Desejar
15 The wolf and the lion
Notas iniciais
DEZ
The wolf and the lion
Parte um
Fall asleep to dream of home
Where the waves are crashing
The only place I’ve ever known
Now the future has me
Dormi com um sonho de lar
Onde as ondas quebram
O único lugar que eu conheci
Agora o futuro sou eu
O carro de Hashirama desaparecia na curva e Naruto entrou na sua casa, tentando passar despercebido dos pais. Era de tardezinha e a iluminação natural fazia sua casa parecer laranja, mas ela era branca, com avencas caindo dos vasos da parede lateral da varanda. Havia um tênis num canto afastado e uma rasteirinha jogada a esmo.
Minato e Kushina estavam em casa.
Naruto entrou em casa em silêncio, na sala encontrou Kushina segurando as mãos de um Minato muito pálido, falando ao telefone com alguém. Ele tentou passar despercebido e fugir pelo corredor, mas Minato desligou o fone.
–Você tem alguma coisa para contar pra gente filho? –perguntou Minato com a voz séria e amedrontada.
Naruto se virou para encarar os pais.
I see the fire in the sky
See it all around me
I said the past is dead
The life I had is gone
Said won’t give up
Until I see the sun
Eu vejo o fogo no céu
Vejo isso ao meu redor
Eu disse que o passado estava morto
A vida que eu tinha se foi
Eu disse que não desistiria
Até ver o sol
Itachi respirou fundo após contar toda a história. Shisui e Shizune estavam calmos, toda a vizinhança estava quieta naquele fim de feriado, o que apenas tornava tudo ainda mais estranho e tenso.
O relógio da cozinha do apartamento de Itachi marcava cinco horas. Shisui tinha escondido o rosto entre as mãos, sentando com as pernas abertas no sofá. Shizune estava ao seu lado, mas estava horrorizada demais para consolá-lo. Itachi estava na poltrona da esquerda, perfeitamente plácido, como se narrasse algo que viu no jornal.
Nada estava bem.
–Você vai sair daqui e vai morar com a gente a partir de hoje! –proclamou Shisui com a voz contida. –Sem contraditório dessa vez.
–Você não pode ‘tá falando sério! –retrucou Itachi completamente perplexo.
Hold me now
Me abrace agora
(“Faça isso parar! Por favor, alguém, faça isso parar!” Naruto pensava desesperado, enquanto via o olhar do seu pai arregalar de pavor com cada uma das coisas que ele narrava. “De novo não, faça isso parar! Alguém! Faça isso parar, por favor!”)
‘Til the fear is leaving
Até o medo me deixar
(“Ele não pode estar falando sério!” pensou Itachi ouvindo estático enquanto Shisui argumentava como ele não podia fazer nada e que aquela situação que aconteceu só provava isso, porque ele precisava ser protegido de Madara a qualquer custo. “Ele não pode fazer isso comigo! Ele não pode me deixar ainda mais inútil nisso tudo!”)
I am barely breathing
Eu mal posso respirar
(“Eu não suporto mais isso!” os dois pensaram. Naruto com desespero; Itachi com raiva.)
–Não é isso!
Walking up and letting go
To the sound of angels
Am I alive or just a ghost?
Haunted by my sorrows
Hope is slipping through my hands
Gravity is talking hold
Acordando e deixando ir
O som dos anjos
Eu estou vivo ou só sou um fantasma?
Assombrado pelas minhas correntes
A esperança está escapando das minhas mãos
A gravidade disse adeus
–É por isso que eu disse que eu não queria que você andasse com esse garoto filho! –exclamou Minato massageando a testa com força.
–Ele é meu amigo! –gritou Naruto com os braços abertos, olhando desesperado para o pai.
Minato ergueu a cabeça para observar o filho, seus olhos reluziam em uma mistura de preocupação e exasperação, ambos sentimentos refletidos nos olhos do filho. Kushina observava os dois, mordendo os lábios com apreensão.
–Um amigo que te mete nesse tipo de problema não é amigo! Você quase morreu hoje! Sua irmã ‘tá no hospital! -pontuou Minato com a voz falha, mas o mais calmamente que conseguia. -Como eu posso confiar em um garoto que só faz mal a vocês? Como eu posso querer que vocês andem com ele quando tudo o que eu vejo é vocês sofrendo?
Naruto deu dois passos para trás, para perto do corredor que dava acesso ao seu quarto, enquanto balançava a cabeça em negação. Minato não cortou o contato visual com o filho e Kushina segurou o joelho do marido, olhando-o pelo canto do olho e tentando entender o que se passava na cabeça dele.
–Não é assim! –respondeu Naruto com desespero.
–Então como é que são as coisas, se não assim? –perguntou Minato com a voz triste. -Como é que você pode me explicar isso?
O adolescente, abaixou a cabeça, fechando os olhos com força, enquanto apertava os punhos. Kushina se levantou do sofá, não aguentando mais ficar sem fazer alguma coisa.
–Certo Naruto, não precisa responder, vá para o seu quarto! –mandou ela, tentando evitar a briga que ela sabia que faria seu marido se arrepender. -Já!
Kushina olhava diretamente para o filho, que demorou alguns segundos até assentir com um gesto breve e agradecido com a cabeça. Ele tinha dado alguns passos em direção ao quarto quando Minato voltou a falar.
–Você viu? –inquiriu Minato com a voz gentil. -Não tem explicação! Filho, é melhor que...
–Só porque eu não quero dizer, não significa que não tenha uma explicação. –respondeu Naruto a contra gosto, ainda de costas para os pais.
–Por que não dá pra dizer? –perguntou Minato se levantando do sofá.
–Minato, agora não! –mandou Kushina com a voz apreensiva. –Naruto! Faça o que eu mandei!
Mas o garoto não obedeceu.
–Porque não dá pra passar uma borracha! Ainda dói! –respondeu Naruto com raiva, se virando para encarar os pais. -Dói em mim, na Karin e em vocês também! Não dá pra apagar isso, pai! Eu sei disso, a mamãe sabe disso, o senhor sabe disso e até a Karin sabe disso! –gritou Naruto gesticulando muito para seus pais atônitos. -Ele estava lá quando tudo aconteceu...! Eu não posso...!
Durante todo um minuto tudo o que se ouviu foram os sons dos passarinhos do lado de fora e o som do relógio. Ninguém sabia o que dizer.
–Eu sei que não tem como apagar. –murmurou Minato com a voz sentida. -E eu e a sua mãe sabemos que você se importa com ele, mas pra tudo tem um limite! –sua voz ficou mais decidida. -Isso está prejudicando vocês!
–Minato, esse não é o melhor momento! –interferiu Kushina com firmeza, mesmo que estivesse sentindo péssima. -Eu também ‘tou irritada, mas agora não!
–Mas Kushina! Isso é ridículo! –retrucou Minato olhando a esposa com desespero. -Eu não quero mais ver nosso filho perto deles! Mesmo do Itachi!
–Não! –berrou Naruto assustado. -O Itachi não tem nada a ver com isso! Ele tentou me salvar!
–Mas Itachi é o irmão do Sasuke. –pontuou Minato com a voz fria. -Ele é uma boa pessoa, Shisui-san e Shizune-san também são, mas Sasuke não faz bem pra você!
–Ah ‘tá, né, pai? –retrucou Naruto completamente lívido de raiva. -Na hora que o Teme ‘tava me ajudando quando era coisa que vocês tinham que fazer, tudo bem, mas agora quando ele precisa não, né? Foi isso mesmo o que vocês me ensinaram a vida toda!
Minato atravessou a sala até ficar frente a frente com Naruto. Pai e filho se desafiavam com o olhar. Kushina nunca tinha visto seu filho peitear o pai antes. Naruto não era assim. Nem Minato.
–Nunca mais fale assim! –mandou Minato com a voz lívida.
–É só a ver...!
Antes mesmo que qualquer um na sala se desse conta, o punho de Minato foi de encontro ao maxilar de Naruto, que caiu no chão com o impacto do soco. O garoto o olhou assustado, Kushina também o olhava assustado.
