Desejos libertos
27 A conversa
Notas iniciais
Diário de Ciel Phantomhive
Definitivamente eu não entendo mais nada. Não quero nem pensar no que houve ontem à noite. E eu acabei dormindo nos braços dele com se fôssemos alguma coisa. Eu..eu...deixei ele me tocar!! E o pior é que eu acho que gostei.
E ele me beijou!!!! HAAAAAAAA!
E foi melhor na vida real do que no sonho que eu tive! Que vergonha!!!!!!
Não quero saber mais de nada. Isso é errado! Definitivamente errado. E não vou permitir que isso volte a acontecer.
Eu estou confuso, é isso. Por isso eu tive aquele sonho e depois aconteceu tudo aquilo.
Pedirei para o Sebastian chamar a Lizzy, acho que a presença dela servirá para esclarecer minha cabeça e colocar as coisas de volta no lugar.
E terei uma conversa muito séria com Sebastian!!!!
Vou acabar com isso antes que tudo piore!
Até porque eu sei onde isso vai parar. Hoje de manhã, permaneci no quarto e li o restante do livro. Não sei porque eu fui ler aquilo. Onde eu estava com a cabeça???? Agora eu sei o que vem depois dos beijos e quando eles tiram a roupa. E...bem… é desconcertante.
Espero não ter mais sonhos.
POV Sebastian
Já era metade da manhã e eu tinha feito todas as minhas funções. Já tinha acordado e dado o desjejum para o Jovem amo; arrumado o quarto e o escritório, vistoriado a despensa e dado início aos preparativos do almoço.
Depois da noite de ontem ele estava mais calado e um leve rubor tinha se instalado permanentemente no seu rosto, não tinha conseguido me encarar nenhuma vez. E eu fingi que nada tinha acontecido, não porque não fosse importante para mim mas porque eu o conheço e qualquer comentário iria deixá-lo mais corado ainda.
Não vou dizer que não gostei do que aconteceu. Embora não tivesse sido como das outras vezes, tê-lo novamente nos meus braços era muito bom.
Estranhei porque ele não desceu ainda e eram quase onze horas da manhã, ontem ele estava doido para sair do quarto.
Subi para ver o que estava acontecendo e o encontrei sentado na beirada da cama, pensativo.
_Jovem amo, tudo bem? — perguntei abrindo a porta devagar.
Ele me olhou brevemente, um olhar envergonhado.
“Ah, bocchan, não precisa ficar com tanta vergonha. Se lembrasse de tudo o que nós já fizemos...” — pensei.
_Sebastian, quero conversar com você. Entre.
Dei alguns passos para dentro do quarto e fechei a porta.
Fiquei em pé, alguns passos distante da cama, numa posição atenta aguardando ele começar a falar. Pelo jeito dele, a conversa seria séria.
O Jovem amo olhava pela janela quando começou:
_Por que a Lizzy não veio me ver ainda?
_Acho que ela nem sabe o que houve com o senhor — respondi sério. Não gosto de falar sobre a senhorita Elizabeth.
_Mesmo assim — comentou.
Ele esperou alguns segundos para falar novamente. Sempre sem olhar para mim.
_Quero que a chame para passar a tarde comigo. Quero ver a minha noiva.
“Desagradável” — foi a primeira coisa que passou pela minha mente — “Ele não está só envergonhado por ontem. Ele não gostou.”
Não estava gostando nem um pouco do rumo da conversa.
_Por que quer vê-la, Jovem amo? — era uma pergunta impertinente para um empregado fazer mas embora ele não se lembrasse, eu não era apenas um empregado e não contive minha insatisfação com o pedido dele.
Ele me olhou bravo.
_Por que eu quero clarear a minha cabeça. E ainda teve ontem à noite...
Devo ter feito uma expressão interrogativa porque ele logo completou:
_Você me seduziu ontem — me acusou.
_Eu???
_É sim. Me seduziu — suas bochechas coraram.
_Vamos ver — ponderei — O senhor me chamou no meio da noite, subi achando que estava tendo um mal estar e o encontro excitado. Você me mostrou o seu membro duro e pediu que eu o ajudasse — conforme eu falava ele ficava cada vez mais corado — Então eu te pergunto: quem seduziu quem?
“Check-mate” — pensei.
_Não foi isso que aconteceu — falou.
_Não???
Ele se calou pois foi exatamente isso que aconteceu embora tanto eu quanto ele saibamos que a intenção dele não era me seduzir, estava apenas desesperado com uma reação orgânica que ele não sabia como lidar.
_De qualquer modo, a senhorita Elizabeth não é mais sua noiva — falei sério sem mover nenhum músculo da minha face — era verdade, ele tinha acabado com o noivado há alguns meses.
Pela primeira vez desde que eu entrei ele olhou para mim.
