Desejos Ocultos
15 Capítulo 15 LIBERTAÇÃO...
Notas iniciais
Uma das características mais marcantes de Camus era manter-se, aparentemente, confortável frente às situações em que sentia o oposto. Era sempre assim e com Hyoga, não houve exceção à regra.
– Creio que ainda existem detalhes desta festa que eu acredito precisarem do seu toque pessoal, Hyoga. Sabe como minha mãe às vezes age com certo exagero. Ficaria muito grato se pudesse ajudar-me a mantê-la, sob controle e afinal, você conhece a fábrica até melhor do que eu. – disse num tom gentil, porém afirmativo.
– Está bem, acho que tem razão! Até mais, senhor Milo. Espero que aproveite a visita. – respondeu Hyoga de imediato.
Quando virou as costas, Hyoga estava exultante. Sabia que Camus evitaria a sua companhia, ainda mais que estava com o grego. Um sorrisinho diabólico iluminou seus lábios. Pensam que sou burro ou ingênuo... Perfeito! Disse para si mesmo, enquanto dirigia-se ao local que detinha sua atenção e no qual poderia ficar o tempo que quisesse para organizar a sua festa particular e com o aval de Camus.
Quando estavam próximos a um grande carvalho onde uma carruagem já os esperava, Milo olhou para Camus e sorriu. Notava que o francês tentava agir como se nada tivesse acontecido, mas ele já o conhecia, suficientemente, para perceber aquele nervosismo velado...
– O que foi? – perguntou ele, ao ver Milo sorrir.
– Dispensou o garoto com muita classe, senhor Camus. – respondeu Milo.
Camus sorriu e sentiu um calor invadir-lhe as faces.
– Foi tão evidente, assim? – perguntou constrangido.
Milo gargalhou. — Não fique preocupado, creio que Hyoga esperava que recusasse a presença dele.
Aliás, ele me pareceu bem entusiasmado com a recusa. Pensou Milo, porém não dividiu sua observação com o francês.
Camus olhou-o um tanto surpreso, porém ao ver a expressão travessa de Milo, foi consumido por um desejo súbito. Sem que pudesse controlar pegou-o pelos ombros e recostou-o no tronco largo do carvalho, beijando-o com ardor.
A atitude surpreendeu Milo que, no entanto, aproveitou e aprofundou ainda mais aquele contato, permitindo que a língua cálida invadisse a sua boca numa exploração ansiosa, quente...
– Camus... – sussurrou Milo ao vê-lo afastar-se devagar e fechar os olhos numa tentativa de retomar o controle.
– Milo, eu...
As palavras não saíam. Camus sentia o hálito quente de Milo tocando-lhe a face como uma sedutora carícia. Sentia-se totalmente envolvido, ao ponto de não temer ser flagrado ali, ao ar livre e em plena manhã. Mas algo dentro dele teimava em alertá-lo e foi dali que tirou forças para afastar-se sem confessar seu amor.
– Vamos, a fábrica é pequena, mas toma um bom tempo percorrê-la. – disse por fim, com um sorriso trêmulo.
Milo fitou-o com uma intensidade que o fez parar. Camus não conseguia pensar com clareza. Todas as partes do seu ser queriam aquele homem. Se tal sentimento era mesmo amor, então ele estava perdido.
– Não se afaste, Camus... Eu preciso dizer que eu am...
– Senhor Camus! Senhor Camus! – Uma estridente voz feminina interrompeu a fala de Milo, fazendo-os se afastar um do outro.
Milo suspirou e Camus voltou-se para a origem do chamado.
– Sim, senhora Midler! Em que posso ajudá-la? – perguntou Camus disfarçando a irritação.
– A senhora Claire... Ela... Ela torceu o tornozelo! Disse que não é nada, mas não consegue firmar o pé no chão. – falou a mulher quase sem ar.
Camus levou a mão aos cabelos, a respiração um tanto alterada, porém a voz saiu firme:
– Estarei lá em um minuto.
Milo também respirou fundo. Por sorte, a senhora Midler gritara metros antes de chegar até eles. Ficou com a frase presa na garganta: Eu amo você, Camus! Queria ter dito e acabado de vez com a angústia que residia em seu coração.