Minato nunca tinha batido em Naruto.
–Minato! –ralhou Kushina com a voz chocada. Minato piscou e viu o filho no chão olhando-o horrorizado.
–Eu...! –ele murmurou completamente atônito com sua falta de controle. -Perdão, filho eu...!
–NÃO ME TOCA! –berrou Naruto se arrastando no chão para longe dele. -NÃO CHEGA PERTO DE MIM!
Minato parou de tentar chegar perto do filho, observando o adolescente se levantar e caminhar a passos pesados até o quarto, fechando a porta com um estrondo alto que deu para ouvir na sala. Kushina saiu correndo para bater na porta do filho, enquanto Minato olhava pelo caminho onde sua esposa e filho tinham sumido.
–O que eu fiz...? –ele murmurou cobrindo o rosto com vergonha.
I said i’m not afraid
That I’m brave enough
I will not give up
Until I see the sun
Eu disse que não estava com medo
Que eu era corajoso o bastante
Eu não vou desistir
Até ver o sol
–Você não entende? -inquiriu Shisui com exasperação. -Madara planejou tudo isso! Ele chegou ao ponto de planejar isso! Você quase...!
Shisui olhou para Itachi parecendo que ia chorar de puro pavor, mas Itachi estava impassível. A cara fechada. Shizune apertava as mãos umas nas outras, com os olhos fechados.
–Até aquele garoto que não tinha nada a ver com isso, que é neto do amigo dele! Amigo dele, Itachi! –continuou Shisui com raiva. -Ele envolveu! Ele não se importa com nada!
–Neto do amigo dele? –perguntou Itachi sem entender nada. -Do que você ‘tá falando? Que outra coisa você ‘tá escondendo de mim agora?
Toda a expressão de Shisui se condoeu quando Itachi pontuou as coisas que ele não podia dizer. Doía, mas era o melhor a se fazer.
–Ele, Naruto, todos da família dele tem alguma relação com o Madara!
–Ele não tem! –pontuou Itachi com a voz séria e seca. -Não sabem nada do Madara!
–Naruto te contou isso também? –inquiriu Shisui com ressentimento. -O que mais esse garoto conta que você não conta pra nós, hein?
Dessa vez foi Itachi quem abaixou o rosto, se sentindo desolado com o que o tio dizia: Shisui não confiava nele e isso doía muito mais do que ele pensou que fosse doer.
–Nós somos uma família! –tornou Shisui com a voz enfática, longe de gritar. -Sasuke é meu sobrinho também! Acha que não dói ver do jeito que ele ficou? Acha que eu não quero fazer alguma coisa? Pensa que não dói ver você assim? Eu quero que dê certo!
Uma longa pausa ocorreu entre os Uchihas. Shisui estava com a respiração ofegante e Itachi apertava os braços da poltrona com tanta força que seus dedos estavam brancos. Shizune tudo ouvia, não sabendo como se portar naquela briga.
–Você acha que eu não quero ele aqui? –perguntou Shisui com a voz baixa e desanimada. –Acha que eu não quero ver ele bem?
–Eu sei disso. –murmurou Itachi com a voz fraca. –Mas você acha que eu aguento ser tratado como uma criança que não sabe fazer nada? –perguntou Itachi com a voz controlada, mas ainda assim magoada. -Que eu não quero ajudar? Eu quero ajudar o meu irmão também! Eu preciso fazer alguma coisa!
–Mas você não pode! –contra-argumentou Shisui com aflição.
–Nem você! –rebateu Itachi igualmente aflito.
–Chega vocês dois! –interferiu Shizune com a voz chorosa. –Isso não vai levar a nada!
Hold me now
Me abrace agora…
(-Naruto! Abre essa porta agora! –gritava Kushina, batendo na porta branca do quarto de Naruto. O enfeite de um anjinho dizendo: ‘Um príncipe dorme aqui’ caiu no chão enquanto ela batia na porta.)
‘Til the fear is leaving
Até o medo ir embora…
(“Vai embora! Só… Por favor, vai embora!” pensava Naruto sentado no chão atrás da sua porta, sentindo uma vontade insana de destruir qualquer coisa. )
I am barely breathing
Eu mal respiro
(“O que eu fiz? Eu não sou assim… Por que eu bati nele? Por quê?” pensava Minato, reunindo forças e indo até a cozinha, onde pegou uma faca e começou a cortar algum legume para acelerar a janta. Ele precisava fazer qualquer coisa. Qualquer coisa!)
Crying out
Chorando alto.
(“Preciso tirar o Shisui daqui!” Shizune pensava com urgência, tentando controlar suas emoções. “Eu preciso que ele não esteja surtando pra pensar com calma! Se não tudo só vai piorar!”)
These tired wings are falling
Essas asas cansadas estão caindo
(-Eu sei que não tem muito o que eu posso fazer, Shisui, não preciso que você jogue isso na minha cara! –pontuou Itachi com a voz magoada. –Mas entenda que é insuportável só assistir tudo ruir e não fazer nada! Eu sou o irmão dele! Eu tenho o direito de agir!)
I need you to catch me
Eu preciso que você me carregue
(“Itachi... Irmãozinho, eu não posso perder você também!” pensou Shisui com desespero.)
As I burn
Enquanto eu queimo
(Minato sentia seu dedo ardendo, mas não conseguiam enxergar o vermelho de seu próprio sangue porque as lágrimas embaçavam a sua vista. Havia uma pilha de rodelas de cenoura, ainda com casca, na tábua de cortar carne. Gotas de sangue caiam na bancada, mas ele nada fazia para impedir isso.
A faca caiu de sua mão com um ruído. “O que eu vou fazer?” ele pensou, sem conseguir se mover. Olhando para o seu dedo cortado, mas sem realmente enxergar nada.
“Eu não sou o pai que eu pensava ser. O que eu faço agora pra proteger meus filhos?”)
As I break
Enquanto eu quebro
(Seu maxilar doía. Seu pai era mesmo muito forte, Naruto lembrava que apesar da aparência calma, seu pai já foi lutador de Box na escola, peso pena.
“Eu não queria ter dito aquilo...” ele pensava entristecido, sentindo seus próprios olhos ficarem marejados enquanto a sua respiração ficava difícil. “Eu não devia ter dito aquilo!” ele continuava pensando com raiva de si mesmo.
Naruto escondeu o rosto entre suas mãos. “O que é que eu vou fazer?” ele pensou com desespero, sentindo seu celular vibrar. Mensagem da operadora dizendo que ele ganhou bônus.
“Eu quero ouvir a voz dele...” pensou Naruto.
Sem nem pensar duas vezes, ele discou o número de Itachi.)
I can’t take it anymore
Eu não posso aguentar mais
(“Eu preciso de ar...” pensou Shisui se levantando do sofá, sem dizer nada e com a cabeça abaixada. O telefone tocou uma vez, mas ele nem deu bola. “Itachi é tão teimoso!” ele pensava enquanto caminhava até a porta de entrada do apartamento, sem sequer olhar para a esposa e para Itachi.
Uma vez fora do apartamento, Shisui atravessou a rua deserta, rumando até o parque Sarutobi. “Madara pensa que eu sou um péssimo jogador e, é, até agora eu tenho sido uma droga nesse jogo ridículo.” Ele admitiu para si mesmo, se odiando mais do que tudo.
Shisui chutou uma pedrinha para longe. “Eu não quero envolver minha família, mas eles já estão envolvidos. Todos eles...”, ele se sentou em um banquinho, com as pernas abertas, repousando os cotovelos nas suas coxas enquanto suas mãos bagunçavam seu cabelo.
“Eu não aguento mais ser só mais uma peça nisso tudo...” ele pensou com exaustão “então... o que fazer?”)
I return to the place
Eu voltei ao lugar
(“Ele não vai abrir.” Kushina pensou entristecida, com ambas as mãos ardendo por tanto bater na porta trancada a sua frente.
