Desejos libertos
49 O shinigami
Notas iniciais
POV Sebastian
Depois que o bocchan desmaiou nos meus braços, retirei o farrapos do que havia sido meu fraque e o envolvi, tentando deixá-lo confortável na medida do possível, terminando por deixá-lo deitado no fundo do bote enquanto eu remava até o cais..
Assim que chegamos em terra firme, a primeira coisa que fiz foi correr para o hospital levando o corpo frágil do meu mestre nos braços. Cheguei com ele no hospital e foi prontamente atendido, acompanhei-o enquanto era deitado na maca e duas enfermeiras além do médico se debruçavam sobre ele, o examinando.
—O que aconteceu com ele? — perguntou o médico, um jovem loiro usando os óculos na ponta do nariz, provavelmente recém-saído da faculdade olhou para mim.
—Eu não sei, doutor — respondi não deixando a mentira transparecer no meu semblante, isso era algo muito fácil de se fazer então era já natural para mim — Eu o encontrei desmaiado no banheiro de casa, com certeza foi uma crise de asma muito forte.
O médico negou com a cabeça.
—Não, não me refiro a isso. A asma está clara aqui, digo sobre esses ferimentos. Ele se envolveu em alguma briga? — perguntou desviando momentaneamente a atenção de mim para a enfermeira mais velha, uma senhora de cerca de cinquenta anos, bem rechonchuda e com cara dessas enfermeiras bravas, deu algumas instruções e logo ela se afastou. A outra enfermeira se apressava em dar algumas gotas de um remédio na boca do bocchan que se mantinha desacordado, apenas a respiração fraca e chiante era prova de que estava vivo, pois a pele estava lívida e os lábios arroxeados.
Dei de ombros, disfarçando.
—Sim, doutor, ele se envolveu numa briga com outros garotos. Como vê, ele é franzino para a idade porém não se conscientizou disso ainda. Vive se metendo em brigas, eu ouvi os gritos e corri para ajudá-lo, como o grupo era grande, acabei me ferindo também. — respondi baixo e sério. Era a melhor saída, essa mentira serviria para explicar os ferimentos tanto do bocchan quanto meus e assim evitaria mais perguntas.
—É verdade — o médico se endireitou — Você também necessita de atendimento. Nice — chamou e a enfermeira mais nova olhou para ele — Vá chamar o doutor para atender o senhor….
A enfermeira se preparava para atender ao pedido do médico que nesse momento já estava absorto aplicando a injeção no antebraço quando a impedi. Seria ainda pior se resolvessem me examinar.
—Ah não, não é necessário. Parece mais feio do que realmente é. Por favor, se dediquem à saúde do jovem amo. Eu, como um simples mordomo, posso muito bem esperar — falei cortez, levando a mão direita ao peito numa mesura humilde.
—Nada disso! Você é tão importante quanto qualquer outro doente — a enfermeira se adiantou, se aproximando da porta aonde eu estava até então.
Espalmei as mãos um pouco à minha frente, dando um sorriso nervoso.
—Certo, certo! Eu irei então até a sala do médico. Por favor, eu peço que cuidem do meu amo. Ele é muito importante! — falei rápido, bloqueando a saída dela. E era verdade, ele era mais importante, eles não poderiam fazer nada por mim mas a saúde do bocchan estava totalmente nas mãos deles.
—Que mordomo mais dedicado! — ela sorriu gentilmente — Ele deve ser um patrão muito bom para merecer um funcionário tão leal e preocupado assim.
—É apenas o meu dever, senhorita. Do mesmo jeito que se dedica cuidadosamente com os pacientes desse hospital eu também me dedico ao meu senhor- dei um sorriso suave, sabia que ela estava caindo na minha conversa, não seria mais um problema — Pode fazer a gentileza de me dizer onde é a sala do outro doutor? Irei vê-lo e assim a senhorita pode se dedicar ao meu patrão.
O sorriso dela se ampliou ainda mais com a minha expressão constricta.
—É a sala três, no corredor da esquerda.
—Muito obrigado — fiz uma meia mesura, muito leve e me retirei.
Óbvio que eu não fui ao tal consultório. Ao contrário, dei a volta pelo enorme prédio pintado de um bege muito claro, completamente monótono e sóbrio, me postei logo abaixo da janela onde o bocchan estava sendo atendido e ali fiquei por cerca de uma hora, ouvindo atentamente o que era dito.
A crise de asma foi debelada e finalmente eu ouvi o médico respirar aliviado, dizendo para as enfermeiras que agora seria repouso e medicação para que o bocchan de recuperasse. Não posso negar que eu também respirei aliviado. Me irritava saber que eu não podia fazer nada para salvá-lo, que a vida e saúde dele tinham saído das minhas mãos, que dependiam agora de outras pessoas, de humanos. Depois de tudo o que eu tive que aprender sobre cuidar de humanos e principalmente do bocchan que sempre teve a saúde mais frágil do que o normal, aceitar que tinha coisas que estavam fora da minha governabilidade era difícil.
