Desejar

16 The Wolf and the Lion - Parte II


Notas iniciais
Olá gente! E é, eu sei que atrasei pra caramba e tenho que falar sobre isso, não quero que pensem que foi só preguiça. Foi mais desânimo e revolta, não por vocês, mas por Naruto. Eu tou com nojo de Naruto e do Kishimoto. A gota d’água que aconteceu há uns dois meses foi quando saiu o resumo da novel Sakura Gaiden onde narra que um clone do Sasuke (não é um kage bushim, pela novel, Sasuke nem sabia disso) engravidou a Sakura. Pra mim isso é estupro e eu fiquei tão zangada e tão revoltada com isso que me deu NOJO escrever QUALQUER coisa de Naruto. Tipo, eu não ganho nada escrevendo fic, só amigos e diversão, mas escrever de Naruto NÃO estava sendo divertido e eu estava com tanta raiva que não queria encher o saco de vocês com respostas de review só pra reclamar da obra original. Achei que era melhor dar um tempo e voltar, sabe? Só que em meio disso aconteceu uma coisa. Eu sou gente como vocês, eu fui buscar qualquer outra coisa que preenchesse a minha atenção e tokyou groul aconteceu. O vício tá MUITO forte, não só porque o mangaka é gente boa com os fãs, mas porque a complexidade da trama e dos personagens me inspira. Tenho um outro otp agora (hidekane, alguém mais shipa? y.y Se eu escrevesse fics desse par, vocês leriam?) e tudo o mais. Mergulhei nessa nova distração e foi graças a isso que eu consegui sobreviver as merdas de Naruto Gaiden, que consegue ser mais bosta que a novel porque é basicamente um teste de DNA do programa do Ratinho ¬¬ Depois de ler umas trocentas fics hidekane, sofrer muito com o mangá de tg e tg re (na verdade, ainda estou sofrendo porque ser fã de tg significa que você sofrerá pra caralho. Meu pobre Haise y.y) eu consegui me reestruturar um pouco mais e olhar pras minhas fics sem sentir nojo. Aí estou tentando voltar. Desculpa mesmo o sumiço gente, mas realmente é foda voltar pra algo que te deixa zangada, revoltada e triste, só que vocês merecem um fim e eu vou me esforçar pra isso. Eu já comecei a responder os reviews, mas ainda não terminei, aqueles que não foram respondidos eu vou responder quando voltar do centro espírita, ok? E é, essa é a minha nova religião ^^ Embora eu ainda esteja no prezinho do estudo D: Ok, ao cap o/ Ah pequeno spoiler da temporada 5? Acho que é a cinco de tvd. (não acompanho a série, mas uma das minhas melhores amigas me encheu TANTO o saco com isso na época que eu inseri na fic) Ah e surpresinha na nota de fim ^^ Leiam!

DEZ

The Wolf and the Lion

Parte II

Shisui’s pov

Era umas quatro da tarde e os ponteiros do relógio tinham preguiça de andar. O tempo nunca passava rápido nas sextas feiras. Com um suspiro pesaroso, Shisui saiu da cadeira e foi até o banheiro privativo na sua sala para lavar o rosto. Era um saco trabalhar em um lugar que ele não gostava, mesmo que ele amasse a profissão e recebesse uma boa grana. Era engraçado como trabalhar com Madara era mais frustrante do que ter usado o Q. I., vulgarmente chamado de quem indica, por causa do seu sobrenome e assim conseguir um trabalho no concorrido ramo editorial.

Muita gente chorava com o seu recalque torrando sua paciência ao dizer que ele era um hipócrita por odiar tanto a família e ainda usar as vantagens do sobrenome. Nesses casos, Shisui sentia uma fisgada com o veneno, só que isso não mudava o fato que ele era mesmo um Uchiha. Aquilo era por direito seu e ele não tinha culpa de ter nascido naquela família, oras. As vezes para conseguir algo você precisa usar as ferramentas que tem e a única coisa que Shisui tinha a seu favor era o sobrenome. Fugir disso era ridículo.

Os problemas ficavam mais difíceis de serem resolvidos quando não se encarava a realidade como ela era e Shisui compreendia isso. Foi uma lição que ele reaprendeu após o evento do natal.

Por tanto temer o poder que Madara dispunha, Shisui quis fugir e olha no que deu? Itachi mentindo e se arriscando pelos cantos, Sasuke cheio de problemas, Madara fazendo o que bem queria com todo mundo e uma crise conjugal porque sua esposa pensava que ele estava agindo que nem um idiota por querer se apartar dos Uzumaki sem entender nada de nada.

Pois bem, senhoras e senhores, agora ele também estava oficialmente na corrida. Por mais desconfiado que ele ainda estivesse com os Senju, Shisui tinha que admitir que a dica dada por Tobirama Senju foi boa: as pessoas amavam fofocar. Muita coisa ele pegou de periódicos antigos, mas, por ser da área, ele ouviu muitas boas conversas sobre quem vivenciou aquilo.

A bagunça toda começava com seu avô, um jornalista chato de extrema direita, que publicava várias babaquices anti-governamentais em plena época de reestruturação política. Por causa disso, ele rivalizava com um editor da família Senju, que era outro babaca de extrema esquerda e apoiava as mudanças políticas como se fosse um fanático. Os dois protagonizavam vários barracos públicos, uma vez até chegaram a tentar praticar um duelo em plena praça pública que deu mó rolo com a justiça.

A picuinha com os Senju continuou na geração seguinte. Seu pai construiu uma editora para rivalizar com os Senju. As duas famílias não se suportavam e vivia saindo notícias de brigas e ofensas públicas. Em algum momento desse período, seu pai se casou com a sua mãe e eles tiveram Madara, o filho mais velho.

A disputa Uchiha versus Senju só acabou quando Madara e Hashirama frequentaram o melhor colégio da cidade e se tornaram melhores amigos. Os dois encheram tanto o saco dos pais que as famílias Uchiha e Senju encerraram as rivalidades e comemoraram com uma grande festa no lago. A cidade inteira foi convidada para isso, porque ninguém acreditava na trégua. Havia muitos recortes sobre isso e ele achou bizarro ver Madara com dez anos de idade e rindo, ao lado da sua mãe que estava com um barrigão de nove meses enorme.

A partir de então, os Uchihas e os Senjus passaram a frequentar um a casa do outro, passando os verões na casa do lago. Izuna nasceu e pouco tempo depois nasceu outro moleque pros Senju, aquele chato de galochas do Tobirama. Nesse meio tempo houve uns seis anos de paz e a cidade cresceu.

