Notas iniciais
Oie pessoal. Algumas notas e avisos: o capítulo era para ficar maior mas quando vi já estava com 2 mil e poucas palavras então decidi parar para não ficar muito longo e cansativo. Como vocês imaginam o "demônio do mal"? Eu imaginei ele como um Gakupo Kamui mais velho e mais sombrio (uhuuuu, kkk). Aliás ele agora tem um nome (antes tarde do que nunca né?) Vamos à leitura então. OBS: eu comecei uma nova fic, essa é original e chama-se Mudanças. Espero que vocês me dêem a honra de lê-la. Beijos,

Ciel

Desci as escadas sentindo desconforto, fui até a sala de jantar e encontrei uma cena insólita: Bard, Finny e Mei-rin estavam enfileirados ombro a ombro perto da porta e olhavam assustados para algo — ou alguém — desloquei meu olhar para o ponto onde eles observavam: Sebastian sentado na cadeira logo ao lado da cabeceira da mesa, tomava uma xícara de chá e comia um sanduíche, enquanto lia distraidamente o jornal.

Passei por eles que me lançaram olhares indagadores e descrentes do que estava ocorrendo; ignorei seus olhares e me sentei à cabeceira da mesa, tentando ignorar a fisgada e me servi do chá. Pelo menos eu não tinha marcas no rosto, a não ser os lábios meio inchados pela violência dos beijos, senão os olhares iriam ser piores.

Quando viram que eu mesmo estava me servindo, Mei-rin se aproximou.

_Quer que eu o sirva, Jovem amo? — perguntou solícita olhando desconfiada para o mordomo.

_Pode deixar. Estão todos dispensados, podem ir cuidar dos seus afazeres.

Demorou alguns segundos e então todos se viraram e saíram da sala, ouvi seus cochichos enquanto saíam.

Levei a xícara aos lábios inchados e tomei um gole — estava horrível como sempre, dessa vez deixaram aguado e parecia mais água suja do que chá. Pousei a xícara no pires e olhei para o nada, ignorando sumamente a criatura ao meu lado que continuava comendo satisfeita.

_Você deveria comer — me disse com a boca meio cheia e apontando o bolo à minha frente.

Não respondi, tomei mais um gole.

_Está gostoso.

Silêncio…

_Você tem que comer, Ciel — falou, cortando uma fatia do bolo, colocando num prato de sobremesa e me estendendo o mesmo.

_Não estou com fome — respondi, empurrei o prato afastando-o de mim.

_Coma! — reaproximou o prato.

_Não quero!!! — peguei o prato e o joguei no chão.

Ele se levantou, empurrando a cadeira para trás com um barulho, seus olhos brilhavam em violeta. Me levantei também, o encarando, deixei transparecer todo o ódio que sentia por ele.

_Garoto mal-criado! Vai comer sim — veio até mim, pisando duro, chutando os cacos e restos do bolo, empurrou meus ombros para baixo, me obrigando a sentar novamente, cortou uma nova fatia e a colocou na minha frente — Não vai me fazer obrigá-lo a comer, não é???

Relutantemente, peguei o garfo e pus um pequeno pedaço na boca, minha garganta se fechou e eu tive que me obrigar a engolir depois de mastigar brevemente, desceu como uma pedra. Ele sorriu e tornou a sentar-se, o semblante novamente calmo. Pegou uma torrada e enquanto passava geléia me disse:

_Tem que comer, Ciel. Preciso que você fique forte, afinal não quero que você desmaie enquanto eu estiver me divertindo — se jogou para trás, apoiando as costas no espaldar da cadeira e cruzando as pernas de modo displicente — nós vamos nos divertir muito: duas vezes ao dia pelo menos. Eu já estou com vontade de novo! E não pense que eu vou parar de meter em você se desmaiar, viu? — apontou a espátula para mim e eu disfarcei o tremor que percorreu minha coluna.

Comi o pedaço de bolo o mais rápido de pude e me encaminhei para o escritório, agradecendo por ele não ter me seguido, me trancando lá dentro — eu sei que se ele quiser, conseguirá facilmente entrar, mas mesmo assim, virei a chave — e me sentei na poltrona, olhando a janela.

Vi quando ele surgiu no jardim, caminhou com calma pelo passeio de pedras, olhou as rosas brancas, admirando as flores e cheirando uma ou outra — parecia bem inofensivo naquela hora. Aproximou-se do Finny que estava joelhado mexendo em um canteiro, este logo se levantou, olhando desconfiado para o mordomo; percebi que conversavam alguma coisa, e repentinamente “Sebastian” passou a mão no traseiro do jardineiro, apalpando-o! O coitado do Finny saiu correndo para a estufa, fugindo do molestador que ficou rindo.

