Desejos libertos
10 O prisioneiro
Notas iniciais
Sebastian
O frio de ambiente atravessava o tecido das minhas roupas, gelando meu corpo; não que eu sinta frio, mas é uma sensação desagradável. Tentei passar a mão no rosto e percebi que estavam presas: grossas correntes de ferro chumbadas no teto desciam e prendiam meus punhos, terminando em correias de couro, apertando minha pele e mantendo meus braços esticados acima da minha cabeça. Minhas pernas também estavam presas por correntes semelhantes.
“Quanto tempo eu fiquei desacordado?”
A última coisa que eu me lembro é de ter sentido uma presença estranha e perigosa rondando a mansão. A mais perigosa que eu já havia sentido em todos esses anos com o Bocchan. Lembro de ter saído no jardim e sentido um impacto no meio do peito e então mais nada.
Girei meu olhos pelo local onde estava preso. Era uma sala circular, sem janelas, pouco iluminada, havia uma lareira acesa numa das paredes o que conferia uma luminosidade alaranjada no cômodo e uma porta de madeira e cravos de ferro na parede oposta; o ar era pesado, com um cheiro característico. Só havia um lugar no mundo inteiro que tinha aquele cheiro e eu não queria estar aqui. Meu lugar de origem: o inferno.
Um redemoinho de fumaça surgiu no meio da sala, dois olhos violeta brilharam na fumaça. Olhos demoníacos, violetas e maldosos olharam para mim. Poderia dizer que sorriam. Eu conhecia o dono daqueles olhos.
A névoa negra e violeta se moveu pela sala até chegar próximo a mim, quando então se condensou tomando a forma de um homem alto, longilíneo; longos e lisos cabelos violeta esvoaçavam em torno da sua cabeça ao sabor de um vento imaginário. Sua pele era muito pálida, ainda mais branca que a minha, o que realçava suas olheiras. Vestia uma espécie de sobretudo preto com arabescos bordados em roxo, ajustado ao corpo e aberto até a metade do peito liso.
_Bom dia, irmãozinho — sorriu para mim com lábios naturalmente vermelhos, mostrando os dentes pontiagudos.
_Não sou seu irmão — respondi.
Ele abanou a mão e se aproximou mais, os saltos das suas botas pretas fazendo barulho no chão de pedra.
_Todos os demônios são irmãos, maninho. Se bem que você nem se parece mais com um demônio… Que roupas são essas? — passou a mão pela lapela do meu fraque, meus músculos se contraíram de ódio.
_O que você quer?
_De você, nada. — ele deu as costas para mim. — Você esteve fora por muito tempo, as coisas por aqui mudaram bastante.
Puxei minhas mãos fazendo as correntes tilitarem.
_Não me importo com isso. Não vivo mais aqui.
_Sei, sei. Você é um cachorro domesticado agora não é?
Novamente ele se aproximou, pegou meu rosto com uma mão.
_Sempre soube que gostava de coleiras. Diga-me, vale a pena viver assim? Rastejando atrás de um humano, esperando a hora certa para lambê-lo?
Cuspi na cara do outro demônio. Ele soltou o meu rosto e limpou o próprio com a ponta do meu fraque.
_Você é patético, A…
_CALA A BOCA — gritei, rangendo as correntes que me prendiam — NÃO DIGA O MEU NOME. Agora sou Sebastian.
_Mas que cachorrinho dócil! Vem cá Totó.
Ele deu um tapa no meu traseiro e puxou as correntes me desequilibrando; eu rosnei mostrando os dentes.
_Vai me morder? Olha que eu gosto. — riu
Por mais que eu tentasse, não conseguia me livrar das correntes, elas só podiam estar com algum encantamento.
_O que você quer? — repeti — Por que me prendeu?
_Ora “Sebastian” — seu tom era de ironia — Você não sabe? Não pode imaginar? — novamente ele estava em cima de mim, arrastou as unhas pelo meu peito, rasgando a camisa e ferindo a pele por baixo — Eu quero brincar!
“Que verme imundo”.
_Você me dá nojo. Me solte agora — as correntes rangeram com a força aplicada.
