Desejos libertos
13 O dia - Parte 1
Notas iniciais
Sebastian
_ Não vou ajudar esse inseto! — o tom de voz do homem sentado sobre um caixão num dos cantos da sala era frio e cheio de desprezo, ele ajeitou os óculos e me encarou bravo.
Aliás nem sei se ele está bravo, sempre está com a mesma expressão de quem comeu e não gostou. Ignorei o comentário.
Estávamos todos reunidos na funerária do Undertaker. Depois de conseguir me desvencilhar dos braços do Grell — não sem alguma luta e sem o sem-expressão do Will o puxar pelos cabelos e o tirar de cima de mim — discutíamos como enfrentar o demônio.
_ Pense que você estará salvando o conde — argumentou Undertaker.
_ Aquele garoto é tão impuro quanto este aí.
_Meça suas palavra antes de falar do Bocchan — ameaçando-o. Will sabe muito bem que lutar comigo não é uma tarefa fácil, de modo que se limitou a dar um olhar gélido o que eu retribui.
_ Mas é verdade Sebby-chan. Ele é um impuro e está sempre mal humorado. Você deveria se ocupar com alguém mais divertido, alguém assim. ..ruivo...-Grell passou as mãos pelos cabelos para enfatizar, como se ele não fosse o único ruivo naquela sala.
_ Prefiro me ocupar com o Jovem amo — ajeitei os punhos do meu fraque ignorando o olhar indignado do shinigami vermelho.
_ HAHAHAHA. Você está mal mesmo senpai. O demônio além de preferir um adolescente; é um adolescente humano. Tsc tsc tsc.
_ Calado Knox. Ou vai ver o que vou escrever no seu relatório de estágio.
Ronald Knox parou de rir mesmo minuto.
_ Que seja — falou ajeitando a gravata — o que exatamente vamos fazer?
Will levantou a mão enluvada de preto, como se fosse um aluno exemplar querendo responder ao professor, todos o observamos atentos.
_ Sou a favor de resolvermos tudo de um jeito rápido e prático.
_ Tá certo, tá certo — apoiou Undertaker.
Will ajustou as luvas enquanto continuava a falar:
_ Estamos em quatro shinigamis aqui, ou seja, somos a maioria — ele olhou para os companheiros em busca de afirmação, mas como todos continuavam olhando para ele e esperando, ele continuou — Sou a favor de acabarmos com esta escória aqui — Will estalou aquele podador que ele usava como foice da morte e gesticulou para mim, arqueei minhas sobrancelhas em surpresa — Nesse meio tempo, se tivermos sorte, o outro demônio já vai ter devorado a alma do conde e então nós o matamos. Acabamos com três problemas rápido e fácil.
Se ele fosse capaz de mostrar algum sentimento naquele rosto engessado, eu diria que ele estava bem feliz com a saída encontrada. Fiquei com ódio, eu nunca gostei de shinigamis, por mim, nunca teria ido pedir ajuda à eles. “Onde já se viu um demônio pedir auxílio para ceifadores? Onde eu estava com a cabeça ?” — pensei. Mas eu sabia a resposta: “Minha cabeça estava num certo garoto…”. Meus pensamentos foram interrompidos pela voz do Undertaker:
_Tá errado, tá errado — respondeu, balançando os braços de um lado para outro.
William lançou um olhar enigmático para o outro.
_Nossa função é recolher a alma daqueles que estão marcados no livro e, caso seja possível, livrar o mundo de demônios que vivem para corromper as almas e roubá-las, hihihi — Undertaker roía agora um biscoito de cachorro — Maaasss, não podemos recolher uma alma que não está marcada. O nome do conde não consta no livro, portanto — o shinigami de cabelos prata cutucou a bochecha de Will com o pedaço de biscoito já meio roído — Não podemos deixar que esse demônio devore a alma do condezinho…
Will afastou o rosto, contrariado.
_Mesmo assim. Podemos livrar o mundo desse aí — Ronald estava sentado de pernas cruzadas sobre um dos caixões, Grell estava sentado ao seu lado e apoiava as costas no seu ombro.
Me levantei, sentindo que as coisas não corriam como esperado.
_E sob qual argumento vocês querem me matar?