Suspirei e caminhei novamente para dentro do hospital, entrei pela entrada dos funcionários, por trás do prédio e me esgueirei até o almoxarifado de materiais, olhei as prateleiras até encontrar as roupas para os pacientes, peguei uma calça e uma blusa verde bem clarinho e me vesti, depois fui até a sala de medicamentos e achei algumas gazes, iria servir para provar que eu havia sido realmente atendido. Fiz rapidamente o curativo e fui até a enfermaria onde o bocchan descansava sobre a cama.
—Ahh o senhor voltou! — o médico exclamou, já na porta do quarto — Sente-se melhor?
—Muito melhor — toquei o curativo falso recém feito — Como meu mestre está?
—Ele está estável agora. Está muito fraco na verdade e seus pulmões foram severamente afetados por algum tóxico, é como se estivessem queimados. Ele inalou algo? Foi exposto à fumaça?
Neguei com a cabeça, mas eu sabia que aquilo era em razão da névoa tóxica do Dimitri. Diante da minha negativa, o médico deu de ombros.
—Muito estranho. Mas bem, ele está agora sem febre, e a respiração embora prejudicada, está fluindo pelas vias, com o tratamento e o tempo, vai melhorar.
—Quando posso levá-lo para casa? — perguntei olhando o bocchan naquela cama, ainda inconsciente. Haviam limpado ele e o trocado, o que serviu para ver com nitidez os machucados que antes estavam encobertos pela sujeira.
Tinha a cabeça enfaixada e o curativos sobre cada corte, os hematomas estavam úmidos pela pomada aplicada.
—Não tão cedo, senhor. Ele está fraco demais. Uma semana no mínimo. — O médico pousou a mão sobre meu ombro, deu alguns tapinhas leves e saiu seguido pelas enfermeiras.
Caminhei entrando realmente no quarto e me aproximei da cama, ele estava imóvel ali e a sensação era angustiante. Puxei uma poltrona e me sentei ao lado da cama.
—Bocchan… — murmurei segurando a mão fria e pálida, os dedos finos e delicados estremeceram mas isso foi tudo que eu consegui ter de reação do bocchan.
Baixei a cabeça e fechei os olhos. Aflito e com uma sensação opressora e dolorosa dentro de mim.
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Trinta dias. Foi o tanto que o bocchan ficou internado naquele hospital.
Ele só foi acordar no dia seguinte ao que aconteceu no navio. Acordou pelo meio da tarde, rouco e apático, me deu um sorriso cansado e murmurou.
—Estou vivo.
—Está sim — respondi, apertando de leve os dedos agora mornos.
Depois daquele dia, a recuperação foi lenta e instável. Houve dias que ele estava muito melhor, conseguindo até mesmo sentar-se para comer. Mas havia dias em que a febre o queimava por dentro e por fora, impedindo sequer que ele raciocinasse com clareza. Delirava com o Dimitri e o Alois, com os pais e os sequestradores.
Mei-rin e os demais empregados se amotinavam na porta do quarto quando isso acontecia, impedidos de entrar por ordem minha, os semblantes fechados mostrando a preocupação que pesava nos seus corações. A mansão Phantomhive estava mergulhada numa aura pesada e não podia estar diferente, bocchan piorava muito mais do que melhorava e eu sentia que a vida dele corria sério risco.
Contactei inúmeros médicos, de todas as especialidades disponíveis, embora soubesse lá no fundo que o mal do bocchan não era nada desse mundo, eu me recusava a dar o braço a torcer e admitir que Dimitri, mesmo morto, estava vencendo.
Como esperado, infelizmente, nenhum tratamento surtiu efeito. Os períodos de consciência dele ficavam cada vez mais escassos. Na maior parte do tempo, bocchan delirava sobre o passado, sobre pesadelos que o assombravam desde que sua família havia sido assassinada, os terrores se tornavam reais da mente febril do meu pequeno humano e debilitavam ainda mais o organismo frágil.
Eu permanecia ao seu lado cem por cento do tempo, minha rotina agora era totalmente voltada para ele ainda mais do que sempre foi. Dormia ao seu lado, segurando a mão quente demais e o acalmando quando gritava e chorava dormindo; na manhã seguinte, abria as janelas e a porta, deixando o ar fresco entrar e arejar o ambiente que sempre tinha um resquício do cheiro do Dimitri, bocchan exalava esse cheiro, como se organismo tentasse à todo custo expulsar o veneno que o estava matando, depois vinha a hora do banho e então eu tentava acordá-lo para dar comida na boca. Muitas vezes ele apenas abria os olhos e a boca, engolindo a sopa de forma inconsciente.
Raras vezes ele acordava realmente, trocava poucas palavras, na maioria das vezes perguntando onde estava, mas esses momentos eram fugazes, logo vinha a inconsciência novamente, permeada pelos pesadelos e alucinações.
