Desejar
17 Hope
Notas iniciais
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ONZE
Hope
Itachi’s pov
Depois da conversa com Minato, Itachi entrou no piloto automático.
Ele não se recordava bem, mas deu um último aperto na mão de Minato que lhe disse para ser forte e a consulta acabou. Shizune o guiou até a entrada do hospital, onde havia alguns bancos para se sentarem, ele se sentou em um deles enquanto ela fazia algumas ligações. A tia precisava estar no novo emprego às seis da tarde para iniciar o plantão e eram cinco e trinta e cinco, Shisui estava na empresa, com Madara, mas Itachi estava se sentindo tão apático que mais nada parecia importar.
Ventava muito naquele finzinho de tarde, o ar estava úmido, indicando que provavelmente ia chover de novo naquela noite. A rua estava silenciosa, mas Itachi ouvia Shizune falando com alguém não muito distante dele, assim como ouvia o som de passos, provavelmente uma mulher usando um salto baixo, pelo toque da borrachinha do salto na calçada de concreto.
Logo alguém se sentou ao seu lado no banco, a pessoa cheirava a camomila e pimenta, um cheiro que parecia que ele já tinha sentido antes. Contudo, isso não o impediu de se afastar da pessoa, tateando até ficar próximo do fim do banco.
—Oi! Você é o Itachi, né? –disse uma voz feminina que não lhe era estranha, o que só o deixou curioso. Ele se virou na direção do som. –A gente não se apresentou como era pra ser no dia que eu fui na sua casa.
A mulher deu um riso sem jeito e animado, mas Itachi não conseguia se recordar dela de lugar nenhum. Nenhuma mulher visitava a sua casa, talvez a única vez foi naquele dia horrível, antes de Naruto ser a sua babá, quando...
—Eu sou Kushina Uzumaki a...! –prosseguiu a mulher e Itachi arregalou os olhos por trás dos óculos de sol que usava.
—... Mãe do Naruto. –finalizou Itachi com surpresa.
Por um segundo, ele conseguiu controlar o choque e encobrir a sua apreensão com aquele encontro, ainda mais quando a mulher sorriu mais uma vez. Foi só nesse instante que Itachi reparou que o som da risada de Naruto era igual ao daquela mulher e isso de alguma forma o acalmava, mesmo que ele não soubesse o que esperar daquilo.
Kushina aparentava ter as mesmas características do filho: animada, cheia de vida e empolgação, como se sempre tivesse um motivo no mundo para sorrir. “Essa é a mulher que entrou em depressão?” Itachi pensou no mesmo instante em que lembrou o que Naruto disse sobre a família Uzumaki.
—É isso aí! –concordou a mulher com entusiasmo. A voz dela era tão espalhafatosa e vibrante como a do filho, mesmo que fosse mais suave e definitivamente feminina, quase delicada. –Como tem passado?
—Bom... –começou Itachi sem saber ao certo como responder.
Itachi gostaria que a mulher não lembrasse tanto Naruto. Mesmo que ela fosse uma total desconhecida, o jeito peculiar de Naruto tinha um efeito muito grande nele, afastando até mesmo a sua vontade de burlar a verdade e assim ficar distante das outras pessoas. Isso somado ao fato que Kushina irradiava aquela áurea de ‘mãe’ ao falar não era nada animador a uma mentira social, qualquer que fosse ela.
—Não muito bem, mas acho que isso uma hora vai acabar. –ele respondeu por fim, achando que esta não foi uma resposta tão ruim afinal.
—Arg, eu sei bem como é. –comentou Kushina após um longo suspiro. Itachi escutou o som de uma bolsa sendo movida e um ruído seco, como se alguém tivesse se escorado em alguma coisa com ar dentro ou algo assim. Era um ruído esquisito desse jeito. -E pelo visto, pela sua cara de quem comeu e não gostou de antes, meu marido deve ter dito alguma coisa ruim pra você, né?
