Desejos Ocultos
19 Capítulo 19 MUDANÇAS...
Camus fixou seus olhos cansados, seu rosto mantinha uma expressão inescrutável, enquanto discorria sobre a figura adormecida com uma lentidão própria de quem analisa tudo, detalhadamente.
Os cabelos loiros, tão luminosos, que pareciam ouro líquido, a boca rosada e entreaberta, os olhos azuis agora fechados... Assim, fragilizado, Hyoga mostrava-se ainda um menino e, mesmo assim, o sofrimento e todas as perdas e desventuras o tinham marcado profunda e impiedosamente.
Tocou-lhe o rosto com suavidade, percebendo que o destino tinha colocado Hyoga em seu caminho como um desafio. Primeiro, porque exigiu dele, um filho único, o papel de irmão mais velho, tornando-o responsável pelo garoto. Segundo, porque, sentia nele um turbilhão emocional sob a aparência discreta, algo que o deixava desconfiado e de sobreaviso. Ou será que era apenas o seu velho ressentimento fazendo-o ver fantasmas onde nada existia?
Notou a mala embaixo da cama no momento em que o trouxera para o quarto. Um calafrio o percorreu ao ver o quanto suas atitudes tinham infringido sofrimento a alguém que já perdera tanto. Certamente, Hyoga pensava em deixar Winchester. A mala, a ida à fábrica, tudo se encaixava como num quebra-cabeças. Hyoga devia querer o documento que fazia dele, Camus, seu guardião legal, então o acidente acontecera...
Um acidente que lhe tomaria muito mais tempo e trabalho do que gostaria, mas, estranhamente, não estava furioso ou decepcionado. Estava consciente e, de certa forma, aliviado que certas tragédias descortinam uma nova visão da vida e dos fatos. Descobrira que não era apenas responsabilidade que sentia por Hyoga.
Amava aquele garoto como um irmão e era como irmão que ficara magoado ao achar que fora preterido em favor da amizade que ele tinha com Seiya. Essa é a verdade Camus!
No fim, era uma mágoa que sentira quando era mais jovem e já era hora de despedir-se dela, deixá-la ir, aceitar que tudo tinha um propósito e um fim...
Um par de olhos azuis e um pouco avermelhados se abriram, tentando focar na silhueta próxima a sua cama. Sonolento, Hyoga ainda sentia uma forte irritação nos olhos e na garganta, mas, pelo menos, já não doía muito quando respirava.
– Camus? – murmurou o rapaz com voz baixa e rouca.
– Olá, sente-se melhor? – perguntou Camus sentando-se na cama.
– Depende... se vai brigar comigo, não direi que me sinto melhor.
Camus riu e Hyoga encarou-o um tanto surpreso.
– Bem, devo repreendê-lo como um irmão mais velho, afinal, você estava planejando fugir de casa...
– Como soube? Ah! A mala. Esqueci-me de escondê-la. Fui um idiota, devia ter partido sem...
– Sem tentar inutilizar o documento que me torna o seu guardião. – completou Camus.
– É. Cansei de ser um entrave na sua vida. Está na hora de eu seguir meu caminho.
– E que caminho é esse?
– Qualquer um que me leve para longe. De preferência, para Londres. Prometo que, assim que arrumar um emprego, vou ajudá-lo na reconstrução do que foi perdido na fábrica, afinal, é mais um prejuízo que trago para você.
– Um bom emprego exige alguma formação ou espera tornar-se mais um operário nas fábricas de carvão em Londres?
Hyoga encarou Camus, notando que não havia a costumeira frieza ressentida com que ele sempre o tratava. Seu primo parecia diferente, mais humano...
– E isso importa?
– Os irmãos mais velhos sempre esperam que o irmão caçula o supere. Portanto, eu gostaria de ajudá-lo a ser mais que um simples operário, embora valorize todo o trabalho digno.
– Irmão caçula? Você está dizendo que eu... sou irmão caçula?
– E não é?
– Você nunca... havia dito isso.
– Pois estou dizendo agora. Somos irmãos, Hyoga e tudo o que eu desejo é que você tenha todas as chances de progredir, de ser alguém. Vamos encerrar em definitivo as desavenças do passado e trabalhar para o futuro.
– Você me perdoou mesmo?
– Não, eu perdoei a mim mesmo. Todo o tempo, eu joguei sobre você o que era minha responsabilidade. Eu não tive olhos para ver o óbvio e não tive maturidade pra arcar com as consequências da minha “cegueira”. Você nunca foi responsável pelo que aconteceu e hoje, sou eu que peço o seu perdão por tê-lo feito sofrer por algo que não era seu. Pode me perdoar?
