Desejos Vitais - Amor e Morte...
4 Sentimentos verdadeiros
Notas iniciais
Desculpe-me a demora, a vida anda cobrando o preço da modernidade. Perdoem-me também a demora em responder as reviews, é tempo mesmo.
Relevem os possíveis erros, o tempo pra revisar está cada vez mais curto. Espero não ter deixado passar nada escabroso.
Boa leitura e obrigada pelo carinho!!!
Sentimentos verdadeiros
Capítulo 3
Demorou para que shaka pegasse no sono aquela noite. Era como se o passado viesse o tempo todo martelar em sua cabeça. Não quisera jantar, embora o advogado tivesse insistido muito, ele alegara que não tinha apetite e se recolheu para o seu quarto improvisado e se entregou a sua dor. Dor que mantinha muito bem guardada dentro de si, não deixando que ninguém percebesse. Tentava pensar que seu maior objetivo era colocar o assassino de Mu atrás das grades, era nisso que precisava se concentrar, somente nisso e não na saudade que sentia do amado. Não, seu amor ficaria guardado dentro do peito, agora precisava ser firme, resoluto e perspicaz. Não havia tempo para sofrer, a não ser na solidão do seu quarto.
Analisou por um momento que sua situação era bem peculiar: um suspeito de assassinado que estava morando na casa do seu advogado. Será que Ikki Amamiya não pensara nem por um instante que ele poderia ser um assassino? Por que toda aquela confiança? Ele já tivera provas de que, ele, Shaka, poderia ser perigoso, então por que...
Ergueu-se da cama. Já deveria passar das duas da madrugada, pois o frio se intensificara e ele usava apenas um pijama de calça e camiseta fina, emprestados pelo advogado. Procurou por um cobertor nos armários e não encontrou nada. Claro que não! Era um quarto de hóspedes.
Abriu a porta, andando pelo corredor escurecido. Estancou o passo, pois aquilo lhe pareceu um dejàvu. Apoiou-se na parede e respirou fundo entoando um mântra mentalmente. Prosseguiu até chegar à sala e para sua surpresa, Ikki estava acordado. Iluminado apenas pela luz de um abajur, ele usava óculos para ler alguns papéis e estava tão compenetrado que nem parecia perceber sua presença oculta na penumbra. Shaka pensou em voltar ao quarto, para não incomodá-lo. Resistia muito bem ao frio depois de anos morando no Tibet, uma noite não o mataria.
- Não consegue dormir, Shaka?
A voz do moreno o livrou do impasse. O indiano se aproximou dele com passos tranqüilos.
- Na verdade está muito frio e eu preciso de um cobertor. – declarou direto – E o senhor?
- Estou relendo alguns relatórios policiais sobre a morte do seu companheiro.
- Alguma novidade?
- A polícia não revelou nada até agora. – respondeu Ikki sem olhá-lo, ainda mirando os papéis.
- Vou deixar que trabalhe. – declarou o médico virando nos calcanhares.
- Não está com fome?
- Não, obrigado. – respondeu sucinto – Boa noite, doutor.
- Boa noite, doutor. – respondeu Ikki e ficou observando a silhueta do médico sumir pelo corredor.
O moreno também demorou a dormir, uma estranha angústia o assaltava, girou na cama até alta madrugada, finalmente se decidindo por um comprimido que sempre utilizava quando tinha insônia, mesmo assim, isso não lhe garantiu mais que míseras horas de sono.
----- Desejos vitais------
Longe dali, num prédio elegante no centro de Boston, um grupo se reunia à meia luz para discutir sobre a morte de Mu Gyatso Salwenn.
- Não podemos deixar pistas. A liberdade desse médico continua sendo uma ameaça.
- Tenho certeza que ele não sabe de nada, Salwenn não o preocuparia.
- Ele é uma ameaça, viu o que ele fez com os detentos?
- Bem, o investigador já foi tirado do caso, um pelo menos, falta o outro e... bem, acho que mexer em Phalke agora será perigoso.
- Questões pessoais, meu caro?
O outro estreitou os olhos.
- Por que seria?
- Não sei, mas lembre-se que estamos falando de mais de meio bilhão em sua conta.
- Não vou esquecer.
- Ótimo!