Só que, pouco depois do escândalo que foi Hashirama Senju engravidar uma mulher, noticiaram que seu pai chifrou a sua mãe. A família desmentiu, só que a partir daí seus pais praticamente viraram o Jhonny Cash e a June Carter. Havia fotos do seu pai rodeado de mulheres ou espancando os fotógrafos, tanto quanto existia fotos da sua mãe com uma garrafa de bebida alcoólica. Tinha até uma foto da sua mãe puxando os cabelos de uma atriz em um baile beneficente da alta sociedade de Konoha. Os principais jornais da época noticiaram a notícia com uma manchete bem chamativa: “Elas têm garras!”. Vergonhoso.

Shisui até tentou entender porque sua mãe entrou numa briga com a mulher, descobrindo pelas notícias que havia uma possibilidade da atriz, que se chamava Touka Arina, ter tido um caso com seu pai, na vigência do casamento. Ele até mesmo achou uma reportagem em uma revista especializada em fofoca que falava que Touka engravidou de um homem casado, mas a assessoria da artista nunca confirmou o fato, até mesmo porque no dito período de afastamento da atriz, ela se isolou numa clínica de reabilitação para viciados em entorpecentes.

Mais ou menos na altura que ele nasceu, a sua mãe ficou gravemente doente e morreu. Mal seu cadáver esfriou, o seu pai se casou com a atriz. Houve uma festa de gala para comemorar o evento, mas poucas pessoas foram ao casamento. E mal a notícia do casamento furado saiu das capas, logo veio a cobertura integral da morte do seu pai e da sua madrasta em um trágico acidente de avião. Touka ainda foi resgatada com vida, mas veio morrer poucas horas depois no hospital.

Um passado e tanto, se quer saber. Shisui nem sabia o que sentir com isso. Porque, se por um lado, apesar de Mikoto ser sua irmã, foi ela quem cuidou dele desde os três anos. Ela e Fugaku sempre agiram como pais e ele amava Mikoto e Fugaku da mesma forma. O que ele descobriu dos pais biológicos não devia lhe afetar, mas ele não conseguia ignorar as coisas que ele descobriu.

Aqueles dois eram seus pais, um canalha e uma bêbada. Isso lhe dava vergonha, tristeza e certa revolta. Vergonha que seus progenitores fossem daquele jeito e aqueles genes estavam nele; tristeza porque eram seus pais e nada no mundo mudaria isso; e revolta porque, bem, eram seus pais. Mexer com o passado parecia cutucar uma colméia de abelha amarela e não ter nenhum rio para correr e escapar do ataque.

“Só que a resposta está em algum lugar do passado.” Ele pensou olhando seu reflexo abatido. Era a única coisa racional que ele sabia: a resposta tinha que estar no passado. Na época que Mikoto morreu, Madara estava na cidade, alguém da faculdade falou. Ele também conseguiu rastrear um parente da dita cuja que foi a amante do seu pai. Shisui mal conseguia acreditar que o editor-chefe do jornal “Diário de Konoha” estivesse envolvido nisso tudo. O cara era um tipo de lenda no ramo editorial e desde que ele descobriu isso, Shisui tentava encontrar um meio de conversar com ele.

Danzou Himura estava com o pé na cova no alto dos seus setenta e quatro anos, mas devia saber de tudo. Se a tal atriz engravidou mesmo, se, nesse caso, o pai da criança era seu pai e outras coisas... O velho deveria saber. Shisui conseguiu marcar uma visita com o cara depois do ano novo e ele mal podia esperar por isso para poder ter alguma carta contra Madara. Era um fato notório que Danzou odiava Madara, sempre fez questão de provar isso em suas publicações. Shisui não duvidava que o homem iria lhe contar todo o lado sujo do seu irmão.

–Shisui-san? –alguém chamou do seu escritório.

–Um minuto!

Ele saiu do banheiro. Era a secretária comunicando que Madara queria vê-lo na sala da presidência. De todos os horários, Madara sempre escolhia quando ficava próximo do fim do expediente, o que era uma sessão de tortura com o capeta em pessoa. Mesmo sem um pingo de vontade, Shisui foi até a sala da presidência. Era a primeira vez que ele era convidado a ir àquela sala, normalmente Madara preferia conversar na sala de reuniões em anexo.

Shisui analisou o lugar. A sala era ampla, com móveis escuros e clássicos, a parede e o piso tinham tons claros. Havia quadros bonitos na parede, pinturas com a mesma temática. Um por do sol no lago, uma casa de veraneio dando vista para um enorme jardim de rosas brancas, uma menina fazendo ballet. Com certo assombro, Shisui percebeu que o pintor era seu irmão Izuna, morto há alguns anos; isso o deixou desconfortável, como se ele visse algum fantasma naqueles retratos.

Em vez de olhar os quadros, Shisui percebeu que havia muita iluminação natural vinda da enorme janela de vidro blindado e escurecido, as persianas de um azul claro estavam abertas, dando vista para a praia Hideyoshi. A vista era espetacular, isso Shisui precisava concordar.

A mesa de Madara era grande, talhada em jacarandá, o que era muito raro. Tudo estava metodicamente organizado e, como Tobirama Senju falou, a sala era repleta de porta retratos. Havia uma fotografia muito bonita dos seus avós, com um Madara adolescente, um Izuna criança e um bebê em frente a um lago bem cuidado, com diversos cisnes no local. Havia até mesmo uma foto dele bebê na mesa e isso era o mais assustador de tudo, o modo como Madara o segurava na foto e como o bebê Shisui ria no colo do irmão.

Shisui odiava aquela sala que parecia gritar hipocrisia.

O problema é que Madara não estava na sala e ele precisaria aguardar. Com um suspiro irritado, Shisui tomou a liberdade de se sentar em uma das cadeiras em frente da mesa, apreciando a visão do mar azul turquesa no fim daquela tarde. Ele estava batucando na mesa quando a porta foi aberta.

–Até que enfim, hein? –ele reclamou se virando para trás e vendo um rosto diferente. –Desculpe, pensei que fosse o Madara.

–Infelizmente foi um alarme falso. -comentou o outro com um sorriso genuíno ao entrar na sala. -Mas o velho não vai demorar muito. E do jeito que tem ouvido de leproso, não duvido que abra um buraco no chão pra aparecer!

