Desejos Ocultos

10 Capítulo 10 WINCHESTER...


A tarde caía, imprimindo cores alaranjadas à paisagem que se movia ao sabor da brisa fresca. Uma faixa de árvores frutíferas, antecipando-se às casas bem construídas, cortava a terra verde e campos de centeio, brilhando num tom dourado, tornando tudo digno de ser imortalizado por algum artista.


Mais adiante, no lar de Camus d’Alembert, os muros da casa elevavam-se, refletindo nos tijolos brancos, o esplendor do sol. Tudo parecia pertencer a uma afinada orquestra de sons e cores que logo conheceriam as sombras do entardecer...


Sentado na margem do pequeno lago, a alguns metros dali, Hyoga arrastava a mão pela água enquanto alguns cisnes se aproximavam esperando o alimento que sempre provinha de sua mão.


Porém, naquele momento, ele estava longe dali. Apenas seu corpo repetia os mesmos gestos aos quais as aves estavam acostumadas. Sua mente vagava e seus olhos exibiam uma angústia extrema, como se chamas azuis bruxuleassem aprisionadas e sedentas à espera de uma resposta que não vinha...


Um cisne negro aproximou-se e bicou-lhe a mão tirando-o do mundo áspero de suas emoções.


– Até você, Príncipe? – perguntou Hyoga para a ave. – Acha que sou um pervertido?


O cisne moveu o pescoço longo e se afastou deixando o jovem imerso em lembranças. A figura do seu melhor amigo insinuou-se em seus pensamentos...


Instantes antes, Shun, o cavalariço mais habilidoso da propriedade havia sorrido e passado a língua nos lábios bem desenhados, chamando-o para cavalgar e refrescar-se nas águas de um rio próximo.


Sentiu o baixo-ventre formigar só em lembrar vê-lo cavalgar sem camisa, os cabelos castanhos ondulando selvagens e acetinados e o jeito inocente com que o olhava...


Por um desatino, assim que ambos haviam mergulhado nas águas frias, ele se aproximara do amigo e tomara os lábios que sorriam despreocupados, com um beijo violento e desajeitado.


Porque fez isso, Hyoga? A pergunta feita com a voz arfante despertara ainda mais a sua excitação.


Porque te desejo... Foi a resposta direta e inesperada até para si.


Então, o olhar, antes cheio de expectativa, transformou-se em decepção e estranhamento. Shun rompeu o contato e o deixou sozinho e confuso.


O que esperava, afinal? Porque beijara seu melhor amigo? Que desejo forte e estranho era aquele?


Quando chegara a Winchester, era um garoto desconfiado e com o coração cheio de sofrimento. De imediato, dois garotos que trabalhavam na propriedade de sua tia se aproximaram e uma forte amizade surgiu, fazendo-o superar a perda dolorosa de sua mãe.


Eram como se fossem os três mosqueteiros: ele, Shun e Seiya. Por muito tempo, foram amigos inseparáveis, viveram incontáveis aventuras e gozaram de uma intensa cumplicidade até Seiya deixá-los para viver sua grande e trágica paixão.


Mas, fora graças a Shun, que deixara de ser um quase selvagem, para transformar-se num garoto quase normal. A serenidade e leveza do amigo o haviam ajudado a superar, ambas as perdas, mãe e amigo. O convívio com ele contribuíra para cicatrizar as feridas que se somaram à perda de sua mãe e a culpa que se abateu sobre si...


E agora tomava aquele tipo de atitude inusitada, irracional e... absurda!


Porque sentia por Shun um desejo atroz, como o que devia sentir por uma garota? Porque se arriscara a perder o amigo mais querido? Não, não podia perder Shun! Nunca! Seria insuportável!


As questões fervilhavam na mente de Hyoga e, por um momento, ele achou que devia estar louco ou possuído por algum espírito do mal.


Levantou-se e andou em direção a casa. Certamente, já o estavam esperando para o jantar. Ele passara fora a maior parte do dia e teria explicações a dar para sua tia Claire. Ainda bem que Camus estava fora, não suportaria ter que enfrentar os acusadores olhos azuis do homem que o odiava...



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Os profundos olhos escuros de Don Geronimo Luis de Cabrera y Toledo,duque da Casa de Toledo miravam o retrato pintado de uma jovem e bela mulher como se fosse uma flecha atirada do passado direto em seu coração.


Ela estava ali na galeria de sua família como uma lembrança dolorosa de um rompimento que ele jamais superara. Luisa Isabel Álvarez de Cabrera y Toledo y Maura, sua única filha, fugira de casa, aos catorze anos, para escapar de um casamento arranjado com o filho de uma das mais tradicionais famílias nobres da Espanha.


