Notas iniciais
Olá, meus queridos e sofridos leitores ! * Cora*
Sei que estou em dívida com vocês. Esse capítulo demorou muito, muito mesmo e peço desculpas. Estou realmente atolada de trabalho com filho (recém-operado), faculdade e trampo, por isso peço que tenham paciência com a Sion. Juro que termino todas minhas fics. Não sei como, mas termino. Espero que gostem desse capítulo que tem lemon para os pervos de plantão como eu hehehehe.
Perdoem os erros que SEI que tem pelo texto, mas está faltando tempo para escrever, se for fazer pente fino, não posto nunca, então conto com a compreensão de vocês.
Beijos a todos, obrigada e boa leitura!
Sion Neblina

Paixão

Capítulo 8



Ikki dirigiu por aproximadamente 300 km até chegar a um sítio isolado cercado de árvores altas. O advogado parecia preocupado e compenetrado em seus pensamentos e algo dizia a Shaka que alguma coisa tinha acontecido, embora ele não quisesse comentar. O indiano não era homem de puxar conversa somente para quebrar o silêncio. Convivia muito bem com o silêncio e não forçaria um diálogo.


– Aqui é bonito – falou por falar, quando eles entraram na cabana.


– Obrigado – respondeu somente.


– Faz bem seu estilo.


– É eu sei – replicou o moreno ainda de forma séria, enquanto estacionava –, Mas, infelizmente, não estamos à passeio, estamos fugindo.


– Bem lembrado — Shaka sentiu na pele literalmente o frio que fazia. Abraçou o corpo instintivamente quando desceu do carro. Era outono, e as madrugadas eram sempre frias nessa época do ano.


– Eh, doutor, aqui está um frio glacial, espero que tenha calefação! – disse descontraído, seguindo Ikki até a casa. O moreno abriu a porta e acendeu a luz. Shaka observou o ambiente elegante e aconchegante.


– Você paga tudo isso com o salário de advogado iniciante? – continuou provocando. Mais uma vez, o moreno não respondeu. Ikki jogou a mala na sala e caminhou para o pequeno bar, enchendo um copo de uísque, ainda em silêncio.


Shaka suspirou e se deixou cair no confortável sofá, estava cansado daquilo, o mais jovem não parecia mesmo disposto a conversar. Sabia que estavam em uma situação tensa, mas não esperava que Ikki fosse ficar com um humor tão ruim. Talvez fosse ele, Shaka, quem estivesse entorpecido demais para ficar nervoso com o que ocorreu.


Viu o moreno caminhar até o bar rústico e elegante e encher o copo novamente tomando em um único gole. Claro que ele estava tenso! Sua casa foi invadida, sua vida posta em risco.


O médico levantou-se do sofá e se aproximou dele, massageando-lhe os ombros. O advogado se apoiou no balcão e suspirou.


– Desculpe-me – pediu o loiro próximo ao seu ouvido – sei que estou pondo sua vida de cabeça pra baixo...


– Você é meu cliente, eu sabia no que estava me metendo – cortou se afastando.


Shaka o viu voltar para o sofá com o copo na mão. Suspirou vencido.


– Depois não diga que não tentei – resmungou. – Onde fica o meu quarto?


– Pode escolher o que quiser – falou o advogado quase num resmungo.


– Ótimo! – o loiro caminhou para o corredor e escolheu o primeiro quarto que era bastante espaçoso com uma cama imensa e um grosso tapete no chão. Revirou os armários a procura de alguma roupa limpa que pudesse vestir e achou um pijama marrom que com certeza pertencia a Ikki. Foi para o banheiro, tomou um banho demorado e quente, se vestiu e sentou-se na cama em posição de lótus para meditar. Há dias não meditava e sabia que precisava.


Ikki entrou no quarto e encontrou o cliente de olhos fechados, meditando. Sentou-se numa poltrona de frente a cama e ficou o observando atentamente, querendo desvendar o que havia por trás daquele homem misterioso e fascinante. Não precisou o tempo em que ficou ali sentando olhando enquanto o outro meditava e nem se dava conta da sua presença. Quando Shaka abriu os olhos e seus olhares se encontraram, foi tão forte que o moreno se sentiu corar, era como se estivesse invadindo o espaço do médico.


– Disposto a conversar agora, doutor Amamiya? – perguntou o loiro com sua calma peculiar.


– Somente se estiver disposto a me dizer o que está escondendo – tornou Ikki de maneira séria e incisiva.


– E quem garante que estou escondendo alguma coisa? – ironizou com um sorriso.


O advogado franziu a testa e cruzou os braços.


– Você vai insistir nesse jogo?


