Desejar

6 James Brown’s Tales


Notas iniciais
Então galera, capítulo um pouco antes de novo yay Ele é EXTREMAMENTE longo, mas vai explicar algumas coisinhas pra vocês. Leiam com calma e não hesitem em perguntar se tiverem dúvidas, ok? ^^ Ah peço que por favor leiam os comentários no fim do capítulo, após as notas. Juro que não é pedindo review, mas são alguns esclarecimentos necessários devido a algumas coisas que aconteceram tá? :/ É um pouquinho longo, mas é imprescindível que vocês leiam ^^" (tudo tá longo e grande nessa att, mas juro que vou tentar amenizar isso na próxima, ok? -.-') Ah e um agradecimento especial a minha nova beta: Kitsune Lyra o/ Thanks flor ^^ Sem mais delongas, ao cap!

Capítulo Seis

James Brown’s Tales

Sasuke caiu no chão, seus joelhos produziram um som abafado em contato com o piso de cerâmica e um soluço alto foi ouvido, e logo seu irmão arquejava como se tivesse corrido uma maratona. Alguém se moveu e Sasuke perdeu as estribeiras novamente.

–NÃO ME TOCA!

–Que seja feita a vossa vontade. –murmurou Naruto com a voz calma, dando alguns passinhos vacilantes para longe do seu irmão. –Teme!

–Sasuke-kun...! –disse a irmã de Naruto em um tom preocupado, rastejando para perto do seu irmão, pelo que ele podia presumir dos sons retumbantes e duros quando seus joelhos tocavam o piso.

Seu irmão não repeliu o toque da garota, que murmurava baixinho que todos ali estavam errados e que eles estavam certos; dizia que tudo ficaria bem. Alguém suspirou pesadamente, Shisui arrastou a sola do sapato na cerâmica bufando como um touro enlouquecido. Shizune, que Itachi sequer reparou que estava ali, foi sensata e se dirigiu até a cozinha, abriu a geladeira com um som manhoso da porta, e colocou algum líquido em alguns copos misturando alguma coisa nisso, pela vibração de uma colher nasextremidades dos copos.

–Aqui senhora Uzumaki, tome isso para acalmar os nervos. –disse Shizune bondosamente, em um tom muito manso e melódico.

A mulher de Minato nada disse, mas pela ausência de recusa, ele presumia que ela tinha aceitado o copo de Shizune. A tia caminhou em passos lentos na sua direção e lhe deu o outro copo, mas suas mãos tremiam demais para que ele pudesse segurar o objeto com precisão; Shisui veio ao seu encontro.

–Hey, garotão, vai ficar tudo bem. –murmurou Shisui tão baixinho que ele quase não escutou, embora sentisse os dedos do tio afastando a sua franja da testa.

Era o momento para ser forte, todos precisavam disso naquele momento. Shisui segurou o copo e Shizune voltou à cozinha, pegando alguma coisa e logo ele escutou o som das sandálias de plástico serem jogadas no chão bem próximo dele. Seu tio lhe ajudou a calçá-las e o guiou até o sofá. Havia outra pessoa ao seu lado, alguém com o cabelo tão ou mais comprido que o dele, pelo que ele podia sentir, já que estavam ombro a ombro.

Ele tomou o primeiro gole do conteúdo do copo, constatando que era água com açúcar, enquanto ouvia o som de cacos de vidro sendo varridos. A garota... Qual o nome dela? Kim? Karin? Rin? Não importava, a garota ainda estava murmurando coisas para seu irmão mais novo, o qual lentamente voltava a controlar sua respiração.

–Está mais calma senhora Uzumaki? –inquiriu Shisui em um tom delicado e suave, ainda assim arrependido.

Novamente a mulher não respondeu; Itachi a entendia parcialmente. Ele não conseguia ver e estava daquele jeito, aquela mulher tinha visto a filha na pior condição possível e ele sabia que aquela imagem nunca poderia ser apagada da memória. Aquele momento sempre seria um fantasma, um pesadelo real, uma ameaça que sempre estaria presente em suas vidas.

–Itachi-san. –disse Naruto próximo dele com o tom de voz anormalmente sério e baixo, Itachi mal o reconhecia naquelas circunstâncias. –A minha irmã pode usar o seu banheiro? Ela está imunda e precisando de um banho pra ficar decente. Não quero que a minha mãe... Você entende?

Ele entendia. Não precisava ser muito criativo ou ter muitos sentimentos para isso. Já era terrível ter que presenciar a cena, imagine a garota sair dali toda suja do jeito que estava e a mãe ao lado? Itachi morava em uma curva razoavelmente movimentada, e ninguém merecia passar por esse tipo de humilhação. Itachi assentiu com a cabeça, voltando a tomar mais um gole da água com açúcar; ele odiava com fervor isso, mas não podia negar que estava ficando mais calmo, embora seu coração estivesse em estilhaços igual a garrafa quebrada.

Nada mudava o fato que tudo doía. Doía tanto, mais tanto que ele não sabia se podia suportar tudo aquilo. Ele estava cansado, sua cabeça latejava e tudo o que ele mais queria mesmo era dormir. Talvez não acordar mais, só que isso seria injusto com seu irmão, com Shisui, Shizune e Kisame; todos eles precisavam dele. Itachi precisava estar inteiro por eles, mas principalmente por si próprio.

Naruto deu uma leve risada abafada pelo nariz como agradecimento, aquele som estava cheio de dor também; todos ali estavam devastados. Pelo menos o idiota do vizinho parou de bater o cabo da vassoura no teto.

–E quem disse que eu...? –disse a garota em um tom definitivamente irritado, disposta a comprar briga.

Silêncio. Naruto nada respondeu, mas Itachi suspeitava que naquela família os atos contassem mais do que qualquer outra coisa, era apenas uma suspeita que, talvez, ele nunca confirmasse. Shisui tinha dado alguns passos, talvez em direção a Shizune que recolhia os cacos de vidros com a pá. Sasuke estava extraordinariamente quieto e Itachi estava preocupado; parecia que seu irmão era como uma bomba relógio prestes a explodir. Alguém dava passadas medianas, firmando bem o calcanhar no chão, caminhando a esmo e parando, talvez recolhendo alguma coisa, pois Itachi conseguia ouvir o ruído de ossos estalando.

Itachi estava cansado de ter que interpretar tudo através da audição. Seu nariz parecia que tinha se habituado ao cheiro de esperma e vinho barato. Inesperadamente, a garota bufou irritada, seguindo em direção ao banheiro em passadas longas e pesadas, logo a porta do banheiro foi fechada com uma batida brusca. Os cacos de vidro pararam de ser recolhidos; todos ficaram muito quietos. Naruto expirou ruidosamente, como se estivesse profundamente cansado.

–Me perdoem por isso... –pediu Naruto em um tom de voz magoado e arrependido.

–Tudo, bem. Sabemos que vocês não têm a culpa disso. –disse Shisui em um tom sério. –Eu vou pegar uma camisa pra você usar enquanto isso. Está uma noite fria demais para você ficar sem camisa, Naruto-kun.

–Não...

–Nós insistimos! –disse Shizune em um tom amável e apressado.

Logo os passos de Shisui seguindo em direção ao seu quarto foram audíveis. A porta foi aberta suavemente e o som do box sendo aberto ecoou brevemente. Tudo era tão surreal! Inesperadamente, Itachi se lembrou da conversa que teve mais cedo com Naruto. Parecia que ela tinha ocorrido há anos atrás, não meras horas.

–Não se desculpe pelas coisas que os outros fizeram. –ele disse com a voz baixa.

O som do chuveiro foi ligado e se misturava com o som dos passos de Shizune até a cozinha, onde ela jogou os vidros em um saco de mercado e depois no lixo. O tio saiu do quarto, vindo em direção a poltrona à esquerda e Itachi escutou Naruto murmurar um “obrigado” baixinho.

–Essa é minha camisa? –Sasuke perguntou irritado. –COM QUE DIREITO VOCÊ PEGA UMA CAMISA MINHA PRA...!

–CALA A BOCA MOLEQUE SE NÃO EU...!

–Você nada! –disse Shizune em um tom resoluto.

A tia puxou o marido até o quarto, pelo som que o tecido da camisa de Shisui fez e depois pelos passos ruidosos até o quarto, pelo leve movimentar da porta. Shizune, provavelmente, estaria tentando apaziguar os ânimos de Shisui e, só por isso, a tia ganhou ainda mais pontos com ele depois disso. Sasuke respirava com dificuldade, em uma tentativa de controlar a raiva; Itachi sentiu seu rosto ficar quente outra vez. Ele estava com tanta vergonha de ter que passar por aquela situação na frente de desconhecidos! Ele até se sentia feliz que seu cabelo era cumprido demais e isso fazia uma espécie de cortina protegendo o seu rosto de ser encarado pelos outros.

Por que as coisas tinham chegado àquele ponto? Por que ele não prestou mais atenção em Sasuke? Por que ele não reparou os sinais? Porque, definitivamente, tinha que ter sinais para justificar aquele tipo de comportamento. Onde foi que ele falhou? Seria mesmo ele a falha? Foi outra coisa? Tantas perguntas, tanta dor, e nada se alterando. Tudo estava fora de controle e isso lhe desesperava.

O som alto e seco de um copo, aparentemente vazio, sendo depositado em uma superfície de madeira soou ao seu lado, ainda assim a mulher de Minato permaneceu silenciosa. No apartamento de cima, o vizinho resolveu ouvir música alta e ele estava reconhecendo o ritmo gingado de James Brown, mas não a música; mas era o bastante para impedir a corrente anterior de pensamentos. Itachi quase se sentia grato pelo vizinho ranzinza ter bom gosto musical.

Naruto respirou profundamente mais uma vez, dando alguns passos e se espremendo ao seu lado; Itachi percebeu que o mais novo estava com uma camisa sem manga; ele até imaginava qual era. Sasuke tinha uma camisa regata preta, que usava para malhar a uns anos atrás, o tecido esticava e Itachi achava um absurdo que aquele maldito pedaço de pano vagabundo custasse trezentos reais! Trezentos reais! Era mais da metade do preço da parcela mensal do IPTU do apartamento onde moravam!

Itachi se recordava que levava as camisas e jeans que o irmão pedia e pagava em mil prestações, passava praticamente o ano inteiro pagando o mesmo jeans e camisa do início do ano, quando essas lojas entravam em sale. O pior? Agora ele se conscientizava que talvez essas roupas caras fossem um sinal. Pensar nisso lhe deixava cheio de remorso e culpa, porque era seu trabalho cuidar do seu irmãozinho e protegê-lo; ele devia ter evitado tudo isso. Era sua única função como irmão mais velho: criar Sasuke para ser um homem de bem. Como foi que ele foi falhar justo nisso? Na única coisa que não poderia falhar?

Era inevitável deixar de pensar nisso.

Itachi sentiu seu pescoço enrijecer e balançou a cabeça, ouvindo um leve estalar, depois inspirou profundamente, se conscientizando do cheiro de laranja misturado com camomila que parecia irradiar da pele e dos cabelos Naruto. Sem saber muito o quê fazer, Itachi se forçou a tomar mais um gole daquela água com açúcar horrível, aguardou um pouco, inspirando outra vez, e percebendo como estava realmente ficando mais calmo por causa disso.

Ainda assim ele não queria tomar mais nenhum gole daquilo.

Ele se inclinou para frente, tentando estimar onde estava a mesinha de centro para poder depositar o copo e ele sentiu mãos macias, de dedos finos e compridos sobreporem-se a sua mão, ajudando-o a colocar o copo em segurança na mesinha. O cheiro de laranja e camomila estava ainda mais perceptível agora, denunciando a pessoa que tinha lhe ajudado.

–Obrigado. –ele murmurou com a voz rouca, se virando na direção onde o cheiro parecia vir.

–É só o meu trabalho, daqui pra frente... –a voz estava muito perto mesmo, Itachi até conseguia sentir os vestígios da respiração de Naruto no seu rosto.

–Mas...! –murmurou Sasuke aparentando estar incrédulo e irritado. Itachi voltou a se recostar no sofá, não compreendendo o porquê do novo surto. –O QUE É ISSO?

Itachi se voltou para onde o som da voz do irmão vinha, não conseguindo compreender o que é que chamara a atenção do caçula. Sasuke se levantou do chão rapidamente, respirando profundamente como se estivesse cheio de raiva e não havia nada ali que pudesse motivar a raiva do seu irmão. O que é que estava acontecendo?

–O que...?

–QUE MERDA É ESSA ITACHI? –inquiriu Sasuke. –DESDE QUANDO VOCÊ SE OFERECE PRA QUALQUER UM?

–Quê...? –perguntou Itachi estupefato. Como assim se oferece?

Então a ficha caiu. A respiração de Naruto perto de si, talvez seus rostos estivessem próximos demais e Sasuke, por estar “apaixonado” por ele, pensou que... Oh Deus isso era... Seu estômago estava lhe deixando embrulhado; era tudo tão patético, revoltante e sem sentindo que mesmo ele sendo alguém calmo, era impossível conter a avalanche de sentimentos que sentia.

E a junção de tudo isso era, com certeza, o pior sentimento na face da terra.

Naruto sabia a verdade sobre seu irmão estar confundindo tudo por ele e isso apenas aumentava ainda mais o seu desgosto e a tristeza que sentia. Era tanto desapontamento e tanta vergonha, por ele e pelo irmão, que Itachi sequer sabia o que pensar. Sasuke respirava alto demais, pisando forte no piso, batendo o pé impaciente, talvez até com os braços cruzados; Itachi não sabia o que fazer. Ele temia por Shisui e Shizune descobrirem o que seu irmão supostamente sentia por ele e essa perspectiva lhe deixou apavorado, como se não bastasse tudo o que sentia naquele momento. “Seja forte, aguente firme!” pensou ele, inspirando profundamente e expirando logo em seguida.

–PARA DE SER UM ESTÚPIDO, SEU IDIOTA! –gritou Naruto irritado. –EU SÓ AJUDEI ELE A COLOCAR O COPO NA MESA, IMBECIL!

–VOCÊ QUERIA ERA OUTRA COISA, SEU DESGRAÇADO! –retrucou Sasuke em tom agressivo. –NÃO CHEGA PERTO DO MEU IRMÃO, SEU PUTO!

–VOCÊ ‘TÁ LOUCO? –resmungou Naruto ficando de pé em um pulo.

–EU TE CONHEÇO SEU CARALHO! –urrou Sasuke e o som de passos pesados e largos foi ouvido enquanto o cheiro de alguém que não tomava banho adentrava nas suas narinas. -EU VOU TE MATAR SE VOCÊ CHEGAR NELE! ELE NÃO, ENTENDEU?

–Mas o que é que está acontecendo aqui? –perguntou Shizune, e a porta do quarto sendo aberta.

Tudo acontecia rápido demais ao ponto dele se perder nos sons produzidos. Sasuke deu alguns passos e Naruto parecia ter ido em sua direção, não importava: qualquer um dos dois socou o outro e os sons de grunhidos de raiva e dor começaram, mesclando-se com o som de pele contra pele, quando duas pessoas querem se machucar. A música no vizinho de cima pareceu dobrar de volume, deixando a voz de James Brown embalar a briga entre os dois adolescentes e, ainda assim, Itachi ouvia o som do chuveiro ser desligado e um arquejar ao seu lado.

O mundo girava em uma série de sons indistintos que o enlouqueciam gradativamente. Aquele inferno nunca terminaria?

–SASUKE! –rugiu Shisui. –SOLTA JÁ ESSE GAROTO, MOLEQUE!

–NARUTO! –gritou a senhora Uzumaki ao seu lado, também ficando em pé. –O MEU FILHO NÃO SEU...!

Seu irmão e Naruto pareciam rolar no chão, e um dos dois acabou chutando a mesinha de centro na sala, derrubando o vasinho de flores artificiais; felizmente, era um vaso de plástico e não quebrou, mas Itachi o ouviu rolar para longe, enquanto os sons de socos e pontapés, gemidos de dor, ofêgos e maldições ficavam mais altos. Shizune correu até a senhora Uzumaki e Shisui correu até os garotos, em passadas largas, pesadas que ecoavam de um jeito perigoso.

–NÃO! –gritou Shizune em tom apreensivo, vindo em direção ao sofá em uma corrida breve, enquanto a briga continuava. –Não faça isso!

–ME SOLTA! –gritou a senhora Uzumaki. –Eu não vou deixar ele machucar o meu filho!

–MAS QUE PORRA! –gritou o vizinho. –EU VOU CHAMAR O SÍNDICO!

–SASUKE! –Itachi gritou com raiva, se levantando do sofá em um pulo. –Pare já com isso!

Seu irmão pareceu que se aquietou um pouco e um dos dois adolescentes se levantou, pelo som de alguém se libertando, Itachi poderia supor que era Naruto. A mulher de Minato andou até o filho, respirando desgovernadamente e soluçando. Naruto estava com a respiração entrecortada e seus músculos rangiam ao se mover; Sasuke devia estar do mesmo jeito, mas Itachi não conseguia saber onde o irmão estava. O que sabia era que a paciência de Shisui estava no limite e Itachi não queria ver o tio irritado. Não queria que Shisui e Sasuke brigassem ainda mais, porque isso seria ainda pior para ele. Mas o que poderia fazer para impedir?

–Naruto! Você está bem? –perguntava a mulher de Minato em um tom preocupado e falho. –Esse... Esse...!

–Shiii... Eu ‘tou bem, fique calma! –disse Naruto em um tom falsamente alegre. -Não chega nem perto do que passei quando aprendia artes marciais!

A porta do banheiro foi aberta e mal isso aconteceu e a garota gritou, assustando todo mundo na sala.

–O QUE ACONTECEU! SASUKE!

–Ah... Cala a boca! –disse seu irmão com raiva.

Caos. Aquilo tudo era um caos.

–Olha esse modo moleque...! –mandou Shisui com uma ira gélida, pisando tão forte no chão que o som ecoou perigosamente por todo o apartamento. –Ou então eu vou fazer você lavar essa boca com sabão!

–VOCÊ NÃO MANDA EM MIM! –berrou Sasuke em um tom de voz desafiador, em seguida rindo de um jeito maníaco, uma risada que Itachi nunca tinha ouvido antes e que sequer poderia relacionar ao seu irmão.

Sua cabeça parecia que ia explodir em mil pedacinhos e ficar grudada em todos os pedaços daquele apartamento minúsculo onde morava. Itachi não sabia precisar onde cada um estava, mas os gritos eram tantos, era tanto barulho que tudo o que ele queria era sair correndo e nunca mais voltar. Era coisa de louco!

–Karin, vem! –mandou a mãe de Naruto em um tom tão firme que nada parecia com o da mulher fragilizada de segundos atrás. Parecia outra mulher e alguém definitivamente perigosa.

–Aaaaah, você acha isso moleque? –murmurou Shisui em um tom perigoso demais.

–ME SOLTA PORRA! –Shisui fez alguma coisa que fez com que seu irmão gritasse em dor. –AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!

–Shisui larga a orelha do menino!

–NÃO VOU! –gritou Karin correndo do banheiro até o seu tio. –Solta ele!

–Não, você vem já! –mandou a mãe, indo até a filha, dando passos duros, mas muito mais suaves do que os de Shisui ou Shizune. –E você VAI me obedecer!

–Senta aí! –mandou Shisui e alguém sentou na poltrona a sua direita com um ruído abafado e um gemido alto de dor, enrouquecido na voz de Sasuke soou.

–Eu não...! –retrucou o irmão com raiva.

–Senta aí!

Era surreal. Doía tanto, era tão humilhante, tão estupidamente doloroso e não vívido, tão... Absurdamente real, estranho, repugnante! Havia tantas palavras e nenhuma delas conseguia dizer o quanto aquilo era horrível e o quanto machucava e tudo era um atentado a sua sanidade. Era uma dor que transbordava. Acima de tudo, era pavorosamente irônico porque ele perdeu tudo! Tudo! Estava cego, dependendo de um adolescente, seu irmão era um porra louca, seu tio sendo chantageado, ele doente, praticamente sem emprego, seu melhor amigo estava ferrado; era tanta desgraça...! E ainda tinha tudo aquilo acontecendo e...

