Notas iniciais
Olá, queridos leitores!
Desculpa pela demora mais uma vez, e também pelos erros que encontrarem pelo texto.
Abraços a todos e boa leitura!

Razão e sentimento

Capítulo 6



Shun deixou à sede da polícia de Boston, andando lentamente pelo estacionamento. Agora, além do colete, portava também uma pistola automática calibre 38 num coldre na cintura por baixo do blazer preto que vestia aquele dia. Dispensara a segurança porque se sentia estranho sendo protegido daquela forma, afinal, era um policial.


Sentiu o farol do carro contra o rosto e ergueu a mão para se proteger.


– Oi, amor. – O carro parou perto de Shun, e Mime abriu a janela o cumprimentando – Como você não me ligou o dia inteiro e seu celular está desligado, resolvi passar aqui, fiquei preocupado. Tudo bem?


Shun engoliu em seco.


– Passei o dia inteiro em reunião. – Mentiu sem jeito.


– Então deve estar com fome, não? – Indagou o loiro – Vamos comer alguma coisa, podemos ir ao teatro...


Shun estava indeciso, na verdade naquele dia não queria ver ninguém. Torceu para o dia acabar logo querendo chegar em sua casa, se trancar na escuridão do seu quarto e esquecer o mundo.


– Mime, na verdade eu gostaria de ficar sozinho essa noite. – Falou baixando o olhar – Não seria uma boa companhia, meu querido.


O loiro franziu as sobrancelhas e demonstrou algo de frustrado.


– Aconteceu alguma coisa? – indagou – Eu só quero ajudá-lo, amor...


– Aconteceu sim, mas não gostaria de conversar agora, por favor, me entenda. – pediu Shun ainda parado do lado do carro.


Mime suspirou pesadamente e um tanto de irritação.


– Tudo bem, mas da próxima vez deixe o telefone ligado, isso evitaria que viesse aqui incomodá-lo. – Falou de maneira fria.


Shun se afligiu. Não queria magoá-lo de forma alguma.


– Mime, me desculpe, amor, mas... Não é com você, acredite. – Tentou falar – Preciso passar essa noite sozinho para pensar melhor em algumas coisas que estão me incomodando, juro que é só por isso.


Mime desceu do carro finalmente e abraçou Shun com cuidado, sabia que embora sem a tipóia o ombro do mais jovem ainda estava dolorido.


– Eu compreendo, amor, me desculpe. – pediu o empresário – Sei que sua vida não tem sido fácil nos últimos tempos, mas entenda. Depois do atentado fiquei paranóico com medo de perdê-lo, preciso saber de você o tempo inteiro.


– Eu sei, Mime, é só por hoje. – sorriu com carinho e acolheu os lábios macios do namorado que o beijou ternamente.


– Tudo bem. – Rendeu-se o loiro – Posso escoltar seu carro até chegar a casa?


Shun riu levemente.


– Tudo bem. – Disse e caminhou para o carro, vendo Mime voltar ao seu próprio.Minutos depois, ambos deixavam o estacionamento da corregedoria da polícia de Boston.


–-- Amor e morte---


Shaka estava sentado no sofá da sua suíte no hotel Hilton. Fazia muito frio, ainda assim ele estava somente com uma regata e uma calça de moletom. Havia se acostumado a resistir ao frio durante os longos anos de rígido treinamento físico e mental no Tibet. Mas nenhum treinamento o prepararia para a realidade horrorosa que estava vivendo. Mu estava morto, seu amigo, seu amor, a pessoa que o salvara tanta e de tantas formas estava morta. E agora ele,como o mais vil dos traidores, como a mais sórdida das criaturas, o traía. Traía sua memória, toda a dedicação, respeito e afeto que ele sempre teve por si, mais uma vez o traía.


Baixou a cabeça, a extensa franja cobriu-lhe os olhos. Não estava apegado às lembranças de Mu, não, de forma alguma. Sabia que sua alma já voara em direção ao infinito, entretanto, a necessidade de achar uma resposta para todo o ocorrido o atormentava. Também não era sede de vingança, só precisava esclarecer o motivo que alguém teria para tirar a vida de um ser encantador como Mu tão covardemente.


O telefone tocou, e ele balançou a cabeça por instinto já sabendo de quem se tratava e sentindo uma angústia crescente no peito. Suas mãos foram firmes ao segurar o aparelho, firmeza que estava longe de sentir, sua voz foi firme também ao falar:


– Sim, Shaka Phalke falando.


