Desejos Ocultos

5 Capítulo 5 REVELAÇÕES...


Notas iniciais
Mais um capítulo, espero que gostem! Bjs e bom feriado!

Uma sutil rigidez denunciou a tensão de Afrodite. Shura permaneceu encarando-o, as pestanas negras emoldurando aqueles olhos profundos e astuciosos que faziam Afrodite perder a respiração.

– Por Deus, senhor Shura, não! Creio que está cometendo um engano em achar que...

– Que acabou de sair de um bordel?

– Não, que tenho um amante.

Shura engasgou. Não estava preparado para aquela resposta. Uma emoção impossível de definir desfilou pelo belo rosto viril. Surpresa, talvez ou... esperança e até uma nota de desafio.

E então, inesperadamente, um sorriso autêntico distendeu seus lábios.

– Entendo. Quer dizer que é livre para aventurar-se disfarçado num bordel... Diversão para alguém que já possui tudo, então?

– Minha vida e meus atos só dizem respeito a mim. – ele respondeu sério, perturbado pelo sorriso que se mostrava malicioso como nunca o fora, quase predatório.

– Perdoe-me, estou sendo indiscreto. – disse Shura ficando sério e posicionando-se para dirigir a carruagem.

Apesar de sentir o coração galopar no peito, Afrodite se manteve com uma expressão fria e inacessível. O espanhol não era tão ingênuo quanto ele pensava. Era igualmente rápido em raciocinar e juntar fatos. Um homem bastante perigoso, à sua maneira...

– Podemos ir! – disse por fim, Afrodite e abriu o leque tentando organizar suas ideias.

Com um suspiro, Shura colocou a carruagem em movimento, enquanto seus pensamentos desfilavam, freneticamente. Tinha sido precipitado e agora, arriscava perder a amizade daquele que trazia prazer aos seus dias. Não era afeito a jogos de sedução e flertes que via acontecer na corte, porém precisava tomar uma atitude ou se sentiria um imbecil.

Olhou para Afrodite que permanecia olhando a paisagem noturna com o rosto encoberto pelo leque. Conforme corria os olhos pela pele perfeita, sentiu-se sorrir de leve. Aquele homem era mesmo uma perdição para os olhos e para todos os outros sentidos...

Parou a carruagem, o que fez Afrodite olhá-lo. Em silêncio, aproximou-se dele tocando- no rosto.

Afrodite experimentou um arrepio.

– O quê...? – disse o loiro fixando os olhos nos olhos negros.

– Perdoe-me, mas... preciso confessar que o senhor me perturba. Não sou afeito a jogos e nem sou um expert em conquista. Também não sou nobre, por isso, jamais ousaria constrangê-lo. Então, peço que não leve a sério minha indiscrição e continue sendo meu amigo.

Afrodite estava apavorado. Para onde fora o homem tímido e cordato? O inofensivo amigo que conversava sobre todos os assuntos e nunca tocara em nada pessoal? Este homem direto, determinado e ousado era inesperado e... excitante!

– O-Ora, senhor Shura... sabe que aprecio a sua companhia e jamais deixaria uma pequena bobagem interferir em nossa amizade. E quanto a não ser um nobre... isso não é importante.

– Vivemos em uma sociedade cruel, senhor Afrodite. Sei muito bem que as origens de um homem fazem a diferença na corte. Não quero que esteja sujeito à mexericos por minha causa.

Afrodite sorriu mais abalado que gostaria de admitir. Aquele homem mexia com as suas emoções como nenhum outro era capaz. Até mesmo Saga que fora um de seus primeiros amantes, satisfazia-o no corpo, mas não tocava seu coração, nem insuflava seus sentimentos mais profundos.

– Agora sou eu quem deseja fazer uma pergunta pessoal, senhor Shura... Gostaria de passar a noite comigo?

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Madame Walmot havia mandado construir um pequeno ringue, onde os clientes, rapazes e cortesãs se acomodavam em cadeiras confortáveis para assistir ao espetáculo.

As regras eram claras, nada de violência como socos e chutes. Apenas, o ato de imobilizar o adversário que tinha até um minuto e meio para tentar escapar. Depois desse tempo, se não conseguisse, era dado por vencido e o campeão era anunciado.

No centro, os dois lutadores da noite usavam apenas uma espécie de calção justo de lã fina, o que deixava vislumbrar o volume dos genitais e o torneado das coxas. Uma ideia implantada, também pela cafetina que gostava de sugerir erotismo em tudo o que planejava dentro da sua casa.