Desde o início, Camus mexera com a sua vida. De repente, ser um devasso já não possuía o encanto de antes e talvez, nunca tivesse tido. Eram apenas ilusões de um homem que jamais tinha amado. Amor era diferente de paixão e, a luxúria, muito aquém do verdadeiro prazer que era fazer amor com Camus. Descobriu-se desejando Camus e somente ele... Precisava dizer que o amava olhando em seus olhos e ouvir o mesmo dos lábios que nunca cansava de ter nos seus.
Depois da festa! Disse a si mesmo e seguiu com Camus para ver a senhora Claire.
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A noite, passada com Aldebaran, tinha sido a realização de um sonho. Era assim que pensava Mu ao inspirar o ar fresco da manhã e deixar o sol banhar seu rosto com sua luz agradável e cálida.
Como era bom viver! Mesmo que dali a dois dias tivesse que voltar ao trabalho, neste momento a única emoção que o preenchia era a alegria ímpar de amar e ser amado.
A porta se abriu e June entrou com aquele olhar que ele já conhecia. Irrequieta, ela pegou-lhe as duas mãos e perguntou num tom conspiratório:
– E então? Como foi a noite?
Mu ficou vermelho e com tal expressão de felicidade que June arregalou os olhos e levou a mão aos lábios.
– Não! Você e ele... Vocês dois! Está escrito nos seus olhos, seu safado!
Os dois riram e se abraçaram. June beijou-lhe as mãos num ato de extrema cumplicidade e rodaram pelo quarto até sentarem para falar sobre o assunto.
Ao longo da conversa, Mu sentiu um íntimo contentamento em poder dividir sua felicidade com alguém. June era sua única amiga e muito discreta, fato não muito comum entre cortesãs jovens e bonitas como ela. Contou-lhe tudo e, no final, abraçaram-se e riram até ouvir duas batidas na porta.
A porta se abriu e madame Walmot entrou. Como sempre, a elegante senhora exibia um olhar aguçado que Mu associava às Harpias da mitologia grega e portava-se com igual postura parecendo querer enfiar as garras em quem a desobedecesse.
– Então, meu querido! Fico feliz em vê-lo bem disposto... Até seu rosto já está sem aquela mancha roxa e desagradável. – disse ela, pegando-o pelo queixo.
– Sim, senhora. – respondeu Mu , sério.
– Lorde Kanon esteve aqui ontem à noite. Queria vê-lo para desculpar-se e quem sabe... Bem, mas não permiti que ele o incomodasse, porque não tinha certeza da sua recuperação. Mas, ele prometeu voltar hoje.
– Mas... Madame, a senhora deu-me uma semana de repouso e ainda faltam dois dias para que ela termine. – falou Mu.
– Eu sei. Não estou pedindo que dê prazer ao lorde. Apenas converse com ele e voltem às boas. Lorde Kanon é um cliente precioso que paga muito bem pelos nossos serviços, seria uma lástima perdê-lo.
Mu sentiu-se invadir por um misto de raiva e náusea e, sem dar-se conta, conteve a respiração por alguns instantes como se de repente tivesse medo de trair-se e dizer que nunca mais se deitaria com lorde Kanon ou nenhum outro. Sentiu o toque discreto de June em seu braço e recobrou o controle.
– Está bem, madame. Eu receberei lorde Kanon para conversar.
Madame Walmot correu os olhos pelo rosto de Mu e então sorriu.
– Você é um jovem adorável... Se souber aproveitar esse corpo e o talento que a natureza lhe deu, pode acabar se tornando amante permanente de um nobre rico. Se mantê-lo satisfeito, pode ter segurança e cuidados para o resto da vida.Pense nisso com carinho. – disse ela depositando um beijo na face de Mu.
Assim como tinha entrado, madame Walmot retirou-se e Mu desabou na cama, afundando a cabeça nos travesseiros. De repente, a luz que era filtrada pelas cortinas transparentes já não o aquecia e parecia transformar-se em uma sombra funesta e de mau agouro...
