Desejos Ocultos

12 Capítulo 12 SOMBRAS DO PASSADO...


Notas iniciais
* Aos aficionados por literatura como eu, um esclarecimento. Tomei a liberdade de adiantar a obra Os três Mosqueteiros para a época da fic, porque me pareceu pertinente ao clima da história. Porém, a obra de Dumas só foi escrita em 1844. Bjs!!!

Acredito que todo o homem comete erros. Alguns, tolos, outros graves...

E não me refiro a beber demais e cometer sandices, ou arriscar uma herança na mesa de jogo.

Falo destes breves momentos de tentação que surgem para revirar a cabeça, quebrar nossa resistência e despertar fortes emoções...

Descobri que ser um homem de lógica e razão cobra um alto preço.

Se eu fosse um rapazote ou simplesmente um ingênuo a ponto de acreditar em amor impossível, não estaria tão atormentado pela indecisão. De fato, estaria propenso a viver essa paixão que me consome e deixar que o futuro cuide de si mesmo.

Infelizmente, sou incapaz de sonhos tão utópicos. Meu coração e meu corpo podem sussurrar que, finalmente, a felicidade está ao meu alcance, mas meu bom senso se recusa a ignorar os inconfundíveis sinais de alerta.

Um conquistador renomado pode ser feliz somente com um amante?

Ou, cada aventura somente aumenta seu apetite e, logo, ele sairá à caça, novamente?

Milo é um nobre acostumado aos prazeres e Deus sabe como é hábil em fazer aflorar em mim, uma sensualidade antes adormecida. Ao seu lado, sou ardente como jamais fui e sou capaz de amá-lo noite adentro com uma fome atroz que ainda permanece pela manhã e se recusa a abandonar-me...

Desejo-o com todas as fibras do meu corpo, mas não é somente o prazer que me faz querê-lo. Talvez, se fosse apenas a luxúria, seria fácil entregar-me e sair incólume. Mas não, é mais que isso... é um sentimento profundo que um dia fui acusado de ser incapaz de sentir e que, cheguei a acreditar ser a mais absoluta verdade!

Ainda a ouço gritando: “Você é incapaz de amar, Camus! Seu coração é impenetrável ao amor!” enquanto cobria o corpo nu e tentava proteger seu amante...

Ah, minha cara... Quisera eu que tivesse razão!

Porém, descobri que tenho um coração e ele encontra-se tomado de assalto como um dia o seu, também, foi.

Agora, finalmente, eu compreendo...

Camus soube o exato momento em que Milo entrou na sala de refeições. Era como se o ar adquirisse outra qualidade, como se seu corpo respondesse às vibrações do corpo do grego. Como se fossem partes de um todo...

A luz entrava pelas janelas, havia flores que mesclavam seu perfume ao aroma da mesa farta, composta de leite, suco, pães doces e salgados, bacon e uma variedade de geleias e queijos.

Milo sorria e, Claire, assim como Hyoga, respondia ao sorriso com um intenso brilho nos olhos, criando um ambiente peculiar, diferente das manhãs silenciosas e sóbrias à que a família D'Alembert estava acostumada.

De certa forma, a mudança fez Camus relaxar e predispor-se a aproveitar o clima alegre e descontraído.

– Bom dia, senhor Milo. Teve uma boa noite de sono? – perguntou Claire.

– Tive uma noite excelente. – respondeu o grego lançando um rápido olhar na direção de Camus que permaneceu sério, porém seus olhos pareceram sorrir.

– Espero que o quarto de hóspedes lhe seja confortável. – disse Claire.

– O quarto é excelente, senhora. – falou Milo com um largo sorriso.

– Esqueci-me de dizer-lhe, Milo, que apesar de levantarmos cedo, você é nosso hóspede e pode levantar-se na hora em que está acostumado. – falou Camus.

– Agradeço a generosidade, mas enquanto estiver aqui, quero conhecer tudo. Deixo as manhãs passadas na cama para as noitadas em Londres! Hummm... que delícia... – falou Milo deleitando-se com uma fatia de pão recém-assado coberta de geleia de amora. – Descobri que levantar cedo não é tão mau se... formos sóbrios para cama, é claro! – completou rindo.

