Desejos Ocultos
21 Capítulo 21 THE MIRACLE OF LOVE
Notas iniciais
“How many sorrows
Do you try to hide?
In a world of illusion
That's covering your mind?
When you open your mind
You'll discover the sign
That there's something you're longing to find
The miracle of love
Will take away your pain
When the miracle of love
Comes your way again”
Eurythmics
O hotel Hilton era um dos mais elegantes de Londres. Situado em uma vizinhança tranquila, recebia clientes de posses e negociantes que preferiam a discrição durante sua breve estadia na cidade. Não que Camus estivesse preocupado com o fato do lugar ser uma vitrine para a sociedade, mas para fazer o que havia planejado queria um lugar apropriado, um lugar que tivesse a ver com ele.
Olhando para o envelope, em suas mãos, colocou-o em uma maleta e olhou o relógio. Eram sete horas e calculou que até chegar à casa de Milo já seriam dez horas. Então seria a hora de confrontar o grego e descobrir porque ele havia devolvido as seis mil libras pagas por sua companhia e apresentações.
Ficara chocado quando descobrira aquele envelope em sua mesa e ainda mais quando vira o conteúdo. O dinheiro estava ali e somente ele! Não havia nenhum bilhete, nada! Nem mesmo uma saudação cortês ou até mesmo um xingamento.
Porque ele faria tal coisa? Raiva? Orgulho? A necessidade de bani-lo de sua vida definitivamente?
Qualquer que fosse a resposta, Camus queria ouvir do próprio Milo. Horas antes, em Winchester, quando abrira a porta do escritório, sua mãe já o esperava com uma mala pronta e uma carruagem a sua espera.
– Vá! As coisas por aqui estão encaminhadas. Agora é hora de resolver a sua vida. – dissera Claire com um tom imperioso.
– Mas, como a senhora soube que eu iria?
– Já disse que não sou santa, tola ou cega. Fui eu quem colocou o envelope vindo da Corte em seu escritório. Reconheci o selo da Casa Falsworth. Lorde Milo deu um passo em sua direção, agora é com você. Esqueça o passado e vá, agora.
Chegando a Londres, Camus solicitou a carruagem que se dirigisse até a casa do grego. O tráfego estava lento, parecia que todos tinham resolvido sair às ruas no mesmo tempo que ele. Porém, abrindo caminho com paciência por entre as demais carruagens, tílburis e cavaleiros em suas montarias, o cavalariço chegou, enfim, na rua onde se encontrava a casa de Milo.
Camus respirou fundo ao reconhecer a casa e desceu. Ao bater, uma senhora robusta e vestida de negro abriu-lhe a porta, fazendo-o estreitar os olhos e olhar para dentro da casa. Lembrava-se de Fausto e pensou se aquela mulher o substituía por razões de saúde.
– Pois não, senhor?
– Por favor, eu gostaria de ver o senhor Milo.
– O conde não mora mais aqui.
– Como?
– O conde vendeu esta casa.
– Vendeu? E a senhora saberia onde eu posso encontrá-lo?
– Rua Denmark Street, número 13. O encontrará lá.
– Obrigado, senhora.
Camus não gostava de abrir mão do controle da situação, fosse ela qual fosse. Mesmo surpreendido com aquela informação, optou por agir de imediato. Precisava encontrar Milo, então, sem hesitar ordenou que a carruagem se lançasse no intenso tráfego londrino para o endereço que lhe havia sido dado, dominado pela tensão e ansiedade.
Reconhecia as ruas estreitas, o barulho dos vendedores ambulantes, o cheiro das chaminés e se perguntava se não tinha chegado tarde demais...
O cavalariço deteve a carruagem diante de um edifício. Camus olhou pela janela e foi tomado por uma surpresa imensa.
– É aqui? – perguntou franzindo o cenho.
– Sim senhor. Aqui é o café do Conde, a nova sensação de Londres.
Perplexo demais para questionar, Camus desceu e foi até o edifício reformado e muito movimentado. Quando entrou, foi recebido por um jovem uniformizado que sorriu e informou que o café ainda não estava aberto ao público.
– Eu gostaria de falar com o senhor Milo, por favor.
– O senhor Milo está ocupado fazendo a inspeção matinal.
– Inspeção matinal?
– Sim, o senhor Milo é o proprietário, mas faz questão de falar com todos e inspecionar tudo antes de abrir.
– Mas quando... este negócio começou?
– Faz dois meses que ele abriu as portas e já é costumeiro não se conseguir entrar depois de certa hora. Surpreendente, não?- disse o jovem, com orgulho.