Uma gargalhada forçada, sem vida e totalmente alucinada escapuliu dele sem que ele pudesse se controlar. Não havia nada para rir, tudo era tragédia, tudo doía; tudo lhe deixava menos como ele era, como ele foi um dia. Itachi ria, sentindo suas pernas e mãos tremerem e a gravidade se encarregar de fazê-lo tombar para trás; ninguém falou mais nada, deviam estar olhando para ele com caras assustadas.

Imaginar a cara de Shisui, Shizune e Sasuke espantados com ele tirou o seu fôlego de tanto rir, ao mesmo tempo em que lágrimas teimosas escorriam de seus olhos uma depois da outra, transformando a sua gargalhada em soluços chorosos, repletos de dor e tristeza e desapontamento e... Tudo.

–CHEGA! –gritou Naruto com sua voz transformada pela dor, desespero e pânico.

Itachi parou de rir e tentou a todo o custo respirar normalmente, sentindo o rombo formado dentro dele latejar.

–ANDA KARIN! VEM! –mandou Naruto em tom urgente. E a garota deu uns passos para trás.

–T-tá... –murmurou ela com a voz fraca.

–Eu amanhã vou estar aqui, pela manhã. –disse Naruto com a voz branda, mas Itachi notou que o garoto estava chorando e isso fez com que ele desmoronasse um pouquinho mais. O Uzumaki colocou a mão no seu ombro, apertando-o de leve. –A gente se vê, chefe.

Itachi segurou a mão de Naruto no seu ombro por uns breves instantes, percebendo como os dedos do outro tremiam ao tentar segurá-lo, tentando passar uma firmeza que não possuía; isso lhe fez se sentir patético por não conseguir lidar com a dor emocional e, de alguma forma, lhe fez ter consciência de que precisava ficar ainda mais forte para lidar com tudo aquilo. Principalmente porque, mais do que nunca, Itachi teve consciência de algo: ninguém ali sabia o que fazer. Todo mundo estava perdido. E todo mundo só queria um caminho de volta.

Ter consciência disso era quase como ter consciência do que precisava ser feito e isso o acalmou o suficiente para dar um breve sorriso.

–Até amanhã, Naruto-kun.

–HEY! –berrou Sasuke, tentando se levantar de novo.

–Fica aí! –mandou Shisui com raiva.

–Certo... –murmurou Naruto com a voz um tiquinho menos dolorida. -Vamos!

Com passos mais tranquilos, os três membros da família Uzumaki deixaram o apartamento, fechando a porta em um baque suave. A situação continuava grave do mesmo jeito, mas, ainda assim, Itachi sentia que as coisas poderiam mudar a partir dali. Ele se agarrou nesse pensamento e a certeza de que continuaria a seguir em frente, sem vacilar.

.....................................

–Sasuke, vá tomar banho. –disse Shisui logo depois que a família Uzumaki saiu da casa. Itachi meramente se ajeitou no sofá, se virando em direção onde achava que o tio e o irmão estavam.

Shizune delicadamente se sentou ao seu lado e a música baixa do vizinho, uma baladinha romântica chamada “Woman” soava totalmente fora de contexto naquelas circunstâncias. Ainda assim, aquele som suave lhe acalmava um pouco. Itachi inspirava lentamente, escutando o irmão bufar vez ou outra e Shisui permanecer em silêncio, o que era um enorme indicativo que quando explodisse a coisa ia ser feia.

Shisui era um homem extremamente calmo, que normalmente conseguia tudo o que desejava na base da conversa e da lábia, mas quando ficava irritado... Digamos que era algo que Itachi não gostaria de ver. E seu tio estava muito próximo do limite, o puxão de orelha em Sasuke era uma prova disso.

–Eu não...! –resmungou Sasuke em um tom engrolado e furioso.

Itachi ouviu seu tio inspirar profundamente e ele quase antevia o esporro que seu irmão ia ganhar de Shisui e como o vizinho provavelmente chamaria o síndico e aí tudo poderia ficar ainda pior do que estava. Nunca, nunca mesmo Itachi subestimaria as leis de Murphy: tudo sempre podia ficar pior e ele não gostaria disso.

–Mesmo sendo eu pedindo? –ele se meteu na conversa.

Houve um momento de silêncio, onde a tensão era quase palpável, que encerrou com um suspiro profundo do seu irmão mais novo.

–Certo...

Sasuke se ajeitou desconfortavelmente no sofá, sua respiração ficando mais branda até que Itachi deixou de escutá-la, provando que seu irmão tinha se acalmado. Uma batida suave na porta chamou a atenção dos presentes e Shizune foi atender. Era o síndico perguntando se havia algum problema ali; todos ficaram em silêncio enquanto sua tia contava uma mentira bem intencionada. Eles levaram uma advertência do síndico e logo ficaram sozinhos novamente.

Enquanto isso, Sasuke foi até o banheiro e tomou banho. A porta foi fechada e ele sentiu o tio se sentar ao seu lado; Shisui respirava lenta e profundamente, se sentando com as pernas bem abertas, o que indicava que, provavelmente, estava puxando os cabelos.

–Você vai ficar careca se continuar isso. –disse Itachi tentando amenizar o humor do tio.

–Não enche!

–Será que eu vou mesmo ter que puxar a orelha de vocês dois? –ralhou Shizune. –Não é o momento!

A tia caminhou até o sofá, nos seus passinhos rápidos e pouco audíveis e se sentou ao lado do marido; os três se espremeram no mesmo sofá, aguardando o mais novo sair do banho. “Woman” encerrava seus últimos acordes quando a porta do banheiro foi aberta, liberando um suave perfume de sabonete barato.

–Senta no sofá. –mandou Shisui em um tom um pouco mais calmo.

–Eu não quero ela aqui! –disse Sasuke em tom agressivo tampouco obedecendo Shisui.

–Ela é minha esposa e nossa família, agora senta esse seu traseiro no sofá e desembucha! –mandou Shisui, aumentando o tom de voz.

–Shisui...! –ralhou Shizune em tom baixinho.

–Não ‘tou a fim de falar! –disse Sasuke em tom alterado, dando um soco no encosto da poltrona. –Não com ela aqui e nem você!

–Sasuke, você sabe que nós só queremos te ajudar, não é? –tentou Shizune em uma voz suave e melódica.

–Olha aqui mulher, você não tem nada a ver com o assunto! –disse Sasuke em um tom de voz agressivo que fez Itachi ficar envergonhado. -Então cala a porra da boca se não...!

E o que Itachi mais temia aconteceu: Shisui se levantou do sofá e em duas passadas rápidas alcançou seu irmão e lhe deu um soco que fez Sasuke cair no chão. Shizune imediatamente se levantou do sofá e foi até o marido. Itachi ficou de pé, tateando pelo sofá e indo até a poltrona a sua direta, parando atrás do tio. Ele estava tão preocupado que até esqueceu o ferimento no seu pé, pisando com força no chão, tentando ir até onde escutava os sons de respirações pesadas.

–Shisui! –gritou Shizune. –Para! É só um garoto!

–Escuta aqui moleque, você pensa que é quem pra bancar o bonzão? –disse Shisui ignorando a esposa. -Você é apenas a droga de um garoto de dezessete anos fazendo idiotice por cima de idiotice! Nós somos a sua família e não qualquer amiguinho ou namoradinha que você tem! –rugiu Shisui em voz alta, mas dessa vez mais controlado. –Então é melhor dar o devido respeito ou eu juro que vou fazer que nem a minha irmã e dar umas boas palmadas em você!

–Shisui pare com isso. Violência não vai ajudar em nada, me deixem falar com ele. –disse Itachi em tom calmo. –Por favor.

–Acho uma ótima ideia! –concordou Shizune em um tom exasperado. –Nós vamos ficar no quarto e vocês conversem aqui. Qualquer coisa nos chame Itachi!

–Mas...! –ainda tentou Shisui.

–Mas nada! –mandou Shizune em tom decisivo. -Vem!

–Eu cuido disso. –tranquilizou Itachi.

–Certo...

Itachi tateou ao seu redor até encontrar o encosto do sofá e por ele se guiar até o assento, enquanto seus tios caminhavam tranquilamente até o quarto, fechando a porta em seguida em um baque suave. Sasuke ficou quieto esse tempo todo e Itachi agradeceu. Ele se sentou e esperou o irmão mais novo dizer alguma coisa, mas o silêncio não foi quebrado.

Agora que as coisas acalmaram um pouco mais, Itachi deu um longo suspiro, sentindo seu pé doer muito, mas não se importando com a dor; Sasuke era a sua prioridade no momento. Nada conseguiria desviar o seu foco daquela conversa.

–Por que, Sasuke? –inquiriu Itachi com a voz baixa.

Seu irmão não respondeu. Mas ele podia ouvir os calcanhares de Sasuke baterem de leve na poltrona, como se estivesse balançando os pés igualzinho quando fazia quando era criança. Na sua mente, Itachi imaginava o Sasuke de seis anos, sentado na cadeira de espaldar do pai, balançando as perninhas agitado. Mas aquele menino não existia mais, só restavam vestígios dele.

No andar de cima, James Brown caprichava nas notas longas do único verbo que Itachi desejava que Sasuke conjugasse: Pensar.

(Think about the sacrifices that I made for you.

Think about the good things I done for you.

Now think of all the bad things I tried not to do baby, baby

Pense sobre os sacrifícios que eu fiz por você.

Pense sobre as boas coisas que fiz por você

Agora, pense em todas as coisas ruins que eu tentei não fazer, querida, querida)

Era quase como uma piadinha particularmente ruim precisar ouvir aquela música justamente naquele momento, porque Itachi desejava que Sasuke pensasse, nas coisas boas, nas coisas ruins; em tudo. Ele queria respostas do seu irmão, então... Por que ele estava com tanto desespero?

Itachi pensava que para tudo no mundo existia um limite. A morte era o limite da vida, a separação era o limite da dor e havia outras limitações, inclusive para sentimentos. Porém... Quanto mais ele pensava no desespero que sentia por Sasuke estar naquela situação e por todas as tragédias que aconteceram naquele único dia, Itachi não conseguia encontrar um limite para a dor que conseguia ter em sua vida. Ainda assim, que escolha ele tinha, além de seguir em frente, não importando o quão ruim tudo poderia ficar?

Sasuke, seu irmão, valia a pena. Ele não poderia desistir no meio do caminho e, mesmo que estivesse profundamente cansado, ele seguiria em frente. Havia algo de irônico naquilo tudo: seu sentimento de exaustão era quase tão profundo quanto à dor e isso meio que o anestesiava; era uma dormência tão grande que ele se perguntava se estava tudo bem consigo mesmo. Precisava estar bem para ajudar Sasuke, mas... Era tudo tão difícil...!

(Think of all the wrong things you did to me too!

Come on!

Pense em todas as coisas erradas que você fez comigo também!

Vamos lá!)

Sasuke não dizia nada.

–Seja franco comigo, irmãozinho. –continuou Itachi após não obter nenhuma resposta e guiado pelo som da música. –Você já pensou alguma vez sobre o que você faz se drogando? Tomando bebida alcoólica?

O som das batidinhas na poltrona cessou e durante um minuto inteiro, tudo o que ouviram foram os acordes da melodia e a voz de James Brown ecoando. Mesmo Shisui e Shizune estavam profundamente silenciosos no quartinho, provavelmente ouvindo tudo o que era dito. Itachi queria ouvir a voz do irmão, queria esclarecer as coisas, talvez entendê-lo e ajudá-lo de algum jeito.

Mas, ao mesmo tempo, uma parte dele estava com muito medo de ouvir o que Sasuke tinha a dizer. E se a culpa fosse mesmo dele por ser um irmão mais velho ausente? Itachi tinha consciência que fez muitos sacrifícios por Sasuke, mas seu irmão sabia disso? Se ele pensasse muito sobre isso, ele conseguia perceber que havia muitos “nãos” na convivência diária deles. Não ter dinheiro o bastante para comprar aquela camisa que Sasuke gostou, o que lhe fazia ter diversas horas extras para comprar algumas poucas peças de roupa nas férias. Havia diversos passeios negados pela falta de dinheiro ou tempo, muitas horas perdidas com sono ou estudo quando poderiam ficar juntos e tantas outras coisas... Seria culpa dele?

Itachi tinha medo que sim. Porque era frustrante ter feito o melhor que podia e mesmo assim ter falhado, especialmente em algo que não podia falhar.

(Think~about the good things baby.

Think~about the wrong things maybe.

Think~baby about the right things

Pense ~ sobre as boas coisas, querida

Pense ~ sobre as coisas ruins, talvez

Pense ~ querida, sobre as coisas certas)

–Sasuke... -iniciou Itachi com a voz vacilante. –Eu não fui um bom irmão? É isso?

Dessa vez, seu irmão fez algum barulho soltando o ar pelo nariz com força, como se estivesse rindo de uma piada e fosse censurado. Itachi não entendeu o gesto e esperou pacientemente. Sasuke permaneceu silencioso durante algum tempo e a música continuava, mas agora Itachi já não prestava mais atenção: porque o seu maior medo foi revelado e seu irmão não parecia se importar com mais nada. Nem com o que era certo, nem com o que era errado, nem mesmo com seus sentimentos.

Isso machucava mais do que ele queria admitir.

O Sasuke que estava diante de si era alguém tão diferente da criança que ele lembrava. Itachi só podia pensar que teria que matar as lembranças que tanto amava, se quisesse fazer com que aquele indivíduo que não conhecia voltasse a, pelo menos, reconhecê-lo. Sasuke mudou, era outra pessoa; as drogas, a bebida, a dor, o que quer que fosse, mudou seu irmão.

Itachi passou a mão pelos cabelos com força, em seguida escondendo o rosto atrás das palmas das mãos. Não sentia vontade de chorar, ele só estava profundamente cansado e sentindo uma dor de cabeça excruciante. Tudo o que ele mais queria no momento era tomar uma dose cavalar de dipirona e tentar resolver aquele problema. Porque para tudo existia um jeito e a maneira de salvar Sasuke, seria aceitando essa nova pessoa que seu irmão se tornou e tentar fazê-lo enxergar com os próprios olhos os erros que cometia.

–Não... –disse Sasuke depois de muita espera.

Ele descobriu o rosto, se virando na direção onde o som baixo da voz do irmão soou. Esperava alguma outra manifestação de Sasuke, mas apenas o que ouviu foi apenas o som de um trovão ao longe; uma tempestade se iniciava.

–Você é um bom irmão, só que...

–O que?

–Eu não sei! –gritou Sasuke se levantando. –EU NÃO SEI!

–Por favor, não grite. –pediu Itachi com a voz branda. –Eu só quero entender você pra poder te ajudar.

Isso fez com que seu irmão imediatamente se calasse e um silêncio incômodo reinasse durante alguns segundos; Itachi tinha quase certeza que aquelas palavras tinham ido para o lado errado do cérebro do seu irmãozinho, que iria encontrar algum jeito de distorcê-las. O vizinho devia ter abaixado o volume ou a tempestade tinha ficado mais intensa, Itachi não sabia estimar qual, apenas sabia que todo o cansaço diário e o som da chuva estavam lhe deixando com sono. Ainda assim, algo lhe dizia que Sasuke iria fazer mais alguma coisa para que ele se sentisse como um lixo humano.

–Então fica comigo! –implorou Sasuke se sentando no sofá ao seu lado. –Me ame como eu amo você! Se fizer isso eu faço qualquer coisa que me pedir, Itachi. De verdade!

Oh, às vezes Itachi odiava estar certo! Sasuke realmente conseguiu fazê-lo se sentir ainda pior. Ante aquelas palavras, Itachi apenas suspirou com tristeza, sentindo-se um inútil em tentar ajudar o irmão. Como é que poderia fazer Sasuke entender que ele nunca conseguiria enxergá-lo como um parceiro sexual? Na sua cabeça, Sasuke sempre seria o irmãozinho que ele ajudou a criar, deu mamadeira, trocou fraldas, contava estórias antes de dormir e brincava de carrinho. Sasuke jamais seria uma pessoa com quem ele imaginaria beijar ou outras coisas e, francamente, essa ideia lhe dava ânsia de vômito.

Como dizer isso ao seu irmão? Como dizer isso sem machucá-lo ou fazê-lo ficar ainda mais longe dele?

–Você sabe que eu faria qualquer coisa por você, não é? –disse Itachi. Sasuke assentiu com um “aham” tímido; Itachi estendeu a mão e conseguiu tocar no rosto do irmão caçula, sentindo que Sasuke se aconchegava no seu toque. –Mas essa é a única coisa que eu não posso fazer por você, otouto.

Sasuke inspirou com força, afastando sua mão com brutalidade e se levantando do sofá com brusquidão. Itachi suspirou resignadamente, enquanto seu irmão pisava com força no chão, andando de um lado para o outro.

–Por quê? –inquiriu Sasuke com raiva. –Se é pela droga, eu paro! Se é pela bebida, eu paro também! Por que você não quer ficar comigo?

Por onde ele começava? Pelo fato de serem irmãos? Talvez devesse dizer que começou antes mesmo de Sasuke nascer, porque ele sempre quis ter um irmãozinho menor para cuidar porque queria ser igual a Shisui. Também deveria dizer que ele era uma pessoa que simplesmente não conseguia se apaixonar por alguém? Por mais que dezenas de mulheres e alguns homens tentassem se aproximar dele sexualmente, Itachi não conseguia sequer uma ereção com essas pessoas? Que mesmo com a sua única namorada ele teve grandes dificuldades em se sentir apaixonado? Ele até falhou nisso! E do que adiantaria se tudo isso não serviria para que Sasuke compreendesse que Itachi definitivamente não conseguiria amá-lo daquele jeito, pelo simples fato de que Itachi não podia.

Nem se tentasse! E, mesmo assim, Itachi não queria tentar. Porque ele já se sentia um lixo do jeito que estava, se fizesse isso pelo irmão seria menos que o lixo. Itachi amava Sasuke, daria a vida por ele, mas não podia abrir mão de si mesmo pelo irmão. Não poderia deixar de ser quem era, nem por Sasuke.

–Eu nunca conseguiria deixar de te ver como irmão, Sasuke. –respondeu Itachi com o tom de voz mais doce que podia. –E eu não acho que seria justo com a memória da mamãe. Você acha que ela iria querer que os dois filhos dela ficassem... Assim?

–Ela ia querer que a gente fosse feliz! –gritou Sasuke com exasperação.

“Nem passou pela sua cabeça que eu não seria feliz?” pensou Itachi, analisando o egoísmo do irmão. Sua mãe tinha uma frase para a definição de casamento: “casar não é para ser feliz, mas para um fazer o outro feliz. A felicidade é uma extensão do cuidado.”. Sasuke estava esquecendo até mesmo do que eles eram como família, em razão... Do quê? O que aconteceu na vida do seu irmão nesse meio tempo para esquecer até mesmo disso?

Naquele momento, Itachi não tinha outra alternativa a não ser tentar reunir seus fragmentos e tentar pensar racionalmente, usando uma máscara de indiferença que não sentia. Era o único meio de proteger o seu coração e encontrar alguma saída para eles, para preservar o laço que tinham como família antes que fosse tarde demais.

–Você não era feliz antes?

–Eu não sou feliz, Itachi. –disse Sasuke com uma voz tão ressentida que lhe machucou um pouco mais naquela noite. -Eu nunca fui! Sempre faltou algo!

–O que?

–EU NÃO SEI! –gritou Sasuke desesperado. –EU NÃO SEI!

–Sasuke... A culpa é minha? –perguntou Itachi. –Por você...

–Eu não sei porra! –gritou Sasuke. –ISSO DÓI! ESSA VIDA DÓI!

–É por isso você foge dela?

Sasuke apenas chorou, sequer dando-se ao trabalho de lhe responder. Naquele instante, Itachi viu o seu limite ser extrapolado. A dor que sentia era tanta que o tornava quase insensível, apático a qualquer outra nova revelação que pudesse quebrá-lo ainda mais. O desânimo tirava todas as suas forças, deixando seu corpo inteiro travado e dolorido; ele queria dormir. Dormir e não ser perturbado, talvez por dias. Itachi não estava pedindo muito, dessa vez, era um mimo bem simples.

–Onde foi que eu errei com você? –Itachi insistiu.