_ Hum ...Não. Nem adianta tentar se soltar, vocês está no meu castelo, aqui eu sou mais forte. Onde está o seu castelo??? — ele encostou o indicador no queixo como se estivesse pensando — Ah é, você o abandonou para ir viver entre os humanos.Sabe, não gosto de você assim — ele afundou a mão nos meus cabelos e puxou para o lado e para baixo fazendo minha cabeça inclinar em diagonal — essas roupas ...- rasgou o resto da camisa e desceu a mão para minha calça onde deu um puxão no cós, estourando os botões, sorriu quando fez isso — Você fica melhor com outras…
Ele estalou os dedos e a névoa me envolveu, me transformando, fazendo eu voltar à minha forma original. Sim, ele era poderoso e o tempo que eu fiquei fora ele havia se fortalecido mais, mas eu não era um qualquer, sempre fui um dos mais poderosos daqui — “Por que eu não conseguia estourar as correntes?”
Eu estava um pouco mais alto agora, meus músculos mais visíveis, fazendo as correias apertarem ainda mais meus pulsos e tornozelos, prendendo a circulação. Minha roupa havia mudado também e agora couro preto cobria meu corpo, eu não podia negar: era uma roupa confortável e fetichista mas era desagradável estar assim por causa do poder de outro demônio.
_Está vendo como ficou bem melhor? — ele começou a se esfregar em mim, enfiou o rosto no meu pescoço e me mordeu, senti o sangue começar a escorrer — Você é mesmo um desgosto para a família… Nem cheiro de demônio você tem mais — o tapa estalou, fazendo eu virar o meu rosto.
_Por quê? — perguntei — Por que foi atrás de mim?
Ele ainda estava agarrado em mim, abraçando meu quadril e esfregando o membro dele na minha perna. Meu corpo não esboçava nenhuma reação.
_Por quê? — ele repetiu — Ah, você sabe. Eu fui atraído para lá, não sabia que era você o causador. Do mesmo jeito que você é atraído pelo desespero e ódio, eu sou atraído pelo desejo e luxúria. Você e aquele garoto me atraíram. Você sabe o tamanho do desejo que vocês liberaram??? Dava para sentir o cheiro a quilômetros de distância. Era delicioso e eu fui correndo ver quem era.
Mais uma vez ele segurou meu rosto com uma mão, apertando minhas bochechas e lambeu minha boca. Minha expressão era de extremo desagrado, fiz mais força ainda nas correntes, dessa vez me pareceu que elas cederam um pouco.
_Qual não foi minha surpresa quando te encontrei? Não sabia que você agora fazia isso com suas vítimas — ele começou a escorregar pelo meu corpo, se ajoelhando.
_Não faço. Essa foi a primeira vez, ele é diferente. — respondi seco.
_Aah, que bonitinho!!! Você está apaixonado, “Sebastian”? Vai me dizer que ama aquele garoto? — ele começou a desabotoar minha calça, puxando o tecido de couro para baixo — Você não pode amar: não tem coração! Nenhum demônio pode amar!!!
_Não sou como todos — não reagi quando ele segurou meu membro, precisava que ele se aproximasse mais e quando ele o fez, meu joelho acertou em cheio a sua cara. A força do golpe o jogou para trás, fazendo o demônio da luxúria cair sentado de forma patética no meio da sala, o sangue escorria do seu nariz, eu o observava atentamente com um sorriso nos lábios.
Ele passou os dedos no nariz, limpando o sangue e depois os lambeu de forma erótica. Eu senti as ondas de poder dele me atingirem, tentando me excitar — era assim que ele trabalhava, jogava seu poder sobre as pessoas, fazendo-as perder o controle, excitando-as — mas como eu sou um demônio também, o efeito de qualquer demônio era menor em mim e, no caso dele, era nulo. Eu o odiava, sempre o odiei.
_Não precisava fazer isso, “Sebastian” — ele sempre pronunciava meu atual nome com escárnio — Não gosta de mim? — “É claro que eu não gostava e ele sabia disso!”
_Talvez não goste do meu rosto — tocou o próprio rosto — ou do meu cabelo — passou os dedos nas mechas violetas — talvez você goste de garotinhos jovens.
“Não” — eu pensei — “garotinhos jovens não. Eu gosto apenas de um garoto, e ele poderia ser jovem, adulto ou velho: eu o amaria de todo modo. Mas não falei nada, ele jamais entenderia.”
Ele se ajoelhou no local onde havia caído, o sangue havia parado de escorrer graças ao poder de regeneração que todos os demônios possuíam.