Bingo. Ali estava o incrível talento maternal de descobrir pelo em ovo, seja dos próprios filhos ou dos outros. Bom, ao menos, as mães que se esforçavam pelos seus filhos e que não olhavam para a maternidade como se isso fosse arruinar suas próprias vidas tinham isso; aquelas mães que escolhiam cuidar de uma criança, seja por sangue ou adoção, vinham com um detector de mentiras embutido.
Isso inevitavelmente lhe fez se lembrar da sua mãe, porque ela também tinha esse sexto sentido natural que as mulheres acordam quando dão a luz, o dom natural de reconhecer um olhar chateado ou uma travessura a caminho. Quando Itachi era criança, ele pensava que as mães já vinham pré-programadas para captar o que há de errado com os filhos e com um manual básico de gritos como: “abaixe a tampa do vaso!”, “a casa ‘tá toda suja!”, “não mexe aí ou você vai levar uma surra!” ou “larga isso menino!”.
Durante muitos anos, ele e Shisui elaboraram muitas teorias para se livrarem do radar da sua mãe, mas nenhuma deu certo: sua mãe sempre sabia quando alguma coisa dava errado. Também sempre estaria lá quando eles precisassem, não importava qual fosse o problema (e claro que a espada de São Jorge corria solta também, mas faz parte).
Itachi imaginava o que seus pais fariam na sua situação, embora ele duvidasse muito que tivesse que passar o que atualmente vivia, se eles estivessem vivos.
—Ele só agiu como os pais devem agir, senhora. –respondeu Itachi com humildade, recordando-se da sua mãe e do jeito de leoa que ela ficava quando qualquer um dos três estava em apuros.
—Não me chame de senhora! –ralhou Kushina com a voz irritada e Itachi imediatamente sentiu que fez alguma coisa de errado e logo se aprumou no banco, quase estendendo as mãos para levar uma reguada. -Odeio me sentir velha e quando me chamam de senhora eu me sinto velha! Me chame de Kushina! Kushina!
—Perdão, eu sinceramente não queria ofender. –ele se desculpou o mais rápido que pôde, ficando retinho no banco e ouvindo a mulher bufar indignada ao seu lado.
Itachi quase sorriu ao se lembrar da outra pessoa que conhecia que bufava igual um trenzinho quando estava irritado. Kushina expirou ruidosamente e Itachi sentiu como se alguém estivesse o abanando mesmo que estivesse frio, fazendo com que ele quase franzisse o cenho, até que Kushina se apoiou suas costas no encosto do banco com um ruído suave.
—Certo, certo... –concordou Kushina sem realmente se importar. -Então, como é que os pais devem agir na sua opinião Itachi?
Com vagar, Itachi novamente se virou na direção do som da voz de Kushina e um pressentimento de que ele estava sendo atentamente analisado pela mulher correu na sua mente. Ele não tinha motivos para se sentir nervoso, tinha? Era só uma conversa casual e não um interrogatório, mas a verdade é que ele estava ficando nervoso com aquilo. O frio do finzinho da tarde também não o ajudava muito a se sentir confortável naquela situação.
“Foco. Responda a pergunta.” Ele pensou consigo mesmo. ‘As primeiras coisas a serem feitas precisam ser feitas primeiro’, parecia uma frase idiota, mas se você estivesse cedendo a alguma distração, essa frase o salvaria de fugir do objetivo. Primeiramente, ele tinha que responder a pergunta: o que um pai tem que fazer?
Um pai e uma mãe precisam cuidar dos filhos, guiá-los, instruí-los. Colocar limites, estabelecer princípios sólidos, serem exemplos, ensinar a amar e estarem lá para evitar que as decisões ruins venham de seus filhos. Uma família era construída por pessoas que acima de tudo escolhiam caminhar pelo mundo fortalecidos pelo vínculo que construíram e baseado em todos esses fatores prosseguir com o ciclo de povoação da terra, inserindo novos seres humanos na sociedade. Mesmo que nem todas as famílias tenham descendentes, todas elas precisavam de alguma base. Então, como um pai deve agir?
