Desejos libertos
50 O Contrato
Notas iniciais
Cheguei no quarto e o bocchan permanecia deitado na cama, reclinado sobre os travesseiros macios de fronhas brancas com finas listras rosa, olhei para ele com carinho. Seu olhar mostrava que estava lúcido, era a primeira vez em duas semanas e isso me deu esperanças de que Undertaker estivesse errado.
—Bocchan… como se sente? Tem fome? — perguntei indo até a cama.
—Um pouco de sede — falou um sopro rouco.
—Irei providenciar um suco de frutas para você — ameacei dar meia volta para ir até a cozinha.
—Não, Sebastian — se apressou em dizer — Eu quero aproveitar o tempo para falar com você. Me dê apenas um pouco de água e tranque a porta.
Acenti com a cabeça e enchi um copo da água da jarra de cristal que eu mantinha na cabeceira da cama e me inclinei, apoiando as costas dele enquanto segurava o copo, ajudando-o a beber alguns goles. Havia emagrecido tanto que eu podia sentir as vértebras proeminentes por baixo da roupa.
Ele bebeu poucos goles e afastou minha mão, indicando que era o suficiente. Voltei a deitá-lo e ele apoiou a cabeça no travesseiro, visivelmente cansado pelo mínimo esforço. Pousei o copo no criado-mudo e me sentei na beirada da cama, o olhando em seguida.
—Se sente um pouco melhor? — perguntei preocupado e ele me lançou um olhar repreendedor. Claro que ele não estava se sentindo melhor, mas eu queria muito que estivesse. Acho que o meu olhar foi muito claro sobre meus sentimentos, pois o bocchan suavizou o dele e me estendeu os braços. O abracei com cuidado, o envolvendo nos meus braços e escondendo o rosto na curva do seu pescoço, ele ainda cheirava Dimitri mas podia sentir ali um pouco do meu bocchan.
—Sebastian… quero falar algo muito sério com você — ditou pausadamente, afrouxando o abraço e eu o apoiei de novo nos travesseiros.
—Descanse, bocchan. Não gaste suas energias com coisas que podem esperar.
—Não posso esperar, Sebastian. Sabe disso: à qualquer momento eu posso voltar aos delírios e posso nunca mais voltar então tenho que aproveitar os momentos como esse.
Permaneci olhando para ele, mesmo que ele estivesse com os olhos fechados momentaneamente, os cílios tremulando, lutando provavelmente contra o mal-estar que o acometia.
—O que aconteceu com a rainha? — foi a primeira coisa que perguntou depois de alguns minutos de silêncio.
—Ela foi encontrada no dia seguinte pela guarda , desmaiada no navio. Encontra-se de cama e incomunicável no momento. Você não pensa em procurá-la, não é?
Bocchan negou com a cabeça e apertou a borda do acolchoado que o cobria, fechando mais uma vez os olhos, percebi que ele engolia em seco e pousei a mão sobre a dele.
—Bocchan… — murmurei indeciso sobre o que fazer. Tinha vontade de abraçá-lo e beijá-lo porém ele estava se recuperando agora, não queria que gastasse energia preciosa para o seu restabelecimento.
—Me lembro de ter estado no hospital… o que os médicos disseram? — murmurou ainda de olhos fechados.
—Crise de asma e danos nos pulmões de causa desconhecida. Mesmo assim você foi medicado e tem melhorado aos poucos.
—Melhorando? — abriu os olhos, focando em mim — Eles não sabem o que falam, eu não estou melhorando, Sebastian.
—Mas vai. Aos poucos, vai — me apressei em dizer e segurei ambas as mãos do bocchan, agora elas estavam numa temperatura amena, normal para os seres humanos.
Bocchan passou a ponta da língua pelos lábios e ameaçou um sorriso.
—Eu vi de relance sua verdadeira forma… no navio.
—Te assustou? — perguntei curioso. Não era a minha verdadeira forma, mas estava bem próximo.
Ele negou com a cabeça.
—Pelo contrário, eu achei bonito e se não estivesse lutando contra aquele monstro, acharia sexy.
Dessa vez sorri mais e apertei um pouco as mãos do bocchan.
—Achou?
Ele assentiu com a cabeça e olhou para mim.