Para seu infortunio e desgraça, ela conseguira evaporar-se como a maldita bruma que, cobria a cidade que agora, era quase o seu lar. Incansável, ele mandara procurá-la em todos os lugares apontados pelos investigadores que enviara.


Durante anos, havia seguido pistas falsas, dentro das quais estavam indicações que ela morrera, após dar a luz. Sua filha, quase uma criança, grávida e solta no mundo com um homem que ele jamais chegara a conhecer, mas que deixara nela, a sua semente.


Uma chaga profunda abrira-se em seu peito, porque, além de perder a filha, perdera a esposa que viera a falecer de tristeza e desgosto...


Amaldiçoara sua pérola, seu tesouro... Mas o passar dos anos e o juramento feito à esposa, em seu leito de morte, o fez nunca desistir de encontrar a filha.


Agora, havia notícias que ela vivia naquela cidade barulhenta, numa pequena e discreta casa alugada. Não deixava de ser uma ironia encontrá-la ali, sabê-la tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe do seu alcance.


Ela estava viva e seu neto também... Estava velho e cansado da solidão e seu orgulho já não podia preencher o vazio de uma existência sem afeto e sem ter com que partilhar. Já era hora de reconciliar a família.


– Gostaria de uma taça de brandy, Don Geronimo? – perguntou o mordomo.


– Não, Louis. Por favor, faça entrar o senhor Hawkins. – respondeu o duque.


Hawkins era um homem de baixa estatura, corpo esguio e olhar vivaz. Sua pele avermelhada sugeria que ele abusava um pouco da bebida, porém sempre que encontrava Don Geronimo fazia questão de mostrar-se sóbrio e atento. Sabia que o sexagenário era um nobre espanhol muito diferente dos lordes ingleses e sabia recompensar um bom trabalho.


No exato momento em que o duque o recebeu, ele sentiu-se à vontade no ambiente masculino e luxuoso. A casa mostrava que, mesmo longe de seu país de origem, o duque gozava de um status e fortuna inigualáveis. Assim como a aura de poder que emanava daquele homem era algo que lembrava a dinastia dos reis antigos.


– Pois bem, senhor Hawkins, o que tem para me dizer? – perguntou Don Geronimo com a voz profunda e grave.


– Excelentes notícias, senhor duque! Entramos em contato com a mulher que tudo indica ser sua filha e ela aceitou recebê-lo.


– E como ela está?


– Bem, milorde... Ela está adoentada, mas o filho único tem feito o possível para que ela se reestabeleça. Dizem que desde que chegou, o jovem tem feito contatos interessantes e está tentando estabelecer-se como proprietário de uma hospedaria.


– Meu neto... proprietário de uma hospedaria. Como ele se chama?


– Shura, senhor.



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Uma lufada de brisa elevou as cortinas transparentes, enquanto Camus permanecia sério e Claire abria um novo sorriso, agora mais terno que alegre.


– Hyoga é filho de minha irmã falecida. Quando meu pai ficou viúvo, casou-se novamente com uma senhora da linhagem Romanov. Desta união nasceu Natássia, que foi criada longe de nós. Embora eu nunca tenha convivido com minha irmã, nós trocávamos correspondências e eu soube que ela estava passando por dificuldades. Após vários pedidos meus, ela resolveu visitar-nos e passar um tempo conosco.Mas, na vinda, ela sofreu um terrível acidente e Hyoga, pobrezinho, ficou sem nenhum parente conhecido. Nós o acolhemos como um filho, ele já era um rapazinho, quando tudo aconteceu...


– Entendo. Deve ter sido muito difícil para vocês. – disse Milo.


– Foi terrível! Mas, meu marido sempre quis ter mais um filho e Hyoga veio preencher este espaço, já que eu não podia gerar mais uma criança. Camus portou-se como um irmão mais velho exemplar! Até demais, eu diria...


Milo percebeu que Camus permanecia tenso, como se aquela história tivesse algo obscuro ao ponto de mexer com ele num nível muito profundo.


Quando a família adotara Hyoga, ele estava casando. Aliás, esquecera de perguntar quem era a noiva... Algo havia acontecido neste interim e despertava a sua curiosidade...Teria que usar das habilidades de Afrodite para saber mais sobre o assunto.


Antes que Milo adiantasse suas conjecturas, um jovem loiro adentrou a sala com a roupa amassada, as mangas da camisa branca, molhadas, e os cabelos desalinhados. Tinha uma beleza selvagem e um olhar cortante e intenso.