– Inferno! – exclamou, começando a socar os travesseiros com raiva.
– Não fique assim, peça que tragam bastante bebida para o quarto. Faça lorde Kanon beber bastante e não terá que ouvi-lo por muito tempo. – disse June.
– E quando esse recurso não funcionar? E quando eu tiver que deitar-me com ele? Não quero e nem consigo imaginar o toque daquele homem...
– Dele, somente? Pelo seu estado, vejo que será difícil deixar-se tocar por qualquer um que não seja... Aldebaran. Oh! Meu amigo, não sei se fico feliz ou temerosa por você.
Mu franziu o cenho e suspirou, exasperado. Tinha que suportar mais um tempo. Pois, mesmo que seu coração pertencesse a Aldebaran, seu corpo pertencia à madame Walmot, uma dualidade terrível com que tinha que conviver...
Era ainda cedo da noite quando o Ânfora abriu suas portas. Kanon atirou o casaco e o chapéu para o homem franzino e virou-se para as portas do salão onde eram esperados os clientes.
Havia uma música suave para permitir as conversas e risadas e, belas cortesãs desfilavam como ninfas, atraindo os homens com gestos ou olhares. Ao entrar, Kanon viu o rosto pálido de Mu em meio aos demais e sorriu satisfeito. Sentiu uma excitação imediata no baixo ventre, enquanto caminhava na direção do jovem que vestia-se tão sobriamente que nem parecia estar ali para atrair e oferecer prazer.
– Gostaria de uma bebida, meu lorde? – perguntou uma das cortesãs que deslizava pelo salão com seu vestido transparente.
Kanon serviu-se de um uísque e continuou indo em direção a Mu que conversava com um homem baixo e calvo.
– Com licença, creio que sua companhia está reservada a mim. – disse Kanon empurrando o homem e colocando-se a frente de Mu.
Mu teve vontade de recusar, mas havia dito à madame Walmot que o receberia, então, assentiu com um movimento de cabeça e sentou-se na bergère de veludo vermelho.
– Estou ouvindo, milorde. – disse num tom seco.
– Não aqui. Madame cedeu-me o seu próprio quarto para termos privacidade. Vamos?- falou Kanon.
– O quarto de madame? Porque ela faria isso? – perguntou Mu franzindo o cenho.
– Porque eu paguei! E muito bem pago. – disse Kanon estendendo a mão para o jovem.
– Não vejo porque ela faria isso se vamos apenas conversar. – disse Mu ignorando a mão estendida.
Kanon estreitou os olhos e seu sorriso tornou-se matreiro, parecendo um lobo avaliando a caça...
– Pedi que ela me cedesse um espaço diferente dos demais para que possamos ficar mais à vontade e para que eu... pudesse desculpar-me pela violência com que o tratei. Não estava em meu juízo perfeito. – disse o lorde, pegando a mão de Mu e depositando um beijo na palma, ato que desencadeou um arrepio desagradável no corpo do jovem.
A situação não agradava a Mu, porém ele não tinha escolha. Olhou em volta, notando que Collis, o homem franzino que estava substituindo Aldebaran encontrava-se no hall de entrada. Sentiu-se melhor em saber que seu amado não o veria subir com Kanon. Inspirou fundo e seguiu com o lorde até os aposentos de madame Walmot.
June estava no colo de um homem rechonchudo e bonachão que mais gostava de beber, rir e contar piadas que usufruir da companhia íntima de uma mulher. Porém, ela estava satisfeita. Assim, poderia ficar atenta aos movimentos da casa, não precisava cansar-se em agradar e ainda guardava energia para um cliente que fosse mais bonito, jovem e... asseado.
Quando Aldebaran voltou, ela viu que ele conversava baixo com Collis e que, aos poucos, a expressão, sempre alegre e franca, ia mudando para o cenho fechado e o maxilar tenso.
Lentamente, ele desvencilhou-se de Collis e veio em sua direção. Rapidamente, ela saltou do colo de seu cliente com a desculpa de ir ao toalete e foi ter com Aldebaran.
– June, é verdade o que Collis disse? Aquele homem está aqui e com Mu?- perguntou ele, baixinho.