Camus balançou a cabeça e riu. Claire olhou-o, um tanto surpresa e também riu. Hyoga corria os olhos pelos três como se não acreditasse ser possível tanta leveza pela manhã, a “hora silenciosa e sagrada” do trabalhador sério, responsável e implacável, Camus!

Todas as manhãs obedeciam à mesma rotina: tomavam café em silêncio, enquanto Camus folheava o jornal e depois se dirigia às fundações da fábrica que estava expandindo. O único som à mesa era o das folhas sendo viradas metodicamente junto com as xícaras sendo depositadas sobre os pires...

Embora fosse sério e raramente esboçasse um sorriso, Camus era quase adorado pelos operários. Todos o tinham em alta conta e o consideravam um patrão justo. Ele, por sua vez, escutava a todos, solucionava conflitos e era um dos poucos patrões que valorizava o trabalho de seus operários e lhes pagava um salário digno.

Hyoga sabia de tudo isso e, secretamente, admirava Camus mais que todos. Tinha no primo um irmão mais velho e sentia uma grande mágoa pelo distanciamento que se instalara entre os dois desde que a jovem esposa de Camus se tornara amante de Seiya, seu amigo inseparável...

Saori, a jovem delicada e inteligente que casara com Camus tinha a mesma idade que ele, Shun e Seiya. Com apenas 15 anos, ela tinha sido dada em casamento para que seu comportamento inquieto e independente não a levasse a cometer desvios imperdoáveis a uma mulher...

Possuía uma beleza suave, mas o que a tornava atraente era o seu destemor em abraçar a vida. Era espirituosa, entusiasmada e charmosa, com o dom de iluminar os lugares por onde passava. Quando ela viera morar com Camus, logo se integrara ao seu grupo, a famosa irmandade dos três mosqueteiros e, juntos, trabalhavam e se divertiam, enquanto Camus dedicava-se a aprender os negócios de seu pai.

Talvez por sua juventude ou até mesmo pelo tipo de personalidade, Saori não conseguia tornar-se o exemplo tradicional de esposa sempre à espera e à disposição do marido. Ao contrário de Camus que buscava adequar-se ao papel de provedor e trabalhava dia e noite. Inquieta, ela logo desenvolveu seus projetos pessoais e inseriu seus amigos dentro deles. Um dos projetos foi criar uma pequena escola onde ensinava as crianças dos operários a ler, escrever e tocar um instrumento musical.

Shun, ele e Seiya a acompanhavam e ocupavam-se de brincar com as crianças nos intervalos e ensiná-las a cavalgar e nadar.Com isso, tornaram-se mesmo, o exemplar vivo dos três mosqueteiros, sendo ela, Saori, o D'Artagnan de saias.

No entanto, sem que ele e Shun percebessem, Saori descobrira em Seiya afinidades que não possuía com Camus, inclusive, uma grande e fulminante paixão que a levou a passar por cima de seus valores e cometer adultério.

Um erro que, um dia, foi flagrado por Camus...

Sabendo ser ele, Shun e Seiya companheiros inseparáveis, Camus sentiu-se traído, achando que, além de ser enganado pela esposa, o fora, também, pelo primo.

Ainda era vívida a imagem de Camus olhando-o com raiva, após ter mandado Saori e Seiya embora. “Você sabia! Sabia e deixou-me fazer papel de idiota!” Foram as únicas palavras de Camus, ditas num tom baixo e rancoroso.

A face pálida do primo ainda estava viva em sua memória, assim como a própria incredulidade em saber-se desconhecedor do segredo do amigo que considerava um irmão.

“Eu não contei para protegê-lo, Hyoga. Não queria que tivesse de escolher entre a nossa amizade e a lealdade para com sua família. Não seria justo. Amo Saori mais que minha própria vida e peço que me perdoe, irmão. Por favor, me perdoe...” Dissera Seiya, antes de deixar Winchester.

Depois disso, Camus trancou-se numa máscara de indiferença e nunca mais permitiu que se falasse no nome dos dois. O senhor Morrice d'Alembert arranjou para que o casamento fosse anulado e também para que o acontecimento fosse varrido da memória daquele lugar.