– Não imagina o quanto.
– Bem, vou avisar que o senhor deseja falar com ele. Espere aqui, por favor.
– Obrigado. – disse Camus pensando como o estabelecimento podia ser tão próspero em tão pouco tempo.
Imerso em suas indagações, Camus olhou em volta, admirando o lugar. Era espaçoso e elegante, decorado em tons de marrom e bege com mesas redondas, encimadas com toalhas trabalhadas e castiçais de prata. Havia folhagens, estrategicamente colocadas, e janelas amplas com cortinas transparentes completando o ambiente, dando-lhe um aspecto familiar.
– O senhor Milo vai recebê-lo, senhor. Seu nome é? – disse o jovem interrompendo as divagações do francês.
– Desculpe, não disse o meu nome. Chamo-me Camus.
– Ah, não tem problema, disse ao senhor Milo que tinha um ruivo perguntando por ele e ele concordou em recebê-lo. Por aqui, senhor Camus.
Camus inspirou, lentamente, ergueu os ombros e acompanhou o rapaz. Quando a porta se abriu e ele foi introduzido no ambiente, quase perdeu o fôlego ao ver Milo se levantar de trás da mesa.
Mon Dieu...
Milo estava mais magro, mas continuava belo e com aquele magnetismo que era capaz de desnorteá-lo, de fazê-lo ansiar por um toque, um beijo, a pele dele na sua... Era doloroso.
– Camus... Mas que surpresa. – disse Milo estendendo a mão para cumprimentá-lo.
Mantendo-se rijo, Camus tentou manter a abalada compostura, enquanto sentia o calor da mão de Milo na sua.
– Olá, Milo.
– A que devo a honra da sua visita?
– Fui à sua casa e disseram que a tinha vendido.
– Verdade. Vendi-a para comprar este prédio. Agora sou um trabalhador e acordo quase tão cedo quanto você e... parece que o deixei atônito! Pode se beliscar, não está sonhando.
– Fui pego de surpresa, só isso. Fez um excelente trabalho aqui. Impressionante, para ser mais exato.
– Obrigado. Um elogio vindo de você para pessoas como eu deixa-me orgulhoso.
Camus encarou o grego e sorriu, mas era um sorriso triste.
– Sei que mereço o seu desprezo, então não vou tomar mais o seu tempo.
– Não tenho pressa e não o desprezo. Perdoe-me, mas não deixa de ser... agradável poder me sentir orgulhoso de mim mesmo. Então, o que o trouxe a Londres?
– Vim tratar de negócios.
– Negócios?
– De certa forma. Vim devolver isso. – disse Camus retirando o envelope da pasta e entregando-o a Milo.
– Por quê? – perguntou Milo olhando para o envelope sem grande interesse.
– As seis mil libras são suas. Eu fiz a proposta e você a honrou, portanto, o dinheiro é seu.
– Veio até aqui para devolver um dinheiro que foi gasto, apenas, para ser apresentado por um devasso? – provocou Milo.
– Quando o contratei para fazer-me ser visto pela sociedade, sabia das suas qualidades e ser um devasso era uma delas! Satisfeito? – disse Camus num tom frio, mas que denunciava certa alteração emocional.
Milo sorriu e devolveu o envelope para Camus.
– E seu eu disser que não quero este dinheiro? – perguntou o grego, começando a aproximar-se do francês.
– Eu já disse que ele é seu. Faça com ele o que achar melhor. Invista em seu negócio, doe, faça o que quiser.
– Não quero! Fique você com este dinheiro e use-o para minimizar os problemas que teve em sua fábrica.
– Porque tem de ser tão teimoso e irritante? E como soube da fábrica? Todos em Winchester tiveram a discrição de não comentar sobre o acidente.
– Tenho meus contatos... Sua adorável mãe, para ser mais exato! Pensou, enquanto o encarava. E Camus? Não quero mais, nem dinheiro, nem minha fama entre nós.
– Entre... nós? O que quer dizer?
– É simples, você não precisava ter vindo a Londres para entregar-me o dinheiro. Ainda mais que está correndo contra o tempo para deixar a fábrica produtiva e honrar seus contratos. Podia ter enviado um portador ou um documento bancário. Mas, veio pessoalmente, por que... sente alguma coisa por mim. Não sei se me ama, assim como eu o amo, mas acredite, eu desejo saber.
– Você disse...
– Eu disse que amo você, Camus. Desde o primeiro beijo desajeitado... Desde que me fez aquela proposta e... não deixei de amar, mesmo quando desconfiou de mim. Apesar de tudo, foi o conflito despertado por este amor que me fez desejar ser melhor.