Hyoga sorriu e sentiu que lágrimas enchiam os seus olhos. Não sabia se abraçava Camus ou apenas estendia a mão num gesto fraterno. Então o francês adiantou-se e o abraçou, depois de desalinhar os cabelos revoltos de Hyoga.
Ficaram um tempo abraçados e aquele ato fez Camus pensar em Milo, na forma calorosa com que o grego o iniciara neste gesto... Me abrace Camus... Pareceu ouvi-lo sussurrar como o fazia nas noites em que faziam amor e, num ato instintivo de saudade, estreitou ainda mais Hyoga em seus braços.
Claire observava pela pequena fresta da porta entreaberta, seus dois filhos rindo e conversando como ela sempre desejou que o fizessem. Então, depois de limpar uma lágrima de felicidade, abriu a porta e disse emocionada:
– Posso mandar servir o jantar aqui no quarto, meus filhos?
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Fúlvia acordou de uma noite mal dormida assim que o sol invadiu seu quarto e uma brisa fresca agitou as cortinas de voal transparente. Nervosa, levou a mão ao coração como se fosse capaz de com este gesto apaziguar os pensamentos e temores que a dominavam.
Era sempre assim, sofria com um medo infundado que a enchia de pânico e que só amainava quando Saga vinha visitá-la. Então, surgiam outros medos que se somavam ao desejo... Queria-o, mas quando iam para a cama sentia um terror ainda maior e fechava os olhos suplicando para que tudo terminasse rápido.
Levantou-se da cama e caminhou descalça até a janela. O céu estava claro, sem uma nuvem sequer. As árvores centenárias que cobriam mansão ondulavam e algumas borboletas azuis iridescentes volteavam num bailado lento e colorido. Foi então que viu a carruagem negra e seu coração palpitou.
Alguém bateu na porta de leve e em seguida uma jovem entrou no quarto.
– Bom dia, senhora! Trouxe seu café da manhã e já preparei as suas roupas. O duque está chegando.
Fúlvia reprimiu um suspiro ao sair da janela. Não contava com a presença do marido, novamente.
– Está se sentindo bem, senhora?
– Estou Sarah. Só não esperava que ele voltasse... Não tenho bons pressentimentos quanto a isso.
– Talvez ele tenha sentido a sua falta. – respondeu a jovem.
Um sorriso sarcástico tomou conta do semblante da duquesa. Como se alguém como Saga pudesse sentir falta de alguém como eu... Disse baixinho para si mesma.
Saga estava cansado, mas obrigou-se a mostrar-se ereto e digno como era exigido de sua posição. Kanon apertava os olhos, desconfortável com a intensa luminosidade do lugar.
– Deus, além de doente vou ficar cego! – protestou o gêmeo ao descer da carruagem.
– Acostume-se, aqui os dias são claros e as noites são escuras. Tudo como deve ser. Não tive tempo de mandar avisar Fúlvia, então não estranhe se ela agir...de forma inesperada. Sabe que minha esposa também tem problemas de saúde.
– Bem, se eu fosse ela, no mínimo exigiria satisfações da razão de trazer seu irmão doente para cá.
– Ela é minha mulher e acatará o meu desejo.
Kanon riu e foi acometido por um acesso de tosse. Neste meio tempo, Fúlvia surgiu na porta com um ar trêmulo, porém obrigou-se a sorrir.
– Não o esperava, novamente, meu marido.
– Houve um contratempo, Kanon está debilitado e precisa passar um tempo ao ar livre. Recomendações do médico. Mande os criados prepararem o quarto de hóspedes e mande chamar o chefe da cozinha. Há um cardápio a ser seguido, enquanto meu irmão hospedar-se aqui. – disse Saga.
– Será feito como ordenou, meu marido.
Os olhos de Kanon se fixaram nos de Fúlvia, reconhecendo uma melancolia subjacente e, ao mesmo tempo, algo intenso. Ela esticou uma das mãos para cumprimentá-lo.
– Seja bem-vindo, senhor Kanon. Espero que se recupere logo.
Os dedos dela apertaram os dele e Fúlvia sentiu uma espécie de choque percorrer-lhe o corpo. Quando Kanon a soltou ela fechou a mão que ardia e tornou a olhá-lo, porém ele não parecia nada perturbado. Estou ficando louca... Pensou, enquanto dava o braço ao marido.
Naquela noite, o jantar transcorreu calmamente. Saga estava satisfeito com o comportamento de Fúlvia que parecia não ter desaprovado a vinda de seu irmão. Olhou-a com orgulho e tocou a mão pequena e magra.