---- Amor e morte-----
Na manhã seguinte, Ikki acordou com um delicioso cheiro de café. Fazia muito frio, e o moreno rumou para a cozinha, envolvido no cobertor. Observou o loiro que parecia meio atrapalhado com a cafeteira.
- Bom dia, Shaka.
O indiano se voltou pra ele e sorriu.
- Bom dia, doutor Amamiya. Espero não ter sido muita ousadia da minha parte invadir sua cozinha. – disse – Achei que gostaria de um café. – continuou enchendo uma caneca e entregando ao mais jovem – Espero que goste.
- Obrigado. – disse Ikki e convidou com um olhar para que o loiro se sentasse com ele, o que Shaka fez sem hesitar – Sempre acorda tão cedo?
- Sim, sempre acordo cedo. Mas na verdade, seu celular tocou algumas vezes e acabou me despertando.
- Merda! – exclamou Ikki – Eu o esqueci em algum lugar...
- Desculpe, eu deveria tê-lo acordado. – disse Shaka sem jeito.
- Não, de jeito nenhum, acho que não conseguiria nem se quisesse. – riu o moreno – Eu estava pregado.
Ikki pegou o aparelho que estava na mesinha da sala, verificou as ligações, várias durante a madrugada, mas de nenhum número conhecido. Apertou o botão retornando as ligações.
- Alô? Quem... – o moreno empalideceu tão forte que o médico franziu as sobrancelhas – Eu... eu estou indo pra aí...
Shaka se ergueu, e o seguiu quando o moreno voltou correndo para o quarto.
- O que aconteceu?
- Meu irmão... meu irmão, ele... – Ikki não conseguia falar, estava meio em choque. Shaka o segurou pelos ombros.
- Calma. – pediu – Respire...
- Eu preciso me vestir. – disse Ikki que achava que seu coração iria explodir de tão rápido que ele batia.
Shaka assentiu com a cabeça e deixou o quarto. O advogado trocou de roupa rapidamente, vestindo uma calça jeans e uma camiseta qualquer. Quando voltou a sala, o loiro estava em pé próximo a porta.
- Irei com você. Não tem condições de dirigir dessa forma. – declarou o médico tomando a chave que o advogado segurava. Ikki não protestou, seguiu o loiro, se sentando ao seu lado. Em alguns minutos chegavam ao hospital onde Shun fora internado.
Shiryu recepcionou o advogado, tentando acalmá-lo.
- Ikki, o Shun já foi operado, está bem... – declarou o investigador.
- Mas o que aconteceu? E... e por que você está aqui, Shiryu? O que isso tem a ver com você?! – Ikki perguntou nervoso, estranhando a presença do investigador naquele local.
Shiryu ficou sem entender muito bem o que o advogado dizia.
- Sou amigo do Shun. Além do mais, acho que esse atentado tem a ver com o caso que estamos investigando, ele não falou com você?
Ikki se achava perdido. Shiryu desviou o olhar para o rapaz ao lado do advogado, reconhecendo-o das fotos. Depois desviou o olhar para Ikki novamente.
- Ikki, podemos conversar?
- Preciso saber como o meu irmão está! Não quero conversar agora! – protestou o moreno.
- Por favor. – Shaka pediu paciente olhando para o rapaz chinês – Deixe-o ver o irmão primeiro.
Shiryu assentiu com a cabeça.
– Quem é o médico responsável? – indagou Ikki aflito.
- Eu. – o advogado desviou o olhar para o homem alto de pele bronzeada e olhos verdes que se aproximava. Ele sorriu e desviou o olhar para Shaka.
- Olá, Shaka, é bom tê-lo de volta. – disse.
- Obrigado, Aiolia, mas não estou de volta. Precisamos mesmo é de notícias sobre o irmão do meu advogado, o nome dele é Shun Amamiya – disse o loiro, apertando a mão do médico.
- Ah, o policial alvejado! – concluiu Aiolia – Está bem, por sorte ele estava de colete, apenas um disparo o atingiu no ombro, nada grave. Já retiramos o projétil.
- Quero vê-lo. – declarou Ikki.
- Sim, ele já pode receber visitas. Por aqui. – o moreno seguiu pelo corredor em busca do irmão, e Aiolia encarou Shaka com um sorriso amigável.