– Sim, é verdade. Mas, madame disse que hoje os dois vão apenas conversar. – respondeu June abrindo o leque e suspirando.
Aldebaran fechou os punhos. O rosto viril ficou coberto por uma expressão de raiva que fez June sentir um frio na espinha.
– Fique atenta. Qualquer coisa, seja um tom de voz mais alto ou um barulho qualquer, me chame! – disse ele.
– Cuidado, meu amigo... Madame está circulando e até ofereceu sua suíte para que o lorde converse com Mu.
– Não sou eu que tenho que ter cuidado. Se ele ousar... Se ele tentar qualquer coisa, não respondo por mim!
– Shiii... Madame está vindo. Volte para a portaria. – sussurrou June voltando rápido para o colo de seu cliente com mais uma garrafa de bebida e um falso brilho de interesse nos belos olhos.
O quarto de madame Walmot surpreendera Mu que jamais havia entrado ali. A cama ampla e confortável era encimada por um dossel de cetim cor de safira e continha um par de algemas de ouro pendendo da cabeceira. O cômodo era mobiliado com madeira escura e reluzente e as cortinas eram bordô com detalhes em dourado. Uma penteadeira trabalhada mostrava um conjunto de três espelhos que pareciam disputar, entre si, o reflexo do espaço luxuoso e ousado.
– Parece que madame também se diverte... – disse Kanon rindo e sacudindo o par de algemas com um brilho sádico nos olhos.
Mu sentia-se estranho, como se o ar pudesse ser tocado, tal era a sua tensão. Também o incomodava não saber as razões dela ter cedido seus aposentos ao lorde. Não era do seu feitio ser tão generosa... Notou também, que havia uma garrafa de champanhe com duas taças em uma mesinha, assim como uma travessa com carne assada, pães e frutas.
Kanon sentou-se numa grande poltrona roxa ao lado da mesa e da lareira que já estava acesa e mantinha o ambiente aquecido. Pegou a garrafa, abriu-a e serviu.
– Venha até aqui... Planejei esta noite para encerrarmos de uma vez aquele mal-entendido. Sabe como aprecio a sua companhia, não é?
Ditas as palavras, Kanon aproximou-se e estendeu a taça para que Mu a pegasse e, quando ele o fez, puxou-o para si, abraçou-o e beijou-o no pescoço. O jovem remexeu-se, inquieto, e desvencilhou-se do lorde.
– O que foi? – perguntou Kanon, estranhando o afastamento.
– Viemos aqui para conversar e somente isso. – disse Mu.
Kanon estreitou os olhos, agora com uma fúria velada que se misturava ao desejo que sentia. Sentado, abriu os botões da calça, deixando que suas pernas ficassem bem abertas, exibindo para Mu sua enorme e bela ereção. Sorriu ao ver que ele não parava de olhar para aquela região e com apenas o dedo indicador chamou-o, olhando-o com profunda malícia.
– Existem muitos tipos de conversa... Algumas superficiais e outras... profundas! Agora seja bonzinho e venha ter comigo o tipo de conversa que me agrada. Dê-me prazer com essa sua boca quente e esqueça de vez que tivemos um desentendimento...
Mu continuou olhando-o, parado no meio do quarto. Lutava contra a náusea que teimava deixar-lhe um gosto amargo na boca. Seu coração batia forte e sua respiração já se descontrolava. Não quero ir com ele! Não posso!
– Sinto muito, milorde. Mas, esta noite, não. – disse por fim.
– Pois, vai deitar-se comigo por bem ou por mal! Com quem acha que está lidando, seu... vadio?! Pensa que pode recusar-me? Sou um cliente e você é a mercadoria. Paguei para tê-lo com exclusividade e vou tê-lo! – gritou Kanon levantando-se da poltrona e avançando na direção de Mu.
Mu não respondeu e preparou-se. Lembrou-se dos golpes que vira na luta de Aldebaran e achava que podia usar um deles, desde que se mantivesse calmo e estático, deixando que o lorde viesse com toda a sua fúria.
