Desejos Ocultos

16 Capítulo 16 CARELESS WHISPER...


Como de hábito, Saga analisava sua correspondência na biblioteca. Vários compromissos em suas diversas propriedades tinham exigido dele constantes viagens e isso, havia desvirtuado suas intenções de ver Afrodite. Um destes compromissos, era a visita mensal que fazia a sua esposa na casa de campo.


De saúde frágil, lady Fúlvia Cromwell Kaligaris residia fora de Londres em uma propriedade luxuosa e confortável onde o ar puro e o silêncio se constituíam numa tentativa de melhorias em seu bem-estar físico e mental. Mesmo que a sociedade soubesse que o duque mantinha ligações extraconjugais, fato que, entre os nobres era considerado moderno e necessário, era sabido e notório que não descuidava de seus deveres como esposo e também como administrador do vultoso dote que recebera com o matrimônio e unira à sua fortuna.


Saga ergueu um pouco a cabeça da poltrona, virando-a para a escrivaninha ao lado, a fim de olhar para a pintura que retratava Fúlvia e ornava a parede em tons de creme e ocre.


Sua esposa não possuía um olhar sedutor e sim triste e apagado. Havia casado por um arranjo familiar baseado em interesses políticos e financeiros. Como resultado, não havia nem amor, nem atração entre eles. Ela jamais apreciara os jogos de amor na cama e era tudo muito rápido e enfadonho, ao contrário das noites em que possuía Afrodite e se permitia experimentar um erotismo selvagem que o deixava satisfeito e exausto. Por isso, tomara o belo devasso como amante e desejava preservá-lo até que se cansasse dele.


Quando chegara de volta à Londres ouvira rumores, que ele andava reservado, pouco era visto nas festas e saraus e que se portava de um modo... discreto. Sorriu ao lembrar a ultima palavra. Discreto não era um adjetivo a ser aplicado à Afrodite. Na última vez que tinham se encontrado, ele estava com o tal espanhol cuja compra de duas propriedades tivera o prazer de embargar... Há essa hora, ele já devia ter dispensado o novo amante.


Sabia que Afrodite apreciava divertir-se, mas sempre retornava aos seus braços e aquele convite perfumado e com o seu selo, que agora estava em suas mãos, era como uma confirmação. Havia um intenso aroma de rosas com um leve toque lavanda, uma fragrância que ele apreciava por inúmeras razões...


Ergueu a correspondência, examinando-o à luz pálida do sol que banhava a biblioteca. Havia uma pequena chave acompanhando o convite e isso o fez sorrir, ainda mais. Certamente, haveria muito prazer ligado àquele artefato...


Continuava mergulhado em imagens eróticas das noites passadas com Afrodite, quando o desagradável ruído da porta sendo aberta as desfez como por encanto. Tentando não deixar transparecer seu aborrecimento em ser interrompido, enquanto o criado se aproximava, o duque deixou a correspondência fechada a sua frente e olhou-o, enquanto ele fazia uma mesura.


– Bom dia, milorde. Perdoe-me entrar assim, enquanto lê sua correspondência mas...


– Temos algum incêndio? Não, claro que não! Então... O que Kanon aprontou desta vez? – perguntou Saga com impaciência e um olhar fulminante.


O criado, que servia ao duque desde que ele era criança, não se abalou diante do olhar incisivo, embora a notícia que trouxesse fosse desagradável. Com o semblante inalterado, falou:


– Seu irmão teve um pequeno acidente na casa de madame Walmot.


– Pequeno acidente? Em um bordel?


– Sim, milorde.


Saga levantou-se da poltrona e levou a mão aos cabelos. A irritação somada ao fato que não conseguia dar um basta às atitudes irresponsáveis do irmão.


– Que tipo de acidente? – perguntou num tom perigosamente calmo.


– Caiu da escada, milorde.


– Santo Deus! Estava bêbado?


– Não tenho conhecimento dos detalhes, milorde. Apenas, tomei a liberdade de mandar trazê-lo para cá, para evitar comentários. Assegurei-me da discrição da cafetina e creio que não haverá muitos rumores sobre o fato.


Saga disfarçou um sorriso. Não lhe incomodava que o criado tentasse abrandar a inconveniência do irmão. Kanon podia ser impetuoso, desajuizado, inconsequente, mas não duvidava de seu charme e carisma, nem da afeição que despertava em quem o conhecia desde criança.