—Achei… vai demorar quanto tempo para me beijar? — perguntou franzindo de leve o cenho.
—Bocchan… — murmurei sorrindo e me inclinei para ele, beijando-o de forma carinhosa e suave, controlando a minha vontade de apertá-lo nos braços e aprofundar o beijo, não exatamente porque o estivesse desejando sexualmente no momento mas porque estava feliz por tê-lo de volta.
Bocchan levou a mão ao meu rosto e eu o abracei com cuidado, prolongando o beijo apenas mais alguns segundos.
Quando encerrei o beijo, bocchan deu um pequeno sorriso mas logo ele sumiu dos seus lábios.
—Agora, pegue papel, a pena, cera e o meu anel. Tenho um documento para fazer mas não tenho forças para escrever, você vai escrever para mim.
Neguei com a cabeça, colocando a palma sobre a sua testa para ver se estava com febre, porém ele se mantinha morno.
—Não vai trabalhar agora, se poupe — falei preocupado.
—Me obedeça, Sebastian.
Respirei fundo, ele não estava em condições para isso, agora que estava consciente e sem febre, tinha que se poupar para se recuperar logo, não ir querendo logo trabalhar e fazer documentos. De qualquer modo, me levantei e saí do quarto quase dando de cara com Finny, Bard, Mey-rin e o Tanaka amotinados no corredor, pela expressão deles nem precisava perguntar nada.
—Ele está melhor. Está consciente e falando. Acho que agora tudo vai melhorar — falei esperançoso, acalmando os empregados.
—Vivaaaa!!! — Finny gritou pulando nos braços do Bard. Mey-rin ria feliz e levando as mãos aos lábios, e comemorando emocionada; Tanaka, chorava baixinho e contido como um mordomo deve ser.
—Shiiu!!! Não façam tanto barulho. Bocchan precisa de repouso — repreendi mas logo dei um pequeno sorriso, mostrando que na verdade não estava nem um pouco bravo com a comemoração deles, eu mesmo estava do mesmo modo, embora não externasse. Todos voltaram a ficar em silêncio, olhando para mim.
—Talvez mais tarde o bocchan peça para ver vocês, acho que tão cedo ele não levanta da cama, mas fiquem calmos, agora tudo vai ficar bem. — falei sorrindo e me encaminhei para o escritório a fim de pegar os materiais.
Quando voltei, já com tudo em mãos, vi os empregados saírem do quarto em prantos, nenhum dirigiu a palavra a mim porém Finny me lançou um olhar muito claro, era repleto de dor e tristeza. Corri para o quarto, com medo de que o bocchan tivesse ficado inconsciente novamente e encontrei-o de olhos fechados como se estivesse dormindo.
—Bocchan? Os empregados...- chamei baixo, receoso dele ter voltado ao sono e febre, porém ele abriu os olhos e se ajeitou na cama.
—Eu os chamei para falar com eles, agora sente-se ao meu lado — pediu e eu obedeci, apoiando as folhas de papel numa prancheta e o tinteiro no criado-mudo, me preparei de pena em punho para escrever.
Bocchan respirou fundo ainda com um resquício de chiado, tomando fôlego.
—Imite minha letra com perfeição, Sebastian — e começou a ditar:
“ Arredores de Londres, 26 de agosto de 1889.
Eu, Ciel Phantomhive, nomeado conde pela vossa majestade Vitória e herdado por mim através do meu pai, Vicent Phantomhive, em pleno poderes das minhas faculdades mentais venho através deste deixar registrado meu testamento.”
Nesse momento eu parei de escrever e o encarei, sério. Bocchan apenas meneou a cabeça.
—Escreva, Sebastian. — e continuou a ditar. Pousei a pena sobre o papel, prestando atenção.
“A residência de Londres, situada à rua Fleet, 156, assim como todo seu mobiliário e objetos ficará para a senhorita Mey-rin. A residência conhecida como Mansão Phantomhive, seu mobiliário e objetos ficará para Bardroy e Finnian, devendo ambos administrarem a propriedade.
As terras dos arrendatários em poder dos Phantomhive, deverá ir para Tanaka e após a morte deste, será dividida entre Mey-rin, Bardroy e Finnian.