- Estava preocupado com você, Phalke, podemos sair pra beber alguma coisa hoje à noite? – convidou – Eu sei que... que tudo que aconteceu foi terrível pra você, mas gostaria de ajudá-lo no que pudesse...
- Obrigado, Aiolia. – falou o indiano – Mas estou bem, não estou precisando de nada...
- Como não? – o médico pegou o outro pelo braço o puxando para que se sentassem num dos sofás da recepção do hospital, enquanto Ikki disparava rumo ao quarto indicado – Soube que a família do Mu tomou sua casa...
- Sim, isso é verdade. – suspirou o loiro – Mas estou bem, de verdade. Eu... eu quero apenas acordar desse pesadelo, nada além disso.
- Onde você está? Num hotel? Se quiser, nossa casa...
- Obrigado, mas estou bem. Estou, no momento, hospedado com meu advogado. Ele tem mania de perseguição e acha que alguém tentará me matar. – riu o loiro incomodado – Está tudo bem, de verdade...
Uma sirene tocou e logo depois uma enfermeira comunicava que o médico estava sendo chamado à sala de cirurgia.
- Qualquer coisa me liga! – disse Aiolia se afastando.
Shaka se levantou e caminhou para entrada arborizada do hospital, algo em seu espírito lhe alertava, era como se Mu tentasse lhe dizer alguma coisa...
-----Desejos Vitais------
Quando Ikki entrou no quarto, o irmão já estava de pé, o braço apoiado numa tipóia, arrumando algumas coisas numa sacola.
- Precisou que levasse um tiro para que eu soubesse que está no caso, Shun? No meu caso?
O mais jovem se virou e encarou o irmão sério.
- Sou um policial, Ikki, por mais que você não queira admitir a possibilidade de eu levar um tiro existe. – volveu o mais jovem de maneira suave – Por isso ando sempre com colete a prova de balas. Estou bem, não precisa se preocupar e eu iria contar, só que tenho medo das suas reações, me desculpe...
O mais velho respirou fundo.
- Para mim seu trabalho era interno, você é um investigador forense, não um policial de rua! – irritou-se o Amamiya mais velho – Eu não quero que fique por aí levando tiros!
O mais novo baixou o olhar.
- Você tem razão. – disse Shun – Eu também não sei o porquê disso. Mas vou descobrir.
- Como aconteceu?
Shun se sentou na cama.
- Fecharam meu carro e dispararam. Não me pergunte detalhes, foi tudo muito rápido e ainda estou tentando descobrir o motivo, mas... Com certeza tem a ver com o caso Salwenn. Estive no presídio e fui hostilizado pelos policiais.
Ikki arregalou os olhos, pasmo.
- O que a corregedoria tem a ver com o caso Salwenn?
- Não com o caso em si, mas com o atentado que o seu cliente sofreu no presídio, presídio esse que ele não deveria estar. Ikki, é uma informação confidencial, mas desconfiamos que alguns policiais estejam envolvidos e o departamento de polícia começa a encarar o caso de forma mais... abrangente.
O mais velho se sentou ao lado do irmão.
- Shun, sei que você é um profissional brilhante e gosta do que faz, mas não me agrada vê-lo se arriscar. Como corregedor, achei que não estivesse sujeito a coisas desse tipo, então aceitei, mas...
- Não posso dispensar um trabalho somente por ser perigoso, Ikki. – interrompeu Shun – Eu gosto do que faço.
- Somente? – Ikki riu incrédulo – Shun, você nem anda armado! Tem noção da sorte que teve?
- Sim tenho, mas como você mesmo disse, não sou um policial de ação, sou um investigador forense, não preciso de armas!
Antes que Ikki pudesse rebater a porta se abriu, e Hyoga entrou nervoso. Ignorando totalmente o namorado, se aproximou do mais novo e o abraçou, beijando-o ternamente no rosto. Shun gemeu, sentindo o ombro, devido à forma afoita que o russo o pegava nos braços, mas seu coração disparou tanto no peito que ele se sentiu tonto.
- Shun, você está bem? – perguntou o loiro aflito – Senti tanto medo de perdê-lo, Shun. Quando soube vim direto pra cá.
- Quem o avisou?