—Toda família tem uma base solidificada não apenas pelo amor, mas também pelo respeito mútuo e confiança. Uma série de princípios que vai moldar o caráter das crianças e que vai solidificar o caráter dos responsáveis. –começou Itachi, ponderando cada palavra que ia dizer. –Os pais devem usar essa base para proteger os filhos, tentar evitar que coisas ruins aconteçam com eles e estar lá quando eles precisarem, porque... Mesmo que protejam seus filhos, coisas ruins sempre vão acontecer. Faz parte da vida e do nosso aprendizado.
—Bom, isso todos nós tentamos fazer, mas não é como se os filhos nascessem com um manual de instruções, né? –concordou Kushina com a voz suave. –Imagina que legal você ser mãe ou pai de primeira viagem, aí seu filho tem um manual tipo: choro muito alto: fome. Como proceder? Dê o peito. Choro baixo, com braços erguidos: o bebê se sentiu sozinho e quer colo. Como proceder? Pegue ele no colo, dê uns passinhos pelo quarto até ele dormir.
Kushina sorriu com o que havia dito, um riso baixo e menos estridente do que o riso de Naruto, mas muito parecido com o sorriso da sua própria mãe. Mikoto não ria alto, sua mãe era o que poderia se chamar de “lady”, era tão linda quanto uma e quando sorria era como uma verdadeira rainha. Itachi, às vezes, não sabia por que ele evitava tanto pensar nos pais, muitas vezes quando ele recordava essas lembranças, ele sentia como se enxergasse um Itachi que não existia mais dentro dele, só para depois encontrar a si mesmo de novo por causa dessas lembranças.
Ele era quem era por causa deles, Fugaku e Mikoto. A morte não apagaria isso, então jamais seria capaz de apagar seus pais de si. Ele duvidava que até a sua própria morte não apagaria a marca que seus progenitores deixaram nele, era algo tão natural quanto o ato de respirar, um vestígio automático e eterno: estava lá, mesmo que ninguém além dele mesmo pudesse enxergar, mas isso bastava.
Era esse sentimento que preservava as memórias e o sentimento dentro de si, porque ele nunca estaria, realmente, só: sempre haveria um pouquinho da sua mãe e do seu pai nele. Às vezes Itachi se perguntava se isso era o que os outros chamavam de “fé”.
Sem que ele se desse conta, um sentimento morno nasceu em seu peito e era espalhado pelas suas veias pelo resto do seu corpo, acalmando-o de um jeito que ele não se sentia a dias. Kushina continuava falando e Itachi inspirou profundamente, voltando a prestar atenção. Se a mulher era igual à Naruto, então ficaria uma fera se notasse que ele não estava prestando atenção (embora o problema fosse que Naruto falava demais).
—Seria mais simples, né? –perguntou Kushina. Itachi não tinha a menor ideia do que ela estava falando, mas assentiu. -Mesmo que viesse com as coisas em alemão ou chinês, dava pra tentar usar o Google tradutor... E...
Kushina parou para refletir um momento. Itachi fez uma expressão de educado interesse, embora realmente não estivesse entendendo absolutamente nada da conversa. A regra do tal mãe, tal filho era totalmente aplicável aos Uzumaki, porque Naruto conseguia ser tão ou mais aleatório que a mãe.
—Não que o Google tradutor seja uma grande ajuda... Principalmente no espanhol, esse treco não ajuda em nada! –continuou Kushina com a voz irritada e em seguida fazendo um som esquisito. Naruto fazia a mesma coisa e ele nunca sabia o que isso significava, o que acabou arrancando um riso dele. -Melhor um pouco de ajuda do que nada, né? Ei ei do que você ‘tá rindo?
—É que eu já sei quem o Naruto puxou... –respondeu Itachi educadamente, não conseguindo evitar o sorriso.
—Hehehe Naruto é o filho que mais se parece comigo! –pontuou Kushina com um riso orgulhoso satisfeito. -Mas ó, não diz pro meu marido ou ele vai ficar com ciúme! –murmurou Kushina em tom conspiratório e depois riu alto, igual ao avô de Naruto, o tal Hashirama. -A genética do meu lado da família é forte e ele não lida muito bem com isso!
