Desire Iv: a Presa

4 Conflito de principios e sentimentos


Kaien despertou como se uma mola o tivesse impulsionado. Juuri...!

Notou que não se lembrava de porque estava na cama, ou porque estava só de calça. Na noite anterior estivera realmente muito cansado. Se vestiu rapidamente, indo atrás do endereço que recebera da vampira.

Abriu a porta com pressa, quase tropeçando em Yagari. O caçador estava sentado ao lado da porta de seu quarto, o chapéu torto sobre o rosto, as roupas amassadas...

Balançou a cabeça, voltando ao quarto e cobrindo o amigo com seu cobertor.

Saiu, tomou um ônibus e chegou à cidade em que as vampiras lhe esperavam, correndo até a rua indicada em suas anotações. Uma bela garota de cabelos Chanel lisos e loiros estava sozinha em meio a neblina. Seus olhos verdes estavam agitados e um pouco encobertos por sua franja reta. Vampira, mas algo estranhamente humano exalava de toda a sua existência.

- Olá!

- Cross?

- Kaien Cross, senhorita.

- Mei. –ele notou que ela não disse seu sobrenome e mantinha os olhos em suas mãos todo tempo, meio sobressaltados, apesar de doces. Juuri devia ter avisado quem ele era- Venha comigo, por favor.

Ele acompanhou os passos leves e avoados da jovem até uma casa, em que Juuri os esperava, toda encoberta. Logo a bruma cairia e o sol a feriria, por isso vestia uma longa capa. Assim que os avistou, correu até Kaien, depositando suas mãos sobre seus ombros.

- Nunca poderei te agradecer por tudo que está fazendo por mim. –notou que a amiga estava agitada- O mesmo vale para você, Mei. Desejo a você toda a sorte do mundo.

- Eu vou precisar. –as pupilas dela tremiam quando se abraçaram.

- Sua vida não vai ser fácil, até mesmo pela escolha que fez.

- A sua também não. –ela olhou dentro dos olhos de Kaien, como se o ameaçasse silenciosamente.

- Eu a protegerei, Mei.

- Que bom, porque agora não poderei mais fazer isso.

Mei se ajoelhou, desembainhando sua própria espada e a fincando aos pés de Juuri, num gesto resgatado dos cavaleiros medievais. Juuri beijou o punho da espada.

- Confio em Kaien porque ele confia em mim e veio ao meu auxilio. Obrigada Mei.

Mei embainhou novamente sua arma, se virando e indo em direção ao sol, seu vestido de verão mal a cobrindo. Juuri se virou para Kaien.

- Vamos?

- Imediatamente. Podemos tomar um ônibus? Está devidamente alimentada?

- Sim. Acha que chegaremos antes do meio-dia?

- Sim. Juuri, a casa onde ficaremos não é minha, e sim de um amigo de infância. Ele ficará conosco, e o fiz jurar que não levantaria um dedo contra você. Seu nome é Touga Yagari, e é um homem de palavra.

- Como você?

- Sim. O que há com sua amiga?

- Tive que contar a ela quem você era, ela não tinha certeza de que poderia me deixar.

- Aonde ela vai? Porque ia em direção ao sol?

- Ela é muito corajosa. Se apaixonou por um humano. Ele não sabe o que ela é, mas ela pretende contar e fará de tudo para ficar com ele. Qualquer coisa. Só não queria me deixar sozinha, sabe de tudo que estou sofrendo.

- Vamos. Agora tudo ficará bem, meu amor. –ele passou o braço pelo ombro da vampira e a conduziu até o ponto. Em uma hora estavam na casa de Touga.

O mesmo abriu a porta. Diferentemente de Kaien, ele olhou pela primeira vez para a vampira com o mais profundo desprezo e indiferença.

- Olá Kaien. Esperou que tenha feito uma boa viajem.

- Sim.

- Entrem. –ele deu espaço para passarem. Juuri estava intimidada com o jeito do caçador.

- Ele não morde, -riu o adolescente, olhando para a cara da companheira- não é Touga?