- Mime. – uma curvatura amarga se fez nos lábios do russo e Shun apertou os olhos com força. Mesmo depois da noite passada, o namorado ainda era nobre o suficiente para avisar a Hyoga sobre o ocorrido.
- Olá, Hyoga. – disse Ikki, cansado.
O loiro se afastou de Shun abruptamente, parecia que só naquele momento tinha se dado conta da presença de Ikki.
- Oi, Ikki, como foi à noite? – não conseguiu esconder a ironia desconfortável da voz.
- Péssima se deseja tanto saber. – resmungou o moreno – Você deveria convencê-lo a não fazer tantas bobagens!
O loiro mirou os olhos verdes do Amamiya mais jovem.
- O que o Ikki quer dizer? – perguntou Hyoga confuso.
- Ah, você já deve saber! Eu sou mesmo um idiota pra não ter percebido os segredinhos dos dois! – irritou-se o Amamiya mais velho.
- Deixe o Hyoga fora disso, Ikki, foi uma decisão minha. Você não vai brigar com ele por minha causa.
- Esquece, Shun – tornou o russo encarando o amante -, acho que o Ikki ultimamente anda procurando motivos para brigar comigo.
- O que você quer dizer com isso, Pato? – irritou-se o moreno.
O russo bufou e se calou porque a porta voltou a se abrir e Mime entrou, carregando uma sacola. Abraçou Shun com força e beijou-o sem nenhum pudor.
Ikki e Hyoga olhavam a cena, o primeiro meio constrangido, e o segundo com um misto de emoções que não conseguia definir: dor, ciúmes, angústia, preferiu desviar o olhar, mas o rubor em sua face demonstrava que não fora indiferente.
Shun conseguiu afastar o namorado. Sorriu, mas estava muito sem jeito, não gostava de tamanha demonstração de intimidade em público.
- Meu amor, você está bem?
- Tem meia hora que você saiu daqui, Mime, não há como eu ter piorado. – sorriu divertido.
- Engraçadinho. Quando você sai?
- Agora, estava me aprontando quando Ikki e Hyoga chegaram.
- Sinto-me culpado, não deveria tê-lo deixado daquele jeito!
- Calma, Mime, eu já estava saindo; não foi nada de mais, estou bem.
O executivo continuava aflito, afagando, nervoso, os cabelos cor de mel do amado.
- Se alguma coisa acontecesse a você...
- Está tudo bem... – disse Shun embaraçado, seus olhos se erguendo para passar pela expressão constrangida e aborrecida de Hyoga, e a introspecta de Ikki.
Mime percebendo o embaraço do amante, resolveu se afastar dele e cumprimentar os demais.
- Olá, Hyoga... – disse apertando a mão do russo – Oi, Ikki... – fez o mesmo com o cunhado.
- Bem, eu já recebi alta. – disse Shun – O Mime me leva pra casa, vocês dois podem ficar tranqüilos.
- Sim, eu tenho que ir, o Shaka... – Ikki se interrompeu ao receber o olhar indignado do namorado. Bufou, antevendo a reação do temperamental loiro, antes de responder:
- Ele conhece algumas pessoas no hospital, então seria mais fácil localizar o Shun.
O aquariano se manteve calado, mesmo porque não era homem de fazer cenas. Aproximou-se de Shun e o beijou na testa com carinho.
- Mais tarde passo em seu apartamento. Preciso trabalhar agora. – mirou o executivo com um sorriso forçado – Cuide dele, Mime.
- Com certeza. – os olhos cor de âmbar de Mime não deixaram dúvidas de seus sentimentos em relação ao russo, mas Hyoga não se importava. Saiu do quarto sendo seguido por Ikki.
- Pato...
- Qual o problema, Ikki? O Shaka não está esperando por você? – perguntou de forma fria e cortante – Estou cansado dessa história, se fosse você se decidia logo!
O moreno o segurou pelo braço, forçando-o a encará-lo.
- Por que então não faz o mesmo, russo?
Hyoga o encarou confuso, puxando o braço com violência.
- Do que está falando?
- Eu já havia percebido isso há certo tempo, mas agora, depois da cena que você fez no quarto e dos olhares que lançou ao Mime, tive certeza. Você sente algo pelo Shun além de amizade, não é?
