen que preparara para comer com ele.

Ambos sorriam. Ambos estavam felizes e satisfeitos como há muito não ficavam.

Jantaram em silêncio. Kaien se incomodava pelo fato do amigo estar observando, então se concentrava no próprio prato. Touga não tirava os olhos dele.

Quando terminaram, se sentaram na sala.

Com a liberdade que só um amigo de infância poderia ter, Kaien ligou o rádio baixinho e se sentou na poltrona, uma vez que Touga se refestelara no sofá, o ocupando por completo. Fechou os olhos, e, lentamente, adormeceu.

- Kaien... –o sussurro estava em seu ouvido, rouco e muito próximo.

- Touga...

- Pode usar o quarto hoje, se lembra?

- Eu...

- Vem.

Sentiu-se puxado pela mão, até um lugar ainda mais escuro e aconchegante. As mãos ágeis de Yagari tiraram seu avental, o fazendo se sentar. Seu coturno foi lentamente desenlaçado e tirado. Sua blusa foi desabotoada e as mãos geladas do moreno o empurraram para o colchão. Um cobertor macio o cobriu e a porta se fechou. Caiu em um sono profundo.

S2s2s2s22s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s2s22s2s2s2s2s2s2s22s2s2s2s2s2s2s2s22s2s2s2s2s2s22s2s2s2s2s2s22s2

Rido estava no chão gelado de um sótão. Um sótão cheio de janelas, aonde era muito difícil de escapar da luz solar. Aparentemente, continuava o mesmo desde que se separara de Juuri. Mas estava profundamente ferido e mais exposto e frágil do que nunca.

Todas as noites, Hiro o espancava e o humilhava, isto quando não tomava seu sangue. Sua noiva, nunca vira. Não até aquele dia.

O sol finalmente se fora e ele vencera novamente uma de suas provações diárias. Mas a sua pior provação vinha aí, podia escutar seus passos subindo as escadas, sentir seu cheiro desprezível.

- Rido, querido, já acordou? Está mais comportado hoje? –indagou, irônico, adentrando no aposento.

- Hiro...

- Está ferido... –passou a mão pela pele do Kuran, o fazendo se contrair de repudio- É realmente uma pena que o sol machucar tanto sua pele delicada, Rido... Rido Kuran... Você não tem realmente noção não é mesmo?

- Noção do que, idiota? –rosnou baixinho.

- Típico... –socou o rosto do moreno fazendo-o perder um dente, que imediatamente se regenerou, cortando ainda mais a sua boca- Você não aprende, não é? Estou falando de você, Rido. De seu sangue quente e delicioso. Do seu cheiro de cravos vermelhos. De tudo. Não percebe o quanto é desejável, e sua indolência só reforça isso. Os Kuran sempre foram boas vitimas. Mas algo me diz que sua irmãzinha deve ter um gosto melhor. Acha que devo visitar sua casa, para ter noticias dela?

As forças que tinha, Rido utilizou para atacar o Hiou, que deu nele uma chave de braço e o derrubou, se sentando sobre o Kuran e puxando seus cabelos, mordendo sua nuca continuamente e em vários lugares, tentando claramente causar o maior estrago possível.

- Você nunca vai aprender. É o castigo perfeito para minha filha.

Saiu de cima do rapaz, que se debatia e se contorcia de dor, indo embora.

Rido não se levantou. Ia sobreviver, mas essa era a pior parte. Toda noite aquela humilhação e aquela dor... E na noite seguinte estaria pronto para outra. Gemia baixinho, tentando ser forte. Por Juuri.

- Você é idiota? –uma voz feminina, seguida de perto pelo som de passos e guizos límpidos, tão límpidos quanto sua própria voz- Não responda, você está muito ferido. Não devia enfrentar meu pai assim.

Ele forçou seus olhos para ver a interlocutora. Os olhos eram rosados, e os cabelos brancos como do pai. Tinha feições delicadas e decididas, e estava passando algo em sua nuca. Tentou se esquivar daquela pasta gelada.

- Fique calmo. Vai fazer cicatrizar mais rápido.

- Por que...?

- Rá, você é meu noivo agora, lembra? –ironizou, ferina- Pelo jeito vou ter que ter miolos por você. Meu pai não pode nem quer levantar a mão para mim, apesar de tudo. Com você é diferente. Sua exposição é maior, e ele desconta o que eu faço em você.

- Realmente... Muito obrigado. –rebateu.

- Ora, vamos, quer sair daqui ou vai esperar o sol? –prestou mais atenção na garota. Devia ter uns cinco anos a menos que ele.

- Quando? Como?

- Agora, se você tiver condições.

- Está me ajudando, e eu nem sei seu nome.

- Shizuka. Shizuka Hiou para minha vergonha.

- Quantos anos você tem?

- Treze. Mas agora não é hora.

As pequenas mãos dela abraçaram seu tronco, o pondo de pé. Vergonhoso; Rido, vergonhoso, era o que pensava.

- Para onde posso te levar?

- Seu pai...

- Um Hiou não encontra outro se o outro em questão não quiser. Foi uma pergunta retórica. Já sei onde te levar, mas você tem que ser rápido, se tiver amor a vida.

- Eu não tenho.

- Então eu te deixo aqui, e nunca mais vamos nos ver. Qual a vantagem de salvar alguém sem motivos para viver?

- Eu tenho um motivo. Ela se chama Juuri.

- Então, se quiser vê-la de novo algum dia, venha comigo. E rápido.

Notou que ela trajava um quimono, veste mais do que inapropriada para os dias atuais, veste mais do que inapropriada para a fuga que estavam planejando.

- Aceito.

- Não está em condições de recusar nada. –olhou por uma das muita e altas janelas- Qual é seu nível de equilíbrio?

- Eu sou um sangue-puro. –ele esclareceu, com orgulho e petulância.

- Isso não o ajudou com o meu pai. Até aí, eu também sou. Pergunto, porque teremos uma noite de selva.

- Como...?

- Vamos pelas arvores. As flores de cerejeira impedirão meu pai de chegar até nós, mas é uma longa viajem.

- Se há a chance de eu reencontrar Juuri...

- Já vi que fui previamente jogada para escanteio –suspirou, conseguindo, com muita pericia, abrir o gigantesco (e eletrificado) cadeado que trancava uma das janelas.

- Me desculpe, mas eu...

- Eu não te conheço, Kuran, e não faço questão nenhuma de manter qualquer tipo de relacionamento com você. Estou te ajudando apenas para aborrecer meu pai e não ter que me casar.

Lembrou-se de Juuri, pronunciando quase a mesma frase. Incrível como aquela garotinha podia ser tão mais convicta e corajosa do que ele e ela juntos...

- Eu entendo e aceito isso. Quanto tempo temos Srita.Hiou?

- Algumas horas. Me chame de Shizuka, pro favor. –murmurou, saindo pela janela e se embrenhando entre os galhos de arvores.

- Como quiser. –a seguindo.