Desejar

5 Smells Like a Teen Spirit


Notas iniciais
Então oi! Postando adiantado pra vocês ^^ Mas com um aviso interessante. Sabem aqueles avisos no começo da fic? Então, a partir de agora vai ficar mais intensa a coisa :/ Espero conseguir arrancar algumas lágrimas ahuahuahuaha Mas falando sério: o aviso interessante é que Sasuke, Karin e Suigetsu tem motivos para serem do jeito que são. Eles estão quebrados, agressivos e bem desse jeito por uma razão. Tentem se lembrar disso tá? Espero que gostem.

CINCO

Smells Like a Teen Spirit

With the lights out it's less dangerous

Here we are now, entertain us

I feel stupid and contagious

Here we are now, entertain us

A mulatto, an albino

A mosquito, my libido

Quando as luzes se apagam é menos perigoso.

Agora estamos aqui, nos entretenha!

Me sinto estúpido e contagioso.

Agora estamos aqui, nos entretenha!

Um mulato, um albino,

Um mosquito, minha libido.

(Nirvana)

–COMO VOCÊ OUSA! -uma mulher gritou exasperada. -PELADA NA CASA DE UM DESCONHECIDO E COM PORRA NA CARA, KARIN!

O tom de voz machucado e alto foi tão impactante que Itachi sequer conseguiu evitar em se sentir mais quebrado do que já estava. Acima de tudo, ele se sentia envergonhado por algo que sequer era sua culpa. Ele jamais pensou que chegaria o dia que sentiria vergonha por ser irmão de Sasuke, mas eis que esse dia finalmente chegou! Não tinha ideia do porque da mulher de Minato estar na sua casa, mas ele sabia que nenhuma mãe tinha que ser punida com a imagem da filha bêbada, nua e suja por esperma, ainda mais, na frente de tanta gente.

–O que eu fiz pra merecer isso? -perguntava a mãe da garota exasperada. -O QUE É QUE EU FIZ?

–MÃE PARA! -gritava Naruto preocupado.

Houve o ruído de um baque seco e a mulher de Minato começou a chorar, Itachi estimava que a mulher tivesse caído de joelhos no chão e sua filha começou a rir sonoramente como se estivesse em uma grande piada. De repente o toc-toc dos saltos da mulher de Minato ecoaram pelo apartamento até que o som do segundo tapa da noite foi ouvido, mas nem por isso a garota parou de rir. Todos os demais estavam silenciosos e Itachi conseguia até mesmo ouvir as respirações dos outros, o cheiro de vinho barato e esperma tinham impregnado o lugar, lhe dando ânsia de vômito.

Será que Sasuke, ao menos, estava fazendo sexo seguro? Algo lhe dizia que não; o medo que ele sentiu dobrou ainda mais.

–VAI! ME BATE SUA VACA! -gritou a namorada de Sasuke em um tom enlouquecido. -EU ODEIO VOCÊ SUA CRETINA!

Muitas coisas aconteciam no mesmo instante. Outro som de tapa foi escutado e outros se sucederam até que alguém correu até a mulher, que não parava de berrar e a garota de rir; alguém, provavelmente Sasuke, estava tomando alguma coisa em goles altos. Naruto foi até a mãe e tentou fazê-la parar; Itachi tinha seus próprios problemas para resolver, relembrando deles ao ouvir a voz de Shisui.

–Sasuke, me dê essa garrafa. -mandou Shisui em um tom comedido, mas a ira era bem nítida em seu timbre. -Agora!

–Vem tirar de mim! -caçoou Sasuke em tom definitivamente maligno, engolindo a bebida com muito mais voracidade, pelo som dos goles, embora fosse difícil para Itachi dizer o quão rápido o irmão tomava, porque os gritos de Karin, Naruto e sua mãe eram altos demais.

–Seu moleque! -bradou Shisui, dando alguns passos duros a sua frente, indiferente aos gritos da família Uzumaki.

Sasuke também se movimentou, dando alguns passos largos e pouco firmes em sua direção, parando a uns dois passos a sua frente; Itachi podia deduzir isso pelo cheiro. Seu irmão estava fedido, cheirava a suor, poeira e bebida, inevitavelmente ele tampou o nariz quando o caçula se aproximou.

–Como você chegou a esse nível...? -murmurou Itachi baixinho.

–CALA BOCA! -gritou Sasuke em um tom machucado e quebrando a garrafa de bebida na parede bem perto dele. Instintivamente Itachi se encolheu, escondendo a cabeça nos braços. -CALA A BOCA!

–ITACHI! -berrou Shisui preocupado.

Suas pernas tremiam tanto que era como se realmente mesmo estivesse acontecendo um terremoto, mas o chão não tremia: Era ele quem estava sem forças. Sua cabeça estava doendo. Os gritos não paravam, Naruto ainda tentava fazer a mãe parar de bater na filha, mas a garota parecia não se importar com os esforços de ninguém.

–MAMÃE, ME ESCUTA, por favor! -pedia Naruto com a voz tão exasperada quanto bondosa. Itachi prestou atenção nele e só nele. -Isso vai acabar, alguma hora vai acabar, não bate nela, porque isso não vai adiantar, certo? Por favor, sente ali e deixa que eu cuido dela, ‘tá?

De algum modo que ele não entendeu bem, aquelas palavras tanto lhe deixaram imune a dor como vulnerável e esse paradoxo o deixou ainda mais confuso. Será mesmo que isso teria um fim? E seria um fim bom? Itachi estava apavorado com aquilo, era um terreno que ele nunca pisou antes e Sasuke, seu irmãozinho, parecia sepultado e agora ele tinha um adolescente rebelde e viciado. Como é que ele poderia agir?

Ele decidiu se aproximar do irmão e tentar ter alguma conversa a sós com ele, talvez entender o que acontecia com Sasuke, através das palavras do seu irmãozinho, pudesse ajudar de algum jeito. Itachi ia dar um passo em direção a Sasuke, que permanecia próximo a ele, mas Shisui veio ao seu encontro, impedindo-o de seguir até o irmão.

–Não ande por aí! Está tudo cheio de cacos de vidro. -mandou o tio, colocando as mãos em seus braços. -Vá para o quarto, eu cuido das coisas por...

–Vamos, mamãe, sente aqui. -disse Naruto com a voz baixa e trêmula. -Karin. -os movimentos de roupa sendo tirada chamaram sua atenção. -Veste isso por...

–Eu não quero ves...! -interrompeu a garota em um tom escandaloso.

–Veste isso! -mandou Naruto com a voz dura.

–“Mamãe”, Dobe? -inquiriu Sasuke com um tom sarcástico. -Você tem o quê? Cinco anos?

–Itachi? -perguntou Shisui bondosamente. -Você está me ouvindo?

Os gritos, o cheiro de bebida e sexo, estavam fazendo com que a dor no seu coração aumentasse ainda mais. Ele estava triste. Muito mais do que triste: ele estava decepcionado por tudo ter chegado àquele ponto. Onde foi que ele falhou? Onde? Ele deu amor a Sasuke, sempre cuidou dele, então... Onde? Onde foi a sua falha? Itachi não conseguia se mexer, sequer conseguia falar tamanha a dor que estava sentindo naquele momento.

–Agora não, Teme. -havia o som de passos fracos em direção ao sofá e o de alguém se vestindo e fazendo muxoxo.

–CALEM A BOCA! — o vizinho do andar de cima disse, começando a usar o cabo da vassoura para se impor.

–Agora, sim! -rugiu Sasuke dando passos largos e firmes, derrubando alguma coisa no chão, fazendo ainda mais sujeira. -O que merda você ‘tá fazendo na minha casa?

–Sasuke! -bradou Shisui, deixando-o e indo em direção ao caçula.

–MAS QUE MERDA! -bradou o vizinho.

Não queria bancar o fraco, não queria chorar, não queria ficar tão vulnerável, mas as lágrimas se formavam nos seus olhos. Ele não conseguia enxergar nada e ao mesmo tempo conseguia enxergar tudo. Não era preciso ver para crer que Sasuke estava rumando em direção a Naruto para comprar briga. Não era preciso ver para saber que Shisui estava a um passo de perder as estribeiras e, se isso acontecesse, Sasuke iria levar uma cintada, o que faria com que o vizinho de cima os denunciasse ao conselho tutelar. Ele realmente não precisava enxergar para ver que a mulher de Minato estava devastada, ele estava devastado.

Até onde uma pessoa poderia cair num fosso?

Qualquer que fosse a resposta, Itachi saberia isso na prática.

–Vou tentar ajudar o seu irmão, afinal ele parece meio quebrado. -respondeu Naruto após um tempo com um leve traço de raiva. E somente o som de sua voz ecoou, todos os demais pareciam não ter importância. -Assim como você, se não reparou.

Sasuke grunhiu enraivecido e um som alto de uma pancada forte de algo duro contra a parede soou, fazendo com que Itachi ficasse em alerta, conseguindo ter um novo nível de preocupação. Seu irmão feriu outra pessoa? Ele não se importava em ser ferido pelo irmão, mas outra pessoa? Naruto? Shisui? Quem? A voz enrouquecida de Naruto vibrou pelo apartamento repleta de dor.

–Seu idiota! -bradou Sasuke com raiva evidente. Naruto parecia estar sufocando. -Eu ainda vou dar um jeito em você!

–JÁ CHEGA MOLEQUE! -gritou Shisui com tanta raiva na voz que Itachi finalmente cedeu e permitiu-se cair de joelhos no chão.

Não queria mais escutar, não queria estar mais ali, mas não tinha como se mover; estava quebrado demais até para isso. Os sons de alguém sendo empurrado, xingamentos e a inspiração alta de Naruto quando pôde finalmente respirar. Tudo era tão revoltante, tudo lhe deixava tão doente, tão mal, sua cabeça doía tanto que Itachi sequer percebeu que levantou do chão ou que sua respiração estava descompassada.

–CHEGA! -ele gritou exasperado. -CHEGA!

Todos os sons cessaram, restando apenas respirações ofegantes e o leve choramingar da mãe de Naruto.

–Eu é quem vou dar um jeito em você, Teme. -murmurou Naruto com a voz baixa, porém convicta. -Eu definitivamente vou te ajudar a sair dessa!

Itachi inevitavelmente teve medo do que as palavras de Naruto poderiam causar no seu irmão. Se é que é possível, a atmosfera dentre eles ficou ainda mais tensa, mal se ouvia um respirar; Sasuke reagiu violentamente.