Camus mal conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Seu coração falhou uma batida e em seguida acelerou dentro do peito. As palavras, antes presas na garganta, uniram-se ao sentimento profundo que sempre estivera em seu coração e, sem hesitar, ele tomou o queixo de Milo em sua mão, olhando-o, diretamente nos olhos.
– Milo... eu te amo tanto que cheguei a sentir medo deste amor. Fui duro com você por não confiar em mim mesmo. Mas, agora acabou. Acabou o medo, a incerteza, a solidão... Por favor, perdoe-me!
O grego sustentou o brilho intenso dos olhos de Camus e afagou uma mecha dos cabelos ruivos que haviam se soltado ao mesmo tempo em que aproximava os lábios sensuais dos dele.
– Alguém me disse que o amor tudo suporta... que não existem convenções e regras capazes de derrotá-lo. Começo a crer que é verdade... – disse Milo sentindo o hálito quente de Camus em seu rosto.
Camus puxou Milo para si e começou a beijá-lo de forma lenta e provocativa para, em seguida, aprofundar o beijo e explorar com a língua o interior úmido e quente da boca. Havia saudade, desejo e muito amor naquela carícia...
Milo sentiu o corpo inteiro vibrar, havia se passado dois meses em que ele desejara sentir aqueles lábios, sentir o cheiro da pele alva e salpicada de pequenas sardas, tê-lo em seu corpo...
Entrelaçou as mãos nos cabelos ruivos, podia sentir a paixão do corpo poderoso contra o seu e nem mesmo as roupas entre eles disfarçavam a rigidez de ambas as ereções. O gosto único dos lábios de Camus o deixava sem pensamentos, sem outra vontade que não fosse entregar-se àquele sentimento e fazer amor com ele.
Então, Camus parou, ofegante e sério. — Se continuarmos assim, não vou conseguir parar...
– E quem disse que eu quero que pare...? — sussurrou Milo, de volta.
– Está em seu trabalho e não quero fazer nada com pressa... Vivi um inferno nestes dois meses, desejando tê-lo e acordando sozinho. Agora, quero estar com você e ouvi-lo gemer em meus braços, sem nenhuma interferência, sem nada que não seja o seu corpo e o meu.
O grego riu com o rosto afogueado.
– Estamos invertendo os papéis... está se comportando como um devasso, senhor Camus...
Camus sorriu e corou. Milo tocou-o no rosto e riu, os olhos cintilando, os lábios vermelhos e desejosos.
– Porém, acho que precisa de algumas lições como ser um libertino sem mostrar esse rubor, deliciosamente inocente, em sua face.
Ao término de sua fala, Milo entreabriu os lábios ainda famintos pelos meses que estivera longe de Camus. Desejoso e sôfrego, suas mãos envolveram o corpo do francês, os dedos se agarraram aos ombros e depois à cabeça, prendendo os fios vermelhos na intensidade daquela paixão que aprendera só com ele. Beijou-o com volúpia, provando-o e mordiscando-o, ouvindo-o gemer e corresponder no mesmo ritmo.
Cada movimento da boca de Milo, de sua língua e de seus lábios era retribuído por Camus e o sangue martelava-lhe no corpo, fazendo-o lutar contra a necessidade de possuí-lo, consumi-lo, ser um só com ele naquele momento.
Uma batida insistente retirou-os da espiral de desejo.
– Milo... – sussurrou Camus com dificuldade, sentindo sua ereção despontar e doer de tanta excitação. – Tem alguém à porta e eu preciso ir. Jante comigo esta noite. Espero-o no Hilton, às dezenove horas!
– Está bem... – disse Milo vencido. – Começo a achar que ser um trabalhador exige muito de mim. – suspirou tentando acalmar a respiração.
Camus se afastou e sorriu levando, instintivamente, os dedos aos lábios, sentindo-os ardentes e ainda desejosos de continuar a provar do grego. Mas quando a porta se abriu, um garotinho entrou correndo dando-lhe um encontrão.
– Ops! – disse o menino, levando a mão à cabeça e olhando para cima.
Cabelos pretos e ondulados ornavam o rostinho bonito. Um par de olhos escuros encarou Camus com determinação.
– Minha mãe precisa falar com esse daí! – disse o menino apontando para Milo. — Ela precisa muito!
– Nachi! – gritou uma voz feminina. – Que modos são esses? Não foi isso que eu e seu pai ensinamos a você!