Seu irmão soluçava alto, respirando e fungando para impedir que o catarro saísse. Diversas lembranças, recordações de um tempo que parecia tão distante quanto uma vida passada invadiam sua mente. Quando Sasuke caiu da bicicleta e ralou o joelho, ele chorou tanto, mas tanto quanto naquele momento.

–Se você não me ama... Por que se importa tanto comigo?

–Eu amo você.

–Mentira! –gritou Sasuke. –Se me amasse, ficaria junto de mim!

–Eu amo você, você é meu irmão. –disse Itachi com simplicidade. –Eu amo você e eu quero ajudar você...! Eu preciso que você queira aceitar a minha ajuda...!

–Isso dói! –berrou Sasuke desesperado. –Isso dói muito nii-san!

Itachi apenas abriu os braços e Sasuke correu em sua direção, se jogando contra seu corpo com força e fazendo seus ferimentos latejarem, ainda assim Itachi não reclamou da dor física, quando estava se sentindo tão profundamente deprimido que nada mais parecia lhe abalar. Ele acolheu Sasuke em seus braços, como a criança que seu irmão sempre seria na sua cabeça (mesmo que às vezes parecesse um desconhecido), abraçando-o apertado.

–Você sempre poderá contar comigo... –Itachi sussurrou. –Eu sempre estarei lá por você...

O cabelo de Sasuke ainda estava molhado, cheio de nós e pareciam mais grossos sobre seus dedos. As lágrimas do mais novo caiam na sua roupa, molhando-o, seu irmão tremia dos pés a cabeça, soluçando baixinho enquanto fungava vez ou outra. Era apenas uma criança machucada e com medo do escuro; o pobre adulto também estava com medo do escuro. Será que havia um meio daquilo parar?

–Eu sempre serei o seu lar... –murmurou Itachi com a voz mais gentil que podia. –Me ajude a te ajudar, irmãozinho.

Sasuke ficou em silêncio, chorando baixinho até que adormecesse. Suas costas reclamavam do encosto do sofá e do peso de Sasuke sobre si, ainda assim Itachi não se moveu. A tempestade minimizou e uma música soava lentamente no andar de cima, algo que lhe lembrava vagamente de Armstrong, mas Itachi não conseguiria ter certeza. O estresse e a fadiga do dia finalmente cobravam o seu preço. Sasuke, ao menos, estava em seus braços, estava seguro por algum tempo. Talvez suas palavras tivessem alcançado o coração dele. O sono vinha chegando, minimizando seus sentidos e a sua capacidade cognitiva ao ponto dele pensar que se, talvez, ele fizesse um pedido para as estrelas, talvez seu desejo de salvar Sasuke fosse atendido.

Talvez seu desejo fosse realizado.

E Itachi adormeceu.

.....................................

Em um momento ele estava profundamente adormecido e no outro estava gritando com a dor aguda e intensa em sua canela esquerda. Itachi acordou assustado, tentando mover a perna e sentindo mais dor, se isso ainda era possível. Era como se estivessem comprimindo sua carne de dentro para fora e cada mínimo movimento parecia gerar mais e mais dor. Maldito frio que dava cãibra!

–Itachi! –gritaram duas vozes na sala e alguém caiu no chão enquanto outra pessoa vinha rapidamente para o quarto.

Em meio a bagunça matinal, Itachi conseguiu esticar a canela e a dor cessou quase que imediatamente, lhe dando um alívio imediato enquanto a porta era aberta.

–Itachi, o que houve? –perguntou Shizune com a voz alarmada e ligeiramente sonolenta.

–Cãibra! –respondeu Itachi ainda com sono, embora sua mente, já mais desperta, estivesse percebendo que ele estava na sua cama e não no sofá, embora sua última memória da noite anterior tenha sido dormir no sofá com Sasuke no seu colo. –E Sasuke?

–Tinha um DVD aqui ontem, não tinha? –perguntou Shisui no outro cômodo.

Sua mente estava mais lenta que o habitual, mas seus instintos estavam como sempre foram e Itachi não tinha um bom pressentimento quanto a isso. Não era apenas a maldita cãibra, mas todos os pequenos elementos daquela maldita manhã.

–Ele... Ah não! –murmurou Shizune ficando desesperada. –Shisui!

–O que...? –disse Shisui abrindo ainda mais a porta do quarto. –Que...! Esse moleque!

–Onde está o Sasuke? –perguntou Itachi ficando completamente desperto e se levantando da cama bruscamente, sem se importar com seus ferimentos. –Ele saiu?

O aparelho de DVD sumido. Sasuke sumido. Não... Será? Fazia sentido. Será...? Será que seu irmão...? Itachi não queria acreditar nisso, não depois da conversa que tiveram ontem.

–Fique aqui com o Itachi! –disse Shisui ignorando-o completamente. –Talvez ele não tenha saído faz muito tempo.

–O que está acontecendo? –perguntou Itachi com a voz alta, mas o tio apenas saiu do quarto pisando pesado e batendo a porta da entrada com um estrondo alto. –Shizune... meu irmão fugiu?

A tia não disse nada e o seu silêncio apenas confirmava o que Itachi já sabia: Sasuke roubou o aparelho de DVD e sumiu da sua vista mais uma vez. Constatar isso e lembrar de todo o inferno da noite anterior fez com que Itachi se desabasse no colchão sem se importar novamente com os ferimentos ou qualquer outra coisa no mundo.

–Itachi... Por favor, não faça isso...! –murmurou Shizune com a voz fraca. –Seus ferimentos ainda não estão...!

A sensação era como estar afundando em um mar de desespero e dor, não a dor física de uma cãibra ou o latejar incessante dos ferimentos, nem mesmo a coceira que sentia em ambos os seus olhos, e as duas marcas em seu rosto, mas uma dor tão profunda e desalentadora que Itachi se sentia sem forças. Ele estava desabando e por mais que não quisesse se sentir fraco e impotente, isso era inevitável.

–Shizune... –ele pediu tentando controlar sua voz. –Você pode me deixar sozinho por um tempo?

A tia fungou baixinho, murmurando um “uhum” antes de fechar a porta em um baque suave. Itachi ainda aguardou alguns instantes antes de permitir que as lágrimas inundassem seu rosto, uma após a outra. Chorar era algo comum após seus olhos perderem a capacidade de enxergar graças aquela bendita película chamada “córnea”, era apenas um sintoma natural para que seus olhos ficassem menos irritados. Entretanto aquelas lágrimas também tinham outra finalidade.

Inevitavelmente, Itachi se lembrou da sua mãe. Fazia muitos anos, ele devia ter uns cinco anos talvez menos, mas ele lembrava bem daquela tarde bonita de verão. Era o tempo de férias e isso era fácil de perceber pela quantidade de pipas no céu azul, Shisui sempre fazia umas pipas bonitas para ele e havia uma infinidade de cores no céu. Itachi sempre gostou de olhar o céu nessa época do ano, mas naquele ano a moda era usar uma pasta de vidro chamada cerol nas linhas das pipas e houve muitos ferimentos.

Graças a uma linha com cerol, um passarinho azul teve a asa machucada e caiu bem no quintal onde moravam. Sua mãe tentou o possível para que o passarinho vivesse, mas no fim o bichinho não sobreviveu e Itachi se lembrava de ter chorado muito nesse dia. Seu pai, ao vê-lo chorando, lhe disse que “homens não choravam”, mas sua mãe mais tarde lhe disse que as lágrimas eram o primeiro passo para superar tudo, mas por ele ser um homem, ele não devia deixar que ninguém lhe visse chorar.

“Será que vai melhorar?” pensou Itachi limpando o rosto e dando um pequeno soluço, para em seguida se cobrir até a cabeça. Estava frio e as pessoas lá fora faziam o mesmo barulho de sempre: passos acelerados, buzinas e o vento batia na sua vidraça. Havia muitos sons de risos, afinal, era época de comprar presentes para o natal. Era estranho pensar que existia gente sorrindo quando Itachi mal conseguia se lembrar de sorrir e, ao mesmo tempo, isso lhe dava uma grande consciência de si: não importava o quão ruim as coisas ficassem, o mundo não iria parar por isso.

Ele não deveria parar, devia seguir igual o mundo. Tudo bem tirar um tempo para si e sofrer em silêncio, mas isso não devia durar. Não só porque “tempo” era artigo de luxo, mas porque era um tempo gastado de forma inútil. Refletir no “por que” era ficar estático em uma luta e isso era perder sem antes tentar.

O que ele esperava? Que na primeira conversa seu irmão resolvesse sair do fundo do poço? Não era tão simples. Mudar era mais difícil que isso, tomar decisões grandes como “mudar” exigiam tempo, maturação e uma boa dose de coragem e apoio. Sasuke estava quebrado. Seu irmão estava com medo e ainda não estava pronto para parar de fugir, assim como ele não estava pronto para o primeiro “não” e para as primeiras adversidades.

Seu erro foi pensar que conseguiria isso em pouco tempo, que bastaria uma conversa para esclarecer as coisas. Não, não poderia ter essa postura. O mundo não era bom, mas também não era mal; no fundo o mundo é só insensível. Só lhe restava fazer a sua parte e não desistir no primeiro momento e persistir diante dos outros “nãos” que iria receber. E de outros tantos baques que viriam.

Ás lágrimas caíram lentamente pelo seu rosto, ensopando seu travesseiro e Itachi soluçava baixinho, evitando fazer barulho. Seu nariz estava escorrendo e sua cabeça estava com a familiar sensação de queimação. Algumas batidinhas na porta do seu quarto fizeram com que ele limpasse o rosto com mais rapidez, antes de murmurar um “entre” embargado.

–Itachi, eu pedi para que Naruto viesse agora de manhã. –disse Shizune com a voz baixa e Itachi estava apático para aquela informação. –Shisui precisa ir para o trabalho e eu vou procurar o Sasuke no lugar dele, ok?

Ele apenas fez um leve aceno com a cabeça dizendo que compreendeu o assunto e lentamente se ergueu da cama, mecanicamente recebeu uma muda de roupas, foi ao banheiro e tomou banho, se vestindo, pouco se importando se a roupa estava ao contrário. Itachi foi até o sofá e ficou lá, em silêncio, ouvindo a tia perambular pela sala durante algum tempo até que o telefone tocasse.

–Alô? –ela atendeu com a voz preocupada. –Sim, é da casa dele. Sou a tia dele!

Imediatamente Itachi ficou alerta, se virando rapidamente para a sua direita onde ficava o telefone, tentando forçar seus ouvidos a escutarem o que a outra pessoa falava, mas a ligação estava ruim. Mesmo Shizune precisava falar alto.

–Delegacia?! –disse a tia com agonia. Itachi engoliu um seco, inconscientemente apertando mais o encosto do sofá. –Só um momento, eu vou anotar o endereço!

O som de uma gaveta sendo remexida e logo uma caneta ou lápis, não importava, rabiscando em algo preencheu sua casa, enquanto sua tia murmurava “aham”. Itachi mal percebeu que prendeu a respiração, esperando apreensivamente a tia parar de falar “aham” e lhe explicar qual era o problema da vez.

–Eu estou indo pra aí! –disse a tia em tom alto. –Até mais!

–Shizune, eu também vou! –disse Itachi se erguendo.

–Não pode! –gritou Shizune exasperada. –Seu diagnóstico de lesões foi reportado pelo hospital como lesão muito grave e a polícia foi acionada, se você for, eles vão associar elas ao Sasuke!

Ela tinha razão: ele não podia ir. Era um procedimento padrão saber a origem dos ferimentos nos hospitais para o tratamento, dependendo do tipo de lesão feita, a polícia era comunicada (1). Por isso que Sasuke não pôde lhe visitar nenhuma vez na internação. Mais uma vez naquele dia, ele não podia fazer nada.

Todas suas forças se esgotaram rapidamente outra vez, Itachi soltou o encosto do sofá, abaixando a cabeça de um jeito derrotado, as lágrimas ameaçando cair outra vez, mas ele se conteve. Não poderia chorar todas as vezes que coisas assim ocorressem: precisava estar forte para ajudar Sasuke. Shizune deu passinhos rápidos para perto do sofá e inesperadamente, Itachi viu sua cabeça ir de encontro aos seios pequenos da tia enquanto os braços dela rodeavam seus ombros e sua cabeça.

Ela não disse nada, tampouco ele quebrou o silêncio ou se moveu. Sua mãe também tinha essa mania de abraçar a cabeça alheia, Itachi queria muito que ela estivesse ali, mas Shizune conseguia passar algum conforto; sua tia seria uma excelente mãe quando a hora chegasse. A companhia tocou e sem dizer nenhuma palavra sobre o ocorrido, sua tia foi abrir a porta.

–Bom dia Shizune-san! –disse Naruto com uma voz bem humorada, embora Itachi sinceramente não entendesse como o mais novo pudesse estar bem após o que ocorreu na noite passada.

Os passos largos e tranquilos de Naruto soaram por alguns instantes, enquanto sua tia passava algumas instruções ao mais novo, trocando telefones e passando algumas dicas vergonhosas que fizeram Itachi bufar em indignação mesmo após todo o choque das últimas horas.

–Naruto-kun, por favor, cuide dele, sim? –disse sua tia, abrindo a porta de entrada.

–Pode deixar! –o mais novo respondeu se aproximando do sofá.

A porta se fechou com um clique suave e o sofá afundou ao seu lado. Imediatamente o cheiro de sabonete de flor de laranjeira invadiu suas narinas junto ao perfume de xampu de camomila.

–Bom dia Itachi-kun.

–Oi.

–Desculpa a sinceridade, mas você está com uma cara péssima! –comentou Naruto com uma franqueza absurda. –Sasuke aprontou outra, não foi?

Itachi permaneceu em silêncio. Se possível, não gostaria de falar sobre o assunto, não enquanto estava tão preocupado com o seu irmão. Será que o levariam para algum reformatório ou algum daqueles abrigos para menores infratores? Como Shisui reagiria ao saber que Sasuke estava na delegacia? Pior, se seu tio tivesse escutado a conversa da noite passada, possivelmente iria tirar satisfações sobre o gostar de Sasuke! E isso conseguia ser ainda mais problemático do que a situação que enfrentava agora.

Ele afundou no sofá, passando a mão nos cabelos de forma apreensiva, sem sequer se importar com a visita ao seu lado.

–‘Tá a fim de escutar música pra relaxar um pouco? –perguntou Naruto preocupado. –Ou você quer que eu leia um pouco de “as crônicas de gelo e fogo”? Eu trouxe o livro dois e o três.

Naruto se ajeitou no sofá, pois Itachi conseguia sentir o joelho do Uzumaki roçando sua perna, mas ele não conseguiu forças para se livrar do contato e, no fundo, ele pouco se importava com isso. O que ele mais queria era saber informações de Sasuke naquele momento, qualquer coisa que fosse. A angústia de não saber era uma das piores coisas que sentia, porque isso só ressaltava o quanto ele era...

–Inútil.

–O quê? –inquiriu Naruto com curiosidade, se movendo no sofá e fazendo um rápido ruído alto com uma almofada que parecia estar sendo comprimida.

–Não é nada. –disse Itachi balançando a cabeça em negação, se afastando um pouco mais do adolescente.

Durante alguns instantes, Naruto ficou em silêncio total até que deu um suspiro profundo, ajeitando-se no sofá. A parte superior do sofá tremeu um pouco quando o adolescente deitou a cabeça ali, Itachi se manteve quieto, perdido em sua preocupação.

–Você quer sair um pouco daqui? –perguntou Naruto com a voz baixa e preocupada.

A pergunta o surpreendeu.

–E ir pra onde? –inquiriu Itachi com a voz resignada.

–Tem um parque bem do lado da sua casa! –respondeu Naruto desacreditado. –Nesse horário não tem muitos carros e hoje está uma manhã nublada, daí a luz não vai irritar muito os seus olhos, eu acho.

–Shizune pode ligar a qualquer momento com notícias. –retrucou Itachi, sem realmente se importar. –É imprudente.

–Não estou falando de ficar a manhã inteira lá, só pra você sair e respirar um ar diferente do desse apartamento. –contra-atacou Naruto com habilidade. –Eu estou aqui há menos de cinco minutos e eu sinto como se fosse sufocar! E eu sei que você está pior, ‘tá evidente pela sua cara de morto! Ânimo cara, não pode arregar na primeira queda!

Bem que Itachi queria ignorar aquelas palavras impertinentes, mas não conseguiu. Naruto, apesar dos pesares, ainda era um adolescente que não tinha uma trava entre o cérebro e a língua, por isso dizia aquelas besteiras sem tamanho. Itachi franziu os lábios em desgosto e ouviu uma leve risada nasal no outro, que lhe deixou um pouquinho irritado.

–Quem está 'arregando'? –ele inquiriu contrariado.

–Ótimo! Agora me diz onde você guarda as jaquetas, senhor, porque nós vamos dar um passeio! –disse o garoto com um bom humor quase contagiante.

–Eu não sou um senhor. –murmurou Itachi antes de dar um suspiro resignado. –Primeira porta a esquerda no guarda-roupa do quarto.

O mais novo se levantou do sofá em um pulo, caminhando rapidamente pelo apartamento e indo até seu quarto, voltando rapidamente e lhe fazendo vestir um blazer, o qual ele normalmente usava para ir para a faculdade quando tinha apresentação ou seminário.

–Por via das dúvidas, eu vou te emprestar meu óculos de sol! –disse Naruto, caminhando até o sofá de novo e depois lhe enfiando o tal óculos. –Que injusto! Ele fica melhor em você que em mim!

Não que Itachi se importasse com aparência, nem mesmo com óculos de sol, mas havia alguma coisa no tom de voz de Naruto que era definitivamente engraçado. Talvez porque o mais novo parecia realmente contrariado com esse fato, talvez porque deu uma bufada tipicamente infantil, o que importava é que Itachi quase sorriu. Era difícil ficar zangado ou bravo com alguém tão espontâneo quanto Naruto. O mais novo parecia uma daquelas pessoas especiais que apaziguavam o ambiente só por estarem ali, tipo Shisui quando não estava irritado.

–Nós vamos ou não vamos? –ele perguntou, achando isso mais seguro do que uma risadinha pelo comentário anterior.

–Ficou empolgado, é? –provocou o garoto.

Para si mesmo, Itachi podia admitir que sim, estava um pouco interessado na possibilidade de sair de casa, pelo menos, por alguns minutos. Não havia nada que ele pudesse fazer no momento e isso estava lhe deixando louco de preocupação, além de pensamentos ruins ficarem vagando na sua cabeça o tempo todo.

–Não, apenas quero voltar logo.

–Aham, sei. –murmurou o mais novo satisfeito, guiando sua mão esquerda para segurar o braço direito de Naruto, devidamente vestido por uma jaqueta jeans. –Eu sei que é esquisito, mas é o melhor método. Se eu precisar parar, eu te aviso, se tiver inclinação ou qualquer outra coisa eu te aviso, certo?

"E eu tenho outra escolha a não ser confiar em você?" pensou Itachi com apreensão, refletindo se seria mesmo uma boa ideia sair dali sendo guiado por um adolescente. Ele colocou em um razonete(2) as vantagens e desvantagens de sair de casa.

Nas vantagens, ele percebia que estava enlouquecendo naquele apartamento, que não conseguia fazer nada e principalmente: ele desejava respirar tranquilamente, pelo menos por algum tempo. Já nas desvantagens, ele estava cego, não saberia como andar na rua sem enxergar e isso lhe deixava apavorado, além da possibilidade de furtos, roubos ou qualquer outra desgraça, porque com sua sorte atual... E ainda tinha o fato que a pessoa que o guiava era praticamente um desconhecido! Shizune poderia ligar a qualquer momento para lhe dar informações de Sasuke e ele não atender ao telefone por conta dessa saída. Era irresponsabilidade demais!

As desvantagens eram maiores que as vantagens!

O que ele estava fazendo?

–Olha, eu sei que você deve estar com medo que eu te deixe na pior, mas eu não vou fazer isso. –murmurou Naruto com a voz tranquilizadora. –Eu sei bem como é estar surtando, a minha irmã... Ela... Ela pegou o meu notebook hoje e sumiu. E eu vi que ‘tá faltando o DVD na sua casa.