–AH É? E POR QUÊ? -gritou Sasuke com raiva e soando tão machucado que Itachi não sabia nem por onde começar a curar as feridas do irmão. -EU FODO A SUA IRMÃ! EU BATO NELA! EU TE MACHUCO! -acusava Sasuke com raiva e desespero, alguém, Shisui provavelmente, se mexeu. -EU QUERO QUE VOCÊ MORRA! DO JEITO MAIS DOLOROSO QUE TIVER! EU QUERO QUE VOCÊ SUMA DA MINHA VIDA! POR QUE RAIOS VOCÊ NÃO ME DEIXA EM PAZ?

Um silêncio incômodo ficou na sala, somente quebrado pela respiração falha de Sasuke. Mas Itachi suspeitava que ninguém mais respirava, ele próprio tinha parado de respirar após essa declaração. Ele se sentia mal por Naruto e nem sequer tinha palavras para pedir perdão por Sasuke.

–Porque nós somos amigos. -respondeu Naruto com uma franqueza tão gentil que só fez doer mais.

Sasuke fungou de um jeito miserável e um ruído seco de joelhos tocando no piso foi ouvido, assim como o choro baixo do seu irmão; Itachi voltou a respirar. Não importava o quanto ele pensasse, Itachi não conseguia entender como as coisas ficaram daquele jeito;.

Ele jamais pensaria que seu dia terminaria daquela forma.

.....................................

Como todas as manhãs de inverno, o dia amanheceu chuvoso, mas naquela manhã a tempestade estava particularmente ruidosa. Konoha não nevava há muito tempo, mas os invernos eram horríveis. Chovia demais e com a chuva, havia lama e o cheiro característico de poeira molhada, buzinas de manhã logo cedo e som de pessoas correndo debaixo dos seus guarda-chuvas, cortesia de morar no térreo em uma curva.

Era tanto barulho que ele mal conseguia ouvir o som da chuva, algo que ele sempre achou reconfortante, em especial, quando ele estava na sua cama, debaixo de um edredom, abraçando um travesseiro. Ele era humano, também tinha direito de sentir preguiça uma vez ou outra e chuva sempre tinha esse efeito nele.

Itachi ainda se sentia anestesiado do sono, mas se perguntava se seu irmão estaria abrigado. Foi difícil para ele dormir depois da conversa que teve com Naruto. Até o dia anterior, ele não sabia nada sobre o Sasuke atual. Como ele poderia pensar que seu irmão se cortava? Que se masturbava pensando nele? Quantas noites Sasuke esperou até que ele dormisse para poder observá-lo?

Por mais que Itachi não quisesse se sentir assim, a verdade era que se sentia molestado. Ele sabia que não devia julgar o irmão, mas era difícil aceitar o fato que o bebê que ele dava mamadeira e depois colocava para arrotar estava desejando seu corpo nu. Pior, olhando-o de um jeito lascivo enquanto ele dormia ou quando tomava banho. Isso era verdadeiramente assustador!

Muitas coisas não faziam sentido algum. Sasuke se cortava, ok, algo o fez parar. Seria o vício por drogas? O pouco que Itachi sabia sobre o que Sasuke tomava era que as balas liberavam substâncias do bem estar como dopamina e serotonina, deixando o usuário relaxado e cheio de energia. Itachi não conhecia nada sobre pessoas que se cortavam e agora que estava cego, sequer poderia fazer uma pesquisa no Wikipédia.

As dobradiças da porta do seu quarto lhe indicaram que alguém estava checando se ele estava dormindo, ele meramente fechou os olhos — de todo modo ele não enxergava mesmo. Seja quem fosse, muito provavelmente Shisui, não fechou muito bem a porta do seu quarto, pois um vento gelado batia direto nos seus pés, fazendo-o se embrulhar ainda mais.

–Ele ainda está dormindo. -disse Shisui com a voz baixa, na sala. -Parece uma criança que cresceu demais, abraçando o travesseiro como se fosse um ursinho.

“Idiota” pensou Itachi levemente revoltado com o comentário e se virando na cama, largando o travesseiro. Um riso baixinho feminino foi ouvido, assim como o titilar das xícaras, o cheiro gostoso de café recém-feito atingiu suas narinas com intensidade. Seu estômago reagiu animadamente ao cheiro, mas ele estava mole demais para se levantar da cama. Sair da cama ou não sair da cama? Eis a questão.

O pobre Shakespeare se reviraria no túmulo se o ouvisse proferir isso.

–Eu odeio ver ele desse jeito. -murmurou Shisui com a voz um pouco mais alta e em um tom visivelmente desesperado. -Itachi sempre foi tão independente...! E agora... — e agora ele era um ceguinho igual o senhor Magoo.

Ótimo, graças a Kisame ele próprio estava se chamando de senhor Magoo. Esperava que o amigo não lhe chamasse assim de novo, assim ele poderia seguir adiante sem o apelidinho infame.

–Itachi vai ficar bem. -ponderou Shizune e um estalido de beijo foi ouvido. -Ele é bem durão.

–Mais do que um diamante bruto! -brincou Shisui, mas seu tom de voz ainda estava triste. Itachi não sabia dizer se aquilo era um elogio ou se era um xingamento, provavelmente a segunda opção. -O problema é que mesmo diamantes podem ser lapidados a bel prazer do lapidador. E o Itachi está com mais peso do que pode aguentar! Odeio ver ele assim e não poder fazer nada!

Invariavelmente, Itachi franziu os lábios: não queria que Shisui sentisse pena dele, nem nada disso. Estava cego, tudo bem, era horrível, mas ainda havia a possibilidade de um transplante. Sasuke estava com problemas, isso era verdadeiramente preocupante, já que seu irmãozinho não estava apenas metido com drogas, mas também tinha colocado na cabeça que o amava de um jeito carnal e a frustração lhe fazia se cortar, se drogar e sabe-se lá mais o quê. Isso era complicado, mas, se Sasuke realmente o amasse, então daria alguma brecha para que ele pudesse ajudá-lo; Itachi tinha certeza disso. Em algum lugar daquele Sasuke tomado pela dor, estava seu irmãozinho e, não importava as consequências: Itachi faria o impossível pelo bem estar do caçula.

Isso não era algo de dar pena.

–Você sente pena dele? -inquiriu Shizune.

Shisui deu uma risadinha baixa e sem vida, que logo cessou e um silêncio esquisito se interpôs no casal; Itachi esperava pacientemente a resposta. Se Shisui dissesse que sim, ele ia revelar sua presença e ia explicar seus motivos e motivações para o tio.

–Ele odiaria se eu dissesse que sim. -comentou Shisui em tom brando. “Ainda bem que sabe”, pensou Itachi. -Mas eu sinto um pouco sim, mas o que mais sinto é raiva porque ele é idiota o suficiente pra sofrer sozinho e não querer preocupar a gente.

Um sentimento de culpa o incomodou um pouco, só um pouquinho. Em hipótese alguma Itachi queria magoar o tio, apenas era um problema dele, que competia a ele. Shisui tinha sua própria família agora, uma esposa para cuidar e logo teria seus rebentos; assim o que ele ou Sasuke faziam já não era mais preocupação do tio. E, acima de tudo, Itachi não queria causar problemas. Shisui estava com a esposa que amava, iria para lua de mel em outro estado, visitar a praia, mas agora estava ali cuidando de um cego! Isso não era justo!

–Você não acha que está sendo injusto com ele? -perguntou Shizune com bondade e a tia estava ganhando pontos com ele naquela conversa. -Itachi provavelmente não quer que você sofra por ele, por isso mesmo que está bancando o durão. E você sempre me disse que ele era um irmão mais velho superprotetor.

O vento gelado estava deixando a palma dos seus pés parcialmente dormentes e Itachi movimentou os dedos do pé várias vezes, enquanto o som de passos chamou sua atenção. Ele esperava que a conversa não acabasse naquele ponto. E, somente naquele momento, ele se sentiu um verdadeiro enxerido ouvindo a conversa alheia, mas, sinceramente? Se falavam dele, a conversa era da sua conta.

–Eu queria que ele não fosse assim. -Shisui falou tão baixo, mas tão baixo que Itachi precisou forçar os ouvidos para escutar. -Será que ele não entende que é minha família e que eu nunca vou deixar ele?

Sem que ele quisesse, sem que pudesse controlar, o rubor aqueceu suas bochechas, uma sensação enorme de remorso o invadiu ao mesmo tempo em que o sentimento de fazer uma traquinagem e ser pego pela mãe. Shisui Uchiha, o homem capaz de fazê-lo se sentir com a idade mental de uma criança com cinco anos, atacava novamente! Só que, felizmente, dessa vez ele estava sozinho no seu quarto e ninguém, além dele mesmo, presenciava seu fracasso emocional.

–Deixa ele! -comentou Shizune em um tom gentil e o som da torneira sendo aberta e louças sendo lavadas quase lhe impediu de ouvir os murmúrios da tia. -Uma hora ele vai compreender isso.

–Não vejo a hora disso acontecer. -respondeu Shisui com uma franqueza tão grande que Itachi invariavelmente se sentiu regredindo.

Não, corrija-se: idade mental de três anos. Ele se virou na cama e abraçou o travesseiro novamente. A torneira foi fechada e o som de passos voltou, alguém arrastou uma cadeira muito suavemente e o silêncio foi cortado de novo.

–Você precisa mesmo ir tão cedo? -perguntou Shizune com aflição.

–Você sabe que sim. -respondeu Shisui parecendo extremamente cansado.

–Você vai aceitar aquela proposta?

Que proposta?

–Eu não tenho outra escolha! -exclamou Shisui em um tom visivelmente exasperado que preocupou Itachi. Será que Shisui estava em problemas? -Eu não faço a menor ideia do que meu irmão quer, mas eu tenho que aceitar isso.

O tio suspirou pesadamente pisando mais forte. Itachi se sentou na cama, tateando pelo colchão até se aproximar um pouquinho mais do vão aberto na porta. Ele jamais pensou que fosse pensar algo como isso, especialmente levando em conta todas as vezes que bateu o dedinho do pé na quina, mas...: Essa era a vantagem de dormir na cama próxima da porta!

–Você não tem nem noção do que Madara quer? -inquiriu Shizune parecendo tão aflita quanto o marido.

–Não. -respondeu Shisui em um tom mais calmo.

O cérebro de Itachi tentava processar aquelas informações. Madara estava muito ativo esses últimos dias, o que era no mínimo assombroso. Em vinte e dois anos, Itachi só viu este tio uma penca de vezes: no funeral de sua mãe, apresentando queixa contra seu pai na delegacia e em uma audiência de conciliação infrutífera. Tudo isso quando ele ainda tinha dezessete anos e, desde então, sequer tinha ouvido falar no tio. Nunca houve cartões de natal, aniversário ou qualquer coisa assim. Não havia presentes, nem ovos de páscoa e nem nada nos últimos anos.