O que ele teria feito num bordel para cair da escada? Era o que se perguntava, enquanto sentia-se testado pelo irmão, até o limite.


– Acomodou-o no quarto de hóspedes?


– Ele... pediu para ser levado para o seu, milorde.


– Os meus aposentos? – perguntou Saga com um olhar incrédulo.


– Sim, milorde. – disse o mordomo curvando-se com elegância e batendo em retirada, sem esperar que o duque dissesse algo.


Saga suspirou, longamente. Nessas horas, sentia muita falta do pai. Embora o duque Kaligaris sempre tivesse uma preferência explícita pelo seu irmão, ficando todo o tempo livre com ele e mimando-o de todos os jeitos possíveis, era o único a quem Kanon obedecia. Ambos estavam com apenas dez anos quando ele sucumbira à doença dos pulmões e Kanon fora o que mais sofrera com a perda, desenvolvendo uma personalidade inquieta e desajustada.


Seu irmão possuía um comportamento dual, por um lado era travesso e dissimulado. Por outro, era carente e necessitava de atenção e companhia. Parecia não saber ficar só e sua mãe não nutria por ele a mesma preferência que seu pai. Muitas vezes, via a mãe tratá-lo com tanta indiferença que chegava a doer em si, algo que não entendia, mas que tentava compensar sendo um irmão presente, um pretenso substituto do pai.


E foi com esta responsabilidade sobre os ombros que ele sempre sucumbira às necessidades do irmão, algo que exigia um grande desprendimento emocional, uma tarefa que acabou por marcá-lo profunda e dolorosamente...


Porém, mesmo vigiando-o, não conseguiu impedi-lo de transformar-se num bon vivant inconsequente e imaturo. E agora, depois de adultos, tal combinação tornara-se um desastre que ele tinha que resolver mesmo sentindo-se impotente para tal.


Ao entrar em seu quarto elegante e amplo, Saga deparou-se com o irmão coberto pelo lençol dormindo encolhido como o fazia quando era criança. A luz que incidia em um pequeno fio iluminava parte dos cabelos revoltos de Kanon, fazendo-o parecer angelical.


Um anjo caído! Pensou Saga enquanto se aproximava da cama e sentava-se junto a ele.


Kanon remexeu-se inquieto e ele notou que havia uma atadura no ombro do rapaz. Levou a mão à testa do irmão e depois desceu-a pelo rosto adormecido. Sorriu enternecido em ver-se nas faces pálidas e belas e, mesmo assim, saber-se tão diferente dele. Kanon acordou, neste momento e passou a língua pelos lábios secos.


– Tenho sede... – murmurou.


– Está febril. – disse Saga franzindo o cenho e buscando a jarra de água fresca próxima à cama.


Kanon tentou sentar-se e Saga o ajudou. Por um momento, os olhares se encontraram e o mais novo sorriu.


– Estou em sua cama... Lembra que quando éramos pequenos e eu sempre queria dormir com você?


– Lembro. Já era inconveniente desde sempre. – respondeu Saga num tom de brincadeira. – Mas, agora, diga-me, o que aconteceu no Ânfora?


Kanon piscou e tornou a deitar-se, gemendo levemente ao acomodar o ombro e o braço.


– Não quero falar disso agora. – disse de olhos fechados.


– Mas, eu quero. O que aconteceu, porque está assim? Quanta confusão ainda vai atrair, para si? Vamos viver eternamente neste ciclo de conflitos?


Kanon abriu, vagarosamente, os olhos. Havia um brilho febril neles e algo mais...


– Me abrace... Por favor... – pediu ele.


Saga suspirou, profundamente, cruzando a pequena distância entre os dois, envolvendo-o em um abraço. Rendendo-se ao apelo como o fazia quando eram pequenos e como o fizera, um dia, em uma situação inusitada eespecial.


Kanon arfou, sentindo um pouco de dor, mas mesmo assim, continuou atrelado ao gesto.


– Machuquei-o? – perguntou Saga, preocupado.


– Não, não me solte! – gritou Kanon estreitando ainda mais o contato.


Ficaram um tempo, unidos. Saga acariciou-lhe os cabelos escuros e sentiu-lhe a respiração quente próxima ao pescoço. Pensou em como era bom quando eram, apenas, meninos alegres e despreocupados brincando nos jardins da mansão. Quando não havia malícia nos toques e sorrisos... Sentiu seu peito tomado por um sentimento tão intenso que chegava a doer.