– Senhor Phalke, seu advogado está aqui.


– Pode deixá-lo subir. – Disse e bateu o telefone, não percebeu, mas instintivamente segurou a correntinha com pingente de estrela (um pentagrama) que Mu tinha lhe dado. Fechou os olhos quando sentiu as batidas firmes na porta. Resignado, se levantou para abri-la.


Seus olhos claros encararam os escuros do advogado.


– Doutor Amamiya...


Ikki entrou na suíte como um furacão. Dava pra ver de longe o quanto ele estava enraivecido, mas aquilo não assustava Shaka.


– Que porra você acha que está fazendo nesse hotel? – Rosnou o advogado.


Shaka se recostou na porta e cruzou os braços com uma expressão séria.


– Tocando minha vida, algo errado nisso?


– Nada de errado, principalmente se você não tentar colocar essa mesma vida em risco!


Shaka continuava calmo apoiado à porta.


– Não entendo como posso estar mais seguro na sua casa que aqui.


Ikki bufou impaciente colocando as mãos no quadril e falando entre dentes:


– Acontece, doutor, que na minha casa não há um fluxo constante de pessoas...


– Não mesmo, só seu namorado. – Falou Shaka, mas se arrependeu; ruborizou ao receber o olhar confuso do moreno . Respirou fundo e balançou levemente a cabeça, como se com isso pudesse consertar a frase; voltou a encarar o moreno – O que quero dizer é que não quero prejudicá-lo.


Ikki o encarou sério e calado por um tempo, a cabeça baixa, mas o olhar preso nele, ainda com as mãos no quadril.


– Acho que você está dando importância demais a coisas que não são relevantes ao caso, doutor Phalke.


Shaka o encarou confuso, e o advogado riu com sarcasmo, saindo de onde estava e se atirando no sofá.


– Está tão desesperadamente atraído por mim que não suporta ficar no mesmo ambiente que eu?


O loiro apertou os punhos, mas não demonstrou nada além de indiferença.


– Não banalize isso... – Sua voz foi mais baixa do que Ikki esperava.


– Não estou banalizando nada.


– Está sim. – Falou o médico saindo de onde estava e caminhando até o frigobar, pegando uma garrafa de água – O que pensa? Que sou esse tipo de homem? Que estou disposto a seduzir você e quantos mais aparecer no meu caminho?


O advogado entreabriu os lábios surpreso.


– De onde você tira essas asneiras pra dizer hein? Eu não estou pensando nada disso, não seja idiota!


– Não está sendo muito gentil, doutor Amamiya. – Repreendeu terminando de beber a água.


– E nem você muito razoável. – Cortou Ikki – Pegue suas coisas e vamos voltar pra minha casa, agora...


Shaka respirou fundo.


– Sinto muito, mas eu não vou.


– Isso não está em discussão, Shaka. – Ikki se ergueu do sofá – Ou vem comigo ou eu saio do caso, você escolhe!


O médico o encarou atônito.


– Doutor...


– Isso mesmo, meu interesse é como advogado e mais nenhum. – Explicou – Já solicitei proteção policial, estou aguardando a liberação. Por que não pode só dessa vez confiar em mim e fazer o que digo?


Shaka hesitou; talvez estivesse cometendo o pior erro da sua vida, mas tinha que dar razão a Ikki, ele estava certo. Por outro lado, precisava restabelecer um controle, o controle de sua própria vida e dos seus próprios sentimentos.


– Ikki...


– Apenas me segue, vamos. – Falou o advogado.


O médico odiava qualquer tipo de autoritarismo, mas achou melhor o seguir. Mesmo porque, precisava conversar seriamente sobre sua volta ao Hospital Ross no dia seguinte.


As malas ainda estavam feitas, por isso foi preciso apenas que pagassem à conta e voltassem para o chalé de Ikki.


O moreno dirigia com uma expressão fechada. Shaka também estava calado, não queria conversar sobre o que acontecia; o magnetismo entre eles era evidente, a tensão quase palpável.


O carro parou na garagem. Ikki abriu a porta e depois a mala, pegando a bagagem do indiano e levando para dentro da casa, sem olhar na cara do loiro, enquanto fazia uma ligação no celular.