A única coisa que Madara lhes dava eram recursos. Um tal de agravo (1) ali, uma impedição (2) aqui, alguma arguição de nulidade absoluta (3) ali, além da própria morosidade da justiça, tanto na esfera civil quanto na criminal (4). Itachi tinha vinte e dois anos, e uma mão na frente e outra atrás. A coisa era tão revoltante que graças a uma decisão conseguida por um recurso de Madara, nem ele, nem Shisui e nem Sasuke tinham acesso aos autos criminais. Mesmo o Ministério Público se manifestava favorável à decisão do magistrado, evitando informá-los mais do que o essencial: o processo estava na fase de colheita de provas. Só.

E isso causou uma pausa no processo de herança. O que significava: ele tinha dinheiro e bens, os quais infelizmente o tempo se encarregava em deteriorar.

Entretanto, Madara pagou sua dívida no hospital avaliada em quase cinquenta mil reais, comprou a firma onde ele trabalhava e agora fizera alguma proposta ao seu tio. Isso era extremamente preocupante. O que se passava na cabeça do seu tio? Itachi não esqueceu que esse homem era acusado de ter matado sua mãe. Seu pai tinha a certeza disso. Na melhor das hipóteses, Madara acidentalmente matou sua mãe, mas nada, absolutamente nada diminuía o fato de que ela estava morta por culpa dele.

Mesmo que ele não quisesse fazer qualquer juízo mal avaliado, a possibilidade de Madara estar usando-os para alguma coisa era enorme, mas o que, exatamente, seu tio queria, ele não tinha ideia. Tudo era assombrosamente peculiar. Podia ser uma manobra extrajudicial, para causar lucro no feito judicial. Também era possível que seu tio estivesse cometendo algum outro crime, como extorsão. Ou alguma outra coisa mais intangível como arrependimento, talvez.

Mas o fato era que invariavelmente Madara viria até ele e só então ele poderia ter alguma noção do que é que estava acontecendo.

–Eu não posso ignorar o fato de que o Itachi já está até o pescoço. -respondeu Shisui após um tempo. -O que eu puder fazer para ajudá-lo eu farei. Eu vou aceitar trabalhar como braço direito do Madara, assim posso saber o que ele quer conosco depois de tanto tempo.

–Se é essa a sua decisão, eu estarei ao seu lado, sempre. -disse Shizune. –Mas, por favor, tome cuidado com esse seu irmão! Não se paga uma dívida de quase cinquenta mil nessas circunstâncias.

–Eu sei.

Shisui faria isso por ele? Estava se colocando na zona de artilharia por sua culpa? Itachi se sentiu terrivelmente mal por isso porque a última coisa que queria era colocar mais problemas nos ombros do tio. Ele já estava se levantando para ir reclamar do tio quando sua tia prosseguiu. Sem se importar em calçar o chinelo, o qual ele não fazia ideia de onde estivesse, Itachi empurrou o edredom para o lado, tateando a parede e se erguendo da cama ao mesmo tempo em que abria a porta do quarto. Não importava que Shizune lhe visse com os cabelos bagunçados e o pijama, o que verdadeiramente interessava era impedir a burrada de Shisui.

–Você não precisa fazer isso!

–Olha, amor, a Branca de neve acordou sem o beijo do príncipe! -caçoou Shisui em um tom jocoso que em nada lembrava o tom preocupado de antes.

Típico. Shisui reclamava que ele escondia os problemas para evitar preocupar os outros, mas o próprio Shisui fazia a mesma coisa. Era um caso de hipocrisia imensa, típico dos pais que passam a infância e adolescência dos filhos dizendo: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Grande educação! E isso irritou ainda mais Itachi, enquanto ele pegava todos seus fios longos, enrolava e tentava fazer um coque, infelizmente seu cabelo era liso demais para sustentá-lo.

–Sua piada foi tão engraçada que estou tendo espasmos de riso. -retrucou Itachi em tom mortalmente sério.

Alguma coisa que ele disse, ou talvez fosse sua aparência, fez com o casal gargalhasse ao ponto de alguém ter arrastado uma cadeira e se jogado nela para tentar contornar o riso. Itachi não via graça em coisíssima nenhuma.

–É, é realmente engraçado. -ele comentou sem a menor paciência, cruzando os braços e tentando não franzir os lábios. Se fizesse esse combo, Shisui nunca lhe levaria a sério. -Mas Shisui você não precisa aceitar essa proposta do Madara.

Um suspiro longo foi ouvido e o som de passos preencheu o ambiente, não eram os longos de Shisui, mas os pequenos e apressados de Shizune. A porta da frente foi aberta com um suave clik e o vento gelado entrou com força total no apartamento, fazendo com que Itachi estremecesse, mas não arredasse o pé dali.

–Você tem como pagar os cinquenta mil? — inquiriu Shisui com a voz baixa e em um tom cansado.

Pergunta difícil. Itachi estimava que talvez pudesse fazer algum empréstimo no banco e tentar algum parcelamento. Talvez entrar com alguma via judicial a fim de conseguir que o Estado bancasse seu tratamento de saúde, visto que não tinha a menor condição financeira (5). Sequer poderiam vender o apartamento, porque fazia parte do patrimônio do seu pai, pois tinham se mudado para ali logo após a morte da sua mãe. Itachi não compreendia muito bem os termos judiciais da coisa, mas o juiz havia deferido o uso daquele imóvel para que ele e Sasuke vivessem até a decisão definitiva, visto que eles não tinham outro lugar para ir à época e, de lá para cá, a coisa não tinha evoluído muito.

Por mais que ele tentasse pensar em alguma coisa, tudo o que ele enxergava eram problemas por todos os lados. Invariavelmente seu rosto ficou um pouco quente, indicando que ele estava vermelho; uma dor de cabeça leve começava a surgir.

–Ótimo, fim de conversa. -disse Shisui, cortando o silêncio.

–Você não está sendo razoável. -ele comentou apenas pelo prazer de retrucar.

Além do que, verdade fosse dita, aquela proposta, mesmo que ele não soubesse exatamente os termos, indicava problema. Seu tio Madara era problema. Shisui não podia negar que estava caindo na boca do lobo, não literalmente, mas bem próximo disso. Já estava completamente sobrecarregado de problemas, ele não aguentava mais!

–Nem você. -retrucou o tio em tom sério. -Você tem consciência que demorará meses até encontrarem alguém compatível com você e assim serão meses onde você vai estar cego?

Sim, Itachi estava devidamente consciente disso e a cegueira não era o maior dos problemas ali, ele conseguia lidar relativamente bem, estava quase acostumado com a ideia de um mundo cor de leite estragado. Havia chance de voltar a enxergar, isso lhe dava esperança. Ele sabia que precisaria de uma cirurgia, mas os detalhes dela ele perguntaria na próxima consulta com o doutor Uzumaki. Ao menos ele tinha a chance desse médico atender gratuitamente pessoas de baixa renda em seu próprio consultório, assim ele poderia ser atendido por ele.

E que ficasse bem claro para consigo mesmo que a única felicidade nisso era a gratuidade do atendimento, não o fato de ser Minato Uzumaki quem cuidaria dele. Não a pessoa por quem ele estava apaixonado, porque isso precisava ser deixado de lado em definitivo. Mas, se ele fosse bem sincero consigo mesmo, ele ficava um pouquinho mais feliz só de saber que seria Minato quem cuidaria dele.

–Sabe, eu sinto lhe dizer, mas seus colírios não são tão baratinhos. -apontou Shisui em um tom irônico. -Mesmo na farmácia popular eles são bem indigestos ao meu salário e ao seu também!

–Eu sei disso. -ele disse cortando a fala indignada do tio. -Mas nós podemos tentar pegar eles com o Estado, não?

–Ai filhote, o que eu faço com você? -perguntou Shisui exasperadamente. E dessa vez não tinha para onde correr: Shisui deve ter visto seu constrangimento, porque agora ele se sentia como uma criança de três anos de novo. -Pra começo de conversa, você não estaria cego se não fosse a omissão dessa merda de Estado no seu atendimento! Você não teria tido essa infecção nos seus olhos se eles tivessem cuidado de você!

Itachi abaixou a cabeça concordando de leve com o tio. Era verdade, não podia fugir disso. A demora da justiça lhe causava ainda mais problemas, há seis anos seus pais morreram e o provável autor dessas mortes ainda estava livre. Não passou um dia sequer na cadeia. Mais do que isso: essa pessoa ainda dificultava a herança que ele tinha para receber. Essa maldita pessoa agora surgia nas suas vidas como um furacão.

Durante muitos minutos, ele não sabia precisar, tudo o que ouviram era o tic e tac do relógio de pulso de Shisui, bem como sua respiração instável. O tio suspirou pesadamente, colocando o peso de seu corpo no sofá, pelo ruído que o móvel fez ao ser arrastado para o meio da sala.

–E você sabe que não é só isso, né? -comentou Shisui em um tom mais morno e calmo. -Vai ter os remédios da cirurgia, a própria cirurgia e teremos ainda mais gastos. Em meio a isso, nós também temos que pensar em alguma clínica de reabilitação para o Sasuke, se necessário for. Entende?

Ele meramente balançou afirmativamente com a cabeça, se sentindo mais fraco e tolo do que jamais se sentiu na sua vida. A sensação de tudo, absolutamente tudo estar fora de lugar o assolou com tanta intensidade que tornava tudo ainda pior.

–Nenhum de nós dois temos um super emprego. -continuou Shisui, voltando a parecer incerto e talvez por isso começando a caminhar de um lado para o outro na sala. -Além disso, precisamos de uma babá pra você. -alguns passos para a direita, o tic e tac estava soando bem forte. -Shizune e eu precisamos trabalhar e você não pode ficar sozinho aqui! -deu meia volta, e mais alguns passos para a esquerda, o som do relógio ficando menor. -Sei que você está preocupado com o Sasuke e eu entendo, alguém tem que ficar aqui... -outra volta, passos para a direita e o tic e tac mais forte. -E essa pessoa tem que ser você, mas tem alguma coisa faltando no seu plano genial, meu caro prodígio.

Era como enlouquecer. O som dos passos. O som das buzinas lá fora. O som dos ponteiros do relógio; o tempo, tudo estava passando e era hora de tomar as decisões, mas nunca antes na sua vida Itachi se sentiu tão incapaz quanto naquela manhã. Ele desconhecia como ajudar o irmão, como pagar as dívidas, o que seu tio Madara queria, como poderia se adaptar mais rápido a cegueira, ou mesmo como manter o seu emprego, mas as decisões precisavam ser feitas. Sem que ele pudesse compreender, sua mente lhe pregou uma peça, lhe fazendo se lembrar da voz espalhafatosa e vibrante de Naruto:

A gente precisa só encontrar um meio de fazer alguma coisa boa acontecer no meio disso. Acho que se a gente se ajudar, a gente consegue fazer algo por eles.”