- Eu não mordo. Eu não. –disse, friamente, acendendo mais um cigarro e tossindo um pouco.

- Isso está te fazendo mal Touga, você devia parar.

- Eu não vou parar, Kaien. Mostre a ela seu quarto e comece a fazer o almoço, por favor.

- Tá bom. –suspirou- O que vão querer?

- Faça um peixe. Com arroz.

- Claro.

Riu o adolescente, desviando o olhar dos olhos gélidos e azuis de Yagari, e puxando a vampira pela mão.

- Ele me odeia não é?

- Sim. –Cross olhou para ela, estudando cada detalhe de sua pele perfeita- Mas não é você. Ele odeia os vampiros. Não posso mentir.

- Porque está fazendo isso? Pondo sua amizade de anos em cheque, se sacrificando...

- Ele não me pediu nada, -mentiu, temendo aumentar o sofrimento da jovem com sua sinceridade- Juuri, você se esquece... Eu te amo.

Ele fechou as mãos no rosto de Juuri, virando o rosto e se aproximando lentamente, tocando seus lábios nos dela, aprofundando o beijo, sentindo que ela o correspondia.

Suas mãos e braços se confundiram e seus corpos se fundiram, em um desejo incontrolável. Kaien queria há muito ter Juuri para si, Juuri estava fragilizada e sozinha, o caçador era sua base e sua vida no exato momento.

Mal ouviram a porta bater contra a parede.

- Kaien, solte-a. Venha comigo.

- Touga, eu... –os olhos dele estavam carregados de raiva e mágoa e Kaien não sabia o que fazer, em tão apenas obedeceu. Olhou para Juuri, que estava tão perdida quanto ele.

Ele o puxou com força pelo pulso, até a sala, onde o jogou contra a parede. O adolescente gemeu e escorregou.

- Eu a abrigarei, Cross. Não tocarei nela. Mas você também não poderá tocar nela, em nenhum sentido.

Uma exclamação muda saiu da garganta do loiro, que estava revoltado.

- Você ouviu bem, e tem um contrato comigo. Sou seu dono.
— Pode nos manter afastados, mas não vai fazer com que eu a ame menos. –se levantou, enfrentando o outro, que deu um tapa em seu rosto.

- Pense, idiota! Ela está te usando! –os olhos do espadachim se encheram de lágrimas e ele pôs a mão no local atingido- Kaien... Me desculpe.

Touga beijou o local marcado por sua mão, abraçando o outro, que tentou se esquivar.

- Você tinha dito que não ia pedir muito. Tinha me dito...

- Eu me excedi, me perdoe. Me perdoe.

- Você não pode modificar meus sentimentos, Touga.

- Nem você, os meus, Kaien. Eu te amo, e você já sabe. –Touga beijou Kaien rapidamente, porque o loiro fugiu dele com todas as forças- Não fuja de mim...

- ME RESPEITE! –em seguida pôs a mão na boca, percebendo que estava gritando com o amigo, que estava arrasado.

- Faça como quiser, então. Só obedeça meu pedido. –se virou para a porta, acendendo um cigarro- Não precisa fazer o almoço. Não me espere para a janta, também.

- Touga... –a porta de saída bateu- Me desculpe...

- Kaien... –Juuri veio correndo ao perceber que o moreno havia ido embora- É minha culpa se estão se desentendendo...

- Não se culpe, Juuri. –ele murmurou, mantendo certa distancia. Tinha um acordo, e ia cumpri-lo- Vai ficar tudo bem amanhã. Ele tem cabeça quente mas no final sempre fica tudo bem.

- Eu ouvi você gritar... Ele te ofendeu?

- Não exatamente... –Kaien corou um pouco, chateado- Você gostaria de comer alguma coisa? Digo... No sentido de comida humana.

- Não se incomode... –só então ela olhou para ele, os dois percebendo realmente o que havia sido interrompido por Yagari e ela ficou com a pele branca e fria levemente rosada- Vou me deitar.

- Eu tenho que trabalhar... –ela o observou com o olhar cheio de uma curiosidade mórbida- Sabe, vocês criam muitos níveis E por aqui.