A voz suave, num tom que mesclava aborrecimento e ternura fez os pelos da nuca de Camus se arrepiarem. Ele estremeceu e seu sangue ameaçou congelar antes mesmo que erguesse a cabeça e se deparasse com os olhos verdes que o encaravam arregalados.
– Saori...
A jovem senhora que ali estava para pedir um emprego na cafeteria sentiu seu coração saltar no peito. Era como encarar seus piores pesadelos, pensou ao observar o homem de cerca de 1,84 metros bem à sua frente. Os cabelos ruivos e olhos tão azuis e implacáveis quanto ela se lembrava. A roupa escura e de corte impecável cobria o corpo bem proporcionado e mais desenvolvido que na época em que estavam juntos.
– Camus!
Atordoada, Saori não sabia o que dizer. Estava ali para pedir um emprego e se deparara com seu ex-marido, o homem a quem traíra e abandonara. Piscou duas vezes e então observou os olhos de Camus passar dela para a criança.
Nachi fez uma careta intimidadora que, aos três anos de idade, lhe parecia feroz e assustadora. Seu filho, resultado da união com Seiya era uma criança forte, destemida, afetiva e indisciplinada. Após o acidente do pai, era difícil manter a criança nos eixos e as dificuldades em sustentar-se a tinha levado até ali.
Sabia que era inconcebível para a sociedade uma mulher, como ela, pedir para trabalhar. Não havia muitas opções de emprego a não ser que fosse governanta, o que lhe exigiria viver com seus patrões ou... a opção que jamais seria viável, tornar-se uma cortesã!
O Café do Conde era um lugar que todos diziam ser diferente dos demais e a fama de excentricidade e pensamentos modernos de seu proprietário passava de boca em boca por toda Londres. Resolvera tentar por seu filho, por seu marido e por si própria. Mas, jamais contara encontrar com Camus...
– Minha mãe precisa do emprego e você vai dar, loiro! – rosnou ele imitando um cão ou um lobo.
Milo, que até então estava pasmo, teve que rir com a ameaça do garoto.
– Venha cá. – disse o grego ao menino. – Parece-me que sua mãe conhece aquele homem que você atropelou. Vamos deixá-los conversar um pouco, enquanto eu o levo até a cozinha e você come um pedaço de torta de chocolate. Gosta de chocolate?
– Adoro! – disse o menino com um gritinho de prazer.
– Então vamos. Camus e... senhora, fiquem à vontade. Voltaremos daqui à meia hora. – disse Milo focando seus olhos perscrutadores em Camus.
Deus não joga dados... A frase surgiu na mente de Camus enquanto olhava para a mulher a sua frente torcer as mãos e evitar olhá-lo nos olhos.
Saori olhou para o filho com o estômago apertado e as mãos suando. A atmosfera na sala parecia fervilhar de todas as sensações possíveis. Sabia que tinha de falar alguma coisa ou ao menos, encarar seu ex-marido.
O queixo dela se ergueu ao chegar àquela conclusão. As entranhas de Camus se revolveram ao notar aquele movimento, sentindo o desafio do gesto da mesma forma que ela o tinha feito ao ser pega na cama com outro homem. Continuou a observá-la disparar ondas de medo, vergonha e desafio em doses iguais e, de certa forma, passada a surpresa inicial, deu-se conta que não sentia nada, além disso... surpresa. Não havia dor, mágoa ou qualquer outro sentimento a não ser surpresa e um pouco de curiosidade.
Ainda em silêncio, Camus olhou-a, demoradamente. Pelas roupas que vestia era perfeitamente óbvio que passava por dificuldades. Os cabelos longos e com aquele tom violáceo que todos admiravam estava preso e mostravam precisar de cuidados.
Notara que o menino estava bem-vestido, os cabelos negros e cacheados, bem cortados. Seus sapatos eram bem diferentes dos da mãe, que pareciam ter visto dias melhores...
– Bem, parece que o destino resolveu nos pregar uma peça. – disse ela por fim, com a voz trêmula.
– Parece. Então, está com dificuldades, pelo que estou vendo. Aconteceu alguma coisa com Seiya? – perguntou Camus com tranquilidade na voz.
Os olhos grandes e expressivos de Saori se encontraram com os de Camus e ela tentou controlar as lágrimas que lhe vieram aos olhos.
– Ele sofreu um acidente e ficou... paralisado. Está impossibilitado de trabalhar e eu preciso sustentar nosso filho. – disse ela olhando para os próprios pés. Os sapatos estavam bem gastos, notou incoerentemente. Esquecera de engraxá-los antes de sair de casa. E seu vestido tinha uma ponta amassada. Com os dedos, tentou alisar as dobras, mas estes tremiam tanto que desistiu e voltou a olhar para Camus.