Nenhuma ameaça de morte adiantou, nenhum castigo severo também. Ela ainda olhou para a porta durante alguns instantes, esperando que ela magicamente se abrisse, mas nenhum ‘abre-te sésamo’ funcionou.
“As coisas estão piores do que eu pensei...” ela refletiu fazendo o caminho de volta a sala. “Talvez meu pai realmente tenha razão e eu não tenha outra escolha a não ser realmente aceitar isso... Mas Minato não vai concordar... Minato...”.
Lentamente ela foi até a sala, vendo que o esposo não estava lá. Ela ia até o quarto quando ouviu a torneira da cozinha ser aberta. Minato estava parado em frente a pia, havia algumas gotas de sangue em seu piso, mas Kushina estava cansada demais.
Ela caminhou até o marido, abraçando-o por trás, repousando seu rosto sobre as costas dele. Minato fechou a torneira e a abraçou.
Os dois nunca precisaram de palavras para compartilhar a dor.)
Where the water covers over everything
Onde a água cobre qualquer coisa
(“Eu sei que ele quer ficar sozinho... Mas será que eu devo deixar ele sozinho?” Shizune pensou com apreensão.
Ela viu Shisui ir embora do apartamento e ficou matutando por alguns instantes se deveria ou não segui-lo. O telefone tocava estridentemente, mas nem ela ou Itachi atenderam, até que parou de tocar.
“Ele pode fazer alguma besteira...” ela pensou ficando ainda mais apavorada e isso foi o bastante para ela segui-lo. O telefone voltou a tocar, mas ela pouco se importou, certificando-se apenas que Itachi estaria muito bem trancado e protegido no apartamento. Ela passou a chave na porta da frente e logo saiu correndo atrás do marido.
“O parque.” Ela pensou. Era o lugar onde Shisui teria ido. Ela entrou no lugar e logo o encontrou sentado em um banco, profundamente perdido em pensamentos. Shizune foi até ele e o abraçou.
“Você não está sozinho nessa.” Ela pensou com determinação quando os olhos de seu marido fitaram os dela. “Nós vamos encarar essa juntos!”.)
Rescue me somehow
Me resgate de algum jeito
(“Eu estraguei tudo...” Itachi pensava, enquanto massageava sua testa com força. Shisui não confiava nele e agora estava com raiva e, muito provavelmente, magoado também.
“O que eu posso fazer?” ele pensava aflito. O telefone maldito tocava ao seu lado sem parar. Itachi estava com o ímpeto de arremessar aquela droga na parede, mas a vontade desapareceu no mesmo minuto que surgiu em sua mente. Era estúpido.
Em vez disso ele apenas esticou o braço até tocar no gancho do telefone.
–Alô?
Ninguém respondeu, embora ele conseguisse ouvir uma respiração entrecortada do outro lado.
–Alô? –ele repetiu com a voz cansada e irritada. –Tem alguém aí?
Ele esperou por uma resposta, mas nenhuma veio. Itachi estava quase desligando quando ouviu uma voz baixa e rouca que fez com que tudo ficasse ainda pior.
–Não desliga...!
Naruto.
Itachi suspirou cansado. Ele não queria mais problemas, mas também não queria ser grosso com Naruto e muito menos ouvir aquela voz triste. Naruto não combinava com tristeza. Aquele era só um péssimo momento. Pros dois.
–O que aconteceu? –ele perguntou com a voz cansada.
Naruto não respondeu.
Não importava. De um jeito ou de outro, Itachi entendeu: Eu só preciso saber que você ‘tá aí...
Um suspiro longo e pesaroso lhe escapou, Itachi fechou os olhos e se recostou ainda mais no sofá, levando o fone até seu peito, onde ficava o seu coração, e ficando alguns segundos assim, até voltar a ouvir a respiração de Naruto.
“Eu estou aqui.”
Naruto fungou baixinho. “Eu queria você aqui.”
Itachi inspirou profundamente, expirando com lentidão. “Eu também.”
Nenhuma palavra foi dita. Nenhuma delas era necessária.
E isso também importava.”
Hold me now
‘Til the fear is leaving
I am barely breathing
Crying out
These tired wings are falling
I need you to catch me
Me abrace agora
Até o medo ir embora
Eu mal respiro
Chorando
Com essas assas caindo
Eu preciso que você me pegue
Hold me now
‘Til the fear is leaving
I am barely breathing
Me abrace agora
Até o medo me deixar
Eu mal posso respirar
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Karin’s pov.
–Hey Jude, refrain… -cantarolava um adolescente não muito longe dali.
Por um instante inteiro, ela não sabia onde estava, mesmo que o lugar fosse vagamente familiar. Karin sentia o cheiro da grama molhada sobre seus pés, um vento morno soprava em seu rosto e trazia o cheiro dos biscoitos de canela que sua avó Mito costumava fazer com Naruto, dava até mesmo para ouvir o riso contido e feliz dela no fundo.
“Ah, é a casa da vovó Mito e do vovô Hashirama!” Karin pensou ao reconhecer a fachada da casa de aspecto rústico com uma videira carregada de pequenas uvinhas roxinhas que eram muito doces e que desciam pelas estacas de madeira da varanda. “Isso significa...!” ela pensou com excitamento, olhando pelo jardim até encontrar a fonte da música.
–Don’t carry the world… -entoava Nagato. Seu irmão gêmeo estava de costas para ela, jogando pão na fonte, onde as carpas nadavam tranquilamente. Karin sentiu seus olhos marejarem e Nagato virou para trás, em sua direção, e sorriu. -Upon your shoulder…
Karin se pegou sorrindo, enquanto via o sorriso tímido do seu irmão aumentar um pouquinho. Ela correu até gêmeo um minuto mais velho, parando dois passos antes de tocá-lo. Às vezes quando o sonho era muito bom ela tinha medo de que tudo se desvanecesse sem que ela ao menos pudesse aproveitar a companhia do irmão. Nagato se virou outra vez para ela, com o mesmo sorriso gentil que atingia seus olhos violetas.
–Lembra quando a mamãe cantava isso pra gente dormir? –ele perguntou, sua voz era meiga como ela se lembrava.
Karin fechou os olhos, inspirando profundamente o cheiro dos biscoitos de canela, mas sabendo que aquilo era apenas um sonho. Seus melhores sonhos eram naquela casa, mesmo que lá fosse frequente a luz ir embora e ela precisasse ser corajosa para sair do seu quarto, ir até o quarto de Naruto e Nagato se enfiar na cama do gêmeo. Só que no fim, ela, Naruto e Nagato ficavam embolados na mesma cama, um tentando empurrar o outro para o chão porque ficava quente demais, só que ao mesmo tempo os três ficavam com medo do que tinha debaixo da cama, coisas que o tonto do Yahiko contava para colocar medo neles.
Só que aqueles tempos não existiam mais. Sua avó favorita morreu e com ela foi a casa perto do lago, não tinha mais videira, nem forno a lenha, não tinha aquário de carpas e nem cheiro de biscoitos de canela. Naruto se esforçava em reproduzir a receita, mas não era a mesma coisa. Não era a sua vó fazendo os biscoitos e não era Nagato o primeiro a roupar um da bandeja e comer quente, só para depois ter diarreia e Naruto rir tanto que passava mal.
–Uhum. –ela murmurou, com medo de abrir os olhos.
Mãos mornas tocaram suas bochechas com carinho e ela abriu os olhos, vendo Nagato sorrir de novo para ela. Na cozinha, ela escutava sua avó Mito cantarolando alguma música alegremente.
–Faz tempo que você não vem aqui. –comentou Nagato com gentileza, parando de tocar suas bochechas. Em vez disso, ele apenas se sentou na beirada da fonte e fez um gesto para o tijolo vermelho ao lado dele, para que ela se sentasse ali.
Karin deu um passo para trás, se sentindo agoniada e temerosa. Ela queria tanto ficar ali para sempre. Tanto! Mas não tinha esse direito.
–Eu... –ela murmurou dando mais um passo para trás.
–Eu sei. –Nagato murmurou com a voz triste, ficando de pé, mas não tentou se aproximar dela. -Eu sei tudo sobre você, lembra?