Apesar de ter tentado, Shisui não conseguiu evitar o riso e foi acompanhado pelo outro homem, que tinha uma risada ruidosa e autêntica. Shisui quase que imediatamente simpatizou com o cara.

Era um homem jovem com várias cicatrizes no rosto, deixando Shisui curioso com isso, embora não fosse perguntar. Era a primeira vez que ele via aquele cara na empresa, seria péssimo puxar esse tipo de assunto. O desconhecido se aproximou da cadeira ao seu lado, se sentando em seguida.

–Por favor não diga para ele que eu o chamei de ‘velho’. –pediu o outro com uma piscadela amistosa e abaixando o volume da voz. –Do jeito que ele é vaidoso, é capaz de fazer um limpa em uma loja de cosméticos. Não é saudável para as finanças da empresa!

Shisui riu alto com essa. É, ele foi com a cara do desconhecido. O homem riu junto, deveria ser alguém que detestava Madara ou então muito próximo para poder falar assim do seu irmão.

–Shisui Uchiha, vice-diretor do departamento editorial. –ele se apresentou, estendendo a mão ao outro.

–Ah! Eu queria conhecer você mesmo! –exclamou o homem com felicidade, apertando a sua mão. –Sou Obito Uchiha, filho do Madara.

O choque foi difícil de esconder. Shisui arregalou os olhos, completamente incrédulo. Ele sequer sabia que Madara tinha um filho! Antes mesmo que ele pudesse se refrear, ele se viu dizendo:

–Que?

Obito deu uma risada alta com a sua reação e Shisui pensava alucinadamente em como deveria proceder dali em diante. Madara tinha um herdeiro. Mas o que importava naquele momento era saber até que ponto aquele rapaz estava envolvido nisso tudo. Até agora, nem ele e nenhum dos outros tinha entrado em contato com Obito. Ou seja, das duas uma: ou Obito estava mancomunado com o pai ou Madara fazia todas as sujeiras escondido do filho.

Pelo modo que Obito se apresentou, se fizesse parceria com o pai, Obito agiria na parte processual, o que significava que Obito poderia ser a razão pela qual nem ele, nem Itachi tinham acesso aos processos de inventário e o criminal.

–Você está fazendo uma cara de Dexter agora. –comentou Obito coçando o rosto com displicência. -Você odeia meu pai tanto assim?

Shisui observou o perfil relaxado de Obito, não havia nenhuma intenção de ataque no olhar do outro, apenas uma autêntica curiosidade. Podia ser mentira, mas ainda era uma ótima oportunidade para sacar qual era o lado de Obito naquela trama toda. Ele realmente não conseguia enxergar ainda os traços maquiavélicos de Madara naquele rapaz.

–Não é uma questão de odiar, mas penso que cada um devia tratar do seu próprio assunto e deixar o passado no passado, entende? –respondeu Shisui com objetividade, tentando perscrutar Obito. –Todos nós já sofremos demais com isso. Erros passados não vão trazer de volta aqueles que se foram. Por mim, resolveríamos a questão processual logo e tomaríamos o rumo que achássemos melhor em nossas vidas.

Obito o olhou atentamente, sem alterar de postura. Shisui analisava a expressão avaliativa que o outro lhe dava, tentando compreender qual era a de Obito e como é que poderia lidar com o outro.

–Nada está no passado nessa família porque o rolo é muito grande. –respondeu Obito com um suspiro frustrado. –Nem mesmo eu sei o que é real e o que é falso no meio de tanta complicação! Mas eu posso te dizer que o meu pai é só um velho esclerosado, não é mau. Não é ele o vilão da coisa.

Obito o olhou com tanta intensidade que Shisui não duvidou que a lealdade daquele rapaz pertencesse a Madara, mas isso não era problema: era normal que os filhos defendessem os seus pais, por mais ardilosos que fossem. Porém, a resposta dada esclarecia o quanto Obito parecia compreender o problema familiar que Madara meteu parte da família. Seu irmão era esquivo quando Shisui tentava ser objetivo, mas Obito tinha uma postura mais franca e poderia, ao menos, esclarecer qual é a postura de Madara, algo difícil de compreender.

Ainda assim era um tiro no escuro.

Se Obito era diretor do departamento jurídico, isso significava que ele simplesmente não liberaria uma informação crucial em qualquer conversa. Ainda assim, valia a tentativa. Shisui fingiu que sequer se abalou com o olhar confiante que Obito lhe deu.

–É natural defendermos os nossos pais. –retrucou Shisui com afabilidade.

–É mais que isso. –respondeu Obito com exasperação. –Você ainda não entendeu o jogo do meu pai, né?

Shisui sorriu com amabilidade ante a expressão preocupada e exasperada de Obito. Era claro que era um jogo. Obito era um advogado, estudou anos para convencer as pessoas a entrarem na sua onda; Shisui não cairia nessa, ainda assim, ele não perdia nada em escutar.

–Não. –ele respondeu com gentileza. –Por que não me esclarece?

–Você tem noção de quanta grana ‘tá envolvida nisso tudo? –perguntou Obito com franqueza, abaixando ainda mais o volume da voz.

A editora da família Uchiha valia uma boa grana, isso Shisui sabia. Também tinha conhecimento de alguns bens de seus pais, mas nada em minúcias, porque nem ele e nem Itachi tinham acesso aos autos do processo. A verdade é que, para se ver livre desses problemas, Shisui abriria mão da grana agora mesmo se isso pudesse garantir que Madara não colocasse a mão nos seus sobrinhos de novo ou tentasse brincar com a vida deles como se fosse um jogador de the sims. Ele sabia que Itachi ia seguir com a herança, precisaria do dinheiro tanto para a cirurgia quanto para ajudar Sasuke nessa fase negra.

Obito o olhou atônito por um momento, como se não acreditasse na sua expressão impassível.

–Tem muito dinheiro envolvido nisso! E isso torna as coisas perigosas! –respondeu Obito com seriedade. –Se você não tiver a inteligência necessária para jogar, você pode morrer! Isso... –Obito apontou para o próprio rosto. –Aconteceu comigo porque eu fui procurador do meu pai no processo de inventário e achei que entendia das coisas!

A voz de Obito estava tão séria, o olhar tão duro que, por um minuto Shisui não ousou duvidar dele. Seu coração deu uma batida desconfortável porque aquilo ou era uma defesa brilhante ou era mesmo a verdade. Em ambos os cenários, aquelas informações complicavam ainda mais a vida deles.