Antes do início do espetáculo, eram queimados incensos em turíbulos, estrategicamente colocados para imprimir uma atmosfera de mistério, assim como para encobrir cheiros indesejáveis da gordura usada e, logo após o início da luta, do suor masculino...

– Tem certeza que preciso disso? – perguntou Milo fazendo uma careta quando Aldebaran passava banha de ganso em suas costas e em seu torso.

– Quanto mais escorregadio, menos chance dele encaixar um golpe em você. – respondeu Aldebaran.

– Argh! Isso fede! E meus cabelos vão ficar sebosos.

Aldebaran riu. – Mas é claro que fede! Esperava o quê? Perfume francês?

– Ora... então é você que será meu adversário... – disse uma voz grave, acompanhada de um sorriso malévolo interrompendo a conversa entre Milo e Aldebaran.

– Sim, Kanon, sou eu e espero que você tenha mais sorte no ringue que na mesa de carteado. – respondeu Milo, também sorrindo.

Kanon ficou sério. Era sabido e notório que era viciado no jogo de cartas e apostava alto. Não raro, perdia fortunas o que exigia a intervenção de seu irmão gêmeo, Saga.

Mesmo sendo um sedutor reconhecido, Saga possuía uma reputação de ser responsável na condução e manutenção da fortuna da família. Kanon era, por assim dizer, a ovelha negra do rebanho, o belo gastador e irresponsável que sempre acabava nas mesas de jogo.

– Tudo é um jogo, Milo... Mas, sinto dizer que não sou um novato em relação ao esporte. Ao contrário de você que passa seus dias paparicando um caipira francês!

Milo sorriu, embora sentisse vontade de ir contra as regras e esbofetear Kanon.

– Verdade, Kanon...Porém, paparicar um homem que trabalha tem as suas vantagens, deixa-me longe da convivência com otários e perdedores!

Os olhos de Kanon cintilaram e o sino soou. O juiz era o próprio Aldebaran que os chamou ao centro e explicou as regras. A luta teve início com Kanon lançando-se sobre Milo tentando derrubá-lo.

Milo resistiu abaixando-se o suficiente para agarrar-se à cintura de Kanon. Foi o seu primeiro erro. Kanon jogou seu peso em cima de Milo, caindo por cima dele e tentando a técnica do estrangulamento.

Graças à banha de ganso, os dois não tinham muita firmeza ao encaixar os golpes e Milo escapou escorregando por baixo do corpo de Kanon. A pequena plateia foi ao delírio, porque neste escorregar, ambos os lutadores tinham seus corpos expostos.

As cortesãs suspiravam e se abanavam com os leques, os jovens também, embora um tanto mais lânguidos, cada um imaginando o que aconteceria se estivessem naquela posição e em outro momento...

Kanon era mais musculoso que Milo, porém a constituição do reconhecido devasso não deixava nada a desejar. Seu corpo era esguio e bem proporcionado. As coxas e nádegas eram roliças e, expostas daquele jeito, fazia antever como deveria ser entre os lençóis...

Após quarenta minutos de tentativas e escorregões, Milo teve a chance de encaixar o golpe aprendido com Aldebaran e Kanon foi imobilizado, após ser lançado no ar. Não querendo se dar por vencido, Kanon custou a bater na lona, sinal de reconhecer ter sido vencido e isto lhe custou caro, pois Milo forçou seu braço até que ele gemesse de dor.

– O vencedor desta noite é o senhor... Milo! – gritou Aldebaran elevando o braço direito de Milo.

Todos vibraram, menos o derrotado que massageava o braço e o prêmio da noite, o jovem Mu.

Mu permanecia em silêncio. Os olhos verde-água percorriam o ambiente sem vaidade ou emoção e, mesmo assim, bastava que olhasse para um cliente e este sentia despertar seus desejos mais profundos.

Ele não se portava como os outros, usando de uma sensualidade estudada e artificial para agradar. Pelo contrário, agia como se nada daquilo importasse, porém na cama transformava cada desejo do cliente em realidade. Sabia, intuitivamente, as preferências, as perversões, os medos e realizava as fantasias de modo que todo aquele que se deitava com ele, sentia-se único e em êxtase.

Quando Milo foi anunciado, ele suspirou levemente. Não gostava de Kanon, embora o nobre o requisitasse com constância. Satisfazia-o, mas quando ele o deixava, sua pele exibia marcas que demoravam dias para desaparecer.

Milo nunca o tinha procurado, mas sabia da sua fama entre as cortesãs e os rapazes. O grego era considerado um amante intenso e preocupado com o prazer de quem o acompanhava. Uma raridade no mundo dos nobres hedonistas... Entretanto, gostaria de não ter que deitar-se com ninguém, essa era a verdade. Mas, quando viu o grego vir em sua direção, levantou-se e o cumprimentou com um sorriso discreto, dirigindo-se aos seus aposentos.