Não sabia até que ponto Naruto poderia ser útil em ajudar Sasuke ou lhe ajudar, mas, se Sasuke tinha feito um vínculo tão importante com esse garoto, valia a pena investir naquela proposta. Naruto poderia ajudá-lo nisso, talvez aceitasse ser os seus olhos. Itachi não tinha muito a perder, considerando que já tinha perdido tudo mesmo.

–Veja a disposição de horário com Naruto e o contrate como minha babá então. -ele disse pausadamente, voltando a erguer o rosto.

Seu tio ficou em silêncio, mas pelo menos parou de caminhar e só esse gesto fez com que o nervosismo e o pouco de desespero que estava brotando nele parasse um pouquinho.

–Você está mesmo aceitando uma babá? -perguntou Shisui incrédulo.

E Itachi o conhecia tão bem, mas tão bem que sabia que o tio devia ter erguido as sobrancelhas, arregalado os olhos, tinha aberto a boca, repuxando-a para o lado direito, até aparecer uma covinha na bochecha direita, formando uma careta engraçada. Isso lhe fez rir um pouquinho, aquela expressão de Shisui Uchiha era impagável e estava bem viva em sua memória. O tio fez um muxoxo ofendido e isso só confirmou que ele estava certo e isso lhe fez sorrir ainda mais.

–Tenho outra escolha? -perguntou ele, voltando a ficar bem humorado. A porta da frente do apartamento foi aberta outra vez e o cheiro de pães recém comprados encheu o ambiente com um cheiro tentador, fazendo seu estômago rugir novamente.

–Querida, acho que vou levar o maior guarda-chuva. -comentou Shisui em um tom animado. -Essa tempestade vai durar o dia inteiro depois dessa.

Como resposta, Itachi meramente franziu os lábios, sentindo uma vontade grande de mostrar o dedo do meio ao tio, mas tendo uma lembrança muito vívida da palmatória especialmente preparada por Fugaku Uchiha para meninos levados. Gestos como aquele ensejavam algumas boas palmadas, mostrando que desde o seu tempo esse método era extremamente falho.

Palmadas eram violência e violência gera violência.

Só que, inconscientemente, ele tinha formado “o combo” de braços cruzados e lábios franzidos, o que gerou uma risada baixa e mal disfarçada de Shisui. Itachi desfez a posição e murmurou:

–Palhaço.

–É bom ver que vocês não se mataram ainda. -comentou Shizune bem humorada. -Mas, amor, não o provoque.

–Você sabe que Madara pode estar aprontando alguma coisa para nós, não é? -comentou Itachi em tom de voz incisivo. -Além disso, Shisui, você tem sua própria família agora, tem que se preocupar com a sua esposa e com os filhos que vão vir.

–Besta. -resmungou Shisui em um tom de voz amável, seus passos largos vindo em sua direção e Itachi cobriu o rosto, fazendo o tio rir.

Até parece que ele ia ser pego desprevenido! Suas bochechas estavam cicatrizando, mas ainda eram um alvo do seu tio. Ou podia ser o maldito peteleco. Tudo era válido para Shisui Uchiha.

–Ponha nessa sua cabeçinha de fuinha que você é a minha família. -comentou Shisui bondosamente, parando em frente a ele. Lentamente, ele abaixou as mãos do rosto. -Você sempre vai ser como meu irmão mais novo e eu vou sempre estar lá pra você.

Shisui não atacou suas bochechas, muito menos lhe deu um peteleco doloroso na testa, em vez disso preferiu alisar o topo de sua cabeça, enfiando seus dedos grandes e grossos pelos fios em um movimento suave, que quase lhe deixou com sono. Há muitos anos atrás, sua mãe costumava fazer a mesma carícia nele, até que ele pegasse no sono e dormisse. Itachi abaixou as mãos do rosto completamente, sentindo o cheiro da loção pós barba do tio entrar em suas narinas e se mesclar com o cheiro do pão recém comprado pela tia.

–Agora tire essa ideia besta da cabeça e volte logo para o seu quarto. -disse Shisui plantando um beijo no topo da sua testa. Itachi bufou. -No almoço eu te conto como é que foi a negociação com o filho do doutor.

.....................................

A manhã foi longa e extremamente irritante. Quando Itachi foi internado, Shisui tratou de toda a papelada no seu trabalho, comprovando seu estado clínico com atestados. Só que a empresa onde ele trabalhava estava em tal caos por causa da falência que Shisui teve que cuidar sozinho de providenciar o seu auxílio-doença no INSS — Instituto Nacional do Seguro Social (6), onde marcaram para ele fazer uma perícia (7).

Sempre remarcavam o horário porque o médico da instituição sempre estava cheio demais, até que conseguiram marcar para essa manhã. Pelo menos, disseram que era de manhã: Itachi ficou a manhã inteira lá e parte da tarde, sentado em um banco de madeira desconfortável até seu traseiro ficar dormente, ouvindo um burburinho insuportável, sendo que alguns sobre ele (“que homem bonito! Será que é modelo?” “Ele é cego?”), e nunca, nunca chegar a sua vez. Pelo menos era inverno e não estava quente, ao menos isso.

Por outro lado, a quantidade de gente tossindo em razão de pneumonias era enorme, assim como a quantidade de pessoas com problemas respiratórios e asmáticos. Aquela espera toda foi uma agonia sem fim, um trançar de pessoas que não parava, celulares tocando, vozes falando sem parar e toda uma gama de sons exteriores, como carros, ônibus, buzinas, motos, passos.... Tudo quase lhe deixou louco. E isso porque ele não falou do cheiro de mofo que tinha no ambiente, ele praticamente sentia o cheiro da parede umedecida e com limo misturando com o cheiro do desinfetante que a faxineira usava no piso do chão.

E quando o comecinho da tarde chegou, a fome veio junto assim como o barulho dos trovões, deixando-o irritado com a demora e com uma dor de cabeça infernal. Seu nome foi chamado por volta das duas e meia da tarde e, no fim, o médico apenas lhe fez algumas perguntas imbecis, jogou luz nos seus olhos, lhe fazendo chorar no consultório e deferir a prorrogação do benefício.

“Desculpe por isso, a quantidade de falsificadores que fingem uma doença para fraudar a previdência é grande demais para eu ignorar.” O médico tinha dito depois de fazer a burrada e jogou um colírio em seu olho, que minimizou o latejar incessante, mas não deu jeito na dor de cabeça.

Naquele dia, ele apenas tinha ingerido uma singela vitamina de abacate com banana e nada mais, sendo que chegaram em sua casa por volta das três e pouco. Itachi considerava que, dessa vez, seria um bom menino, aceitaria o remédio sem pestanejar e iria para a cama dormir até que seu tio lhe informasse como é que tinha sido a reunião com Madara e com Naruto.

Ele tomou banho sozinho e se vestiu sozinho, enquanto sentia o cheiro da comida sendo esquentada. Parecia carne assada com batata, uma iguaria que Itachi adorava, mas que seu irmão detestava. Sem que ele pudesse se conter, Itachi acabou se lembrando do seu irmão há alguns anos atrás.

–Carne assada? –perguntou Sasuke sequer conseguindo esconder o desânimo no rosto. –De novo?

Francamente, quem olhasse pensava que não tinha mais nada para comer, entretanto, Sasuke sempre gostava de dramatizar, não que ele compreendesse porque seu irmãozinho não gostava desse prato. Era carne, bem macia praticamente se desfazendo ao menor toque do garfo, ao molho madeira bem encorpado com cogumelos e batata cozida. Quem no mundo poderia resistir a isso?

Aparentemente, Sasuke Uchiha é claro!

–Agradeça que temos isso para comer.

–Eu sei, eu sei. Não ‘tou reclamando disso, mas precisamos comer carne assada a semana inteira? Segunda é carne assada com batata, terça é carne assada com purê, quarta é carne assada com arroz, quinta é carne assada com farofa, oi? Farofa! E sexta é carne assada com macarrão! –exclamou o mais novo enfaticamente. –Assim não dá!

Itachi suspirou. Ele sabia que talvez estivesse forçando um pouco o seu prato favorito no irmão e no pai, mas, bem, não é como se ele estivesse com tanto tempo disponível assim. Ele tinha que estudar para o vestibular, tinha escola e agora também estava trabalhando, eventualmente ainda tendo que assumir a responsabilidade da casa, já que o pai deles definhava a olhos nus. Carne assada era uma das poucas coisas que ele verdadeiramente sabia cozinhar bem e que podia se variar os acompanhamentos, além dele achar uma delícia, mas se seu irmãozinho já não aguentava mais isso, ele precisava pensar em outra coisa.

Sasuke o encarava com os lábios franzidos e uma das sobrancelhas erguidas, os braços cruzados no peito formando o “combo”. “Combo” era como o imbecil do seu tio Shisui atribuía as manhas que ele e Sasuke faziam quando ficavam enfezados. Shisui dizia que Sasuke o imitava em tudo, inclusive na arte da manha, não que Itachi achasse que fizesse manha com alguém. Ainda assim, ele percebeu que era bem isso: quando Sasuke franzia os lábios e cruzava os braços era tiro e queda: manha.

Controlando-se para não rir, Itachi desligou o fogão, parando de mexer a colher de pau e fez um gesto para que Sasuke se aproximasse. O mais novo estreitou os olhos meio desconfiado e se aproximou dele. Itachi aproveitou a proximidade e deu um peteleco delicado na testa de Sasuke, que aumentou ainda mais o bico com raiva e dessa vez ele não pôde evitar rir.

–Desculpe, Sasuke. –ele disse ignorando completamente o olhar irritado do irmão. –É que não estou com muito tempo para cozinhar outra coisa.

–Ora! Se esse é o problema, deixa que eu cozinho! –exclamou Sasuke descruzando os braços e o olhando como se ele fosse um ET.

–Você? –perguntou Itachi, mirando o mais novo de um jeito desconfiado. -Na cozinha?

–E o que é que tem? –retrucou Sasuke parecendo aborrecido e birrento, fazendo-o ter ainda mais vontade de rir. –Eu sou um garoto crescido oras! Posso pegar uma revistinha de receitas e tentar cozinhar!