– Não há jogo, Ikki...


– Há jogo sim, Shaka, eu tenho quase certeza que aqueles marginais fizeram questão de sussurrar alguma coisa ao seu ouvido, algo sério, perigoso e que você não quer me contar. Alem do mais... – interrompeu-se e o mirou profundamente – eu acho meio estranho a calma com que tem aceitado toda essa situação. Pessoas invadiram minha casa, pessoas que estavam atrás de você, e isso não parece afetá-lo nem um pouco. Quem diabos é você, Shaka?


O loiro engoliu em seco, mas não desviou o olhar.


– Ikki... – começou com muita calma – tente apenas provar a minha inocência, certo? O que tiver de ser resolvido além disso, não é responsabilidade sua...


– O que quer dizer, que tentará fazer justiça com as próprias mãos?


– Não sou um justiceiro, apenas quero saber a verdade.


– Qual verdade?


– Quero saber por que o Mu precisou morrer – confessou e saiu da cama se ajoelhando ao lado da poltrona onde estava o advogado – E quero que entenda que eu não posso correr o risco de que você acabe... como ele...


Os olhos escuros do mais novo se abriram mais.


– Por quê? Acha que corro algum perigo?


Shaka se sentou na ponta da cama, de frente a Ikki o encarando nos olhos.


– O Mu me disse algo uma semana antes de morrer que pode ter alguma relação com o que aconteceu, mas eu não posso dizer o que foi, não insista... – sorriu com amargura – Aconteceu algo no Ross também, mas eu não posso contar, se eu pudesse contaria, eu juro...


– Se a morte do seu amante pode ter relação com isso é sua obrigação contar a mim e a polícia!


– Eu não vou fazer isso – murmurou cruzando os braços . – Eu mesmo resolverei. Do meu jeito.


Ikki suspirou pesadamente.


– Shaka, por deus, sou seu advogado, e qualquer segredo pode comprometer sua defesa, então, por tudo que é mais sagrado, me diga o que aconteceu?


O médico sabia que em algum momento teria que contar a verdade a Ikki, mas aquilo mexia tanto consigo, com sua auto-estima, com sua honra que ele não se sentia preparado ainda. O moreno o admirava tanto, isso era tão notório que tinha medo de perder aquilo por mais irracional que fosse.


– Quando voltarmos eu conto – declarou de uma forma que não dava margem a contestação – agora deite-se aqui ao meu lado, está frio...


Ikki deixou os ombros caírem conformado, era impressionante como Shaka conseguia vencê-lo.


– Vou tomar um banho e já volto.


– Ok, posso usar seu laptop enquanto isso? – perguntou mais alto porque o advogado entrava no banheiro.


– Sim, está na sala.


Shaka ergueu-se da cama e caminhou até a sala abrindo a bolsa do advogado e retirando o notebook. Sentou-se apoiando o aparelho no colo e conectou a internet fazendo uma busca rápida sobre o caso Gyatso Salwenn.


Fotos, matérias, fotos da cerimônia de cremação que ele não pode ir. Clicou para ampliá-las e tentar reconhecer os rostos ali presentes.


– Aguille, Vaskália... – murmurava pra si. Focou a atenção em um homem alto e corpulento que acompanhava de longe o que acontecia – Um dos homens de Manilla... – murmurou surpreso. Então o marginal estava solto na época do crime? Então... Ele foi plantado no presídio, plantado para...


– Shaka...


A voz de Ikki fez com que ele fechasse o laptop rápido, não sem antes apagar o histórico da internet. Guardou o aparelho e viu o moreno chegar à sala enxugando os cabelos, já vestido em um pijama que era uma calça azul e camisa branca de mangas longas e tecido fino que evidenciava o peito forte e os braços torneados.


– Estava vendo umas bobagens na internet – disse se erguendo. – Estou com fome, tem alguma coisa aqui pra comer?


– Deve ter algo na geladeira, não tem muito tempo que estive aqui...


– Com o Hyoga – completou Shaka com um sorrisinho indiferente.


– Sim, com o Hyoga – falou Ikki tranquilamente indo para a cozinha e abrindo a geladeira –, você é ciumento?


– Mu sempre me acusou de ser... dominador... – recostou-se ao batente e cruzou os braços com um sorriso irônico. – Ciumento? Acho que não...


– E por que sempre fala do Hyoga com essa ironia fingida?


Shaka riu de leve.


– Fingida? Não, minha ironia é bem sincera, doutor, mas não se preocupe, eu não sofro de crises agudas de ciúmes, mesmo que não seja agradável estar na casa que há pouco tempo você dividiu com... seu ex.