_O quê?? Desde quando? — estava verdadeiramente espantado.
_Desde março.
_O que aconteceu? — ele abaixou a cabeça e passou a mão pelo cabelo, numa atitude típica de quem está confuso.
_O senhor rompeu o noivado. Terminou com ela assim que ela voltou de uma viagem.
_Eu terminei? — olhou novamente para mim — Por que eu faria isso?
_Parece que o senhor chegou à conclusão que não seria feliz casando-se com a senhorita Elizabeth e que não a faria feliz também. Então resolveu liberá-la do compromisso.
Ele assentiu com a cabeça, tentando assimilar mais uma informação.
_Como eu cheguei à essa conclusão?
_Bem, o noivado foi firmado pelos seus pais, como o senhor deve se lembrar — ele fez que sim com a cabeça e eu continuei — mas nunca evoluiu, mesmo com o passar dos anos. Então, de uns tempos para cá, o senhor se envolveu com outra pessoa.
Seus olhos estavam atentos quando perguntou:
_Então eu tenho alguém?
_Tem sim — falei.
_Quem? Por que ela não está aqui?
_Talvez a pessoa esteja do seu lado — falei na esperança que ele percebesse a diferença entre o “ela” que ele usou na sua pergunta e a “pessoa” que eu usei na minha resposta. Mas ele não percebeu. E de quem estávamos falando, talvez ele chegasse à conclusão sozinho.
_E onde está? — me perguntou com um leve tom de irritação — Só você que me acompanha.
Fiquei em silêncio.
_E isso daqui? — ele pôs a mão por dentro da camisa e puxou para fora o cordão de prata com o anel que eu tinha dado de presente do dia dos namorados.
Me preparei para mais uma revelação a ser feita. Fiquei calado aguardando a próxima pergunta.
_Isso é um anel de compromisso — não era uma pergunta, estava afirmando.
_Sim — respondi, controlando a minha expressão facial.
O Jovem amo rodou o anel nos dedos, tentando ver se havia alguma coisa escrita na face interna, eu sabia que não tinha nada ali.
_Eu não entendo… Se isso é um anel de compromisso, onde está o outro, Sebastian ? Com quem está? — ele ergueu mais uma vez o cordão que ainda estava preso no seu pescoço e olhou para mim.
Suspirei e puxei o meu cordão de dentro da camisa, mostrando para ele o anel gêmeo.
Seus olhos se arregalaram e sua boca de abriu num OH mudo.
_VOCÊ É A MINHA NOIVA???!!!
Meneei a cabeça.
_Na verdade é o contrário… — comentei devagarinho, tentando segurar o riso.
_O QUÊ? — sua expressão era de puro espanto mas estava cômica na verdade.
_O contrário...sabe… o papel da...da mulher... é seu — falei pausadamente gesticulando com as mãos. Continuei:
_Você sabe não é? É você que… recebe, está entendendo?
Pelo vermelho que tomava conta do seu rosto eu percebi que tinha entendido mas ele gritou e sua voz saiu desafinada antes que eu continuasse a tentar explicar.
_EU JÁ ENTENDI. CALE-SE!
O Jovem amo virou o rosto para o outro lado novamente, agora ele apertava as mãos, nervoso. Eu podia perceber o quanto ele estava constrangido.
_Então nós somos noivos? — perguntou baixo olhando para mim envergonhado.
_Não exatamente. Estamos mais num namoro escondido — me aproximei um pouco mais ainda mantendo uma distância, queria abraçá-lo, talvez ele se lembrasse de algo, mas não era prudente.
_Foi por sua causa que eu terminei meu noivado?
Respirei fundo me lembrando das cenas de ciúme que eu não tinha conseguido controlar quando imaginei que ele estava comprando presentes surpresas para a senhorita Elizabeth.
_A decisão foi sua. Mas não digo que eu não tive minha parcela de responsabilidade na sua tomada de decisão.
Ele me olhou com aquele grande olho azul.
_Eu devia te amar muito para ter coragem de enfrentar a tia Francis.
_Você foi muito corajoso. Foi um dia difícil mas você se saiu bem.
Aquele dia tinha sido difícil para todos nós. O Jovem amo havia esperado a noiva voltar de uma longa viagem que tinha feito com a mãe — passaram o mês de fevereiro todo viajando pela Europa — e quando finalmente voltaram, ele as visitou depois de uma semana.