O histórico culinário de Sasuke era terrível: mal sabia fazer o café e agora Itachi precisava ouvir isso? Ele sabia que ia ferir o orgulho do irmão mais novo, só que infelizmente não conseguiu evitar a gargalhada por ter ouvido aquilo. Sasuke, o garoto que ao tentar fazer ovo cozido queimou o pano de prato, iria para a cozinha e fazer o almoço e a janta? Impossível!

O rosto do mais novo foi ficando rosa até o ponto do vermelho incorrigível se estender pelas orelhas e pescoço, mesmo que tentasse se passar por indiferente; e só de ver isso sua crise de riso ficou ainda mais incontrolável, ao ponto dele precisar se segurar na bancada de mármore ao lado do fogão para não cair de rir.

–Não sei por que a graça. –resmungou Sasuke em um tom ferido ainda tentando bancar o indiferente, mesmo que estivesse completamente vermelho. –Eu sei cozinhar ovo.

–E flambar o pano de prato! –retrucou Itachi incapaz de conter o riso. Ele ainda se lembrava da expressão desesperada de Sasuke, no alto dos seus nove anos, quando queimou o pano de prato e tinha que esconder isso da mãe.

Shisui, o mais perigoso dentre os três, tirou uma foto do incidente, e riu tanto, mas tanto que Sasuke abriu o berreiro. Bem, foi até uma sábia escolha chorar, porque a mãe deles não brigou tanto com o mais novo, apesar de Shisui ter levado uma cintada de Fugaku. Entretanto, aquela foto era impagável! Tesouro de família e tudo!

–Você vai ver! Deixa só! Você vai ver! –disse Sasuke com raiva, apontando o dedo para ele com tanta determinação que a vontade de rir parecia que nunca ia acabar. –Amanhã quando você chegar em casa vai ter um banquete!

Ante a essas palavras, Itachi fez a única coisa que um irmão mais velho poderia fazer: rir ainda mais.

–Besta. –murmurou Sasuke em um tom magoado e irritado.

E finalmente a vontade de rir passou um pouco, embora a sua barriga ainda estivesse doendo de tanto rir. Fazia tempo que ele não ria tanto assim, na verdade, era a primeira vez que gargalhava após o enterro da mãe, dois meses atrás. Sasuke tinha virado o rosto para o lado, embora ainda estivesse bem corado de vergonha. Itachi afagou os cabelos negros e macios do mais novo, tentando inutilmente abaixar o volume. Sasuke tinha um redemoinho na parte de trás da cabeça que fazia seu cabelo crescer naturalmente espetado, ainda assim, os fios eram macios ao seu toque.

–Estarei ansioso para ver. –ele respondeu dando um sorriso breve.

Sasuke apenas se virou para ele e sorriu verdadeiramente, como não fazia há dois meses. Naquele momento, Itachi teve certeza absoluta que eles conseguiriam lidar com a perda da mãe.

Nunca se enganou tanto.

A tia tinha deixado o almoço pronto e era mesmo carne assada. Itachi precisou afastar as lembranças daquela noite há tanto tempo atrás, porque ela era especialmente dolorosa. Naquele dia, ele tinha certeza que seu irmão apenas o olhava como isso: irmão. Como foi que esse sentimento fraterno veio a se tornar aquilo?

Por mais que estivesse sentindo uma dor emocional absurda, Itachi ainda conseguiu comer dois sanduíches enormes de carne com molho e queijo derretido, pois era o único meio dele comer sem ter dificuldades com os talheres. Além disso, ele gostava de sanduíche de carne assada.

Após ter terminado de comer, Shizune o ajudou a escovar os dentes e lhe deu remédio para dor de cabeça, Itachi já estava a caminho do quarto quando o telefone tocou, sua tia atendeu.

–Itachi acabou de ir se deitar, não tem como ligar mais tarde? –perguntou sua tia em um tom educado e uma longa pausa se seguiu, Itachi aproveitou para se sentar na sua cama. –Entendo, vou passar para ele.

Dizendo isso, os passos rápidos e pequenos da sua tia vieram até o seu quarto, logo as dobradiças fizeram um leve chorar enquanto a porta era aberta de um jeito bem suave.

–Seu amigo Kisame quer falar com você. –sussurrou Shizune. Itachi não entendeu o porquê do sussurro: estava acordado e sem um pingo de sono, ainda. Dipirona lhe dopava. –É urgente.

Itachi ficou imediatamente apreensível: Kisame nunca mentia. E se ele ligava dizendo que era urgente, então era urgente. Será que a empresa faliu de vez? Será que ele foi demitido? O que tinha acontecido? Com a sorte que estava tendo naqueles dias, com certeza era alguma tragédia. Sua dor de cabeça, se possível, aumentou mais um pouquinho, enquanto o som de passos ficou mais audível quando a tia entrou no quarto e depois colocou o telefone em sua mão direita.

–Oi Kisame. –disse Itachi em um tom de voz manso, ouvindo o som de alguém se sentando na outra cama, quase que ao mesmo em tempo que seu amigo lhe dizia oi em um tom visivelmente louco de raiva. –Só um minuto. –Ele se voltou para a tia enquanto afastava o fone do ouvido. -Shizune-san, quando eu terminar a ligação eu lhe chamo, acho que o assunto vai demorar.

–Oh, certo! –comentou Shizune parecendo surpresa e se levantando com pressa, seus passinhos rapidamente deixando o quarto, não se esquecendo de fechar a porta.

Para ser franco? Itachi não fazia ideia se a mulher do seu tio era do tipo que escutava atrás da porta, mas ele era, definitivamente, o tipo de pessoa que não compartilhava informações de seus amigos com desconhecidos. Por isso ele tateou até encontrar a beirada da cama e se certificou que a porta estava devidamente fechada, o que não estava, e só então ele voltou a por o telefone junto a orelha.

–Pronto Kisame. –disse ele baixinho. –O que é que houve?

Aaaah Itachi, eu estou a ponto de explodir de raiva! –bufou Kisame do outro lado. –A minha vontade de é de torcer o pescoço daquela vadia!

Ex-mulher. Devia estar querendo um aumento na pensão alimentícia do filho e Kisame estava bufando outra vez por causa das paranoias dessa mulher. Mas, bem, Itachi não tirava a razão da raiva do amigo: Kisame era extremamente leal e fiel a qualquer pessoa com quem se apegasse, isso ia desde um chefe, a um amigo ou a mulher da sua vida. Todavia, uma vez quando chegou mais cedo do trabalho, ele simplesmente pegou a esposa e o carteiro transando no quarto. Seu amigo era uma ótima pessoa, mas quando ficava irritado... Não era exagero dizer que virava o incrível Hulk (8). A raiva foi tanta que Kisame espancou o amante de sua esposa e lhe deu um tabefe na cara; os três tinham ido parar na delegacia e o processo de divórcio foi iniciado.

Kisame sofreu muito por isso, especialmente porque queria a guarda do filho, mas sua ex-mulher reuniu diversas provas do seu temperamento agressivo, conseguindo a guarda do garoto e, inclusive, lhe tirar o direito de visita. Basicamente, fazia seis anos que Kisame não via o filho, o que não minimizava nem um pouco a saudade que tinha dele.

–Ela está pedindo aumento na pensão?

Não... O buraco é muito mais embaixo! –disse Kisame bufando de um jeito exasperado e em tom alto; Itachi afastou um pouco o fone do ouvido. -Quem dera que fosse só isso! Itachi, eu quero matar ela! Você não ‘tá entendendo o quanto eu odeio essa cretina!

–Matar ela não vai adiantar nada, você é o único quem vai para a cadeia e se as coisas já ‘tão complicadas, tudo vai piorar ainda mais. –disse Itachi no tom mais calmo que podia, tentando ao máximo não soar indiferente. –Respire fundo, conte até dez e diga o que ela quer.

Durante alguns instantes, Itachi só conseguiu ouvir a respiração ruidosa de Kisame do outro lado da linha, mas logo o som de algo sendo derrubado e um xingamento alto lhe fizeram afastar o fone do ouvido outra vez. Esperava que Kisame estivesse em casa e que não estivesse jogando copos de requeijão no chão, seu amigo tinha o péssimo costume de quebrar coisas quando ficava irritado; felizmente, o outro nunca tentou jogar nada nele nessas crises de raiva. Mal pensou nisso e ouviu o som de um vidro sendo espatifado e mais alguns xingamentos, Itachi balançou a cabeça em negação, segurando a fronte; certas coisas nunca mudavam.

Após uns três copos de vidro serem quebrados, a voz ofegante de Kisame voltou junto com sua respiração desenfreada; Itachi esperou.

–Está tudo bem?

Não. –respondeu Kisame com a voz apenas um pouco controlada. -Ela quer me passar a guarda do nosso filho.

Demorou um segundo inteiro até Itachi processar a informação. Kisame sempre quis isso, vivia tentando ter algum direito de visitação ao filho, embora, há uns sete meses atrás tivesse ganhado um balde de água fria do próprio filho que não queria vê-lo. Kisame ficou desolado naquele dia, Itachi não gostava de ficar perto de bebida, sendo muito franco consigo mesmo, ele odiava bebidas alcoólicas porque isso lhe lembrava como seu pai bebeu muito após a morte da mãe. Entretanto Kisame estava tão mal que quando todos foram tomar a breja de sexta, ele foi junto.

Os vendedores da loja onde trabalhavam, Akatsuki – móveis planejados, tinham uma espécie de tradição: todas as sextas-feiras emendarem o expediente em um barzinho chamado “Mugen’s Point”. Quando começou a trabalhar, Itachi era menor de idade, e não podia beber, logo não o chamavam, mas no seu aniversário de dezoito anos ele foi praticamente obrigado a ir. O lugar era agradável, tinha um cantor de música popular bem razoável e um cardápio com bons tira-gostos, mas, no fim, Itachi acabou de motorista de bêbados. “Porque você é o caçula e tem essa obrigação!” um Kisame bêbado tinha lhe dito.

Desde então ele recusou todos os convites posteriores. Os demais funcionários pensavam que ele era um metido, Itachi nunca confirmou ou desmentiu isso, apenas sorria; um dia inevitavelmente pararam de lhe convidar. Mas naquele dia ele foi e com certeza foi a noite mais longa da sua vida.

Cheia de piadinhas como “o príncipe resolveu se juntar aos pobres” vinda de Tobi, com o maldito Hidan falando palavrão sem parar, o tarado do Deidara querendo passar a mão no seu traseiro e Sasori o olhando de perto (com o adendo que o ruivo nunca foi com a sua cara por alguma razão que ele desconhecia). Kisame ficou calado o tempo todo, tomando um trago após o outro e quase saindo na porrada com um desconhecido. Naquele dia, Sasuke ficou desesperado com a sua demora, chorando sem parar como um menininho.

