Desire Iv: a Presa
2 Amor... Estranho amor
- Meu Deus...
- O que foi?
- Já anoiteceu... Meus pais vão me matar.
- Quer que eu te acompanhe?
- Kaien... Não tome por pessoal, mas é arriscado levar um humano pra minha casa... E você... É um caçador...
- Juuri...
- Até algum dia, Kaien.
- Me ligue, qualquer coisa.
Lhe estendeu um pedaço de papel, após anotar rapidamente seu telefone. Em um gesto espontâneo raro, o abraçou.
- Muito, realmente muito obrigada.
Uma sensação irrefreável de tranqüilidade o invadiu e ele a abraçou também. Um tiro soou, assustando ambos. Kaien a empurrou por entre as arvores.
- CORRE!
- Kaien, você...
- Eu vou ficar bem, vá embora!
Ainda olhando para trás, ela sumiu nas arvores. Sentindo o cheiro do horrível cigarro, ele já sabia quem vinha aí. Suas suplicas que Yagari largasse o vicio foram vãs, e aquilo consumia o amigo.
- Kaien, o que eu te disse sobre tomar cuidado? –seu tom continuava estranho...
- Você tentou atirar nela? Enlouqueceu?
- Kaien, ela ia te morder.
- Não ia não! Ela me abraçou!
- Tanto pior...
- O que? –não pode compreender o murmúrio do companheiro.
- Vamos para casa.
- Touga... O que está havendo? –dane-se se ele era ou não uma boa influencia, era seu amigo e estava com problemas- Nós não nos víamos há tanto tempo... E você está diferente.
- Estou preocupado com você, Kaien.
- Comigo? Ora, não inverta a situação.
- Kaien, você está sozinho na Fundação, o fato de passarmos tanto tempo longe um do outro é o que me preocupa.
- Sente-se. –disse, se sentando num banco da praça- E não fume perto de mim.
- Você quem sabe. Mas o Kiryuu me disse que... –disse, tirando o chapéu e se sentando.
- Ah, ignore o Ren. Ele tenta alcançar meu nível desde que entrou, se a Rika não segura-se a onda dele...
- Isso é outra coisa que me preocupa. Você já passou meu nível, pega missões mais arriscadas, mas ainda é novo e despreparado...
- Se eu fosse despreparado não estaria nisso, Touga. –o adolescente revirou os olhos- Já conversamos sobre isso.
- Eu sei. –ele sorriu, finalmente se livrando do cigarro- Você é muito forte, ágil e habilidoso, mas sua mente... É tão inocente quanto uma criança.
- Nha, não fala assim... –brincou Kaien, fazendo sua melhor cara de criança pidona.
- Não é hora de brincar, Kaien, estou falando muito serio. –passou a mão pelos cabelos revoltos, suspirando- Você é facilmente manipulável, até mesmo por humanos, quanto mais por vampiros!
- Agora você está me ofendendo, Touga. Eu não sou manipulável. E Juuri não está me manipulando ou me enganando. Fomos claros quanto a nossas intenções.
- Suas intenções...
- Amor à primeira vista. –ele fechou os olhos, relembrando todos os movimentos e expressões da vampira- Nunca imaginei que aconteceria comigo. Não esperava sequer me apaixonar, quanto mais desta forma!
- Kaien! –Yagari fechou os dedos longilíneos no braço do companheiro- Você está se ouvindo?!
- Touga! Você não tem o direito de falar assim comigo. Nem mesmo de me acusar de qualquer coisa. Se eu sou tão manipulável, você e toda a sua lábia poderiam facilmente me convencer de deixar Juuri.
- Seria mais fácil do que você imagina... –ele sussurrou, passando a mão pelo pescoço do adolescente, se aproximando perigosamente.
- T... Touga... O que você...
Mas o moreno colou seus lábios aos dele, em um beijo abrasador. Com muita dificuldade conseguiu se livrar de suas mãos fortes, com os lábios vermelhos e inchados.
- Compreendeu o que eu disse?
- Tinha que me... Me beijar?! –reclamou, limpando a boca na manga da camisa. Não era nojo, era estranheza, apenas.
- Não. Te beijei por outro motivo.
- ... –tinha medo do verdadeiro motivo. Estava com medo da própria situação.