Aldebaran sorriu e Milo piscou o olho, seguindo atrás de Mu.

Olhando para trás e vendo se havia alguém observando, Milo segurou Mu pela mão antes que ele alcançasse a maçaneta da porta do quarto.

– Espere. Vá até os fundos da casa, lá uma carruagem vai levá-lo para dar um passeio. Aproveite! Estarei em seu quarto esperando até a sua volta.

Mu franziu o cenho. – Mas, o quê está acontecendo?

– Sou um homem generoso e quando estou feliz me torno ainda mais. Tem alguém que preza muito a sua companhia, mas por circunstâncias alheias a sua vontade, não pode tê-la. Mas, hoje, vocês dois terão a oportunidade de se conhecerem melhor.

– Senhor Milo eu...

– Vá, está perdendo tempo! Confie em mim! – disse Milo rindo e dando uma palmada em Mu.

Hesitante, Mu fez o que Milo ordenou e encontrou a carruagem arrumada nos fundos da casa. Espiou, antes de entrar e viu quem menos esperava.

– Aldebaran! – exclamou Mu, surpreso.

– Sim, eu. Vamos dar uma volta?

– Mas... Como? Eu...

– Eu desejo, apenas, levá-lo para jantar. Não se preocupe... – disse Aldebaran um tanto sem graça.

Mu sorriu e o coração de Aldebaran se aqueceu. Nunca o via sorrir. Às vezes escutava sua risada contida quando estava com um cliente, porém nada tão iluminado como este que ele lhe dava, agora.

– Eu não estou preocupado, Aldebaran. Estou feliz! – disse Mu.

O lugar era simples e limpo. As mesas eram adornadas com pequenos lampiões e toalhas de linho branco. A comida era do tipo caseiro, nada dos menus sofisticados que provinham das cozinhas nobres. A Taberna como era conhecida, ficava nos arredores de Londres, num bairro pobre, porém distante dos que exibiam salas de ópio, bordéis e clubes de jogo. Era frequentado por trabalhadores e mantinha uma reputação familiar.

Mu comia com visível apetite e Aldebaran acompanhava seus movimentos com uma expressão divertida. O jovem elevou os olhos e perguntou:

– O que foi?

– Nunca o vi comer assim, com tanta vontade. Na verdade, sempre achei que comia pouco e que devia viver de ar. – respondeu Aldebaran.

– Desapontado? – perguntou Mu mastigando um suculento pedaço de rosbife.

– Não, claro que não. Na verdade, de onde eu vim, dizem que quem tem apetite pela comida, também o tem pela vida.

– Não sei se concordo com esta teoria, mas sei que esse é o tipo de comida que me atrai. – disse Mu exibindo o pedaço de rosbife. — Não gosto da comida que madame Walmot insiste em fornecer. Diz ela que é requintada, mas para mim é insípida e desagradável.

Aldebaran soltou uma gargalhada e Mu também riu. Os poucos frequentadores do lugar apenas olharam e voltaram a conversar e fumar seus charutos.

As horas foram passando, as risadas e conversas se somando e quando ambos se deram conta, chegara o momento de voltar. Aldebaran pagou a conta e conduziu Mu até a carruagem.

Já era de madrugada e uma bruma fria elevava-se nas ruas vazias. Ao chegarem ao bordel, tudo estava quieto, mas podiam-se ver algumas luzes que escapavam pelas janelas dos quartos.

– Foi a melhor noite que tive em muito tempo. – disse Mu. – Só não entendo porque lorde Milo teve este gesto.

– Gostaria de ter passado a noite com ele? – perguntou Aldebaran.

– Não! Já disse que esta noite foi... especial. Apenas desconfio da bondade dos nobres. Geralmente, eles só pensam em si mesmos.

– O senhor Milo é diferente. Eu o tenho como amigo e sei que a recíproca é verdadeira.

– Você pediu a ele para sair comigo?

– Na verdade, não. Eu apenas o ajudei a vencer lorde Kanon, porque não queria que ele vencesse. Sei como ele o trata e o odeio por isso. Milo percebeu que eu queria proteger você, então... disse que se fosse vencedor, deixaria que eu cuidasse de você.

– Cuidar de mim...? E isso significa?

– Que ao meu lado você não precisa se preocupar. Desejo apenas a sua companhia, vê-lo sorrir, conversar.

– Não deseja ir para a cama comigo?

