Desirable Roommate
3 A maioria das boas ideias é ridiculamente simples.
Notas iniciais
Beijos e boa leitura! :D
— Animado para ver o Novak?
Ou Dean estava agitado demais para voltar ao dormitório, ou Zachariah estava ficando muito perceptivo para seu gosto. Fosse como fosse, o outro adolescente o fitava com um interesse acima do comum. E Winchester não gostava nem um pouco daquela expressão arrogante em seu rosto. Tinha vontade mesmo é de arrancar aquele sorriso idiota à base de murros, mas não era inconsequente o bastante para tal. Podia se virar numa briga contra o mais alto, mas Crowley era um rato, e obviamente apoiaria o outro justamente quando o loiro não tivesse mais forças para se defender. Era preferível não se arriscar tanto na resposta.
Forçou uma risada irônica.
— Não seja idiota, Zach. Por que estaria?
Esperava, sinceramente, que o amigo não se importasse tanto com sua animação. Não queria ter problemas com o rapaz, ainda mais agora.
“É mesmo, Dean, por que tão entusiasmado para voltar?” uma voz irritante perguntou em seu subconsciente, mas ele fez questão de ignorá-la por completo. Pouco lhe importava, no momento, o motivo daquele súbito desejo de se despedir dos outros garotos e ir direto para seu quarto.
Por mais estranho que aquilo lhe parecesse, o sorriso se tornou mais sincero.
|| ♠ ♠ ♠ ♠ ♠* ||
Dean sentiu-se ligeiramente nervoso quando fechou a porta atrás de si, sendo atentamente observado pelos olhos azuis de Castiel. Era inquietante ser encarado daquela forma, ainda mais quando o moreno parecia tão sério. Sentou em sua cama, no meio da desordem de lençóis, travesseiros e materiais escolares. Continuava sendo fitado severamente, como se fosse uma criança que fez algo muito errado e agora levaria um verdadeiro sermão sobre responsabilidade.
Suspirou, baixando os olhos para o chão, notando que seu entusiasmo de minutos atrás havia desaparecido, dando lugar a um leve desânimo. E Castiel pigarreou, chamando sua atenção, fazendo com que o loiro erguesse o rosto para encará-lo.
— Poderia devolver meu livro, por favor? — apesar de toda aquela pose, ele sentiu um leve tremor na voz do moreno.
— Se eu devolver... — Dean o encarou com cautela. — Você ainda vai me ouvir?
Novak arqueou as sobrancelhas de maneira quase irônica, e o mais alto se encolheu um pouco, com um sorriso quase transtornado. Sabia o quanto aquela pergunta soaria estranha a Castiel, mas não tinha outra escolha. O que mais poderia fazer para chamar sua atenção, afinal? Eles eram amigos quando pequenos, e foram durante um longo tempo. Então, de repente, o moreno foi embora, sem avisar, sem deixar nenhum recado. Dean ficou magoado, sentiu-se traído.
Tinha outros amigos, obviamente. Muitos deles eram “de berço”, ou seja: conheciam-se desde os dois, três anos. E não era como se eles não fossem divertidos, porque sempre seriam. Mas Novak era o único que agia como se Winchester pudesse simplesmente espancá-lo a qualquer momento. E aquilo incomodava o loiro. Desde pequeno, acostumara-se a sorrisos falsos, a palavras de escárnio e expressões denotando segundas intenções. Até a alegria, aos sorrisos, aos olhares apaixonados. Mas não medo. Andava com algumas pessoas preconceituosas, não podia negar, porém isso era algo que não podia evitar nem mesmo se quisesse. Tentava simplesmente ignorar, e, inevitavelmente, era o mais simpático possível com as pessoas. Todavia, não impedia que as brincadeiras de mau gosto acontecessem, e talvez isso o tornasse tão culpado quanto o restante dos valentões.