– Por favor, eu gostaria de falar com o juiz Lefrève? Sim, eu sei que horas são, mas é urgente! Diga a ele que é Ikki Amamiya! Como não vai atender? É um caso de vida ou morte, a vida do meu cliente está em risco!


O moreno desligou o aparelho praguejando contra tudo e todos. Shaka comprimiu os lábios, entrando na casa sem nada dizer.


Ikki vinha logo atrás dele. Jogou a pasta sobre o sofá e começou a desabotoar a camisa, parecendo nem se dar conta de que o médico estava ali. Jogou a camisa no sofá com gravata e tudo. Estava furioso e não fazia questão de dissimular.


Shaka foi para o quarto a passos rápidos, não queria ouvir mais nada de Ikki. Despiu-se e entrou no banheiro tomando uma ducha morna. Fazia um frio dos diabos, mesmo assim ele saiu do quarto com o quadril envolto numa toalha branca, completamente molhado. Quase teve uma síncope ao encontrar Ikki no quarto com os braços cruzados, apoiado numa cômoda. Era visível que ele também havia acabado de sair do banho e estava... Lindo! Vestia um conjunto de camiseta e calça de algodão azul claro, bem descontraído, embora seu rosto estivesse fechado.


– Deve estar com fome. – disse o moreno.


– Não, não estou.


– De qualquer forma pedi pizza e você vai comer.


Shaka bufou.


– Ikki, o que você quer afinal? – Também cruzou os braços sobre o peito definido e molhado – Não creio que todo advogado decida de uma hora para a outra ser babá dos seus clientes, pois é isso que está fazendo comigo.


– Eu só não quero...


– Eu também não pretendo viver em cárcere privado. Vou retornar minha vida, vou voltar a trabalhar, não vai poder controlar meus passos! – Falou irritado.


– Do que está falando?


– O Ross me chamou de volta e eu aceitei. Sou fatalista, já disse, se algo tiver de me acontecer, acontecerá em qualquer lugar.


– Não seja teimoso, Phalke!


– Poderia deixar ao menos que me troque antes de voltarmos a discutir? – Pediu com ironia.


Ikki bufou e se encaminhou para a porta.


– Na sala em 5 minutos. – Ordenou e bateu a porta atrás de si.


Caminhou para a sala e ouviu a campainha. Abriu a porta para receber o entregador de pizza. Depois que pagou, depositou a caixa da pizza sobre a pequena mesa de centro da sala, foi até a cozinha e pegou pratos e talheres, além de um bom vinho.


Shaka apareceu alguns minutos depois. Ikki parou o que fazia para olhá-lo e respirou pesadamente ao constatar o quanto ele era filhadaputamente sexy e o quanto se sentia atraído por ele. O corpo delgado, mas definido estava coberto por uma bata de algodão cru bege, adornada no peito por um cadarço de couro; vestia também uma calça do mesmo tecido e cor e estava descalço. Os cabelos loiros e úmidos estavam soltos, meio desalinhados sobre os ombros.


– Terminou?


A voz do indiano o fez piscar e ruborizar, desviando sua atenção novamente para as taças que tentava pegar na cristaleira.


– Terminei o quê? – Perguntou fingindo distração.


– De me comer com os olhos. – Falou Shaka direto, não era de fazer rodeios e nem muito menos de ficar “pisando em ovos” com ninguém.


–Você é bem convencido.


– Não, sou realista, doutor. – Sorriu de lado, mas estava nervoso.


Observou a mesa posta por Ikki e sorriu realmente surpreso, porque nunca imaginaria que ele seria tão organizado. Os guardanapos, as disposições dos talheres... Bem, nada era perfeito, a pizza ainda estava na embalagem de papel.


Foi até onde ele estava na cozinha e abriu um armário pegando uma bandeja de vidro.


– Aquela caixa acaba com todo o seu trabalho. – Explicou voltando para perto da mesa e colocando a pizza na bandeja, voltando em seguida para jogar a embalagem na lixeira.


Quando voltava para a sala, contudo, o moreno segurou-lhe o pulso. Shaka seguiu-lhe a mão e depois ergueu a cabeça para o olhar nos olhos.


– Doutor...