- Mas nossos nobres também os destroem.

- Ah, é? Não sabia que vocês eram tão participativos no equilíbrio da cadeia alimentar. –eles conversavam como se fossem caçadores discutindo se era melhor matar as lebres ou as raposas para manter o equilíbrio da cadeia alimentar natural. Como se fosse algo banal.

- Sua academia não é muito boa, não é mesmo? Os níveis E também são um problema para nós, ameaçam constantemente nosso segredo.

- Eles só contam o que lhes interessa para nos fazer odiá-los completamente, como se vocês fossem monstros sem vida e sem sentimentos. Touga, por exemplo, acredita nisso piamente.

- Por isso o sacrifício de vocês está sendo tão grande. Nunca poderei te recompensar por tanto, Kaien. Realmente, existem alguns de nós totalmente insensíveis para com a condição humana e com a nossa própria... –como meu irmão Rido, pensou, chateada, sentindo falta do irmão.

- Ah, -Kaien se permitiu sorrir levemente- até aí existem humanos exatamente assim. Descanse, estarei aqui ao anoitecer. Touga vai voltar também, estava só fazendo cena.

Desejou do fundo do coração que fosse verdade e que o amigo não ficasse entristecido. Ou pior, que ele não fizesse nenhuma besteira de cabeça quente. Deixou Juuri na porta de seu quarto, e foi tomar café da manhã... Já eram mais de dez hora, estava super atrasado para toda e qualquer atividade matinal. Tomou um chá apressadamente, enquanto usava uma pedra especial para afiar a lâmina de sua espada de caçador. Meio-dia! Meu Deus, como estava atrasado!

Deu uma ultima olhada em Juuri, que estava dormindo, e saiu. Seus dias como assassino estavam cada vez mais difíceis desde que conhecera Juuri, sua forma de pensar o tocara. Matava com mais dificuldade, psicológica, é claro, do que nunca. Hesitava.

Passou na Central, para entregar seus relatórios, cruzando com Ren e Rika, que, conforme o comum, discutiam.

- Oi Kaien! –ela sempre fora muito simpática com o caçador, eram bons amigos porque ela sempre interferia quando Ren tinha suas incontáveis crises de ciúme- Há quanto tempo!

- Oi Rika! Tudo bem?

- Não use o Cross como fuga, Rika...!

- Eu não preciso usar ninguém como fuga, Ren! É não e pronto! Sou muito nova, tenho uma vida pela frente!

- Somos caçadores! O que a faz pensar que tem uma vida pela frente?! –ele se exasperou. Kaien notou que o braço dela tinha um curativo do ombro ao cotovelo, e pequenas nódoas de sangue já eram perceptíveis- Meus pais foram mortos por um grupo deles há cinco anos! Você sabe como eles eram jovens! Os conhecia!

- Eu realmente sinto muito, mas...

- O que assegura que não acontecerá a mesma coisa conosco?!

- Rika, o que houve? –Kaien perguntou, distraído, interrompendo a briga e pegando levemente no antebraço da caçadora.

- Ah, não foi nada, eu...

- Um vampiro idiota a atacou. O ferimento está tão profundo que a sutura não está segurando. –Ren quase gritou.

- Era uma vampira. Uma nível C.

- Por isso que estou pedindo que ela me deixe trabalhar com ela, em equipe poderia protegê-la melhor...!

- Eu não preciso ser protegida, eu trabalho sozinha e não foi isso que você me pediu.

- Então o que está...?

- Ele me pediu em casamento. –resmungou a adolescente, fazendo o namorado corar até a raiz dos cabelos- É claro que não aceitei, pelo amor de Deus! Eu tenho dezessete anos!

- E quase morreu! Rika, não deixe para amanhã uma coisa que talvez você não tenha como fazer amanhã. Podemos morrer a qualquer momento!

- Você está mais pessimista que nunca, Ren. Entendo que o que aconteceu com os Kiryuu foi horrível, mas não precisa...