E foi o que aconteceu. Kanon investiu tentando agarrá-lo pelo braço e Mu desviou para o lado, elevando o joelho e golpeando-o no estômago. O lorde resfolegou, porém ao cair, agarrou-se na calça de Mu e levou-o ao chão.
Batendo com a cabeça na ponta da cama, Mu ficou atordoado por alguns segundos e Kanon sendo mais alto e mais pesado, aproveitou-se para imobilizá-lo. No entanto, no momento em que os braços poderosos de Kanon o envolveram, ele rolou sobre os próprios ombros e o atirou, novamente, no chão.
Kanon foi surpreendido pela agilidade do golpe. Com quem ele tinha aprendido aquilo? Passado o susto, Kanon fez um rolamento e levantou-se no momento exato em que Mu ia em direção à porta.
– Ah... então é assim que gosta, não é? Eu tentei ser gentil, mas gente da sua laia gosta de ser tratado com violência! Vou ensiná-lo... Quando eu acabar com você, ninguém mais vai querê-lo e você vai implorar para que eu o possua! – gritou Kanon puxando-o pelos cabelos, torcendo sua cabeça para trás.
Mu não gritou. Não ia dar esse gosto a Kanon. Então cerrou os dentes e preparou-se para reagir quando a porta do quarto abriu-se com um violento estrondo.
– A-Aldebaran... – disse Mu ao ver o amante abrir caminho com um potente chute.
Kanon enfrentou-o com o olhar, porém sabia não ter condições de enfrentar um homem do porte de Aldebaran. Largou Mu e tentou usar de autoridade para com o funcionário do bordel.
– Estou no meu direito e ninguém o chamou aqui! Agora saia e volte para a portaria que é o seu lugar! – disse Kanon com um tom de comando.
– Antes... Vou colocá-lo no seu lugar, milorde... Na rua!
A voz de Aldebaran soava tranquila, mas ameaçadora e, por um segundo, encontrou o olhar raivoso de Kanon.
– Eu sou um nobre e um dos melhores clientes desta espelunca! Não ouse tocar-me, pois vai se arrepender! Meu irmão vai...
Aldebaran não deixou Kanon terminar. Pegou-o pelo colarinho e sacudiu-o como um boneco de pano, satisfeito por ver a cabeça do lorde balançar, de um lado para o outro, com os olhos cheios de medo.
Arrastou Kanon até a porta do quarto, surdo para os protestos que ele fazia e o atirou escada abaixo, vendo-o rolar, rastejar e resfolegar sob o olhar assustado dos clientes que ainda estavam no salão.
Ainda como se fosse um boneco, Kanon estatelou-se e ouviu-se um clac junto com um grito de dor.
– M-Meu ombro! Maldito, quebrou meu ombro! – berrou Kanon, a boca espumando de raiva. – Meu irmão vai mandar açoitá-lo!
Aldebaran não respondeu com palavras, apenas com um sorriso irônico, enquanto se aproximava e pegava Kanon pelos cabelos com uma mão, puxando sua cabeça para trás como ele fizera com Mu, enquanto com a outra, apertava seus genitais com tanta força que o lorde arfou e perdeu a respiração.
– N-Não... D-Deus que dor!N-Não faça i-isso!Largue-me... P-Por F-Favor! – falou Kanon num fio de voz. Os olhos injetados e a dor visível, na expressão aflita.
– Agora escute e escute bem... Vai deixar Mu em paz e jamais vai tocá-lo com essas mãos imundas! Entendeu? ENTENDEU?! Se ousar procurá-lo, eu o tornarei um eunuco e depois o mato!
No mesmo instante Madame Walmot adentrou o salão e viu a cena dantesca. Kanon caído com o braço pendurado e Aldebaran apertando-o e sacudindo-o sob os olhares dos clientes que agora saíam dos quartos para ver o que tinha acontecido.
– Mas o quê...? O quê está acontecendo aqui? – perguntou ela.
– Kanon tentou agredir o Mu, madame! Nós ouvimos a discussão em seus aposentos e fomos chamar Aldebaran. – disse June com uma expressão injuriada.