Kanon mantinha os olhos fechados, enquanto sentia o coração aquecido e o corpo... terrivelmente, excitado. Saga pareceu pressentir algo e desfez o contato.


– Durma um pouco. Depois conversaremos. – disse Saga beijando-o na testa e levantando-se da cama.


Kanon assentiu e fechou os olhos, novamente. Emoções conflitantes misturavam-se à dor em seu corpo. Não sabia quem era, via-se constantemente possuído por um personagem de si mesmo. Vivia em um limite perigoso entre a sanidade e a loucura... Agarrava-se às obsessões, ao sexo e aos atos violentos para saciar o vazio em seu corpo e seu coração.


Frustração, cansaço e... desejo. Precisava apagar o último item da lista. Precisava esquecer, deixar no passado, o único momento em que se entregara por inteiro, que se sentira inteiro, porque, pelo visto, Saga já o tinha feito...


Ao deixar seus aposentos, Saga comprimia os lábios com a mesma sensação de dez anos atrás, angústia, medo e desejo... A porta foi fechada e ele encostou-se a ela, inspirando fundo. Levou os dedos aos lábios e cerrou os dentes para controlar o tremor em seu corpo. Preciso ver Afrodite! Pensava com o rosto tenso e o coração descompassado.


Entretanto, mesmo evocando a imagem do amante, o que veio à sua memória foi o dia em que sua família deixou a mansão em Brighton e veio morar em Londres, após a morte de seu pai.

Kanon ficara desajustado com a perda, mas seu jeito extrovertido e o dinheiro que possuíam logo atraíram contatos e amizades com facilidade. Muitas destas ligações se revelaram inadequadas, acentuando seu comportamento desregrado, fazendo-o exceder limites.

Então uma vez, Kanon sumira e sua mãe, que não conseguia refreá-lo, havia pedido para fosse procurá-lo. “Por favor, Saga! Dê um jeito em seu irmão!” Ela implorara com visível desprezo em sua voz.

Foram dois dias de busca até encontrá-lo em uma casa de ópio. A cena degradante ficara gravada em sua memória. Kanon estava deitado em estado letárgico, enquanto um homem e uma mulher enfiavam as mãos por sob a sua roupa e tocavam-no de todas as formas obscenas possíveis.

Estavam então com dezesseis anos e ver seu irmão daquele jeito produzira uma raiva inominável. Sentia-se responsável e mais velho, ainda que sua “maturidade” fosse de apenas alguns minutos.

Ameaçara os donos do estabelecimento e arrastara-o para fora, levando-o para uma das propriedades adquiridas pela família, depois de tranquilizar sua mãe e dizer que Kanon estava bem, que se envolvera apenas em um longo e malfadado jogo de cartas e que achava que ele necessitava ficar afastado das tentações da Corte.

A mãe aceitara aliviada e ele não sabia se era porque tinha encontrado Kanon ou se porque decidira deixá-lo afastado da família... Sabia, apenas, que devia protegê-lo e cuidar dele, já que seu pai já não mais podia fazê-lo.

O aroma de lavanda preenchia todos os aposentos naquela manhã de verão. Ali, sozinhos e somente com a ajuda de dois criados, os dois permaneceram por um tempo numa pequena propriedade nos arredores de Londres.

O irmão sorrira para ele quando abrira os olhos e lhe estendera os braços, depois de dormir por um dia e uma noite.

Abraçou-o zangado desfiando uma lista de reprimendas, enquanto ele continuava sorrindo e agarrando-o com força, agindo como se acabasse de acordar numa rotina comum.

– Incrível como você faz as coisas pareceram piores do que são... – reclamara ele quase num sussurro.

– Ah, faço? – dissera num tom irônico. – Até onde eu vi, estavam abusando de você, enquanto estava inconsciente. Por Deus, Kanon, como pode chegar a isso? Sua irresponsabilidade não tem limites! Tive até que mentir para nossa mãe.

Kanon apertou os lábios bem feitos e olhou-o dentro dos olhos.

– Ela não se importa. Sabe que ela me odeia Saga. Ou pensa que não noto o quanto ela quer me ver longe de casa? Papai se foi... Ninguém mais vai me amar... Ele mesmo disse que ninguém nunca ia me amar como ele. – disse ele com lágrimas escorrendo pelo rosto.