O loiro empalideceu e entreabriu os lábios.
- Você está louco! Eu amo o Shun sim, mas o amo como amigo! Não queria justificar suas ações me acusando de ser leviano!
- Eu não o acusei de nada. Escuta, não vou ficar discutindo com você no corredor de um hospital, nos encontramos no escritório! – Ikki saiu andando, nem se lembrando de se despedir de Shun.
(...)
-“Haja o que houver se lembre que eu sempre vou amar você...”
O vento soprava forte na cordilheira do Himalaia, assoviando como uma canção. O homem de cabelos lavandas lhe estendeu a mão. Ele a segurou com carinho e abriu-lhe o punho deparando-se com um anel prateado que pegou e colocou no dedo esquerdo.
-“Estamos unidos para sempre...”
Shaka sentiu uma mão em seu ombro levando embora aquelas lembranças. Virou-se, deparando-se com Ikki. Olhou-o sem jeito, tentando esconder a emoção que seu rosto demonstrava.
- E então, doutor, como está seu irmão?
- Bem, muito bem, venha, o deixarei em casa antes de ir para o escritório.
- Não precisa, eu pego um táxi.
- E você tem dinheiro? – ironizou o advogado.
- Não, bem lembrando, tenho que ir ao banco, e também saber o que a família do Mu fez das minhas coisas pessoais.
- Já solicitei que entregassem tudo em minha casa. – informou Ikki.
Shaka o mirou atônito, o advogado corou sem jeito, afinal nem pedira permissão ao médico para fazer tal coisa.
- Desculpe-me, eu tomei a liberdade de ligar para eles e...
- Obrigado – interrompeu Shaka, corando também — , eu... eu não sei o que dizer...
Ficaram os dois por um tempo com o olhar baixo, sem articular palavras, até que Ikki consultou o relógio e viu que tinha pouco tempo para chegar ao fórum onde entregaria alguns processos.
- De qualquer forma, doutor Phalke, preciso passar em casa, não trouxe minha pasta e tenho alguns processos para entregar ainda hoje, depois passarei no departamento de polícia.
- Tudo bem, vamos. – disse Shaka sorrindo e acompanhando o advogado até o carro.
------Amor e Morte-------
Hyoga chegou ao escritório e jogou a pasta sobre a mesa; irritado. Tentava entender as palavras de Ikki, o que ele quis dizer com aquilo? Ele e Shun? Afundou as mãos nos cabelos loiros os desalinhando, era um gesto que sempre fazia quando se achava nervoso.
Não podia negar que a proximidade de Mime sempre o incomodara. Seus sentimentos eram mais fortes que sua razão, sim, porque racionalmente sabia que não deveria ter ciúmes do amigo. Shun era a pessoa que mais o compreendia, era seu melhor amigo, talvez esse fosse o motivo, mas...
Sua cabeça estava confusa, confusa porque as palavras de Ikki libertaram questionamentos que nunca esteve muito apto a se fazer. Questionava seus sentimentos em relação aos irmãos Amamiya.
O que sentia por Ikki? Tentava achar uma palavra que definisse e não encontrava. Fascínio, atração, admiração, respeito...
“Não, Hyoga, você não está listando seus sentimentos, por Zeus!” Interrompeu-se e pegou um copo d’água.
Talvez acreditasse que os opostos se atraíssem, mas... Shun era bem mais um oposto de si que seu irmão mais velho. Ele e Ikki tinham muitos pontos em comum em suas personalidades, e um deles era que ambos não sabiam ceder. Por isso, o russo tinha certeza que o moreno não abriria mão do caso e nem de abrigar o médico em sua casa. Hyoga sabia que os motivos do amante eram totalmente altruístas. Ikki sempre tivera um instinto protetor comovente, principalmente ao encontrar qualquer pessoa em situação difícil; o que o incomodava, e disso ele tinha certeza, era o fascínio com que o moreno se referia ao tal Shaka Phalke, e ele mesmo, Hyoga, certificara-se que o loiro indiano era mesmo fascinante.