O mais jovem tirou uma bandeja da geladeira com alguns frios e patê, colocando-a sobre a mesa.


– Okay, vamos às confissões: eu também não gosto de ouvi-lo falar tão apaixonadamente do seu ex, se quer saber. Espero que isso sirva até amanhã... – emendou a conversa.


Shaka balançou a cabeça.


– Não falo de forma apaixonada...


– Você acha que não — Ikki deu de ombros.


– Não serve, você sabe que eu não como carne – Shaka disse, antes de virar nos calcanhares e caminhar para sala, fugindo a uma discussão desnecessária.


Ikki mordeu os lábios para não fazer a pergunta que queria: desde quando salame, presunto e queijo eram carne?


– Só tem isso, loiro!


– Não se preocupe, não vou morrer de forme em uma noite – falou sorrindo, mas percebeu que o advogado empalidecia e segurava mais forte na mesa rústica. Voltou a se aproximar dele – algum problema?


Os olhos escuros se voltaram para ele preocupados.


– Algum problema? – repetiu e colocou a mão em seu ombro para apóiá-lo.


– Tive uma sensação ruim...


– Isso acontece sempre?


– Não. Todas as vezes que aconteceu... – interrompeu-se e saiu da cozinha praticamente correndo atrás do seu celular. Discou o número aflito.


— Ikki, o que está acontecendo? – perguntou Shaka curioso.


— Meu irmão, todas as vezes que isso aconteceu, algo ruim acontecia a ele.


O advogado esperava aflito o telefone ser atendido, mas esse chamava até cair na caixa. Desistiu de tentar o número de Shun e discou o de Shiryu que atendeu depois de um tempo.


— Shiryu, sou eu, Ikki, você sabe do Shun?


O agente estava deixando o prédio da corregedoria naquele momento e andava tranqüilo pelo estacionamento. Estranhou o tom aflito do advogado.


— Olá, Ikki, o Shun me disse que sairia da cidade hoje, aconteceu alguma coisa?


— Eu não consigo falar com ele, Shiryu, estou preocupado. Sairia da cidade? Pra onde?


O policial estancou o passo e franziu a testa. Percebeu que havia falado demais.


— Olha, não se preocupa, eu vou tentar localizá-lo pelo GPS e volto a entrar em contato, certo? – falou ignorando a pergunta do Amamiya mais velho.


— Certo, Shiryu, obrigado, assim que conseguir, pede para ele me ligar, okay?


Ikki desligou o telefone e se sentou no sofá com o queixo apoiado em uma das mãos.


O loiro se aproximou e massageou seu ombro.


— Eu costumo dizer que preocupação nunca evitou problemas — sussurrou calmo continuando a massagem —, seu irmão está bem.


— Como sabe?


— Não sei, mas intuo que esteja.


— Só ficarei tranqüilo quando ele me disser isso, quando ele atender esse maldito telefone!


Shaka suspirou.


— Calma, deixe ao menos seu amigo ligar.


— Tenho que voltar a Boston, Shaka, sei que alguma coisa está acontecendo com meu irmão...


— Calma, Ikki, espere seu amigo ligar, sair louco dessa forma não vai levá-lo a nada, além do mais você só chegaria lá pela manhã, é um risco desnecessário.


O advogado ponderou o que o médico dizia e se calou. Talvez ele tivesse razão.


— Tudo bem... eu vou comer alguma coisa e dormir, se você quiser pode ficar fuçando os arquivos do caso até mais tarde.


Shaka riu e revirou os olhos.


— E eu achando que poderia enganá-lo.


— Não pode — o encarou sério. — Mas pensando bem, mudei de idéia; vou preparar um café e vamos conversar, Shaka Phalke, e não será amanhã e nem depois, será agora!


— Ikki...


— Se você insistir em continuar escondendo as coisas, só tenho uma alternativa, loiro...


Shaka cruzou os braços e sorriu com ironia.


— E qual seria, doutor?


— Voltaremos para Boston e eu comunicarei ao juiz Lefrève que estou deixando o caso. Você escolhe.

*** Desejos vitais** Amor e morte***


Shiryu saiu do carro e puxou sua arma, enquanto andava com cuidado pelo estacionamento deserto. Enxergou o carro do amigo com a porta aberta e correu em sua direção procurando com os olhos alguma pista de Shun. Quando chegou ao veículo entreabriu os lábios surpresos.


— Shun! – exclamou ao ver o agente preso e amordaçado ao lado do carro – O que aconteceu?