—Prometo que isso não vai sair daqui. -prometeu Itachi.
“Naruto se parece com a mãe...” pensou Itachi, enquanto ouvia Kushina sorrir orgulhosa consigo mesma pela prole que gerou. Ele se virou para frente, ponderando o que ouviu. Não era a primeira vez que Itachi escutava que Naruto era parecido com a mãe e, com um pouco de vergonha, ele percebeu que nunca pediu que Naruto se descrevesse para ele. Havia tantos problemas na sua vida, que essa simples questão nunca passou pela sua cabeça e Itachi nunca tinha se importado com isso até uma semana atrás, mas agora... “Ele se parece com a mãe.” Ele voltou a pensar, segurando o queixo. “Então ele é ruivo?”.
Itachi franziu os lábios em desgosto a essa ideia. As leis de Mendel davam a noção básica de genética, então Naruto só podia ser loiro ou ruivo, ambos os genes sendo recessivos. O ruivo mais recessivo do que o loiro, mesmo assim Naruto era ruivo, o que o deixava duplamente recessivo e, essa linha de pensamento não tinha lógica nenhuma! Itachi precisava apenas aceitar o fato que Naruto era ruivo e ponto, mesmo que vermelho fosse a cor que ele menos gostava.
—Ei! Você não precisa ficar emburrado por isso! –pontuou Kushina alegremente.
“E-emburrado?” pensou Itachi surpreso, desfazendo o ligeiro bico que se formou na sua boca. Maldita força do hábito! Ele pigarreou e voltou a ficar sério, aprumando-se no banco e voltando a prestar atenção em Kushina, que, por alguma razão que só Deus sabia, estava rindo que nem uma louca. Mentalmente Itachi contou até dez e manteve-se inabalável, até a mulher parar de rir.
—Conhecendo o meu marido, acho que ele pediu pra que você não falasse com o nosso filho, né? –perguntou Kushina com um jeito desleixado e Itachi conseguiu frear mais suas reações. -Não é como se isso fosse resolver o problema, você não é o problema.
A sensação de ser analisado lhe invadiu novamente e Itachi começou a se perguntar o que a mãe de Naruto pretendia com aquela conversa. O assunto estava lhe deixando profundamente inquieto, principalmente pelo fato que Kushina parecia estar indo contra o esposo, algo que ia de encontro às coisas que Naruto lhe dizia. O adolescente sempre disse que seus pais eram muito cúmplices e que nunca agiam separadamente, quando um errava, o outro errava junto.
Tudo isso só fazia a sensação de estar sendo interrogado ser ainda mais forte porque era quase como ganhar as esperanças de novo e Itachi não queria se iludir. Minato foi firme em pedir que ele não falasse com Naruto e essa atitude com certeza traria benefício para o adolescente, que não precisaria passar por nenhum risco de morte por causa da sua família e dos seus problemas.
Itachi entendia que Naruto confiava nele e que era digno da sua confiança, mas as circunstâncias precisavam ser analisadas num contexto amplo. Acima do que ele queria, era necessário pensar na segurança de Naruto. Obvio que ele adoraria ter Naruto perto de si porque eram amigos, porque o adolescente sabia mais coisas sobre Sasuke, porque ele não se sentiria um lixo sem fazer nada. Mas Naruto foi atacado mais de uma oportunidade, quase morreu na última vez e isso Itachi não podia ignorar.
Por mais que doesse, era o que precisava ser feito.
—Talvez não seja a melhor escolha, mas isso certamente é fazer alguma coisa para tentar lidar com o problema. –respondeu Itachi com calma. -Cada um focar no próprio problema não é errado e eu e minha família parecemos atrair isso, digo, problemas. Eu realmente não queria que Naruto se envolvesse com tudo isso.
Houve uma longa pausa na conversa e Itachi sentia os olhos de Kushina presos nele. Uma ambulância chegou ao hospital, as sirenes tocavam não muito longe dali e isso o distraiu um pouco, embora um bolo se formasse no início da sua garganta. Ele queria muito que Kushina dissesse alguma coisa.