_Precisa de algum argumento? Olha o que você é! — Will falou.
Comecei a andar na direção daquele cara de estátua pronto para rachá-la, ele também se levantou, se preparando para a luta; porém Undertaker se pôs entre nós dois. Juro que se eu não precisasse de toda ajuda possível, eu mataria aquele ser. Talvez eu o faça quando Bocchan estiver à salvo.
_Sim, ele é um demônio — interveio Undertaker — mas agora esse é o menor dos problemas. Ele não é livre, vive à base de contratos. O que podemos fazer se o conde está de acordo em dar sua alma e pelo jeito, — me olhou de cima à baixo — não só a alma à um demônio em troca de vingança? É a escolha dele.
_Por que esse ser vil seduziu aquela alma — falou Will, Grell que até esse momento estava distraído olhando as unhas, levantou a fronte, atento — Seduziu sim, com palavras doces, dizendo o que o conde queria ouvir, envolvendo -o em sua trama ardilosa.
_OOOHHHH Sebby, me seduza também — num pulo o ruivo estava sobre mim, me agarrando — Me envolva em seus braços e me diga o que eu quero ouviiiirrr.
_Me larga. Você é muito inconveniente — falei segurando seus punhos, tentando o afastar de mim. Obviamente não era o que o shinigami queria ouvir
Grell foi arrancado do meu lado pelo podador de Will que o segurou pelo colarinho e o jogou para o lado do seu subordinado.
Estava perdendo a paciência.
_Vocês vão me ajudar ou não?
_Acalme-se Sebastian. Sim, nós vamos ajudar — Undertaker assumiu uma postura bem mais séria, já não dava mais aqueles risinhos irritantes dele. Lançou um olhar significativo para os outros que ficaram quietos, até mesmo Will.
Undertaker continuou:
_Temos que fazer isso até amanhã à noite. Ou seja, não temos muito tempo.Vamos bolar um plano de ataque e partir o quanto antes.
Ronald se manifestou:
_Por que só até amanhã à noite? Já estamos na metade da tarde…
Limpei a garganta e, mesmo que a pergunta não tenha sido dirigida à mim, respondi sentindo o corpo tremer internamente:
_Amanhã é dia trinta e um de outubro. Dia em que todos os demônios estão livres e mais fortes. Nesse dia, todo contrato pode ser facilmente rompido. Se tem um dia em que ele pode roubar uma alma presa à um contrato, será amanhã.
O silêncio pairou na sala, todos se entreolharam. Aquela tarefa não seria fácil para ninguém.
_Vamos trabalhar juntos então? — perguntou Undertaker.
Um por um, todos deram a mesma resposta:
_Sim
****
Ciel
Passei o dia todo trancado aqui no quarto. Lá pela metade do dia, Dimitri abriu a porta e empurrou para dentro a mesinha com o meu almoço. Ela continua no mesmo lugar, intocada. Pelo menos ele não tentou mais nada comigo.
Ouço o barulho da chave na fechadura e, instantaneamente, fico apreensivo. Afinal, pode ser ele querendo se satisfazer.
A porta abre devagarinho e solto um suspiro de alívio quando vejo a figura ruiva de Mei-rin surgir na soleira da porta. Ela entra com cuidado, tentando ser o mais silenciosa possível.
_Jovem amo — noto que ela está sem óculos — Rápido. Venha.
Me levanto da cama, me arrastando até a beirada.
_Para onde?
Ela olha para os lados, como se tivesse medo que alguém pudesse ouvi-la.
_Fugir. Conseguimos preparar um cavalo, está escondido no bosque, perto da saída.
Pulei da cama, animado. Mas assim que pus meus pés no chão, voltei a sentar.
“Fugir para onde? Eu não tenho ninguém. E de que adiantaria fugir? Dimitri iria me encontrar de todo jeito!”
_Não adianta — conclui.
_Como não adianta?- a empregada tomou uma liberdade que nunca teve e me segurou pelos ombros me virando de frente para ela — Fuja, Jovem amo. Nós não sabemos o que houve com o senhor Sebastian. Ele sempre foi tão gentil, educado e cuidadoso mas agora parece outra pessoa… — “Parece não. É uma outra pessoa” pensei.