Karin baixou a cabeça.
–Eu sei.
–‘Tá tudo bem. –disse Nagato com a voz doce, vindo em sua direção e colocando uma mão sobre o seu ombro. -Você não precisa ficar em um lugar onde até ele não te alcança.
–Eu...! –ela se virou para encarar o irmão, mas Nagato estava com aquele olhar novamente. Ela não sabia o que dizer. -Eu não...
–Eu estou bem. –ele afirmou com uma firmeza que não possuía em vida. -Um dia você vai lembrar disso.
Karin acordou com lágrimas nos olhos, as últimas imagens do sonho desvanecendo junto das lembranças do cheiro de biscoito de canela e do rosto de Nagato. Ela não entendia os seus sonhos com o irmão e tão logo a consciência a atingia, as palavras eram esquecidas. Ficavam engavetadas, perdidas entre um paralelo de realidade e esperança, mas talvez isso não fosse o pior: a incerteza entre se esquecer sem querer e a vontade de se esquecer de propósito de Nagato era um paradoxo que ela convivia desde que os exames dele positivo para câncer saíram há muito tempo atrás.
Uma música soava baixinho, algo que ela reconhecia, mas não conseguia lembrar o nome ou quem cantava. O ar não estava entranhado com aquele cheiro de detergente e outros produtos de limpeza, além disso ela estava sozinha e sem o maldito soro grudado no seu braço.
“Cadê meus óculos?” ela pensou se virando na cama e achando a armação no criado mudo, ao encarar o teto, ela reconheceu as figurinhas de estrelas grudadas na madeira branca. Seu quarto. “Até que enfim!”, ela pensou aliviada.
Depois do susto que teve na festa de sábado, ela passou dois dias em observação no hospital, apenas recebendo visita dos seus pais. Naruto não veio vê-la uma vez sequer, nem foi ao quarto dela na noite de terça, quando ela recebeu alta. Karin sabia que tinha alguma coisa errada naquela equação, mas ela ainda estava um pouco chateada pelo irmão não ter ido visitá-la. A porta do seu quarto foi aberta bruscamente e Karin deu uma olhada rápida.
Era Naruto, vestindo uma saia.
Karin olhou para o lado, decidida a ignorar o caçula quando se deu conta que Naruto simplesmente não usava saia. Ela se virou para encarar o irmão mais novo, que desfilava pelo seu quarto com o aspirador de pó, usando a bermuda como uma saia justíssima, uma camisa amarrada na barriga e com dois peitos falsos, se movendo ao ritmo da música que ela reconheceu como uma do Queen. Ela piscou para ver se não estava sonhando e Naruto sorriu para ela, fingindo limpar o seu quarto.
–I want to break free! –entoou Naruto limpando sua escrivanhina, enquanto Freddie Mercury cantava. -I want to break free!
–Que…? –ela murmurou baixinho arregalando os olhos e ajeitando os óculos no rosto.
Desde quando seu irmão virou um transformista? Naruto abriu a sua gaveta de calcinha, tirando do fundo o seu retrato de Sasuke.
–I want to break free from your lies! –entoava Naruto aparentando estar com raiva, apontando para o retrato de Sasuke. –You are so self…satisfied! I don’t need you!
Naruto colocou o retrato virado para baixo sobre o móvel, em seguida cruzando os braços ao redor do tronco, fazendo com que duas meias emboladas quase pulasse para fora do decote. Karin arregalou os olhos e mordeu os lábios para não rir, virando o rosto para longe da visão de Naruto, imitando o gesto do irmão ao cruzar os braços ao redor dos seios. Ela tinha uma dignidade a zelar e não ia rir ou fingir que estava tudo bem entre os dois! Naruto não foi visitá-la e ela ainda estava com raiva.
–I’ve got to break free! –continuou Naruto dramaticamente, batendo no seu colchão enquanto pronunciava seus peitos de meia e Karin viu que o irmão estava usando um sutiã vermelho que era dela. Aquele bandido! -God knows!
“Não ri! Não ri!” Karin pensou espremendo os lábios e fazendo força para não rir, mas o caçula colocou a mão direita sobre a resta de um jeito dramático, fazendo uma cara de mocinha mexicana sofredora igual a da Lety, só que sem tique no olho. “Meu Deus, Naruto ‘tá usando batom vermelho!”
–God knows I want to break free! –cantarolou Naruto tão, tão dramaticamente que não teve santo que desse jeito.
Karin não conseguiu se segurar mais e acabou caindo na risada, tendo que segurar a barriga de tanto que estava rindo. No mesmo instante Naruto sorriu amplamente, gargalhando quase tanto que ela, só que aquele imbecil ainda chacoalhou os peitos de meia só para fazer com que ela se engasgasse com o riso e começasse a lagrimar de tanto rir.
“Não olha pra ele!” ela pensou em desespero, tentando se virar para o outro lado a fim de não voltar a rir e tentar voltar a ficar com raiva de Naruto quando o tonto do seu irmão falou.
–Ain Mona, não se reprima! –Naruto estava com a voz mais bichesca que ela já ouviu e ela andava com Suigetsu, dica. -Se anima!
Ela quase se engasgou de tanto rir, seu rosto devia estar vermelho da cor dos seus cabelos, mas ela não conseguia parar de rir. Naruto era tão sádico que quando ela estava quase parando de rir, ele mandou um beijo na sua direção com aquela boca vermelha e borrada, fazendo com que ela risse de novo e a sua barriga estava doendo tanto, ela estava tão sem fôlego que até mesmo respirar estava difícil.
–Você é um idiota! –ela murmurou com a voz fraca. –Eu te odeio!
–Isso é inveja do meu poder fatal, ok? –comentou Naruto alegremente e Karin tapou a boca com as duas mãos. -Eu sou sexy, ‘tá?
Dizendo isso, Naruto colocou a mão na cintura e se empinou todo, mas ficava estranho demais. Seu irmão fazia o tipo todo musculoso, com linhas em todo o abdome, apesar de tampouco ser um bombadão. Karin deu um chute na costela do irmão sem muita força porque ela não conseguia parar de rir de novo.
–Para! –ela disse com a voz alegre.
–Você riu! –retrucou Naruto com a voz radiante e apontando para ela. -É isso o que importa!
Karin deu a língua para Naruto, ao mesmo tempo em que também mostrava o dedo do meio, mas seu irmão apenas riu satisfeito, antes de passar as costas da mão direita nos lábios para tirar o batom vermelho da boca. Só que em vez de tirar, Naruto ficou ainda mais borrado, parecia uma versão gay da Carrie White após a coroação de rainha do baile.
–Credo! –exclamou Naruto horrorizado se olhando no espelho. -Esse treco não sai nunca?
–Tem lenço umedecido dentro da primeira gaveta, use isso pra tirar o batom e pra limpar essa mão vermelha. –recomendou Karin, apontando a gaveta e vendo o irmão abri-la e fazer o que ela mandou.
Naruto limpou o batom da boca ou o máximo que ele conseguia fazer, porque seus lábios ainda estavam anormalmente avermelhados, depois ele limpou as costas das mãos, embora ainda parecesse que ele tivesse se batido em algum lugar. Depois, sem qualquer autorização ou prévio aviso, Naruto arriou as calças ficando completamente pelado na sua frente. Karin tateou pela cama, pegando um travesseiro e sem nem mirar atingiu o lombo do irmão mais novo.
–VOCÊ PRECISA SE TROCAR NA MINHA FRENTE? –ela berrou com raiva, sentindo o rosto ficar quente.
A bunda pálida de Naruto entrou no seu campo de visão e Karin pegou o controle remoto da TV e tacou nas costelas do mais novo, que deu um berro alto, enquanto se virava e lhe dava uma visão frontal.
–AAAAAAAAAAAAAAAH! COBRE ISSO! –gritou Karin tampando os olhos com as mãos. –NÃO SE TROQUE NA FRENTE DA SUA IRMÃ! PRINCIPALMENTE QUANDO ESTIVER SEM CUECA!