O policial mais novo ergueu a cabeça sentindo um zunido nos ouvidos e a visão turva, mas conseguiu visualizar o rosto do amigo. Shiryu se agachou ao lado dele e puxou o lenço de dentro da sua boca. Shun tossiu um pouco, sentindo o gosto do sangue.


— Shiryu... eu achei... achei que fosse morrer aqui... – murmurou ofegante e se sentindo estranhamente sonolento, fechando os olhos.


— Ei, não durma, Shun! – pediu o mais velho começando a cortar os lacres que prendiam os braços e pernas do mais novo com um pequeno canivete, verificando que os lábios e as pontas dos dedos dele estavam roxos – Precisa ficar acordado, vamos!


— Eu estou bem, estou bem só... congelando... – continuou Shun tremendo.


Shiryu o puxou pra si com cuidado.


— Vamos para o meu carro, eu vou levá-lo para um hospital – falava enquanto tirava o casaco e envolvia os ombros do amigo. Shun se deixou guiar cambaleante para o carro do amigo. Shiryu ligou a sirene e eles saíram a toda velocidade daquele lugar. Uma hora depois, o Amamiya mais jovem era atendido na emergência de um hospital, estava sentado em uma maca, ao lado de Shiryu, enquanto uma enfermeira cuidava do corte em sua boca.


— Shi, você mandou a perícia ao estacionamento? Quero que recolham os bilhetes que foram deixados, quero ter a chance de examiná-los depois – falou Shun fazendo uma careta de dor quando a mulher se afastou.


— Já pedi sim, Shun, mas agora não é hora pra se preocupar com isso – disse o outro agente. – Você precisa descansar e precisa aceitar proteção.


O mais jovem suspirou e negou com a cabeça.


— Eu tinha dito que deixaria a cidade hoje, Shi, e é isso que farei. Retorno amanhã se tudo der certo e resolveremos isso. Mas não vou mudar meus planos.


O mais velho o mirou incrédulo.


— Shun, você tem noção do que aconteceu? Do que poderia acontecer a você?


O mais novo sorriu dócil.


— Creia, poderia ter acontecido coisas piores, mas no final não aconteceu nada — falou com firmeza. — Você mandou os policiais para a casa do Ikki e do Mime?


— Sim, uma viatura está de plantão na frente do prédio do Mime, mas Ikki não está em casa, parece que saiu da cidade.


O Amamiya mais novo ficou pensativo por um tempo, mas logo balançou a cabeça negando os pensamentos. Tocou o queixo machucado e passou a língua no corte que possuía nos lábios. Doía, mas aquilo não o impediria de fazer o que precisava.


— Você levou um golpe forte no queixo, está machucado... — observou Shiryu com preocupação — não acha melhor descansar um pouco?


— Já tirei os devidos raios X, está tudo bem. Eu volto amanhã, Shi, e quero essa evidências em minha mesa.


— Shun, por Deus, como você é teimoso!


— Mal de família — riu.


— Em falar em família, melhor você ligar para o Ikki, ele estava preocupado.


— Sim, farei isso. Você pediu para alguém buscar meu carro?


— Sim, ele já está no estacionamento do hospital — respondeu Shiryu incrédulo e cansado — o que pretende?


— Ir até Vermont e voltar amanhã para cuidar do meu caso, okay?


Shiryu encarou o amigo.


— Você tem certeza?


— Não. Não tenho nenhuma certeza, Shi, mas é o que vou fazer.


O mais velho respirou fundo e deu de ombros.


— Certo. Acho que posso segurar o que aconteceu até amanhã, mas por favor, Shun, que não passe disso ou eu terei que comunicar os fatos.


— Eu te amo, Shi! — falou o mais jovem pulando da maca e fazendo uma careta ao sentir o queixo latejar — Ai... ainda bem que não tem nenhum dente quebrado, eles bateram com vontade!


— Você é louco, cara, completamente louco!


Shiryu disse e Shun riu. Depois que o mais jovem assinou a alta, ambos deixaram o centro médico. Shun entrou em seu carro e pegou a estrada. Não negava que estava assustado, mas se havia decidido encontrar Hyoga naquele dia, não deixaria que nada o atrapalhasse, nem mesmo uma ameaça clara de morte.


*** Desejos vitais** Amor e morte***


Shaka observou a noite escura. Não conseguia ver absolutamente nada fora da cabana, nenhuma luz. Sentia-se assim, como se estivesse em um quarto escuro e não conseguisse achar a luz.


“Mu, querido, me ajude a descobrir o que você tentou falar comigo naquele dia?”


Conversou em pensamentos. Desde que o perdeu era uma constante se pegar num daqueles diálogos imaginários. Mas antes isso era mais corriqueiro, na solidão do cárcere era fácil conversar com um fantasma, mas não na presença dominadora do advogado Ikki Amamiya.