– Estou muito feliz, minha querida. – Ele fez uma pausa antes de completar. – Não pretendo que se preocupe com a estadia de Kanon, eu mesmo ficarei alguns dias para acompanhar o tratamento.
– Claro. – disse Fúlvia baixando a cabeça e fitando seu prato intacto.
Sem saber o porquê, achava-se sem graça na presença do irmão do marido. Talvez fosse porque se acostumara a viver isolada, somente na companhia dos criados. Pensou enquanto observava Kanon sorrir para o irmão com uma visível adoração...
O resto da noite foi regado a conversas e Kanon, mesmo doente, revelou-se de bom humor e fez Saga e Fúlvia rirem bastante. No final, quando foram para os seus aposentos, Fúlvia fez questão de deixar seu cunhado à vontade.
– Se precisar de algo, seja a hora que for, não hesite em nos chamar. – disse ela com um sorriso gentil.
– Obrigado, cunhada. – disse Kanon e sorveu um cálice de vinho do porto misturado ao elixir que o médico receitara.
Fúlvia esperou até que Saga dormisse para então ir até o jardim privativo que mandara construir para si. Era um verdadeiro oásis verdejante e calmo que ela adorava percorrer. Ali, junto à variedade de arbustos e flores que formavam um pequeno recanto circular, ela encontrava a paz para os medos que surgiam de repente, tirando seu sossego e ameaçando a sua sanidade.
Ela sentiu os aromas de lavanda e rosa e continuou caminhando até uma pequena fonte cujas águas refletiam o filete de lua no céu. Sentou-se num banco de pedra e encolheu as pernas até o peito e apoiou o queixo nos joelhos, numa posição que desde criança a deixava confortável.
Encheu a mão de pedrinhas apanhadas do chão e foi deixando-as cair uma de cada vez. A cada som produzido, pensava em sua vida e em seu papel de esposa. Sim, era isso! Cumpria um papel, apenas isso...
Submetia-se ao marido, como era o dever de uma esposa, porém Saga parecia tratá-la como alguém que faz parte de uma rotina obrigatória e já fazia muito tempo que não tinham nenhum tipo de intimidade. No entanto, no jantar, ele pousara a mão sobre a sua e o que ela sentiu não foi nem de longe o que sentira ao tocar a mão do cunhado.
Sacudiu a cabeça como se quisesse negar o que estava percebendo. Tinha horror ao sexo, achava tudo dolorido e não conseguia relaxar. Então o que era aquela ardência que permanecia em sua pele e por que sentia uma excitação estranha que fazia seu estômago se contorcer?
–Perdoe-me.
Fúlvia levou um susto com aquela voz grave de repente. Kanon era uma grande sombra na escuridão junto à fonte. Eles se olharam ao som de folhas farfalhando ao longe e um assobio de alguma coruja.
– Não sabia que havia alguém aqui fora. – disse Kanon depois de tossir, ligeiramente.
– Pensei que já estivesse dormindo, milorde.
– Não consigo dormir, tem silêncio demais aqui. – disse Kanon .
Fúlvia sorriu.
– Sim, estamos bem longe do burburinho da Corte. Sei que deve estranhar bastante. Mas deve cuidar o ar da noite.
– Bem, vou voltar ao meu quarto.
– Por favor, não vá. – Fúlvia se apressou em dizer, surpreendendo-se. Não sabia o que queria do irmão de seu marido, mas também não queria que ele fosse, ela não tinha mais vontade de ficar sozinha.
Já de costas para ir embora, Kanon hesitou e depois virou-se, lentamente. Fúlvia não podia ver seu rosto naquela escuridão.
– Saga está dormindo?
– Sim, acho que sim.
– Acha?
– Dormimos em quartos separados. Só ficamos juntos quando...
– Vão prá cama!
Fúlvia desviou os olhos, constrangida. Será que ele percebia a total inexperiência dela nestes assuntos?
– Desculpe, sou um tanto descuidado. Não devia falar assim com uma senhora. Estou acostumado com a linguagem dos bordéis. – disse Kanon.
– Não tem importância... Já não sou uma donzela, embora minha vida com Saga não tenha me acrescentado muitas experiências. Porque falei isso? Uma vozinha gritou dentro da sua mente.
Kanon franziu o cenho e um sorriso malicioso insinuou-se nos lábios desenhados.
– Quer dizer que meu irmão não a satisfaz?
A voz de Fúlvia sumiu. As palavras de Kanon soaram como as pedrinhas que ela jogara, instantes atrás. Ela arrependeu-se de ter falado e a antiga sensação de pânico voltou com toda a força. Sentiu a garganta apertar e cambaleou, sendo amparada por Kanon.