–Bla bla bla. –resmungou Naruto tranquilamente, embora estivesse com a voz irritada e Karin espiou por entre os dedos, percebendo que o mais novo subia a bermuda até ficar vestido de novo. –Um, eu ‘tou em casa, posso ficar livre da cueca. Dois, você já me viu pelado mesmo, não tem nada aqui que você já não tenha visto. Três, eu também já te vi pelada, não é como se eu fosse atacar você ou você fosse me atacar.
Dizendo isso, Naruto se sentou na sua cama, mesmo que ela estivesse tentando chutá-lo para longe dali, só que aquele idiota segurou as suas pernas e começou a dar aquele riso de quando aprontava alguma coisa.
–Sai daqui! –mandou Karin pegando o travesseiro abaixo da sua cabeça para tentar acertar o irmão.
–Vai bancar a santinha, é? –provocou Naruto aumentando ainda mais o riso. –Não fui eu quem tirou o seu sutiã naquele dia do lago!
Karin sentiu seu rosto esquentar de vergonha e humilhação com a lembrança.
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Era uma tarde muito quente de junho, o pior mês do ano inteiro em sua opinião. Junho era o auge do verão, com as chuvas em meio ao sol quente e sem o menor aviso, sol de rachar, mormaço, vento quente e úmido, litros de protetor solar para não ficar cheia de sardas, só que, por ser muito quente, a sensação de estar sempre grudenta a perseguiria o mês inteiro.
Karin odiava o verão. A única coisa boa era usar roupas curtinhas e disque foda-se para todos os que pensavam que ela era uma vadia por isso, porque ela realmente estava cansada do: “homem sem camisa é calor; mulher sem camisa é puta” e que todos se sentassem na casa do caralho e afundassem junto do Titanic.
Naquela tarde, o Tico e o Teco não tiveram aula e a sequestraram da sua escola, só que seu irmão se superou na idiotice e agora os três caminhavam por uma estradinha de cascalho vermelho com mato de um lado e de outro, depois de quase duas horas no ônibus. Havia chovido e a sensação era como caminhar dentro de um forno.
Ela olhou para Sasuke, percebendo que o Uchiha estava tão sem forças que sequer grunhia; se o verão era horrível para ela, era três vezes pior para Sasuke. Karin se perguntou se o amigo estava com insolação ou alguma outra coisa, porque clarinho como Sasuke era, ele sofria mais com a intensidade do calor. No momento, Sasuke estava todo rosado igual a um camarão frito, andando de ombros curvados e completamente quieto, totalmente diferente do seu irmão.
Naruto amava o verão e o verão amava Naruto. A pele deixava de ter aquele tom pálido esquisito e ganhava um bronzeado natural de fazer inveja, os cabelos ficavam mais queimados pela exposição ao sol e ganhavam um tom quase caramelado, os olhos pareciam topázios e não o miosótis clarinho quase cinzento que ficava no inverno. O problema é que Naruto falava quatro vezes mais no verão e as piores ideias amadureciam naquela cabeça loira.
Tipo: “vamos ao lago!”. E ali estavam: em fila indiana no meio do mato, sem que ninguém soubesse que eles estavam ali, sozinhos, no meio da tarde e ainda com os uniformes. Tudo podia dar errado, mas ali estavam os três.
Por Sasuke, os três estariam na biblioteca pública, no abençoado ar condicionado, onde ele poderia jogar paciência em um dos computadores disponíveis, ela poderia desenhar os vestidos e roupas que quisesse em seu caderninho de moda, enquanto o cabeçudo do seu irmão lia alguma coisa da ala de literatura.
–Já chegamos? –ela grunhiu e Naruto se virou para eles, lançando um sorriso quase ofuscante demais, que fez com que ela resmungasse mal humorada.
–Quase! –respondeu Naruto com jovialidade e Karin fez uma careta, ficando ao lado de Sasuke, o qual olhava seu irmão com desprezo. -Vamos virar aqui!
Sasuke deu um passo à frente, olhou para baixo e depois olhou para o seu irmão com ainda mais rancor. Naruto deu uma risadinha baixa e Sasuke deu o primeiro grunhido desde que parou de chover à uma hora atrás. Karin ficou curiosa e se aproximou dos dois mongos e viu porque Sasuke pareceu ainda mais miserável: Naruto queria que eles descessem um barranco super inclinado, confiando em uma velha corda que não parecia muito segura. Ela já estava com preguiça de subir sem nem mesmo ter descido!
–Você só pode estar brincando! –reclamou Karin, olhando incrédula para Naruto.
–Ora vamos! –incentivou Naruto com a voz empolgada. –Onde está o espírito aventureiro de vocês?
–Ficou enterrado lá na biblioteca pública onde tem ar condicionado, idiota! –respondeu Karin com raiva, apontando para o irmão que apenas ria. Sasuke se virou para ela e Karin podia jurar que o amigo estava fazendo um beicinho contrariado. –No way de descer isso!
–Ah qualé, vocês dois! –intermediou Naruto ainda com a voz empolgada, colocando um braço ao redor dos ombros de Sasuke que apenas teve forças para estreitar o olhar de profundo desprezo para o seu irmão. –Pegaram o busão pra vir pra cá, duas horas com a bunda grudada naquele assento duro e pulando a cada buraco na estrada, mais quinze minutos no sol de rachar pra chegar aqui e agora só por causa de um barranquinho não vão descer?
Dessa vez foi Karin quem estreitou o olhar para o irmão, que nem sequer parecia abalado com isso. Ela olhou novamente para a corda, para o barranco e para o seu irmão, fez isso várias vezes enquanto cruzava os braços ao redor dos seios.
–Eu te odeio. –afirmou Karin com convicção.
Naruto sorriu vitorioso.
–Entra pra fila! –rebateu Naruto, mandando um beijo para ela.
Seu irmão largou Sasuke, ajeitando a mochila no ombro e os três começaram a descer o maldito barranco na mesma fila indiana de sempre: Naruto a frente para guiar o caminho, Sasuke como um filé no ponto vinha em seguida e por último, lá estava ela se arrastando. A parte com a corda foi pequena, após eles derem uns trinta passos, o barranco terminou em uma escada de madeira pintada na cor verde-bandeira e ia até um cais no lago. Naquela hora da tarde, tudo estava com uma sombra gostosa e um ventinho úmido que não era como um bafo de forno. Os três desceram a escada em silêncio e, é.
Ok. Ela seria sincera: era uma vista bonita. Havia muitas samambaias cercando a escada, árvores altas, com musgos nas copas e bromélias com flores vermelhas nos galhos altos, alguns ipês rosas, roxos e amarelos floresciam em alguns pontos aqui e ali, sem falar na água cristalina do lago. Dava para ver as piabinhas nadando da orla e não parecia ser fundo. Naruto tirou a mochila e colocou no piso do cais, começando a se espreguiçar diante da visão.
–E aí? –perguntou Naruto com a voz animada. –O que acharam?
–Eu não acredito que você me trouxe pra cá só pra ver mato. –afirmou Karin com raiva. Seu irmão não precisava saber que ela tinha gostado do lugar.
–Você é difícil de agradar, mesmo hein? –resmungou seu irmão com um muxoxo.
–‘Tá, e agora? –perguntou Sasuke deixando a mochila no chão de madeira do cais, se sentando em seguida.
Naruto deu aquele sorriso. O sorriso que todo mundo que o conhecia um pouquinho de nada sabia que era reservado para alguma brincadeira ou travessura. Karin deu um breve olhar em direção a Sasuke, mas o amigo a ignorou, estreitando os olhos em desafio.
–E agora... –respondeu Naruto depois de tirar a camisa do uniforme enquanto desafivelava o cinto do jeans. -... A gente nada!
–Hein? –ela se voltou para o irmão, virando o rosto com tanta rapidez que seu pescoço estalou. –‘Tá doido? Você bebeu?
–Ei Naruto... –chamou Sasuke com a voz arrastada, enquanto seu irmão se sentava no cais para tirar o tênis e as meias. -Você ‘tá falando sério...?