O que quer que fosse dizer foi calado pelos lábios do moreno, que soltando seu braço, segurando-lhe o rosto, o beijando com ardor; a boca quente e carnuda cobrindo a de Shaka, dominando-a de forma intensa e sensual. O loiro deu um passo para trás, e Ikki o segurou pela nuca, afundando a mão em seus cabelos cheirosos. O indiano se viu vencido, correspondendo à carícia fogosa do moreno; a língua ávida vasculhava sua boca com habilidade, sugava e tomava posse da sua, mordiscava de leve seus lábios cheios. Shaka sentiu as pernas bambearem e o calor do seu corpo subir a níveis insuportáveis. Mas não queria aquilo, não! Não podia!


– Ikki... – gemeu tentando se afastar, o corpo ardendo de tanto desejo que ele se julgou louco. Como podia desejá-lo daquela forma em tão pouco tempo? Novamente a lembrança de Mu se formou em sua mente e seu peito doeu. Ele afastou o advogado delicadamente.


– Não, Ikki... – sussurrou – O que estamos fazendo?


O moreno deixou que ele se afastasse, entendendo seu constrangimento. Mirou o loiro, percebendo o quanto ele estava excitado, não só pelo rubor das faces, mas também devido ao volume que ficava evidente na folgada calça de algodão. Constatou que não estava muito diferente dele e baixou o olhar meio sem jeito. Era evidente que estavam loucos um pelo outro, ao contrário, um simples beijo não os deixariam tão excitados. Entretanto, sabia que Shaka tinha razão em tentar fugir àquele sentimento. Não era certo, ele era seu cliente.


Não tinha a intenção de beijá-lo, prometeu a si mesmo que tentaria resistir, mas ao vê-lo tão... Perfeito! Sua resistência foi por terra.


Durante todos aqueles dias que dividiram a casa, se conteve ao máximo para não tentar uma aproximação. Por várias vezes, durante a madrugada, ia ao quarto do médico olhá-lo dormir. E como ele era lindo adormecido! Um anjo! Como ele poderia resistir?


– O que estamos fazendo eu não sei, doutor. – Disse Ikki finalmente – Mas sei o que sinto, sei que quis você assim que o vi e não ficarei negando isso, pra mim chega.


Shaka continuou parado com a cabeça baixa, Ikki voltou a se aproximar e ergueu-lhe o queixo. O indiano encarou seus olhos.


– Entenda o quanto essa atração é difícil pra mim. – Confessou o médico de forma baixa e controlada.


Ikki afagou-lhe o rosto.


– Você não o está traindo, loiro, é inteligente demais para pensar algo assim.


– Não estou? – Indagou Shaka com um sorriso irônico e amargo – Ikki, você não sabe quem o Mu foi pra mim, você não compreende tudo que vivemos...


– Compreendo que isso não será apagado só porque você está se sentindo atraído por alguém. Não estou lhe propondo esquecê-lo, Shaka. – Falou sério, embora o ciúme lhe corroesse. Odiava vê-lo falar no tal Mu, daquela forma tão... Apaixonada!


Foi surpreendido pela mão de Shaka em seu braço. Ele o puxou pra si o abraçando forte.


– Ikki, você é a única pessoa em que confio no momento... – falou, e o moreno não fazia idéia do quanto aquilo era difícil para ele – Desculpe-me, mas eu não posso...


O advogado escondeu o rosto na curva do pescoço do loiro e suspirou.


– Eu entendo. – Sussurrou – E espero que entenda também que... Não há nada demais em sermos amigos... Pelo menos...


Shaka suspirou também o apertando mais em seus braços fortes, para logo depois se afastar.


– Concordo. – Sorriu de leve — Mas não chegue assim tão perto.


Ikki sorriu também se afastando e segurando a mão do indiano.


– O que tanto teme? – Indagou – Convivemos por dia sob o mesmo teto, não somos dois estranhos.


– Nunca temi nada em minha vida. Entretanto, tenho um grande senso de dever, e esse senso me diz que não é hora de irmos mais fundo nisso...


– Eu sei como se sente. Imagino que o que sentia pelo doutor Gyatson ainda seja forte.


– Isso não tem nada a ver com o Mu.


– Então tem a ver com o quê?


Shaka cruzou os braços e o encarou.


– Não acha melhor comermos?


– Não antes de você me dar uma resposta. – Insistiu o moreno sorrindo.


O loiro respirou fundo e soltou o ar soprando, quase fazendo Ikki rir.


– Você é difícil. – Falou.


– Todos me dizem isso. – O advogado não se abalou.


