Desejos Vitais - Amor e Morte...
8 Emboscadas
Notas iniciais
Emboscadas
Capítulo 7
Ikki e Shaka dormiram tarde, perderam as contas das bobagens que viram na TV e aproveitaram para conversar bastante. Tentavam se conhecer melhor e pouco falaram sobre os problemas ou sobre a morte de Mu, mas falaram bastante sobre a vida que viveram antes de se encontrarem, embora nenhum dos dois fosse dado a confissões.
Ikki descobriu que uma grande e bonita amizade unia o cliente e o tal Mu Gyatso e que a relação dos dois não era passional como fora a sua com Hyoga, aliás, quanto mais o conhecia mais percebia que Shaka era notoriamente o inverso de Hyoga; era sábio, tranqüilo, equilibrado, embora tivesse uma personalidade bastante forte, mas, sobretudo, era senhor de si, sabia controlar todos os seus instinto e sentimentos, medir as palavras e raramente entrava em desespero. Controlava seus sentimentos e não era de forma alguma controlado por eles. Em contra partida, era teimoso, dominador, mandão, possessivo e detestava perder. O advogado riu muito disso, o que fez o loiro rir também com a confissão; dissera que era raro que as pessoas confessassem seus defeitos; o médico respondeu que não tinha vergonha dos seus e que eram eles que o fazia humano.
Passaram uma noite agradável e no dia seguinte, logo cedo, já estavam de pé. Shaka preparou o café e os serviu como de costume. Já estava pronto para ir ao hospital, vestido em camisa e calça brancas, assim como Ikki também já estava de terno; teria uma reunião com o juiz e o promotor do caso naquela manhã.
— Passo no Ross as seis para buscá-lo o que acha? — Sugeriu o advogado.
— Posso voltar de táxi.
— Acho mais seguro voltar comigo.
Shaka riu de canto e balançou a cabeça.
— Tudo bem então, se você acha que pode me defender.
— Claro que posso! — O moreno se fez de ofendido, fazendo o loiro rir gostosamente.
— Certo, certo, não vou destruir sua auto-estima. — Provocou colocando a caneca na pia — Vamos então? Não quero me atrasar.
Ikki fez o mesmo e pegou sua pasta que estava sobre o sofá, Shaka se aproximou dele e o abraçou por trás, apoiando o queixo em seu ombro e suspirando.
— Ikki, eu quero que saiba...Essa noite foi... especial pra mim. — Declarou pausadamente, medindo as palavras — Quero que saiba que há muito tempo não me sentia tão humano ao lado de alguém...
O moreno riu de leve e se virou para encará-lo, percebendo que o loiro estava levemente ruborizado, como se estivesse envergonhado da confissão.
— Isso é o que você chama de declaração de amor?
— Ikki, por favor, me leve a sério. — Pediu sem conseguir disfarçar o bom humor — Pra mim é muito difícil dizer algo desse tipo, tenha ao menos respeito!
— Eu tenho muito respeito por você, senhor super-herói — o puxou pra si pela cintura —, e é bom saber que posso torná-lo humano.
Shaka balançou a cabeça levemente e recebeu um beijo delicado nos lábios, mas logo Ikki se afastou e o puxou pelo ombro.
— Vamos, não podemos nos atrasar. — Disse, e eles deixaram a casa.
O advogado deixou o pediatra no hospital e seguiu para o encontro com o juiz e o promotor do caso. Chegou 10 minutos atrasados e encontrou Milo Seferis no pátio do fórum, fumando nervosamente um cigarro.
— Não há jeito de você chegar no horário não é, Amamiya?
— Relaxa, Seferis, o juiz já chegou?
Milo jogou o cigarro no chão o apagando com o sapato, depois afastou alguns fios dos cabelos loiros que caíam sobre sua testa, mirando o colega de forma irritada.
— Não importa o quanto tente, advogado, eu vou colocar esse médico assassino na cadeia, e você sabe que o espancamento dos detentos é um bom indício para que consiga isso, está perdendo seu tempo. – Falou começando a caminhar para dentro do prédio sendo seguido por Ikki.