Após, aquele dia, seu primo se transformara num homem sombrio, totalmente, direcionado para os negócios da família. Sua juventude pareceu ter partido junto com o casal cujo destino nunca se soube que rumo tomou...

Agora, olhando-o sorrir, Hyoga se perguntava o que Milo tinha a ver com essa transformação. Era evidente a mudança do primo na presença do grego...

– Hyoga, querido! Ouviu o que Camus lhe perguntou? – falou Claire despertando Hyoga de suas lembranças e conjecturas.

– Hã? Não, senhora. O que foi? – perguntou Hyoga sem muito interesse.

– Perguntei se gostaria de comemorar seu aniversário junto com a inauguração do outro pavilhão da fábrica. Minha mãe insiste em que se faça algo e, já que Milo está conosco, creio que poderemos dar um jantar unindo os três acontecimentos. O que acha?

– Por mim, tudo bem. Sabe que não gosto muito de comemorações e meu aniversário até já passou. – disse Hyoga dando de ombros.

– Já vi que tem mais em comum com Camus do que parece, Hyoga. Mas, comemorações e festas são como um ritual de passagem. Os antigos eram sábios em assinalar alguns momentos da vida. Mesmo em atraso, precisa comemorar sua inserção no mundo adulto. – falou Milo cobrindo outra fatia de pão com geleia.

Hyoga olhou pra Camus e depois para Claire. No brilho cortante de seus olhos azuis, um misto de triunfo e desafio.

– Gostei da sua colocação, senhor Milo. Acho que estou disposto a trocar de opinião. Sim, eu aceito. – disse o jovem passando o guardanapo nos lábios finos. – Agora se me dão licença, tenho assuntos a tratar.

Milo assentiu com a cabeça, Camus olhou-o de forma interrogativa e Claire sorriu, dando um tapinha suave na mão do sobrinho.

– Vá, meu querido. Mas, não se atrase para o almoço, sim?

– Está bem, tia Claire. Vou até aos estábulos e depois volto para ajudá-la no que for preciso.

Camus franziu o cenho, mas nada disse. Em seguida, olhou na direção de Milo que comia com um prazer que chegava a ser sensual...

Viu-se tomado pelo desejo, ante aquela cena, e desviou a atenção. Céus! Parecia um adolescente inexperiente sendo assolado pela libido de modo desenfreado!

– Bem, eu devo ir até à fábrica. Estarei de volta até o almoço. Até lá, mãe, peço que entretenha nosso convidado. – disse Camus num tom calmo que disfarçava bem a tensão de seu corpo.

– Eu vou é aproveitá-lo, isso sim! Quero ideias para a nossa festa. – disse Claire sorrindo.

– Jantar, mãe. – frisou Camus.

– Jantar, festa, recepção... não importa o nome e sim como vamos organizar tudo! Senhor Milo, preciso do senhor, da sua experiência e do seu bom gosto! – disse Claire.

– Sou todo seu, senhora... – disse Milo olhando para Claire e depois na direção de Camus, fazendo-o estremecer por dentro.



000****000****000



Hyoga caminhava a passos largos com o coração acelerado. As folhas mortas, que caíam ao chão, pareciam um prenúncio de mau agouro, mas ele continuava firme.

Há essa hora, apenas Shun estaria nos estábulos. Era a única chance de conversar a sós com ele. Iria tentar desfazer o mal-entendido mesmo que para isso tivesse que mentir que tudo não passara de uma brincadeira ou desvario.

Inferno! Não iria perder Shun como perdera todos os outros! Não, ele! Ele que o salvara da dor e do ódio de sempre perder o que tinha de mais importante na vida: sua mãe, seu amigo, sua própria alma...

Amava-o! O reconhecimento da verdade crua saltou-lhe aos olhos fazendo a respiração estancar. Dissera a ele que o desejava, mas era muito mais que isso... Amava-o e não suportaria perdê-lo...

Ao chegar aos estábulos, viu Shun escovando uma das éguas puro sangue, cujo pelo castanho brilhava sob as mãos habilidosas do jovem cavalariço. O ar rescendia a feno e o odor almiscarado do suor dos cavalos que haviam se exercitado pela manhã.