- Você me atrai, Kaien, já deveria ter notado. Todo dia... Toda hora... Cada minuto de nossa infância e de minha adolescência, eu passei ao seu lado. Seu jeito infantil e desastrado, sei lá, você sempre foi pacífico...
- Pacífico, não passivo, Touga. Eu sou seu amigo.
- Me dê uma chance, Kaien. –Touga passou seus dedos pelos cabelos loiros do outro, os soltando.
- Eu sou hetero.
- Eu também era. –riu, acendendo um cigarro- Até pouquíssimo tempo atrás.
- Desde quando...?
- Hoje de manhã, quando você falou na vampira. –as pupilas de Kaien retraíram, finalmente entendendo o que significava o tom dele naquela manhã. Um tom de quem percebe seus sentimentos. O tom de quem perde o chão.
O sorriso no rosto de Touga se apagava lentamente.
- Por favor, Kaien...
- Por isso atirou nela? Por ciúme?!
- Também. É um vampiro, Kaien. Eu teria feito um bem para o mundo se tivesse mirado.
- Você não mirou?! –Touga era o campeão do tiro certeiro dentre todos, absolutamente todos, os caçadores. Logo atrás dele vinha a namorada de Ren Kiryuu, a jovem Rika Ichigure.
- Você estava abraçado a ela, se lembra?
- É uma arma para vampiros, não ia me matar!
- Mas podia te ferir.
- Qual é a real extensão de seu sentimento, Touga?
- Plena. Até onde você puder imaginar.
- Então compreenderá se eu disser que não estou apto a este relacionamento, e me deixará livre para amar outra pessoa, não?
- Não.
- Então não me ama realmente.
- Você se quer tentou, posso provar... Kaien, você não me conhece! Eu posso ser gentil, ser pacífico... Posso ser o que você desejar!
- Não, não pode. –Kaien balançou a cabeça. Estava intimidado e envergonhado por fazer o amigo passar por tamanha humilhação. Nunca vira ou pensara que veria Touga implorar por alguém. Quanto mais por ele- Você não poderia ser como Juuri, por exemplo.
- Me de uma chance!
- Touga... Não me force a piorar a situação.
- Kaien...
- Tire a mão de mim. –estava sério como raramente ficava- Não vou te dar falsas esperanças. Até um dia desses Touga. E não me procure para falar disso novamente, por favor.
Com uma violência acima do normal, Touga jogou o que restava do cigarro no chão e saiu, pisando firme.
- Sabe que se precisar coisa, é só me procurar. –pôs novamente na cabeça o chapéu de couro e foi embora sem se voltar.
- Sim. Eu sei... –suspirou.
Em dois dias sua vida havia virado do avesso. Queria salvar Juuri de seu destino previamente combinado, ao qual ela era contra, queria poder ajudar Touga, não magoá-lo, poder correspondê-lo... Mas nada disso estava em seu alcance.
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- Juuri.
Ela gelou até o fundo de sua alma perdida. Seus pais e irmãos estavam em pé, em frente a porta, quando a abriu.
- Papai.
- Onde estava?
- Me... Me alimentando... –bendita hora em que Kaien se cortara. O odor de seu sangue era seu álibi.
- Não o faça sozinha. –ele foi severo, mas não tanto quanto poderia ter sido- Juuri, eu lhe apresento seu noivo.
Haruka fez uma profunda referência, se voltando para ela. Seus olhos doces estavam carregados de felicidade, apesar de não pronunciar nada. Fora oprimido por tanto tempo... Nunca enfrentara o pai ou o irmão, mas com ela era extrovertido e gentil. Apaixonadamente gentil.
- Não quero me casar. –toda a coragem de sua vida fora gasta naquela única frase. Não conseguiria discutir.
- Juuri! –a mãe se surpreendeu, mas continuou calada.
- Você está me desrespeitando, mocinha?
Juuri balançou a cabeça afirmativamente, com os olhos transbordando terror ao ver o pai se tornar um monstro. Rido olhou para a mãe ao seu lado. A amava, mas sua falta de atitude o irritava. Haruka... Sempre lhe fora indiferente. Mas ele manifestara o desejo claro de ter Juuri. De lhe roubar Juuri. O odiava.
No momento, alheiamente a esses dois, ele era um espectador. De um cão covarde e sarnento prestes a estraçalhar uma lebre inocente. As mãos do pai estavam fechadas e cheias de energia psíquica, e ele ia em direção a sua preciosa irmã.