— Pode continuar tentando, garanto que provarei a inocência dele.
— Vestígios de pólvora nas mãos, exame toxicológico negativo, pode me dizer como? – Riu Milo subindo rapidamente as escadas na frente do outro advogado.
— Com o mais importante: ele é inocente. — Sorriu cinicamente — Você não vai conseguir me tirar do sério, Seferis.
— Não sou eu a tirá-lo do sério, são as provas que você insiste em ignorar.
Eles chegaram ao gabinete do juiz e se calaram respeitosamente. O juiz estava atrás da mesa e mirou os dois de maneira fria.
— Sentem-se advogados. — Pediu — O julgamento foi marcado para o dia seis próximo, há alguma coisa que queiram me apresentar?
— Eu gostaria de mais tempo, excelência. – Pediu Ikki.
— Você já teve tempo demais! – Cortou Milo irritado – Até quando vamos adiar esse julgamento?
— Eu ainda não pude examinar a residência, a polícia está dificultando meu trabalho. – Argumentou o advogado de defesa.
— Examinar a residência? – Milo riu incrédulo – Amamiya, isso é um trabalho para a polícia e não pra você!
— Há documentos naquela casa que podem fornecer indícios dos responsáveis pela morte do cirurgião, eu só peço uma ordem judicial que me permita entrar lá...
— Quem disse isso? Seu cliente? Ikki, não percebe que ele apenas quer ganhar tempo?! – O loiro estava perdendo a paciência que não era muito seu forte.
O juiz olhou de um para o outro criticamente. Os conhecia bem demais e resolveu ser menos formal. Retirou os óculos e encarou o advogado de defesa nos olhos.
— Ikki, eu tenho que concordar com Milo, essa investigação é de responsabilidade unicamente do departamento de polícia. – Disse – Já adiamos demais esse julgamento e graças a isso aconteceu àquele terrível incidente na penitenciária. Entenda que quanto mais o rapaz demore a ser julgado, mais perigo ele correrá.
— Então você concorda comigo, Camus? Concorda que alguém tem intenção de que o Shaka permaneça preso?
— Sim concordo, mas isso não inocenta seu cliente. – Continuou o ruivo com imparcialidade – Ele pode ser apenas uma pequena peça em todo esse quebra-cabeça, e minha função aqui não é dar vazão as minhas conjecturas. Acreditar ou não me sua inocência não faz diferença alguma.
Ikki engoliu em seco.
— Preciso de mais um mês...
— Nem mais um dia, Ikki. – Falou o juiz Camus Lefrève se erguendo – Dia 6 será o julgamento do seu cliente, você tem exatos 14 dias para preparar a defesa e você, Milo, a acusação. Sessão encerrada.
------- Desejos Vitais-------
Shaka chegou ao hospital Ross. Foi difícil entrar ali, aquele lugar provocava lembranças de Mu. Era como se ele estivesse constantemente consigo. Obrigou-se a entrar. Todos os olhos se voltaram pra si enquanto andava pela recepção luxuosa. Logo foi recepcionado por Aiolia que ficou muito feliz em vê-lo.
- Fico feliz que tenha aceitado o seu emprego de volta, Shaka. – Disse o cirurgião – O diretor pediu para avisá-lo assim que chegasse.
- Claro. – Volveu o loiro – Quando posso começar?
- Agora mesmo, só terá que suportar uma reapresentação à equipe e um pedido de desculpas formal do hospital.
- Aiolia, eu não quero nada disso, ainda não fui julgado, então até que se prove minha inocência, prefiro que nada disso seja feito.
O cirurgião coçou a cabeça e chamou o amigo num canto.
- Shaka, a direção teme um processo contra o hospital, por isso deseja fazer esse circo hoje; sei que é algo ridículo, mas tente colaborar.
O indiano bufou.
- Certo, eu vou colaborar, mas amanhã quero voltar às minhas atividades como pediatra e só elas, entendido?
- Certo. – Sorriu o Aiolia começando a se afastar – Bom tê-lo de volta, amigo.
- Obrigado. – disse sério, pensando que talvez não fosse tão fácil fazer o que se propôs a fazer ali.