Foi uma conversa longa e tensa, apenas ele e a tia que era conhecida por toda a Inglaterra pelo gênio terrível e por ser severa demais, além de ser um exímia esgrimista. Eu fiquei do lado de fora do escritório então não ouvi nada, ele aproveitou um dia em a a senhorita Elizabeth não estava em casa para impedir maiores constrangimentos. Mas na noite daquele dia, enquanto estávamos abraçados na cama ele me contou que foi quase totalmente sincero com a tia — explicou que havia se apaixonado por outra pessoa, mas não disse o nome para ela, e que não achava justo manter um compromisso adquirido em seu nome pelos pais quando na verdade não havia possibilidade dos sentimentos dele mudarem em relação à prima, que ele a via como uma irmã. A tia havia argumentado que eles eram jovens demais e que as coisas podiam mudar, havia ainda anos para eles atingirem a idade para se casarem mas o Jovem amo afirmou que o sentimento que ele nutria por essa pessoa não ia mudar nunca. Foi uma declaração de amor digna, não foi direta para mim mas eu senti meu coração bater mais rápido com aquelas palavras pois sabia que eu era aquela pessoa. No final a senhora Midford entendeu quando ele disse que a prima não merecia se casar com alguém que não poderia fazê-la feliz. Ficou acertado que ela conversaria com a filha, pois ambos previam uma crise de choro sem fim e que a manteria longe da mansão Phantomhive por um tempo. Ela quis saber quem era a pessoa eleita pelo coração do conde mas ele se negou categoricamente a revelar. Depois que ele terminou o relato, nós não nos controlamos mais e nos beijamos apaixonadamente e nos entregamos um ao outro numa torrente de paixão e prazer.
Mas isso era passado e pelo jeito que as coisas iam, nunca mais ia se repetir. Olhei para o Jovem amo e ele me pareceu um pouco menos corado, suas bochechas estavam apenas cor de rosa e não mais vermelhas como há alguns minutos. Balançava a cabeça afirmativamente como se estivesse ponderando alguma coisa e mantinha o indicador e o dedo médio sobre os lábios, pensativo.
_Nós somos namorados então? Eu e você? — repetiu a pergunta.
_Sim — dei mais alguns passos e quando vi que ele não tentou se afastar, encostei na cama.
_Há quanto tempo?
“É um bom indício ele querer saber da nossa relação, não é?” — pensei.
_Vários meses. Quase um ano.
Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso. Pelo jeito, ele achou que era bastante tempo, não sei. Um ano para um demônio é como um suspiro. Mas esse um ano foi um suspiro muito bom para mim mesmo com todos os problemas que tivemos e ainda estamos tendo.
_Até aonde nós fomos?
_Como?? — perguntei, pois fui pego de surpresa pela pergunta — pensei que ele tinha entendido antes.
_Até aonde nós fomos? — ele me encarava e eu me sentei na cama, de frente à ele. O Jovem amo encolheu as pernas, me dando espaço para me aproximar mais, o que eu fiz.
_Até aonde a nossa paixão nos levou — tentei ser poético.
_E ela nos levou até aonde? — pressionou.
_Nos levou até o fim — eu esperava que ele tivesse entendido.
_Nós fizemos sexo, então? — ele foi direto.
Não respondi mas fiz que sim com a cabeça, abrandei meu olhar, esperando que ele percebesse que não havia sido apenas sexo, que havia um sentimento por trás. Ele voltou a corar quando eu confirmei que tínhamos feito.
_Entendi — murmurou assentindo com a cabeça — E eu gostava?
Sorri para ele.
_Gostava. Nós gostávamos muito.
Pousei minha mão sobre o seu joelho e ele se encolheu mas não a afastou.
_É tão vergonhoso — comentou abaixando o rosto em direção ao peito.
_Não é, bocchan.
_É tão errado!!! — cobriu o rosto com as mãos.
Aquilo me revoltou um pouco, mas me controlei pois afinal, devia ser uma revelação chocante, até porque ele não lembrava da nossa história. Mas não podia deixar ele pensar isso.
_Não é errado, bocchan. Não fale assim. Eu sei que você não se lembra mas a gente tem uma história. Não foi uma coisa que surgiu da noite para o dia, foi crescendo ao longo do tempo até que ficou tão grande que nós não podíamos simplesmente ignorar. Tivemos que viver o sentimento. Era muito bom, você e eu nos gostávamos e isso nunca pode ser considerado errado.
Ele mantinha a mão fechada sobre o anel e eu não sabia se era com carinho ou com raiva.
Acariciei seu joelho e ele olhou para mim. Seus olhos me diziam alguma coisa: estava confuso, frágil e sem saber o que fazer. Seria uma presa perfeita para um demônio como eu — agora sim eu poderia facilmente seduzi-lo.
_Pode me deixar sozinho, Sebastian? Gostaria de pensar um pouco.
Queria beijá-lo mas não fiz, me levantei e caminhei em direção à porta. Podia usar o meu poder sobre ele, seduzi-lo como eu fiz com outras pessoas para conseguir informações, mas não era assim que eu queria o bocchan. Abri a porta:
_Sebastian — me chamou — Você me ama?
_Muito — respondi e saí, fechando a porta atrás de mim.
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