–Qual é o sentido de vir pra um lago e não nadar? –rebateu Naruto como se falasse o obvio para os dois, colocando as meias dentro dos tênis e a mochila sobre sua camisa.
–Mas você nem tem roupa de banho idiota! –pontuou Karin enquanto seu irmão dobrava o jeans, revelando que estava usando só uma boxer branca normal. –E qualquer um pode ver a gente!
–E desde quando um detalhezinho desses me impediu de fazer alguma coisa? –retrucou seu irmão com um sorriso radiante antes de cair na água, fazendo um barulho enorme.
Durante um segundo ela viu o irmão mergulhando nas águas calmas do lago, a cueca rapidamente ficando transparente e mostrando muito mais do que devia. Karin se voltou para olhar Sasuke e viu que o amigo estava com uma expressão de riso no rosto, algo que era muito pouco visto, já que o Uchiha quase nunca sorria, muito menos no verão. Naruto emergiu não muito longe do cais, tirando a franja, que agora estava cor de areia lavada, do rosto e após ficando em pé no fundo de areia. A água batia na altura do tronco de Naruto, indicando que o lugar realmente não era fundo.
–Ele é louco... –Sasuke murmurou baixinho e Karin riu em concordância.
–A água ‘tá uma delícia! Venham logo! –chamou Naruto com a voz alegre. –Não é fundo!
–Eu não! –berrou Karin e fazendo seu irmão rir. –Nem que me paguem!
–Ah, qual é! –chamou Naruto, batendo a mão na água.
Sasuke balançava a cabeça de um lado para o outro, aparentando estar se divertindo com tudo aquilo. Agora que estava mais fresquinho, ele lentamente ia voltando a cor branquinha de sempre e não ao rosado-camarão de antes.
–Você é doido... –afirmou Sasuke olhando para Naruto com um olhar superior de provocação.
–E você é um chato! –aduziu Naruto, cruzando os braços ao redor do peito. –Só se é jovem uma vez, ok?
–Você só ‘tá arrumando uma desculpa para sua idiotice, Dobe... –comentou Sasuke com a voz zombeteira.
Em resposta, seu irmão deu a língua para Sasuke em um ato muito maduro, para dizer o contrário, depois sorriu e resolveu flutuar na água. A droga da cueca estava toda transparente e Karin viu tudo o que não devia ver.
–AAAAAAAAH VIRA PRA LÁ! –ela berrou tapando os olhos, mas Naruto nem se moveu. –‘TÁ DANDO PRA VER TUDO! NARUTO!
–Ah ‘tá, como se você nunca visse pornô gay no computador só pra ver pinto Karin. –resmungou Naruto com indiferença. –E eu vi as playgirl que você escondeu debaixo do armário pra mamãe não ver.
Karin queria morrer. Ela sabia que o rosto dela devia estar da cor de um pimentão, sequer conseguia encarar Sasuke, e o pior é que ela nem conseguia retrucar! Sério, uma coisa era ela estar ok em ver pornô no seu próprio quarto e se masturbar, se homem podia, por que não ela? Esse não era o problema. Naruto saber disso também não era problema, ela fazia isso sim e daí? Agora Sasuke saber disso... Eram outros quinhentos. Naruto não tinha o direito de ser tão indiscreto assim.
–EU VOU TE MATAR PESTE! –berrou Karin, deixando a mochila cair do ombro, enquanto ela tirava a camisa, abaixava a saia, tirava o sutiã e os óculos antes de cair na água atrás do irmão.
–Hein? –ela escutou o irmão dizer com a voz diferente porque dentro da água os sons eram diferentes.
A água estava bem geladinha, o que era um alívio para o dia quente que eles passaram, o piso de areia parecia massagear os seus pés. Seu irmão olhou na sua direção parecendo surpreso, depois riu e começou a correr para longe dela, gritando que nem mulherzinha em meio ao riso.
–SOCORRO! -berrava Naruto só para provocá-la. -A NOIVA DO DRÁCULA QUER ME MATAR!
–MORRE DISGRAMA! –ela gritou se jogando na água e conseguindo pegar o irmão e afundá-lo no lago.
Ao fundo, ela escutou o riso baixo de Sasuke e isso a distraiu o suficiente para permitir que seu irmão voltasse a superfície, ofegando o ar e jogando água na sua direção, ao que ela rebateu jogando água nele. Os dois tinham caminhado pelo lago, mas não tinha ficado mais fundo.
–Vocês dois parecem crianças! –provocou Sasuke, sentadinho e seco no cais.
–Olha quem fala! O primeiro a arregar! –rebateu Naruto apontando para Sasuke. –‘Tá com medinho, é?
Por causa da miopia, ela estava enxergando tudo embaçado, mas não precisava ser um gênio para saber que Sasuke meramente ergueu a sobrancelha em descrença para o que seu irmão tinha dito. Karin revirou os olhos, aproveitando que estava mesmo na água para dar um mergulho e lavar a cabeça. Quando ela emergiu do mergulho, ela estava perto o suficiente do irmão para ouvir a risadinha de provocação que sempre funcionava em irritar Sasuke.
–O seu é tão pequeno que vai sumir quando entrar dentro d’água, é? –questionou Naruto com a voz zombeteira.
Nem mesmo a apatia de Sasuke resistia a zoação que Naruto fazia. Na verdade, ninguém conseguia resistir ao seu irmão. Naruto era simplesmente aquele tipo de pessoa que não dava para ignorar nem se quisesse e o desgraçado sabia disso. O problema, na sua sincera opinião, é que Naruto acreditava que era capaz de lidar com qualquer tipo de coisa, mas não é bem assim que a vida vai e ela tinha muito medo do que poderia acontecer com alguém como Naruto.
O herói da história nem sempre tinha um final feliz na vida real e se havia alguém no mundo que merecia um fim feliz, essa pessoa era o seu irmão mais novo.
–Até parece! –rebateu Sasuke com a voz cheia de veneno. -É impossível algum pau ser menor do que o seu idiota!
–Você ‘tava olhando! –acusou Naruto chocado, nadando para perto dela e Karin estreitou o olhar para enxergar melhor, vendo a expressão dramática do mais novo. –Mana, o Teme é um pervertido!
Naruto a abraçou, se escondendo atrás dela de propósito, o que fez com que Sasuke desse um grito irritado e ficasse de pé lá no cais, berrando alguma coisa como “quem é pervertido?”. Seu irmão deu um riso baixinho e Karin revirou os olhos. Sasuke, às vezes, era tão inocente.
O Uchiha sempre caía nas pegadinhas do seu irmão, bastava colocar a dose certa de desafio e em dois minutos Sasuke Uchiha estaria gritando ou fazendo as coisas mais idiotas do mundo ao lado do seu irmão. Ogros. E Sasuke depois não sabia por que ela os chamava de “Tico e Teco”. “É cada uma que me aparece...” pensou Karin escondendo o rosto e tentando sair de perto do irmão mais novo.
–Não! O Sasuke é um tarado da machadinha! –berrou Naruto dramaticamente, apontando para o outro. -É um pervertido! Safado! Voyer!
–Você que ‘tava exibindo por aí! –se defendeu Sasuke e Karin quase podia jurar que o outro estava com vergonha. –Você é que é o pervertido exibicionista!
–Sou mesmo, ok? –assumiu Naruto, voltando a dar a língua para Sasuke e a fazer uma careta, ao que parecia, Karin não tinha certeza. -Pelo menos eu não tenho medo de água, gatinho medroso!
–Quem é gatinho medroso? –gritou Sasuke ficando na beira do cais.
–Você! –acusou Naruto. -Você é o grumpy cat!
–Eu vou fazer você engolir isso! –berrou Sasuke começando a fazer um strip tease no meio do mato e Karin se odiou por não enxergar sem os óculos.
–Ó! –Naruto estendeu os braços, propositalmente fazendo-os trêmulos só para provocar o Uchiha. -Eu ‘tou com tanto medo!