“Você sempre me acusou de me controlar demais, de pensar demais de ser frio demais. Ah, Mu, eu queria ser metade do que você me julgava. Eu sou fraco, tolo... Estou apaixonado por ele, justo por alguém totalmente tempestuoso, alguém tão diferente de mim, tão diferente de nós...”


Lembrou-se dos anos passado no Tibet, às coisas eram tão diferentes da realidade estressante de Boston, do dia a dia de um grande hospital... Por que voltaram? Por que insistiu para que ele voltasse?


Dizem que o homem sempre está pronto a seguir seu karma e, se aquilo fosse verdade, Mu já sabia o que aconteceria, talvez não conscientemente, quando deixou o Tibet, aceitando voltar aos Estados Unidos.


“Eu não sei o que fazer, Mu, eu... eu sei que me envolver com ele é colocá-lo em perigo, hoje a casa dele foi invadida e... embora eu não saiba o que essas pessoas querem de mim, querem de nós... ainda assim é minha culpa.”

Afastou-se da janela para mirar o homem que dormia na cama. Ele finalmente havia conseguido adormecer depois de falar com o irmão pelo telefone e ter certeza de que o mais novo estava bem. Ikki parecia exausto, tão indefeso dormindo. Com as feições suavizadas pelo sono, ele não passava de um garoto. Engoliu em seco. Estava com medo, estava com medo de envolvê-lo demais em sua vida, porque se sentia perdido e não sabia se o que vivia tinha relação com o presente ou o passado. Ainda assim... Era impossível não envolver-se.


Ele, Shaka, ainda era jovem, sim, era jovem, mas possuía um passado tão intenso que alguns acharia fantasioso. Todavia, achava que aquele passado estava morto e que nunca poderia trazer algo de ruim. A morte de Mu o confundia, o confundia porque não conseguia ligar os fatos.


Pegou o celular de Ikki que estava sobre a mesa e saiu do quarto, discando rapidamente um número. Três toques e a pessoa atendeu.


— Preciso encontrá-lo...


— Quando?


— Amanhã as 13 horas no centro de Boston.


— Okay.


Deixou o telefone cair com o susto quando sentiu os braços do moreno enlaçando-o pela cintura. Ele era rápido e muito perceptivo.


— Você não sente sono, loiro?


O coração de Shaka batia tão acelerado que ele retirou mentalmente tudo que pensara antes; estava velho, velho e mal treinado, ao contrário não sentiria aquilo.


— Eu... eu só estava pensando...


— E fazendo uma ligação? — indagou o mais jovem com ironia.


“Espertinho... Hum... mas que advogado não é?” Pensou.


— Sim.


— Pra quem?


— Um velho amigo.


— Não sabia que tinha amigos, além daquele médico ninguém o procurou. Aliás, é estranho que não possua amigos, família, um passado...


— O que quer dizer? — Shaka se desvencilhou dos seus braços para encará-lo.


Ikki o mirou com um olhar enigmático, depois caminhou e tirou uma ficha da bolsa entregando ao médico. Shaka abriu a pasta de papel e observou suas informações pessoais.


— Qual o problema com meus dados? — indagou com ironia jogando a pasta no sofá.


— Nenhuma, tudo em perfeita ordem. Perfeita até demais.


— Seja claro, doutor Amamiya, eu não gosto desse tipo de conversa — advertiu irritado.


— Estou sendo claro. Sua ficha é perfeita demais, extremamente perfeita, quem a criou foi muito eficiente, só que tem um detalhe...


— Qual?


O advogado pegou a ficha novamente e a abriu ficando ao lado do loiro.


— Perceba que há um padrão cronológico para todos os eventos até 2000, e depois daí tudo acontece sem um padrão, mas com regularidade, com uma normalidade maior o que me levou a crer que até o ano de 2000 todas essas informações foram criadas propositalmente para serem perfeitas.


O advogado se afastou e jogou a pasta novamente no sofá, sentando-se ao lado dela e cruzando as mãos atrás da cabeça.


— Sabe o mais engraçado? — perguntou a um Shaka mudo e não esperou que ele respondesse — É que percebi os mesmos problemas na ficha do seu amante morto. E então? Vai começar a me falar a verdade?


O loiro passou a mão nos cabelos e sorriu de canto. De certa forma, estava orgulhoso pela perspicácia do advogado, mas com medo de que aquele passado viesse à tona.