Sem um momento de hesitação, usou seu próprio poder para derrubar o progenitor, pegando a mão de Juuri e a puxando noite a dentro.
- Rido! –a mãe deixou escapar um grito.
- Juuri! –Haruka correu o quanto pode, mas não conseguiu alcançá-los.
Estavam longe quando finalmente pararam.
- Rido... O que você fez...?
- Juuri, não se casaria, nem mesmo comigo?
- Rido... Eu não te amo. Não como espera que eu te ame.
- Está bem. –ele estava visivelmente contrariado, mas ainda decidido- Se não se casar com Haruka, nosso pai vai te matar, você sabe.
- Sei...
- Calma. Podemos fugir, eu te escondo e te acoberto. Eles nunca te encontrarão.
- Mas, e você?
- Vou ficar bem. –a voz dele provava exatamente o contrário- Assim que você estiver em segurança, é claro.
- A quem recorreremos?
- Takuma Ichijou mora a três cidades daqui, ele finge fidelidade a nosso pai, mas estamos planejando revolucionar o conselho. A filha dele tem a sua idade, gostará de companhia.
- Rido, eu tenho tanto medo...
- Você vai ficar bem. Mas eu não posso ficar com você.
- Como?!
- Acabo de me lembrar. Juuri, enquanto Nobuhiro Hiou estiver vivo, ele me caçará. Nosso pai deve estar com ele neste exato momento. Ele caçará não só a mim, como a todos que me forem próximos. E você é a primeira desta lista.
- Rido...! –Juuri estava apavorada. Rido era seu único laço familiar e amigo no exato momento, e a idéia de perdê-lo era terrível- E o que ele fará?
- Se só me matar, estarei satisfeito. Não chore, vamos, temos que chegar lá antes de amanhecer. Acha que consegue?
- Não sei, estou com muito, muito medo!
- Venha. –ele estendeu os braços. Ainda que temerosa, aceitou a oferta- Durma um pouco, logo chegaremos.
Ele estreitou os braços em torno do corpo frágil da irmã e se pôs a correr o máximo que suas longas pernas permitiam.
Ela ainda dormia quando alcançou a casa dos Ichijou. Faltava apenas uma hora para amanhecer e seus sentidos aguçados de vampiro podiam sentir quem o caçava, a alguns quilômetros dali.
- Rido? O que os jovens Kuran fazem aqui?
- A tirei de casa, Takuma. E estou fugindo. Preciso que a abrigue, que a esconda muito bem escondido. De preferência, a mantenha com a Mei. Longe de tudo.
- O que houve?
- Ela contará quando acordar.
- Não vai ficar?! –o homem tinha a mesma idade de seu pai, mas era um de seus mais fiéis aliados.
- Não. Hiou está vindo me buscar. Só passei aqui para a deixar a salvo. Posso entrar?
- Claro, claro. Já está amanhecendo, tem certeza que não prefere esperar?
- Absoluta. Fala como se não conhecesse o clã Hiou, Takuma. Eles são os mais desprezíveis caçadores.
- Sim. Tem razão, será mais seguro para minha família.
- Só tenho que fazer algumas modificações... –murmurou, a deitando no sofá e passando a alterar sua mente- Para a segurança de Juuri. Cuide dela.
- Não se preocupe.
Assim que Ichijou fechou a porta, Rido começou a correr. Na direção oposta a casa, e o quanto pode, em direção ao leste. O sol queimava sua pele, o feria profundamente, como se ele estivesse sendo assado vivo. Corria, corria e corria. Tudo o que queria era atrair Nobuhiro Hiou para o mais longe possível, já que despistá-lo estava fora de cogitação.
Quando não podia mais, pensava no sorriso de Juuri, e como nunca mais o veria se o padrinho o pegasse, e corria ainda mais... Mas seus passos o traíam, e o sol fazia-os cada vez mais lentos. Estava, logo, apenas correndo no ritmo humano. Sem perceber, se arrastava.
Buscou a sombra de um bosque vazio. Há sete horas se separara de Juuri, e não agüentava mais. Parou. Imediatamente foi arremessado no chão, e sentiu o odor forte, que lembrava levemente páprica, referente a seu padrinho.