Camus inspirou e depois olhou para o envelope que estava sobre a mesa de Milo. “Não quero mais, nem dinheiro, nem minha fama entre nós.” Relembrou a frase dita, instantes atrás, e pegou-o.
Pois este dinheiro terá o efeito de uma pá colocando terra sobre o passado. Definitivamente.
– Tome! Reconstrua a sua vida. – disse Camus estendendo o envelope para Saori.
– M-Mas... o que é isso?
– Um presente de agradecimento.
– P- Presente? Como assim? Eu... magoei você, eu o traí!
– Não, você me libertou. Eu amo Milo, Saori e só pude descobrir este sentimento, porque você teve coragem de ir em busca do seu. Na época, eu não tive outra percepção além da traição, mas agora, vejo as coisas de forma diferente. Nunca fomos apaixonados, embora você tenha tentado, enquanto eu apenas cumpria um papel que era esperado de mim. Estou mais maduro e você também. Desejo que seja feliz, Saori, e digo isso de coração aberto. Aceite, por favor, e cuide de sua família.
Saori tremeu, lembrando que um dia dissera que Camus não tinha coração e já estava prestes a chorar quando Milo bateu de leve e abriu a porta, em seguida. Nachi entrou sorrindo com chocolate na bochecha e correu para os braços da mãe. Milo viu que ela estava com o envelope na mão e olhou para Camus de um jeito cúmplice.
– Então, senhora... lhe devolvo seu filho. Sei que veio procurar-me, mas vejo que encontrou a solução para o seu problema.
– Obrigada, milorde. Não sei o que dizer... eu...
– Não precisa dizer nada. – disse Milo.
Sem saber o que fazer, Saori abraçou Milo, embora fosse Camus quem desejasse abraçar. Porém, apesar dele tê-la perdoado, ela ainda sentia um grande constrangimento.
– Por favor, milorde, faça-o feliz. – sussurrou no ouvido de Milo antes de se afastar e tomar o filho pela mão.
Quando ela deixou o escritório com um último aceno, o olhar úmido e agradecido, Milo voltou-se para Camus com o cenho franzido.
– Então essa mulher foi... sua esposa? Mas que raio de destino é esse que a trouxe a mim no mesmo dia em que...
– Em que eu confessei amá-lo? Não sei, mas nunca vivenciei algo tão ilógico e, ao mesmo tempo, tão perfeito.
– Sentiu alguma coisa? – perguntou Milo sem conseguir controlar a pitada de insegurança que se instalou em seu coração.
– Senti. Alívio, paz...
– Jura?
– O que é isso, milorde? Está desconfiando da minha sinceridade? – perguntou Camus com um sorriso que Milo classificou como predatório.
– Não sei... que tal dar-me mais uma prova dos seus sentimentos? – falou Milo colocando os braços em volta do pescoço de Camus.
A cabeça de Camus se aproximou dos lábios entreabertos que sorriam e os cobriu com os seus. E ele o fez daquela maneira gentil e persuasiva que, aos poucos, transformava-se em puro fogo e fazia Milo consumir-se no lento deslizar da língua pelo interior de sua boca.
Alguém bateu na porta, novamente e Milo afastou-se de Camus, excitado e irritado.
– Mas que Inferno! Acho que tem razão, Camus. Nos vemos à noite, antes que eu mate alguém!
– Hilton, dezenove horas. Em ponto! – disse Camus rindo e saiu.
Uma chuva fina caía sobre Londres quando Milo chegou ao Hilton, às dezenove horas e doze minutos. Ele caminhou lentamente pelos opulentos salões brancos e dourados cujo piso de mármore negro refletia as luzes do imenso candelabro e as paredes exibiam obras de arte dos artistas mais famosos do século passado.
– Conde Milo! Mas que surpresa agradável tê-lo em nosso hotel! – disse um homem calvo em um uniforme negro com detalhes em dourado.
– Obrigado. Vim encontrar uma pessoa. O senhor Camus d'Alembert.
– Oh! O senhor d'Alembert... Ele o espera em sua suíte. Victor irá conduzi-lo até lá.
O empregado deixou Milo à porta da suíte e o grego bateu. Sem obter resposta, ele girou a maçaneta e entrou. A suíte parecia uma tenda oriental. Aromas diversos permeavam o ambiente criando uma atmosfera sensual, enquanto uma cama ampla com uma profusão de almofadas e sedas se sobressaía, assim como o tapete em tons de vermelho e dourado cobriam o chão.