-------Desejos Vitais-----------
Shun estava deixando a sala. Arrumava algumas coisas em sua pasta quando o celular vibrou. Viu que era uma mensagem e apertou o botão para ler:
“Agente, cuidado! Quem muito procura acaba encontrando...”
Mordeu o lábio inferior e arquivou a mensagem, era a quarta naquele dia. Deixou a sala e encontrou Shiryu no corredor.
— Oi, Shun, está inda pra casa?
— Não, vou ao departamento que investiga a morte do Gyatso, depois sim irei para casa, estarei de licença esse final de semana e fora da cidade — Informou ao colega porque era essencial que ele soubesse.
— Vai viajar com o Mime? — Estranhou Shiryu, porque Shun era do tipo metódico e geralmente para fazer uma viagem, a mesma seria planejada com meses de antecedência, mesmo sendo para um local próximo.
O rapaz de cabelos castanhos parou e mirou o rosto do amigo; Shiryu percebeu que Shun não deveria estar dormindo há algumas noites, pois seus olhos estavam marcados por olheiras profundas.
— Não, vou atrás do Hyoga. — Confessou.
O mais velho franziu o cenho por um tempo.
— Acha que deve?
— Não, mas sei que preciso. Preciso colocar um pouco de juízo naquela cabeça loira, burra e teimosa.
Shiryu balançou a cabeça e encarou o amigo:
— Shun, desculpa me meter nisso, e você nem me pediu conselho, mas acha mesmo que deve arriscar a relação bonita que tem com o Mime por causa do Hyoga?
O agente mais novo corou e deixou um suspiro cansado escapar dos seus lábios:
— Não, Shi, eu não acho. Não estou indo atrás do Hyoga por causa de nada além de amizade.
— Tem certeza? Olha, eu não quero me meter em sua vida, mas acho que o Mime é um cara bacana pra você, é alguém confiável e não emocionalmente instável como o Hyoga. Você sabe que eu gosto dele, mas nesse momento estou pensando no melhor pra você.
— Eu sei, Shi, e agradeço — sorriu —, mas, preciso resolver isso com ele de uma vez por todas. Talvez só depois disso, esteja realmente livre para viver em paz com o Mime.
— Tem certeza?
— Sim, eu tenho.
— E o Mime sabe disso?
— Não. Disse apenas que teria que sair da cidade, mas que estaria voltando amanhã; não pretendo ficar mais que uma noite ao lado do Hyoga.
Shun corou com o duplo sentido da frase, mas achou que Shiryu compreenderia o que queria dizer e não se explicou. Despediu-se do amigo e saiu, ainda teria que resolver as questões do caso Gyatso, antes de sair da cidade no final do dia.
----Amor e morte----
O dia passou rápido para o pediatra Shaka Drevaj Phalke; muito mais reuniões que trabalho. Ele tentava entender o porquê de tudo aquilo, aquela aceitação e diria quase bajulação da diretoria do Ross; afinal, ainda seria julgado e era o principal suspeito de assassinato. Todavia, não perderia tempo pensando naquilo agora, outra coisa ocupava e preocupava sua mente e essa coisa se chamava Ikki Amamiya. Seus sentimentos pelo advogado o estavam enlouquecendo e ainda não se sentia apto a começar um novo relacionamento. Ainda amava Mu e sua ausência doía muito; sentia-se um traidor por dividir seu coração com os sentimentos novos e intensos pelo moreno, embora sua razão dissesse que aquilo era o natural; Ikki o apoiou em seu momento de maior fragilidade e seu carinho era verdadeiro, não deveria se sentir tão culpado, mas se sentia, mesmo sabendo que Mu lhe diria que não estava fazendo nada de errado.
Suspirou cansado: como sentia falta do seu melhor amigo, seu querido e amado companheiro. Por que aquilo teve que acontecer?
Passou o dia em meio a essas divagações e quando deu por si já era noite e o movimento do hospital caíra consideravelmente. Deixou o consultório e muito sorrateiramente subiu às escadas de emergência em direção a um lugar; o lugar que queria investigar e o único motivo pelo qual aceitou tão prontamente voltar para o Ross Hamilton Hospital: o consultório do cardiologista Mu Gyatso Salwenn.