– O que está dizendo? Mamãe ama você. Eu amo você!

– Ama mesmo, Saga? Então me prove...

A fala com voz rouca veio acompanhada de um beijo. Um beijo que lhe causou repulsa, mas, ao mesmo tempo, uma descarga de excitação que percorreu-lhe o corpo com tal violência que o assustou.

– Kanon! O que está fazendo? – gritara se afastando do contato.

– Viu? Você não me ama... Então me deixe... Deixe que outros o façam...

– Você ainda está sob o efeito do ópio, não sabe o que está fazendo. Amor é diferente de luxúria e somos irmãos!

– Eu sei sim! – gritou Kanon levantando-se da cama e cambaleando até chegar a porta. – Eu nasci para o prazer, irmão! É prá isso que eu sirvo! Fazer com que sintam prazer com o meu corpo!- completou rindo em meio às lágrimas.

À vista daquela cena, ele fora ao encontro do irmão para ajudá-lo a deitar e depois deixara o quarto com o coração aos saltos. Não compreendia o que acontecia e, ao mesmo tempo, sentia uma atmosfera pesada em sua família, mesmo que aparentemente, fossem prósperos e felizes...

Ele, que nunca bebia algo além de uma taça de vinho, achou uma garrafa de conhaque e bebeu duas doses, até sentir seu corpo ficar entorpecido e a sua mente, turva.

Uma espécie de pavor e excitação o fez deixar cair a garrafa quando, instantes mais tarde, Kanon deixou o quarto e veio em sua direção. Seu irmão estava nu e, com alguns passos, encostou-o contra a parede mais próxima e o beijou, novamente. O olhar brilhante e lascivo de Kanon parecia enfeitiçá-lo, atraí-lo para si...

Sentiu a pressão do corpo quente contra o seu e, a despeito do horror que sentira com o primeiro beijo, neste segundo, seu corpo agiu de forma insana e traiçoeira começando a interagir. Viu-se passando as mãos pelos ombros largos até descer à cintura e nádegas do irmão, mesmo que sua mente turvada pela bebida ainda tentasse negar o que sentia e fazia.

Com uma risada rouca de prazer, Kanon deslizou a mão por baixo de suas roupas e puxou-o ainda mais de encontro a si. Depois pegou-lhe a mão e colocou-a em contato com a sua ereção. Então, o beijou com tanta sensualidade que o deixou tremendo.

– Kanon... não...

– Não negue... você quer... Papai sempre disse que amar transcende todos os pecados... – murmurou Kanon empurrando-o sobre o sofá e abrindo os botões de sua calça.

Sua cabeça tombou para trás, caindo sobre as almofadas, os olhos verdes arregalados em surpresa, enquanto Kanon o despia e beijava-o no abdome, na virilha e no falo que pulsava.

Arqueando as costas com o impacto erótico, Saga gemeu quando se sentiu engolido pela boca quente do irmão. Seu corpo pareceu arder em chamas e sua noção de tempo, mais a capacidade de raciocinar perderam-se naquele mar de prazer que Kanon lhe oferecia.

Quando deu por si, Kanon esfregava-se em seu corpo, fazendo-o vivenciar uma espécie de angústia que se transformou em sede e loucura. Por impulso, mordeu o ombro do irmão, enquanto passava as mãos pelo abdômen definido e desejava senti-lo em sua pele.

Sentia seu membro crescer e pulsar, pressionado ao do irmão... De sua boca, gemidos e ofegos escapavam sem controle. Com uma experiência inusitada, Kanon deslizava seu corpo para frente e para trás até fazê-lo estremecer e puxá-lo para si.

Mantendo a mão firme agarrada ao membro do irmão, Kanon guiou-o para dentro de si e cavalgou-o, contorcendo-se e fazendo-se penetrar com um prazer delirante.

A sensação de afundar-se no corpo de Kanon foi intensa, confusa e tão prazerosa que sentiu uma espécie de turbulência emocional. Naquele instante, ele tornou-se homem e tudo mudou...

Ao sentir seu falo totalmente confinado e apertado em demasia, não aguentou, murmurou e gemeu buscando os lábios do irmão. Passou a beijá-lo loucamente, enquanto ajudava-o a se mover sobre si. Estava delirando. O êxtase ameaçava chegar rápido, tanto que seu ventre doía e ele sentia como se fosse morrer...