Itachi afastou aquela memória e tentou se concentrar.

–Eu pensei que isso fosse algo bom. –comentou Itachi com a voz insegura.

A vaca disse que nosso filho “tá quebrado”, Itachi! –explicou Kisame voltando a parecer totalmente infeliz, algo que raramente ocorria. — Quebrado, Itachi!

–O que...? –não chegou a terminar. Kisame o interrompeu com a resposta.

–Ele é alcoólatra!

E a pancada doeu nele. Itachi não foi capaz de evitar uma careta enquanto sentia os sanduíches embrulharem no seu estômago, ameaçando fazerem uma nova tour pelo seu esôfago até a sua garganta. As lembranças de seu pai, jogado no sofá da sala com um “João Andador”, trocando de canal sem parar, sem sequer olhar para ele atravessou sua mente com uma velocidade incrível, despejando nele um novo nível de dor, por entender exatamente o que Kisame passaria dali em diante.Foi a sua vez de inspirar profundamente enquanto tentava dizer alguma coisa que pudesse reconfortar Kisame naquele momento; Itachi sabia exatamente como era se sentir sem chão por causa de alguém que se amava muito. E sem olhos também.

Oh, como ele queria dormir e acordar sabendo que tudo não passava de um terrível pesadelo, mas Itachi sabia que não estava sonhando. Aquilo era real, aquela maldita dor de cabeça era real, assim como a voz estrondosa de Kisame gritando um sonoro “Porra!” do outro lado da linha. Itachi fez uma careta, mas não era louco de repreender Kisame naquele momento.

Você acredita nessa palhaçada infeliz? Caralho, porra, merda PUTA QUE PARIU ESSA VACA! Meu filho de dezesseis anos, DEZESSEIS já é alcoólatra! –gritou Kisame e Itachi ouviu um soluçar alto. Era difícil imaginar Kisame chorando. Céus, era difícil imaginar Kisame triste, mas isso? Isso era para quebrar qualquer um.

Kisame começou a falar sobre todas as vezes que sua ex-mulher ficava tomando cerveja e, as vezes, até incentivando o filho deles a provar. Falava que não se importava que o filho viesse para sua guarda, aquele era, com certeza, o seu sonho mais imediato, mas naquelas circunstâncias? Itachi era leigo em direito, mas graças a Kisame sabia de uma coisa chamada “alienação parental”.

A coisa era muito simples: a ex-mulher de Kisame (Itachi não conseguia lembrar o nome dela, Kisame sempre se referia a ela como a “vadia” e daí para baixo) fez com que o filho do casal acreditasse que o divórcio era culpa de Kisame, não dela. Por o garoto ser proibido de ver o pai, Kisame não tinha nem como chegar perto do filho, o que não o impedia de mandar cartas, presentes e tudo mais o que fosse.

Seu amigo apenas tinha uma casca bem grossa, mas na verdade era uma pessoa extraordinariamente dedicada as pessoas que amava, em especial o filho.

–Aquela vaca ainda diz que é minha culpa! Minha culpa porra! –exclamava Kisame urrando de raiva. Itachi deixava o telefone bem longe da sua orelha. –Como caralho essa merda pode ser culpa minha? Durante SEIS longos anos ela não deixava eu ver ele, colocou todo o tipo de merda na cabeça dele e agora a culpa é minha e eu tenho que consertar a merda dela?

–Pelo menos, você vai ficar com ele agora. Seu filho vai estar com você nesse momento difícil, não estou dizendo que as coisas serão fáceis, porque não vai ser, mas você poderá exercer o seu papel como pai, como sempre quis. –disse Itachi com a fala branda, tentando passar segurança para o amigo que o ouviu em silêncio. –Como queria fazer nesses seis anos longe do seu filho. Ele agora estará ao seu lado e vai precisar de você para seguir em frente.

–Isso não é tudo, Itachi. –disse Kisame com um tom subitamente desolado, completamente distinto da voz tomada pela raiva.–Tudo ainda tem como ficar ainda pior!

–Como?

Itachi soube da resposta antes mesmo que Kisame pudesse responder a sua pergunta.

–Ainda suspeitam que ele usa droga.

Itachi suspirou.

–Que merda... –ele disse sem se perceber.

E foi então que a coisa mais sem sentido aconteceu: Kisame começou a rir sonoramente do outro lado da linha, não era a sua gargalhada feliz de sempre, havia um quê doloroso nela que apenas Itachi poderia interpretar. Ele tinha ficado tão surpreso com a reação espontânea do seu amigo que demorou a se conscientizar do palavrão que disse. Porém, no momento que percebeu o que tinha feito, seu rosto ficou imediatamente quente e Itachi fez a coisa mais sensata que podia fazer: deu um tapinha na própria testa.

–Desculpe! –murmurou ele constrangido e isso fez com que Kisame risse um pouco mais alto, só que dessa vez não havia nada de doloroso nessa risada.

Era apenas o bom e velho Kisame se recuperando de outra rasteira da vida. Nas palavras do próprio, “essa mulher ingrata e interesseira!”. Itachi ficou mais calmo e não se arrependeu de ter dito aquilo, pelo menos, seu amigo estava um pouco melhor, ao que parecia. E que sua mãezinha lhe perdoasse.

–Quem diria que você poderia falar algo assim, senhor perfeitinho? –comentou Kisame em um tom ameno após a gargalhada.

–Idiota. –retrucou Itachi mordido. Kisame soltou uma risada pelo nariz. –Você vai ficar bem?

–Eu não estou bem, mas vou ficar; eu vou dar um jeito nisso. –respondeu Kisame com a voz mais branda, recuperando a calma e o controle de si mesmo.–Mas agora eu tenho que ir: preciso arrumar um jeito de montar um quarto de adolescente nesse ovo que eu chamo de casa!

–Ok, vai lá. –disse Itachi, inevitavelmente sorrindo um pouquinho. –Qualquer coisa, estou aqui.

–O mesmo aqui.

E se despediram. Itachi se jogou no colchão, segurando firme o telefone na mão e sem querer, sem que se desse conta, cantarolando:

A ponte de Londres está caindo

Está caindo... Está caindo...

A ponte de Londres está caindo...

Minha lady.

Não era só a ponte de Londres que caia. Todos eles. Todos eles cairiam naquele buraco negro e ninguém escaparia –disso Itachi não tinha mais dúvida alguma.

Ainda estava segurando o telefone quando um som chamou sua atenção; alguém estava ligando para ele, de novo. O fone estava em sua mão e tinha um botão específico para atender daquele jeito. O barulho, mais leve do que se o fone estivesse no gancho, soou mais uma vez e Itachi tentou se lembrar do botão que faria com que ele atendesse a ligação e ele não conseguia lembrar de jeito nenhum. O terceiro toque chegou junto com Shizune invadindo seu quarto.

–Francamente! Eu vou desligar esse telefone na tomada...! –o som dos passos da tia ao se aproximar da cama foram simultâneos ao clik do botão que Itachi apertou a esmo.

–Alô?

Oi, o Itachi-san, por favor? –a voz espalhafatosa disse e Itachi não precisava ouvi-la duas vezes para reconhecer Naruto.

–É ele, Naruto-kun. Tudo bem? –ele perguntou por educação, ouvindo o garoto suspirar do outro lado.

Entrementes, o som de um toque de celular tocava em algum ponto da casa e sua tia saiu do quarto em passinhos acelerados e bufando. Ela fechou a porta com um baque sonoro, mas Itachi francamente não se importou muito com isso; pelo menos ele tinha certeza que a tia tinha fechado a porta dessa vez. A dipirona ainda não teve feito efeito nele e sua cabeça estava latejando loucamente, ele encontraria um meio de cortar o amigo do seu irmão e ia dormir.

Não vou mentir, as coisas não estão fáceis. –disse Naruto com a voz baixa. –Mas, hey, acho que a minha mãe vai deixar eu trabalhar pra você. Só que acho que ela vai querer te conhecer antes, sabe? Ela é um pouco exageradamente super protetora...

–Sei. –disse Itachi, inevitavelmente se lembrando de sua própria mãe.

Mikoto Uchiha era extremamente super protetora. Nunca deixou de ser uma mãe gentil para com ele e Sasuke, mas ela os protegia demais. Não deixava que ele ou Sasuke ou Shisui brincassem na rua e o quintal da casa deles era bem pequeno, o que não deixava que eles brincassem de correr, como ele e Shisui gostavam. Daí eles brincavam de espadas com os cabos das vassouras e ganhavam ainda mais broncas da sua mãe por causa dos hematomas que ficavam depois.

Em um piscar de olhos, Itachi visualizou na sua mente o sorriso da sua mãe. Ela tinha dentes bem brancos e alinhados, e sempre dava sorrisos calorosos, do tipo que ele e o pai não eram capazes de reproduzir, embora Sasuke chegasse bem perto disso.

Lembrar do irmão mais novo fez com que a lembrança se dissipasse e enchesse seu peito com dor.

–Você teve alguma notícia do meu irmão?

Infelizmente sim. –respondeu Naruto com o tom de voz sério e irritado. Itachi enrijeceu. -Não é nada grave. –Itachi relaxou um pouco. -Mas eu estou com raiva. Ele não precisava transar na minha cama!

Itachi suspirou desapontado. Quando que imaginaria que seu irmãozinho seria tão inconsequente? Nunca. A criança que Sasuke foi não indicava que se tornaria esse tipo de adolescente rebelde que transa com a irmã do único amigo, na cama deste, deixando tudo sujo de esperma.

–Sinto muito por isso. –disse Itachi automaticamente, escondendo a testa com a mão livre; sua cabeça estava quente.

Não se sinta mal por coisas que você não fez. –disse Naruto e uma música de violão começou a soar baixinho do outro lado da linha. –Meu pai diz que todos nós temos nossos próprios problemas pra carregar a sina dos outros, mas... Não é assim tão simples.

–É inevitável não carregar a sina dos outros quando amamos. –comentou Itachi, ouvindo Naruto concordar do outro lado da linha e a música crescer em uma nota de guitarra. Ele mal e mal conseguia ouvir a letra:I thought the colors would come back, the days would return to something I can understand (9).

É, meu pai é um homem muito honrado.. –comentou Naruto com um tom de voz um pouquinho descontraído, enquanto o vocal continuava cantando: I believed winter would change, turning into spring someday soon, but the ice won´t melt. (9) Só falta ele dizer “o inverno está chegando...”.(10)

Você quer que seu pai perca a cabeça? –inquiriu Itachi, não conseguindo refrear o spoiler. Mas, bem, todo mundo sabia que Eddad Stark morria.