– Okay. Mu e eu tínhamos uma relação especial e uma crença especial sobre a morte. Nunca ficaríamos amarrados ao fantasma um do outro. Todavia, temos responsabilidade sobre todos que amamos, sobre todas as formas de vida que acolhemos e essa responsabilidade não me fará ter paz, enquanto eu não souber quem fez aquilo com ele.


– Compreendo. – Ikki disse seco e passou pelo pediatra, o deixando atônito – Vamos jantar?


Shaka entreabriu os lábios, mas nada disse. Sentou-se de frente ao advogado na almofada, vendo Ikki servi-lo da pizza de rúcula. Sorriu, ao perceber que ele pedira uma pizza mista, já que sabia que, ele, Shaka, era vegetariano.


Começaram a comer em silêncio. O moreno o serviu de vinho tinto e Shaka riu, comentando que pizza com vinho tinto, e um bom vinho tinto! Era meio incomum.


– Ah, eu e o Hyoga sempre fazemos isso! – Disse o moreno descontraído, mas percebeu que o loiro deu um sorrisinho de canto, como alguém que não gostou muito da observação.


Calou-se e provou do vinho, vendo Shaka fazer o mesmo, sem encará-lo.


– O Hyoga o incomoda?


– Não. – Declarou seco – Ele é seu namorado e eu respeito muito isso. Eu nunca me colocaria entre um relacionamento. Entenda, doutor Amamiya, isso não faz parte do meu caráter. Eu respeito demais as pessoas para fazer algo do tipo.


Ikki o encarou profundamente e Shaka corou um pouco, sentindo-se ridículos com as palavras que havia acabado de dizer. Não fora ele há poucos instantes que estava falando de responsabilidades? Como poderia dizer algo tão instintivo e pouco responsável?


– Shaka, Hyoga e eu...


– Não há porque explicar nada, doutor. Não temos nada um com o outro e aquele beijo foi um acidente. – Falou firme, encarando o moreno nos olhos.


Ikki franziu as sobrancelhas irritado.


– Escute, louro, não pense que só você tem valores e responsabilidades. Eu nunca o beijaria se ainda estivesse com o Hyoga, não sou esse tipo de cara, entendeu?


Shaka demonstrou surpresa. Entreabriu os lábios e piscou os olhos.


– Vocês...


– Sim, não estamos mais juntos. – Sentenciou terminando o vinho da sua taça.


– Espero que... – tencionou dizer, mas se arrependeu, não queria parecer pretensioso.


Ikki, entretanto, não parecia preocupado com isso.


– Sim, Shaka, desculpe, mas foi por sua causa. Se você não tivesse aparecido, talvez, Hyoga e eu tivéssemos levado essa relação até o limite do suportável, já que eu nunca o amei e, acho, ele também nunca me amou de verdade.


– Como pode se viver dois anos com uma pessoa sem a amar? – O loiro interrogou.


– Você amava muito o Gyatson?


– Sim, éramos almas gêmeas.


Ikki não gostou de ouvir aquilo, não gostou mesmo. Respirou fundo e passou as mãos nos cabelos.


– Eu também amava o Hyoga, não da forma convencional talvez, mas eu o respeitava, sentia grande amizade por ele e muito carinho.


– Isso também é amor. – Murmurou Shaka, porque era exatamente o que sentia por Mu.


– Então! – Ikki deu de ombro.


Eles terminaram a refeição em silêncio. Depois, Shaka lavou a louça, enquanto Ikki a secava. Conversavam tranquilamente, embora estivessem um pouco tenso.


– Eu tenho uma reunião amanhã sobre o seu caso com o juiz Lefrève. – Falou – Eles não querem mais adiar o julgamento.


– Entendo. Um assassino está à solta afinal.


– Sim.


Calaram-se. Depois do serviço terminando, caminharam para o sofá e se sentaram lado a lado. Ikki pegou a mão de Shaka e colocou entre as suas. O médico sorriu; o moreno era terrível, nunca sabia o que esperar dele.


– Ikki... – Shaka respirou fundo como alguém que daria uma explicação sofrível – O que está fazendo?


– Segurando sua mão.


– Não faça isso com nós dois... Isso não vai acontecer...


– Não me lembro de ter pedido nada. – O moreno o encarou – Meu toque é tão insuportável assim?


Shaka tirou as mãos das deles e apoiou a testa com uma dela numa posição visivelmente cansada.