– É-É m-mentira! E-sse seu brutamontes me agrediu! Vou mandar prendê-lo! E também vou mandar fechar esta espelunca... Juro que vou! – gritou Kanon com a boca espumando, ainda estirado no chão e contorcendo-se de dor.
Com uma expressão grave, madame Walmot dirigiu-se a Mu e Aldebaran. Olhou-os como se estivesse buscando a verdade em seus olhos, movendo-se como uma leoa à espreita da caça.
– Cedi meus aposentos para o lorde, porque ele afirmou que o desejava com exclusividade. Achei que o tomaria como amante permanente e vislumbrei segurança para o seu futuro. Mas, vejo me enganei com ambos... – disse ela, olhando diretamente para Mu.
– Madame... eu não... – Mu iniciou a frase, mas não conseguiu concluí-la.
– Silêncio! Eu não sou tola, meu jovem. Esse sujeitinho vil, apenas acelerou as coisas. Mais cedo ou mais tarde essa doença, chamada amor, o deixaria inútil para o prazer compartilhado. Pensei que poderia livrá-lo desta armadilha, mas agi, tarde demais e com a pessoa errada!
Com um suspiro e um revirar dos olhos, madame Walmot olhou para Aldebaran.
– E você, grandalhão... Nunca lhe disseram que na “casa onde se ganha o pão, não se come carne?” Tinha que seduzir logo um dos meus preferidos! Com esses seus... dotes, podia seduzir uma mulher qualquer, enchê-la de filhos e deixar-me continuar a prosperar em meus negócios! – disse ela olhando para os genitais de Aldebaran.
Aldebaran abraçou Mu de forma protetora. Ia tirá-lo daquele lugar com ou sem a permissão de madame Walmot. Abriu a boca para responder quando ela fez um sinal com o dedo para que ficasse calado.
– Fique calado! Já basta de confusão por hoje! Peguem as suas coisas e sumam da minha vista. – disse por fim, colocando a mão na testa como se estivesse sentindo dor de cabeça.
Mu sorriu e subiu correndo as escadas. Aldebaran hesitou um pouco, porém subiu logo atrás. June olhou para madame Walmot com uma expressão de dúvida.
Kanon olhou-a com raiva e continuou a esbravejar:
– Pedirei ao meu irmão que mande fechar este lugar! Chame um médico, mulher! Estou seriamente ferido!
Madame Walmot aproximou-se, discretamente de Kanon e chutou-lhe a cabeça, deixando-o inconsciente.
– Oh! Meu Deus! Meu pé escapou e atingiu a cabeça do pobre rapaz... – disse ela levando a mão à boca num gesto teatral, enquanto pensava: Sujeitinho horrível e desagradável! Faz-me agradecer a Deus por não ter tido filhos! E você, o que está olhando, garota tola? Você também é outra que qualquer dia destes vai me aprontar! Vá até o meu escritório e pegue uma caixa de madeira que está na prateleira ao lado do vaso chinês. Vá rápido!
June correu e voltou em seguida, trazendo uma caixinha de cor escura, esculpida com motivos florais.
– Aqui está, madame!
A cafetina abriu a caixa e retirou um maço de notas junto com um anel de rubi, entregando-os a June. A jovem olhou-a boquiaberta e então perguntou:
– Para que está me dando isso, madame?
– Eu tenho uma pequena propriedade em Berkshire. Fiquem lá por uns tempos até tudo ficar resolvido. Certamente, terei problemas com o duque, embora eu saiba como lidar com a nobreza. Tudo ficará mais fácil sem o pomo da discórdia e seu Hércules renascido! E você, Vênus trapaceira irá com eles. Coloque o anel! Vai fingir ser esposa de um e irmã do outro, afinal, irão ficar em um lugar afastado e muito ligado à moral e aos bons costumes. Mando avisar quando puderem retornar à Londres.
– Com todo o respeito, madame Walmot... Porque está fazendo isso? – perguntou June desconfiada.
– Porque sou uma megera tola e decrépita! – exclamou madame Walmot. – Agora vão e rápido! Deixe que mando levar suas coisas depois!
Quando Mu e Aldebaran desceram com a pouca bagagem, encontraram June vestida para sair. Olharam-na, espantados, enquanto ela sorria e lhes oferecia o braço.