No mesmo instante, um “tchibum” foi ouvido e Naruto gargalhou ao escutar Sasuke nadando em direção a eles. Assim que chegou, o Uchiha foi tentar afogar Naruto que apenas riu e se jogou no pescoço de Sasuke, fazendo os dois caírem e água respingar na sua direção. Crianças. Os dois pareciam criança pequena brigando daquele jeito.
–Sai! ‘Cê ‘tá quase pelado! –gritou Sasuke em agonia, tentando se livrar do abraço do seu irmão. –Me larga! Solta!
Karin começou a rir dos dois idiotas que ainda estavam tentando um afogar ao outro. Sasuke tentava se desvencilhar do seu irmão com os braços e às vezes tentando chutar Naruto, mas os dois de algum jeito com Sasuke abraçando o corpo de Naruto com as pernas e isso fazia os dois emborcar dentro d’água de novo e de novo, espirrando água nela.
Sasuke ficava mais e mais agoniado com as investidas de Naruto, que não parava de rir nenhum minutinho sequer. Para seu irmão, um Uchiha aflito significava diversão na certa e ela tinha que admitir que Sasuke ficava uma gracinha irritado.
Naruto e Sasuke emergiram na sua frente, o primeiro tentando tirar água do ouvido e o segundo cuspindo água, expirando com força. Karin queria que Naruto tivesse respirado água como vingança por ter feito ela e Sasuke saírem do ar condicionado e terem acabado no lago. Tudo seguia conforme as vontades de Naruto e isso era irritante. Ela o amava, não a entendam mal, mas que ele é um irmão mais novo muito pentelho, isso era indiscutível.
–Vai entrar água no meu ouvido seu...! –berrou Sasuke com raiva, jogando água em direção à Naruto, que entendeu isso como ataque e veio para cima de Sasuke. –Larga!
–Não! –retrucava seu irmão com a voz divertida.
–Meu Deus, vocês são tão gays um pelo outro! –ela comentou rindo e jogou água nos dois. A brincadeira entre Naruto e Sasuke acabou, especialmente porque os dois trocaram olhares suspeitos e depois começaram a jogar água em cima dela em um ataque duplo.
Os três nunca se divertiram tanto quanto naquela tarde.
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Sem querer, Karin acabou sorrindo nostálgica com a lembrança. Ela sentia falta daquele Sasuke, emburrado e marrento, mas com uma inocência que ela não conseguia mais encontrar no Sasuke atual. O Sasuke de agora estava tão quebrado e faltava tantas peças, mesmo que bastasse um ‘sim’ da pessoa certa para consertar tudo.
Se Sasuke quisesse consertar, o problema era que ele parecia ter desistido. Faltava fé em Sasuke, não em um Deus, mas fé que as coisas voltariam a ter sentido algum dia. Ele estava perdido, mas não queria reconhecer isso, muito menos queria ajuda. Karin tinha certeza que ele preferia caminhar sozinho por essa trilha escura, mas ela simplesmente não conseguiria abandoá-lo.
Por ela e por ele também.
–Sabe... Um dia nós voltamos lá. –ela comentou com a voz baixa. Naruto estava quieto novamente, prestando atenção nela. –Sem você. Eu, ele, o Suigetsu e o Juugo.
Karin pensou que seu irmão fosse dizer alguma coisa ou fosse parecer decepcionado, qualquer coisa, menos aquele silêncio compreensivo ou aquele olhar complacente que Naruto dava.
–Não foi a mesma coisa. –ela prosseguiu. –Faltava você lá.
Naruto deu um longo suspiro, parecendo absurdamente cansado e até mesmo mais velho naquele momento. Havia algo diferente no seu irmão, ela conseguia sentir uma áurea diferente nele, mais madura, muito mais sofrida e ainda assim... Naruto parecia ainda mais radiante do que antes quando sorriu.
–Eu sei o que você vai me dizer. –disse Naruto com a voz calma. –Só que dessa vez eu não consigo acreditar. –Karin ia abrir a boca para retrucar, mas seu irmão colocou o indicar sobre seus lábios. –Vamos mudar de assunto?
Karin estreitou o olhar, esperando qualquer outra manifestação do caçula, mas nada veio. Naruto apenas deu aquele mesmo sorriso que o seu pai dava quando terminava um assunto que estava mal acabado, cortando as rebarbas para que ninguém conseguisse tocar na ferida. Seu irmão colocava uma muralha da China entre eles e, obvio, isso a deixava mais triste do que qualquer outra coisa.
A irmã mais velha era ela, mas em momentos como aquele, parecia o inverso: era Naruto quem era o irmão mais velho protetor e não ela. Não era humilhante e nem nada, só era... Triste.
Naruto merecia mais que isso. Muito, muito mais.
–Você teve notícias dele? –ela perguntou com a voz baixa, desviando o assunto.
–Quem me dera ter. –respondeu Naruto cansado. -Tentei falar com a família dele esses dias, mas mudaram de casa. Não consigo falar com eles e ainda ‘tou de castigo!
–Desde quando um castigo te impediu de fazer alguma coisa? –ela perguntou com curiosidade, erguendo uma sobrancelha.
Nada nunca detinha o seu irmão quando ele colocava alguma coisa na cabeça. Absolutamente nada e um beijo no ombro para a redundância.
–Desde quando eu não consigo achar ele em lugar nenhum. –foi a resposta desanimada. Naruto se virou para encará-la, olhos azuis brilhando exasperados em sua direção. -E eu estou tentando, Karin, eu juro, eu...!
–Eu sei. –ela murmurou erguendo o braço e acariciando o rosto do irmão. Naruto aconchegou o rosto na sua mão e deu outro sorriso triste que não combinava com ele. -Eu sei que ‘tá. Você não precisa me dizer isso.
Dessa vez, quando seu irmão sorriu parecia mais ele do que a caricatura de sorriso que ele deu a alguns segundos atrás. Karin sorriu e Naruto beijou a palma da sua mão, em seguida a tirando do rosto para que os dois pudessem ficar de mãos dadas. Havia uma tristeza peculiar no seu irmão, uma preocupação além dos limites e ela sabia que era porque alguma coisa tinha acontecido.
Mas mesmo que ela quisesse saber, ela sabia que Naruto não ia dizer. O que não a impedia de tentar saber. Droga! Ela era a irmã mais velha e seu irmão estava sofrendo. Era sua responsabilidade saber se estava tudo bem com ele.
–Naquela festa aconteceu alguma coisa? –ela perguntou com a voz decida. Ela poderia suportar o que tinha acontecido. Deus. Como ela gostaria de acreditar que conseguiria suportar qualquer coisa que tivesse acontecido. –Aconteceu, né?
–Sim. –murmurou Naruto com a voz fraca.
Karin esperou que o irmão continuasse, mas Naruto não quebrou o silêncio, apenas apertou seus dedos com força por um momento, enquanto respirava para se acalmar.
–Com ele também? -ela perguntou, reunindo a sua coragem.
Naruto assentiu.
Karin abaixou o olhar: seu irmão não diria nada. Ele a conhecia bem demais para o seu próprio bem. Naruto sabia que ela tomaria as dores, sofreria junto com ele porque era assim que ela era. Desde que Nagato morreu, ela não conseguia mais permitir que as pessoas que ela amava sofressem sozinhas e então ela fazia o possível para partilhar a mesma dor, porque a solidão era a pior coisa que poderia acontecer a alguém.
Ela não conseguia lidar com o rombo que Nagato deixou nela, não conseguia se livrar daquela solidão que a assolava desde que o caixão foi sepultado. Ela sequer conseguiu dizer adeus. Não conseguiu ir ao velório, nem mesmo ao enterro. Nunca sequer foi visitar a lápide do irmão porque machucava. Machucava de um jeito que ninguém conseguiria entender. Machucava tanto que ela queria machucar e ao mesmo tempo não queria, porque isso machucava ainda mais.
Então ela compartilhava a dor dos outros, porque aí não precisariam ficar sozinhos, como ela estava. Isso fazia sentido para ela, ao menos. Naruto precisava partilhar aquela preocupação com ela, não só porque ela tinha o direito de saber, mas porque ele precisava não estar sozinho.