Mas Castiel não dava a mínima. Quantas vezes, Dean não notou que era observado pelo moreno, para procurar seus olhos, pronto para dar um sorriso, e encontrou apenas uma repreensão silenciosa? Quantas vezes ele não buscou naquele olhar algo que expressasse uma emoção diferente da inquietação, da raiva? Mesmo quando sorria com sinceridade, era como se Novak o estivesse julgando, olhando-o de cima. Como se fosse bem melhor que Winchester, de alguma forma. O loiro estava frustrado, porque nenhuma de suas tentativas de aproximação teve algum resultado.
Se, para conseguir a atenção do moreno, precisava roubar um livro, o faria e sem hesitar. Até porque não encontrava outra forma de conseguir conversar com o rapaz, porque parecia que Castiel só falava com o mais alto quando este o provocava. Aquela atitude acabava com o garoto de olhos esmeraldinos.
— O que você quer?
Dean franziu os lábios, incomodado com a pergunta tão direta. Queria uma resposta, e não outras dúvidas. Com um longo e deprimido suspiro, sacudiu a cabeça em negação. Não podia fazer nada para mudar aquilo, mesmo que quisesse. E, Deus, como queria! Estava simplesmente exausto de tudo aquilo, e, no entanto, não podia fazer nada para mudar aquela situação.
Parecia que estava falando sozinho.
— Nada. Esquece. — indicou o colchão do moreno. — Seu livro está aí embaixo. E não precisa se preocupar... Eu não rasguei nem rasurei nada, se é o que está pensando.
Antes de Novak poder responder, o loiro pegou um montinho de roupas e saiu batendo a porta com força. Tomar um banho, dormir. Esquecer a frustração e todo o restante; era isso o que iria fazer. De nada adiantava se remoer por algo que não conseguia alterar. Mesmo assim, não conseguia deixar de se sentir decepcionado. Novamente, não conseguira falar com Castiel.
Ainda não sabia o que havia feito de errado para o moreno odiá-lo tanto.
|| ♠ ♠ ♠ ♠ ♠ ||
Castiel revirou-se na cama. Uma, duas, três vezes. Fechou os olhos, tentou pensar em coisas boas, coisas familiares que em qualquer outro momento teriam feito com que sorrisse. Todavia, não foi o suficiente para aplacar aquela sensação incômoda que lhe tomava o peito. Sentou sobre o colchão, aborrecido consigo mesmo pela falta de sono. Precisava dormir; as provas começariam em breve, e não podia se dar ao luxo de simplesmente passar a madrugada toda em claro, como vinha fazendo bastante nas últimas semanas.
Observou Dean deitado na cama ao lado, de costas, ressonando suave e profundamente. Admitiu a si mesmo que a inquietação se devia ao fato de tê-lo tratado mal. Adoraria saber do que se tratava o assunto sobre o qual Winchester queria conversar, porém ainda estava hesitante. Não queria correr o risco de cair numa pegadinha de mau gosto do rapaz.
Mas isso não justificava a forma como o havia tratado. O loiro em momento algum pareceu aquele Dean insuportável com o qual estava acostumado a viver. Foi sincero. Verdadeiro.
Aquilo começava a atormentar Novak.
— Dean. — sem se importar com o fato de o outro estar dormindo, esticou o braço e cutucou seu ombro. — Ei, Dean!
Winchester resmungou algo ininteligível, mas não se moveu. O ato lembrou ao moreno da época em que não passava de uma criança e tentava acordar o irmão mais velho para que fossem à escola. Gabriel xingava, resmungava, e acabava levantando ainda sonolento, marrento como nunca.
— Acorda, cara! — não tão delicadamente, deu tapinhas nas costas do loiro, que acordou num sobressalto, levantando-se de imediato.
— Mas que Inferno... — calou-se ao encontrar os olhos azuis de Castiel fixos nos seus. — Novak? O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Se não estivesse tão ocupado tentando imaginar como responderia àquela pergunta, o moreno talvez notasse que, apesar de parecer tão repentinamente desperto, Winchester ainda estava sonolento. E irritado. A vermelhidão em seu rosto era proveniente da impaciência, apesar de o loiro não dizer nada, destacando suas sardas rosadas. Parecia incomodado com o silêncio, um dos indícios de que o sono ainda entorpecia seu cérebro.