_Diga-me Sebastian. Você prefere assim? — a névoa voltou a envolvê-lo e, quando se dissipou, um garoto baixinho, de cabelos azul acinzentado e olhos heterocromáticos estava no seu lugar.
Não me deixei enganar — aquilo era uma ilusão — ele estava usando suas habilidades, tomando a forma do Jovem amo. Até a marca do contrato havia sido plagiada. A imitação era perfeita e enganaria qualquer um. Qualquer um, menos eu.
O demônio começou a se despir, tirando a camisa e tocando os próprios mamilos, sua expressão era erótica — eu não podia negar — desceu as mãos e tirou a calça, apertando o membro. Ele levou uma mão para trás e gemeu quando os próprios dedos o penetraram. Seria muito excitante ver o Bocchan se tocando daquele jeito, se fosse real… . Me mantive impassível. Aquele não era o meu Jovem amo.
Como eu não reagi a nada, ele parou de se tocar e veio engatinhando até mim com uma expressão faminta.
_Você é muuuuito mau.
Eu queria chutá-lo novamente, mas ele foi mais rápido e se agarrou nas minhas pernas, escalando-as, apertando minhas coxas e pressionando o rosto no meu pênis.
_Fique duro para mim Sebastian — dessa vez ele falou de forma manhosa, a voz era idêntica ao do meu mestre, meu ventre se contraiu mas eu não podia esquecer que não era ele ali — Vamos nos divertir…
Ele começou a me chupar, se esforçando para que eu ficasse rígido. Depois de vários minutos tentando ele finalmente desistiu.
_Você não está cooperando — o falso Bocchan se levantou e pôs as mãos sobre o meu peito, o rosto erguido como se fosse me beijar, eu virei meu rosto para o lado, me afastando dele. Ele se colocou nas minhas costas.
_Huuum, já que não quer ficar duro talvez eu brinque com você aqui atrás — um dedo se infiltrou na minha intimidade.
Me joguei para frente, afastando meu traseiro do intruso. Ele riu alto. Apliquei mais força nas correntes, agora eu tinha certeza, elas estavam cedendo. Só mais um pouco…
Ele voltou para a minha frente. Me abraçou passando os braços pelo meu pescoço. Era muito desagradável o contato com aquele corpo. Mesmo que ele tivesse a forma do Jovem amo, seu cheiro era completamente diferente.
_Quer saber? Você é muito chato!!! — seu rosto de aproximou do meu, eu o encarava com ódio e asco — Tsc, eu te entendo, você sabe que eu não sou ele.
Ele cobriu minha boca com a dele, me beijando sofregamente. Não era o beijo do Bocchan. Mantive meus lábios fechados. Quando a tentativa de beijo cessou, ele encostou os lábios na minha orelha e sussurou:
_Mas... talvez ele não seja não atento quanto você. Faz quanto tempo mesmo??? Ah, cinco dias… — o hálito quente na minha orelha era desagradável — O seu pequeno mestre deve estar morto de saudade do seu amante mordomo, não é???
Arregalei meus olhos em surpresa, minha boca se entreabriu — “Não pode ser!!!” — pensei.
O demônio afastou o rosto do meu e eu pude vê-lo como se fosse o reflexo de um espelho. Um outro Sebastian olhava para mim. Ele sorriu triunfante e começou a caminhar em direção à porta.
_NÃÃÃÃOOOO! — gritei.
O desespero triplicou a minha força e eu usei para forçar as correntes que, finalmente, estouraram. Corri e pulei em cima do outro antes que ele chegasse à porta, rolamos um por cima do outro. Atingi vários socos no seu rosto, tão idêntico ao meu, o sangue espirrou em mim. Mas ele se recompôs logo, me chutou para eu saísse de cima dele, caí de lado e ele enterrou as unhas de garras longas na lateral do meu abdome, o líquido quente começou a escorrer. Grudei nos seus cabelos e puxei a cabeça dele com força fazendo-a se chocar com o meu joelho. Ouvi o barulho do osso do nariz se quebrando, ele ficou tonto e eu aproveitei para ir em direção à porta, mas antes disso ele se jogou para frente e segurou minhas pernas. Caí no chão e ele montou em mim, iniciou então uma sequência de socos no meu rosto, senti uns estalos, acho que quebrei alguns dentes. Joguei meu quadril para cima fazendo ele se desequilibrar, aproveitei e troquei as posições, agora era eu que estava por cima, ele tentou se erguer e eu dei uma cabeçada no nariz já quebrado, ele se deitou com um gemido de dor, segurei sua franja e comecei a golpear a cabeça dele no chão. Ele era muito forte, se fosse um humano já estaria desmaiado, mas ele resistia, eu tentava quebrar seu crânio sem sucesso — “Eu nunca o deixaria pôr as mãos no Jovem amo. Jamais.” Dei mais três golpes e ele conseguiu segurar meu pescoço, apertando a minha traquéia. Comecei a ver pontos luminosos e a ficar tonto por causa da falta de oxigênio — sim, eu preciso de ar. Acho que afrouxei a mão e ele me acertou um golpe no queixo. Me jogou no chão novamente e se levantou trôpego.