–Papai está testando você e o Itachi porque ele precisa de ajuda. E precisa de vocês dois do lado dele pra que assim, se o pior acontecer, ele consiga dar uma proteção pra vocês. –continuou Obito com apreensão. -Nem ele ‘tá conseguindo provas contra aquele cretino!

Uma terceira pessoa por trás disso tudo? Sério? Aquilo ali tinha virado um romance de Agatha Cristie por um acaso? Shisui deveria acreditar que a culpa era do mordomo? Era isso que Obito queria que ele acreditasse? Era ridículo e ao mesmo tempo o olhar de Obito emitia aquela certeza absoluta que o deixava com dúvidas.

Afinal, quantos caras de pau conseguiam mentir assim na cara dura? Usando um fato como as próprias cicatrizes no rosto para comprovar uma tese? Só que Obito era um advogado e tecnicamente, isso era o serviço de um advogado: criar teses. Mas ao mesmo tempo em que Shisui pensava assim, ele também ponderava que nem o advogado mais brilhante conseguiria criar uma tese de defesa tão ardilosa no instante que era interpelado, sem ter qualquer tempo para estudar o caso.

–Por que eu acreditaria nisso? –ele perguntou com a voz dura.

–O que você sabe sobre essa família? –inquiriu Obito com a voz baixa. -Se pesquisou um pouquinho, deve ter visto as mortes esquisitas que aconteceram com a vovó Takiko, com o vovô Tajima e a nova esposa dele. Tia Mikoto e o marido dela também. Tio Izuna idem!

–E o que me garante que seu pai simplesmente não matou todo mundo para ficar com a herança? –Shisui perguntou antes que pudesse se conter.

–E o que te garante que a tia Mikoto não foi a responsável pela própria morte ao envenenar o meu pai? –rebateu Obito com sagacidade. –O exame toxicológico comprovou que meu pai estava envenenado naquela noite. Não drogado, envenenado.

–A Mikoto nunca faria isso.

Obito deu um riso horrível que fez suas cicatrizes ficarem mais pronunciadas no lado esquerdo do seu rosto. Um calafrio percorreu pela espinha de Shisui, quando ele percebeu a mudança na postura do outro. Ele subitamente percebeu que agora sim estava diante do advogado Obito Uchiha e que antes falava apenas com um civil.

Todo mundo pode cometer um crime. –Obito comentou com naturalidade. –Ou você não mataria meu pai para proteger os seus, se tivesse a oportunidade?

Shisui encarou Obito com um olhar duro, engolindo um seco e não respondendo a pergunta. Porque a resposta era simples: a ideia realmente passou pela sua cabeça. Quando ele escutou o quê Itachi e Sasuke passaram, a primeira coisa que veio em sua mente foi o ódio por Madara. Seu irmão chegou ao ponto de colocar Sasuke e Itachi nas mãos de um traficante com ideias deturpadas na cabeça, como ele poderia permitir algo assim? Ele seria hipócrita se ele não admitisse, nem que fosse para si mesmo, que ele pensou nisso.

Obito sabia qual devia ser a sua resposta. Aquele riso cínico horrível esmoreceu em seu rosto, dando lugar a um olhar arrogante que não negava suas origens. Ali estava a prova que Obito era mesmo filho de Madara.

–Depois que sairmos daqui, venha a minha sala. –pediu Obito. -Eu vou imprimir cópias das principais peças do processo de inventário, lá também foram anexadas algumas provas retiradas do processo criminal. Não é muito, mas dá pra você ter noção do quanto...

Com isso, Shisui gargalhou. Depois de cinco anos de lutas judiciais, eles finalmente iam ver a cor do papel do processo? Pelas mãos do filho do inimigo? Era muita piada. Obito ergueu a sobrancelha sem entender, convidando-o a explicar o motivo da risada.

–É meio irônico que depois do seu pai ter entrado com um recurso para que Itachi e eu não tivéssemos acesso aos autos, você, justamente você, o filho dele, me tirasse cópias do processo!

A expressão de Obito foi impagável. O homem estava completamente aturdido com o que ele disse e Shisui sentiu ainda mais vontade de rir com aquela mentira que o outro tentava fazê-lo acreditar. Simplesmente não encaixava em tudo o que ele e Itachi passaram por causa dos desmandos de Madara.

–Recurso pra vocês não terem acesso aos autos? –inquiriu Obito sem entender, sua expressão confusa e ligeiramente ofendida. -Como assim? Isso nem é permitido na lei! Vocês são partes no processo, tem legitimidade para agir, nada impede o acesso aos autos. Está no CPC! –continuou Obito agora com a voz visivelmente ofendida e Shisui estava ficando admirado com a cara de pau alheia. -E o Itachi ainda é curador do Sasuke, que é menor de idade, não tem porque isso existir!

Shisui revirou os olhos, perdendo toda a vontade de rir depois daquela atuação barata que Obito fazia. Tudo bem tentar defender o pai, isso ele entendia, mas agir daquela forma mortificada era exagero.

–Não se faça de rogado! -disse Shisui com firmeza ante ao olhar perplexo de Obito. -Vocês entraram com um recurso que impede que eu e o Itachi tenhamos algum acesso a informação! Foi o doutor Kakuzo em pessoa quem disse!

No mesmo instante que ele falou o nome do juiz encarregado pelo processo criminal, tendo em vista que o inventário e os processos de fusão das empresas foram paralisados, Obito ficou extremamente vermelho. Com algum fascínio, Shisui viu o rosto do outro ficar tão rubro que parecia que ia explodir.

–KAKUZO? –explodiu Obito num rompante. -Aquele filho da puta corrupto! Ele recebe dinheiro para dar decisões! –Obito passou a mão pelos cabelos com exasperação e o gesto fez Shisui se sentir incrivelmente senhor de si, mas de uma forma bem desagradável. -Aquele desgraçado...! Não é a toa que vocês odeiam meu pai!

–Vai se sair com essa? –ele perguntou em descrédito. Tentando ignorar a crescente sensação de desconforto. -O único herdeiro que tem tudo a ganhar com tudo isso é o seu pai!

–Não. –respondeu Obito de repente.

O filho de Madara se acalmou e lhe lançou um olhar firme enquanto lhe explicava. Shisui se viu hipnotizado por aquele olhar sério e inconscientemente parou de respirar.