Camus não se encontrava em lugar nenhum e Milo começou a achar aquilo muito estranho. De repente, surgido de algum lugar entre as cortinas e a lareira acesa, Camus o abraçou pelas costas e beijou-lhe o pescoço.
– Está atrasado, senhor Milo... – sussurrou ao ouvido do grego.
– Apenas, doze minutos. Sou um homem de negócios, agora. Sempre surge algo de última hora e...
– Quieto... Isso não é desculpa... Vou ter de puni-lo, por isso. – disse Camus, roucamente, enquanto deslizava as mãos pelo corpo de Milo.
Milo riu, fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. Era delicioso saber que despertava a sensualidade e o desejo de Camus de forma tão poderosa.
O ruivo continuou acariciando-o, enquanto sussurrava palavras em francês rente à sua pele quente. O cheiro de Milo sempre o arrebatava. Não era perfume e sim o cheiro peculiar do próprio Milo combinado com a sensação de sua pele sob suas mãos, da forma sensual e entregue com que ele reagia aos seus toques. Amava tudo aquilo, assim como amava beijá-lo, sentir a língua experiente unida a sua, sugar-lhe o gosto, senti-lo em fogo...
– Camus... assim, eu...não vou... – gemeu Milo, enquanto o francês se esfregava em seu corpo e lhe mordiscava o pescoço e também o lóbulo da orelha.
– Shhhhh... Aguente o seu castigo. – disse Camus continuando com as carícias, enquanto conduzia Milo para a cama.
Com um movimento que mais parecia uma dança lenta, Camus fez com que Milo se deitasse e se colocou entre as pernas do grego, traçando um caminho com a boca e a língua pelo pescoço que se movia e arrepiava com a carícia.
Quando viu Milo fechar os olhos e entreabrir os lábios para buscar o ar, Camus sorriu e deslizou a mão pelo interior de suas coxas, até encontrar o membro excitado e acariciá-lo, enquanto voltava a beijá-lo, as línguas tocando-se e retraindo-se, numa dança erótica que arrancava gemidos roucos de ambos.
O corpo de Milo movia-se, sob as mãos sensuais e exigentes de Camus, as roupas parecendo implorar para serem tiradas...
– Camus... — gemeu Milo enquanto o francês continuava a acariciá-lo por baixo das roupas, intensa e lentamente.
– Ainda não... — Camus murmurou em seu ouvido, enquanto apertava a ereção ostensiva que movia-se de encontro à sua mão e continuava a atacá-lo com a língua e com os dentes, sugando e mordiscando, deixando rubros, os lábios de Milo.
O beijo intenso e ávido refletia a intensa sensualidade de Camus, uma força que ele descobrira no prazer de amar e fazer amor com Milo.
O francês enterrou os dedos nos cabelos de Milo e inclinou sua cabeça para trás para que pudesse aprofundar-se ainda mais em sua boca com as investidas de sua língua sensual e exigente. Milo se contorcia sinuosamente e o beijava também, retribuindo paixão com entrega.
A respiração de ambos se acelerava e quando a camisa de Milo foi arrancada de seu corpo, ele sentiu a roupa de Camus roçar sua pele nua e uma violenta excitação invadiu seu sangue. Por um momento, Milo sentiu-se em um abundante banquete de satisfação e audácia, cujo maître era Camus e ele parecia decidido a enlouquecê-lo com tantas carícias e provocações...
– Você está... vestido. – ele arfou enquanto a camisa era arrancada por sua cabeça e jogada ao lado.
– Sim... eu estou. Convidei-o para jantar. Esqueceu? – murmurou Camus antes de baixar a cabeça e devorar os mamilos túrgidos do grego.
Milo gemeu ainda mais alto e fincou os dedos nas costas de Camus, cujos músculos tensos se contraíram. Quando Camus começou a descer mais, ele entrelaçou os dedos em seus cabelos cor de fogo e foi devorado pelo ardor do amante. O deslizar da língua, o roçar dos dentes e aquelas mãos que o apertavam com posse provocavam um prazer arrepiante que se espalhava por todo o seu corpo.
Mais uma vez desejava Camus dentro de si, ansiava com desespero senti-lo enterrar-se em seu corpo levando-o a vivenciar a explosão do gozo e do amor em uma experiência única, intensa, transcendente...
– Camus... não aguento mais... – gemeu Milo enquanto o francês continuava a acariciá-lo por baixo das roupas, possessivo e provocante.