— Essa ficha não é falsa, mas algumas datas foram mudadas por mim, tanto a minha quanto a do Mu — disse cruzando os braços — precisávamos dos dados para entrar na faculdade e não queríamos que um fato do nosso passado fosse divulgado.


— Qual fato?


O loiro se sentou ao lado dele afastando a pasta.


— Mu e eu fazíamos parte de um projeto do serviço secreto — explicou olhando dentro dos olhos do moreno — , isso é confidencial...


— Mas eu tenho que saber – Ikki exasperou-se. — Chega de segredos, Shaka, sua vida e talvez a minha também esteja em jogo!


Viu que o loiro hesitou. Era um bom advogado e sabia usar as palavras certas no momento certo. Naquela noite, sentia que Shaka estava especialmente mais vulnerável, então era o momento de “atacar”.


— Entramos para o serviço secreto quando saímos do colegial – o loiro em fim falou -, na verdade havia 10 de nós, todos foram treinados para atuar como agentes da CIA em países onde houvesse alguma espécie de agitação política. Tínhamos entre 18 e 20 anos. Mu e eu nos conhecemos nesse projeto...


— E o que aconteceu?


— Depois de três anos nossa unidade foi desativada, é só o que sei. Fomos dispensados e seguimos nossa vida de forma normal. Recebemos um bom dinheiro para recomeçar e nossos nomes foram apagados dos arquivos secretos da CIA. Nós dois resolvemos fazer medicina, depois que nos formamos na universidade, fomos para o Tibet e passamos dois anos trabalhando como voluntários, então...


O advogado sentiu que era doloroso para o cliente prosseguir e percebia que Shaka estava sendo sincero. Tocou-lhe o ombro para lhe dar forças.


— Eu que pedi pra voltar — confessou o loiro dolorido —, o Mu preferia ficar no Tibet, era onde estavam todos que ele amava, mas ele resolveu me seguir e acabou morrendo... É só isso, esse é todo meu passado.


— A culpa não é sua. Acho que algo pode estar relacionado ao passado de vocês, algum desafeto... — Ikki tentou consolá-lo.


— Não. Creia, não tínhamos desafetos, éramos apenas funcionário que cuidavam de casos simples. A CIA observa tudo que acontece no mundo o tempo inteiro e nós levávamos apenas essas informações. Éramos sim muito bem treinados, porque precisávamos nos defender, afinal observávamos insurreições contra governos, manifestações de esquerda, líderes carismáticos, mas nada que fosse realmente perigoso. Não éramos James Bond’s, éramos meros observadores, como se fossemos jornalistas, só que pagos pelo governo.


— Então você tem absoluta certeza de que a morte do Mu nada tem a ver com esse passado?


— Tenho, mas mesmo assim — olhou para o celular —, liguei para alguém que pode me confirmar isso. Meu único contato com a CIA.


— Poderia ter me dito isso antes...


— Não, não poderia. Estou dizendo agora porque sei que você acabaria descobrindo sozinho e a CIA não gosta de curiosos.


Ikki o encarou nos olhos por um tempo e depois puxou-o pra si, beijando seus lábios de leve, enquanto seus olhos se encontravam.


— Eu quero muito acreditar em você...


— Pode acreditar, eu não minto nunca... — sorriu ainda com os lábios colado aos dele, enquanto olhava dentro dos seus olhos.


— Shaka, tem noção de como o quero?


O loiro assentiu com a cabeça e segurou o rosto moreno, mordiscando os lábios carnudos até que eles cederam e se abriram para o acesso de sua língua.


O beijo começou muito calmo, ambos mantinham o controle, mas estava frio, e os corpos exigiram pelo contato das peles o que mudou a situação. As línguas passaram a se tocar com mais ansiedade e desejo, pequenos gemidos começaram a escapar da garganta dos dois, os rostos coraram, os olhos exibiam pupilas dilatadas que se fitaram para ter certeza do que tencionavam fazer.


Os dedos longos de Shaka experimentaram os músculos de Ikki sobre a camisa do pijama que ele usava, as mãos de Ikki exploraram a nuca do loiro, causando arrepios em sua pele. Shaka ergueu a camisa do moreno e o ajudou a se livrar dela a puxando por cima da cabeça, interrompendo o beijo momentaneamente para voltar a beijá-lo em seguida.


— Tá frio... — falou Ikki rindo de leve enquanto mordiscava os lábios do amante.


— Vamos para o quarto, eu ligo a calefação... — sussurrou Shaka o puxando com cuidado pelo braço para o quarto, andando de costas, sem parar os beijos, entrando no quarto onde o aquecedor já estava ligado.