– E-Eu... E-Eu n-não... c-consigo r-respirar!
Os olhos de Kanon se fixaram nos dela e ele segurou sua mão, agarrando-a com força. Os dedos dela apertaram os dele e, por um bom tempo, nenhum dos dois se soltou.
– Acalme-se... Ficou nervosa com o que eu disse, só isso. Novamente, peço desculpas.
Os minutos se passaram e Fúlvia sentiu um clamor de várias emoções simultaneamente, a necessidade de compreensão e de ser tratada com carinho, de ser amada...
Mas, então, como se acordasse de um sonho, Kanon a soltou e ela já sentia que podia respirar, novamente.
– Boa noite, Fúlvia. – disse Kanon, sumindo silenciosamente no breu do jardim.
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“Os dias passam com uma lentidão abominável. A reconstrução de parte da fábrica está levando mais tempo que eu imaginava. Os dias se transformaram em semanas e as semanas em dois meses. O plano inicial de procurar Milo teve de ser substituído já que os contratos assinados exigem que a fábrica esteja em condições de produzir o que é esperado. E todos esperam e se dedicam tanto quanto eu para que este negócio dê certo, pois isso significa bem-estar e trabalho para as famílias de Winchester.
Penso em Milo, todas as noites e temo que ele já tenha superado o que houve entre nós. Afinal, porque continuar ligado a um homem preconceituoso do interior, quando existem tantos outros mais fascinantes e de mente aberta?
Não sou uma figura trágica de um enredo Shakespeariano, mas confesso que penso ser, minha vida amorosa, um poço de obstáculos eternos que parecem não ter fim. Ainda ontem escrevi uma carta, mas desisti de enviá-la. Quero olhar nos olhos de Milo quando pedir seu perdão e, se não houver mais nenhuma chance para nós dois, ao menos não serei um covarde que se esconde atrás de linhas escritas em um papel.
Sempre fui um homem capaz de superar obstáculos, mesmo que este obstáculo seja um coração angustiado que precisa, desesperadamente, declarar o seu amor.”
Camus recostou-se à cadeira, soltando um gemido baixo. Já eram quatro semanas em que dormia tarde e acordava cedo. A fábrica estaria em condições dali a três dias e então ele iria para Londres.
Embora uma voz fraca protestasse em sua mente, dizendo que o silêncio de Milo era revelador, que ele já devia ter outro amante, ele teimava em seguir com o plano original e procurar o grego. Preciso saber... Preciso vê-lo! Dizia a si mesmo na solidão das madrugadas insones, quando acordava sentindo a falta dele.
Levantou-se e foi até a janela. Estava amanhecendo e um sol fraco filtrava-se pelas nuvens espessas no céu.
Olhou para os papéis em cima da escrivaninha e deparou-se com uma carta cujo selo era um emblema de uma casa nobre. Aquela carta não estava ali antes, tinha certeza. Pegou-a, sentindo uma estranha vibração no peito. Quando observou-a com atenção viu um F dourado dentro de uma moldura vermelho sangue. O símbolo da Casa Falsworth!
– Milo... – sussurrou Camus.
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Milo estava sentado no escritório na parte de cima da velha cafeteria. Ou o que havia sido a velha cafeteria. Atualmente, poucos lembrariam que há dois meses o edifício era apenas um fantasma, um abrigo de lembranças de outros tempos em uma zona um tanto... desfavorável.
Semanas de trabalho incansável e um considerável investimento em dinheiro transformaram uma quase ruína em um novo lugar e um polo de atração que incluía trabalhadores e nobres em pé de igualdade.
O Café Stephanopoulos, como era chamado.
Sem falsa modéstia, ele olhava ao redor constatando que o sucesso rápido e meteórico era obra sua. Não só por causa das horas que havia dedicado para erguer aquele negócio, mas porque sua reputação escandalosa atraía curiosos para ver o que o conde devasso havia construído e também para verificar a sua extravagância de aceitar, sem preconceito algum, qualquer cidadão honesto em seu estabelecimento fosse pobre ou rico.
Todos queriam ser conhecidos como frequentadores do Café do conde e também ter acesso ao dono que fazia questão de supervisionar todos os serviços.
Ainda havia muito a fazer. Haveria uma sala de jogos de tabuleiro e também salas para se ouvir poesia ou música de câmara. O que significava que teria de alugar uma casa, já que se mudara para o sótão depois de ter vendido sua casa a fim de levantar os fundos para a reforma do prédio.
Detalhes tediosos com os quais lidaria mais tarde. No momento, seus pensamentos estavam ocupados por um certo ruivo...