— Desculpe pela minha atitude um pouco agressiva, mais cedo. — Castiel suspirou timidamente, ainda o encarando. — Eu não deveria ter tratado você daquela forma, sabe...
Dean o observou, parecendo meio apreensivo. Então, num gesto que surpreendeu ao mais baixo, simplesmente sacudiu os ombros, um tanto quando indiferente. Logo em seguida, bocejou longamente, parecendo um gatinho manhoso.
— Tudo bem. — ele coçou a cabeça, espreguiçando-se. — Não tem problema.
E estava dizendo aquilo apenas porque “Não me importo” seria interpretado de outra maneira pelo moreno, que nunca entendia o que estava tentando dizer.
— É sério. — Novak mordeu o lábio inferior. — Enfim. O que você ia dizer?
Winchester esfregou os olhos com o nó dos dedos, e não conseguia acreditar que o outro rapaz o havia acordado àquela hora da madrugada para lhe perguntar a respeito de um assunto que deveria estar morto. Sua vontade era a de mandá-lo dormir porque ambos ganhariam mais, mas não o fez. Com um suspiro, apenas sacudiu novamente os ombros.
— Queria pedir para me ajudar com a matéria. — mentiu.
Como diria que iria apenas perguntar por que o moreno o odiava? Por que o tratava tão mal, mesmo que discretamente? Seria loucura, e provavelmente apenas irritaria ao mais baixo. Poderia, então, apenas arriscar que ele acreditaria em suas palavras pela primeira vez, já que, afinal de contas, fora o próprio Novak que desejou saber do que se tratava a conversa que não tiveram.
E, em parte, não era uma mentira. Realmente precisava de alguém para ensiná-lo, porque suas notas pareciam despencar por um profundo abismo que não tinha fim. E não estava sendo nem um pouco exagerado quando pensava que John possivelmente o mataria se precisasse chamar sua atenção com relação àquilo mais uma vez.
— Posso sim. — Castiel o encarou curioso. — Mas Zachariah também é bom em Física. Você poderia pedir para ele, não poderia?
Naquele momento, a coisa que Dean mais desejava era afundar a cara novamente no travesseiro e fingir que nunca havia dito nada relacionado à matéria, tampouco tentado falar com o moreno sobre a amizade arrasada sem motivos aparentes. Estava frustrado e aborrecido, de novo.
— Zach? — fez um muxoxo, e era a primeira vez naquela noite que revirava os olhos com incredulidade. — Por favor, até parece que você não o conhece. Iria me zoar até eu me formar.
Assim que terminou a frase, o loiro desejou fervorosamente nunca ter se pronunciado a respeito. Novak adquiriu um tom de vermelho vivo que nada tinha a ver com uma possível timidez, a expressão contorcendo-se numa careta.
— Eu não sou...
— Não foi o que eu quis dizer! — Winchester apressou-se a dizer, arregalando os olhos e gesticulando. — Quero dizer... Olha, só não quero alguém que fique pegando no meu pé, ok? Por favor. Zachariah agiria como se eu tivesse um terceiro olho ou... Ou duas cabeças, qualquer merda do tipo!
O mais baixo o encarou com desconfiança, e Dean não sabia o que mais poderia fazer para convencê-lo de que não fora sua intenção dar a entender que não passava de um substituto para que ninguém soubesse que havia pedido ajuda. Winchester realmente queria um pouco mais de privacidade, não desejava pessoas fofocando a seu respeito mais do que já o faziam. Mas como se explicar?
— Eu preciso de você, Castiel.
Novak ergueu o rosto para encará-lo, e estava pronto para resmungar até os Infernos. No entanto, todas as palavras morreram em seus lábios ao fitar os orbes esmeraldinos cercados por cílios longos, ainda o encarando com algo que parecia apreensão.