Estava disposto a deixar acontecer naquela noite. Estava cansado de fugir e tal negação estava lhe causando um estresse com o qual não estava acostumado. Como dissera alguém há muito tempo atrás: a melhor forma de se livrar de uma tentação era ceder a ela, e ele deixaria acontecer...


Caíram sobre a cama ainda trocando um beijo molhado e intenso, as mãos se concentravam em acariciar intensamente as peles. Ikki afagava a cintura de Shaka que enfiava os dedos em seus cabelos, massageando sua nuca. Beijaram-se até o cansaço, e sentirem necessidade de afastar os lábios para respirar.


— Adoro o gosto da sua boca... — murmurou o loiro enquanto mordicava a orelha do moreno que gemeu de leve e sorriu.


— Também adoro o gosto da sua — falou enquanto livrava o médico da sua camisa, Shaka não opôs resistência, deixou que ele o fizesse e passou a língua nos lábios secos quando sentiu os dedos macios de o advogado passearem por sua pele com quase reverência. O moreno voltou a provar da boca carnuda, enquanto buscava um contato maior entre os dois. Shaka afundou os dedos nos fios revoltos da nuca de Ikki, mordiscando seus lábios, deixando-se cair sobre ele na cama, repetindo o quanto o queria...


Ikki gemeu mais forte quando os lábios quentes deixaram os seus e desceram por seu queixo másculo, chupando e mordendo, alcançando o pescoço que teve o mesmo tratamento e onde ele se demorou brincando entre a curva que levava a orelha e o lóbulo; rindo de leve com a forma que a pele amorenada se arrepiava com o toque da sua língua. Roçou os lábios de leve, experimentando os mamilos que ficavam mais duros a cada passagem da sua língua. Ouviu o moreno gemer mais alto e gostoso ao mordiscar um deles, avermelhando a pele. Passou a distribuir beijos e lambidas pela barriga malhada, lançando um olhar malicioso ao advogado que, sentindo-o se deter em seu umbigo, abriu os olhos encarando os orbes quase totalmente negros do médico.


— Não me lembro de vê-lo malhando... então de onde vem essa barriga perfeita? – perguntou o loiro enquanto beijava cada gominho da barriga do moreno.


— Genética — respondeu Ikki, e Shaka subiu novamente para beijar-lhe a boca. Saboreando todos os recônditos de forma sensual. Ikki deixou-se levar pela experiência e astúcia daquele homem lindo, mergulhando em seus lábios e bebendo deles como se fosse um néctar dos deuses. Quando suas pupilas dilatadas se abriram, encontraram o olhar pleno de desejo do loiro. O advogado sorriu, o médico também.


— Então o que vai ser? — indagou Shaka passando a língua nos lábios.


Ikki se retorceu um pouco na cama, incomodado com a falta de contato, virou-se de leve na cama e abriu uma gaveta tirando dela um preservativo e mostrando ao loiro que sorriu, aprovando a atitude responsável.


— Deixa rolar... — respondeu com a voz enrouquecida e empurrou Shaka na cama. O médico caiu sobre os lençóis. Seus cabelos se espalharam e ele ofegou enquanto o moreno terminava de despi-lo com cuidado e sensualidade. Shaka continuou o mirando com lasciva, sentindo o corpo pulsar de excitação enquanto ele o despia. Agarrou-se aos lençóis com força quando Ikki abriu a camisinha e, sem nenhuma cerimônia, começou a vesti-la nele com a boca...


Shaka gemeu e se arrepiou inteiro. Cravando os dedos nos lençóis e sentindo o roçar perturbador dos lábios moreno enquanto fazia o látex lubrificado descer por seu sexo.


— Está tentando me enlouquecer, doutor... — gemeu; a voz rouca e entrecortada.


— Minha intenção é exatamente essa... — falou o moreno subindo no corpo dele e experimentando os mamilos rosados com a língua quente, fazendo Shaka gemer baixo e arquear levemente o corpo. O médico se inclinou e em um impulso derrubou o advogado na cama, prendendo-o sob si. As mãos hábeis começaram a afagá-lo com intimidade, como se já fossem amantes há muito tempo. As mãos de Ikki apertaram seus ombros e ele gemeu se remexendo sob o corpo delgado do loiro. Shaka se encaixou entre suas pernas musculosas, mergulhando dentro dele. Sentiu o advogado arfar e morder os lábios e permitiu-se mover-se devagar, com cuidado, enquanto seus olhos se encontravam.


Houve o silêncio. Era como se o tempo estivesse parado enquanto as íris úmidas diziam mais que as palavras. Shaka sentiu uma sensação única de pertencimento e Ikki também. Algo que ia além do sexo, algo que era intenso como nenhum dos dois nunca sentiram e do qual sempre tiveram medo de experimentar.