–Há outro. –continuou Obito com tranquilidade, a voz firme e sem hesitação. -Há outro herdeiro.

O olhar de Obito estava tal qual instantes atrás, quando Shisui não duvidou da veracidade da resposta. Outro calafrio desceu pela sua coluna, enquanto ele tentava compreender tudo o que fora exposto, mas sem desviar sua atenção de Obito. Pelo menos, até quando ouviu o som de alguém batendo palmas e se virar para trás, para ver Madara, hoje com um terno Armani cinza-chumbo.

–Ora ora, que conversa animada. –comentou Madara com um riso agradável. Pelo canto do olho, Shisui viu Obito fazer uma careta. -Desculpe se me intrometo em uma prosa tão acalorada, na minha própria sala, sem a minha autorização e ah! Sem que eu tenha lhes convidado a se sentar, mas sintam-se a vontade e continuem a conversar.

–Ah pai, não começa. –reclamou Obito, de repente parecendo um adolescente birrento.

Madara estreitou os olhos perigosamente, o sorriso aumentando em seu rosto, enquanto se aproximava da sua mesa de trabalho. Obito trincou os dentes.

–Começar com o quê... –perguntou Madara despretensiosamente. -Obi-chan?

–NÃO! Isso não! –pediu Obito ficando completamente rosa e se aprumando na cadeira. -Não íamos discutir os assuntos da empresa? É, nós íamos!

–Oh, achei que tinha esquecido disso, Obi-chan. –comentou Madara com a voz amável, parando atrás do filho e bagunçando os cabelos rebeldes de Obito que, se possível, ficou ainda mais rosado.

–Pai troll... –murmurou Obito cheio de rancor, sem nem ousar olhar na direção de Shisui.

Madara parou de acariciar os cabelos de Obito, lhe lançando um olhar bem humorado que Shisui ignorou. Aquela cena era natural demais, um outro lado de Madara que ele recusava-se a acreditar que existia, tendo em vista tudo o que ele viu e passou nas mãos daquele homem. Imediatamente, ele se lembrou das palavras de Tobirama Senju: “Por mais perigoso que Madara seja, ele não tem intenção nenhuma de fazer mal há qualquer um de vocês. Ele ainda considera a família mais do que qualquer outra coisa.” (capítulo 10, parte III).

–Isso é bom? –perguntou Madara indiferente as indagações de Shisui, enquanto caminhava para se sentar em sua poltrona.

–Só significa que o senhor é o lorde das sombras. –respondeu Obito com birra.

Seu irmão deu um sorriso afetuoso e o filho revirou os olhos, ainda completamente rosado. Vendo aquela interação, Madara mal parecia aquele monstro que jogou Itachi e Sasuke na boca do lobo.

–Lisonjeado. –respondeu Madara com a voz agradável, mas logo mudou a postura para algo mais profissional. -Agora vamos começar.

“Afinal...” pensou Shisui fingindo escutar Madara falar sobre trabalho, “O que é que está acontecendo?”.

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Itachi’s pov

In the moment we lost and found

I just wanna be by your side

(no momento que nós perdemos e achamos

Eu só quero estar ao seu lado)

–Do you think it will hurt? (você acha que isso vai doer?)–uma voz feminina, provavelmente a tal Bonnie, pelo que Itachi podia presumir do que tinha entendido do episódio, perguntou ao tal do Damon.

Mas era difícil dizer alguma coisa. Havia uma música tocando no fundo (For the rest of our lifes/pelo resto das nossas vidas) ao mesmo tempo em que a personagem falava e ainda tinha o ruído de ventania atrapalhando, sem contar o fato que tudo estava em inglês e que Shizune batia o pé sem parar ao seu lado. Itachi sempre teve facilidade em aprender idiomas e falava inglês quase tão bem quanto seu próprio idioma, mas identificar a música, as falas e a situação tudo pelo som era muito difícil.

–I don’t know (eu não sei). –disse uma voz masculina.

Então teve o som de algo rasgando e vieram os créditos. Itachi esperava que passasse algum outro programa para ele se distrair, caso contrário ele se concentraria no bater de pé incessante de Shizune. Passava das cinco horas da tarde e ele ainda não tinha sido atendido no consultório de Minato, Itachi inclusive suspeitava que fosse o último, mas não falaria isso para a tia. Sendo muito franco consigo mesmo? Ele esperava que fosse o último: mudar a rotina que se formou naquela semana era maravilhoso.

Toda a sua realidade mudou após o incidente do natal.

Ele foi obrigado a mudar de casa e agora vivia com os tios em um apartamento minúsculo, cheio de móveis ainda por cima. Shisui morava em um prédio perto do litoral, onde o tráfego era um inferno, principalmente porque aquele prédio foi construído perto de um viaduto e sempre era muito barulhento, mesmo nos dias de chuva intensa.

Ainda por cima, no domingo iniciou uma chuva que se estendeu pelo resto da semana, deixando a televisão da casa do tio com chiado, mas não era como se ele conseguisse captar tudo o que acontecia nos programas, ou deixasse a TV ligada sempre. Ele basicamente estava em cárcere privado no seu quarto, porque se já era difícil se lembrar da disposição dos móveis do lugar onde ele morava desde os dezessete anos, era ainda pior na casa do seu tio.

Sempre foi mais comum Shisui aparecer no seu apartamento do que ele aparecer na casa do tio, o que só piorava as coisas para ele. Seu corpo provavelmente estava cheio de manchas roxas e seu dedinho do pé esquerdo ainda se recuperava de um encontrão particularmente doloroso com uma bancada. Itachi nunca acreditou que, ao se sentir dor extrema, se enxergasse estrelas, mas naquela noite ele viu estrelas tamanha a dor, também foi uma das raras ocasiões que ele xingou até não poder mais.

Naruto teria rido, se ele tivesse conversado com o Uzumaki alguma vez sequer durante aqueles dias e isso apenas o conscientizava do quão sozinho ele estava. Kisame estava com seus próprios problemas em casa, ao lidar com Suigetsu, e os dois mal se falavam por causa disso. Quando estavam no telefone, Suigetsu e Kisame começavam a brigar e seu amigo desligava na sua cara. Shizune pegava plantões à noite para lhe fazer companhia durante o dia, mas como ela ficava muito cansada, praticamente tirava o dia para dormir e Shisui...

Os dois não se falavam.