As bocas se encontravam sôfregas. A língua de Kanon forçava para adentrar a sua boca. Sentiu-o gemer, abafadamente, entre seus lábios e guiar-lhe as mãos até as suas nádegas bem feitas... Aceitou a atitude com deleite e suas mãos começaram a abrir e fechá-las, fazendo-as engolir seu falo, na mesma proporção em que ele se movia.

O suor começou a escorrer pelo corpo de ambos, como se quisessem purificar aquele prazer proibido. Os arrepios que tomaram o corpo do mais novo se juntaram a sensação do falo golpeando seu corpo com fúria. O jovem que era penetrado arqueou o dorso e apertou o membro que lhe rasgava num excruciante bailado de prazer e dor.

Gemidos intensos começaram a reverberar pelos recantos da sala e Saga sentiu as mãos de Kanon em sua nuca, tragando-o em um beijo molhado e profundo, impedindo-o de vociferar o grito de êxtase que queria deixar a sua garganta, ao sentir as contrações do orgasmo cavalgar-lhe o corpo.

O sêmen que jorrou de si inundou o corpo de Kanon, e o gozo dele, escorreu quente por seu abdômen. Ambos gritaram alto, em uníssono, e desabaram um sobre o outro.

Ambas as bocas se separaram para regularizar as respirações ofegantes. Os corações batiam em um compasso louco da mesma forma que o tremor pós-gozo que embalava seus corpos. Foi então que o ouviu sussurrar.

– Eu te amo, irmão...

Com lágrimas nos olhos, Saga não respondeu. Apenas abraçou-o como sempre fazia, para depois virar as costas e sepultar o momento mais perfeito e o mais vergonhoso de sua vida.


Agora, passados doze anos, ali estava Kanon, em sua cama, despertando sensações que jurara para si mesmo esquecer e nunca mais repetir.


Os olhos cativantes, o aroma da pele, a boca sensual, o corpo capaz de despertar os desejos mais obscuros...


Nunca dissera a ele que, aquele encontro tresloucado fora a sua primeira experiência e sempre lhe coubera a dúvida da precocidade sexual, exacerbada, do irmão.


Agora, mais velho e experiente, um pensamento terrível lhe ocorria, analisando a frieza de sua mãe, a preferência ostensiva do pai, as atitudes erotizadas de Kanon. A família nobre, perfeita e respeitável escondendo um universo permeado pela luxúria, abusos, imaturidade e autodestruição...

“Papai se foi... Ninguém mais vai me amar... Ele mesmo disse que ninguém nunca ia me amar como ele.”

“Não negue... você quer... Papai sempre disse que amar transcende todos os pecados...”

Meu Deus! Exclamou para si, levando as mãos ao rosto e tomado por um violento tremor. Agora sabia que espécie de amor seu pai tinha oferecido ao irmão.


E ele, Saga, herdara do pai a responsabilidade e a mesma maldição. A maldição de um amor incestuoso...



000****000****000



Em Winchester, a fachada em tijolos brancos cintilava com os pequenos lampiões a gás que iluminavam a noite e as guirlandas, estrategicamente, colocadas em volta das colunas Greco-romanas. A decoração festiva tornava tudo muito alegre e as mesas ao ar livre, com suas toalhas brancas e um pequeno arranjo com velas completavam o visual simples, porém elegante.


Claire circulava tendo Milo como apoio. Camus havia improvisado uma tala com ataduras bem discretas, o que permitiu que sua mãe se deslocasse com relativa facilidade.


Os jovens, curiosos e cheios de excitação aproximavam-se do vistoso Milo como abelhas em volta de uma flor. Todos os olhos estavam voltados para ele e o grego parecia confortável, sorrindo e sendo solícito com todos desde os mais velhos até as crianças que pareciam fascinadas com a sua presença.


Camus foi juntar-se a eles, após verificar se tudo estava funcionando como devia. O terno novo que sua mãe havia encomendado lhe conferiu um ar elegante e jovial. O cinza-claro da casaca iluminava seu rosto e Milo, ao vê-lo, achou-o belo, como sempre. Era incrível como admirava esta nobreza natural em Camus. Ele podia estar vestido com qualquer tipo de roupa, trapos, até, mas sempre conservaria aquele ar digno e sofisticado, inexistente em muitos nobres que frequentavam a Corte.