Diante daquelas palavras, Itachi abaixou a cabeça, sentindo a franja comprida tocar nas suas faces e inconscientemente ele apertou mais o braço de Naruto. Até que ele percebeu o que fazia e relaxou o aperto, suspirando profundamente. O Uzumaki colocou a mão sobre seu ombro, em um gesto de quem compreendia.

–Não tenho dúvidas de que eles pegaram isso pra...

–... Droga?

–Quê? –perguntou Naruto elevando a voz e parecendo confuso. Itachi se virou para onde achava que estava o rosto do outro. –Nada a ver! Eles não conseguiriam a droga desse jeito. Só peixe pequeno daria droga por isso! Sasuke é boyzinho e os traficantes de boyzinho não são qualquer coisa.

–Então...?

–Ele tenta revender. –respondeu Naruto. –Eles iam vender esses trecos pra conseguir dinheiro pro ingresso da festa que te falei.

–Como sabe disso?

–Segui minha irmã uma vez e vi. –respondeu o Uzumaki com simplicidade e começando a caminhar. Itachi o seguia docilmente, sentindo a canela que sofreu a cãibra naquela manhã protestar. –Foi assim que eu consegui meu celular de novo, antes que ferrassem com ele.

Eles saíram do apartamento e Itachi sentiu seu coração disparar com a possibilidade de sair de casa após a cegueira. Ele não devia se sentir temeroso por isso, mas sentia. Era um sentimento enorme de libertação, medo e temor que lhe deixavam tonto e a única coisa que ele tinha para se agarrar era o braço de um adolescente de dezessete anos!

–Ei, relaxa cara, nós só vamos ficar quinze minutinhos lá fora e já voltamos. –tranquilizou Naruto. -Não é o fim do mundo! Você quer escutar música enquanto eu te guio?

–Naruto, eu não sei se é... –começou Itachi. Música. Um pouco de música ia bem. –Que tipo de música?

–Hoje eu tou num humor mais soul. –respondeu Naruto. Os dois parados bem em frente a porta aberta, porque Itachi conseguia sentir o vento gelado. –Você gosta?

Itachi meramente assentiu. Naruto colocou fones nos seus ouvidos o início lento e rítmico de “please please please” se iniciou com a voz característica de James Brown se seguindo os acordes melódicos e calmos da música, tranquilizando-o quase que instantaneamente. Itachi respirou profundamente, aos poucos, ele relaxou o aperto no braço de Naruto, que o guiou para fora do apartamento.

Eles caminharam em silêncio pelo corredor do prédio, seus passos ecoavam e isso fazia com que seu nervosismo crescesse de um jeito absurdo. Naruto era esperto e tinha deixado o fone baixinho para que Itachi escutasse os eventuais comandos de “pare” ou “buraco”. Quando saíram do prédio, um vento gelado bateu no seu rosto com intensidade, fazendo com que seu corpo todo tremesse com o frio. O cheiro de gasolina e diversos perfumes invadiram suas narinas, fazendo com que Itachi inalasse profundamente aqueles cheiros e voltasse a se familiarizar com tudo aquilo.

–Vamos pela passarela! –conduziu Naruto, puxando seu braço para a direita. –Vai ser mais seguro!

Durante todo o trajeto, eles caminharam em silêncio. Felizmente a calçada não era íngreme ou com buracos, as pessoas passavam por eles e Itachi sentia o cheiro de loções pós barbas, o cheiro dos perfumes das mulheres, ou mesmo das naftalinas dos casacos há muito guardados. O frio penetrava pelo seu blazer e ele colocou a mão livre dentro do bolso do jeans. Quando chegaram na passarela, Itachi se sentiu levemente tomado por uma vertigem ao subir algo sem ver e Naruto deu uma risadinha baixa, puxando seu braço de um jeito amistoso e encorajador que o tranquilizou um pouco mais, enquanto soul train ecoava nos fones.

Itachi sentiu a diferença de ambientes assim que pisou dentro do parque. Ali estava muito mais frio que na calçada, assim como estava mais silencioso e possuía cheiros diferentes, o odor ali era predominantemente floral, embora também existisse o cheiro de grama e folha, terra molhada. Mas era mais intenso o odor suave das tulipas, também pudera, inverno era a época dessas flores que enfeitavam aquele parque.

–Ah, ali tem um banco vazio! –disse Naruto com a voz animada, guiando-o até o dito banco onde eles dois se sentaram.

Foi horrível. Aquele banco estava estupidamente gelado e seu traseiro se contraiu involuntariamente por causa da brusca queda de temperatura, mas Itachi evitou demonstrar isso; só que foi completamente inútil, já que Naruto riu baixinho.

–É horrível, né? –comentou o adolescente com a voz sorridente.

–A culpa é sua.

O garoto dessa vez gargalhou e Itachi estava tentado a sair dali e se perder nesse parque, se isso pudesse amenizar um pouco seu constrangimento. Em vez disso, ele resolveu prestar atenção unicamente na música que tocava baixinho no fone, reconhecendo os acordes iniciais de “If I rulled the world”. Ah, ele gostava dessa música! Itachi não era fã de dança, sendo muito franco consigo mesmo, sua habilidade como dançarino só era maior do que a de um trasgo montanhês adulto (se isso existisse, o que logo o configurava como o pior bailarino do mundo), porém essa música era uma das poucas que lhe davam ânimo para dançar.

Todavia, felizmente, nunca havia um par disponível para ele quando escutava essa música. Era uma melodia que lhe trazia boas lembranças. Sua mãe geralmente dançava com ele essa música e nunca reclamava quando ele acidentalmente pisava nos pés dela. Um breve sorriso surgiu em seus lábios ao se recordar disso.

Ele inspirou profundamente, sentindo todas as fragrâncias daquele lugar e relaxando seus ombros.

–Você parece um pouco melhor agora. –comentou Naruto com um suave vestígio de sorriso em sua voz.

Itachi não conseguiu ficar muito tempo chateado pela gargalhada anterior, ainda assim permaneceu em silêncio, apenas inalando o cheiro daquele parque e deixando-se apreciar aquele mimo.

–Um pouco. –ele respondeu após refletir alguns instantes. -As coisas não estão fáceis.

Um maldito vento gelado e longo tocou na pele desprotegida do seu rosto e aquela droga de blazer não era capaz de aquecê-lo. Itachi se viu obrigado a esfregar as mãos uma na outra até que ficassem quentes o bastante para poder aquecer suas faces que estavam tão geladas que parecia arder. A ponta do seu nariz era o que mais lhe incomodava. Naruto não parecia estar em melhor estado, pois também reproduziu seus gestos.

Itachi subitamente começou a desejar um copo de chocolate bem quente com um muffin ou um croissant de queijo; isso lhe fez lembrar que até aquele momento ele ainda não tinha comido o desjejum. Será que Sasuke comeu alguma coisa? Ou será que só tinha tragado aquela garrafa de ontem?

–É, eu sei que não. –comentou o adolescente vagamente. O garoto delicadamente tirou um dos fones da sua orelha e Itachi não pôde impedi-lo. -Pode não parecer, mas eu estou sofrendo também, só que já recebi mais “nãos” que você.

O Uzumaki se mexeu ao seu lado, ficando ombro a ombro com ele, um dos lados do fone no seu ouvido e o outro provavelmente no ouvido do adolescente. Itachi pensou em se afastar do garoto, porém o braço de Naruto lentamente estava aquecendo a lateral do seu corpo, fazendo-o agir automaticamente ao aceitar o calor oferecido. De alguma forma, isso não era tão incômodo quanto ele pensou que fosse ser e inconscientemente ele relaxou um pouco mais. Ao inspirar mais uma vez, o cheiro de flor de laranja e camomila ficaram mais perceptíveis, em meio a todos os outros odores.

–Então isso faz bastante tempo. –ele comentou expirando.

–Nem tanto quanto você imagina, mas já é bem mais do que eu queria. –foi a resposta entristecida e conformada. –Se importa se eu repetir a música? Gosto dessa.

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–Nenhum pouco. –respondeu Itachi brandamente. Encostando as costas no banco e estremecendo. –Eu também gosto.

Aos poucos o calor das suas costas passava para o encosto do banco e aquela sensação horrível de frio e aqueles calafrios horripilantes eram esquecidos. Naruto fez a mesma coisa e eles ficaram em silêncio, apenas ouvindo os acordes lentos. Itachi colocou as mãos dentro de seus bolsos, sentindo o mais novo se remexendo ao seu lado para colocar as mãos debaixo das coxas, o fio do fone quase caiu de sua orelha com os movimentos de Naruto, mas ele não pôde culpar o outro por tentar se aquecer. O que ele fez foi inclinar a cabeça para o lado, ficando próximo do garoto.

Normalmente, Itachi não usaria os cabelos soltos, mas estava tão frio que ele pensou que seus cabelos serviriam para proteger seu pescoço. Nunca saia de casa, no inverno, apenas com um mero blazer.

–Hein, Itachi-san, se você pudesse governar o mundo por um dia, o que você faria? –perguntou Naruto com a voz sonhadora, virando o rosto em sua direção pela respiração morna de encontro a sua nuca.

A pergunta o pegou desprevenido e Itachi se obrigou a pensar sobre isso. Ele nunca foi uma pessoa que desejou obter poder de comando, sempre se saia melhor nas sombras, auxiliando os outros e cuidando de suas próprias atividades; isso lhe tornava um expectador. Observar as relações interpessoais dos grupos a sua volta, seja na universidade quanto no ambiente de trabalho, ou mesmo quando assistia televisão lhe fazia pensar na humanidade em um todo. Principalmente, sobre a natureza de um ser humano, o que o levava à raízes filosóficas que ele aprendeu muito vagamente na universidade, mas que ele aprofundou por vontade própria.

Rousseau (3) dizia que o ser humano nascia bom, mas o mundo o corrompia, inverso a esse pensamento estava Hobbes (4) que dizia que o ser humano nascia ruim e a sociedade moldava o seu caráter, tirando seu ar primitivo. Mas Itachi acreditava no mesmo que Locke (5), o qual dizia que o ser humano nascia como uma tela em branco e que suas experiências com o mundo moldariam seu caráter. Nesse sentido, era certo afirmar que o ser humano nasce primitivo, havendo elementos ferais em seu comportamento que a sociedade pode ou não reprimir.

Um governante deve saber dessa peculiaridade do ser humano para somente então liderar o seu povo, ciente de que também possuí esse lado primitivo dentro de si. Todos os humanos podiam ser agressivos e eram egoístas, pois, em essência, o ser humano nasce como um animal igual a todos os demais existentes na natureza. Sendo assim, não há porque negar certo egoísmo e agressividade que existem dentro de cada humano no mundo. Porém essa parcela irracional precisava ser substituída pela razão, assim evitando-se atos meramente primitivos ou pela paixão em razão da lógica.

Só que isso ainda é insuficiente para gerir o mundo, pois havia outro elemento que atrapalhava a evolução do indivíduo: a alienação. As pessoas não pensavam.

Itachi desejava um mundo menos violento, exatamente igual ao descrito na música que naquele momento encerrava seus acordes outra vez. Mas a construção de uma realidade onde todos fossem livres como pássaros e sorrissem era mais que um desejo, além de soar como um sonho impossível. Porque para isso ocorrer era necessário conscientização e isso era muito difícil em tempos atuais. Não quando havia todo um leque de fugas de realidade.

E um exemplo dessa maldita fuga estava assolando a sua vida: a drogas (sintéticas, naturais, remédios, álcool, cigarro, jogos... havia tantas!) tiravam Sasuke do seu convívio e o estrago era ainda maior, pois algumas também davam problemas físicos além da alienação habitual. As pessoas desejavam estarem alienadas porque isso tornava as coisas mais fáceis, mesmo que todas desejassem um mundo menos doloroso, todas não se conscientizavam do que era preciso ser feito.

O mundo, no fim, deixava as pessoas hipócritas. Mas quem era ele para falar? Um mero expectador.

–Acho que eu apenas incentivaria as pessoas a pensarem por si próprias e encontrassem a resposta para um mundo melhor nelas mesmas. –respondeu Itachi por fim.

–Sua resposta soou como uma daquelas fórmulas complicadas de matemática. –murmurou Naruto de um jeito meio incerto e birrento que fez Itachi sorrir um pouco.

–O que você faria, se pudesse governar o mundo por um dia? –Itachi devolveu a pergunta com tranquilidade.

–Eu faria as pessoas lembrarem do que é verdadeiramente importante! –respondeu Naruto sem demorar muito na resposta.

O sorriso de Itachi aumentou um pouco mais, provavelmente o adolescente diria “amor” ou qualquer outra coisa influenciada pela sua vivência de mundo, que deveria incluir muitas ideias propagadas pela mídia e outros meios alienantes. Ainda assim, Naruto ainda era uma tela em branco, assim como seu irmão também era. Se ele pudesse, ele gostaria de pintar ambos com alguma cor que os fizesse entender um pouco mais o mundo e desejarem evoluir no conhecimento. Ele gostaria de ser esse tipo de pintor.

–E o que seria verdadeiramente importante?

–Coisas pequenas como respeitar os próprios limites, mas se esforçar na medida do possível para conseguir seu objetivo sem precisar pisar nos outros. Saber de suas próprias qualidades e defeitos antes de ir julgar alguém ou sabe? Querer ver alguém sofrendo sem sequer pensar no lado da outra pessoa. –respondeu Naruto com uma voz sonhadora e inocente. –Queria fazer com que as pessoas se lembrassem de respeitar a si próprias e respeitar aos outros, parando de agir como babuínos bobocas e sem cérebro e pensando um pouco mais em como seus atos podem ser refletidos no mundo.

Uma risada leve escapou de Itachi antes que uma de suas mãos pudesse esconder o sorriso de seus lábios. E não é que no fim o desejo de Naruto não era o mesmo que o dele?

–Por que você riu? –perguntou Naruto entre os dentes.

–No fim, você pensa o mesmo que eu Naruto-kun. –comentou Itachi com brandura e Naruto riu um pouco mais amplamente.

A conversa teve uma pausa satisfatória enquanto escutavam James Brown chorar que estava desnorteado pela perda do seu amor. Assim como, de certo modo, Itachi ficou igualmente desnorteado pelos acontecimentos da noite anterior e por toda a mudança que sua vida teve nos últimos meses. Mas, principalmente, pelo que Sasuke lhe disse na noite passada.

Como seu irmão podia amá-lo e mesmo assim deixá-lo preocupado dessa forma? Como era o amor que Sasuke lhe destinava e como foi que o amor fraterno ficou daquele jeito? Sasuke parecia ter tanta convicção ao lhe amar daquele jeito mais carnal e isso deixava Itachi tanto confuso quanto assustado, principalmente quando pensava onde tudo isso poderia terminar.

Ele gostaria de saber mais sobre o que acontecia com seu irmão: precisava que Sasuke o guiasse pelo caminho das respostas. Não para achar algum culpado, mas para tentar fazer com que Sasuke sofresse menos, para que seu irmão não precisasse de drogas ou bebidas para fugir da realidade.

Um suspiro pesaroso escapou de seus lábios enquanto ele ajeitava seus cabelos, ou melhor: tentando domá-los em meio a outra brisa horrorosamente gelada. Ele estava prestes a pedir para Naruto levá-lo para casa quando o Uzumaki quebrou o silêncio.

–Meus pais não queriam que eu aceitasse esse emprego do Shisui-san. –comentou Naruto de forma leviana.

Esse comentário fez com que Itachi se esquecesse do frio, mesmo que momentaneamente. Até mesmo Sasuke fugiu de seus pensamentos.

–Então por que aceitou?

–Porque eu gosto de ajudar pessoas e você precisa de ajuda. –o adolescente respondeu com simplicidade dando um pause na música. -Pode até ser que não queira receber, mas você sabe que precisa.

Isso era um fato. Itachi não sabia o que aconteceu na vida do seu irmão nos últimos anos, tudo era um mistério e as pessoas que confiava, Shisui e Shizune, já estavam fazendo muito mais do que era o devido. Kisame tinha seus próprios problemas para resolver, não podia sobrecarregá-lo ainda mais. E, acima de tudo, Sasuke era a sua responsabilidade, seu dever: era ele quem precisava saber tudo o possível da vida do irmão para assim poder ajudá-lo a ser feliz algum dia.

–Além disso...

Mas o adolescente se calou antes que terminasse de dizer. Itachi ficou em silêncio, ouvindo vagamente uma dupla de corredores passarem em grande velocidade por eles dois, fazendo com que outra maldita brisa gelada tocasse seus corpos. Existiam realmente pessoas malucas para correrem naquele frio? Tem que ter muita pouca coisa para fazer na vida.

–... Além disso?

–Quando o desespero fica grande demais, meus pais se afogam no trabalho para esquecer. –disse Naruto de um jeito sério, como se não se importasse realmente com isso. Só que ainda assim, isso soou errado aos seus ouvidos. -O trabalho é a válvula de escape deles. Eu queria uma também.

–Obrigado. –disse Itachi em tom ameno. -Me senti promovido de criança peralta a válvula de escape.

Naruto riu sonoramente, uma gargalhada cheia de vida que o surpreendeu um pouco. Não era a sua intenção contar alguma piada, ele apenas se sentia melhor como uma válvula de escape do que como uma criancinha. Isso fazia bem ao seu orgulho oras! Shisui sempre lhe tratava como um bebê trabalhoso!

–Você é espirituoso! –comentou o adolescente bem humorado e isso fez com que Itachi desse um breve sorriso satisfeito. -É por isso que eu quis esse serviço.

–Ok, agora eu estou realmente me sentindo preocupado com a minha segurança: você é algum tipo de masoquista? –perguntou Itachi com a voz amena, mas logo as lembranças da noite passada lhe vieram em mente e isso drenou todo o bom humor que começava a nascer nele. -Sua família está quebrada e a minha está desmoronando. –ele pontuou sério. –Você praticamente está saindo de um ambiente difícil para cair em outro tão difícil quanto.

Naruto suspirou brevemente, fazendo em seguida um som que se assemelhava a uma risada nasal, embora não houvesse nada para rir. Itachi não conseguia entender a lógica do adolescente, nem onde o outro queria chegar.

–Eu consigo ser útil pra ti, né? –perguntou o Uzumaki com a voz decidida.

Não havia muito que pensar para responder aquela pergunta.

–Sim.

–É isso o que me importa. –disse Naruto em um tom quase sonhador, nem percebendo o quanto suas palavras deixaram Itachi atônito. –Espere aqui, vou comprar um doce para mim. Você é normal ou é como o tonto do seu irmão?

Itachi acabou rindo sem querer ao se lembrar que Sasuke não gostava de doces, sempre fazendo caretas ao provar chocolates ou qualquer coisa que tinha açúcar. Sasuke era tão radical nesse sentido que nem de frutas gostava, excetuando-se o tomate. Aliás, seu irmão se recusava veementemente a crer que tomate era uma fruta, para Sasuke, tomate era verdura.

–Eu gosto de doces.

–Ok, me espere aqui!

–Não é como se eu pudesse sair daqui, sabe? –ele comentou com displicência e Naruto riu sonoramente outra vez, uma gargalhada livre de qualquer hipocrisia e que Itachi se pegou gostando de ouvir.

De certa forma, ele ficou um pouco feliz por Naruto ter aceitado o trabalho e parecer tão confiante do jeito que estava, mesmo com todas as adversidades que passavam. O adolescente poderia não ter uma trava entre o cérebro e a boca, bem como ser bastante impertinente, mas era uma companhia agradável que lhe fazia bem. Estar ao lado de Naruto era surpreendentemente calmo e isso era algo que ele sentia muita falta nesses dias atribulados e cheios de dor.

Enquanto pensava nisso, provavelmente uma nuvem deveria ter se movido no céu porque sem nenhuma explicação plausível seu rosto foi contemplado por um calor agradável e que minimizou aquele frio chato. Por alguns instantes, Itachi só se importou em ouvir o som calmo do parque, onde eventualmente ele escutava fragmentos de conversas, passarinhos cantando e ao longe as rodas dos carros. O mundo não parava e Itachi se sentia seguindo em frente.

–Espero que goste de muffin de baunilha com gotas de chocolate, chefe. –disse Naruto ao se aproximar, sua voz mais animada do que há poucos instantes.