Aldebaran engoliu em seco. Os olhos verdes o encaravam com um misto de incredulidade e... desejo?

– N-Não, eu... Neste exato momento eu não sou um cliente e nem você é... Somos apenas amigos conversando e passando o tempo. É isso!

– Compreendo... Você é um homem íntegro, Aldebaran. Nada pode desejar de um homem como eu. — disse Mu desviando o olhar e descendo da carruagem com visível constrangimento.

Aldebaran percebeu e impediu-o de sair. Mu ficou paralisado, olhando para a mão que circundava seu pulso. Era grande, em formato quadrado, forte e morena. Em comparação, mesmo que não fosse frágil, seu braço parecia muito branco e suave e aquele toque fazia arder a sua pele, despertando um desejo que ele não sentia há muito tempo.

– Eu me expressei mal... Eu... Não quis ofendê-lo ao dizer que não o desejo. Na verdade, eu... sinto muito mais que isso. Sinto vontade de protegê-lo, de tê-lo em meus braços e...

Mu interrompeu a fala de Aldebaran colocando os dedos na boca carnuda. Fitou-o nos olhos brilhantes e desesperados e depois se inclinou tocando de leve os lábios macios com os seus. Aldebaran sentiu a respiração estancar e o coração acelerar. Mu afastou-se um pouco e tornou a olhá-lo, absorvendo a expressão de êxtase e cheia de desejo que tinha à sua frente.

– Pois eu gostaria de tê-lo em minha cama. Seria a primeira vez que faria amor, porque eu realmente desejo. – sussurrou Mu rente aos lábios de Aldebaran.

Aldebaran sentiu o peito inflar, seus lábios se abriram num sorriso, mas algo dentro de si dizia que Mu merecia algo mais que uma noite de sexo, ele merecia saber que alguém o respeitava e amava, acima do desejo que ele era capaz de despertar.

Porém, Mu voltou a beijá-lo, agora passando a língua em seus lábios e introduzindo-a em sua boca. Aldebaran gemeu de leve, um som repleto de desejo que o fez deixar-se invadir. As bocas se uniram, agora com violência e ardor. O beijo se intensificou e Mu sentiu o corpo másculo de encontro ao seu e ondulou os quadris no abraço. Ergueu os braços e circundou os ombros largos.

Quando Aldebaran ergueu a cabeça, Mu enterrou o rosto no pescoço musculoso, respirando com força. A mão forte de Aldebaran tocou a coxa bem feita e Mu sentiu todo o seu corpo vibrar. Apesar da grandeza de seu corpo, Aldebaran tinha um toque sutil, íntimo e muito erótico e despertava em Mu um desejo genuíno, intenso que fazia sua pele formigar e ansiar pela possessão de seu corpo.

– Fique comigo... – murmurou Mu de encontro à boca de Aldebaran.

Com grande esforço, Aldebaran afastou-se. A respiração ofegante, o corpo tenso de tanto desejo.

– Não... – murmurou Aldebaran com dificuldade.

– Porque não? – perguntou Mu arfante e confuso. – Você também quer... não diga que não.

– Sabe que é desejável e que é difícil... não querer fazer amor com você. Porém, você é mais do que isso e se eu o possuir, não serei melhor que aqueles que só veem a luxúria em você... Ah, Mu eu o amo! Não quero que seja apenas uma noite... Deus, se eu continuar, não vou permitir que ninguém mais o tenha!

Mu tocou a face angulosa e sorriu. Nunca recebera uma declaração de amor tão maravilhosamente impossível e bela. Lágrimas escorreram dos belos olhos verdes.

– Por favor, não chore... Não quis magoá-lo. – disse Aldebaran sentindo a própria garganta fechar.

– E não magoou. Ensinou-me mais do que imagina e me devolveu parte de mim mesmo que eu julgava ter perdido. Boa noite.

Ditas as palavras, Mu ergueu a cabeça. Estava escuro demais para ver o rosto de Aldebaran, mas ele imaginou perceber com nitidez a silhueta de seu perfil forte contra o assento da carruagem, embora isso, apenas significasse que seus olhos tentavam memorizar cada curva do rosto másculo naquele momento único.

Baixou os olhos e fitou as próprias mãos que ainda estavam entre as de Aldebaran. Depois as puxou e correu para dentro da casa. Ora de encarar a realidade!

Aldebaran sentiu uma pontada de dor. Estúpido! Sou mesmo um estúpido! Disse a si mesmo enquanto levava a carruagem de volta.

Notas finais
Agradecimentos especiais a todos que lêem, comentam, ficam em silêncio...Bjs XD!