– Calma, ainda nem comecei... — Camus murmurou em seu ouvido, enquanto sentia a ereção de Milo latejar em sua mão.
Milo arrepiou-se, os mamilos endureceram quando Camus tomou um deles entre os dentes e o sugou devagar, enquanto também abria o botão da calça, fazendo-a deslizar pelos quadris que se projetavam em sua direção.
Após despi-lo, Camus deitou novamente por cima dele e continuou roçando o corpo na pele nua. Olhava-o se contorcendo e sentia um imenso prazer... Milo tornara-se um homem produtivo e ele, deixara aflorar seu lado devasso, ambos tocados e transformados pelo deslumbramento do amor.
– Camus...! Não é justo... quero te sentir...- implorou Milo, mal conseguindo respirar.
Sorrindo e com uma expressão faminta, de puro desejo, Camus começou a despir-se, ajudado pelas mãos ansiosas de Milo. O grego olhou fascinado para o corpo do amante. Adorava ver a excitação estampada no rosto e no falo ereto e pulsante de Camus, assim como a segurança com que ele dominava aquele ato. Era diferente e luxuriante ser seduzido por alguém que desabrochava para o prazer sensual.
– Vem... senta aqui... – disse Camus.
Milo obedeceu e Camus sentou-o entre os joelhos abertos, de modo que os quadris dele se encaixassem entre suas coxas, as costas contra o seu peito. Milo fechou os olhos, o ar sibilou por entre seus dentes, quando sentiu a ereção ostensiva em sua pele e seu sexo endureceu, ainda mais.
Sem pressa, Camus lambia e chupava o pescoço de Milo, enquanto seus dedos continuavam sua dança alucinante, acariciando, pressionando, tornado-o seu ... E quando o francês viu que Milo tombava a cabeça para trás, quase gozando sob os seus toques, deitou-o de bruços e continuou a roçar os lábios na linha da coluna, arrancando gemidos e arrepios até chegar na linha divisória das nádegas firmes e lamber devagar, deixando-o molhado de saliva quente nas coxas, nas nádegas, na entrada...
Milo gemeu alto e levantou o quadril, enquanto Camus o segurava e continuava a doce exploração.
– Camus... por Deus...! – gemia Milo já enlouquecido, o membro pulsando, o corpo todo acometido por uma excitação incontrolável.
– Não me canso de sentir esse seu gosto, esse seu cheiro que me deixa louco... — respondeu Camus com a voz rouca, denunciando que também chegava ao limite.
Milo começou a se esfregar nos lençóis, insinuando o transbordar do desejo e Camus sorriu, encaixando-se, perfeitamente, entre as nádegas do grego, já sentindo a resistência da entrada apertada, que o fazia gemer de prazer só em sentir seu membro acolhido, no interior cálido.
O grego ofegou, um brilho reluzia nos olhos excitados dele. Respirou profundamente, e elevou o quadril em um convite... Com ansiedade, ele observou a ereção rígida penetrá-lo com um vigor delicioso e gemeu ao senti-lo duro e inteiro dentro de si.
Camus foi estocando devagar, forçando a entrada até sentir que podia colocar sua ereção inteira dentro do corpo de Milo. Mordiscou o ombro do amante e deitou por cima dele, colando seu peito às suas costas, entrelaçando as mãos nas dele.
Ouviu um longo suspiro de Milo que ofegava e apertava os dentes, mas mesmo assim, abria as pernas e projetava-se de encontro ao seu corpo, ansiando pelo êxtase repetido infinitamente, empurrando e empurrando contra a barreira que separava o corpo do espírito, da alma e do coração... a barreira que só o êxtase com o ser amado podia derrubar.
Gemendo deliciado, Camus intensificou os movimentos, quando sentiu Milo respirar entrecortado e empinar o quadril, transbordando um desejo voraz que se acumulava em cada poro, esperando a liberação.
– Je t'aime, Milo... comme un hommetout entier, l'homme que vous avez soulevé...–– Camus sussurrou em francês inebriado com o prazer que o corpo de Milo proporcionava ao seu, com o sentimento que nada mais importava a não ser aquele amor que o resgatara da frieza e da solidão.
Os cabelos loiros de Milo se colavam às costas suadas e ele pedia por mais... ... Os corpos dos dois consumiam-se em fogo e ânsia, enquanto Camus começava a aumentar o ritmo e sacudir o corpo de Milo com estocadas fortes, ofegando e sentindo a proximidade do orgasmo.