Devagar, Hyoga se aproximou e ficou apenas observando a ação. O animal parecia satisfeito e correspondia ao bom tratamento emitindo sons baixos, enquanto levava a cabeça na direção do rosto de Shun.

O jovem sorria e continuava a escovar, elogiando o animal que parecia entender e refestelar-se nas mãos de seu tratador. Por um tempo, Shun permaneceu falando com a égua como se falasse com outro ser humano até perceber que havia mais alguém com eles. Sem virar-se, apenas disse:

– Porque está escondido?

– Tive medo que não quisesse falar comigo. – respondeu Hyoga se aproximando.

– E desde quando eu consigo ficar bravo com você, durante muito tempo? – rebateu Shun olhando na direção de Hyoga e abrindo um leve sorriso.

Hyoga sentiu desfazer-se o nó em seu peito. Shun tratava-o com o mesmo afeto de sempre e isso lhe trouxe uma alegria imensurável. Uma alegria que voltou a descompassar seu coração quando se deteve no verde aquoso do olhar que parecia tragá-lo para as profundezas de si mesmo.

Fora assim desde o primeiro dia em que ele e Shun se conheceram. Eram, apenas, adolescentes, mas, diferente do olhar agressivo de Seiya, Shun o recebera com um olhar tão amoroso que quebrara as suas resistências. E tinha sido, também com Shun que ele, pela primeira vez, chorara a morte de sua mãe...

– Shun, eu... eu não queria... quer dizer, eu queria... – gaguejou Hyoga.

– Ah, Hyoga... cale a boca e me abrace! – disse Shun se aproximando e puxando o loiro de encontro a si.

Shun exalava um leve odor de cavalos, mas não era desagradável. Hyoga fechou os olhos e deixou-se envolver pelo calor e pelo cheiro do corpo do outro. Deus, como temera perder aquela conexão especial com a única pessoa que sentia amar com desespero...

Com Shun não havia a necessidade de máscaras, porque desde sempre ele soube tocar-lhe a alma e era somente com Shun que seu lado sombrio e amargo parecia arrefecer e dar lugar a um Hyoga melhor e mais forte.

– Shun... tive tanto medo que deixasse de gostar de mim. – disse rouco, próximo ao ouvido do amigo.

– Sempre vou amá-lo, seu tolo.

– Ama-me somente como... amigo, não é? – perguntou Hyoga afastando-se o suficiente para fitar os olhos profundos e verdes de Shun.

– Não, mas é mais seguro que permaneça assim. – respondeu Shun se afastando.

– Quer dizer que... que... você também sente algo mais por mim? – falou Hyoga quase gritando.

– Eu te amo Hyoga. Mas, nós dois sabemos que isso não daria certo, então vamos continuar amigos, está bem?

Hyoga não ouviu o restante. As únicas palavras que importavam eram o eu te amo e foi embalado por elas que ele imprimiu seus lábios aos cheios e rosados lábios de Shun, beijando-o com paixão.

Trêmulo, Shun tentou resistir, porém um instinto primitivo aliado ao sentimento que sempre tivera por Hyoga o fez entreabrir os lábios e receber a língua ávida na sua, correspondendo com um ardor há tanto tempo reprimido.

– Isto está errado... – sussurrou Shun, ofegante, mas não conseguia livrar-se da vontade de retribuir ao desejo, ardorosamente, expresso por Hyoga.

Enlouquecido pela forma com que Shun correspondia aos seus beijos, Hyoga não pensava em mais nada, seu corpo ardia de amor e desejo. Shun o amava e era somente isso que importava.

Afoitos, deitaram-se sobre o feno, se acariciando, beijando e sentindo o crescer do fervor erótico... Os lábios de Hyoga deslizavam pela garganta de Shun que afagava os fartos cabelos loiros e arqueava o corpo, ansiando por proximidade, mesmo quando sabia que devia parar...

Sentindo seus corpos agir por vontade própria, vibrando em todos os pontos onde os lábios e mãos tocavam, tanto Hyoga quanto Shun descobriam um prazer que os fazia arder em urgência.

A mão de Hyoga acariciou a ereção pulsante de Shun, enquanto sua língua se entrelaçava à dele, sugando-a e deixando-o ainda mais febril...