Só que ele não diria. Ela sabia que não diria.
–Como você ‘tá? –ela perguntou com a voz baixa, sentindo que estava falhando miseravelmente como irmã dele. De novo.
“Mais... Você merecia muito mais do que isso, maninho...” Karin pensou, enquanto observava a expressão serena do irmão mais novo, um rosto que não escondia a tristeza naquele olhar.
–Você sabe como eu me sinto. –respondeu Naruto bondosamente, erguendo o rosto dela com delicadeza e sorrindo gentilmente em sua direção.
Preocupado. Triste. Sozinho. Com raiva. Revoltado. Determinado. Cheio de... Amor.
–Você vai me contar? –ela pediu em um murmúrio. -Sobre o que...
–Você já sabe a resposta.
Não.
Karin apenas assentiu com a cabeça e Naruto virou o rosto para o quadro que ela tinha pintado há alguns anos atrás. Duas rosas vermelhas em close, ela era particularmente atraída por essa flor e pelo cheiro dela. Essência de rosas era uma das que ela mais gostava em perfumaria.
–Você é tão idiota... –Karin murmurou sem forças e Naruto se virou para encará-la. -Devia contar pro Sasuke o que você sente, sabia? Você ama ele há o que? Três anos?
O riso deixou Naruto de um jeito mais descontraído agora. Seu irmão coçou a nuca, aparentando estar sem jeito como todas as vezes que ela abordava o assunto. Sasuke era um cego para não perceber que Naruto sempre foi apaixonado por ele. Vamos ser francos, quantos caras ficam agarrando os amigos usando só uma cueca transparente?
–Por aí, ou mais. –respondeu Naruto com uma timidez que não combinava muito. -Eu não sei e também... Já não importa mais.
Com um suspiro satisfeito, Naruto se virou para ela de novo, aparentando uma tranquilidade que ela nunca tinha visto antes. Sempre quando os dois tocavam no assunto, Naruto ficava inquieto, com medo de ser rejeitado por Sasuke ou colocar tudo a perder. Nunca era um assunto fácil, mas dessa vez seu irmão estava diferente.
–Qualquer chance de eu ter alguma coisa a mais com o Teme acabou no momento que ele escolheu você. –completou Naruto com um sorriso gentil no rosto e Karin tentou detectar qualquer traço de ressentimento na face do mais novo, mas nada encontrou.
Naruto era o tipo de cara que desistiria da pessoa amada só para vê-la feliz e muito provavelmente seu irmão estaria fazendo isso por ela, por querer que ela fosse feliz ao lado de Sasuke e que o próprio Uchiha fosse feliz com ela. Seria lindo, se os dois fossem felizes, o que, na realidade, estava bem difícil de acontecer.
Sasuke e ela eram amigos que transavam. Para ser bem franca, ela sempre foi a que se apaixonou por Sasuke, quem o desejou e não parou até conseguir se deitar com ele. Sem pretensões, sexo por sexo. E, Deus, sexo com ele era ótimo, os dois tinham química na cama e ele se importava com ela o suficiente para lhe garantir um orgasmo. Parecia violento e abusivo a primeira vista, certamente seus pais pensavam isso, que ela merecia um homem melhor, mas hei, era a vida sexual dela e Sasuke não fazia nada que ela não queria. Um mero “pare” e ele obedeceria sem criar caso, seus pais gostavam de dramatizar a coisa.
De um jeito meio capenga, os dois davam certo como casal. Entretanto, os dois não eram felizes, na verdade, estavam muito longe disso. Qualquer tonto perceberia que Sasuke merecia algo melhor, menos o seu irmão.
–Uma coisa não tem nada a ver com a outra! –ela berrou com raiva apontando o dedo para Naruto, que arregalou o olhar, parecendo assustado e ficando meio vesgo ao encarar o seu dedo. -Você sabe que eu só quero o bem dele e o seu! Você é o que ele precisa! Nós três sabemos disso!
–Pra mim isso importa. –disse Naruto sério, com a teimosia Uzumaki de sempre e Karin revirou os olhos. -Além disso, eu... Eu meio já tenho outra pessoa em mente.
–Como a Hinata e o Gaara? –ela pontuou com raiva, enquanto revirava os olhos.
Naruto propositalmente namorou outras pessoas para esquecer Sasuke, duas pessoas com quem ele inconscientemente sabia que a droga do namoro não ia dar certo.
Com Hinata o lance durou uns dois meses, mas no fim a coitada até hoje devia estar engolindo o ‘não dá, nós só somos amigos’ que Naruto deu. Qualquer idiota na face da terra saberia que o romance ia terminar cedo, já que Hinata quase desmaiava sempre que seu irmão pegava na mão dela, imagina outras coisas de casal? Provavelmente a rapariga ia ter um pirepaque de vergonha na hora. Ou ia chutar o balde se Naruto tirasse a calcinha dela.
Já com Gaara o namoro durou mais e, provavelmente, seu irmão já não era mais virgem por causa do ruivo. Os dois viviam se pegando nos corredores, só tinha um probleminha: Gaara se mudou de estado. Antes disso acontecer, Naruto foi avisado, talvez ele só tenha dado essa chance ao garoto porque sabia que ia ter fim e um fora apropriado para isso.
Nenhum desses ‘namoros’ fez com que o seu irmão se esquecesse por quem ele era apaixonado igual mulherzinha: Sasuke. Essa era a verdade. Pelo menos, era o que parecia.
–Não, é diferente dessa vez. –afirmou Naruto decidido e Karin olhou para ele desconfiada, mas seu irmão parecia tão plácido e tímido agora. Tão diferente de antes. Naruto parecia... Encantado com alguma coisa. Quase feliz até. -Com a Hinata ou o Gaara, eu... Usei eles pra esquecer o Sasuke, só que não adiantou nada naquela época... Mas agora é diferente...
–Como? –ela perguntou ainda desconfiada.
Naruto se virou para encará-la de frente, aparentando estar assustado e feliz, e encantado, e extremamente excitado. Karin não esperava isso e piscou sem compreender.
–Eu me apaixonei dessa vez. –ele sentenciou, corando um pouquinho e começando a rir sem jeito, lembrando muito o jeitão do vô Hashirama quando ficava constrangido. –Eu não sei como... Mas dessa vez aconteceu isso...!
Seu irmão desviou o olhar, ficando de perfil para ela, mas mesmo assim Karin conseguia enxergar o súbito rosado que subia pelas bochechas de Naruto e o riso imbecil que parecia não sair da boca do irmão. Naruto balançava os pés na cama, parecendo agitado e tão contente de um jeito que ela nunca tinha visto antes. Ele irradiava uma energia diferente da de antes, quase como se todos os problemas tivessem sumido e só restasse...
–Eu não sei se tenho chance, mas...! –Naruto mordeu o lábio inferior e depois deu um sorriso radiante. –Eu quero tentar com essa pessoa... Quero que dê certo, entende?
Naruto a encarou com olhos cheios de alegria e esperança. Ele parecia tão contente com isso e estava tão adorável, como se tivesse encontrado mais um motivo para continuar seguindo em frente.
–Meu Deus... –Karin murmurou chocada. –Você ‘tá apaixonado...
–É, eu ‘tou... –concordou Naruto com um sorriso alegre.
–Naruto? –chamou a mãe deles lá da cozinha com a voz irritada de sempre. –Vem já aqui!
–Ih, lascou-se. –murmurou Naruto fazendo uma careta. –Vou lá se não vou dormir de couro quente!
Antes que Karin pudesse falar qualquer coisa, Naruto saiu da sua cama e atravessou o quarto num flash para ir obedecer a mãe deles. Seu irmão estava apaixonado e Karin não sabia se isso era bom ou ruim, mas uma coisa ela sabia: quem quer que fosse essa pessoa, com certeza era alguém de muita sorte.
A não ser que fizesse alguma coisa contra seu irmão, porque caso contrário o bicho ia pegar.
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