O loiro mergulhou mais fundo e o moreno gemeu mais alto, apertando seus ombros e movendo o quadril para facilitar a entrada em seu corpo. Não era fácil, nunca foi, e geralmente não era como se sentia mais à vontade. Entretanto, naquele momento era exatamente onde queria estar e estava a vontade e pleno como nunca.


Ambos gemeram alto quando a velocidade dos movimentos aumentou, o corpo do moreno aceitando melhor a invasão do membro viril do loiro. Shaka entrava e saía com mais intensidade, incentivado pelos movimentos do quadril moreno e por seus gemidos de prazer.


Ikki retesou os músculos e gemeu alto quando se sentiu tocado no fundo. Um prazer imensurável consumiu todos seus poros de um fogo inimaginável, e ele puxou Shaka pela nuca para um beijo intenso, enquanto seu corpo vibrava como cordas na viagem orgástica que empreendia junto à pele alva do médico.


Shaka fechou os olhos e gemeu alto, jogando a cabeça para trás, fazendo seus cabelos longos se grudarem às costas suadas, enquanto derramava seu sêmen sem parar os movimentos intensos, totalmente tomado pelo desespero e magia do gozo até que seu corpo completamente relaxado se deixou cair sobre o peito forte e definido do moreno que ele beijou várias vezes.


Ambos riram, satisfeitos e envolvidos, voltando a se encarar. Seus olhos demonstravam um envolvimento profundo, algo que preenchia o peito de uma agonizante felicidade.


— Agora está quente... — murmurou o moreno mordiscando o queixo delicado do loiro que riu mais abertamente.


— Você reclama de tudo, doutor — falou saindo de dentro dele, vendo o mais jovem fazer uma careta de incomodo.


— Precisando de um médico? — provocou se deitando sobre o peito forte e mordiscando-lhe o queixo também. Sentia-se leve como há muito tempo não sentia e... por que não dizer? Estava apaixonado.


— Chato... — murmurou Ikki e o puxou para um beijo. Shaka se aconchegou em seus braços e fechou os olhos. Sentia uma grande paz ali, era como se os braços de Ikki fossem o seu lugar, o lugar onde deveria estar sempre. Mas antes que pudesse se entregar totalmente, precisava se redimir de todos seus erros e pagar em fim a sua dívida com Mu. Só assim estaria realmente livre.

Ainda conversaram um pouco e trocaram carícias carinhosas por um tempo. Depois, percebendo que mesmo com o frio estavam suados, tomaram um banho quente e se vestiram nos pijamas. Shaka se agarrava a Ikki rindo, dizendo que estava congelando e o moreno o provocava falando que aquilo era porque ele tinha pouca massa corpórea.


Estavam alegres, falantes, mas evitavam conversar sobre sentimentos, planos e o futuro. Aquilo poderia estragar o momento e eles não queriam. Entre risos e provocações, adormeceram abraçados.


Quando o dia começava a amanhecer, o advogado abriu os olhos sentindo a claridade invadir o quarto e o perfume de pinho que vinha do bosque seguir a brisa que entrava pela fresta das janelas.


Sentou-se abruptamente na cama, olhando para os lados ao perceber que estava sozinho. Chamou pelo médico, mas não houve resposta. Shaka não estava na cabana.


Continua...

Notas finais
Woh! Dessa vez eu quis um lemon diferente do que faço usualmente e não achei que ficou grande coisa, mas bem, eu quis o Shaka seme dessa vez rsrsrsrs, alguns gostam outros não, para mim a ordem dos tratores não altera o viaduto e aqui quis fazer a coisa diferente do que faço geralmente. Espero que não tenha ficado tão tosco hehehehe ** cora***
É... e essa história de Cia hein? Será que tem alguma coisa a ver com a morte do Muzinho? Hum... eu acho que tento esclarecer e acabo é complicando mais as coisas hehehe. Vamos ver no que isso vai dar.
Beijos a todos os meus leitores pacientes *** lalálá***, os silenciosos, os barulhentos, os frios, os emotivos, em fim todos!
Mas sempre um super beijo para aqueles que fazem uma autora baka feliz e deixa um comentário que não dói nem nada XD! São minhas flores listadas abaixo:
Larrissa_Traum, JuHaruno, MysticShaka, virgo nyah, Maya Amamiya, ddd, darkyumi, Litha_chan, Hannah Elric, Patysinha, Alexia-Black, Kao-san, Keronekoi.
Amo muito todos vocês e obrigada sempre!!!
Sion Neblina
Postado em: 27/10/2011