—Mas ele se envolveu, Itachi. –disse Kushina com brandura e uma seriedade que não tinha apresentado na conversa até aquele ponto. As palavras dela surpreendendo Itachi de um jeito que ele não pensou que poderiam afetá-lo. -E isso não é algo que eu, você ou meu marido podemos ignorar mais. Ele já ‘tá envolvido.
Itachi escutou Kushina se ajeitar no banco ao seu lado, a bolsa dela se movendo e chacoalhando as coisas que tinha dentro. Um vento frio e úmido os atingiu, trazendo o cheiro de fumaça de carro movido a diesel. Apesar de ficar cada vez mais frio ao seu redor, Itachi mal conseguia se importar com isso, mesmo que ele fosse friorento.
—Naruto já ‘tá no olho do furacão por vontade própria e ele já é praticamente um adulto. –continuou Kushina com seriedade. -Eu carreguei ele por sete meses e criei ele: eu sei que ele não vai concordar com isso e vai fazer alguma besteira. –Kushina deu um suspiro rápido e cansado. –O pior é que eu sei que ele deve ter contado muito mais coisas dele pra você, do que contou pra mim nos últimos anos!
—Me perdoe se eu for muito direto, mas, onde a senhora... –iniciou Itachi, ouvindo a mulher grunhir de raiva. Se sua mãe parecia uma leoa, Kushina parecia uma loba e Itachi não queria contrariá-la. -Perdão, onde você quer chegar?
Houve um segundo de hesitação e Itachi engoliu um seco, inconscientemente prendendo a respiração enquanto Kushina inspirava lentamente, como se ponderasse qual peça mover em uma jogada de xadrez.
Muito embora Itachi já se sentisse em xeque.
—Se eu te perguntar agora, o que o Naruto é pra ti ou o que ele significa pra ti, o que é que você vai me responder? –perguntou Kushina com a voz firme e séria que fez os pelinhos do pescoço de Itachi se arrepiarem todos.
O que diabos ele poderia responder com isso?
Em sua vida, houve diversas situações que exigiram muito tato, várias ocasiões onde ele se sentiu completamente sem saída e até mesmo deprimido, aquela semana dava um ótimo exemplo, mas agora, naquele momento, Itachi se sentiu extremamente acuado. Ele sentia seus ombros tão tensos que estava doendo, suas costas também se enrijeceram a tal ponto que o desconforto era quase palpável. Ventava muito mais que antes e ele precisava se controlar muito para não bater os dentes com frio, felizmente seu cabelo estava muito bem amarrado e a franja nem o irritava tanto dessa vez. Mas havia um grande problema.
Ele não conseguia responder.
A verdade era que ele gostava de Naruto e queria muito a ajuda do adolescente para ajudar Sasuke, em troca ele ofereceria um relacionamento sério, como Naruto merecia. Ele queria aquela energia alegre e positiva que Naruto tinha, porque o adolescente tinha fé pelos dois. Acima de tudo, ele queria se sentir como ele sempre foi, não o ‘coitadinho que não pode andar pela casa sem se bater’ ou o ‘pobre coitado que tem o irmão drogado’ e nem nada disso. Ele não queria ser tratado como “o prodígio” ou o ‘menino de ouro’ da sala ou do trabalho: Itachi queria ser Itachi, não era um pedido muito grande ou impossível.
Naruto trazia a tona o que ele tinha de melhor, em um momento que todos se esqueceram do que ele era capaz de fazer. O adolescente trazia saídas para as limitações que lhe foram impostas.
Tudo isso servia para que ele percebesse que Naruto era uma peça importante na sua vida naquele momento e que poderia ser muito, muito mais do que isso. Por outro lado, por justamente Naruto ser tudo isso e muito mais que Itachi precisava cuidar dele. Ele sabia que Naruto o acompanharia naquela jornada para trazer Sasuke de volta, mas a que custo?
O incidente do natal foi sorte pura. Não importava que parecesse coisa premeditada do desgraçado do seu tio, isso, se possível, abria um leque para uma série de terrores ainda ocultos. Perigos para ele e para quem estivesse relacionado com a sua família, como Naruto.