Trancava o cofre quando a porta foi aberta e Afrodite entrou com um sorriso radiante.
– Não imagina como foi difícil atravessar aquela multidão lá embaixo! O Café Stephanopoulos ou carinhosamente chamado Café do Condeé o espaço mais disputado da cidade.
– É o que parece.
– Talvez não saiba, mas seu sucesso não agrada a todos. Uma mulher horrível teve a ousadia de atirar o conteúdo de um penico no mesmo instante em passei!
– Tem certeza de que ela não estava apenas horrorizada com esse seu casaco amarelo?
– Meu casaco? Saiba que esse tom é a última tendência da moda!
– Da moda dos índios?
– Ingrato! Devia ir embora sem deixar o presente que vim trazer.
– Presente?
Afrodite colocou um cesto sobre a mesa.
– Aqui está. Peru assado, batatas souté ao molho cremoso de cogumelos, queijo, pão de centeio com passas e vinho.
– Um verdadeiro banquete...
– E você vai comê-lo antes de eu ir embora. Esse banquete veio da Pousada e foi mandado fazer, especialmente para você. Shura fez questão de supervisionar tudo.
– É muita gentileza de vocês dois, obrigado. – disse Milo olhando para a cesta sem nenhum apetite.
– Vamos, coma!
– Afrodite, você não é minha mãe. Não preciso dos seus cuidados. Já basta Fausto tentando me enfiar comida goela abaixo.
– Deus me livre ser sua mãe! Mas, Deus deu-me o fardo de preocupar-me com meus amigos e um, em especial, que é você! Portanto, pare de agir como um garoto mimado e coma!
Milo suspirou.
– Não há nenhum problema comigo, pode ficar tranquilo. Já mandei chamar Aldebaran, Mu e June para trabalharem comigo. Terei bastante ajuda e, então, poderei descansar. – disse Milo beliscando um pedaço de peru.
– Não há problema nenhum? Estranho, porque está pálido, abatido, perdeu peso e não o vejo fora deste edifício desde que o comprou, ao voltar de Winchester!
– Descobri que criar um negócio lucrativo é cansativo e exige muito.
– É só isso?
– Afrodite...
– Agora chega, Milo. Você vai me ouvir mesmo sem querer fazê-lo! Está sofrendo desde que voltou de Winchester. Não sorri, a não ser para ser educado com os frequentadores do café, não come direito e, pelas olheiras, dorme mal também.
– Sofrendo? Eu? Não acha que está sendo melodramático?
– Vai negar que esqueceu tudo o que viveu com Camus? Que não se apaixonou por ele?
– Está se metendo em assuntos que não são da sua conta.
– Não é a primeira vez. Sou metido, como bem sabe!
– É verdade. – disse Milo e, pela primeira vez, sorriu para o amigo.
– Pelo amor de Deus, Milo, procure Camus e resolvam de vez essa mágoa! Diga que o ama, mostre como sua vida mudou!
– Não é tão simples.
– É muito mais simples do que imagina, meu amigo. Quando se ama, tudo é possível.
– Não com Camus. Não nego que me senti ferido com a desconfiança dele, que me doeu na alma ser alguém que... ele despreza. Mas, ele não deixa de ter razão. Somos muito diferentes.
– Quando estavam na cama, essa diferença os impediu de se amarem? Ou foi exatamente, essa deliciosa diferença que os atraiu? Você seduziu parceiros e parceiras semelhantes a você e não amou nenhum. Camus casou-se com uma donzela cheia de princípios e, mesmo assim, ela o traiu quando se apaixonou por outro. Ou seja, neste caso, a semelhança não trouxe vantagem alguma! Permita-me, apenas mais uma pergunta: vai ficar aí sentado e perder o amor da sua vida?
– Vou.
– Não acredito! Meu melhor amigo é um covarde!
– Covarde não, apenas precavido. Vou dar a chance de Camus decidir se acha que vale a pena ficar comigo.
– E como fará isso se ficar sentado aí? Se demorar, ele presumirá que retornou a vida libertina.
– Veremos...
– Conheço essa expressão... O que está tramando Milo Stephanopoulos?
– Nada. Apenas ofereci a Camus a oportunidade de revelar se ainda significo algo para ele ou se desistiu de mim.
– O que você fez?
– Ah, Afrodite... espere e verá.
Notas finais
CHACAL_MALDITO, WITH, SION NEBLINA, MEL DARK, KASSIMINHA, DDKCAROLINA, JSCOSTA, SHASHA, KAO,MARCIABS, MI SCORPION E quem mais chegar!!!
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