_Fuja. Nós daremos um jeito nele. De todo caso, não podemos deixar o senhor sozinho com ele. O senhor Sebastian ordenou que deixássemos a casa dentro de uma hora e só voltássemos daqui a três dias.
“Três dias…”
_Não. Eu vou ficar — me livrei dos seus braços e me virei de costas — Podem ir.
“Como explicar que eles não teriam a mínima chance contra um demônio?”- respirei fundo.
_Ma...ma...mas …
_Nada de mas. Podem ir, é uma ordem.
_Sim, senhor.
Ela saiu cabisbaixa e em silêncio.
***
Permaneci trancado no quarto até o anoitecer, alternava entre olhar pela janela vendo o céu escurecer e formar pesadas nuvens de tempestade e deitar na cama, com as mãos cruzadas sobre o abdome. Se ao menos eu tivesse sono, poderia dormir até a hora em que ele viesse, me mantive desperto e atento a qualquer ruído; mas desde Bard, Finny e Meir-rin deixaram a mansão ela se manteve em silêncio à ponto de eu pensar se Dimitri não havia ido embora também.
Após muito tempo, ouvi a porta se abrindo, eu estava deitado e assim que ele entrou eu me levantei, sentando-me na cama.
_Você está horrível, Ciel! Devia se cuidar mais…
“Idiota”
_Vem, vamos tomar um banho — ele me puxou pela mão e eu travei as pernas.
_Não!
_Vai logo! Como você é teimoso! Como que o Sebastian te aguentava, hein???
“Imbecil”
Ele me pegou no colo e me pôs como um saco de batatas sobre o ombro, me carregando para o banheiro. De jeito nenhum eu tomaria um banho com ele!
_Me deixa — esperneei inutilmente — Eu tomo sozinho, eu tomo sozinho.
Ele me pôs no chão no banheiro.
_Ahhhh. Está com medo de tomar comigo??? Puxa, Eu sou tãããooo de confiável.
Dimitri riu enquanto me empurrava até a parede mais próxima, me segurando pelos ombros, então me prensou contra ela, erguendo meu rosto.
_Não quer mesmo que eu te ajude, “Bocchan” — falou em tom de escárnio. Então abaixou o rosto e me beijou. Mantive firmemente os lábios fechados, ele puxou meus cabelos da nuca.
_Abra os lábios — mandou — ou vai ser pior.
Voltou a me beijar e, dessa vez, eu abri meus lábios minimamente. Ele invadiu minha boca e eu recebi sua língua passivamente. Dimitri segurava minha nuca com uma mão, de um jeito possessivo enquanto a outra apertava minha cintura; ainda prensava meu corpo contra a parede e uma perna sua estava entre as minhas, pressionando. Porém meu corpo rejeitava qualquer aproximação daquele demônio, estava tenso, meus músculos todos rígidos, minhas mãos fechadas com força tentando controlar o ímpeto de empurrá-lo. Depois de alguns minutos dele explorando minha boca, o ímpeto foi maior que tudo e eu o empurrei.
_Chega!!!
Ele acariciou meu rosto.
_Sim. Chega. Vamos aguardar não é? A hora está chegando. Agora vai — me empurrou pelos ombros em direção à banheira — vai tomar banho e se trocar.
_O que vai acontecer?
_Ahhhh. A gente vai se divertir muito. Hoje é o dia que sua alma será devorada — sussurrou perto do meu ouvido e saiu do banheiro me deixando sozinho com aquela revelação.
Senti o sangue fugir, minha cabeça começou a girar e percebi que ia desmaiar, escorreguei pela parede até me sentar no chão, flexionei minhas pernas trazendo-as em direção ao peito e escondi o rosto no vão entre as pernas e o tronco.
“Então esse seria o meu fim? Com certeza ele me torturaria e me violentaria até que estivesse satisfeito para então devorar a minha alma. Iria morrer desse jeito humilhante, sem a minha vingança e sem Sebastian.”
Fiquei um tempo perdido nessa auto-comiseração, mas então ergui minha cabeça. Fosse o que fosse eu iria enfrentar de cabeça erguida como um Phantomhive. Me levantei e preparei meu banho e entrei na banheira.
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