Fechou os olhos.
- Rido... Não está meio grandinho para fugir de casa? –o Hiou questionou, zombeteiramente, se levantando.
- Antes tarde do que nunca. –rosnou, se levantando também.
- Eu disse para se levantar? Ajoelhe-se! –os joelhos de Rido foram se dobrando contra a vontade do rapaz, até ele se ajoelhar- Assim está melhor. Você tem sido um menino malvado, não tem? Onde está sua irmã? Vamos, responda!
O vampiro mordeu a língua com toda a força que tinha, a destroçando. Ignorou a dor. Seu padrinho o despertara, tinha de obedecê-lo, a não ser que estivesse ferido demais para tal. E não entregaria Juuri. Nunca.
- O gato comeu sua língua, garoto?
- Hiro... –pronunciou, engolindo o próprio sangue, o apelido do padrinho. Hiro, o sádico. Hiro, o temível. Era a forma como era conhecido. Rido acreditava ser a única pessoa no mundo a o desafiar desta forma- Seu filho...
- Se já pode falar, pode me contar, certo?
Travou o maxilar novamente. Sentiu seus cabelos serem puxados para cima, o fazendo se levantar.
- Alguém está precisando aprender bons-modos. Mais tarde, é claro. Agora, vou ser bonzinho. Há tanto tempo não nos víamos, está com saudades?
Meneou violentamente a cabeça em um claro não.
- Porque eu estou. Com saudades e com fome.
Fechou os olhos ao sentir as presas cortarem sua pele sem o menor cuidado, sentir o sangue ser sugado, a energia se esvair... Quando pensou que ia desmaiar, ele parou. Sempre que Hiro o mordia fazia isso. Parecia divertido para ele ver sua vitima se desesperar. Psicótico, isso que ele era.
- Vai aprender, Rido. Vai aprender a me obedecer. Por bem, ou por mal. –riu, o chutando. O deixou no chão até anoitecer novamente, quando ordenou- Foi uma caçada e tanto, mas agora temos que voltar. Levante!
Se levantou, cambaleante, e foi empurrado para frente. Foi assim até chegar em sua casa.
- Olá. Voltei!
- Olá, Hiro! Seja bem-vindo de volta! Fez o que eu pedi? –o pai examinou o estado das roupas do filho mais velho. Era a única forma de se ver realmente o tamanho do estrago causado em um vampiro.
- Não achei a menina, mas dei uma boa lição neste garotinho. Não é, Rido? Ah, ele está com a língua em um péssimo estado, acho que está tentando evitar responder o que eu mando. Enfim. Está entregue.
- Leve-o.
- Como?
- Pegue para você. Faça o que quiser. Não o quero mais na minha casa, causa muitos problemas. –Rido estava totalmente estático. Estava perdido...
- Sabe o que isso causará? Os boatos indesejáveis...
- Case-o com sua filha. Será uma ótima desculpa.
- Tem razão. Foi um prazer, como sempre. Algo mais?
- Não nos convide para o casamento, será deselegante ter que recusar.
Hiro riu e se inclinou, cumprimentando o Kuran, se virando e arrastando Rido consigo.
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Uma semana depois, e Juuri ainda estava com Mei. A garota era uma ótima companhia, alegrava Juuri. Rido modificara sua memória, e ela realmente acreditava que fugira sozinha de casa, e acabara ali.
- Você o que?!
- Eu saio escondida, às vezes. Me apaixonei por um rapaz, mas ele é humano! Meus pais nunca aceitariam, esperavam que eu me casasse com outro sangue puro. Não entenderiam se eu quisesse um nobre, quanto mais um humano!
- Tem razão.
- O sorriso dele... É tão brilhante... –Juuri sorriu ao se lembrar do sorriso infantil de Kaien- Não posso viver assim. Juuri, eu vou fugir. Como você.
- Espere! Mei, eu fugi, para ser livre. Você vai atrás de alguém que você nem sabe se te aceitará!
- Não me importo.
- E vai me deixar aqui, sozinha?
- Não tem ninguém a quem possa recorrer?
- Na verdade... –correu até o casaco com que viera, buscando algo em seu bolso- Tenho sim! Posso fazer um telefonema?
-Sim. Use este telefone.
Discou o número apressadamente.
- Alô, Kaien? É a Juuri.
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