– P-Perdão, tia Claire! Não sabia que estava com visitas... – disse o jovem ao deparar-se com Milo e Camus.


– Meu Deus, Hyoga! Onde você se meteu para ficar neste estado? Já sei, andou nadando. – disse Claire sacudindo o dedo indicador.


Hyoga levou a mão aos cabelos num ato puramente nervoso. Devia ter entrado pelos fundos! Pensou, enquanto procurava algo para dizer.


– Bem, se eu tivesse dezoito anos estaria no mesmo estado. Pelo visto, nesta adorável propriedade, existem locais com água refrescante e convidativa que não dispensam um bom banho! Prazer, meu rapaz, me chamo Milo. – disse o grego adiantando-se e estendendo a mão para Hyoga.


– Muito prazer, me chamo Hyoga. – respondeu o jovem um pouco mais à vontade.


Milo apertou a mão do jovem que olhava para Camus. A sorte o havia abandonado, pensou Hyoga, visto o olhar reprovador do primo que ele conhecia tão bem.


– Olá, Camus. Não esperava que voltasse hoje. – disse Hyoga sustentando o olhar, apesar do constrangimento.


– Os negócios a que me propus já foram encaminhados. Depois que se trocar, vamos conversar no meu escritório. – disse Camus num tom seco.


– Como quiser. Agora, se me dão licença... vou me trocar. — disse Hyoga tentando parecer mais confiante do que na realidade se sentia.


– Fique à vontade. – disse Milo, ainda sorrindo.


Claire aproximou-se de Milo com um brilho de gratidão nos olhos. O grego havia tornado a situação mais amena com sua forma calorosa de agir. Intuitivamente, ele se transformara numa presença conciliadora e ela notou o quanto seu filho prezava a companhia dele.


Como era próprio das pessoas mais velhas que não possuem mais a necessidade de provar algo ou de limitar-se para preservar o decoro, Claire enfiou o braço no de Milo e sorriu também.


– Venha, Milo. Vou mostrar-lhe um pouco da nossa casa, enquanto Camus dedica-se aos negócios. A não ser que ele deixe um pouco as obrigações para nos acompanhar... – disse a senhora piscando para Milo.


– Vamos, Camus... seja um bom anfitrião e mostre o seu lar. – disse Milo, também sorrindo.


Camus observou-os e foi obrigado a sorrir meio de lado. Então aproximou-se de sua mãe que lhe ofereceu o outro braço e se rendeu, acompanhando os dois...



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Kanon entrou no bordel, naquela mesma noite. Não queria esperar uma semana para estar com Mu. Olhou para o porteiro baixo e mal-encarado que cedeu lugar a sua passagem.


Aquela era a noite de folga de Aldebaran e outro porteiro ficara em seu lugar. Sam, era o nome dele. Franzino, ninguém dava nada por ele, mas diziam que era um expert em navalhas e só este fato ajudava a manter a ordem.


Madame Walmot recebeu Kanon com um olhar melindroso, porém determinado.


– Lorde kanon... Não pensei que nos visitaria tão cedo. – disse ela com voz melodiosa.


– Quero ver Mu. – disse o jovem com o queixo erguido.


– O adorável Mu só começará a atender daqui a uma semana. Está se recuperando. Posso indicar-lhe outro... Pierre, talvez. – falou a cafetina.


– Não quero ir prá cama com mais ninguém, só quero vê-lo. – teimou Kanon.


– Meu caro lorde... sou uma mulher experiente e acredito que deve esperar um pouco para ter com Mu. Ele não é como os outros, bem sabe... Portanto, peço a Vossa Graça que tenha paciência e ouça o que estou lhe dizendo. Será muito mais, profícuo, aguardar que o tempo passe e certas coisas sejam esquecidas.


A voz de madame Walmot, sempre alegre e sussurrante, agora possuía um tom quase ameaçador. Kanon percebeu, nas entrelinhas, que ela não estava negociando e sim, informando-o. Contrariado, teve vontade de dar um safanão naquela mulher, mas lembrou-se de Saga e resolveu aquiescer. Seu irmão o avisara para que ficasse longe de problemas ou... fim de mesada e o começo de uma posição ativa frente aos negócios da família. Melhor portar-se e esperar...


– Está bem, vou para a sala de jogos, então. – rendeu-se Kanon.


Madame sorriu, enquanto exibia as unhas longas e bem cuidadas. Então chamou com um aceno de cabeça um dos serviçais da casa e indicou lorde kanon para que fosse servido com o melhor uísque da casa.