Uniram-se, num abraço longo e apertado, fazendo Shun sentir a turgidez de Hyoga pressionando sua coxa e a sua latejar, ainda mais, causando uma espécie de dor prazerosa.

Os dois sorriram um para o outro, enquanto com as mãos afoitas, começaram a despir as roupas... Foi então que um som de passos, seguido pelo relinchar da égua castanha os fez parar...

– Shun! Onde você está? – gritou o homem grisalho e quase cego.

Assustado, Shun desvencilhou-se dos braços de Hyoga e elevou a cabeça. Ninguém vinha aos estábulos àquela esta hora, a menos que houvesse acontecido algum imprevisto ou alguma urgência.

– Sim, senhor Dupont! Estou aqui e já estou indo. – gritou Shun.

– Venha, meu rapaz, a égua malhada está em trabalho de parto, mas pelo visto está tendo dificuldades! Precisamos da sua ajuda, ela não responde aos outros tratadores como responde a você.

Rapidamente, Shun saltou de dentro da baia, deixando Hyoga que se arrumava com rapidez. Rumaram para os fundos onde a égua relinchava aflita. Logo ficou evidente para Shun que ela estava com problemas e exausta pelos esforços.

Sem hesitar em nenhum momento, o jovem arregaçou as mangas e aproximou-se da barriga do animal vendo que o potro estava atravessado. Sussurrando palavras de incentivo, afagou a cabeça da égua que, imediatamente, acalmou-se com a voz melodiosa de Shun.

– Isso, garota! Vai dar tudo certo... Eu vou ajudá-la. – dizia ele, com ternura, enquanto tentava virar o potrinho na posição certa.

O suor escorria pela face alva quando, enfim, Shun conseguiu virar o filhote e, finalmente, encaixá-lo para o nascimento. Um relinchar, minutos depois, anunciou a vinda de mais um potro de raça ao mundo.

Hyoga entrou, no momento em que Shun trazia em seus braços, o filhote que acabara de nascer, depositando-o sobre a palha seca. O animalzinho tentava equilibrar-se nas pequenas pernas ainda sem firmeza. Era uma potranca e possuía uma bela cor avermelhada. Todos sorriram e mais uma vez, os olhares se encontraram fazendo Hyoga morder o lábio inferior, enquanto Shun afagava a égua vendo-a ir de encontro ao seu filhote.

– Você tem esse dom... trazer vida a tudo o que toca. – disse Hyoga fixando o olhar no rosto de Shun.

O jovem cavalariço sorriu, enquanto o senhor Dupont apressava-se em ir comunicar o novo acontecimento aos donos do animal.

– Camus vai dar um jantar para comemorar a expansão da fábrica, a vinda do nobre que é seu amigo e... o meu aniversário. Quero muito que venha festejar comigo.

– Hyoga... sabe que não me sinto muito à vontade na presença de seu primo.

– Eu sei, mas... você não tem com que se preocupar. Camus não o culpou e você é quem eu mais quero perto de mim. Por favor, Shun... dê-me este presente.

Um sorriso iluminou a face bela e delicada, contrastando com o brilho decidido a cintilar nos olhos verdes.

– Está bem, eu irei. Afinal, quero mesmo dar-lhe um presente de aniversário. – disse Shun.

– Meu presente é você... – respondeu Hyoga, aproximando-se e beijando Shun, rapidamente nos lábios para, em seguida, sair correndo para encontrar sua tia e Milo.



000****000****000



Don Geronimo escolheu uma mesa em um reservado silencioso e com uma decoração e atendimento próprio aos nobres. A mesa, diferente da ocupada por Scott e seu amigo, era de madeira polida e escura com uma toalha de linho branco e uma bandeja de prata, onde jazia uma garrafa de puro conhaque, uma caixa de charutos e um pequeno sino.

– Bem, meu rapaz, como eu já disse, sou seu avô. Durante muitos anos, procurei por sua mãe e acabei encontrando-a... E, qual foi a minha surpresa? Também, acabei encontrando você. Não imagina a felicidade em saber que tenho um neto, um varão para herdar tudo o que construí.

Shura franziu o cenho e bebeu um cálice de conhaque. A bebida desceu-lhe quente pela garganta, assim como o fervilhar de seus pensamentos. Tornou a encarar o homem que dizia ser seu avô.