Claro que ele e Shisui já brigaram antes, mas jamais daquele jeito, nunca ao ponto de um ignorar o outro daquela forma, especialmente vivendo no mesmo teto. Itachi sentia que algo se rompeu entre eles e isso o fazia se sentir ainda pior. O tempo chuvoso normalmente o fazia dormir muito, mas depois do incidente do natal, Itachi só conseguia dormir com o efeito de remédio contra dor de cabeça e no fim sempre acordava com pesadelos.

Em seus sonhos, Itachi conseguia enxergar, tornando tudo ainda pior porque tudo ficava ainda mais real e difícil de esquecer. As imagens ficavam grudadas na sua cabeça o dia inteiro, os gritos de terror não saiam da sua mente, mesmo que ele tentasse escutar o viaduto ou a chuva lá fora. A dor parecia ser real nos pesadelos, ele até sentia a dor de como se tivesse alguma coisa entrando dentro dele sem autorização, nem qualquer gentileza, rasgando a sua carne, investindo contra seu corpo que ficava rígido e gelado, fazendo tudo doer ainda mais.

Só que essa dor física imaginária não era a única coisa que o atormentava: seus pesadelos sempre conseguiam piorar. Havia pesadelos que aquele monstro estuprava Sasuke na sua frente e Itachi precisava ouvir os gritos do seu irmão ou ver como o caçula se desesperava. No fim, Sasuke sempre ficaria caído no chão, coberto de esperma e sangue, olhando em sua direção como se perguntasse: “por que você permitiu isso? Por quê?”.

Ainda havia pesadelos onde Naruto aparecia, mas aquele monstro não errava o tiro. Antes mesmo que Itachi pudesse ver o rosto de Naruto, uma explosão de sangue e miolos colidia com os portões do salão e o corpo de um adolescente caia. Sasuke tentava ir até o cadáver no chão e a garganta dele era cortada; Itachi observava mudo ao seu irmão engasgar com o próprio sangue, olhando em sua direção assustado até a luz desaparecer de seus olhos e seu corpo cair inerte no chão.

Em outros, ele via seu irmão cortar a jugular de Naruto, sangue espirrar em Sasuke e um corpo cair de bruços no chão, estrebuchando ao se engastar com o próprio sangue enquanto aquele bandido ria ao seu lado. Nesse sonho, o monstro arriava as suas calças e o estuprava na frente de Sasuke, Itachi sentia toda a dor de ser rasgado, toda a humilhação, mas isso não era o pior: Sasuke sempre pegaria a mesma faca que matou Naruto, para cortar os próprios pulsos na sua frente, sem que ele pudesse fazer nada.

Não importava qual maratona de terror ele passava: ele ia sempre acordar com um grito apavorado entalado na garganta, gelado da cabeça aos pés, tremendo tanto que beirava a um ataque epilético. Principalmente porque ele sempre conseguiria relembrar os pesadelos com tanta lucidez que isso quase o confundia, a coisa era tão real que demorava até ele sacar que tudo era um sonho.

Só que, no momento que ele compreendia que todo aquele horror era só um pesadelo, isso não o deixava melhor, porque se era mentira, era porque ele não enxergava. De modo que se ele enxergou aquelas coisas horríveis, então era um sonho. A realidade era que ele era um cego que estava fora do jogo.

Itachi tentava ser forte, tentava não pensar nisso, mas cada instante sozinho era pior: sua razão às vezes o abandonava e o deixava com pensamentos voltados para Sasuke ou Naruto ou Shisui. Ele não teve nenhuma notícia do irmão mais novo e isso estava deixando-o preocupado ao ponto dele não ter vontade de comer. Quando seus pensamentos iam para Naruto, as coisas não melhoravam como antes, porque quanto mais Itachi pensava nele, mais se conscientizava que sentia falta do garoto. Não como um namorado em potencial ou qualquer babaquice do gênero, ele sentia falta de estar com ele, conversar, fazer algo, qualquer coisa. Quando Itachi pensava em Shisui, ele tentava muito encontrar um jeito de consertar as coisas entre eles, mas quanto mais tentava, mais ele falhava.

Era tudo tão frustrante…!

–Uchiha. Itachi Uchiha! –chamou uma voz feminina aveludada em tom polido, fazendo Itachi parar de divagar e Shizune parar de bater o pé com nervosismo.

A tia logo mais entraria de plantão em um novo emprego e estava nervosa com isso, já que não queria causar má impressão aos novos patrões. Itachi desejava muito que Shizune não saísse no prejuízo por sua causa, aquele emprego foi a única coisa boa que aconteceu de uns tempos para cá. Alguma coisa precisava dar certo para eles e ele esperava que esse ano que chegava mudasse as coisas, porque esse último semestre foi o pior de suas vidas.

Ao ser chamado, com a ajuda de Shizune, Itachi foi até o consultório de Minato, sentindo imediatamente a diferença de temperatura, pois na sala do médico estava mais quentinho do que lá fora, o que também era um alívio.

Todavia a cordialidade natural do médico parecia estranhamente forçada dessa vez. Havia todo um ar formal ao redor deles, além do fato de Minato apenas falar o essencial, fazendo uma série de perguntas sobre suas dores, seus olhos e sobre os remédios. Toda essa atmosfera solene, tão diferente do início do tratamento, deixava Itachi apreensivo, como se já não fosse o bastante a estranheza inicial de falar pela primeira vez em semanas com a pessoa por quem ele estava apaixonado e que também é o pai do garoto que ele está a fim, sendo que este tinha quase morrido por conta das coisas que sua família estava envolvida.

Parando para pensar nisso, Minato tinha toda a razão do mundo para odiá-lo ou odiar a sua família. Se ele estivesse na posição do médico, provavelmente ele teria impedido a qualquer custo que Sasuke não falasse com Naruto ou qualquer coisa nesse sentido.

Minato examinou seus olhos com a lanterna e Itachi sentiu uma ardência impactante com o isso, seus olhos imediatamente lacrimejaram. O médico então lhe deu um lenço de papel para enxugar às lágrimas e em seguida o analisou em um aparelho, onde ele precisava colocar o queixo sobre uma superfície metálica muito fria.

Findo os exames, Minato consultou eletronicamente a fila de espera do transplante de córnea, a fim de fazer outra solicitação de emergência para tentar colocar o seu nome a frente de outros. Nesse momento, Itachi descobriu que apenas vinte e seis pessoas conseguiram o transplante das mais de quatrocentas e isso foi como ganhar um balde de água fria.