O corredor estava vazio e não foi difícil chegar até a sala, mas a mesma estava trancada. Mordeu o lábio inferior e procurou com os olhos alguma coisa que pudesse ajudá-lo a entrar ali. Precisava entrar, mesmo a polícia tendo investigado tudo como dissera que fez, ele queria ver aquela sala com seus próprios olhos, sabia que poderia descobrir alguma coisa oculta, alguma coisa que só ele conhecesse, algum sinal deixado pelo amado.
“Deve haver uma chave em nossa casa...” Pensou intrigado.
“A justiça embargou a venda da casa, é um local que permanece sob investigação e enquanto o crime não for esclarecido ninguém poderá entrar lá...”
A voz de Ikki invadiu seus pensamentos; tinha duas possibilidades, ou voltar a casa e achar a chave ou procurar a direção do hospital e pedir uma cópia, mas isso com certeza despertaria suspeitas.
“Ou melhor...” Murmurou com um sorriso malicioso; voltaria a sua sala e acharia um clipe de papel ou qualquer coisa que o ajudasse a abrir aquela porta. Voltou mais uma vez, quase imperceptivelmente pelo corredor e abriu a porta do seu consultório, quase exclamando de susto ao encontrar o advogado nele, mexendo em alguns papéis sobre sua mesa.
— Ikki! — Exclamou ainda atordoado — O que faz aqui?
— Oi, vim buscá-lo. — O moreno estranhou a surpresa do médico, mas Shaka logo sorriu tentando dissimular sua aflição.
— Ah, claro! Eu já estava mesmo de saída. — Respondeu nervoso, tirando o jaleco e pegando sua pasta.
Ikki o olhou por um tempo, desconfiado.
— Aconteceu alguma coisa, loiro? — Perguntou o encarando.
— Nada, o que poderia acontecer aqui? — Respondeu tão prontamente que aumentou as suspeitas do moreno, mas o mais jovem achou melhor não contestar.
— Espero que nada, vamos?
O loiro assentiu, e eles deixaram o consultório, chegando à recepção. Shaka percebia os olhares e os cochichos que causava. Pensava que todos ali deveriam odiá-lo e que rezavam por sua prisão, afinal, Mu era muito amado por ser simples e gentil, ao contrário de si que tinha fama de arrogante e distante, o que não poderia classificar como mentira.
Percebendo os olhares e, irritado, Ikki o puxou pelo braço possessivamente. Mesmo sendo um gesto discreto, aquilo deixou claro à intimidade dos dois, e Shaka não gostou nada, todavia, não retrucou até que deixassem o hospital.
— Por onde você andou? Eu o esperei por mais de 10 minutos. — Falou o moreno desconfiado, sentia a tensão do médico e achara suas atitudes muito estranhas.
— Fui ao refeitório comer alguma coisa. — Mentiu sem jeito pensando nos olhares que recebeu; era impossível não se sentir mal com isso, sabia que todos o julgavam, afinal, o corpo de Mu mal esfriara e ele já estava...
Aquele pensamento culpado gelou o pediatra, e ele se afastou do advogado, perturbado, caminhando de forma rápida para o carro de Ikki. Antes que entrasse, contudo, o moreno segurou seu braço.
— Shaka, o que está acontecendo?
— Nada, só acho que é cedo demais para que nos vejam juntos. — Confessou nervoso — Então se você largasse meu braço, eu agradeceria muito.
Ikki recolheu a mão que segurava o braço do loiro; apesar de irritado tinha que admitir que a suspeita de um relacionamento entre os dois seria ruim para o caso, muito ruim.
— Sinto muito, eu não pensei nisso. — Falou sem jeito.
— A culpa não é sua, Ikki, eu preciso aprender a conviver com os julgamentos que fazem de mim sem me abalar, mas eu sei que se... se alguém desconfiar que haja algo mais entre nós dois, isso não será bom.
— Acabei de pensar nisso, mas não se preocupe, não se cobre tanto.