– Está muito elegante, Camus... – disse o grego olhando-o com intensidade e brindando-o com um sorriso.


O francês devolveu a cortesia, sentindo-se relaxado e feliz com os arranjos e a presença de seus funcionários e amigos da família. Havia uma atmosfera leve e musical, intensificada pela pequena orquestra que Claire contratara para animar a festa.


– Uma orquestra, mãe? – perguntou Camus estreitando os olhos. E lhe oferecendo o braço.


– Ora, meu querido... O que é uma festa sem música? E não chega a ser, propriamente, uma orquestra. São conhecidos do senhor Milo que vieram, especialmente para tocar para nós. – respondeu Claire com os olhos brilhando.


– É verdade, Camus. A maioria que ali está são músicos e atores que descobri estarem fazendo uma turnê pelo interior. Um dos rapazes que trabalha para você... acho que o nome dele é... Shun! Foi ele que os viu chegar. Reconheci Lewis e Thomas, ambos já foram patrocinados por mim. Pedi a eles que viessem e o fizeram de bom grado. – disse Milo.


– Ficaremos lhe devendo muito, Milo. Não sei como agradecê-lo por deixar minha mãe exultante. – disse Camus sorrindo.


– Não me deve nada, recebeu-me em sua casa e sou tratado como um rei. O que mais poderia querer? Olha só, até estou sendo requisitado por duas belas princesas! – devolveu Milo com um olhar quente e demorado.


Camus devolveu o olhar, juntamente com um sorriso, beijou a mãe na face e foi receber um casal de amigos, enquanto Milo era carregado por duas garotinhas e ria, tão alto quanto elas.


Conforme as horas foram avançando, um farto jantar foi servido e depois de algumas palavras ditas por Camus, a orquestra iniciou um repertório de músicas para dançar. De imediato, casais foram se formando e o pátio amplo e iluminado transformou-se em um salão de baile.


Milo dançou uma valsa com Claire e também com as adolescentes que faziam fila e suspiravam ao vê-lo se aproximar, enquanto Camus indicava algumas salas da casa para quem desejasse divertir-se com jogos de tabuleiro ou inocentes jogos de cartas.


A ideia de organizar alguns espaços para jovens, crianças e aqueles que não desejavam dançar tinha sido de Milo e agora, parado ao lado de uma coluna, Camus observava o grego e desejava que a festa terminasse logo. Parecia egoísmo pensar assim, quando via sua mãe e Hyoga comemorando felizes, mas cada vez mais queria estar com ele, aproveitar todos os momentos.


Milo pareceu senti-lo à distância e, por um segundo, os olhares se encontraram. Então Hyoga, percebendo que as atenções já não estavam sobre si, aproveitou para colocar seu plano em prática. Puxou Shun para um canto dos jardins e cochichou algo em seu ouvido. O jovem sorriu e corou. Então os dois desapareceram por entre as árvores centenárias...


– Hyoga... tem certeza que não vão sentir a sua falta? – perguntou Shun.


– Já falei com todos, recebi os presentes e agora... agora quero ficar com você. – disse Hyoga com um sorriso nos lábios.


Shun encolheu os ombros. – Então... vamos. – disse, timidamente.


Hyoga levou Shun para um recanto perto do riacho. Ali, armara uma pequena tenda e dentro dela, arrumara uma mesa baixa onde havia uma garrafa de champanhe, um faisão assado, morangos e maçãs untados com mel e queijo com ervas finas.


– Um banquete! – exclamou Shun. – Por isso não quis comer quase nada na festa.


– Queria jantar só com você! – respondeu Hyoga pegando Shun pela mão.


Os dois sentaram e comeram, rindo e lembrando o passado. Depois, Hyoga convidou Shun para deitarem sobre um cobertor e ficarem olhando o céu. Passados alguns minutos, estrelas cadentes riscaram o negror da noite e as mãos de Hyoga e Shun se encontraram e os olhares também.


– Quando o beijei, pela primeira vez, disse tê-lo feito, porque o desejava. Mas, eu te amo Shun, desde sempre. Desde que seus olhos me receberam com tanta beleza, com tanta suavidade... Dizem que as estrelas cadentes concedem desejos e, diante delas, eu desejo tê-lo comigo para sempre! – disse Hyoga acariciando o rosto perfeito de Shun.