–Seria mais simples e mais rápido se tivessem mais doadores... –comentou Minato com calma e em tom profissional. –Mas com a nova solicitação de prioridade, você entrou em um grupo de urgência, onde a fila é menor, assim você saiu da casa dos trezentos e passou para o grupo de espera dos cem primeiros.

–Mas não tem como prever quando eu vou ser contemplado, certo? –inquiriu Itachi tentando soar otimista, embora saber que tenha cem pessoas na sua frente não fosse tão agradável assim, mas com certeza era melhor que ter mais de duzentas.

–Isso depende muito, nas festas de fim de ano há mais mortes no trânsito e então há mais chances de transplantes, mas menos profissionais da área para realizar as cirurgias. –respondeu Minato em um timbre professoral. –É uma variável muito grande, mas as coisas estão correndo razoavelmente favoráveis. O seu quadro preenche todos os requisitos de urgência e isso não vai mudar pelos próximos meses, vinte e seis pessoas conseguiram fazer a cirurgia nesse mês, sem contar os possíveis óbitos do ano novo e o retorno para casa. Se tudo continuar favorável, talvez em junho você consiga fazer o transplante.

Era extremamente desconfortável ter que depender da morte de alguém para conseguir enxergar, porque isso era basicamente se aproveitar do sofrimento alheio. O doador teria uma família sofrendo com sua perda em algum lugar e Itachi para sempre carregaria uma parte disso em si, algo que ele sequer poderia conhecer, algo que foi praticamente tomado. Mas ele não tinha escolha. Desde o começo, ele não tinha escolha alguma quanto a isso: precisava ver para voltar ao jogo.

–Obrigado. –disse Itachi com a voz baixa e séria. –Eu nem sei o que dizer...

–Isso é só o meu dever profissional, Itachi. –rebateu Minato suavizando a voz. –Também é a única coisa que eu posso fazer por você, até mesmo para evitar que coisas como as que aconteceram no sábado voltem a acontecer.

Um soco no estômago teria doído menos do que ouvir a decepção na voz de Minato daquele jeito e naquele momento. Itachi se aprumou na cadeira, deixando as costas retas e as mãos descansando sobre suas coxas, em uma vã tentativa de controlar o desconforto da situação.

–Eu sinto muito por tudo aquilo. –disse Itachi de um jeito sério e solene, como a atmosfera pedia. –Nunca quis envolver Naruto nos meus problemas ou nos problemas do meu irmão.

Por um instante inteiro Minato ficou em silêncio e Itachi sabia que o médico estava analisando qualquer ato seu, avaliando o que diria. Sem sequer perceber, Itachi acabou prendendo a respiração; suas costas estavam tão retas que ele mal sentia o assento da cadeira tocar nelas. No fim, o Uzumaki suspirou entristecido, colocando o cotovelo sobre a mesa pelo ruído seco e rápido que soou.

–Eu sei. O pior é que eu sei disso. –respondeu Minato fazendo o som de um riso que parecia não ter graça alguma. –Não me leve a mal, Itachi, eu sei que você e sua família são boa gente, eu conheci um pouco de vocês durante a sua recuperação e eu sei disso, mas... Mas como pai eu fico preocupado até onde o meu filho pode ir pelo seu irmão.

Itachi abaixou a cabeça, tentando absorver o significado daquela conversa ou qual direção tudo iria caminhar. Era natural que Minato estivesse preocupado com o filho, Itachi sabia o suficiente que o médico era um pai extremamente coruja. Sempre falava de Naruto com orgulho, como se não tivesse nenhum problema com o filho, mas... Mas agora ele conhecia o lado de Naruto também e se a sua família estava muito quebrada, a família de Minato estava tão estilhaçada quanto.

Cada um sabe a dor que carrega e nenhuma dor pode ser pior que a outra. Dor é dor, algo individual que todos os humanos passavam em algum momento de suas vidas e cada tipo de dor devia ser respeitada.

–Eu entendo... –Itachi acabou murmurando, voltando a erguer o rosto.

Minato expirou ruidosamente.

–Entende mesmo? –inquiriu Minato de um jeito sério. –Entende que o evento do sábado passado não foi algo isolado?

Itachi piscou sem entender.

–Como?

–Ah, isso Naruto não contou, certo? –perguntou Minato, como se estivesse falando consigo mesmo.

–O senhor está falando da briga que meu irmão e o Naruto tiveram? –perguntou Itachi, se lembrando vagamente de uma conversa com Naruto, no primeiro dia que o garoto serviu de babá para ele. –Uma que ele até desmaiou?

–Bom, certamente teve esse incidente. –concordou Minato com a voz cansada. –Mas teve um ainda pior em outubro, no dia do aniversário do meu filho ainda por cima!

Minato narrou que no outubro daquele ano, Naruto ganhou um relógio rollex original de Hashirama de presente de aniversário. Entretanto, Sasuke estava devendo dinheiro para o bandido que foi preso e seria estuprado como pagamento, mas Naruto juntou um grupo de amigos e foram até uma antiga construção perto da escola deles. Houve uma briga por lá, que acabou com todo o grupo de marginais do bandido sendo presos, Naruto sem o rollex e todos os amigos dele machucados.

O queixo de Itachi caiu com aquela história, principalmente pelo fato de algo tão grande e perigoso assim ter acontecido ao lado de uma escola, mas ninguém ter informado nada a ele, o responsável legal de Sasuke.

–Você visivelmente não sabia disso. –pontuou Minato sem aparentar surpresa e Itachi apenas assentiu, se sentindo miserável. –Eu me arrependo muito de ter emancipado o Naruto, se não tivesse feito isso, eu teria levado a cabo o roubo desse relógio e você teria sabido disso.

Uma dor de cabeça começava a lhe incomodar e Itachi só queria voltar para casa, tomar alguma dipirona e tentar dormir, mas sem ter qualquer sonho, ficar lá, trancado sem ter que experimentar aquela dor.

Infelizmente, para muitos problemas na vida não há uma alternativa fácil, muito menos uma fuga. E aquele era um desses momentos, onde você quer escapar porque sente que já não aguenta mais isso, mas não pode porque você sabe que tem que passar por isso para ficar mais forte. O problema é que não altera o fato de que não há uma resposta para como resolver isso.