Então, numa certa tarde em que eu estava como de costume vigiando pelo sono do bocchan, Finny apareceu no limiar da porta, olhou constricto para o bocchan e para mim.
—Senhor Sebastian, tem um homem amedrontador na porta, pede para falar com o senhor — falou apoiando o chapéu de palha na frente do peito em sinal de respeito.
Me levantei, ajeitando o fraque.
—Não disse o nome?
—Não, senhor. Mas ele me dá calafrios de medo.
—Fique com o bocchan enquanto eu atendo.
Não imaginava quem podia ser, não havia detectado nenhuma ameaça física ao bocchan e de qualquer modo, nenhum assassino viria pela porta da frente ainda por cima pedindo para ser anunciado. Talvez fosse algum dos médicos que o haviam atendido nesses últimos tempos.
Desci as escadas vendo o homem de amplo manto negro e longos cabelos prateados, estava de costas, olhando algo que para mim parecia ser somente a parede.
—O que quer, Undertaker? — falei terminando as escadas e quando ele se virou não vi o sorriso matreiro que era tão característico dele.
—Vim falar sobre o seu mestre. Falo aqui ou quer ir para um lugar mais reservado?
Aquele não parecia o Undertaker que eu conhecia, estava mais sério do que o normal, nem um traço do humor jocoso se fazia presente. Dei meia volta e caminhei sendo seguido de perto até o escritório do bocchan, fechei as portas e me virei.
—Fale.
Ele afastou a franja, tirando a cartola de mal gosto e me deixando ver os olhos verdes.
—Desfaça o contrato — falou curto e direto.
Arqueei as sobrancelhas, surpreso pela ordem.
—Por que eu faria isso? O bocchan fez o acordo por livre e espontânea vontade, estou cumprindo a parte que me cabe.
—Porque você desgraçou a vida dele. O conde está morrendo, você sabe disso, seria impossível você não ter notado e isso foi graças a você que atraiu aquele outro demônio para ele.
Fechei a expressão, controlando a raiva que começava a surgir dentro de mim.
—Se não fosse por mim, ele estaria morto há vários anos. Assassinado no antro daquela seita. Eu o salvei — falei um tom baixo e sério.
Undertaker deu um sorriso de desdém.
—Como você é bom, não é?
—Jamais disse isso. Disse que o salvei, foi o pedido dele: não o deixar morrer, não mentir e ajudar a achar o assassino dos pais.
—Então nega sua culpa no estado atual dele?
Respirei fundo, obviamente me sentia culpado, além de ter, mesmo que indiretamente, atraído o Dimitri para o bocchan, não tinha conseguido salvá-lo em nenhuma das vezes. Na verdade, me sentia péssimo por isso, mas ficar me lamentando pelos cantos não iria mudar o passado, eu agora, estava focado no que eu poderia fazer para salvar o meu amor.
—Não nego mas não sei no que isso vai mudar algo.
—Eu te explico, demônio. — Undertaker caminhou até a cadeira e se sentou, cruzando as pernas e apoiando o queixo na mão, o cotovelo apoiado no braço da cadeira. Permaneci em pé, o encarando.
—Se você o livrar do contrato, poupará uma luta e mais sofrimento para ele. Já que o ceifador não precisará lutar com você antes.
Toda a minha raiva contida cresceu e transbordou, não sei em que momento eu avancei até ele e o ergui pelo colarinho.
—Bocchan não irá morrer — falei enfurecido, meio que o sacudindo. Dessa vez, Undertaker riu, segurando meu pulso num aperto firme.
—Conte essa mentira quantas vezes você quiser, talvez engane a si próprio e os empregados porém lá no fundo sabe que não há salvação para ele. Ciel Phantomhive está condenado.
Aquela certeza me fez fraquejar e o shinigami se aproveitou disso para se livrar das minhas mãos.
—Tem que ter alguma coisa. Tem que haver alguma coisa que possa ser feito…. — falei, não sei se para ele ou para mim mesmo.
Undertaker caminhou para longe de mim, conseguindo uma distância prudente.
—Não tem e você sabe disso. Se o ama, se é que o ama, deixe a alma dele livre para que possa ser recolhida e ele ter a paz que merece, demônio — tendo dito isso, ele se virou de costas para mim, abriu a porta e saiu.
Demorou apenas alguns segundos para que eu me movesse e fosse no seu encalço.
Cheguei no hall de entrada e a porta estava aberta, saí e nada do Undertaker, ele tinha sumido.
—Senhor Sebastian! Senhor Sebastian!! — ouvi Finny gritar da parte superior e o som de passos rápidos pelo corredor, com certeza ele estava correndo. Entrei rápido, olhando alarmado para ele, se fosse algum shinigami dentro do quarto do bocchan eu iria expulsá-lo na base dos socos, não mediria minha força para proteger meu pequeno mestre.
Finny apareceu na ponta da escada, estava vermelho e muito agitado.
—O bocchan acordou, quer falar com você — sorriu enormemente e em segundos eu estava no topo da escada indo para o quarto.
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