Itachi considerava Naruto importante o suficiente para querer protegê-lo disso tudo, inclusive dele mesmo.
—Ele é meu amigo, provavelmente foi a única coisa boa que me aconteceu desde que eu fiquei cego. –respondeu Itachi com objetividade. -Mas é por isso mesmo que eu não quero que ele sofra ou se meta em apuros por minha causa ou por causa do meu irmão. –concluiu Itachi com um suspiro exasperado. -Ele merece muito mais do que isso.
Durante um longo tempo nenhum dos dois falou nada e ele se virou para frente, ele temia o que Kushina pensaria dele por isso, mas a mulher sequer se moveu, mesmo que ele ainda sentisse os olhos dela presos na sua figura. Todavia, mesmo isso era uma suposição. Itachi suspirou baixinho, se perguntando onde Shizune estaria. A tia com certeza deveria estar atrasada para o trabalho a essa altura e isso lhe fazia se sentir mal.
—Então com isso você me diz que... –murmurou Kushina com a voz frágil e indistinta. -... Se eu confiar em você, eu não vou me arrepender?
—Como...? –perguntou Itachi sem entender, voltando a se virar para o lado.
Kushina suspirou frustrada e Itachi esperou.
—É o seguinte, eu e meu marido amamos nossos filhos, mas cometemos erros e eles estão atrapalhando tudo. Eu tenho certeza que você sabe disso! –explicou Kushina apressadamente, sua voz não ocultava sua frustração consigo mesma. Itachi apenas assentiu. -Meu marido pensa uma coisa que eu acho que pode ser outro erro e que vai piorar o que já foi feito no passado. E eu...!
A mulher inspirou pela boca, respirando profundamente para se acalmar. Itachi ficou silencioso, enquanto Kushina ganhava força de novo, muito embora ele estivesse extremamente apreensivo.
—Eu estou farta de erros, Itachi! –confidenciou Kushina com a voz repleta de frustração. -Eu tenho certeza que você compreende isso porque também está em uma situação tão difícil quanto a minha! E você também tem que tomar decisões tão difíceis quanto a que eu tenho que tomar agora!
Itachi assentiu com um gesto breve da cabeça, respirando lentamente e sentindo as suas mãos suarem de nervosismo, mesmo que estivessem geladas porque ele estava quase tremendo de frio e apreensão. Ela não estava fazendo o que ele achava que ela faria, certo? Porque isso... “Acalme-se.” Pensou Itachi, tentando controlar a ansiedade que tentava dominá-lo.
—Eu sei que você não é o problema e eu sei que meu filho se importa muito com você, mais até do que eu julgo prudente, mas é meu filho. –continuou Kushina com uma nota de desaprovação que não passou despercebida por Itachi. -Ele precisa pensar por si próprio e ter as próprias experiências, boas ou más, porque é assim que se molda o caráter e é assim que se conhece o mundo. Como você falou agora a pouco...
Kushina parou de falar por alguns segundos e Itachi sentia a hesitação dela, só que isso não diminuía nenhum pouco a tensão crescente que ele sentia. Agora até mesmo a sua nuca estava doendo pela tensão dos seus músculos e isso era ridículo. Ele precisava relaxar! Só que por mais que ele se forçasse a relaxar, era impossível. A mãe de Naruto deu um longo suspiro triste que partiu o seu coração antes de prosseguir.
-Como mãe, eu posso dizer que é a pior parte de ser pai: deixar o filho provar do que é capaz. Dar a liberdade de seguir em frente. –ela continuou com a voz triste. -Eu não quero mais tratar o meu filho como um boneco quebrado ou uma criança e...! –outro suspiro. -Ele se importa com você.
Não era como se Itachi não soubesse disso, mas ainda assim isso lhe fazia feliz de um jeito que não era para ele ficar. Kushina voltou a falar apressadamente:
—Você se importa com ele? –ela perguntou com rapidez e desespero, parecia quase a beira de lágrimas e se havia uma coisa insuportável, era ver, no seu caso, ouvir, uma mãe chorar. -Eu sei que se importa, Naruto me contou o que você estava disposto a fazer pra livrar ele daquilo! Eu só...