Ele a puxou pelo braço bom, a beijando e colocando o anel de noivado em seu dedo.

- Eu não aceito um não como resposta. Sei que você trabalha sozinha, mas isso muda a partir de hoje.

Toda essa cena fez Kaien rir, lembrando de como conhecera seu melhor amigo. Touga era amigo de Ren, melhores amigos até então, e Kaien conversava com Rika. Um dia, os quatro se encontraram. Rika e Ren eram piores do que cão e gato na infância e até o meio da adolescência. Ela tomara a iniciativa de pedi-lo em namoro. Mas anteriormente, sempre era obrigação dele e de Touga manterem os dois suficientemente longe um do outro, em uma distancia segura pelo menos. E quando não o conseguiam, eram sempre os dois a separar os encrenqueiros. Ren nunca gostara muito dele, até por causa disso. E Touga, com o tempo, passou a andar com ele e Rika. Algumas coisas, convicções, que ela manifestava, eram idênticas a Touga. Aprenderam a atirar juntos, e tinham idéias parecidas sobre trabalhar em grupo, por exemplo.

Touga...

- Gente, vocês viram o Touga hoje?

- Não. Soube que vocês estão juntos agora, então...

- Ah, não, eu só estou morando com ele provisoriamente. –Kaien desmentiu, gesticulando nervosamente- E estou preocupado, nós tivemos um pequeno desentendimento, e...

- Relaxa. –riu a caçadora- Mas não o vimos, não.

- Vocês brigaram? Pensei que você fosse incapaz de tal coisa, Cross. –ironizou Ren.

- Deixe te ser ridículo, Kiryuu. –ela deu um tapa no braço dele com seu braço bom- Quer que ajudemos a procurar? Foi serio assim?

- Não há necessidade, vai ficar tudo bem. Já deu minha hora, pessoal. Se bobear ele já está em casa me esperando. Tchau.

- Tchau! É sempre um prazer te ver, Kaien!

- Eu te mando um convite para a festa, Cross. E você, Srita. Ichigure, deveria ter mais respeito para com seu noivo!

- Ah, cala a boca! –ela riu, enquanto Kaien se afastava.

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- Ela o que?!

- Sumiu. Está com minha filha, agora.

- Meu Deus.

- Ela é assim tão importante? –perguntou Shizuka, com desinteresse.

- Claro! –gritaram Ichijou e Rido. Rido se referia a Juuri e Ichijou, a Mei.

- Onde posso achá-la?

- Ela pode ter voltado para sua casa. Ou ter sido levada até sua casa, o que é mais provável.

- Essa não...

- Eu te levo lá. –se prontificou Shizuka, brincando com um fio de cabelo.

- É arriscado, seu pai...

- Olha minha cara de preocupada. Vamos! Foi um prazer te conhecer!

- Ah... Igualmente. Rido, se tiver noticias de Mei, me informe.

- Claro.

- Boa sorte. Até depois.

- Até.

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- Juuri? Cheguei!

- Kaien! Que bom que voltou, estava ficando preocupada.

- Touga apareceu?

- Não.

- Ahh... Vou fazer a janta. Vai querer? Preciso arranjar alguma coisa no banco de sangue, se você vai ficar por aqui.

- É... Desculpe dar tanto trabalho, mas realmente não tenho para onde ir, por enquanto.

- Está tudo bem.

- Dê-me suas coisas. O mínimo que posso fazer é manter tudo arrumado, não é?

- Se faz questão. –ele lhe estendeu seu sobretudo e sua espada, sorrindo.

Eles ficaram parados, olhando um para o outro por um tempo, estudando seus respectivos sorrisos, quando a porta da sala foi derrubada.

- O que...? –o sorriso no rosto da vampira morreu ao mirar os longos cabelos brancos do homem que invadira a casa- Hiro...

Kaien puxou sua espada das mãos de Juuri, encarando o homem com vestes de samurai.

- Quem é você?

- Nobuhiro Hiou... –ela murmurou, chorosa.

- Onde está seu irmãozinho, Srita. Kuran?