A companhia Funtom assim como suas ramificações nas empresas de doces, alimentos e brinquedos deverão encerrar suas atividades e os lucros obtidos nesses dois últimos meses deverão ser divididos entre os empregados à título de rescisão. O domínio da marca e tudo mais relacionado à isso ficará em suspenso e deve ficar em posse da administradora do banco, vinculado ao cofre em meu nome.
As jóias de minha falecida mãe, Rachel Phantomhive deverão ser dadas à minha prima Elizabeth Middleford. Meus livros preferidos (segunda estante do lado direito do escritório) deverão ficar para o príncipe Soma Asman Kadar como prova de amizade e respeito.
Dito isso, declaro que estou de acordo com tudo escrito nesse documento e que ele só terá valor quando eu falecer.”
Terminei de escrever sentindo um nó se formar na garganta, olhei para o bocchan e ele parecia mais pálido do que antes mas podia ver que estava resoluto do que havia feito, me estendeu a mão.
—Me dê para eu assinar, depois sele o documento.
Entreguei a prancheta com o testamento do bocchan e ele assinou o nome com a letra levemente tremida e me devolveu enquanto eu derretia a cera na chama da vela, depois ele mesmo colocou a cera no papel dobrado e bateu o sino com o timbre dos Phantomhive.
—Pronto — finalizou colocando a carta sobre o criado-mudo e me olhou.
—Agora vem a sua parte que te cabe.
—Eu não quero objeto material nenhum, isso não tem o mínimo valor para mim — falei.
Então ele estendeu a mão para mim e entrelaçou nossos dedos, sorri minimamente e apertei os dedos dele, acariciando, estavam mais quentes do que o normal mas não o suficiente para ser uma febre. Infelizmente provavelmente o início dela.
—Eu sei disso. Você sabe do que eu estou falando…
—Ainda não é a hora — falei decidido. Eu não iria consumir a alma do bocchan, não agora, por mais deliciosa que fosse e eu sabia que era, não seria capaz de fazer isso depois de tudo o que vivemos.
—Agora é exatamente a hora, Sebastian. Você cumpriu a sua parte do contrato, me ajudou a descobrir quem mandou matar minha família. Minha vez de cumprir a minha — ele apertou meus dedos e me olhou nos olhos, a marca do contrato na sua íris brilhava de leve.
—Não… ainda não — neguei.
—Quando então? Quando eu estiver morto e não houver mais possibilidade?
Fiquei em silêncio e ele continuou.
—Vai me deixar ir? Vai deixar o Dimitri vencer? Ele disse que eu não seria seu, que ele me roubaria de você. Vai deixar isso acontecer? — a voz estava um pouco exaltada.
—Dimitri está morto. Ele não vai ter sua alma.
—Pelo jeito nem você. Está me negando, Sebastian? Está me dispensando justo agora que eu descobri o que precisava?
—Você não teve a sua vingança — ponderei.
—Nem vou ter, porém de certo modo a vingança irá acontecer. Eu fiquei bem menos tempo em poder do Dimitri e veja como eu estou. O que acha que vai acontecer com a rainha que esteve nas mãos dele por muitos meses? Você mesmo me disse que ela está de cama e incomunicável, acha que ela vai se recuperar? — falou baixo e negou com a cabeça, completando:
— Eu duvido muito.
— O destino da rainha está selado. — Concordei com ele.
— Assim como o meu. Sebastian — bocchan me chamou e eu olhei para ele — Eu sei do meu destino, desde aquela noite em que você foi invocado e eu selei o contrato contigo eu sei o que me esperava quando eu finalmente descobrisse o que aconteceu com meus pais. Não estou arrependido de absolutamente nada.
—É diferente, bocchan, eu nunca havia me envolvido com nenhum dos meus contratantes. Nunca nenhum havia me despertado esse tipo de sentimento que eu tenho por você… — declarei olhando-o nos olhos.
—Vai me dizer que me ama? — bocchan sorriu convencido e eu retribuí o sorriso.
—E se disser? Você vai gostar, não? — falei o puxando para um abraço, porém ele gemeu de dor e eu suavizei o aperto.