Ciúmes. Desde quando era tão inseguro? Talvez esse fosse o grande X da questão. Quando estava com Ikki se sentia inseguro e desassossegado; quando estava com Shun sentia-se como se fosse o dono do mundo, como se nenhum mal pudesse tocá-lo. Sentia-se em paz. O Amamiya mais novo, seu sorriso lhe transmitia paz, lhe dava segurança e aquecia sua alma da forma que o mais velho nunca conseguiu. Mas então por que se envolvera com Ikki ao invés de Shun? Será que tinha tendências masoquistas?
Riu dos próprios pensamentos, jogando o copo de papelão no lixo, depois suspirando com amargura.
O que estava pensando? Shun tinha uma relação estável com Mime e dizia amá-lo. Não podia deixar que suas dúvidas em relação aos próprios sentimentos atrapalhassem a vida do amigo. Mesmo porque, ainda eram dúvidas, questionamentos que ele evitara fazer naqueles dois anos. Ikki, querendo ou não, levou um grande problema para o amante.
--------Desejos Vitais--------
Mime deixou Shun em casa, e o Amamiya mais novo aproveitou o dia de folga para estudar as fotos tiradas da cela em que estava o detento. Incrível como nenhuma câmera estava ligada naquela noite. Passou o dia concentrado no trabalho que só se deu conta das horas quando a campainha tocou. Deixou o computador e caminhou até a porta, olhando antes pelo olho mágico.
- Oi, Ikki. – disse abrindo a porta, dando passagem ao irmão.
- Oi, Shun, você está bem? – perguntou o mais velho, afagando e despenteando os cabelos do mais novo que estavam soltos e desalinhados.
- Estou sim. O ombro lateja um pouco, mas nada que vá me matar. – respondeu caminhando para a sala e se sentando no sofá, esperando que o irmão fizesse o mesmo.
Ikki se sentou de frente a Shun e enlaçou os dedos os estalando.
- O Mime o trouxe?
- Você sabe que sim. – declarou o mais jovem, fitando o irmão com seriedade – O que houve, Ikki?
- Shun, o que você sente pelo Hyoga?
Por mais que quisesse, o moreno não sabia fazer rodeios, e não conseguiria aquilo com Shun que o conhecia melhor que qualquer pessoa. O virginiano empalideceu e arregalou os olhos.
- Como assim, o que sinto pelo Hyoga? – indagou sem jeito, demonstrando certo nervosismo – Do... do que você está falando, Ikki?
- Dá pra apenas responder? – insistiu o mais velho o olhando nos olhos.
A cor voltou violentamente para o rosto do caçula ao receber o olhar inquisidor do irmão.
- Ele é meu melhor amigo, depois de você, claro! – resposta rápida, mas que não escondia o nervosismo.
- Só isso?
Shun se ergueu do sofá e andou pela sala, nervoso.
- Por que essa pergunta depois de tanto tempo? – indagou – Por que isso tem importância agora?
- Eu não sei; penso que talvez você me explique porque tenho sentido certo clima entre os dois.
O mais novo suspirou e sorriu com amargura.
- Meus sentimentos, em relação ao Hyoga,nunca o incomodou antes, por que agora? – insistiu em saber.
Ikki o encarou, irritado.
- Isso até parece uma acusação, Shun. Lembre-se que quando comecei a sair com seu amigo, você pareceu muito feliz com isso. Se isso o incomodava por que não me falou?
- Não estou dizendo que isso me incomoda, Ikki. – respondeu Shun, voltando a se sentar e jogando os cabelos pra trás – Sim, confesso, eu tive uma paixonite juvenil por seu namorado, mas... já passou.
- Por que nunca me disse?
- Eu disse. – sorriu Shun com amargura – Mas quando vocês se conheceram, a atração foi tão imediata que você acabou se esquecendo que aquele era o mesmo homem por quem eu lhe falei que estava apaixonado...
Ikki ruborizou e baixou o olhar. Sentiu-se um insensível, um idiota!
- Se você me dissesse...
- Ikki, já passou. – volveu Shun se sentando ao lado do irmão e segurando-lhe a mão – Eu estou bem agora. Estou com o Mime que é uma pessoa maravilhosa e me ama. Isso foi até bom, o Hyoga nunca seria capaz de me amar como o Mime me ama.
- Por que diz isso?
- Por que o conheço. Ele é meu melhor amigo. – sorriu o mais jovem – E é tudo que será na minha vida. Agora que tal jantarmos juntos?