Naruto gargalhou gostosamente do outro lado, contrastando completamente com a melodia triste que era entoada. As guitarras soavam mais claramente, assim como a letra da música, que tanto se adequava a sua vida naquele momento:

I thought the memories wouldn't be so strong,

and all would fade away

And I could move on

I believed I'd found something new inside

To chase away the darkness in my mind

But I still cannot find (9)

Itachi não era fã de rock, não gostava de músicas que definia como “barulheira infernal” ou com “gritos” em vez de uma voz cantada, mas tinha que reconhecer que algumas melodias classificadas como rock eram propícias. Aquela música era bem propícia ao momento que passava, nem por isso as coisas ficavam mais simples. Mas, bem, até mesmo aquele cantor conseguia passar sentimento na voz, isso tornava o peso um pouquinho maior e, ao mesmo tempo, ele não se sentia totalmente miserável.

O poder da música, simplesmente isso. Talvez ele devesse pedir para Shizune colocar um de seus CDs favoritos para tocar enquanto fosse tirar uma pestana dali a pouco...

Não! Especialmente porque quem seria o rei do norte seria eu e... Espera! Até que livro você leu? Ou você via a série? –inquiriu Naruto de um jeito afoito e afobado que acabou fazendo com que Itachi risse um pouco.

–Vi apenas a primeira temporada. –respondeu Itachi com franqueza. -Ia ler o livro dois e ganhei spoiler do três.

Deixa eu chutar: casamento vermelho?

–Na mosca. –confirmou Itachi, xingando Shisui em pensamentos.

Tenso! Se a minha mãe deixar eu trabalhar pra você, eu posso ler os livros pra ti. –disse Naruto em um tom de voz feliz. –O cara é um assassino em série, mas também cria personagens incríveis pra substituir os outros. Qual é o seu personagem favorito?

–Mindinho.

–Eu o odeio!

Por algum motivo que Itachi não fazia a menor ideia, a conversa prosseguiu saindo de “Game of the thrones” e a habilidade de George Martim em matar personagens, para estilos musicais, onde Naruto dizia que curtia qualquer tipo de música, fato que foi devidamente comprovado após o rock ter sido substituído para “So long” de James Brown e em seguida para “All I Ask of you” de um DJ que Sasuke escutava. Naruto não entendia muito de estilos musicais, mas era aberto a várias possibilidades e a conversa rendeu nesse aspecto.

Era estranho e ao mesmo tempo divertido falar sobre assuntos aleatórios com Naruto, assim como foi se acostumar com a risada alta, especialmente quando ele falou que era fã de Harry Potter. Quando ele perguntou qual era o problema, o Uzumaki apenas respondeu que não parecia fazer seu estilo, e Itachi revelou que cresceu lendo J.K. Rolling, afinal e isso foi um dos melhores pontos da sua infância e adolescência.

O Uzumaki confidenciou que ele e o irmão, influenciados pela “a câmara secreta”, pegaram o carro do pai e ligaram o motor, para ver se flutuava, mas o que fizeram foi apenas estragar o portão e ganhar um “berrador” ao vivo da mãe deles. Itachi não queria rir, e tentou segurar a gargalhada, mas foi totalmente infeliz com isso. Até porque ele se lembrou de uma vez que Shisui comprou uma briga de varinhas com ele, usando um espetinho de churrasco, mais ou menos na altura do filme de “Harry Potter e o cálice de fogo” ter saído nos cinemas.

Ambos bufaram indignados porque seus respectivos personagens favoritos morreram, embora fossem rivais. O personagem favorito de Naruto era Sirius, em contrapartida, seu personagem favorito era Snape e, quanto a esse ponto, os dois tiveram uma briguinha idiota que terminou com uma gargalhada de ambos os lados, já que Naruto tinha lhe mandado um “sectusempra” por telefone. Itachi sequer pôde refrear-se e gargalhou sonoramente, esquecido completamente da ideia inicial de desligar o telefone e ir dormir.

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De algum jeito ainda mais improvável, a conversa ainda rendeu sobre como Voldemort respirava, mesmo sem ter nariz (não que Itachi entendesse como foi que a conversa foi para esse assunto). Nesse ponto, Naruto de algum jeito, puxou assunto para um filme chamado “as vantagens de ser invisível”, estrelado por Emma Watson; Itachi ficou curioso com a estória do filme e o Uzumaki prometeu que ia ler o livro para ele, em uma próxima visita.

Nessa altura do campeonato, Naruto estava ouvindo Knockin On Heavens Door quando o som do sinal da sua escola tocou.

Cara, eu nunca imaginaria que você fosse assim! –disse Naruto com sinceridade e um tom de voz de uma alegria contagiante. –Acho que a gente vai se dar super bem Itachi-san!

–E como você pensava que eu era?

Sei lá, uma espécie de doutor House. –foi a resposta imediata e Itachi sorriu. -Mal-humorado, temperamental, tpmico, inatingível, tipo, sei lá!

–E como eu pareço agora?

Um Dean Winchester sem a parte do rock e do carro legal.

Ante aquela resposta estranha, Itachi apenas sorriu um pouquinho mais, percebendo que já não estava mais com dor de cabeça e que a porta do quarto estava aberta novamente, porque o vento gelado tocava a palma de seus pés.

–Ainda no telefone, Itachi? –perguntou Shizune com um tom de voz surpreso. — Você está falando a uma hora!

–Já vou desligar. –disse Itachi surpreso consigo mesmo.

Ele estava a uma hora no telefone conversando com Naruto? Ou melhor: ele, uma pessoa que nem tinha celular porque odiava esses apetrechos, estava a uma hora no telefone? Feito inédito. Especialmente porque ele definitivamente não era uma pessoa que conversava facilmente com ninguém. Ele tinha poucos amigos, demorava a se abrir e, em um geral, as pessoas não se aproximavam muito dele para conversar, não que ele fosse agressivo ou qualquer outra coisa, apenas ocorria isso.

Se bem que, se ele se recordasse, normalmente as pessoas ao seu redor não gostavam das mesmas coisas que ele ou então não conseguiam compreender seu ponto de vista. Até mesmo nisso ele era diferente, “esquisitão”, embora Shisui dissesse que ele estava sendo idiota, porque não era esquisito. Kisame pensava a mesma coisa que Shisui, mas Itachi sabia que o tio e o amigo só queriam confortá-lo.

–Escuta, Naruto-kun, preciso desligar. –ele disse ignorando a linha de pensamentos que seguia.

Ah, beleza! –disse Naruto aparentando estar um pouquinho desapontado, mas ainda assim soando cheio de energia e animado como Itachi desconfiava ser o temperamento habitual do garoto. –Ah! Nesse falatório todo quase esqueci de dizer! Minha mãe disse que depois do expediente vai até a sua casa pra te conhecer, pra saber se você vai ser mesmo um bom chefe pra mim, tudo bem pra você?

Ter a mulher de Minato na sua casa não era algo que ele queria, para ser franco. Itachi ainda não tinha superado completamente a paixonite pelo médico, mas, bem, ele precisava de ajuda com Sasuke e Naruto era a pessoa mais gabaritada para isso no momento. Se essa maldita visita fosse ajudá-lo com Sasuke, então que jeito ele tinha a não ser concordar?

–Tudo bem.

Beleza! –disse Naruto animadamente. –A gente se fala mais tarde então! Fui!

Itachi sentiu o telefone ser tirado de sua mão pela tia e ser colocado no criado mudo perto da sua cama. Ela lhe avisou que precisaria sair porque o idiota do marido (Itachi riu com o apelido de Shisui) estava vindo pegá-la para que eles passassem no mercado e fizessem rancho, já que a geladeira de Itachi estava praticamente vazia. Shizune explicou para ele que tinha colocado o número de Shisui como o único na memória do telefone e, que se Itachi tivesse qualquer problema, era para ele apertar o botão grandão do “ligar” e depois o pequeno do “redial”, que eles atenderiam no primeiro sinal.

Isso foi explicado dez vezes.

–Shizune-san, eu já entendi. –disse Itachi se sentindo como uma criança de cinco anos. Não. Isso não. Com cinco anos ele já cuidava de Sasuke, dando mamadeira e tudo.

–Mas...

–Pode ir tranquila, eu vou dormir. –tranquilizou Itachi, tentando soar convincente e não um garotinho irritado com a superproteção da mãe. -Não vou sair dessa cama durante um bom tempo.

Com um suspiro longo e derrotado, Shizune assentiu e saiu do seu quarto, Itachi se deitou confortavelmente na cama, virando-se para o lado e fechando os olhos. Bastou um tempinho quieto e finalmente o efeito da dipirona veio com intensidade total e ele dormiu.

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Não que ele se importasse com astrologia ou qualquer babaquice do gênero como sua ex-namorada se importava, mas... Em alguns aspectos, ele era tão genuinamente geminiano que isso francamente lhe irritava.

Ele sabia que estava sonhando. Era bem fácil notar porque, ao que ele soubesse, não existia cobras daquele tamanho, salvo em Hollywood e suas “anacondas” e “nagines”. Não havia registros disso em Konoha, entretanto a cobra de uns quinze metros nadava tranquilamente no rio, fazendo grandes “S” na água cristalina. O animal estava indo para longe do cais e Itachi nem se importou em correr até alguma parte civilizada, apenas continuou sentado na sua cadeira de armar, segurando a sua linha. Ele não gostava muito de pescar com caniço.

Além disso, ele já estava fazendo um papel ridículo usando uma jaqueta de couro marrom estilo John Winchester e segurando a linha com um peixinho artificial, o qual ele esperava não perder. O rio estava cheio e a linha podia engatar, dessa vez Kisame não estava ali para desengatar a linha.

Mas se era um sonho, por que se importaria se engatasse?

Itachi se virou na cama e ouviu uma porta ser aberta, ainda assim, estava com sono demais, suas pálpebras estavam muito pesadas. E do que adiantava? Mesmo que abrisse os olhos, a coisa não ia mudar muito, embora, no seu sonho, ele pudesse ver. Um vento gelado acariciava seu rosto; estava um dia bonito, nem quente demais e nem frio demais, o ar estava umedecido, mas as folhas das árvores de um verde-esmeraldino bonito estavam bem secas.

Só que ele ainda não tinha pegado nenhum peixe, normalmente quando o clima estava bom demais, os peixes não apareciam de jeito nenhum. Ele puxou a linha, checando que seu peixinho artificial ainda estava preso ao anzol, e fez o ritual de sempre: girou a linha três vezes, antes de deixá-la descair até o meio do rio. A cobra já estava bem longe para que ele pudesse assustá-la ou tirá-la da rota.