—Não sei. Tente para ver a minha reação — me provocou, se movendo para se acomodar melhor. Eu mesmo me ajeitei na cama, tomando-o nos braços numa posição mais confortável para ele e tive meu pescoço enlaçado pelos braços já febris do meu mestre.
Sorri em resposta à provocação dele, me inclinei e deixei um selinhos nos lábios.
—Agora é sério, Sebastian. Você sabe que eu sou seu, não só pelo contrato mas por todo o nosso namoro ou sei lá como devemos chamar isso que vivemos, acho mesmo que está mais para um casamento já que moramos juntos e compartilhamos a cama todas as noites. Eu não quero morrer e ir para algum lugar desconhecido — começou a falar calmo porém eu percebia que a voz ficava embargada conforme ia falando.
—Talvez você reveja seus pais… — falei, eu ponderava seriamente em, na pior das saídas, liberar a alma do bocchan para que ele seguisse seu caminho. Talvez renascesse daqui a alguns séculos, teria uma nova família, poderia ser feliz e não esse jovem atormentado e traumatizado de agora, talvez tivesse uma vida tão diferente que não atrairia demônio nenhum que o prendesse e quisesse sua alma… talvez nem mesmo eu pudesse encontrá-lo novamente e essa minha vida como Sebastian ficaria apenas como uma lembrança boa e saudosa do meu pequeno bocchan. Senti meu coração se apertar em ciúme e desespero, não queria perdê-lo, não queria ficar sem ele e odiei tanto o Dimitri que meus olhos brilharam avermelhados. Demônio maldito que havia roubado os anos de vida do meu amor. Nós ainda podíamos ter vivido juntos muitos e muitos anos se não fosse por aquela escória.
—Rever meus pais? Eu duvido muito, eles já seguiram o caminho deles. Não sei qual o destino deles mas eu sei o meu — bocchan controlava as lágrimas, não querendo dar o braço a torcer e mostrar fraqueza mas eu via e sentia o corpo magro tremer nos meus braços, ele segurou firme a lapela do meu fraque.
—Sebastian, não me deixe ir para o desconhecido. Não deixe que o Dimitri me tire de você! — começou a puxar e tentar chacoalhar meu tronco, agora chorando de vez, deixando as lágrimas descerem livremente pelo rosto corado pela febre que aos poucos voltava. Fiquei desesperado, prevendo que ele entraria numa nova crise.
—Se acalme, bocchan… — falei apertando-o carinhosamente, tentando transmitir calma e confiança mas era inútil.
—Sebastian… Sebastian… você me prometeu que não me abadonaria… você sabe que eu estou morrendo. Eu vou morrer e nunca mais te ver!! Nunca mais vamos estar juntos. Eu não quero isso! Você tem um contrato comigo, eu exijo que o cumpra. Tome minha alma, devore-a. Me faça seu pra sempre… eu não quero mais nada além disso! Você não pode mentir para mim e disse que o faria quando descobríssemos quem acabou com meus pais. Cumpra!!! Eu exijo!!!! — ele estapeou fracamente o meu peito, sem forças para sequer tentar me machucar, não que isso fosse possível.
—Bocchan… — tentei argumentar, dizer algo que o acalmasse por hora.
—Sebastian!! Devore logo a minha alma! Me faça seu para sempre, eu quero de algum modo fazer parte de você, estar com você mesmo que eu não exista mais. Eu sinto.. eu sinto… o poder do Dimitri tomando conta de mim novamente, não me condene a voltar para os pesadelos, você não sabe o que eu vivo preso neles. Me salve mais uma vez. Me consuma e me liberte desse tormento…
Aquilo me atingiu em cheio, jamais deixaria meu humano, esse humano que me fez mudar tantas coisas em mim e descobrir a capacidade de ter esse sentimento tão intenso e avassalador que aos poucos mudava a minha natureza demoníaca. E tudo isso foi graças a esse pequeno humano, tão lindo, complexo e desejável. Uma certeza começava a se formar na minha mente, tomando corpo e forma rapidamente.
Sequei as lágrimas que desciam copiosas pelo rosto avermelhado e quente.
—Se acalme… ou vai desmaiar de novo… — murmurei com ele nos meus braços, sentado sobre minhas pernas, de lado.