– Você tem que compreender. — Falou o médico calmamente — Aceitar o que sentimos não significa que esteja pronto para um relacionamento.


– Acho que você está acelerando as coisas, loiro. – Ironizou Ikki.


– Tudo bem, serei direito. – Volveu Shaka sem paciência – Não estou pronto para isso e não quero um envolvimento físico com ninguém agora, não era o momento nem para envolvimento emocional, embora, levando em consideração tudo que vivi nos últimos tempo, isso seja compreensivo...


– O que quer dizer?


– Eu me apeguei a você! – Confessou – Você foi minha única ligação com a humanidade nesses últimos meses, isso seria natural, mas tenho minhas obrigações e meu senso de decência! Eu já comecei a bagunçar sua vida, você terminou um relacionamento de dois anos por causa de alguém que não pode lhe oferecer nada, entende? Eu não quero fazer isso com você e nem comigo, então, por favor, entenda, não podemos nos envolver mais que isso, estamos num limite perigoso aqui, advogado...


O moreno o encarou calado por um bom tempo; seus olhos eram indecifráveis, terrivelmente sérios, mas isso não intimidava Shaka. Nada seria capaz de intimidá-lo.


– Não me lembro de tê-lo pedido em casamento e nem de ter trazido camisinhas, louro. – Bufou o mais jovem – Eu não estou pedindo que de uma hora para outra você pule na minha cama, mesmo porque, isso também não faz meu estilo, assim como não faz meu estilo negar o que sinto; essa é a única coisa que estou pedindo a você, que admita o que sente, mais nada.


Shaka encarou as safiras escuras do moreno, depois lhe segurou o rosto e o beijou delicadamente, mas ainda assim, muito sensual. Ikki suspirou e quase gemeu contra os lábios hábeis e experientes do médico, contudo, logo o indiano se afastou tomado de um autocontrole que o advogado parecia não mais possuir.


– Agora estou confuso... – confessou o moreno o olhando nos olhos com certo divertimento.


– Estou só admitindo, não foi isso que pediu?. – Sorriu — Que tal vermos um filme agora? – O loiro falou tranquilamente. O moreno o puxou pra si, o beijando com intensidade.


O jovem médico sentia o corpo queimar, o sangue ferver e a mente se embaralhar enquanto a língua ousada do advogado vasculhava sua boca.


– Ikki... – gemeu tentando afastá-lo, percebendo que estava prestes a perder toda sua sanidade – Ikki pare, você não é um garoto! – o empurrou, fazendo as costas do mais jovem bater no encosto do sofá. O advogado riu da situação, realmente estava se comportando como um adolescente em plena puberdade, que ridículo!


– Tudo bem, loiro, saberei esperar. – Disse divertido e recebeu um olhar severo do médico.


– Isso não é brincadeira, doutor. – Advertiu Shaka – Está mexendo nas minhas feridas mais profundas e isso pode ser perigoso, cuidado.


– Você não me intimida, Shaka Phalke, nunca me intimidou e se quiser começar com seus golpes de karatê, Kong fu ou seja lá o que for, comece agora, porque não vou desistir de você.


Shaka mais uma vez tencionou rebater, mas desistiu. Sabia que não adiantaria nada discutir com aquele obstinado.


– Tudo bem. – Suspirou o loiro tentando demonstrar tranqüilidade – E o que fazemos agora?


– Você faz pipoca e eu procuro um filme na TV a cabo, certo? – Piscou Ikki de forma sacana, se ajeitando no sofá e cruzando os braços atrás da cabeça.


Shaka balançou a cabeça, rindo e foi para a cozinha providenciar a tal pipoca.

–----Desejos vitais------


A TV estava ligada, mas ele nada via, sua mente estava distante, seus olhos cansaram de tentar achar respostas nas paredes claras do apartamento. Somente sons e lembranças do passado, um passado não muito distante.



– Estou fazendo uma sobremesa, senta e espera e, por favor, não tire nada do lugar!

– Ah, você e essa sua casinha arrumadinha, perfumadinha e fresquinha! – O loiro provocou.

Shun o empurrou no sofá, e Hyoga acabou caindo e lhe jogando uma almofada. Logo estavam numa guerra de almofadas e a sala, arrumadinha, uma verdadeira bagunça.