Uma voz feminina ria em algum lugar na casa, enquanto alguns móveis eram arrastados em barulhos secos, de um jeito irritante. Ainda assim, isso lhe fez ter um progresso: sua mente, ao ser forçada a trabalhar, percebeu que ele estava na sua cama, parcialmente embrulhado e tinha cabelo na sua testa fazendo cosquinha. Estava frio e ele puxou a coberta de algodão para cobrir o seu braço descoberto, aproveitando para tirar a franja da testa.

Os passos das pessoas, tinha que ser mais de uma, estavam trôpegos e Itachi ficou apreensivo: quem seria? A inconsciência ameaçava levá-lo de novo a pescaria. Dessa vez a linha puxou de leve e ele tinha certeza que era um peixe, porque sua linha estava descaindo outra vez com a puxada forte do animal. Itachi tentava puxar a linha, sentindo o peso do bicho que estava contra a corrente, tentando escapar. Mas ele não deixaria: tinha prometido a Sasuke que ia conseguir pescar um peixe liso para fritarem quando chegasse em casa.

Itachi se forçou a prestar atenção aos ruídos de alguém sendo prensado na parede e uma risada alta feminina, logo silenciada por um ruído alto de beijo. Seria Shizune e Shisui? Mas se fossem, eles teriam ido até o quarto para checá-lo ou algo assim, já que ele virou o “bebê” do casal; uma lástima, mas verdade. Alguma coisa caiu no chão e alguém caiu no sofá. Houve mais uma risada feminina, uma voz que Itachi não conhecia.

Mas será que isso não seria o sonho e a realidade não fosse a pescaria? Porque a sensação de estar no cais que costumava pescar era tão vívida. Ele sentia a linha na sua mão, assim como o peixe lutando bravamente para não sair da água e a dor de não ter ninguém para tirar uma foto do peixe que estava pescando; tinha certeza que era um peixe grande e quando este pulou n’água, cintilando dourado só confirmou sua tese!

Itachi se virou mais uma vez e escutou mais claramente ainda o ruído molhado de algo sendo lambido. Talvez alguém estivesse comendo algum sorvete ou picolé ali perto, mas, ainda assim, se fosse isso, os barulhos não seriam tão altos assim. Alguém gemeu de um jeito gutural bem alto e Itachi foi forçado a reconhecer que alguém estava transando.

A pergunta era: no mato ou na sua casa. “Se eu abrir os olhos eu vou saber.” — esse pensamento passou pela sua cabeça com uma clareza tão rápida quanto um raio. E o medo de abrir os olhos e não enxergar nada? Enquanto ele pescava, ele conseguia enxergar o mundo de novo, ver o azul do céu, o dourado do peixe, as folhas verdes, a madeira pintada de branco... E a outra realidade... Das duas uma: ou seu adorado tio estava transando no seu sofá, ou pior ainda: era um desconhecido fazendo isso.

Não queria abrir os olhos, mas os gemidos ofegantes estavam ficando mais altos.

–Gosta quando eu faço isso? –uma garota, definitivamente uma adolescente fazendo voz manhosa, disse.

Então em seguida ela produziu um gemido algo com alguma coisa, um pênis talvez, preenchendo a sua boca. O garoto, era um garoto, inspirou profundamente e fez alguma coisa, talvez puxar os cabelos da garota, que fez com que ela se engasgasse. Sim, definitivamente era o som de um boquete. Itachi precisou recorrer ao seu arquivo pornô para se lembrar do som.

–Hei, tenho uma ideia! –disse a garota. Itachi não fazia ideia do que era, entretanto ele reconheceu os sons de uma punheta em ritmo frenético em seguida. –Você ‘tá gostando?

–Hn... –fez o garoto. –Sua vadia...!

Um sol ato de tapa foi ouvido, ecoando pelo apartamento e se misturando com a masturbação que, provavelmente, a garota fazia no garoto. Entretanto, não foi o tapa que o deixou mais acordado: aquela voz, por mais que estivesse engrolada e enrouquecida...

–Mais! Mais! –disse a garota em uma voz melodiosa e feliz. –Bate mais em mim!

Outro tapa, ainda mais forte que o anterior foi dado e o garoto riu, aumentando inda mais o ritmo da masturbação e conseguindo fazer o garoto grunhir excitado. Aquela voz... não... Não poderia ser, poderia? Itachi não queria acreditar nisso, seria tudo tão menos doloroso se tudo fosse um pesadelo e apenas isso. Mas...

–Sua cachorra! –grunhiu o rapaz aparentando estar imerso em raiva e prazer, os sons da masturbação ainda mais altos e mais frenéticos. –Sua puta!

Mas... Aquela voz era tão parecida com a do seu irmão. Itachi estava com medo de abrir os olhos e se deparar com a realidade, mas, seja ela qual fosse, ele teria que encará-la. Não podia fugir disso: seu irmão era sua obrigação. Ele não poderia fugir agora.

Itachi abriu os olhos abriu os olhos, mas não conseguiu ver nada.

–Sim! Sua puta! –disse ela e os sons de masturbação ficando ainda mais altos e perturbadores. Itachi tapou os ouvidos. –Goza pra mim! Sasuke-kun!

–Eu...Aaaaaaaaaaaah! –a voz do seu irmão saiu sem controle.

Naquele momento, Itachi estava devidamente acordado e relembrava de tudo, absolutamente de tudo que aquela maldita realidade representava, inclusive que fazia dias, quase um mês que não via o seu irmão. E agora o caçula estava no outro cômodo, transando com uma qualquer. Será que, ao menos, estava usando camisinha para não pegar uma doença ou engravidá-la?

Um medo surreal o invadiu naquele instante e ele, pouco se importando com seu cabelo solto e bagunçado ou se cairia no meio do caminho, se irrompeu pelo quarto a fora, tateando pela cama e abrindo mais a porta.

–Sasuke? É você? -perguntou Itachi ouvindo a garota exclamar alguma coisa assustada e o rapaz, Sasuke, inspirar profundamente. –É você que está aí, otouto?

Um zíper foi fechado e alguém se moveu no sofá, vindo na direção onde ele estava; os ponteiros do relógio andavam lentamente e pareciam ecoar no apartamento. Itachi não tinha ideia de que horas eram ou porque Shisui e Shizune estavam demorando tanto; tudo o que importava estava ali. Sasuke estava ali e eles precisavam conversar, muito, sobre muitas coisas.

–É você irmãozinho? –perguntou ele mais uma vez.

–Itachi... –perguntou Sasuke com a voz baixinha e engrolada em um tom totalmente triste, igualzinho quando ele tinha uns seis anos e descobriu que papai Noel não existia. -Você... não... Está me vendo?

Antes que ele pudesse responder, o som de um molho de chaves do lado de fora do apartamento chamou a atenção de todos, junto com a voz animada de Shisui.

–O Itachi é uma ótima pessoa! –entoou Shisui bem humorado abrindo a porta com um ruído estridente das dobradiças; precisavam colocar óleo ali com urgência. –A senhora vai ver...

Seu tio não terminou a frase. A chave caiu de sua mão, um grito histérico soou; não era exagero dizer que um pedacinho do inferno estava bem ali diante de si provando que pesadelos podiam ser bem reais.

Referências

(1) – Agravo. Uma das formas de se manifestar em um processo, sendo uma peça recursal mais frequente no direito processual civil, embora exista agravo em execução penal.

(2) – Impedição. Meio pelo qual o advogado das partes ou o Ministério Público argui que o juiz não pode julgar o processo por algum motivo descrito em lei. Ex: o juiz é amigo do autor do processo.

(3) – Arguição de nulidade absoluta. É quando um dos advogados ou o representante do ministério público relata ao juiz que houve uma falha procedimental no processo que gerou um prejuízo tão grande que tudo tem que ser refeito do ponto do erro até onde eles estejam no processo. Ex: depois que o autor da ação entra com o pedido pro magistrado, o juiz obrigatoriamente tem que chamar a parte contrária para que esta se defenda. Se o juiz não fizer isso, haverá uma nulidade total dos demais atos do processo.

(4) – morosidade da justiça. Lerdeza para julgar o processo xP (4) – Nem ele e nem Sasuke tinham direito ao processo. Isso não existe, criei isso por causa do plot :P. A constituição de 1988 é clara dizendo que os processos e procedimentos da administração pública em regra são públicos, salvo os sigilosos. Mas independentemente disso, se você é parte, você tem interesse e tem a garantia de acesso aos autos processuais.

(5) — Via judicial para requerer o pagamento. Nossa lei prevê que o Estado deve promover a saúde básica, assim, se, por acaso, o paciente não tiver como ser atendido pelo SUS ou não ter medicamento, se pode apelar para a via judicial. No caso do Itachi, ele foi atendido pela via pública e transferido para uma particular, não havia como ele pagar pelo tratamento, aí ele poderia sei lá, tentar forçar alguma tese. Mas acho que não ia ser julgado procedente o pedido xP

(6) – Auxílio doença e INSS. Ai gente é tão difícil explicar isso sem ser técnica e gerar mais dúvidas, mas enfim: o auxílio-doença é um benefício previdenciário destinado ao segurado (aka trabalhador com carteira assinada) que pega uma doença e precisa ser afastado do trabalho por mais de 15 dias. O INSS é o lugar responsável pela previdência social.

(7) – Perícia. Nesse caso, exame médico para saber se Itachi está mesmo cego e assim não ser concedido um benefício para um mentiroso.

(8) -O incrível Hulk. O Itachi está fazendo referência a uma série de TV americana da década de 1970, não o filme atual da Marvel.

(9) Tradução: Olha, fui eu quem traduziu. Então se quiserem algo mais acurado, procurem “Jorn Lande – When time doesn't heal”.

Eu pensei que as cores voltariam.

Que os dias voltariam a ser alguma coisa que eu pudesse entender.

Eu acreditei que o inverno mudaria, se tornando primavera qualquer dia desses, mas o gelo não derreteu.

Eu não pensei que as memórias seriam tão fortes.

E que tudo fosse desvanecer.

E eu poderia seguir em frente.

Eu acreditei que acharia algo novo por dentro,

Para expulsar as trevas em minha mente.

Mas eu não pude achar.

Notas finais
Bem, foi um capítulo bem longo e acho que o próximo eu provavelmente vou ter que cortar em dois. Eu estou um pouco travada com a trama e vocês precisam saber disso. Ah aviso EXTREMAMENTE IMPORTANTE: Estou precisando de uma beta com urgência. Não para erros de português, mas para questões de enredo. Se alguém tiver interesse ou conheça alguém (a liga dos betas não está me ajudando em nada), por favor, entrem em contato comigo, ok? eu não mordo. Sou legal :D