–Eu gosto. –disse Itachi se sentindo contente ao receber o bolinho, ainda morno, das mãos de Naruto. –Obrigado. Eu estava mesmo a fim de comer um desses...

Naruto riu gostosamente enquanto se sentava ao seu lado, com a mesma proximidade de antes e Itachi realmente não se importava com isso. Ele inspirava o cheiro do muffin e de outro bolinho de chocolate que Naruto estava comendo; o cheiro era maravilhoso e o gosto melhor ainda. Seu muffin não era tão doce e as gotas de chocolate derretiam em sua boca. Itachi apenas tomava cuidado para não comer o papel.

Eles comeram seus bolinhos em um silêncio confortável, apenas deixando suas preocupações de lado por alguns momentos, como era a sua vontade ao sair de casa. Após isso, Naruto disse que era melhor eles voltarem porque parecia que ia chover de novo, Itachi assentiu, voltando a segurar o braço do adolescente pensando que os dois pareciam um casal da idade média completamente desengonçado. O pensamento lhe fez rir.

–Qual a graça? –perguntou Naruto invocado.

–Não é nada.

–Sei... –murmurou o Uzumaki completamente desacreditado. –Ainda quer ouvir música?

–Quero.

Itachi soltou o braço de Naruto que prontamente colocou seus cabelos para trás da sua orelha, fazendo-o estremecer: os dedos de Naruto estavam muito gelados. O garoto apenas deu uma risadinha marota e Itachi franziu os lábios.

–Que mão fria.

–Ah, você sabe, não? –disse Naruto com bom humor. –Mãos frias, coração quente!

–Aham... –murmurou Itachi cético, enquanto Naruto colocava os fones em seus ouvidos em seguida colocando o celular em seu bolso da frente. Depois o Uzumaki colocou seus cabelos de volta ao lugar.

–Vamo em frente que atrás vem gente! –disse Naruto animadamente e Itachi revirou os olhos com a frase sem sentido.

Ele voltou a segurar o braço de Naruto, já que dar as mãos conseguia ser ainda mais estranho do que eles estavam fazendo. What a wonderfull world soava nos fones e Itachi pensou que, talvez, Naruto não tivesse um gosto ruim para música. Quando chegassem em casa, ele pediria para o mais novo colocar alguns de seus preciosos CDS para tocar ou talvez ele devesse mostrar a sua coleção de vinis (6). Itachi era do tipo que preferia comprar um CD a baixar de músicas, por quê? Ele não sabia, mas não gostava muito de computadores no geral.

Caminhavam lentamente pelo parque, se aproximando da curva onde ele morava e Louis Armstrong terminava de trocar seu trompete para ser substituído novamente para James Brown. Naruto disse que estava em momento soul e sua playlist não poderia estar mais correta.

(Try me Try me

Darlin tell me

Me teste, me teste

Querida me diga)

–Itachi-san você comeu alguma coisa hoje além daquele muffin? –perguntou Naruto de repente.

–Não.

–Certo, quando chegarmos na sua casa a gente prepara algo. –disse Naruto com a voz pensativa. –Não quero que pensem que deixei minha válvula de escape passar fome! Acho que Shizune-san me escalpelaria se isso acontecesse!

Com uma risadinha baixa, Naruto ficou quieto novamente e Itachi meramente deu um leve sorriso, apreciando a música.

(I need you

Try me! Try me!

Eu preciso de você.

Me teste! Me teste!)

Até parecia que Naruto gostaria de ser testado como babá! Ou talvez como algo a mais, tipo um amigo. Mas, se ele pensasse mesmo sobre isso, o Uzumaki realmente estava em um teste. Itachi não era uma pessoa que confiava fácil, muito menos se abria para qualquer um. Não que ele ficasse fechado em seu mundo, muito pelo contrário, Itachi não se considerava uma pessoa antissocial ou qualquer coisa nesse sentido, acontecia apenas que as pessoas que vinham conversar com ele não estavam abertas a uma amizade, pois normalmente queriam algo dele. Ou simplesmente não compreendiam o seu ponto de vista. Itachi era diferente e as pessoas não compreendiam isso, esperando coisas que ele não poderia corresponder.

Diziam que Itachi era absurdamente bom em tudo o que fazia, mas não era isso. Ele tinha facilidade com algumas coisas e pensava um pouco diferente das outras pessoas; isso o deixava um pouco solitário. Ele não conseguia se sintonizar na mesma frequência que as outras pessoas, dando-lhe sempre a impressão de que ele tinha uma mensagem e ninguém que o compreenderia, exceto sua família e Kisame. Itachi não gostava de manter ao seu redor pessoas que apenas desejavam algo com ele por sua aparência ou pelas coisas que poderia proporcionar e por isso adotava uma postura mais reservada. Talvez ele afastasse as pessoas, talvez não; no fundo ele não se importava com isso.

Ele se acostumou a ficar solitário.

Mas o fato era que conversar com Naruto era extraordinariamente fácil. Caminhar ao lado do adolescente, conversar com ele, passar algum tempo juntos era agradável, como poucas vezes Itachi se sentia com desconhecidos. E tudo ficava ainda mais estranho se ele lembrasse de todo o drama que estava passando e em como Naruto lhe dava uma tranquilidade que não existia na sua vida.

(Oh oh walk with me (walk with me)

Talk with me (talk with me)

I want you to stop my heart from crying

Oh, oh, caminhe comigo (caminhe comigo)

Converse comigo (converse comigo)

Eu quero que você faça meu coração parar de chorar)

Talvez porque o Uzumaki passasse pelo mesmo drama em sua casa, daí o compreendesse melhor que muita gente, mesmo que fosse tão jovem. Talvez fosse apenas a personalidade espontânea e essencialmente feliz. Talvez fosse outra coisa que não importava também.

Ele inspirou profundamente sentindo todos os cheiros da cidade e, pela primeira vez desde que saiu de casa, apreciando um vento gelado em sua pele exposta, já que havia a leve ardência do ar frio e o calor da luz do sol em seu rosto. Essa sensação mista lhe dava um pouquinho de liberdade e era diferente de quando enxergava, parecia mais intenso do que antes e isso era tanto uma benção quanto uma maldição.

Itachi estava se sentindo bem como há dias não se sentia e isso era quase inacreditável. Sair de casa, ouvir algumas músicas que ele gostava, estar perto de pessoas e sentir a luz do sol, ainda que fracamente, fazia uma diferença absurda na sua moral.

(Walk with me (walk with me)

Talk with me (talk with me)

And your love stops my heart from dying

Oh, oh, caminhe comigo (caminhe comigo)

Converse comigo (converse comigo)

E o seu amor para a morte do meu coração)

Naruto foi sincero com ele ao dizer que aceitou o trabalho com o objetivo de se sentir útil naquela situação, porque o fato era que diante de tudo o que acontecia, era extremamente importante fazer alguma coisa. Ficar parado, como ele estava no hospital, sem informações, apenas piorava o que já é insustentável.

Sua família (e ao que parece a família de Naruto também) considerava que não existia nada que ele pudesse fazer. Para todos os efeitos, os dois eram ‘peças descartadas’ para ajudar Sasuke e aquela garota que Itachi não lembrava o nome.

Então, se ele permitisse que o adolescente fosse útil para ele, Naruto teria alguma coisa o que fazer para se ocupar. Enquanto que ele teria as ferramentas para poder compreender Sasuke. O que poderia existir entre ele e Naruto era provavelmente uma dependência mútua, onde cada um tinha a necessidade de se sentir útil e fazer alguma coisa para não enlouquecer.

Só que para isso realmente funcionar, ele e Naruto precisariam confiar um no outro.

Para dar certo, eles precisavam se apoiar mutuamente e serem verdadeiros um com o outro para conseguirem seus objetivos, o que obviamente envolvia se expor e sair da zona de conforto. Era um preço alto, Itachi era naturalmente avesso a apressar as relações intersociais, não confiava em desconhecidos, ainda mais em alguém mais novo e mais inexperiente que ele.

(Oh I need you (I need you hoohoo)

Oh eu preciso de você, hoo, hoo)

Contudo, aquele era o único meio de seguir em frente que existia. Não se ganhava nada não se arriscando e Itachi agarraria todos os meios de seguir em frente que existiam, pelo seu bem, mas, principalmente, pelo bem de Sasuke.

.....................................

(Forever, and ever, you'll stay in my heart

and I will love you

Forever, and ever, we never will part

Oh, how I love you

Together, together, that's how it must be

To live without you

Would only mean heartbreak for me

Para sempre, e sempre, você vai estar no meu coração

E eu vou te amar.

Para sempre, e sempre, nós nunca vamos nos separar,

Oh, como eu te amo.

Juntos, juntos, é como tem que ser.

Viver sem você,

Só vai trazer tristeza pra mim)

–Cara... –pontuou Naruto com um entusiasmo que fez com que Itachi se sentisse orgulhoso de si mesmo. –Eu não acredito que você tem um toca-disco! Isso é tão legal!

A voz de Aretha Franklin soava no apartamento audivelmente e Itachi não podia se sentir mais satisfeito depois da caminhada revigorante de alguns momentos atrás. Era justo que após várias músicas do padrinho do Soul, os dois escutassem a rainha. E fazia bem aos ouvidos de qualquer um ouvir uma cantora que realmente merecia o título “diva” em vez dessas cantoras de pop que andavam quase nuas.

–Obrigado. –disse Itachi com satisfação, enquanto amassava com o garfo algumas batatas.

Quando chegaram, há alguns minutos, Naruto se comprometeu de fazer uma torta salgada. Itachi pensou que tudo o que teria que fazer era escutar música e Naruto trabalhar, mas o Uzumaki foi duro na queda e estava lhe dando serviços. Não que Itachi estivesse reclamando, ser tratado como o adulto que era e ainda escutar as músicas que realmente gostava, além da presença animada do próprio Naruto, lhe deixavam mais animado.

O cheiro de cebolas e alho dourando na frigideira com azeite e manteiga também lhe deixavam animado, ao que parecia, Naruto sabia mesmo o que fazia na cozinha. Itachi amassava as batatas ainda mornas, mas temia que iria ficar umas pelotas na massa, a menos que ele amassasse tudo com as mãos. Era uma possibilidade que Itachi não gostava. Em um geral, ele não gostava de cozinhar, apenas o fazia por necessidade e porque Sasuke gostava de comer o que ele preparava (tirando carne assada de panela), para ver seu irmão feliz, Itachi faria muitas coisas; cozinhar era uma delas. Naruto estava cantarolando I say a little pray for you e Itachi riu baixinho.

–Sinto te dizer, mas você tem uma voz tão bonita quanto a de uma coruja. –ele comentou com displicência.

–Please love me tooooo! I'm in love with you! (7)–cantarolava Naruto ainda mais desafinadamente, quase estragando a música e fazendo Itachi sentir vontade de rir do agudo na voz do adolescente. –Answer my prayer baby! (7) E ‘tá cheio de pelooooota!

Inevitavelmente, Itachi acabou rindo da palhaçada. De onde é que saia tanta abobrinha? Ele se perguntava e ainda não conseguia resposta. Assim como não conseguia compreender como toda a tensão que estava na sua casa parecia ter desaparecido, mesmo que estivesse esperando uma ligação de Shizune. Naruto disse que a bina não tinha nenhuma ligação do tempo que ficaram fora, então significava que estavam na delegacia.

–Você quer o quê? –Itachi perguntou após uma risada sonora. –Que eu ponha as mãos na massa? Eu sou seu chefe!

–Adivinhão, você hein? –rebateu Naruto com um tom risonho.

–Sempre disseram que eu era inteligente. –Itachi comentou com a voz agradável, entrando no clima da piadinha de Naruto e fazendo o garoto rir baixinho.

–Mas falando sério, eu realmente preciso que as batatas não fiquem com pelota, senão isso pode deixar a massa ruim. -explicou Naruto. –E depois você tem que desfiar o frango do recheio.

–Está bem. –assentiu Itachi tranquilamente, gostando da sensação de ser útil. –Onde foi que aprendeu a cozinhar Naruto?

–Bem, é uma questão de sobrevivência na minha casa. –respondeu Naruto em um tom sério que fez Itachi erguer a sobrancelha. –Tudo o que a minha mãe tem de linda, ela tem de péssima cozinheira. Meu pai é excelente com doces, mas a comida salgada dele é igual humor de mulher na TPM.

Será possível manter-se dois minutos sem rir na presença do Uzumaki? Itachi estava realmente achando difícil ficar sem rir. A lógica do garoto era tão fora de contexto que fazia com que tudo ficasse mais engraçado, especialmente porque não era algo intencional. A espontaneidade de Naruto amenizava o clima tenso e fazia a conversa render de um jeito que Itachi estava desacostumado.

–E como é isso?

–Ah, você sabe. Um dia está um prato digno de chefe de restaurante cinco estrelas e no outro ele confunde sal com açúcar e serve bife doce. Urg. –Naruto grunhiu e Itachi riu baixinho. –Você ri porque não foi com você!

–Realmente. –confirmou Itachi, se sentindo apenas um pouquinho desconfortável agora ao se lembrar da sua paixonite pelo pai do garoto. –Minato-san sempre falava de você no hospital.

O normal quando um adolescente ouve um comentário desses seria se sentir constrangido, mas Naruto meramente deu um longo e pesaroso suspiro e Itachi se virou na direção do adolescente, enquanto a vitrola parava de rodar o vinil. O som de água corrente foi ouvido e em seguida o adolescente andou até o toca-disco parando-o.

–Você quer ouvir o quê agora? –inquiriu Naruto ignorando o comentário anterior, aumentando um pouco a curiosidade de Itachi. –Ray Charles ou Stevie Wonder?

–Wonder.

–Então Wonder é o que teremos! –assentiu Naruto colocando o vinil na vitrola. –Tínhamos uma em casa, mas eu e o nii-san quebramos acidentalmente quando éramos crianças. Nós três éramos bem próximos, eu, Karin e o Nagato. Imagino que você e o Sasuke também fossem assim, né?

Itachi parou de esmagar as batatas e apenas assentiu afirmativamente à pergunta de Naruto, não conseguindo compreender o que falou de errado para gerar aquele clima tenso no garoto. Ele franziu o cenho e Naruto devia ter lhe visto porque suspirou e depois deu uma risada nasal.

–Sasuke é quase como um irmão para mim. –disse Naruto em um tom de voz surpreendentemente calmo e Itachi ansiava por mais. –Não é apenas porque ele me salvou naquele dia, mas por muitas outras coisas. Ele foi o primeiro amigo de verdade que fiz além dos meus irmãos.

O adolescente caminhou até o pequeno fogão, fechando a boca com um ruído baixo, em seguida retirou a tigela onde estavam as batatas das mãos de Itachi. Em vez disso, guiou as mãos de Itachi para uma superfície ligeiramente áspera e com pequenas coisinhas grudadas nela, por um momento Itachi refletiu o que era aquilo até que o cheiro de pimenta e galinha entrou por suas narinas. Naruto não esperava que ele desfiasse o frango com as mãos, esperava?

Ele ergueu o rosto para o adolescente que puxava uma cadeira ao seu lado, provavelmente para terminar o serviço com as batatas. Itachi preferia ficar com as batatas do que com o frango. O cheiro de galinha sempre ficava nas mãos e não tinha detergente que tirasse aquele cheirinho enjoativo. Com um suspiro, Itachi começou a desfiar o frango, enquanto “supertistions” soava pelo apartamento.

–Naruto, eu sinto dizer, mas eu acho que nunca foi recíproca essa amizade. –pontuou Itachi de maneira franca. –Sasuke nunca me falou de você.

O adolescente ficou em silêncio por alguns minutos até as batidas de “supertistions” se encerrarem para darem início ao som lento de “a place in the Sun”. Itachi se concentrou em escutar e desfiar o frango em pedacinhos pequenos, separando os pequenos ossos em um cantinho da bandeja. Eles trabalharam em silêncio por alguns instantes e Itachi gostaria de saber o que o mais novo pensava.

–Eu não entendo bem porque o Sasuke nunca falou de mim pra ti, mas era recíproco. –disse Naruto com a voz séria. –Eu tenho certeza disso. E tenho uma prova concreta disso.

–Qual é?

–Ele parou de se cortar, não foi? –disse o Uzumaki e Itachi parou de desfiar o frango. –Ele parou isso faz quase um ano.

Itachi estava atônito. Naruto sempre soube que Sasuke se cortava e nunca comunicou a alguém? Ele não era o tipo de pessoa que ficava irritado com facilidade, mas sua própria ignorância quanto ao assunto, principalmente com seu irmão confiando algo tão importante quanto isso a um desconhecido em vez dele, realmente lhe deixava irritado. Porém, Itachi não sabia com quem ficava irritado, se consigo mesmo, se com Sasuke ou com o adolescente ao seu lado. Em vez de falar qualquer coisa, Itachi respirou profundamente, voltando a desfiar o frango em pedacinhos pequenos.

Sasuke não se cortava mais. Isso era algo positivo, então ele tinha que se concentrar nisso por enquanto, já que pensar em ficar com raiva, nesse momento, não faria com que nada ficasse melhor. Em vez disso, ele precisava se acalmar para entender mais o passado de seu irmão, redescobrindo-o pelo olhar de Naruto.

–Você sabia que ele se cortava?

–Eu sou o melhor amigo dele, Itachi. –afirmou Naruto com uma certeza tal que deixou Itachi abismado. –Eu sei quase tudo sobre ele. Você sabe disso, não é? Tudo o que você não sabe sobre ele, eu sei.

Era horrível admitir isso, mas Naruto estava certo. Itachi mordeu o lábio inferior, novamente parando de desfiar o frango enquanto escutava o Uzumaki esmagando as batatas. A vitrola ainda tocava “a place in the Sun” e Itachi se perguntava se essa música era tão longa assim ou eram as informações que obteve que eram extraordinariamente difíceis de lidar. Itachi respirou profundamente o cheiro do frango temperado para se acalmar, mentalmente recapitulou tudo o que sabia sobre Sasuke e todo o tempo que seu irmão mudou; havia muitas coisas a serem explicadas e Itachi sabia que precisava ficar calmo e escutar tudo.

Um nervosismo estranho o abateu e ele sentiu a urgência de ocupar suas mãos novamente com o frango, sem mais se importar com o cheiro que ficaria entre as suas unhas. Entretanto, no mesmo tempo ele se sentia um pouco temeroso com o que teria que escutar, inevitavelmente se lembrando do que seu irmão disse na noite anterior.

Eu não sou feliz, Itachi. Eu nunca fui! Sempre faltou algo!

Itachi apertou ainda mais os lábios e uma dor fina se espalhou, assim como um pouquinho de um líquido morno. Naruto arrastou a cadeira, dando passos rápidos até a bancada, pegando algo dentro de um pacotinho de plástico e voltando à mesa.

–Aqui. –disse o Uzumaki lhe estendendo um guardanapo. –Se machucar não vai mudar nada agora. E eu sei que você quer me fazer muitas perguntas agora. Não sei se vou conseguir responder tudo, mas farei o possível.

Ele fez um gesto com a cabeça agradecendo, sentindo o sangue escorrer pelo seu lábio inferior. Imediatamente, Itachi colocou o guardanapo sobre o ferimento, sentindo um pouco de dor ao pressionar o pequeno corte. O papel umedeceu e o retirou, repetindo o processo até o sangue estancar. Naruto voltou a se sentar ao seu lado, arrastando a cadeira duas vezes.

–Quando ele começou a se cortar? –perguntou Itachi com a voz séria. –Como você fez com que ele parasse?

O adolescente suspirou resignadamente e a música mudou. Tudo o que ele mais desejava era compreender a complexidade da situação e assim fazer qualquer coisa para que Sasuke pudesse ser feliz, mas com uma felicidade saudável e não uma alienação da realidade. Ou algo que pudesse comprometer seu corpo, como se cortar. Itachi desejava que seu irmão fosse verdadeiramente feliz e faria isso.

–Continue desfiando o frango. –pediu Naruto com calma. –E faz tempo, ele se cortava muito quando o pai de vocês ‘tava vivo. Sasuke é uma paca para dizer o que ‘tá sentindo, ele guarda muita coisa e aí ele acabava se machucando. Não entendo direito o que acontecia com ele naquela época, era algo que me assustava, sabe? Não é normal que o seu amigo pegue uma gilete e se corte no banheiro da escola.