Um olhar sincero, beirando ao desespero, que ele nunca esperou ver naqueles olhos. Intenso. Puro. De certa forma, hipnotizante.
E apenas então se deu conta de que estava julgando o loiro pela faceta de arrogante que conhecia. A pessoa que o estava fitando naquele momento, ansiosa, era alguém completamente diferente. Não era o menino que conheceu. Não era o superprotetor, como um felino protegendo sua cria. Até aquele momento, não ouvira nenhuma piada de mau gosto, não vira nenhum sorriso sacana. Ao perceber isso, soube que a pessoa por trás de todas aquelas máscaras era apenas um rapaz comum, com a mesma idade que ele, com seus problemas e dúvidas.
Dean Winchester também era humano, e, naquele instante, parecia prestes a ter um colapso nervoso.
— Ok. — suspirou pesadamente, percebendo que o outro respirou fundo. Havia prendido a respiração durante todo aquele tempo?
— Posso voltar a dormir agora? — o loiro lhe dirigiu um sorriso torto, porém verdadeiro, que escondia o estado inquieto no qual se encontrava.
Conseguiu o que mais queria desde que notou a distância que o mais baixo parecia manter: uma forma de conhecê-lo melhor. Mas, agora, estava ainda mais incomodado. O que faria? Como agiria? Teria um longo tempo para pensar naquilo, no dia seguinte.
— Claro que pode.
— Boa noite.
Novak apenas lhe lançou um breve sorriso antes de apagar o abajur ao seu lado, que estava aceso desde o momento em que Dean sentara sobre sua própria cama. Esperou que o loiro deitasse e bocejasse, para apenas então esconder-se entre as cobertas, sentindo-se minimamente melhor agora que as coisas estavam entrando nos eixos. Não conseguiria mentir para si mesmo e alegar que gostava da possibilidade de manter tudo aquilo em segredo, mas era isso ou nada.
— Castiel? — surpreendeu-se ao ouvir a voz do loiro, já sonolenta.
— Hm? — ergueu um pouco o travesseiro que estava acima de sua cabeça para encará-lo, mas o outro rapaz permanecia virado de costas. — O que foi?
— Você precisa esperar a caveira baixar, para poder usar a corrente, puxá-la para perto e acabar de uma vez com ela.
Durante longos minutos, Novak não disse nada, porque tentava entender qual o sentido daquela afirmação. E, quando as pecinhas finalmente se encaixaram em sua cabeça, sentou-se de supetão, fitando Winchester com a boca entreaberta pelo choque. Mas o outro já ressonava novamente, adormecido. Como dormia tão rápido, era algo que o moreno queria saber, porém, naquele instante, ainda estava surpreso demais para conseguir pensar naquilo.
O chefe de fase. Castlevania. Ele o havia escutado jogando durante a noite, e se importou o suficiente com o fato para dizer algo a respeito. Castiel sequer sabia que o rapaz gostava de games.
— Obrigado. — sussurrou, não conseguindo conter o sorriso ao abraçar o travesseiro.
Dean era uma caixinha de surpresas
Notas finais
--------------------------
*O naipe de Espadas foi escolhido porque dia desses estava xeretando na internet coisas interessantes sobre baralhos, e achei algo muito bacana sobre isso. Pra vocês não precisarem procurar, aqui está:
"Corresponde ao elemento Ar, por ser invisível. A respiração do espírito que concebeu a idéia da criação antes de se tornar manifesta. Simboliza os domínios da mente, o pensamento abstrato que deve preceder cada ato de criação e que confere estrutura e significado à vida. As 14 cartas do naipe de Espadas descrevem o desenvolvimento dessa faculdade racional em suas formas nítidas e obscuras através dos conflitos e dos desentendimentos, e da compreensão que a mente oferece, e por intermédio dos tipos característicos que configuram os domínios da mente em sua forma mais pura."
Fale com o autor