- Não posso. Eu não gosto de deixar o Shaka muito tempo sozinho. Ainda não conseguimos a proteção policial...
Shun sorriu, e Ikki desviou o olhar ruborizado.
- O que foi?
- Estou achando que você gosta mais do que deveria do seu cliente, doutor Amamiya...
- Não seja idiota, como você bem lembrou, ele é meu cliente, nossa relação é profissional.
- Ele é bem bonito... – provocou o mais novo.
- Shun, quer parar com isso? – irritou-se o mais velho.
O investigador riu, se divertia quando via o irmão encabulado. Ikki não gostava de falar “daquelas coisas” com ele; ainda o tratava como um garotinho.
- Ah, Ikki, você vai me convencer que não se sente atraído por ele? – arriscou, embora tivesse receio da reação do mais velho.
- Estou com o Hyoga. – disse o moreno sério – E caso não se lembre, não sou homem de casinhos. Além do mais, o doutor Phalke é um homem igualmente sério que perdeu recentemente a pessoa que amava, então se não acredita em minha índole, ao menos não duvide da dele.
Shun mirou o irmão, pasmado, mas depois riu.
- Que sermão! Fiquei até sem jeito agora. Desculpe-me, doutor Amamiya, não sabia que se sentir atraído por um loiro lindo de mais de 1,80 m fosse ofensa! – Shun disse e correu do alcance do irmão que o ameaçava com um “murro”.
- Você está cheio de piadinhas hoje, doutor Freud, mas eu tenho que ir! – riu Ikki. O caçula se aproximou, sendo beijado na testa pelo maior, que saiu em seguida.
Shun suspirou. Fechando a porta e se apoiando atrás da mesma. O telefone tocou e ele tratou de atendê-lo.
- Alô.
- Shun, sou eu, Shiryu, como você está?
- Muito bem, alguma novidade?
- Tenho algumas fotos para analisarmos. Não peço que venha aqui, se preferir posso passar hoje à noite em sua casa, o que acha?
- Tudo bem, aproveitamos e comemos uma pizza.
- Ok. A corregedoria está mandando dois policiais para vigiar seu apartamento; estão investigando se isso foi um atentado.
- Certo.
- Ok, chego aí em uma hora. Até mais então.
- Até mais Shi. – Shun desligou o telefone e foi para a mesa do computador, enviar uma mensagem para Mime.
“Amor, não poderei vê-lo hoje à noite; um colega virá aqui em casa para analisarmos algumas fotos do caso Salwenn. Beijos... Eu te amo...”
Digitou as últimas palavras, sentindo o ombro imobilizado latejar um pouco. Suspirou: Será que amo mesmo?
--------Amor e morte--------
Quando Ikki chegou a casa, encontrou a porta aberta, procurou o médico e não o achou. Sentiu um aperto no peito, mas uma movimentação nos fundos da residência chamou sua atenção, e ele o encontrou, abaixado, mexendo na terra com uma ferramenta de jardim.
- Shaka?
O indiano se voltou. Suas mãos estavam sujas de terra, e, apesar de frio, ele vestia calça jeans e regata.
- Olá, doutor. – cumprimentou o médico – Minhas coisas chegaram e com elas alguns pacotes de sementes, então resolvi fazer uma pequena horta orgânica para o senhor, espero que não se importe.
- Não me importo e agradeço. – sorriu Ikki – Terei legumes frescos na primavera. Trouxe o jantar.
- Ah, sim. – Shaka caminhou até a pia da área de serviço, lavando as mãos – Não quero ser desmancha prazer, mas não como carne, então, dependendo do que o senhor trouxe...
- Pizza quatro queijo. Isso não é carne, é? – perguntou Ikki, divertido. Shaka sorriu de canto.
- Não, não é.
- Ok, então vou tomar um banho, jantamos e aproveitamos para discutir alguns pontos do processo.
- Sim. Obrigado. – Ikki entrou na casa novamente. Shaka seguiu-lhe os passos por um tempo, e depois resolveu tomar um banho. Sabia que a conversa com o advogado não seria fácil e nem agradável.
Continua...
Notas finais
Babys muito obrigada pelo descompromissado carinho! Amo vocês!!!
Sion Neblina
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