- Deixe ela em paz, Hiou. O que deseja aqui?

- Tenho um acordo com os Kuran. Eles ficarão com a garota, e eu terei Rido para mim mais um pouco. –riu, passando a língua pelos lábios.

- Rido... Ah, Rido...

- Juuri...

- Meu irmão sofre horrores nas mãos desse homem, Kaien.

- Por isso está com tanto medo? –as pupilas dela retraíram diante da pergunta do caçador.

- Ela tem razão em temer. Me diga onde ele está e podemos fazer um acordo.

- Eu não sei. –ela se encheu de coragem- E se eu soubesse, não te diria. Você é uma vergonha, Hiro!

Ela fez menção de avançar, mas Kaien estendeu o braço na sua frente, a impedindo.

- Vá embora, Hiou.

- Rá, só pode estar brincando comigo, humano. Se não vou levar o Rido, a levarei. Uma Kuran por um Kuran. Seu sangue pagará o sangue dele.

- Nem pensar. –Kaien desembainhou a espada, olhando friamente nos olhos do vampiro, que gargalhou.

- Quem pensa que é para se por em meu caminho, humano?

- Sou Kaien Cross, o terceiro maior graduado na Academia de Caçadores de Vampiros. Vá embora, se dá valor a sua semi-vida.

- Idiota!

- Kaien! –Juuri gritou, usando seu próprio poder para confrontar Hiro, que não hesitou, e o impacto jogou a vampira longe.

- Juuri...

O espadachim avançou, atacando o vampiro, que contra-atacava com poderes psíquicos fortes. Kaien desviava da maioria deles, mas quando era atingido, fraquejava e tentava avançar, com os movimentos cada vez mais lentos. Um golpe de Hiro jogou sua espada longe e outro acertou seu rosto, o derrubando.

- É seu fim, moleque imbecil!

- Cross, REAGE! –Juuri jogou sua espada de volta, dando ao adolescente tempo de se levantar e cortar a perna de Hiro, que nem titubeou, continuando o ataque desleal.

- MORRA!

- KAIEN!

Tudo girou e o loiro percebeu o cheiro intenso de cigarro e os braços fortes de Touga se afrouxarem ao seu redor. O cheiro de sangue começou a predominar no recinto e ele se ajoelhou sob o peso do corpo do outro.

- Oh meu Deus... –Juuri correu até eles- Oh meu Deus, Kaien... ARGH!

Hiro enroscou a mão nos longos cabelos da garota e começou a arrastar para a porta.

- JUURI! –Kaien empurrou Yagari para o lado e se levantou, tentando correr atrás dos vampiros, mas caiu novamente- JUURI!

Sua vista começou a escurecer e ele se desesperou.

- Não posso desmaiar agora, não posso... –seu rosto chegou até o chão, batendo e sentindo seus sentidos se re-aguçarem, ao tê-lo molhado por sangue- Touga... Touga, fala comigo, fala comigo!

Virou o corpo do amigo, em cujas costas estava uma enorme ferida, verificando se ele estava respirando. Estava.

- Kaien...

- Touga! Fique... Fique acordado, Touga, eu vou chamar alguém, você precisa de ajuda...

Mas o moreno segurou sua mão.

- Não... Não podemos... A não ser que queira contar sobre Juuri... Estamos sozinhos nessa, Kaien...

- Touga, não desmaie... Touga!

Mas o caçador tinha cerrado os olhos definitivamente. Kaien se arrastou até a cozinha, pegando todos os panos de prato que pode, cobrindo com eles o ferimento, ao mesmo tempo que fazia compressas de gelo para si mesmo e para conter a hemorragia de Yagari, agradecendo aos céus por ter preenchido as formas de gelo na noite anterior.

Com custo, fez o companheiro parar de sangrar. Rasgou a blusa dele, deixando suas costas e seu ferimento expostos, analisando sua atual situação. Teve uma idéia. Arrumou a sala, que estava destruída, pôs Touga no sofá, com dificuldade, se recompôs e ligou para Rika.

- Alô?

- Alô, Rika?