— Eu só preciso de um pouco de tranqüilidade, só isso. — Shaka se encolheu, abraçando o próprio corpo como um menino e baixando o olhar — Preciso pensar, preciso encaixar alguns fatos que não consigo.
— Você a terá essa tranqüilidade, assim que tudo isso acabar e creia, vai acabar. — O moreno beijou a testa do médico com carinho. Shaka fechou os olhos e suspirou; quando os abriu, fixou-os na janela da diretoria, percebendo que alguém os observava, mas não havia como saber quem era. Preferiu não comentar com Ikki, se afastou do moreno, entraram no carro e partiram.
-------Amor e morte----------
A equipe médica do Ross estava reunida discutindo algumas questões referentes a nova gestão.
- Phalke não veio para a reunião? – Perguntou Saga visivelmente preocupado com isso.
- Não, diretor. Ele ainda está se inteirando das coisas, achei melhor que não viesse. – Explicou Aiolia.
- Tudo bem. – Falou o diretor e se virou para o moreno que estava ao seu lado observando alguns papéis calado.
- Ele já sabe que o Shura é o novo chefe da cardiologia no lugar do Mu?
- Ainda não conversamos sobre isso. – Falou Aiolia, ele sabia que Shaka nunca simpatizou com Rafael Aguille Shura. O indiano sempre reclamou dos seus métodos e sua frieza profissional e ao que parecia a antipatia era recíproca. Vê-lo no lugar de Mu não seria nada agradável para o amigo, assim como não era pra si.
- Aiolia, quero que você fique pessoalmente responsável pela verificação das instalações da UTI pediátrica. Sei que não é sua função, mas também sei que vai adorar ficar um pouco ao lado do seu amigo Phalke. – Saga disse com ironia.
Aiolia balançou a cabeça rindo de leve.
- Não me comprometa, Vaskália.
- Eu não disse nada demais.
Shura ergueu uma sobrancelha e balançou a cabeça se erguendo.
- Se a reunião acabou, eu preciso sair agora, tenho muitas coisas a resolver.
- Muitas coisas a essa hora da noite? – Riu Aiolia e percebeu que os dois homens na sala trocaram um olhar furtivo.
- Sim, muitas coisas. Coisas importantes demais. – Disse Shura antes de sair batendo a porta.
-------Desejos vitais-------
O carro serpenteou pela ladeira e contornou a rua chegando à casa feita em madeira e pedra. Ikki acionou o portão da garagem com o controle remoto e entrou, parando o carro. Eles desceram, e o advogado aproveitou para acender a luz, caminhando a passos rápidos para a porta; entraria na casa se o loiro não o impedisse.
Virou-se para ele confuso.
— Tem alguma coisa errada... — sussurrou Shaka e apontou com o queixo para uma tênue luz que aparecia por baixo da porta — Tem alguém aqui...
O moreno balançou a cabeça negando.
— Podemos ter esquecido...
— Não, Ikki, tem alguém aqui. — Falou com mais veemência e segurou o braço do advogado.
Ikki estancou sentindo-se tenso e confuso.
— Volte para o carro e saia devagar... — sussurrou Shaka.
— Nem pensar, Shaka! Não vou deixá-lo aqui sozinho... — resmungou de volta.
O loiro o puxou pelo ombro em direção ao carro se agachando com ele ao lado da porta.
— Escuta, eles querem a mim e não a você, eu disse que era um risco desnecessário me ter aqui...
— Então vamos sair os dois e chamar a polícia, okay? — Pediu o moreno apreensivo.
— Ikki...
— Você não vai entrar lá sozinho, loiro, nem insiste!
Shaka retrucaria, mas a luz de uma lanterna passando por uma das janelas de vidro fez com que puxasse Ikki pra si e tapasse seus lábios. Com certeza os homens que estavam ali ouviram o barulho do carro e esperavam pacientes que eles entrassem. O loiro pediu silêncio ao moreno e escorregou na lateral do veículo, abrindo a porta do carro devagar.
— Entra e liga... — ordenou e empurrou Ikki de leve para que ele obedecesse; por mais que quisesse entrar naquela casa e descobrir quem estava por trás daquilo, não podia arriscar a vida do advogado.