Itachi analisou a situação: se o pai deles ainda era vivo, Sasuke teria entre doze e treze anos, Naruto tendo a mesma idade teve que presenciar seu irmão fazendo isso. Deveria realmente ter sido aterrorizante, embora a sua mente de adulto estivesse gritando que qualquer pessoa teria pedido ajuda a alguém nessa circunstância. Naruto, ao contrário, parecia ter lidado com isso sozinho. Itachi verdadeiramente não sabia o que pensar do garoto nesse ponto, pois isso não é algo que deva ser escondido. Todavia, ele pensou, o próprio Naruto talvez também não soubesse como agir.

Os dois eram muito crianças para saberem lidar com uma situação assim, Itachi ponderava. Um bolo se formava em sua garganta ao imaginar tudo isso, mas ele precisava saber de mais. Muito mais.

–Por que ele fazia isso? –ele perguntou quando a trava na sua garganta cessou um pouco mais. –Por que você nunca falou isso para um adulto?

–Por que eu deveria? –perguntou Naruto quase desafiadoramente. –Se eu tivesse feito isso, teria sido pior. Ele talvez tivesse tentado suicídio ou algo pior. Não, o melhor foi eu ter ficado quieto. Itachi, você tem uma visão muito errada do Sasuke, não tem noção como a cabeça dele é bagunçada.

“E como é a cabeça dele?” Itachi teve vontade de perguntar, mas simplesmente não conseguiu porque era especialmente doloroso. Tudo ainda estava muito vívido na sua mente e às vezes ele realmente não sabia como se portar diante de tantas informações.

Naruto parou de esmagar as batatas arrastando a cadeira e indo até a bancada da cozinha, colocando a tigela lá e em seguida lavando as mãos. Itachi tinha terminado de desfiar o frango e o garoto prontamente veio até ele, retirando de suas mãos a tigela. Ele se ergueu e foi até a bancada. Eram três passos largos até alcançar a pia, que ele ligou após tatear o ar até encontrar a torneira. Em meio a isso, Naruto voltou ao toca-discos e colocou novamente para tocar “a place in the Sun”.

–O Sasuke vivia sendo pressionado pelo pai de vocês. Ele queria ser reconhecido, mas sempre falhava. –contou Naruto em um tom quase conspiratório e Itachi identificou mais sentimentos em seu tom de voz. Parecia um tom magoado, como se aquelas palavras fossem difíceis. –Eu... Eu o entendia. Não entenda mal, eu amo o meu pai, mas... Meu pai me sufoca às vezes. Era algo que eu e o Sasuke compartilhávamos e era natural a gente ficar junto por causa disso.

Itachi ouviu tudo atentamente enquanto lavava as mãos, depois fechou a torneira e caminhou cegamente até encontrar uma cadeira e se sentar. Naruto ainda estava na sala, pois não tinha se mexido; Itachi ficou em silêncio. Ele não esperava que o mais novo tivesse problemas com o pai.

Minato sempre falava de Naruto com tanto orgulho, como se a relação deles fosse ótima. Mesmo na primeira vez que ele “viu” Naruto, pai e filho pareciam muito sintonizados. Inconscientemente, Itachi acabou fazendo um juízo errado de Naruto, porque Minato não parecia ser tão rígido quanto seu próprio pai foi, não que ele não amasse seu próprio pai, mas sem o excesso de rigidez o seu relacionamento com Fugaku teria sido melhor.

Considerando que ele era o filho favorito de seu pai e ainda tendo essas dificuldades, Itachi só podia imaginar o quanto seu irmão se sentia pressionado para atender as exigências do progenitor e ser reconhecido.

Sendo bem franco consigo mesmo? Itachi sabia que o relacionamento do pai deles com Sasuke era ruim, mas ele nunca pensou no quão ruim tudo era até aquele momento. Por uns instantes, ele ficou se lembrando de todos os momentos que seu irmão se esforçava para obter algum reconhecimento do pai, mas Fugaku estava muito cheio de raiva por Madara para pensar em qualquer outra coisa.

Naquele tempo, ele próprio estava na escola de manhã, de tarde trabalhava e a noite ele estudava para passar de primeira na universidade. Depois de passar por quatro períodos no curso de contabilidade, Shisui mudou de área naquele ano, cursando o primeiro semestre do curso de letras; Itachi se lembrava da discussão épica entre seu pai e seu tio a respeito da mudança de curso que fez Shisui sair de casa. De forma que Sasuke passava mais tempo com o pai, que vivia mal humorado pela ressaca, do que ele.

–Nossos pais sempre exigiram muito de nós. Veja bem, você parecia suprir tudo que o pai de vocês queria e Sasuke queria superar você pra conseguir a atenção dele, só que nada parecia bom o bastante. –explicou Naruto com a voz apenas um pouco mais alta do que a da vitrola. –Eu tenho o mesmo problema, não vale a pena entrar em detalhes, mas é a mesma coisa. Por isso eu conseguia entender o que o Sasuke fazia e não o julgava.

–Você tem noção de que ele estava apenas se machucando? –ele perguntou tentando controlar a indignação que sentia.

–Você tem noção que as pessoas desesperadas se apegam a qualquer meio de alívio? –retrucou Naruto com agressividade. –Nós dois tínhamos doze anos e muita merda rolava ao nosso redor! Não podíamos contar com os adultos porque todo mundo ia pensar que era só drama de adolescente! E nossos pais estavam tão afundados na merda pra perceber o quão mal a gente ‘tava!

O adolescente explodiu todas essas informações com uma raiva tão grande que era quase feral. Itachi apertou os punhos, sentindo-se completamente impotente diante do sofrimento do Uzumaki. Havia muita dor na voz de Naruto e seu irmão deveria sentir uma dor similar no peito também. O Uzumaki respirava lenta e profundamente, tentando voltar a ficar calmo e Itachi não podia fazer outra coisa além de esperar, com as mãos ficando dormentes pela pressão do aperto.

(You know when times are bad

And you're feeling sad

I want you to always remember

Yes, there's a place in the sun

Where there's hope for everyone

Where my poor restless heart's gotta run

I know there's a place in the sun

Você sabe, quando a barra estiver pesada,

E você estiver se sentindo triste,

Eu quero que você sempre se lembre.

Sim, existe um lugar no sol.

Onde meu pobre e inquieto coração pode ser livre.

Eu sei que há um lugar no sol.)

Será que existia mesmo um lugar assim? Itachi começou a pensar sobre isso porque era realmente difícil de acreditar. Se mesmo aquele garoto, que parecia tão espontâneo e aberto, tinha aquele tipo de sofrimento, o que dizer do seu garoto? Naruto evidentemente sofria, mas conseguia manter o sorriso. Mas Sasuke era diferente. Itachi queria muito encontrar um lugar como o descrito na música e levar essas duas crianças feridas para lá e cuidar para que nenhum dos dois sofresse novamente.

Não era justo que crianças tivessem que passar por isso sozinhas como esses dois passaram, decerto que passado era passado, mas não naquela situação. Não na cabeça de Sasuke, pelo que Itachi podia perceber. E isso lhe deixava meio indignado e um pouco entristecido, mas esses sentimentos ele manteria só para si.

–Desculpe, eu não queria explodir com você. –pediu o mais novo com a voz entristecida.

–Tudo bem. –ele respondeu, percebendo que sua voz soou vazia.

Durante muito tempo, eles ficaram em silêncio apenas escutando a voz de Stevie Wonder soar no apartamento em melodias alegres demais para todo o clima tenso que voltava a reinar na sua casa. Itachi não podia ver, mas podia sentir a tensão do adolescente e ele parou de apertar os punhos, inspirando profundamente e esperando o mais novo se sentir apto a falar novamente. A atmosfera do seu apartamento se suavizava gradativamente, conforme Naruto se acalmava.

O telefone não tocou nenhuma vez e a preocupação sobre o que estaria acontecendo na delegacia lhe invadiu de novo. Naruto começou a andar pela casa, vindo até a cozinha e retomando seus afazeres na torta de frango com massa de batata.

–Nós dois somos muito próximos. –narrou Naruto com a voz triste. –O Sasuke sabe disso também, mesmo que recuse com todas as forças. Não completamente, mas eu o entendo. É por isso que ele me odeia tanto.

–Isso te magoa?

–Menos do que você pensa. –respondeu Naruto de um jeito triste e determinado. –“Ódio” ainda é melhor que “indiferença”, significa que eu ainda tenho um efeito nele.

–Entendo...

Itachi apoiou a cabeça sobre as mãos e ficou pensando nas palavras de Naruto. Fazia sentido e ao mesmo tempo era extremamente triste ouvir isso, especialmente porque o Uzumaki parecia se importar de verdade com seu irmão. E isso lhe deixava tanto feliz quanto triste, algo absurdamente agridoce.

Era bom saber que Sasuke fez uma amizade tão profunda e bonita com alguém tão especial quanto Naruto, porque naquela altura do campeonato, Itachi precisava reconhecer que Naruto Uzumaki era uma pessoa muito boa. Não porque estava lhe ajudando, nem nada disso, mas pela forma quase inocente com que enxergava o mundo.

O Uzumaki parecia se importar de verdade com as pessoas e isso era extremamente raro no mundo atual, onde as pessoas esqueciam mais e mais da sua parcela humana. E ao mesmo tempo ele estava triste porque seu irmão não sabia como valorizar uma pessoa assim e acabava magoando Naruto. Talvez o garoto possuísse uma natureza humanitária idêntica a do pai, era algo que exalava nos dois homens e que contagiava as pessoas ao redor. Talvez por isso Itachi fosse tão cativado por Minato.

–Demorou algum tempo até ele aceitar a minha presença e mais alguns meses para ele confiar em mim. –continuou Naruto enquanto sovava algo no balcão. Itachi forçou-se a parar seus pensamentos para ouvir. –Todos os dias, quando ele se cortava, eu assistia e depois remendava ele, nós não dizíamos nada. A conversa não rendia muito, basicamente era eu falando o tempo todo e ele quieto.

Em sua mente, Itachi imaginou o que o mais novo dizia. Vendo seu irmão no auge dos doze anos, com a camisa cinzenta do colégio, jeans velhos e um tênis surrado, sentado em algum canto vazio da escola com uma gilete na mão fazendo linhas no pulso e o sangue escorrendo do corte até o chão. Só com essa imagem mental Itachi estremeceu, sentindo-se terrivelmente agoniado.

Era tão errado uma criança fazer isso! A ideia de se autoflagelar era simplesmente sem sentido! As pessoas deveriam procurar ajuda em vez de causarem mal a si próprias! Itachi inspirou mais uma vez, se livrando da imagem mental e de toda a confusão que sentia, mas era difícil escutar isso. Muito difícil. Mas era o que tinha que ser feito e ele iria fazer.

–Até que um dia ele apareceu todo desesperado para mim e disse que não queria fazer mais isso, mas não sabia como fazer parar. –continuou Naruto parando de sovar a massa puxando uma forma pela bancada. –Eu o abracei bem forte e disse que sempre que ele quisesse se cortar, ele podia vir até mim e eu ia encher o saco dele até que ele desistisse disso.

Uma longa pausa ocorreu então. Itachi arrastou a cadeira para tentar ficar de frente ao Uzumaki, que agora abria a porta do forno com um rangido estridente, riscando um fósforo em seguida. O garoto fechou a porta do forno e voltou sua atenção ao recheio. Itachi já não conseguia prestar atenção em qual música tocava no toca-discos e Naruto tampouco cantarolava.

–Ele fez isso?

–Sim. Todas as vezes que ficava ruim demais, Sasuke vinha até mim com aquela pose de boçal dele e dizia: “me mantenha ocupado” e eu começava a falar, falar sem parar até que ele ficasse irritado o bastante pra tentar calar a minha boca com um murro e a gente acabasse brigando. –respondeu Naruto com um leve risinho. Itachi ergueu uma sobrancelha, inevitavelmente pensando em como era estranha a amizade entre esses dois. –Depois ele dizia obrigado e ia embora, me deixando no vácuo. Eu tinha vontade de espancar ele depois disso, mesmo que eu estivesse todo lascado!

O Uzumaki deu uma risadinha baixa caminhando pela cozinha e abrindo a porta da geladeira, fazendo uma brisa gelada bater nos pés de Itachi e ele moveu os pés para longe do vento frio. Já estava gelado o bastante na casa, mesmo com as janelas fechadas, e Itachi não precisava de mais, obrigado.

Ele abraçou o próprio corpo e ficou imaginando as brigas que Naruto e Sasuke deveriam ter e quando tentou fazer isso novamente ele se recordou que, às vezes, quando conversava com Sasuke sobre a escola, perguntando sobre novidades, Sasuke sempre dizia: “briguei com um idiota”. A sua resposta habitual era sempre: “e quando você não briga com um idiota?”. Sasuke apenas bufava depois disso, igual a um gatinho irritado. Agora Itachi compreendia um pouco melhor a situação, embora na época ele tivesse até pensado em pedir para o pai deles matricular Sasuke em outra escola.

–As coisas ficaram assim até que o pai de vocês morreu e o Sasuke desabasse de novo. –narrou Naruto fechando a porta da geladeira. –E foi nessa época também que o meu irmão morreu.

A torneira foi ligada e Naruto começou a lavar a louça suja, sem se importar em quebrar o silêncio, nem percebendo o quão impaciente Itachi estava ficando com aquela conversa. O que viria a seguir? Itachi tentava se lembrar dos meses que se seguiram após a morte do pai.

Seu pai morreu em novembro, onze meses depois da sua mãe e isso trouxe um monte de problemas. Shisui voltou a morar com eles e começou a fazer bicos para pagar o aluguel. Ele começou a ter rotinas malucas de estudo porque estava na época do vestibular e isso o ajudava a lidar com a perda, o que foi uma boa porque ele conseguiu passar em primeiro lugar no curso de engenharia de produção da universidade federal de Konoha. Pensando nisso agora, Itachi pensava que Sasuke ficou muito tempo sozinho nessa época. E o que veio a seguir era esperado, mas ainda assim o deixou de queixo caído:

–Nós começamos a usar maconha aí. –contou Naruto.

Itachi se lembrava bem. Ele estava no segundo semestre da faculdade e sofrendo com uma bateria de duzentos exercícios revendo toda a matéria passada em geometria analítica, quando a pilha da sua calculadora acabou e ele resolveu pegar emprestada a pilha da calculadora de Sasuke. Ao remexer a bolsa do irmão, Itachi encontrou um pacotinho pequeno com uma erva marrom-esverdeada, um objeto de plástico esquisito, o qual uma tampa com umas extremidades pontudas se encaixava em um treco de girar e alguns guardanapos daqueles que embalam salgadinhos fritos.

A consciência que seu irmão era um usuário de maconha foi instantânea, felizmente, Shisui estava no trabalho quando ele e Sasuke conversaram sobre a droga e depois fumaram o cigarro no sofá; seu irmão prometeu nunca mais usar maconha novamente. Nem qualquer outro tipo de drogas.

Então ele ficou com o saquinho e os apetrechos, se livrando de ambos e, pelo menos para ele, aquele assunto ficou morto, até dois meses atrás mais ou menos.

–Você também? –ele perguntou surpreso.

–Não é algo que eu sinta orgulho, sabe? –respondeu Naruto com a voz ligeiramente irritada, como se realmente reconhecesse que não estava certo e isso fosse difícil. –Mas sabe... Crianças são fáceis de quebrar. Adolescentes são meio crianças e também são meio adultos, mas eu e Sasuke éramos mais crianças do que adultos e não sabíamos como lidar com tanto sofrimento.

–Ele podia ter vindo a mim! –rebateu Itachi tentando controlar sua indignação com a irresponsabilidade dos dois. –Você poderia ter recorrido ao seu pai ou sua mãe!

Naruto meramente fechou a torneira e suspirou pesadamente, como se estivesse falando com uma criancinha particularmente birrenta (e isso serviu para irritar ainda mais Itachi). Mas nem Naruto, nem ele comentaram qualquer coisa. O mais novo enxugou a louça e Itachi tamborilava os dedos da mão direita na mesa; mas Naruto nem parecia se importar.

–Nós podíamos e não podíamos. –respondeu Naruto com simplicidade. –Nós sentíamos que vocês não nos entenderiam. Além disso... Nós dois só queríamos nos desligar do mundo e dos nossos problemas por algum tempo... Isso não parecia errado, entende? –explicou Naruto com a voz macia e cansada. -Todos os dias ficávamos mais tarde no pátio arborizado ao lado do pavilhão onde estudávamos e dividíamos um cigarro de maconha.

Oh, Itachi se lembrava disso também. Ele trabalhava o dia inteiro na loja: das sete às onze da manhã, depois das uma às cinco da tarde, sendo que suas aulas começavam às sete e meia da noite, mas isso era só no calendário. Os benefícios de estudar a noite sempre englobavam um atraso de meia hora na aula de início, assim a aula só começava mesmo por volta das oito e quinze, tempo das pessoas que trabalhavam chegarem à faculdade, porque ela não ficava tão perto assim. Sasuke sempre chegava em casa quando ele estava saindo, por volta das seis e meia por aí. Quando ele perguntava ao irmão porque tinha demorado, Sasuke apenas respondia que tinha ficado estudando na biblioteca.

Grande biblioteca!

Itachi não sabia se ficava chateado com Sasuke pelas mentiras, ou com raiva de si mesmo por nunca ter desconfiado disso. Se bem que na época era tanta correria que ele provavelmente não teria reparado, quer dizer, ele nem conseguia tempo para jantar em casa! Ele precisava comer no “bonde das moscas” ou uns biscoitos no intervalo às nove horas. Shisui também não estava melhor que ele, já que lecionava em todos os horários livres, até conseguir uma vaga em uma editora.

Basicamente, eram tempos de desencontro entre os três, nos fins de semana Shisui saia com Shizune e ele ficava “nerdizando” em casa, como dizia Sasuke, que naquela época já mostrava que não queria ficar em casa. Urg, pensando nisso agora ele concluía que sua vida nos últimos anos foi praticamente a de um ninja.

–Por que ele nunca me falou de você? –Itachi inquiriu, decidido a mudar o foco de seus pensamentos.

–Porque Sasuke não queria te envolver nos problemas dele. –respondeu Naruto com franqueza voltando a se sentar na cadeira. –Ele entendia a sua falta de tempo e não queria ser um problema pra ti, nem pro Shisui-san. Além disso... Ele tem vergonha de ser meu amigo.

Como é que é? –perguntou Itachi completamente perplexo.

Como é que alguém poderia ter vergonha de um amigo tão devotado assim? Especialmente quando devia tanto a alguém? Não fazia o menor sentido, principalmente em razão da educação que a mãe deles deu. Sua mãe sempre dizia que se devia valorizar as coisas que se tinha, por menores que fossem, porque eram importantes. Naruto era praticamente o braço direito de Sasuke, no lado bom e no ruim. E Sasuke era muito mais ligado a mãe deles que ele, de modo que essa atitude lhe surpreendia muito.

Ele devia estar fazendo alguma cara muito boba porque Naruto acabou dando uma risada nasal sem nenhuma alegria. Itachi imediatamente pigarreou e assumiu uma feição indiferente.

–Ele tem vergonha de ser meu amigo. Sempre que estávamos em público a gente brigava, muito. E ele sempre me destratava em público, mas sempre recorria a mim quando precisava. –explicou Naruto e Itachi não conseguiu interpretar a voz do garoto naquele momento. –Pode não parecer amizade ou que ele não se importava comigo, mas eu sei que se importava. Porque ele fez muitas coisas por mim também, sem que ninguém mais soubesse, apenas eu. –Itachi já ia abrir a boca para perguntar se Naruto entendia porque seu irmão era assim quando Naruto continuou. -Porque ele agia assim eu não faço a menor ideia. Ele é um idiota que complica as coisas!

Itachi deu um suspiro cansado, a sombra de um sorriso triste em seus lábios. A maneira de Naruto se expressar às vezes lhe dava vontade de rir, mesmo que o assunto fosse muito sério. Ele estava se sentindo um pouco mais feliz por Naruto estar compartilhando essas informações, mesmo que, agora, Itachi percebesse a sua parcela nos atos do Sasuke atual; sua omissão no passado criou um adolescente que sofria muito no presente.