“Preciso ter certeza de que ele vai ficar bem.”
Era isso o que Kushina queria dizer e Itachi expirou lentamente, sentindo parte da tensão deixar seu corpo, mesmo que fosse impossível para ele garantir que Naruto ficaria bem com tudo o que o rodeava. Mas a questão era que ele se importava muito com aquele adolescente barulhento, tagarela, expansivo e com cheiro de chá.
—Eu me importo com ele. Muito. –respondeu Itachi com brandura, sendo mais franco o possível e Kushina fungou baixinho. -Eu não queria que ele tivesse que passar por aquilo, eu não queria que nenhum de nós passasse por aquilo.
Por um longo minuto, Kushina se concentrou em inspirar e expirar, visivelmente tentando conter o choro iminente e Itachi começava a se sentir extremamente desajeitado. Mas ele simplesmente não podia deixar de agir e tentar fazer aquela mulher se sentir bem novamente. Ela não era má pessoa, nenhum deles era, talvez aquilo fosse só uma grande provação e as atitudes que eles tomavam no agora fossem capazes de garantir um futuro melhor para todos.
—Seu filho me contou algumas coisas... Muitas coisas na verdade. –continuou Itachi, suavizando a sua voz. Kushina fez um som de quem prestava atenção. -Não vou dizer por que não compete a mim fazer isso, mas, se a senho... Quer dizer, se você quer mudar, dar essa liberdade pra ele agir, acho que isso vai mudar as coisas para um jeito positivo.
—Você acha? –ela perguntou com a voz tão frágil que Itachi, por um momento, sentiu vontade de fazer alguma coisa para confortá-la.
—Eu tenho certeza. –ele disse com a voz suave e depois deu um sorriso. -Naruto também quer consertar as coisas, mas não sabe como. Acho... Acho que se os dois lados querem resolver os problemas, então a solução vai vir mais cedo ou mais tarde.
O som suave da risada de Kushina encheu o ambiente e o coração de Itachi ficou um pouquinho mais leve com isso. A mãe de Naruto era uma mulher muito mais forte do que talvez ela própria acreditasse que fosse. Se antes, bem no comecinho da sua paixonite por Minato, ele questionava o que o médico tinha visto em uma mulher que o batia e que, pelo que aparentava nas narrativas de Naruto, ser assustadora como um demônio, Itachi agora compreendia o porquê.
—Você é um bom menino, Itachi. –ela disse contente, colocando a mão sobre sua cabeça em um afago esquisito, como se ele fosse um mero cachorrinho, mas não foi algo que durou muito, já que ela se levantou do banco. -Bom, eu tenho que ir encher o saco do meu marido pra uma carona até o trabalho agora, doze horas de plantão numa ambulância me esperam!
Não parecia nada atrativo, mas Kushina parecia muito animada para isso. Itachi se levantou também, apenas por hábito. Ele esperaria os passos dela sumirem até se sentar e esperar por Shizune “como um bom menino”. Ao pensar nisso, Itachi revirou os olhos no mesmo instante, tentando controlar a expressão de desdém para isso.
—Mas...! –continuou Kushina de um jeito maroto, o mesmo tom que Naruto usava quando ia fazer alguma brincadeira. -Posso dizer que com isso você ganhou a minha benção.
—Hein? –indagou Itachi sem entender, ouvindo uma bicicleta frear atrás dele com tudo.
Itachi fez uma careta ao escutar o freio da bicicleta chiar, enquanto o pneu raspava no chão, fazendo um ruído estridente que doía escutar. Logo alguém provavelmente usando tênis pisou no chão com força, em seguida arrastou aquele negócio metálico da bicicleta no chão causando um guincho que doeu nos seus tímpanos e fez com que ele tapasse os ouvidos com ambas as mãos.
—Ô mãe olha aqui o cel...! –disse uma voz masculina estridente ao fundo e Itachi arregalou os olhos, tirando as mãos das orelhas. -Itachi?
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