Ikki obedeceu, entrou no carro e deu partida, vendo Shaka circundar o mesmo rapidamente e entrar. Pisou no acelerador ao tempo em que ouvia a porta se abrir e barulho de passos afoitos, Shaka olhava para trás, mas tudo era escuridão, era impossível ver qualquer coisa. O moreno puxou o celular e ligou para a polícia informando que sua casa tinha sido invadida.
— Para onde vamos? — Perguntou Shaka que não parava que olhar para trás, cada farol que se aproximava parecia uma ameaça.
— Eu tenho um lugar em que podemos passar a noite em segurança em Lowel.
— Lowel? Mas é muito longe! — Revidou o pediatra.
— Sim, eu sei, mas é o único lugar seguro. — Continuou o moreno guiando com apenas uma das mãos enquanto a outra discava outro número. Shaka esperou pacientemente até que a pessoa do outro lado da linha atendesse.
Milo Seferis havia acabado de chegar a casa depois de um dia estressante quando seu celular tocou, e ele viu o número do amigo na vida pessoal e rival na profissional.
— Fala, Ikki!
— Milo, o Camus está com você?
— Acabei de chegar e acho que ele deve estar no chuveiro, o que aconteceu?
— Preciso falar com o juiz Lefrève, é urgente!
O loiro riu e balançou a cabeça.
— Você sabe que o meu celular não é o mais indicado para falar com o juiz Lefrève, eu não tenho nenhum contato com ele.
— Milo! — Exasperou-se Ikki — É algo sério!
— Quantas vezes já pedi para que não misture as coisas, minha relação com o Camus está fora do tribunal, entendeu?
— Sim, sim, eu sei, mas é urgente e ele não atende o celular!
Nesse momento o ruivo chegou à sala vestido em um roupão azul.
— Quem é, Milo? — Indagou curioso.
O loiro estendeu o aparelho para o amante.
— O Amamiya, e parece bem estressado, quer falar com o juiz Lefrève... — Revirou os olhos em ironia, beijou o amante entregando o aparelho e saiu da sala, precisava de um banho.
— Sim, Ikki, é o Camus. — Falou tranquilamente — O que aconteceu?
— Camus, eu já lhe disse o quanto odeio seu amante?
— Já sim, mas em que posso ajudá-lo? — Continuou sem se abalar.
— Invadiram a minha casa...
O juiz ponderou a informação.
— Já ligou para a polícia?
— Sim, já avisei, estou ligando para dizer que estamos saindo da cidade...
Camus passou a mão no cabelo e se sentou no sofá.
— Estamos?
— Sim, Shaka e eu...
— Espera um pouco, Ikki, o que o Shaka tem a ver com tudo isso?
O moreno suspirou, não tinha jeito, se queria a ajuda de Camus, teria de contar tudo.
— Ele estava comigo, na minha casa.
O mais velho ficou calado por um tempo ponderando a informação, o que aumentava e muito a ansiedade do mais jovem.
— Ikki, você tem certeza que ainda pode agir de forma profissional nesse caso?
— Estou agindo, Camus, ele é meu cliente e é minha obrigação...
— Sua obrigação é defendê-lo em um tribunal e angariar informações que provem sua inocência! Ikki, por Deus, você está perdendo o controle! — concluiu Camus.
O advogado suspirou pesadamente.
— Camus, entenda, eu não quero envolvê-lo em nada disso, sei da sua posição e que precisa ser totalmente imparcial e distante, sei que você nem queria ser juiz nesse processo, levando em conta que Milo e eu estamos envolvidos nele; preciso apenas que o juiz Lefrève saiba que estou tirando o meu cliente da cidade por motivo de força maior.
— Ele saberá. — Falou o ruivo cansado — Ikki, por favor, tome cuidado com esse tal Shaka Phalke, ele não parece alguém confiável.
Ikki mirou Shaka por um tempo, antes de voltar a falar com Camus:
— Tomarei, obrigado. — Desligou o telefone.
Shaka que prestava atenção a conversa não se privou de interrogá-lo.
— O que ele disse?