–Você entende porque eu não quero que Naruto ande com Sasuke, não é Itachi? –continuou Minato com a voz triste e Itachi assentiu novamente. Se ele estivesse na posição do mais velho, ele também pensaria do mesmo jeito. –Você entende que eu não quero isso pro meu filho, né? Eu perdi o meu menino mais velho pra um câncer, é errado os pais enterrarem os filhos e eu não vou permitir que o meu mais novo se meta nesse tipo de problemas, mesmo que eu acabe sendo injusto.

–Eu... –iniciou Itachi com a voz fraca. Ele pigarreou e continuou. –Eu entendo.

–Não, você não entendeu. –pontuou Minato com a voz séria e compreensiva. –Eu não quero mais que o Naruto chegue perto de você.

Com isso a mente de Itachi ficou completamente vazia e seu queixo até caiu com a surpresa disso. Ele piscou algumas vezes, tentando voltar a ter compostura, mas não mudava o fato de que aquela dor conseguia superar qualquer outro sentimento por que...

... Porque vinha com o conhecimento de que aquela decisão era o melhor para Naruto.

Ele estava com problemas, muitos, desde o começo ele sabia que Naruto não se meter com ele era o melhor, a opção mais racional, mas... Ainda assim era extremamente desolador. Desde o começo ele sabia disso, mesmo assim ele confiou em Naruto e na sensação de liberdade que o garoto trazia consigo, pois ao lado do adolescente, Itachi se sentia mais como ele foi enquanto enxergava. Minato ainda estava falando e Itachi se forçou a prestar atenção.

–Eu realmente não queria ser injusto por colocar uma culpa que não é sua em você, mas... Eu não tenho escolha! O quanto menos as nossas famílias se juntarem, menos catástrofe vai ter. –se justificou Minato aparentando estar tão desesperado e perdido quanto ele. –Você entende?

O mais triste de tudo era que Itachi entendia. Céus, ele entendia e até mesmo concordava com isso, mas ainda assim doía muito saber que teria cortar relações com a única pessoa que ele podia contar. A única pessoa que não pensava que ele era um apêndice ou um coitadinho.

–Eu entendo. –murmurou Itachi, se sentindo como se fosse atravessar os portões do inferno e agora estivesse se despindo da sua esperança.

–Obrigado. –agradeceu Minato parecendo extremamente aliviado. –Eu vou recomendar você pra um bom oftalmologista, ele poderá fazer um melhor acompanhamento pra você e tenho certeza que você vai conseguir o transplante.

Itachi assentiu, tentando ao máximo ocultar a avalanche de sentimentos que tinha dentro dele. “É o melhor pra ele.” Itachi pensou se sentindo extremamente miserável por isso. E se aquele era mesmo o melhor desfecho para todos eles, Itachi faria a única coisa que poderia fazer: se manter afastado de Naruto.

Para o próprio bem dos dois.

Continua...

Notas finais
Ainda tenho umas sessenta ou setenta páginas escritas, mas como graças a Deus essa fic tá acabando, eu tenho que escrever o fim. Queria fazer um agradecimento a todas as pessoas que me apoiaram até aqui e que ainda não desistiram dessa fic! Minha beta Kitsune Lyra que usa um vira tempo pra betar e ser uma grande amiga, Paulinha-chan por ainda querer ler e me incentivar com músicas e me aturar num geral, AnastasiaSteele porque mesmo não aguentando mais mangás ainda quer ler isso aqui, Danielle1234 por ser uma fofa comigo e ainda desejar ler essa fic (alguém me mata pelo péssimo trocadilho), Wonka Way pelos reviews lindos e todo o apoio, Uzumaki Bruna por sempre fazer comentários que me deixam saltitando pelo meu quarto que nem uma idiota, Linda obrigada por insistir boa parte da coragem de postar esse capítulo veio pela sua insistência (e flor, não tem como eu responder sua mensagem porque você me bloqueou, creio eu, que acidentalmente. Você tem que desbloquear para que eu responda a sua mensagem tá?), Jamily Flora obrigada por ser sempre gentil, Renard Uchiha valeu mesmo por todas as palavras de incentivo, Mrs Salvatore por sempre deixar um recado para mim (só pelo Nick acho que vc deve ter gostado da pequena menção de TVD né? xD), ThalitaMegaCrazy guria eu amo seus reviews obrigada por acreditar em mim, Meels obrigada por tentar comentar e me dar uma dica útil sobre a condução da fic, Zmyia, Liu, Tifany Merloky, Isabbla, Neko-chan123, NagizaDB, Aizuru uchiha, Samy, S. Monteiro, Mary_Maira, e a todos os outros que ainda acompanham essa coisa. Eu vou responder aos reviews, acreditem! Não sinto que mereço leitores tão maravilhosos quanto vocês e isso é verdade. Não sou hipócrita e nem nada, sei que não sou grandes coisas, mas também não sou coisa alguma. Ainda é estranho quando me elogiam nisso, em escrever, sinto que não mereço, mas saber que todos vocês gostam do que eu escrevo e que isso deixa vocês felizes me faz MUITO feliz. É uma das alegrias de quem escreve sabe? Não é muito fácil ficar do lado de cá. Estou escrevendo fics desde 2007 e cara, minhas fics eram um lixo naquela época. Até “mais” e “mas” eu confundia. Graças a Deus, nem todos vocês pegaram essa fase (minha beta conheceu essa fase, que vergonha! D:) e eu fico feliz por isso. Mas é olhando pras minhas fics velhas que não estão no nyah eu sei que todos podem melhorar, se se esforçarem nisso (a frase soa estranha, mas acho que tá gramaticalmente correta viu? O.o Não dá pra meter uma ênclise aí e uma mesóclise ia ser bizarro o_O). Então gente, MUITO obrigada por ainda estarem aqui. Vocês são demais e merecem muito mais do que eu posso oferecer, sinto muito por isso, mas mesmo assim, muito obrigada por me fazerem feliz com esse apoio. Não sou a autora mais participativa do mundo, já que eu sou introspectiva, mas a minha caixa de mensagens está sempre aberta e no que eu puder, eu ajudarei, mesmo que seja só pra ouvir, sabe? ^^’ Enfim, obrigada gente! Ah e último aviso: Vestígios de família está em hiatus. Vou terminar desejar primeiro e me segurar por enquanto para não escrever nenhuma hidekane no meio do caminho (e acreditem quando falo segurar porque nos últimos tempos eu tenho respirado esse par.) E, ao som de unravel – female version (um remix muito foda), encerro esse cap o/ Tentarei att assim que der.