“Imbecil”.

Tentei encontrar algum indício que denunciasse que não era o Sebastian ali, mas tudo era idêntico ao original: o jeito de andar, a voz, os movimentos. Exceto obviamente seus modos que não eram nada parecidos. Porém eu sabia que não era meu mordomo ali. “Quem seria aquele ser? E onde estaria o original? Meu olho continuava brilhando com o selo do contrato portanto, Sebastian continuava vivo. Por que ele não vinha? Seria possível que ele fosse conivente com esse outro demônio?”

O pensamento de que Sebastian talvez soubesse tudo o que eu passei e concordasse fez meu estômago se revirar, corri em direção à porta mas não deu tempo, vomitei no meio do tapete persa. Quando o estômago se acalmou, limpei a boca na manga do casaco e abri a porta, não sem antes olhar para os dois lados para ver se ele tinha entrado em casa. Fui ao meu quarto e troquei o casaco, desci e procurei o Tanaka, o encontrei na cozinha.

_Jovem amo — me saudou.

_Prepare um cavalo, rápido.

O ex-mordomo se apressou em sair. Logo o cavalo estava encilhado e eu me dirigi à porta, já estava com um pé no estribo quando o demônio apareceu.

_Aonde o senhor vai?

_Vou sair. Não está vendo?- dei um impulso para subir mas é lógico que não consegui montar. “Odeio minha altura”.

_Ah, não vai não — ele me segurou e me puxou deliberadamente, me segurando no colo e me levando para dentro de casa.

_Me solta — lutei e esperneei até que ele me pôs no chão. Ajeitei minha roupa.

_Agora vai me prender em casa???

_Exatamente. Você não tem nada o que fazer fora de casa! É perigoso!

Quase gargalhei na cara dele. “Eu estava em perigo aqui em casa e não fora!”

Ele foi me empurrando, me fazendo andar aos trancos até o quarto. Bard ainda tentou impedi-lo, se pondo na frente do demônio.

_Ei cara! Você não pode fazer isso com o Jovem amo!

_Posso e vou. Saia da frente — seu olhar mostrava todo o desprezo que ele sentia pelo cozinheiro.

_Olha, eu não sei o que está acontecendo. Mas você está com algum problema sério. Nunca agiu assim com Jovem amo! Onde está toda a sua educação???

_Se eu tiver algum problema, ele é meu. E você, saia da minha frente — ele deu um empurrão no Bard, não me pareceu muito forte mas foi, pois o loiro foi de encontro à parede do corredor.

Bard se chocou na parede e já voltou com o braço flexionado, o soco pronto. Percebi que o demônio se preparou para a luta. Não havia chance de Bard conseguir vencer um demônio, ninguém seria páreo. Me interpus, empurrando levemente o loiro.

_Pára Bard. Está tudo bem.

Bard olhou discrente para mim. “É lógico que não está nada bem” — era o que seus olhos diziam.

O demônio deu um olhar de triunfo para o cozinheiro que tinha Finny segurando seu braço para impedir qualquer tentativa de briga. Mei-rin estava um pouco mais afastada e olhava brava para o mordomo. Eles não entendiam… e nem podiam entender...achavam que aquele era o Sebastian de sempre.

Chegamos ao quarto, ele me empurrou para dentro e fechou a porta. Comecei a tremer involuntariamente.”De novo não”. Fiquei parado no mesmo lugar.

_É melhor ficar aqui, Ciel. Não quero que fale com ninguém.

_Você não manda em mim, cretino.

Ele se aproximou e segurou meu rosto.

_Mando sim. Você quer ver? — me contorci e retirei meu rosto da sua mão, me afastando rápido dele, mas eu estava trancado no quarto com aquele demônio, não tinha como fugir do que ele quisesse fazer comigo. Por algum motivo ele não veio atrás de mim como eu achei que ele faria. Deitou-se com as pernas para fora da cama, as mãos erguidas acima da cabeça.

Eu me encaminhei para a janela — o ponto mais afastado da cama.

_Você não precisa tornar as coisas tão ruins,sabia?

Olhei para ele, com ódio. Ele me encarou de volta.