- Quem é, Rika? –ouviu a voz de Ren muito próxima.

- Oi Kaien. Você tá bem?

- Eu... Eu estou... Mas o Touga foi ferido, ele precisa de ajuda...

- Porque ele não veio para cá?!

- Você conhece o Yagari, ele é teimoso, nunca admitiria estar ferido. Mas por favor Rika... –ele estava realmente desesperado, pois o moreno estava voltando a sangrar muito- Venha para cá, me ajude!

- Estou indo imediatamente. Eu só tenho que... Eu tenho que por uma roupa e já vou para aí.

- Para aí aonde?! –ouviu a voz surpresa de Kiryuu.

- Por favor...

- Estou indo.

Ela desligou e Kaien suspirou, aliviado.

- A Rika está vindo, vai ficar tudo bem... Ah, me desculpe... –o adolescente estava quase chorando, acariciava levemente a região das costas do caçador que não fora atingida.

Assim que Rika estivesse lá e levasse Touga para um hospital, iria atrás de Juuri. Estava tendo um conflito de princípios e sentimentos. Touga o salvara, estava eternamente endividado com ele. E Juuri... Precisava tanto de sua ajuda no exato momento quanto o caçador, mas ele não podia estar com os dois. Tinha feito sua escolha e escolhera proteger Touga. Todo o seu ser desejava que não se arrependesse, que Juuri ficasse bem até ele poder buscá-la novamente...

A campainha tocou.

- Rika, Ren, entrem...

- Onde ele está? –ela estava muito séria.

- No sofá. –apontou.

- Ah, meu pai...

Ela estava horrorizada com a extensão do ferimento e Ren olhava apenas, sem palavras.

- Precisam me ajudar, eu também tive um dia difícil...

- Ele só chegou agora?

- Sim, imagino que tenha se arrastado até aqui.

- Que imbecil prepotente! –Ren bateu na própria testa- Me ajudem a pô-lo no carro, na central vão dar um jeito nele.

- Claro. –Rika fez menção de pegar Yagari pelos braços, mas Ren jogou as chaves do carro para ela.

- Nem pensar. Você abre o carro, Ichigure, que eu e o Cross carregamos ele. Suas suturas podem romper de novo.

- Ahh, estou indo. –ela revirou os olhos- Tomem cuidado com ele, por favor.

Rika foi atrás com Touga, enquanto Ren metia o pé no acelerador com Cross no banco de passageiros. Chegaram e Touga foi imediatamente internado, sendo atendido preferencialmente pela equipe médica.

- Ele vai ficar bem, doutora? –Rika questionou.

- Ah, vai ter que ficar de cama, no mínimo por uma semana. Já reservamos um quarto para ele por aqui.

- Ele vai odiar... –murmurou Ren, passando a mão nos cabelos, gesto que adquirira do próprio Yagari- Touga nunca gostou de ficar parado, ainda mais em um hospital.

- Ele não tem o que gostar. –Rika reprovou o comentário do noivo.

- Eu vou ficar com ele hoje. –suspirou Kaien, fechando os olhos e massageando as próprias têmporas.

- Tem certeza que não quer que fiquemos com você?

- Não, já os atormentei demais. É que realmente não estava preparado... Enfim, podem ir para sua casa, já são duas da manhã e caçadores não tem domingos ou feriados. Muito obrigado. –ele se inclinou levemente, os agradecendo.

- De nada. Vamos, Rika.

- Tem certeza que não precisa de mais nada?

- Tenho. Vá para casa, Ren já está impaciente.

- Esquece o Ren. Bem, você já sabe, se precisar, me ligue.

- Ligarei.

- Boa noite!

- Igualmente. –suspirou, vendo o casal ir embora.

- Sr. Cross, o Sr. Yagari já foi encaminhado ao quarto. Se quiser vê-lo...

- Quero sim. Vou passar a noite aqui, doutora.

- Venha comigo.

Ela o acompanhou até a porta do quarto, saindo em seguida. Kaien notou satisfeito que havia uma poltrona ao lado da cama, reservada ao acompanhante. Se sentou, olhando para a face de seu amigo e salvador.