– Meus queridos, já chamei uma carruagem. Vamos? – disse ela com um sorriso largo.
– Mas, como? Quer dizer, você também vai?
– Vamos logo! No caminho eu explico. – respondeu June.
Quando os três deixaram o bordel, não viram a silhueta na janela que os observava. Madame Walmot levou a mão ao peito e acenou, mesmo sabendo que nenhum deles olharia para trás...
Só então se permitiu sorrir e deixar cair uma lágrima solitária ao olhar para a tela na parede no quarto de vestir. A pintura exibia uma bela jovem de olhos profundos e verdes cujos pulsos estavam presos a algemas de ouro, suspensas em uma coluna de mármore.
Sorriu ao lembrar-se do dia em que Jane deixara-se retratar para compor aquela obra erótica. Ainda tinha aquelas algemas sobre sua cama como um lembrete de sua ousadia, de seus sonhos e de sua traição...
Eram amigas íntimas, jovens e tão cheias de planos, naquela época. As dificuldades da extrema pobreza as tinham levado a vender o corpo, porém Jane jamais deixara de sonhar com o príncipe encantado e em sua busca, fizera todas as loucuras possíveis e inimagináveis. Uma delas, fora trair sua melhor amiga para viver com seu amante, no interior.
Jane fugira roubando sua única joia de valor que lhe tinha sido dada por um duque: um anel de rubi cravejado de pequenos diamantes e se entregara de corpo e alma ao amor que perseguia em todos os homens com os quais se deitava.
Passaram-se alguns anos de extenuante trabalho, até que Walmot passasse de cortesã à dona de um bordel. Porém, ela tinha conseguido com sua sagacidade, sua beleza e, principalmente, seu distanciamento das promessas vazias do amor...
Quinze anos depois, um jovem batia à porta do Ânfora e dissera que sua mãe havia morrido e que estava só, no mundo. Antes que ele dissesse o nome, ela já sabia quem era sua mãe... Os olhos... ele tinha os mesmos olhos profundos de Jane!
– Minha mãe pediu que me colocasse aos seus serviços, senhora e que lhe devolvesse isso. – disse o jovem entregando-lhe uma pequena caixinha entalhada com motivos florais.
No início, pensara em dispensá-lo, pois cada vez que olhava para seu rosto, era Jane que via, fitando-a com aqueles olhos verdes. Guardava um profundo ressentimento da traição, entretanto, em algum lugar do seu coração ainda residia um pouco de compaixão.
Resolvera deixá-lo em atividades domésticas, afinal, mais um criado na casa seria bem-vindo. Porém, a beleza e a sensualidade natural de Mu chamava a atenção dos clientes, fazendo-a pensar em aproveitá-lo melhor...
Então um dia, o jovem deixou-se seduzir pelas necessidades de seu corpo e, sob sua orientação, foi possuido por um cliente gentil e muito experiente. Iniciado nos prazeres do sexo, Mu logo passou de aprendiz a mestre, tornando-se um dos mais procurados da casa, outra característica que herdara de sua mãe.
Todas as noites, ela se perguntava se aproveitara uma bela oportunidade, ou estava sendo vingativa e inescrupulosa. Dizia a si mesma que o jovem não tinha culpa, que um dia, o deixaria seguro, tornando-o amante de um nobre que o quisesse sustentar...Tentara isso com lorde Kanon, o que se revelara um erro tão estúpido quanto o de achar que Mu não herdaria a fome de amor de sua mãe.
De repente, não sentia mais mágoa do passado e sim uma leveza de quem perdoa a si mesma e ao outro. Abriu uma garrafa de champanhe e elevou a taça em frente ao retrato, fazendo um brinde à imagem que parecia compartilhar de todos os seus segredos, assim como a mulher que um dia lhe servira de modelo:
– À você, Jane e ao seu filho que, assim como você, ousa fazer o impossível para encontrar a felicidade no amor! E a mim, uma velha tola e covarde que sempre teve medo de ir ao encontro dele...
Notas finais
Obrigada a todos que apoiam, leem, comentam, silenciam, vibram!
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