–Acho que tenho alguma culpa nisso. –Itachi sussurrou baixinho, se lembrando de cada vez que deu um peteleco na têmpora de Sasuke dizendo: “agora não, talvez mais tarde”. –Se eu tivesse prestado mais atenção nele...

–E do que adianta pensar nisso agora? –questionou Naruto muito sério socando a mesa com vigor. –Eu já fiz essa pergunta milhares de vezes no passado e nada disso me ajudou a salvar ele! Eu podia ter passado mais tempo com ele ou qualquer outra coisa, mas não fiz e estou nessa situação! Você deveria fazer o mesmo!

Ministério da saúde adverte: levar puxão de orelha de um garoto de dezessete anos faz mal ao ego. Itachi franziu os lábios com raiva, vontade de retrucar não faltou, mas argumentos sim. Naruto se levantou da mesa e foi até o fogão, ligando-o e remexendo alguma coisa na frigideira. Em pouco tempo o cheiro de frango refogado com cebola, alho, alecrim, noz moscada e mais alguma coisa que ele não reconhecia estava se espalhando pelo apartamento agradavelmente.

–Mais ou menos quando ele começou a ficar desse jeito? –inquiriu Itachi objetivamente.

–Mais ou menos no início do ano. –respondeu Naruto mais calmo. -Bem no começo das aulas.

–Você sabe por quê?

–Não tenho ideia. –foi a resposta triste. –Eu ainda passava tempo com ele, mas eu namorava alguém e tinha menos tempo. Ele foi sumindo, se aproximando de gente de outras escolas e foi uma separação gradativa. Só quando terminei o namoro e fui procurá-lo é que vim ver o quão feio as coisas estavam. A gente brigou muito feio nesse dia, ele me bateu tanto que eu desmaiei.

Itachi ergueu ambas as sobrancelhas dessa vez. Esse descontrole parecia novo até mesmo para o tipo de amizade que esses dois tinham.

–Quando foi isso?

–Mais ou menos perto do aniversário dele. –respondeu Naruto remexendo na frigideira com a colher de pau, os alimentos fritando sonoramente. –Eu sei que ele se arrependeu de ter me batido.

–Como sabe disso? –ele perguntou erguendo a sobrancelha.

–Porque a briga tinha sido num lugar que só nós dois conhecíamos na escola. –foi a resposta do Uzumaki enquanto desligava o fogão. –E ainda assim um professor foi até lá pra ver se eu estava bem. Claro que a partir daí meus pais souberam quem era Sasuke e o que ele fez comigo. Eles queriam falar pro diretor, mas não deixei.

–Por quê?

–Porque ele é o idiota do meu amigo! –repetiu Naruto com a mesma certeza que havia dito para Sasuke ontem. –É meu dever cuidar dele quando ele ‘tá ferrado do jeito que ‘tá! Eu não quero que esse bastardo idiota sofra sozinho! Ele é uma pessoa muito importante pra mim!

Naruto teve outro rompante e parecia envergonhado por isso, Itachi não podia censurá-lo: tudo o que o garoto disse foi muito sincero. Ele conseguia sentir a afeição de Naruto pelo seu irmão em cada palavra e em como cada ato de Sasuke parecia entristecer o Uzumaki. De alguma forma, sorte ou destino, seu irmão topou com alguém que realmente se importava com ele e Itachi se sentia muito satisfeito com isso.

–Você o ama. –ele constatou.

–É claro! –afirmou Naruto com a voz meio embargada e Itachi sorriu mais uma vez, ficando mais e mais confortável na presença de Naruto. –Depois que o meu irmão morreu, eu me senti sem chão. Eu perdi o meu irmão e eu não pude fazer nada por ele, mas eu posso fazer alguma coisa pelo Sasuke, entende? Ele...! Ele é como um irmão pra mim! Eu não suporto ver ele desse jeito e não conseguir ajudar ele!

Havia tanta agonia na voz de Naruto e tanto desespero que Itachi conseguia sentir exatamente o que o outro garoto sentia; era o mesmo desespero, a mesma dor que ele sentia desde que recebeu aquela maldita declaração há uns meses atrás. Só que havia uma diferença grande aqui: Naruto sofria há muito mais tempo que ele, com aquela mesma intensidade e de forma dobrada, porque Sasuke machucava a irmã de Naruto. Se no passado Sasuke se feria como modo de minimizar a dor, agora seu irmão controlava a dor em si próprio fazendo com que doesse em outras pessoas.

Era mais do que uma fuga, muito mais. Sasuke estava perdido, pedia por ajuda e ao mesmo tempo não queria ser ajudado. E talvez quanto mais ele tentasse entender, menos entendia e tudo doesse ainda mais. Tanta dor acumulada machucava não apenas a ele, mas as pessoas que ele amava, e isso tanto lhe causava dor como, talvez, lhe fizesse se sentir melhor. Não que Itachi conseguisse ver lógica nisso, mas podia ser o caminho para chegar até Sasuke.

–Eu sei, Naruto. –disse Itachi bondosamente. –Nós vamos ajudá-lo e ele vai ser feliz, eu prometo.

–Como? –perguntou Naruto visivelmente desolado.

–O próprio Sasuke vai nos dar a resposta, se soubermos como chegar até o seu coração. –respondeu Itachi com brandura, certificando-se em parecer confiante para acalmar o garoto. –Por ora, nós só podemos iluminar o caminho dele, para que ele pare de fazer escolhas erradas.

Itachi percebia algo muito importante naquele momento: não importava que no passado ele tivesse se omitido, o que realmente iria determinar tudo seria o seu comportamento a partir daquele instante. Seu irmão estava triste e perdido em um mundo de sombras, para conseguir ajudá-lo, Itachi tinha que fortalecer a si mesmo primeiro. Para ser uma luz para Sasuke, ele não poderia fraquejar, muito menos desistir. Só que ele não era a única luz na vida do seu irmão: havia outro facho de luz, mas que também era um garoto machucado.

De repente, Itachi percebeu qual era a verdadeira natureza de Naruto: ele era apenas um adolescente com feridas ainda abertas. Só que isso não lhe deixou com pena e nem com qualquer sentimento de piedade, mas uma admiração pelo garoto. Indiferente aos seus pensamentos e com um enorme suspiro, Naruto terminou de fazer a torta e a colocou no forno. Depois disso o garoto veio em sua direção parando ao seu lado.

–É, acho que você tem razão. –murmurou o garoto conformado. –Acho que se você e eu nos unirmos, a gente coloca a cabeça daquele idiota no lugar.

–É claro! –ele disse com entusiasmo renovado.

Sem saber de onde é que vinha toda aquela esperança, Itachi apenas se deixou guiar por aquele conforto extraordinário que nascia dentro dele, relaxando novamente. Naruto foi para a sala, montou o sofá cama e Itachi ficou deitado lá. O Uzumaki ficou ao seu lado, com as pernas bem esticadas lendo o livro dois das crônicas de gelo e fogo enquanto a torta assava no forno.

Durante muito tempo ele ficou perdido na terra de Westeros até que a companhia tocou e Naruto foi atender, Itachi se sentou no sofá ouvindo a voz do carteiro dizendo que tinha uma encomenda para ele. Naruto a recebeu, fechando a porta em seguida.

–O que é? –ele perguntou com curiosidade.

A única coisa que Itachi recebia pelo correio era conta, eventualmente um livro, mas ele tinha certeza que não tinha comprado nada. Sasuke não tinha esse hábito, até porque Sasuke arrumava qualquer desculpa para sair de casa, jamais pediria algo via correio.

–É um pacote. –inquiriu Naruto incerto. -Você quer que eu abra?

–Pode abrir. –autorizou Itachi.

Estava curioso, oras. A possibilidade de ter ganhado alguma coisa lhe passou em mente, mas ele não se lembrava de ter participado de nenhum sorteio. Ele até mesmo resolveu não participar da festa da sua formatura (o que o lembrava de ter que fazer aluguel da beca assim que melhorasse), nem comprou rifa dos seus colegas de curso. O som de papel sendo rasgado foi ouvido e Itachi esperou pacientemente, logo uma caixa era aberta.

–O que é? –ele perguntou, fingindo desinteresse.

Como resposta, Naruto deu corda em alguma coisa e uma melodia suave tomou conta do apartamento, Itachi conhecia aquelas notas. Elas lhe lembravam dos dias de festa, nos velhos e bons dias, quando seu pai levava a ele e a Shisui nas apresentações de balé da sua mãe. Ela, como a princesa Odete, parecia uma fada no palco, parecendo flutuar...

–O lago dos cisnes. –disse Itachi perdido em lembranças. –É uma caixa de música?

–Mais ou menos. –respondeu Naruto com a voz extasiada. –É uma caixa de vidro azul, com umas flores que parecem narcisos ao lado de uma bailarina, vestida com uma daquelas roupas de balé branca, a saia é feita de penas. Tem uma coroa de pedrinhas na cabeça dela. Você quer tocar?

Itachi tentou imaginar como era a caixinha de som pela descrição de Naruto, e ao mesmo tempo em que fazia isso pensava: quem é que lhe mandaria isso? Aquela música e a bailarina eram uma obvia referência a sua mãe. E Itachi não estava gostando nada disso.

–Tem algum cartão? –ele perguntou desconfiado.

–Tem sim! –disse Naruto revirando o papel rasgado, a música parando de soar. –Vou ler pra você: “Dizem que essa época do ano é perfeita para se estreitar os laços familiares, então devemos nos encontrar em breve. Feliz natal, mesmo que nada esteja dando certo para você, certo? Madara Uchiha.” Nossa, gente fina pra caramba, hein? Você quer que eu abra?

Nem mesmo a ironia na voz de Naruto minimizou a perplexidade de Itachi; o que tudo isso significava afinal? Itachi realmente não sabia o que fazer e estava completamente surpreso pelo presente. Uma bailarina. Sua mãe era uma bailarina. Madara matou a sua mãe. Madara.

O que afinal isso queria dizer?

–Jogue isso no lixo. –mandou Itachi com a voz trêmula.

–Você está bem? –Naruto perguntou preocupado.

–Apenas jogue isso no lixo. –mandou Itachi com a voz firme. –Por favor, jogue no lixo.

Naruto fez um barulho esquisito, talvez como se quisesse retrucar, mas então o cheiro delicioso da comida estava exalando pelo apartamento e o adolescente foi a cozinha tirar a torta do forno. Itachi permaneceu em silêncio, tentando absorver os fatos: eram muitas informações e essa aproximação de Madara era definitivamente preocupante. Ele sabia que o tio iria se aproximar dele, mais cedo ou mais tarde, mas jamais esperou essa chegada abruta.

Itachi sabia que não poderia falar disso com Shisui, seu tio iria surtar quando visse essa maldita caixinha de música! Shizune provavelmente falaria tudo para Shisui, o que não adiantaria de nada. Só lhe restava Kisame, que, aquela altura, devia estar trabalhando. Pelo menos, não podia ficar pior do que estava.

Ele estava errado.

Havia uma confusão no corredor, onde vozes indistintas soavam junto com o som do fogão sendo aberto e algo mais ou menos pesado ser colocado na bancada. O cheiro da torta de frango com batata estava bom e ele estava com fome novamente, mas dessa vez ele pensava que talvez fosse de ansiedade. Precisava se livrar da caixa de música antes que Shizune voltasse, assim como precisava falar com Kisame. Itachi não tinha ideia de que horas eram e nem se poderia falar com o amigo naquele momento, mas não custava pedir ao Uzumaki que, ao menos, passasse uma mensagem de texto para que Kisame passasse em sua casa mais tarde.

Era a última opção de Itachi. Porém, enquanto pensava nisso, a porta do apartamento foi aberta, fazendo uma corrente de ar gelado atingi-lo com intensidade. Ao mesmo tempo, alguém entrou dando passos pesados enquanto uma voz masculina que ele não conhecia soava no corredor de forma autoritária.

–Para de me seguir caralho! –rugiu Sasuke com raiva, batendo a porta e parando de andar subitamente. –E o que você faz aqui, Dobe?

–Oi pra você também, Teme. –retrucou Naruto da cozinha.

–Sasuke se comporte! –mandou Shizune com a voz firme, abrindo novamente a porta do apartamento. –Pelo seu irmão!

A porta ainda estava aberta e a maldita corrente de ar gelado atingia diretamente o sofá, Itachi se levantou pensando em ir fechar a porta e pedir silêncio ao irmão, quando passos retumbantes e tranquilos invadiam sua casa, seguidos de passos menos barulhentos e alguém tossindo loucamente. Itachi arqueou a sobrancelha com a visita inesperada.

Certamente seu irmão e sua tia vieram acompanhados de policiais; isso fazia Itachi ficar desconfiado. Tudo bem que isso significava que Shizune conseguiu livrar Sasuke de uma casa disciplinar, entretanto isso não justificava o acompanhamento policial.

–Não fale como se soubesse das coisas! –retrucou Sasuke com a voz irritada.

–Garoto, é melhor você se comportar, se não o levamos de volta. –comentou uma voz masculina em tom sério.

–Relaxa, seu policial. –disse Naruto se metendo na conversa e usando um tom de voz falsamente descontraído. -Ele é essa delicadeza sempre.

–Ora seu...!

–‘Tá a fim de brincar de ninja storm lá em casa? –inquiriu Naruto em um tom desafiador.

Sasuke bufou em assentimento e Naruto ficou quieto. A porta foi fechada com um suave clique e a corrente de ar frio que adentrava por lá cessou imediatamente, enquanto Itachi tentava entender a situação. Estar cego era terrivelmente chato nessas situações! Ele precisava deduzir tudo por sons e cheiros, e isso levava mais tempo do que ele gostaria. Mas, se fosse para apostar, havia dois homens acompanhando Shizune e Sasuke, disso ele tinha certeza. Não só porque um deles se manifestou, mas pelo cheiro de colônia pós-barba que vinha da sua direita, assim como o cheio de pastilhas para tosse, além do odor de tabaco.

Será que o outro policial estava com tuberculose ou outra doença congênere?

–O que está acontecendo? –inquiriu Itachi. –Sasuke, não destrate Shizune. –ele se virou para onde vinha o som da tosse. –Você está bem?

–Si-sim. –era uma voz masculina. –Obrigado por...

“Você definitivamente não está bem.” Pensou Itachi enquanto o homem voltava a tossir com força, quase se engasgando. Todos ficaram silenciosos prestando atenção nesse policial, até mesmo Sasuke ficou quieto.

–Por favor, não o levem de volta! –pediu Shizune com a voz angustiada quando o outro policial parou de tossir. –Nós vamos ter ainda mais cuidado com ele!

Sasuke bufou descontente e em seguida grunhiu quando alguém, e Itachi sabia quem, pisou com força em seu pé, criando um som abafado estranho aos seus ouvidos. Naruto assoviou baixinho enquanto seu irmão praticamente rosnava; Itachi queria muito rir, mas se conteve. Ele voltou a se sentar no sofá, enquanto respirava profundamente para se acalmar e compreender exatamente a situação.

–Isso vai depender do comportamento dele, madame. -disse a voz masculina que Itachi não conhecia. O homem deu alguns passos em direção ao sofá. –Você é o Itachi Uchiha, não?

–Sou sim. –respondeu Itachi se levantando desajeitadamente. –O que quer comigo?

–Eu sou o delegado Asuma Sarutobi. –esclareceu o homem com a voz grave e o cheiro de tabaco. O outro policial voltou a tossir alto. –E este é o sargento Hayate. Nós viemos aqui para esclarecer sobre as lesões que sofreu, já que está sobre prescrição médica de não sair de casa, nós temos mandando judicial aqui.

Itachi gelou com as palavras do homem. Prestar esclarecimentos sobre as lesões apenas significaria em mais problemas para ele e para toda a sua família! Ele inspirou profundamente, enquanto seu cérebro pensava em alguma maneira de solucionar aquele pepino. Talvez alguma mentira ou alguma coisa nesse sentido, embora Itachi não soubesse se isso ia funcionar, pois se o caso fosse investigado, saberiam que seu irmão era o agressor e talvez ele próprio tivesse problemas com a justiça.

Como se não bastasse todos os problemas que ele já tinha!

–Existe um lugar na casa onde a gente possa ter privacidade para colhermos logo seu depoimento? –inquiriu o delegado com a voz educada. –Eu sei que você não deve estar querendo fazer isso e quer que acabe logo, então quanto antes começarmos, mais cedo vamos terminar.

Itachi ouviu tudo atentamente, percebendo como todas as outras pessoas na casa, tirando obviamente o policial que tossia loucamente, enrijeceram com as palavras do delegado. Assim como Itachi concordava em querer acabar logo com tudo, ao mesmo tempo não sabia como poderia satisfazer a vontade do policial sem causar maiores apertos para si e para o irmão. Sasuke já estava suficientemente ferrado sem ter nenhum problema com a justiça, obrigado.

–Minha casa é pequena. –respondeu Itachi com displicência. -Só tem a sala e o quarto.

O delegado deu um suspiro longo que quebrou o silêncio temporário do apartamento, até mesmo o policial parou de tossir. Shizune rapidamente pegou um copo da prateleira e em seguida serviu um pouco de água para ele. Naruto e Sasuke estavam quietos demais para o seu gosto e Itachi antevia uma briga épica a caminho, embora fosse esse o jeito que esses dois tinham de se resolverem.

–Você se importaria...? –inquiriu o delegado.

“Sim” foi o que Itachi pensou, inconscientemente franzindo os lábios em desgosto e tentando manter o resto de sua expressão indiferente. Mas o que disse foi:

–Não.

–Certo, o quarto foi onde tudo aconteceu, certo?

Itachi permaneceu em silêncio. Uma tensão crescia a sua volta e isso lhe deixava um pouco apreensivo. Sasuke estava comportado até demais! Até mesmo Shizune parecia sentir isso, pois tentava ocupar as mãos com a louça escorrendo próxima a pia.

–Aquele jogo ainda está de pé, Dobe? –comentou Sasuke com a voz séria.

–A hora que quiser.

–Que tal agora? –comentou Sasuke com a voz fria. –O vizinho do quarto andar tem a versão pra PS2.

–Garotos! –advertiu Shizune preocupada. Itachi não a culpava por isso.

–Não façam muita bagunça. –pediu Itachi em tom sério. –Principalmente você, Sasuke.

O irmão apenas murmurou alguma coisa que Itachi não conseguiu compreender. Os policiais não eram estúpidos, deveriam ter percebido a animosidade entre os adolescentes, acima de tudo, eles não confiavam em Sasuke. E Itachi sabia disso, mas também não podia fazer nada, a não ser confiar em Naruto para cuidar do seu irmão. Shizune, apesar de ser mais velha, não tem efeito nenhum sobre Sasuke e ele teria que cuidar desse interrogatório por hora.

Itachi estava preocupado que Sasuke fugisse outra vez e que os policiais o considerassem foragido ou algo do gênero e a última coisa que ele precisava era um irmão preso bem na época natalina.

–Ótimo, vamos para o quarto então. –disse Asuma em tom cordial. -Vocês não se importam de ficar aqui, não?

–Aaah, a gente só ia jogar no vizinho. –resmungou Naruto contrariado. –Não vamos causar nenhum problema, prometo!

–Certo, certo. –comentou o delegado, apesar de transparecer em seu tom que não comprou o que o Uzumaki disse.

Mesmo assim, os dois homens seguiram Itachi pela casa até o seu quarto, onde fecharam a porta em clique suave. Itachi se sentou sobre sua cama, percebendo que os policiais preferiram se acomodar sobre a cama de Sasuke. O som de um ‘clik’, bem como o de um notebook sendo ligado chamou a sua atenção e até a máquina ser efetivamente ligada, o silêncio no quarto não foi quebrado.

Itachi tentava se convencer de que tudo ficaria bem, enquanto pensava no que poderia dizer. Talvez ele devesse mentir, dizendo que ele e Sasuke foram assaltados por um homem com uma meia escura na cara, a cidade era violenta e isso estava a seu favor. Embora, no íntimo, ele soubesse que havia uma boa chance de ser pego na mentira, mas ele precisava arriscar.