— Que você é um perigo. — Ikki sorriu de lado e lançou um olhar malicioso para o loiro — Mas isso eu já sabia...
Ficaram calados por um longo tempo. O carro serpenteou pela rua estreita e o médico percebeu que eles chegaram ao limite da cidade. Suspirou cansado; provavelmente aquela seria uma noite bem longa.
-----Desejos vitais------
Ventava muito quando Shun saiu do departamento de polícia. Conversara com o investigador responsável pelo caso e o mesmo ficou de conseguir uma autorização para que entrasse na casa de Phalke e Gyatso. Ikki lhe informou que a venda do imóvel foi embargada e sabia que o mesmo estava sendo vigiado dia e noite para que ninguém tentasse violar as provas presentes ali. Mesmo a polícia tendo revirado todos os cômodos daquela casa, o agente achava que teria algo a descobrir ali. Sabia também que estava extrapolando os limites da sua função. Não deveria estar preocupado com o caso, sua função era investigar o ocorrido no presídio como corregedor, mas a vontade de investigar aquele assassinato o estava vencendo; alguma coisa não encaixava naquela história; o atentado ao médico, a morte do cardiologista, as ameaças que vinha recebendo.
Seguiu a passos rápidos pelo estacionamento vazio, olhando para os lados e colocando instintivamente a mão na arma dentro do coldre que levava na cintura, seus olhos verdes dançavam pelo lugar vazio, mas nada chamou sua atenção, então sua mente divagou por seus problemas pessoais, pensou em Hyoga e em Mime e em seus sentimentos divididos.
Tirou a chave e estava abrindo a porta quando escutou passos; parou o que fazia na mesma posição, sentindo descargas da adrenalina nas veias; não teve tempo de puxar a arma, alguém já estava muito perto de si e lhe segurou o pulso. Shun o golpeou com uma joelhada, mas logo percebeu que eram três homens treinados; tentou puxar a arma, mas recebeu um golpe na cabeça e caiu, sendo socado no rosto, cuspindo sangue. Foi arrastado para trás do carro e teve os pulsos e os tornozelos presos por lacres e um lenço foi colocado enrolado dentro da sua boca. Não soube quanto tempo ficou de bruços no chão, até que um dos agressores se agachou e puxou sua própria arma colocando-a contra sua cabeça e encarando seus olhos apavorados.
O bandido ficou muito tempo parado em silêncio o encarando até que colocou a sua frente uma mensagem escrita num pedaço de papelão com letras recortadas de jornais e revistas:
“Esse é o último aviso. Pare de mexer no que não lhe diz respeito ou fará companhia a Gyatso e em breve também a Phalke. Ah, lembrando, sabemos onde mora seu irmão e seu namoradinho... E, já que parece tão interessado no caso Phalke, que tal experimentar o mesmo que ele teve no presídio hein?”
Shun sentiu seu sangue congelar nas veias ao ler as últimas linhas do bilhete; seus olhos se arregalaram e seu grito foi sufocado pelo lenço enrolado dentro da sua boca, enquanto sentia sua calça sendo aberta e puxada pra baixo junto com a cueca, e as mãos envoltas em luvas tocando a pele exposta de maneira obscena. Contorceu-se, gritou, mas não havia muito que pudesse fazer para se livrar das mãos asquerosas em seu corpo. Sentiu o bafo gelado de a noite tocar seu rosto enquanto o escondia no asfalto úmido e bradava de raiva e medo. Não soube quanto tempo aquilo durou, mas sentiu suas roupas sendo novamente puxadas para cima e quando abriu os olhos, percebeu que os homens partiram e o deixaram ali daquele jeito, machucado e amarrado, sem condições de se erguer e nem chamar por ajuda. Estava muito frio e se ele passasse a noite ali corria o risco de uma hipotermia, mas isso não era o que mais preocupava o policial; em sua mente ele só pensava em alguma forma de avisar a Ikki e a Mime que eles corriam perigo; mirou o outro pedaço de papelão deixado em seguida pelos bandidos onde havia novas letras recortadas formando uma frase:
“Último aviso, o próximo é a morte...”
Continua...
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