- Olá, Kaien.

- Touga! Está acordado!

- Há quanto tempo estou dormindo? Que horas são?

- Você está inconsciente desde as onze da noite. São duas da madrugada.

- Onde estou?

- No hospital.

- E o que você está fazendo aqui?

- Cuidando de você. Durma Touga, amanhã vai ser um longo dia.

O moreno virou o rosto com um pouco de dificuldade, encarando os olhos mel do companheiro.

- E Juuri?

- Hiro a levou.

- E o que faz aqui?

- Já disse, estou cuidando de você. –ele desviou o olhar.

- Muito obrigado. –o caçador se permitiu fechar os olhos e adormecer com um meio sorriso na face. O adolescente, em seu sofrimento, também sorriu. Pelo menos Touga ficaria bem.

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- Aqui está sua filha, Kuran.

Hiro jogou Juuri de qualquer jeito e Haruka a segurou, olhando seus olhos manchados de lágrimas.

- Temos um acordo, Hiro. Mas pelo visto, você não encontrou quem procurava. Mas ele virá, eu lhe garanto. Assim que aparecer, o entregaremos a você novamente.

- Juuri, -Haruka sussurrou- você está bem? Ele te machucou?

- Não... Não muito... Ah, Haruka... –ela afundou o rosto no peito do irmão, desatando a chorar.

- Estou esperando, então. Uma boa noite.

- Sim, teremos um casamento hoje, será uma ótima noite!

A partir deste momento, Juuri saiu do ar. Não ouviu as palavras consoladoras de Haruka, ou os conselhos de sua mãe enquanto lhe vestia em um longo quimono lilás. Não ouviu, não estava presente no próprio casamento. Seu pensamento, que vagava entre Rido e Haruka, sempre terminava no sorriso de Kaien Cross. Um humano. Um caçador. Um homem que arriscara tudo por ela. O homem por quem ela se apaixonara.

- Juuri? Tem certeza que está bem?

- Estou bem. Fisicamente, Haruka. Rido sempre me disse para eu lutar pelo que eu realmente quero, e agora está desaparecido, sendo caçado, e eu estou casada com um homem, estando apaixonada por outro. –um gemido escapou dos lábios de Haruka, e sua expressão se encheu de tristeza.

- Me desculpe. A escolha não foi minha. Eu te amo Juuri, e faria tudo para que não sofresse.

- Então me apague. Limpe minha memória, altere-a! –ela se exasperou- Eu não suportarei viver assim!

- Não, não quero fazer isso...

- Só assim eu poderei te amar, ser feliz e te fazer feliz... –e assegurar a existência de Rido e Kaien. Só assim... Só longe de mim eles terão um futuro e a oportunidade de amar outra pessoa. Serão mais felizes.

Haruka soltou um longo suspiro e se inclinou sobre a irmã, fazendo-a se deitar, quase a beijando.

- Se é o que deseja...

- Apague. Apague tudo. –não posso ser egoísta... Eles não foram... Rido e Kaien sacrificaram-se por mim, é o mínimo que posso fazer... Por você também, Haruka. Você suportaria viver com uma esposa que não te ama? Suportaria viver com uma suicida?

Haruka concentrou sua energia em suas mãos, apagando lentamente a memória de sua adorada irmã, que adormeceu.

- Sonhe com os anjos, amor. E acorde comigo.

Ele deu um beijo leve na fronte da irmã, se deitando ao seu lado.

Notas finais
Eu disse que ia piorar... E agora? A Juuri acredita que tenha feito a melhor escolha, mas Rido e Kaien concordarão? Ah, eu dei um pouco de RenXRika, porque acho que o casal foi tão subaproveitado na série original... Afinal, os pais dos gemeos tem grande relação com o que Ichiru se tornou, não eh? Outra coisa, a tecnica de contenção de hemorragia usada pelo Kaien nesse capitulo existe e é a correta. Próximo capitulo, uma participacao importante da Shizuka e o desfecho da história.