Shun sorriu com um misto de encantamento e tristeza. Sabia que o destino de Hyoga era muito diferente do seu, um cavalariço sem posses e cujo irmão vivia longe. Porém, naquele momento, fitando os olhos azuis que sempre amara e os lábios entreabertos que exalavam um hálito doce e quente, tomou o rosto de Hyoga entre as mãos e o beijou.


– Também te amo, Hyoga... — sussurrou enquanto traçava o contorno do lábio inferior dele com a ponta da língua.


Hyoga deixou escapar um som, algo entre um suspiro e um gemido, puxando Shun para si com tal arrebatamento que o fez perder o equilíbrio. Os dois caíram sobre o cobertor, rindo. Erguendo-se num cotovelo, Shun tornou a olhá-lo e Hyoga viu a própria felicidade refletida nos olhos dele.


– Eu ainda não te dei o meu presente... – disse Shun, a voz cheia de deslumbramento.


Com um sorriso, inclinou-se para Hyoga outra vez. O loiro mordeu o lábio inferior. Você é meu maior presente! Ele pensou atordoado com o beijo profundo que Shun lhe deu.


Mágoas, perdas e desilusões sumiram por completo naquele momento perfeito, quando Shun desnudou-se e ajudou-o a se despir também.


Olharam-se intensamente, antes de Shun deitar-se no cobertor e Hyoga enterrar o rosto em seu pescoço, deslizando os lábios por sua pele. Shun suspirou e correu as mãos pelas costas de Hyoga, sentindo a musculatura, respirando o cheiro da pele que parecia misturar todos os odores silvestres do lugar...


Ambos tremiam de excitação, ansiedade e desejo. As carícias eram urgentes, o apelo do corpo os levava a uma exploração ávida da pele, das bocas, das ereções que se tocavam e pulsavam na doce treva do encontro das coxas...


A língua de Hyoga entrelaçava-se a de Shun, sorvendo-lhe o gosto, molhando os lábios, fazendo-o gemer enquanto se posicionava sobre ele e buscava sua entrada, penetrando-a com os dedos longos.


O luar banhava os corpos e lançava sombras fantasmagóricas em torno de suas cabeças tornando-os parceiros da noite profunda e misteriosa que os tornaria um... Afogueado, Shun abriu os olhos, parecendo um poço de escuridão e então sorriu erguendo os quadris, enquanto Hyoga pegava-o pela cintura e o penetrava devagar, deixando escapar um grunhido de prazer.


Shun tomou Hyoga dentro de si com um grito que mesclava dor, prazer e triunfo... Sempre sonhara em tê-lo para si. Amava-o e desejava-o tanto que a entrega era a realização suprema e inevitável...


Hyoga se afundou dentro de Shun com um gemido que irrompeu das profundezas de sua alma... Shun era seu amor, sua existência, sua vida.


No bailado tresloucado dos corpos, o clímax se aproximava forte e turbulento. Hyoga arremetia com força, faminto e apaixonado. Seu falo adentrava o corpo de Shun tocando-o em suas profundezas, fazendo-o gritar de prazer e abrir-se mais para recebê-lo, ainda mais fundo, dentro de si. Os dois arfavam e gemiam, sentindo-se tomados em um redemoinho de sensações inéditas que os deixava quase sem ar...


O orgasmo chegou tão arrasador, que os fez gritar roucos e estremecerem sem controle. Os corações disparados ecoavam em todo o corpo, deixando-os tontos e sem noção de tempo ou espaço. Hyoga recostou sua testa a de Shun e, ofegante, esperou que tudo voltasse ao normal. Nenhum dos dois dizia uma palavra. Por fim, Shun começou a rir e falou:


– Eu tinha certeza que seria assim...


– Eu também... – respondeu Hyoga sorrindo e abraçando Shun.


Uma estrela cadente riscou, novamente, a escuridão, enquanto os dois permaneciam abraçados. Eles, então, sorriram um para o outro, certos, na sua ingenuidade juvenil, que seus desejos e esperanças seriam alcançados...

Notas finais
**O título está em inglês, porque eu estava ouvindo a música dos anos 90 do George Michael (risos!!) e, de certa forma, achei apropriada para o capítulo!!
*****Agradecimentos especiais a todas pelo carinho, pelos reviews, pelo apoio. Vocês são demais!!!!Bjs, XD