_É isso mesmo — sentou-se na cama — vou ser sincero com você. Aquele que você chama de Sebastian não vai voltar e mesmo que ele volte, não tem chance comigo. Você pode continuar chamando por ele, eventualmente ele pode vir e então eu o mato. Sim, eu consigo matá-lo — confirmou quando viu meu olhar surpreso — Você quer isso?

Eu não respondi mas o olhava atentamente.

_Por outro lado, pode ficar comigo. Eu sou tão bom quanto ele — eu quis rir quando ouvi isso, mas ele continuou — Posso fazer você sentir mais prazer do que qualquer pessoa no mundo. E quando chegar a hora de você me dar sua alma, não vai nem perceber — vou devorá-la enquanto você estiver no êxtase do orgasmo. O melhor orgasmo que você vai ter.

Virei meu rosto para a janela, dando as costas para aquele ser asqueroso, meus dedos tocaram a vidraça. “Minha alma é do Sebastian”.

_Você pode tornar as coisas mais fáceis ou mais difíceis. A decisão está nas suas mãos — sentenciou pousando a mão no meu ombro, eu tive vontade de cortar aquela mão fora.

_Tenho algumas perguntas — falei ainda de costas para ele.

Ouvi ele rir.

_Pergunte.

_O que você fez com o Sebastian? Onde ele está?

Ele voltou a sentar-se.

_Eu o prendi, poderia tê-lo matado mas não quis. De todo modo ele não vai conseguir fugir. Eu o deixei bem ferido.

“Ferido”- a palavra ecoou na minha cabeça. “Sebastian não pode ser morto, a não ser que eu permita!” — eu quis muito acreditar nisso — “Mas eu também o havia ordenado para que nunca saísse do meu lado e ele se foi…”.

Eu ainda olhava pela janela quando o senti me abraçando por trás. Retesei meu corpo todo, queria repeli-lo mas apenas fiquei estático.

_Próxima pergunta? — falou.

_Quem é você? — minha voz tremeu um pouco e eu odiei isso.

_Você já sabe o que eu sou.

“Sim, um demônio.”

Ele apertou mais o abraço, trazendo meu traseiro para o seu quadril.

_Qual o seu nome? — falei, tentando me livrar dos seus braços. Surpreendentemente ele me deixou escapar. Queria correr mas me controlei, não queria que parecesse que eu estava fugindo dele, embora eu estivesse. Me sentei numa poltrona.

Agora ele olhava para fora.

_Que importa o nome? Pode me chamar de Sebastian mesmo.

_Eu nunca vou te chamar de Sebastian. Você não é ele! — meu tom foi duro, mostrando o quanto eu não gostava daquela criatura.

_Sei — concordou — Pode me chamar de Dimitri. Uma vez me deram esse nome… — falou nostálgico — Foi uma época boa, aquela que eu passei junto ao czar russo...hahahaha.

Odiei o som daquela risada. Mas ele logo parou de rir e veio na minha direção.

_Chega de conversa. Você vai querer do jeito fácil ou difícil? — ele se inclinou e me beijou. A língua forçou passagem entre meus lábios, entrando na minha boca, explorando-a e se enroscando na minha.

Não pensei duas vezes e movi meu maxilar, meus dentes se fecharam sobre o músculo alheio. Ele me soltou dando alguns passos para trás. Limpei o sangue do demônio que escorria da minha boca, senti seu gosto e cuspi ao lado da poltrona. Olhei arrogante; se ele achava que eu ia cooperar, estava redondamente enganado. Mas minha arrogância foi toda embora quando vi sua expressão feliz e satisfeita.

_Você é perfeito Ciel — limpou o sangue que escorria pelo queixo. Dimitri fez menção de se aproximar.

_Não se aproxime! — avisei, preparei meu corpo para me levantar, mas ele ficou parado no mesmo lugar e eu continuei sentado.

_Gosto de você — declarou me olhando com desejo, meu corpo de contraiu.

_Eu te odeio — coloquei todo o sentimento na frase.

Dimitri cambaleou como se minhas palavras o tivessem atingido fisicamente. Arqueou as sobrancelhas.

_Agora sei porque ele veio para você. Seu ódio e desejo de vingança é maior que tudo — depois abanou a mão, como se aquele comentário fosse banal — Mas para mim não faz diferença. Posso agir sobre o seu corpo e fazer você me amar de qualquer modo.

_Cretino miserável — cuspi as palavras, ele riu e veio na minha direção, congelei na poltrona.