– Porque minha mãe fugiu? – perguntou Shura.

O suspiro dado por Don Geronimo denotou um profundo desconforto, porém encarou o neto com a mesma firmeza com que o abordara.

– Sua mãe nunca foi obediente. Sempre foi muito voluntariosa, independente e passional, características terríveis numa mulher. Recusou-se a se casar com o herdeiro de uma das maiores fortunas da Espanha, Don José Luzan Y Martinez. Desonrou-me ao desobedecer-me e escolher fugir com um... marinheiro! Um bandido que a escondeu de mim durante anos...

– Meu pai não era um bandido.

– Seu pai não era digno da filha de um Toledo!

– Meu pai era um mercador, um homem cujo trabalho sustentou a mim e a minha mãe e, mesmo quando morreu, deixou-nos amparados. Agiu com mais dignidade que muitos nobres que conheço que desperdiçam fortunas no jogo ou na cama com cortesãs, deixando as próprias famílias na miséria. Não somos ricos, mas eu soube gerenciar o que ele nos deixou, graças ao seu exemplo.

– Tem a mesma impetuosidade e ingenuidade de sua mãe, meu jovem... Sei que não vivem na pobreza, mas também não possuem as comodidades que deveriam usufruir. Sua mãe está doente e você foi enganado por um salafrário. Ousa afirmar que essa é a sua forma digna e correta de gerenciar sua vida e a de sua mãe?

– Cometi um erro, mas vou consertá-lo.

– Como? Perdeu seu investimento e, pelo que sei, não possui mais recursos além da soma que pagou por aquela hospedaria. Está falido sem nem mesmo ter começado.

– Existem muitas vantagens em ter sido criado por um mercador. Uma delas é não deixar-se vencer pelos obstáculos que a vida nos impõe.

– Uma palavra minha e qualquer estabelecimento que desejar possuir, será seu. Ou até melhor, pode construir um, se quiser. Basta...

– Basta comer na palma da sua mão como um pássaro obediente. Sinto muito, Don Geronimo, vejo que herdei de minha mãe as terríveis características que mencionou antes, com o agravamento de também ter herdado o espírito livre de meu pai. Agora, se me dá licença, tenho muito que fazer. – disse Shura.

– Eu ainda não terminei, meu rapaz!

– Mas, eu sim. Boa noite e passe bem!

– Não ouse me dar as costas! – falou Don Geronimo batendo com o punho na mesa.

– E o senhor não ouse pensar que seu dinheiro pode comprar a honra de um homem. Nasci e cresci dentro de uma família que me ensinou o valor do trabalho e da independência. Portanto, saiba que descobrir ser neto de um nobre rico em nada muda o fato que darei ao meu destino, a direção que achar correta. Boa noite!

Don Geronimo viu a ferocidade nos olhos escuros e a enfrentou. Seu rosto tingiu-se de um rubor e seu coração acelerou, enquanto Shura retirou-se sem ao menos olhar para trás. Sacudiu o pequeno sino com força e, de imediato, um homem franzino surgiu para atendê-lo.

– Traga-me um bom vinho tinto! – disse Don Geronimo.

– Imediatamente, senhor. – respondeu o garçom.

Minutos depois de saborear uma garrafa inteira de vinho, Don Geronimo permitiu-se relaxar. Aquele jovem era tão voluntarioso quanto sua mãe e o enfrentava com aquele mesmo olhar. Um olhar selvagem e obstinado que jamais se curvava ou recuava.

Por alguns instantes, aquilo o aborreceu tanto que temeu ter um mal-estar no coração. Mas, depois, teve de sorrir. Aquele jovem era mesmo seu neto... E, apesar de exasperá-lo tanto quanto a filha, em um homem, aquelas terríveis características eram passíveis de admiração. Denotava um caráter forte e inquebrantável, a principal marca da Casa de Toledo!

– Muito bem, meu neto... Vamos ver de que material você é feito. – disse Don Geronimo enquanto acendia um charuto e tragava a fumaça do excelente tabaco.

Notas finais
Obrigada pelos comentários, pelo silêncio e pela oportunidade de conhecê-las!! Um beijo bem grande no coração de todas!!!XD