—Eu não quero… eu não quero voltar para o pesadelo… eu já cumpri o que devia aqui. Estou morrendo, eu sei disso… Cumpra sua parte…. — falou desesperado entre soluços, me olhando com os olhos febris mas ainda lúcidos. A decisão teria que ser tomada logo, antes que ele voltasse à inconsciência.
—Você tem certeza? — falei baixo, secando o rosto — Quer ficar comigo para todo o sempre?
Bocchan parou um pouco de chorar embora algumas lágrimas descessem à revelia.
—Mais do que certeza. É a minha única certeza nesse exato momento. Faça! — falou decidido, apertando minha camisa.
Respirei fundo, olhando para o horizonte pela janela aberta, as cortinas finas de voal esvoaçavam com a brisa fresca da noite que caía. Lá fora o céu se pintava em rosa, amarelo e azul, as cores se mesclando em partes, adquirindo um tom arroxeado.
Voltei meus olhos para o bocchan que me encarava agora sem chorar, vendo de relance o anel da família Phantomhive ainda no seu dedo.
—Eu não tenho medo. Quero que faça isso… quero muito…
—Feche os olhos — falei sentindo a transformação começar.
—Não. Eu me manterei de olhos abertos e enfrentarei de frente. É o que eu quero, estarei com você.
Sorri pequeno e deslizei os dedos pelo seu rosto.
—Você será meu para sempre…
Bocchan correspondeu o sorriso.
—Serei…
Então, me inclinei para ele o trazendo para mim e tomei seus lábios procurando na minha mente as informações que eram necessárias para fazer o que tinha que ser feito. Bocchan correspondeu ao beijo, movendo os lábios nos meus e eu aprofundei o contato, enroscando a língua na dele, o beijando intensamente e sendo correspondido do mesmo modo.
Sentia minha forma humana dando lugar ao à minha original embora não fosse realizar a transformação completa. Uma cortina negra de penas que caíam em torno de nós bloqueou a parca luminosidade do fim do dia, porém continuei beijando-o, não sentindo a menor resistência por parte do bocchan, entreabri meus olhos e vi que ele mantinha os seus entreabertos, me abraçando pelo pescoço. Suguei a sua língua, deslizando a mão pela lateral do corpo, apertando a cintura, continuava delicioso como sempre e meu corpo reagia ao dele. Ele mesmo não se mantinha imune aos meus toques, gemeu baixo quando comecei a explorar a sua boca e minha fome aumentou, tanto pela sua alma como pelo seu corpo, porém eu tinha que fazer o que tinha em mente e esperava que o bocchan não se arrependesse. Comecei a utilizar meu poder, entrando num duelo contra o do Dimitri que ainda corria em suas veias, senti bocchan se remexer nos meus braços, angustiado, com certeza ele sentia a luta ocorrendo dentro de si, subi a mão novamente, acariciei a bochecha e a lateral do pescoço acalmando-o e então coloquei mais força percebendo quando a cortina de penas negras tornou-se mais densa e escura.
Bocchan gemeu mais quando finalmente quebrei a barreira do Dimitri, infelizmente não havia mais volta, não a partir daquele momento. Continuei o beijo apaixonado e profundo sentindo meu humano se entregar por completo correspondendo ainda ao beijo e apertei-o nos braços, podia sentir o coração dele bater descompassado no peito, tanto pelo beijo quanto pelo meu poder entrando no seu corpo, fui com ainda mais ímpeto, transmitindo todo o meu sentimento através daquele beijo, realizando o final do processo.
Ele me apertou contra si e gemeu, e então tudo cessou, bocchan parou de corresponder ao beijo e afastei meus lábios dos seus. Bocchan repousava nos meus braços, os olhos fechados e os lábios entreabertos, úmidos ainda. As mãos escorregaram pelos meus ombros e penderam, com as pontas dos dedos tocando a cama.
Afastei a franja dos olhos dele e acariciei seu rosto.
—Eu te amo, meu bocchan — murmurei, uma ebulição de sentimentos estourando no meu peito me fazia sentir um bolo na garganta.
E foi com esse sentimento que eu o deitei na cama novamente e o cobri com a manta até o peito, saindo do quarto em seguida para dar a notícia aos empregados, Agni e Soma e à família Middleford.
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