Em seu quarto, Mu parecia uma fera enjaulada, mas permanecia deitado na cama, olhando para o teto e ouvindo o som que vinha dos salões. Certamente, o conde Cresswel estava desafiando mais um na mesa de carteado e as mulheres estariam envolvendo o pescoço atarracado e beijando-o na careca para dar sorte... Suspirou ao dar-se conta que seu mundo girava naquele lugar e que, após ver-se apaixonado, desejava sair, conhecer outro tipo de vida.


Um som agudo, parecendo um tilintar, chamou sua atenção. Era a janela. Alguém atirara uma pequena pedra no vidro embaçado pelo ar frio da noite. Mu foi até o parapeito e o viu. Era Aldebaran que lhe apontava uma escada, cuidadosamente colocada ao lado da janela.


– Venha, desça. – disse Aldebaran, baixinho .


Os olhos de Mu se estreitaram, mas a curiosidade foi maior. Abriu a ajnela e desceu.


– O que está fazendo? – perguntou o jovem.


– Estou de folga e quero levá-lo num lugar. – respondeu Aldebaran. – Hoje é uma noite especial para mim e quero dividi-la com você.


– Noite especial?


– Sim, costumo lutar num ringue nos arredores da cidade. Hoje vou lutar com um campeão e o vencedor levara uma boa soma de dinheiro. Já que somos amigos, quero que esteja lá para dar-me sorte. – falou Aldebaran com um sorriso largo.


Mu também sorriu. Era impossível sentir-se melancólico ao lado de Aldebaran e não era, somente, porque o amava, mas porque ele possuía uma energia calorosa e agradável, capaz de fazê-lo acreditar no ser humano. Ficou feliz, também, por ter sido honrado com aquela revelação e convite. Aldebaran era sempre tão discreto quanto a sua vida que pouco sabia dele.


– Bem, então vamos! – disse Mu e Aldebaran sentiu-se feliz por vê-lo disposto, outra vez.



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Camus apertava o canto interno dos olhos quando Hyoga entrou em seu gabinete. A mesa organizada, a poltrona de couro disposta de modo a observar tudo ao redor, tudo dizia ao jovem que seu primo fora forjado num mundo extremamente ético e organizado, algo que não se aplicava a ele, pelo menos não daquela forma.


– Pois bem, Hyoga. Creio que devo ser direto e evitar rodeios. Penso que deve estudar, conhecer o mundo, tornar-se um homem responsável. Enquanto estive em Londres, informei-me de colégios para rapazes e decidi enviá-lo para o que for melhor.


– O melhor... – repetiu Hyoga com um sorriso amargo. A mão levada aos cabelos, agora presos com uma fita num rabo de cavalo baixo.


Um suspiro longo deixou os lábios de Camus. Sentia-se dividido em relação a Hyoga. Amava-o, mas, no fundo, algumas coisas jaziam mal resolvidas. Sabia que agora era um homem feito e que o passado havia sido deixado para trás. Pensou que era isso que estava tentando fazer, esquecer o passado e dar a Hyoga a chance de viver o que ele não tivera a oportunidade... Desejava que ele vislumbrasse outras escolhas. Ou será que sua mãe tinha razão em acusar-lhe de desejá-lo longe...?


– Olhe, não pense nisso como um castigo ou algo assim. Estou dando a você a oportunidade que não tive. Winchester é pequena e sem atrativos para um jovem com o seu potencial. – disse por fim.


– Você vai expandir a fábrica. Porque não posso aprender com você?


– Porque antes precisa ter certeza que é isso que quer. Existem profissões mais interessantes que a de administrador.


– Está mentindo. Nunca vai me perdoar, não é? Na verdade, não me suporta. Não acredita em mim, quando digo que eu não sabia, que fui apanhado de surpresa tanto quanto você! – gritou Hyoga.


Os olhos azuis de Camus adquiriram um tom escuro. O passado voltou-lhe à mente, mas ele o trancafiou, como o fizera três anos atrás. Já não culpava os outros pelo que tinha acontecido. Aprendera, a duras penas, a assumir a responsabilidade pelo seu fracasso.


– A culpa não foi sua, portanto não há o que perdoar. Eu o tenho como um irmão, bem sabe disso. Agora, peço que reflita sobre o que lhe disse. – falou Camus no mesmo tom calmo que o caracterizava, enquanto se levantava da mesa, finamente trabalhada em madeira escura.


Hyoga sentiu que a conversa estava sendo encerrada e sua garganta doeu como se estivesse sendo apertada pelas mãos elegantes do primo. Olhou-o, deixando bem evidente o seu desagrado e então deixou a sala, batendo a porta com violência.