_Pense pelo lado bom. Você nunca vai enjoar, posso ser várias pessoas. Sabe que eu andei pesquisando um pouco sobre você. Encontrei algumas fotos…

Dimitri assumiu aquela forma mista, desta vez menos Sebastian: o cabelo estava bem mais longo, atingindo a cintura; era um pouco mais forte, uma grande tatuagem tribal cobria seu braço esquerdo se estendendo do ombro até o punho, seus olhos estavam violetas. Meus olhos se arregalaram em surpresa, ele deu um risinho baixo.

_Não disse que você se apaixonaria na hora? E olha que eu não estou na forma original.

Fechei a cara. Ele podia ser belo mas não mudava o fato que eu o odiava. E mesmo assim, ele voltou a se transformar conforme dava os passos lentos na direção da poltrona onde eu estava. Passos lentos e certeiros como se fosse me dar o bote, eu sabia que era isso que ele ia fazer.

Agora ele tinha ficado um pouco menos alto, o cabelos curtos e loiros, as feições sérias, um cigarro pendia apagado entre os lábios que sorriam para mim, então a névoa violeta o rodeou e quando se dissipou Dimitri havia mudado novamente, estava mais baixo mas continuava loiro, os cabelos num tom mais vivo de dourado, grandes olhos esmeralda olhavam para mim, sua expressão não tinha nada a ver com o Finny, ele nem fazia esforço para imitar os gestos, apenas a fisionomia mudava. Respirei fundo, aquilo era ridículo, se a intenção era dar a entender que eu queria ir para a cama com Bard ou Finny, eu só podia confirmar o quanto aquele demônio era nojento. Porém, não podia descordar que era inquietante vê-lo mudar de forma tanto e tão rápido. Dimitri se aproximou mais, agora era Sebastian novamente — idêntico ao original. Mudou novamente: uma moça ruiva de óculos de aro. Mudou de novo: uma garota de vestido de babado e longos cachos dourados … Então ele começou mudando de forma cada vez mais rápido, numa velocidade vertiginosa — Sebastian, Dimitri, Bard, Finny, Mei-rin, Lizzy e novamente Sebastian — mal dando tempo da minha retina perceber quem era para mudar novamente — era inquietante e assustador, era essa a sua intenção, seu sorriso confirmava isso, estava brincando com os meus sentimentos, me amedrontando. “Não estou com medo, ninguém assusta Ciel Phantomhive” — disse para mim mesmo, sufocando o sentimento ruim que crescia .

Ele estava quase sobre mim quando assumiu a última e inédita forma: um homem alto olhava para mim, numa expressão que eu jamais havia visto o original fazer, cabelos lisos e negros caíam sobre os olhos castanhos, tinha uma pinta logo abaixo do olho esquerdo. Suspendi a respiração, me sentido zonzo, vi o mundo girar e ameaçar escurecer, o coração batia tão rápido que parecia que estava nos meus ouvidos.

_Papai… — o sussurro escapou dos meus lábios.

Dimitri sorriu encantadoramente para mim — era tão parecido com ele que eu quis abraçá-lo, só para poder sentir uma última vez os braços protetores do meu pai, um abraço de despedida…

Sacudi a cabeça, me livrando do pensamento absurdo. “Não é o meu pai, não é o meu pai, não é ele” — repeti mentalmente para me convercer. O enjôo veio com tudo, junto com ódio redobrado por ele brincar assim comigo.

_Cretino miserável — passei a mão no primeiro objeto que consegui pegar sobre a mesinha ao lado da poltrona: era uma estatueta de cerca de trinta centímetros, feita de mármore — uma pequena obra de arte que voou direto para sua fronte.

Dimitri cambaleou para trás devido ao impacto da estatueta, levou a mão à testa de onde escorria bastante sangue do corte no supercílio. Olhou para a mão e lambeu o sangue, cada vez eu sentia mais repugnância por aquele ser.

_Ah Ciel. Isso vai ter volta — segurou meu rosto com força — espere até amanhã à noite para ver.

Girou nos calcanhares e saiu do quarto, seu sangue sujava o meu rosto e o chão do quarto. Relaxei na poltrona e então percebi que estava prendendo a respiração até agora, soltei o ar aos poucos, sentindo o coração começar a bater do ritmo menos acelerado.

“Meu prazo é até amanhã à noite. Depois, ninguém sabe o que será de mim, o que sobrará de Ciel Phantomhive”.

Notas finais
Tudo terá que se resolver até a noite seguinte... ou não.