O loiro a certo momento o puxou pra si, fazendo o mais jovem cair sobre seu corpo forte. Hyoga afastou a franja da testa de Shun o mirando por um bom tempo enquanto a respiração ofegante pela “guerra” se normalizava.

Olhos nos olhos...

– Promete que nunca mudaremos? – Pediu.

– O quê? – Indagou Shun sem entender.

– O que sentimos. Nossa amizade, nosso amor...

– Eu sempre vou amar você, Hyoga. Você é meu melhor amigo... – sorriu Shun e se ergueu rápido – Depois do Ikki!

– Ah, volta aqui seu moleque! Eu tenho que estar antes do Ikki! – Bradou o mais velho rindo, lhe jogando mais um monte de almofadas.



Era de momentos como aquele que Shun se recordava durante toda a madrugada insone. Tentava achar saída para seus sentimentos, mas não conseguia. Tinha medo de magoar Mime, medo de viver um romance de mentiras, medo de não se arriscar a viver o que realmente queria, medo de arriscar e perder tudo.


Mime era lindo, e carinhoso, e honesto, e atencioso. E era, antes de tudo, perdidamente apaixonado por ele. Mas Mime não era Hyoga, Mime não era seu melhor amigo, Mime não era de fato quem amava.


Shun realmente não sabia o que fazer e nem que direção tomar. E mais uma vez, ele via o dia raiar sem que houvesse dormido.

Hyoga olhava a chama da lareira de pedra com uma caneca de capuccino na mão. Tentava limpar sua mente, dizer que aquele retiro o faria mais forte, mas não era de fato o que achava. Em todos os seus momentos difíceis estivera com Shun. Contara com sua presença com a sua força, com seu carinho...



– Você deveria deixar de bobagens, Hyoga. O Ikki gosta de você.

O loiro passou as mãos nervosas no cabelo.

– Gostar? Talvez eu precise um pouco mais que isso, Shun. Por favor, não defenda seu irmão!

Shun retirou os óculos e o encarou calmamente.

– Eu não o estou defendendo. Estou preocupado com você.

Estavam os dois parados no meio do apartamento do mais jovem. Hyoga suspirou e se deixou cair no sofá.

– Desculpe, Shunny... eu... eu estou péssimo e a culpa não é sua...

Shun se aproximou dele e se ajoelhou entre as pernas do loiro. Hyoga afastou as mãos do rosto para mirá-lo. Seus olhos se encontraram, então o mais jovem o puxou para seus braços num abraço acolhedor. Hyoga escondeu o rosto na curva do pescoço de Shun e aspirou o cheiro dos seus cabelos.

– Hyoga, ele não amá-lo da forma que espera, não significa que não o ame da única forma que pode...

– Você é tão perfeito, Shun... Eu gostaria de amar você ao invés dele...



Naquele dia, Hyoga não pode ver a lágrima que desceu pelo rosto de Shun quando ele proferiu aquelas palavras. Foi naquele dia que o mais jovem resolveu definitivamente cuidar de sua vida e esquecer o loiro. Alguns meses depois estava namorando Mime e decidido que Hyoga seria apenas seu amigo, por mais que aquilo doesse.


Uma lágrima desceu pelo rosto do rapaz e ele provou o seu capuccino. Ele conseguira estragar tudo com Ikki e principalmente com Shun.



Shun mirou pela janela, saindo do seu estado de torpor e vendo o céu que começava a clarear. Enxugou o rosto e resolveu que já era o momento de dormir, nem que para isso tivesse que tomar algum remédio. Foi para o banheiro, lavou o rosto e se deitou na cama, abraçado ao travesseiro.


Hyoga resolveu fazer o mesmo. Finalizou o capuccino assim como sua dolorosa vigília.



Continua...

Notas finais
Bem, esse capítulo foi mesmo para definir os sentimentos dos personagens. O próximo terá mais suspense que romance, porque começarei a esclarecer o que de fato ocasionou a morte do Mu.
Espero que não me matem por isso hehehehehe.
Beijos mega afetuosos para:
KitsuneKiki, Patysinha_-_, jak_ariana, Matsumoto-chan, Alexia-Black, ddd, anjodastrevas, Hannah Elric, Keronekoi, Maya Amamiya.
Obrigada a todos que deixaram alguma forma de carinho, obrigada também aos que acompanham silenciosamente. Mas gostaria de saber a opinião de vocês também XD!
Abraços afetuosos!
Sion Neblina