Os sons que inundavam o quarto criaram uma melodia de um erotismo sem igual. Ofegos e gemidos se mesclavam ao suor, saliva e prazer... O atrito dos corpos retumbando em um ritmo tão primitivo, quanto sublime.
Camus não podia ver a face de Milo, mas a voz rouca mesclada com os gemidos, a lembrança da beleza do rosto transformado pelo desejo o fazia estremecer e entregar-se ao insano prazer que irrompia em seu corpo.
Sentindo o corpo perder-se nos tremores do gozo, ele puxou os quadris do amante para cima, deixando-o de quatro e forçou-se, ainda mais, para dentro do corpo apertado. Milo gritou, sentindo as estocadas fortes e profundas e seu corpo estremeceu, convulso...
Milo sentia o membro túrgido, todo dentro dele, o calor queimando-o por dentro, a vontade de tê-lo mais forte e rápido, os quadris projetando-se de encontro ao corpo do outro. Os dois sentiam os tremores que os levariam, mais uma vez, a se tornarem um.
Num último ato consciente, Milo levou uma das mãos para trás e puxou Camus para junto de si, gozando em seguida com um gemido intenso, e sentindo o líquido quente projetar-se para dentro de seu corpo, enquanto o outro também chegava ao clímax gritando seu nome...
Desabaram na cama, com Camus abraçado as costas de Milo, ouvindo o coração batendo rápido, provando daquele suor salgado e, ao mesmo tempo doce.
– Meu... amor. — gemeu Milo, deixando escapar as palavras que agora fluíam sem nenhum receio.
As palavras ditas de forma tão verdadeira e sensual fizeram Camus subir ao paraíso. Deitando-se ao seu lado e puxando-o de encontro ao peito, o francês sentia-se feliz, saciado, inteiro...
– Eu te amo, Milo... – sussurrou entre os lábios grossos e puxou-o para si enquanto cobria os lábios do grego com um beijo profundo e cheio de amor.
Milo abriu os olhos, lentamente, e agarrou-se à Camus, beijando-o no peito, acariciando o rosto que estava tão corado que rivalizava com os cabelos ruivos.
– Você foi muito... erótico e habilidoso. Começo a desconfiar que teve alguém lhe ensinando certas coisas... – disse Milo com os olhos semicerrados.
– Tive um mestre excelente. Uma lição e já me deixou quase igual a ele.
– Esse mestre deve ser um devasso.
– E dos melhores! Não é à toa que sou completamente louco por ele, assim como metade de Londres, também é. Só ele é capaz de deixar-me assim... e eu sei que ele sente o mesmo por mim. – disse Camus levando a mão de Milo ao seu falo que já dava sinais de vida...
Milo sorriu e com a ponta do dedo, acariciou devagar e com muito prazer uma veia grossa que pulsava no falo túrgido do francês.
– Gosto muito desse seu mestre...
– Eu também... – respondeu Camus sentindo o desejo retornar com toda a força.
Com os olhos arregalados, Milo sorriu quando Camus abriu suas pernas, colocando-as nos ombros para, logo em seguida, lamber-lhe a virilha e o membro com voracidade animal. O sorriso cedeu aos gemidos, quando sentiu a língua ser substituída pelo falo túrgido que o penetrou de um só golpe, facilitado pelo gozo que já o tinha inundado.
– Camus...! Ahhhhh...!- gemeu Milo tão alto que reverberou nas paredes do quarto.
– Como... eu havia dito...meu mestre ensinou-me com perfeição... – sussurrou Camus antes de recomeçar aquele bailado extasiante e lascivo que ambos conheciam extraordinariamente bem...
Notas finais
***Tradução do trecho da música que abre o capítulo ( eu estava ouvindo e, sincronicamente, achei pertinente ao casal)
Quantas tristezas
Você tenta esconder,
Num mundo de ilusão
Que está cobrindo sua mente?
Quando você abrir sua mente,
Você descobrirá o indício
Que existe algo [que] você está ansiando encontrar...
O milagre do amor
Levará embora sua dor.
Quando o milagre do amor
Vier na sua direção novamente...
****(Deus não joga dados)- frase de Einstein, mas eu achei fofo colocá-la aqui como se fosse de Camus.
****(Je t'aime, Milo... comme un homme tout entier, l'homme que vous avez soulevé...)- Eu te amo Milo, como um homem inteiro, um homem que você ajudou a despertar.(Eu tinha que colocar uma frase em francês...acho uma língua muito sensual e é a língua do meu amado Camus!!!Ai, ai...*suspiro.
Fale com o autor