Eu não podia deixá-lo sair dessa sala. Balancei a cabeça, tentando clarear a mente e fui atrás dele.
Ciel
Fui deitar naquela noite muito desanimado. Não sabia nem onde começar a procurar por Sebastian. “Onde encontrar um demônio???”
Fiquei deitado na cama, de barriga para cima, com as mãos cruzadas sobre a barriga. Minha cabeça não parava de pensar um minuto. Fora que as noites eram a pior parte: era quando eu mais sentia falta do Sebastian. Se nada disso tivesse acontecido, com certeza estaríamos agora um nos braços do outro… Suspirei frustrado.
Me virei na cama, abraçando o travesseiro do Sebastian e sentindo o seu cheiro que me acalmava e me excitava ao mesmo tempo. Quando eu o encontrasse, e depois de puni-lo por ter me deixado, nós iríamos compensar todo o tempo perdido — prometi para mim mesmo. “Mas só quando e se eu o encontrasse…”.
Fechei meus olhos sentindo o sono começar a vir.
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Acordei com as batidas na porta, o quarto estava escuro — sinal que ainda não havia amanhecido. As batidas voltaram a ecoar, pareciam urgentes — “O que será?” — meu coração começou a pular descontrolado no peito.
Me sentei na cama, tentando me desvencilhar rápido das cobertas que insistiam em se embolar nos meus pés. Acendi o castiçal e corri para a porta.
“Será ele????” — mal conseguia respirar de ansiedade e desejo que fosse Sebastian do outro lado.
Girei a chave na fechadura e abri a porta. O castiçal caiu da minha mão, rolando pelo chão e se apagando. Nem liguei. Ali, na minha frente, apoiado na soleira da porta, estava o Sebastian.
Me joguei nos seus braços, sentindo as lágrimas descerem descontroladamente pelo meu rosto. Ele me segurou apertado mas eu o ouvi gemendo de dor, então olhei melhor para ele. Estava ensanguentado, vários hematomas cobriam seu rosto, estava despenteado e a roupa estava rasgada.
_O que aconteceu com você, Sebastian??? — me solteii dos seus braços e o puxei para dentro do quarto.
Coloquei-o na cama e reacendi o castiçal. Agora podia ver todos os ferimentos — “Quem poderia ter feito isso com um demônio?”. Corri para o banheiro e voltei com uma toalha úmida comecei a limpar aquele rosto tão perfeito e agora tão machucado. Seus olhos ardiam, cravados em mim.
_Quem fez isso? — perguntei preocupado. Ele negou com a cabeça.
Comecei a tirar sua roupa, precisava ver os outros ferimentos, limpá-los e fazer os curativos.
_Onde você estava?
Apenas o silêncio. “Por que ele não me respondia?”
Voltei para o banheiro e enxaguei a toalha ensanguentada. Retornei e comecei a limpar o abdome: eram arranhões, cortes e hematomas por todo lado.
Meu coração estava apertado. Mas Sebastian estava aqui, agora estava comigo.Tudo ficaria bem. Exceto pelo seu silêncio. Aquilo estava me matando. Todo esse tempo desaparecido e agora, ele surge no meio da noite e não fala nada. Não queria pressioná-lo, com certeza havia uma explicação, mas não pude conter minha angústia.
_Fala comigo Sebastian — minha voz saiu como um lamento.
_Senti sua falta — sussurrou.
Sebastian me puxou de encontro ao seu peito e eu o abracei apertado.
_Eu também. Você nem sabe o quanto. — respondi.
Senti ele sorrir com o rosto no meu pescoço.
“Se ele estava aqui, por quê meu coração continua apertado?”
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