Milo estava no corredor quando Hyoga passou por ele com lágrimas nos olhos e os punhos fechados. Tentou dizer-lhe algo, mas o jovem não quis ouvir e saiu correndo, deixando o ambiente da casa.


O grego pensou no que havia entre aqueles dois cuja dor parecia impregnar o ambiente, quando ambos se encontravam... Andou até a porta do gabinete e bateu. Camus abriu e tentou sorrir, mas aquele arremedo de sorriso pareceu mais uma careta. Então, Milo decidiu fazer algo para melhorar aquela situação.


– Camus, eu não pretendo ser descortês, mas estou com fome. Que tal um tour especial pela sua agradável cozinha? – disse Milo tocando o estômago com um gesto circular.


– Ah, Milo... perdoe-me. Vou mandar que preparem algo para comer e...


– Ora, ora... Não precisa se incomodar, meu filho. Afinal, sou eu quem tem que se preocupar com as honras da casa. Achei que está um belo final de tarde e mandei que preparassem isso. – disse Claire surgindo com uma grande cesta. – Que tal mostrar a Milo o seu recanto preferido? É uma das mais belas vistas da propriedade.


O francês percebeu que sua mãe o queria longe da casa. Certamente, iria consolar Hyoga e esperava que ele não estivesse por perto. Às vezes, achava que sua mãe preferia ter Hyoga como filho. Eram parecidos, intensos... Já ele puxara a fleuma do pai, a mesma capacidade de engolir a dor e seguir em frente.


Obediente, aquiesceu e pegou a cesta que lhe era estendida.


Caminhavam em silêncio. O sol do final de tarde era uma esfera avermelhada e as folhas adquiriam aquele tom mágico que antecede a noite... As pedras que refletiam os últimos raios solares davam a impressão de estarem em chamas, assim como os cabelos de Camus, notou Milo.


A atmosfera era agradável e quente. Camus parecia um pouco mais relaxado, com a cesta nas mãos e uma espécie de manta enrolada que ele não tinha notado antes. Num dado momento, o francês olhou-o intensamente e Milo, mais uma vez enfrentou o olhar e sorriu, fazendo Camus desviar e continuar a andar.


O grego piscou. Era inacreditável a facilidade com que Camus o perturbava com um simples olhar...


Chegaram às margens de um riacho. Camus estendeu a manta, ajoelhou-se e desempacotou o lanche acomodado na cesta de vime. Pastelão de carne, queijo, pão de mel, uma torta de maçã, uma garrafa de vinho tinto e duas taças de prata.


A água corria mansa, fazia uma curva e formava um lago fundo antes de prosseguir seu trajeto, ladeado por pedras musgosas e carvalhos frondosos. Era, realmente, um lugar especial que Camus amava, desde criança...


Camus nunca vira ninguém mais esfomeado do que Milo. Recostado em um tronco largo, ele fechou os olhos e sorveu um gole de vinho tinto. Aos poucos, começava a relaxar, sentindo o sol poente aquecer-lhe o rosto, o vinho amolecendo o corpo, o som do mastigar do grego...


Milo comia e olhava para Camus que se portava sempre com dignidade aristocrática, mesmo não sendo nobre.


Os lábios do francês eram bem delineados, finos, porém sensuais e... saborosos. O nariz perfeito fazia parte de um rosto atraente, perfeitamente emoldurado por aqueles cabelos de fogo...


Camus descerrou as pálpebras e percebeu que era observado.


– Porque está me olhando? – perguntou com um meio sorriso.


– Eu? Eu não estava olhando eu... estava refletindo sobre as cores a esta hora. – mentiu Milo.


– Ah, é? E a que conclusão chegou?


– Conclusão? Bem cheguei à conclusão que está quente e eu gostaria de nadar um pouco. – disse Milo largando a taça com vinho.


Com a garganta seca e os olhos vidrados, Camus presenciou Milo despir a roupa sem nenhuma vergonha...

Ah, meu Deus...ajude-me! Pensou Camus ao ver o belo corpo revelar-se diante de si.


A intensidade do olhar de Camus encorajou Milo. O grego desejava-o e não queria mais negar o fato. Estavam sozinhos, cercados por uma luxuriante paisagem. Sentiu-se vivo como jamais se sentira com alguém e queria que Camus partilhasse dessa sensação.


– Venha, Camus! Vamos esquecer o resto do mundo e aproveitar o momento. – disse o grego sorrindo e estendendo a mão para o francês.


Notas finais
Agradecimentos a todos os que comentam,apreciam, acompanham em silêncio! Um grande beijo!!XD