Asuma começou a lhe fazer perguntas pessoais, como seu nome, idade, se sabia ler e escrever e outras questões desse tipo, provavelmente para uma burocracia de praxe. O outro policial digitava tudo rapidamente no notebook, o som das teclas suavemente preenchendo o ambiente. Itachi estava mais próximo da porta do que os policias e ouviu quando a porta de entrada foi aberta com um arranhar suave das dobraduras, a sala estava muito silenciosa e Itachi só podia prever o que aconteceria com seu irmão.

Se bem se lembrava, a cobertura do prédio onde viviam era uma mistura de jardim e varal de uso comum de todos os moradores, embora Itachi preferisse ter seu próprio varal suspenso na cozinha. Não confiava nos demais moradores, já que furtos eram muito comuns nos andares de cima. Ali seria o lugar perfeito para aqueles dois brigarem, se fosse o caso. Mas Itachi esperava, de verdade, que a briga não durasse muito tempo e que os jovens não se machucassem muito.

–Então rapaz, vamos direto ao ponto. –começou Asuma e Itachi se forçou a prestar atenção no delegado. -O que você lembra do dia que fizeram isso com você?

–Não muito. –Itachi disse com calma, tentando ser o mais verdadeiro o possível na sua mentira. -Eu estava no quarto com meu irmão e alguém entrou para roubar a casa, estavam usando meias no rosto e eu não...

O delegado deu um suspiro longo enquanto Hayate voltava a tossir loucamente pelo quarto. Itachi fez uma anotação mental de trocar o lençol de cama de Sasuke, porque provavelmente seu irmão pegaria alguma doença pela saliva do policial doente que devia se acumular no lençol.

–Garoto, sejamos francos. –disse Asuma em tom entediado. -Você sabe que está mentindo, Hayate aqui sabe que você está mentindo, eu sei que você está mentindo. Foi o seu irmão quem fez isso com você.

Itachi ficou em silêncio. A tosse incessante parou por alguns momentos e o homem parou de digitar também. O delegado esperava qualquer manifestação de sua parte, mas Itachi permaneceu silencioso, tentando ao máximo deixar suas feições indiferentes. Suas mãos abandonadas ao lado de seu corpo. Ele inspirou mais uma vez, relaxando seus ombros e tentando manter uma calma que não sentia, mas que era imprescindível naquele momento.

–O hospital relatou o seu caso como lesão corporal grave. –comunicou Asuma com sua voz grave. -Sabe o que isso significa?

–Não. –respondeu Itachi com tranquilidade. -Nunca gostei de jornalismo criminalístico.

Asuma riu e o outro policial tossiu uma risada baixa. Itachi não entendeu o que disse para poder dissipar um pouco a tensão que se formava dentro de seu quarto, ele apenas foi franco ao dizer que realmente detestava aqueles programas que só faltavam espremer sangue na hora do almoço na tela da televisão.

–Eles te descreveram como vítima de lesão corporal grave (1). –retomou Asuma voltando ao tom sério de antes. -Só que você está cego.

“Ah, não me diga!” pensou Itachi levemente irritado, mas não disse seus pensamentos, ficando quieto e esperando pacientemente as próximas informações. Hayate não anotava nada no notebook e Itachi queria que qualquer coisa acontecesse para aquilo terminar logo.

–E isso não é uma lesão grave na nossa legislação. –concluiu Asuma. -Isso qualifica a agressão que você sofreu como “gravíssima” (1), o que faz a pena passar de um a cinco anos de reclusão para de dois a oito anos de reclusão. Isso significa que se o seu irmão for condenado, ele já começaria a pena em regime fechado (1).

Foi difícil esconder o quanto essa informação o preocupou, mas Itachi se esforçou, inspirando profundamente e tomando cuidado para não franzir os lábios, ou apertar o colchão com suas mãos. Ele precisava tomar muito cuidado com o que diria a partir de agora, caso contrário os policiais poderiam fazer com que seu irmão parecesse um monstro, o que Sasuke não era. Itachi quase conseguia imaginar a reportagem: menor apaixonado agride o irmão e diz: “foi por amor”. Urg, isso era ridículo.

Itachi não mentiu quando disse que odiava programas jornalístico-criminalistico. Quando sua mãe morreu, muitos desses programas atanazaram sua vida, especialmente porque Madara é um homem poderoso, ou melhor, o nome Uchiha era poderoso. O que aquele infeliz fez para abafar a mídia, Itachi verdadeiramente não sabia, mas, de qualquer modo, o seu ódio por esse tipo de programa sensacionalista era grande.

A única coisa que lhe interessava no momento era manter Sasuke em casa, para que eles, como família, conseguissem resolver o problema das drogas, o que consequentemente acabaria com as agressões e furtos. O problema estava se acumulando e, se algo assim chegasse aos ouvidos da mídia, Itachi sabia que teria que passar novamente por aquele inferno de repórteres.

O que poderia dizer em favor de Sasuke? Claro, seu irmão era menor de idade e mesmo Itachi sabia que as leis eram mais benéficas para menores de dezoito anos, porém se argumentasse isso, então Asuma teria a certeza de que Sasuke foi seu algoz.

–Seu irmão é menor de idade (1). –pontuou Asuma, interrompendo a sua linha de pensamento. –A lei é mais branda, mas ele iria para uma internação para jovens infratores (1). Você entende onde quero chegar?

–Não.

–Então vou ser mais claro. –disse o delegado em tom conspiratório, se movendo na outra cama. -Se você disser para a gente o que exatamente aconteceu naquele dia, maior a chance de convencermos o promotor a pedir arquivamento do auto de infração (1).

–O que isso significa?

–Que não haverá investigações sobre o que aconteceu com você e seu irmão ficará numa boa.

A proposta era boa demais para ser verdade e Itachi se resguardou. Ele não sabia muito o quê aconteceu após ele ter ido ao hospital e mesmo Shisui também não sabia disso, já que estava no aeroporto quando ligaram para ele. O único que sabia mais ou menos o que aconteceu era Sasuke, então a polícia, talvez, já tivesse provas o suficiente contra seu irmão naquele exato momento, bastando apenas o seu depoimento para terminar com alguma burocracia que fosse.

–Você faria algum documento pedindo ao promotor para arquivar o caso. –afirmou Itachi em tom pensativo.

–Sim.

–E o que o promotor faria com o meu irmão?

–Isso depende do que você me contar rapaz.

–Eu não tenho nada contra o meu irmão.

–Garoto, mesmo que você não diga nada, exercendo seu direito constitucional do silêncio, nós investigamos e a sua conduta aqui pode prejudicar o seu irmão, sabia? –tornou Asuma com sapiência e Itachi não estava gostando nada daquela conversa. Poderia ser que o policial apenas estivesse lhe forçando a falar para que depois prejudicasse Sasuke. -Ainda mais que a sua família é um caso enrolado. Sua mãe é a bailarina que foi morta há uns quatro ou cinco anos atrás, não?

–Sim.

–E o seu pai também teve uma morte bem estranha também, não?

Itachi inspirou profundamente, tentando não perder a compostura, mas era difícil ficar calmo quanto a esse assunto. Meter os problemas passados da sua família era golpe baixo! Muito baixo mesmo!

–Meu pai se suicidou. –ele falou com a voz dura.

–Garoto, eu sei que não é fácil e que você quer proteger o seu irmão, mas precisa cooperar conosco. –tentou novamente Asuma e Itachi odiou o tom quase reconfortante na voz do policial. -Você não tem medo de morrer? Que ele faça isso de novo com você? Ele pegou um DVD da sua casa! Deixou você cego!

E Sasuke era seu irmão. O bebê que ele cuidava desde os cinco anos e uma das poucas coisas que o fazia se lembrar bem da mãe e do pai, dos tempos em que eles eram uma família. Como ele poderia querer mal ao seu irmão? Seu irmão precisava de ajuda e não ser tratado como um criminoso! As pessoas às vezes erravam o caminho, mas não significava que não poderiam voltar atrás e seguirem para o caminho certo! Itachi acreditava nisso.

–Senhor... – começou Itachi com o tom de voz calmo. -Se fosse com você, o que faria?

O policial ficou em silêncio por muito tempo e Itachi teve tempo de se acalmar novamente. Não poderia permitir que suas emoções aflorassem naquele momento, muito menos prejudicar seu irmão por qualquer ato mal pensado.

–Eu procuraria ajuda para ele. –disse Asuma e em sua voz havia sinceridade. –Nós podemos ajudar.

–Como? –inquiriu Itachi tentando, mas não conseguindo, conter um pouco do desespero que sentia. -Tirando-o da família e colocando em um presídio (1)? Eu não quero continuar com isso.

–Uma instituição de adolescentes não é um presídio. –tornou Asuma em tom brando. -Lá ele seria vigiado durante o tempo de sua internação, cuidariam dele pra você.

–Não quero que o meu irmão vá pra lá!

–Então colabore! –pediu o delegado com a voz grave e compadecida. Itachi se perguntava se aquilo era apenas um blefe ou era verdade mesmo. -Se você depor agora pra gente, o promotor verá que você não tem vontade de prosseguir com a medida sócio-educativa e vai requerer o arquivamento.

–Isso é mesmo verdade?

–Você é bem desconfiado, hein, garoto? –comentou Asuma em um tom descontraído. Itachi esperou. –Sim, é verdade. Seu irmão é menor de idade, o ECA (1) ‘tá aí, caso você queira saber...

Itachi inspirou profundamente algumas vezes, decidindo o que iria contar ao delegado. Não havia escolha. Ele não tinha muita certeza se o que estava fazendo era o correto, de sua parte, era quase como uma traição para com Sasuke. Mas nessa circunstância, ele devia apenas se ater ao que poderia ajudar seu irmão e ele precisava que o caçula estivesse livre de qualquer casa reformatória para adolescentes.

Após mais alguns minutos de silêncio, Itachi contou que Sasuke era um usuário de drogas e que tinha o hábito de se cortar, que no dia em que se machucou, os dois discutiram e que seu irmão o machucou por acidente. Asuma instruía o que Hayate deveria digitar e durante todo o tempo que se seguiu, o depoimento foi colhido sem interrupções.

–Isso é tudo. –ele disse por fim.

–Fez uma boa escolha garoto. –disse Asuma se levantando da cama.

Os três saíram do quarto e Asuma comentou alguma coisa com Shizune, entregando um papel para ela. Depois aquele policial que tossia pegou a sua mão direita e melecando alguma coisa no seu polegar, que foi de encontro a uma folha de papel.

–Isso é para autentificar o seu depoimento, para que você não precise ir até a delegacia assinar alguma coisa. –explicou Asuma. -Não se preocupe, tudo vai dar certo a partir de agora.

Itachi tinha sérias dúvidas se tudo iria mesmo melhorar, mas não demonstrou sua inquietação. A porta de entrada do apartamento foi aberta e os logo o som de passos foi ouvido, bem como um ‘oh’ preocupado de Shizune.

–Rapaz, o que aconteceu com vocês? –inquiriu Asuma em um tom não muito surpreso.

–Estávamos brincando de ninja storm. –respondeu Naruto com falsa displicência. Havia uma nota de dor em sua voz.

–Não espera que eu acredite nisso, né? –perguntou o delegado.

–Foi versão liveaction. –disse Naruto com seriedade. -Agora Teme vai tomar banho e tirar essa catinga ou você não é capaz de tomar um simples banho sozinho?

A provocação surtiu efeito e Sasuke praguejou baixinho, caminhando pesadamente até o quarto, provavelmente para pegar uma muda de roupas e fazer o que Naruto dizia. Itachi estava atônito: seu irmão estava quase controlado. E isso era um progresso enorme, se considerasse o que passaram na noite anterior para fazer Sasuke tomar banho.

Naruto realmente tinha alguma influência no seu irmão.

–Você é irritante! –disse Sasuke com raiva.

–Vindo de você isso é um elogio. –rebateu Naruto com desprezo.

–Imbecil!

–Idiota!

–Babaca!

–Retardado!

Itachi piscou incrédulo. Aquilo parecia uma cena de jardim de infância! Entretanto, ao mesmo tempo em que Naruto e Sasuke se xingavam, a tensão no apartamento minimizava gradativamente, na verdade, sendo muito franco, tudo estava quase engraçado. Certamente o delegado estava vendo como seu irmão era apenas um adolescente com algumas ideias erradas, não um marginal sem conserto.

–Garotos, CHEGA! –gritou Shizune com a voz firme e autoritária. -Os dois!

Sasuke bufou e Naruto ficou quieto, o delegado deu uma sonora risada enquanto Hayate voltava a tossir. Itachi desistiu de entender a situação e sorriu. Sabia que seu irmão e Naruto brigaram, mas, o que realmente importava era que o delegado não parecia disposto a levar seu irmão dali.

–Itachi-san, ainda ‘tá com fome? –perguntou Naruto animado, agindo como se fosse o próprio dono da casa e isso era cômico de algum modo. -A torta esfriou, mas acho que ainda ‘tá gostosa! Quer um pouco também Asuma-san? Relaxa que guardo um pouco pra ti, Teme.

–Como se eu me importasse! –resmungou Sasuke no quarto.

–Ai Deus, ele é pior do que mulher na TPM! –comentou Naruto baixinho, com humor na voz.

–Eu ouvi! –gritou Sasuke no outro cômodo.

Itachi sem querer riu um pouquinho enquanto Shizune praguejava baixinho a falta de gaze na casa. Ele não fazia ideia do quanto os adolescentes estavam feridos, mas, definitivamente, não parecia que algo grave ocorreu e isso era o bastante para ele. Naruto dessa vez gargalhou alegremente no apartamento enquanto a porta do banheiro era fechada com um baque forte e um rosnado, entretanto a raiva de Sasuke era facilmente interpretada como “birra” em vez de “fúria” e com isso Itachi conseguia lidar.

–Shizune-san, se ele der qualquer problema, podem ligar para gente. –disse Asuma com descontraído. -Faremos questão de ajudar vocês.

–Ele não vai dar problema por uns dias. –disse a tia com a voz novamente contida. -Tenho certeza disso.

–Obrigada por tudo.

–Aqui é o meu número, liguem se precisarem de algo. –instruiu o delegado.

–Certo. –disse Shizune em um tom amigável.

–Até mais!

–Até.

Itachi esperava que nunca precisasse usar esse número.

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Notas finais
(1) Noções de direito penal. Então galera esse capítulo tem várias menções de lei, daí juntei tudo e vou explicar aqui: IPTU: Imposto Territorial Urbano. É um tributo pago ao município referente ao terreno do imóvel da sua casa. É pago uma vez ao ano e em alguns municípios você pode parcelar o valor. Investigação. Direito penal não é a minha área, mas ao que eu saiba, quando a pessoa dá entrada no hospital tem que dizer a origem do ferimento, se foi acidental ou proposital. Na fic eu aproveitei isso para conveniência de plot e coloquei que por ser lesão, a polícia foi informada e agora está apurando isso, mas provavelmente essa apuração só seria feita após a vítima registrar a ‘notitia criminis’, aka, B.O. Lesão corporal. Bem, aulinha de direito penal para vocês. O artigo 129 do Código Penal trata das lesões corporais, a doutrina brasileira as divide em lesões leves, graves e gravíssimas. Daí, quanto pior a lesão, com mais rigor será punido o infrator. As lesões leves são aquelas que não deixam sequelas, como por exemplo um tapa na cara. Lesões graves resultam em sequelas que duram por algum tempo e que prejudicam a pessoa por um tempo, por exemplo, quebrar um braço. As lesões gravíssimas são aquelas cujo dano é permanente e por isso a punição é mais rigorosa. O caso de Itachi foi uma perda total da visão, por isso é lesão corporal gravíssima. Regimes de pena. O Brasil tem três regimes de pena: fechado, semi-aberto e aberto. As penas superiores a 8 anos adotam o regime fechado; as penas superiores a 4 e até 8 anos pegam o regime semi-aberto. As penas abaixo disso são regime aberto. Menor de idade. Pelas leis brasileiras, menor de 18 anos são imputáveis, ou seja, não podem ser processados. Contudo, isso não quer dizer que não seja uma prática não punida. Para isso existe o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, onde regula que na ocorrência de ato infracional, o menor poderá ser recolhido a internação, que funcionaria como uma pena privativa de liberdade. Arquivamento do inquérito. Em linguagem bem simples: o delito é investigado pela autoridade policial (aka delegado), formando o inquérito policial a fim de comprovar a existência do delito e a autoria. Após isso, o delegado manda os resultados para o promotor que deve ouvir o menor, as testemunhas, a vítima e tudo o mais, aí ele poderá que poderá requerer a aplicação de medida sócio-educativa ou requerer o arquivamento essa joça ao juiz. Aí o juiz pode concordar com o arquivamento ou remeter o pedido de arquivamento ao procurador geral do ministério público para que ele mande outro promotor pedir a medida sócio-educativa. No caso da fic, Sasuke já foi ouvido, mas disse que foi um acidente, só que o tipo de lesão, além do comportamento suspeito do Sasuke despertou a curiosidade do Asuma que resolveu investigar melhor e resultou na cena. Obvio que ele não poderia pressionar o Itachi do jeito que ele fez, mas isso aqui é uma fic e eu tenho um roteiro a seguir. Para mais esclarecimentos, leiam a nota de fim. (2) Razonete. Ai chesus isso vai ser difícil de explicar, mas é uma espécie de T usado na contabilidade para diferenciar o lado do crédito e o do débito. (3) Rousseau: Jean Jacques Rousseau (1712-1778, Genebra), filósofo suíço que é considerado como um dos principais filósofos iluministas. A teoria que Itachi usou foi retirada da obra “do contrato social e discurso sobre a economia política” (no original francês: “Du Contrat Social ”) publicada em 1762. (4) Hobbes: Thomas Hobbes (1588-1679), dentre outras coisas, filósofo inglês. Itachi retirou aquela teoria da obra “o leviatã” de 1651. (5) Locke: John Locke (1632-1704), filósofo inglês partidário da corrente liberal e um dos pensadores que acabou com o absolutismo. Itachi retirou a teoria de sua obra “Segundo tratado sobre o governo civil” publicada em 1690. (6) Vinis. Bom, como vocês são jovens, provavelmente nunca viram uma coisa chamada “disco de vinil”, então esse treco é o predecessor do CD. Eram coisas enormes, ovais por onde tocava música, mediante uma vitrola. Eu lembro que o som era meio chiado (aka, eu quebrei a agulha da vitrola do meu pai quando eu tinha uns 6 anos e a surra foi tão feia que nunca me esqueci.) (7) – Please, Love me too. I’m in love with you. Answer my prayer. Tradução: por favor, me ame também. Eu estou apaixonada por você. Responda a minha reza, baby. ................................................................................................................................................... Então gente, é o seguinte eu sou uma pessoa franca e se eu faço algo errado, eu assumo a merde ù.u’. Daí eu estou ciente de que quem publica algo tem responsabilidade pela informação prestada e eu vou esclarecer algumas coisinhas pra vocês, ok? ^^ a) As drogas utilizadas pelo Sasuke, Karin e Suigetsu não são do tipo que vicia, o público dessas drogas são pessoas que querem se divertir em uma festa. A maconha causa letargia, raramente causando paranoia; usuários de exctasy apenas a utilizam em festas para curtir melhor o ambiente; b) prostituição e furtos são coisas que eles não fariam. A primeira a opção deles para obter a droga seria vendê-las. Só que eu não queria fazer o trio problema estar dentro do tráfico, entendem? :/ Aí eu desenvolvi um plot diferente disso e a partir daí a trama deu uma guinada diferente da realidade ._. Por que estou dizendo tudo isso? Porque o descontrole que os personagens Karin, Sasuke e Suigetsu apresentam não foi causado pelas drogas. Isso é algo que vocês começam a ver a partir de agora. Quando falo para que vocês tentem não julgá-los é porque ainda não foi mostrado porque eles são assim. Não estou querendo proteger os personagens e nem nada disso, é uma questão de não julgar algo ou alguém sem maiores informações, ou seja, algo que nós devemos aplicar até mesmo na nossa vida (para não perder um amigo porque ele tem uma aparência bizonha ou mesmo confiar em alguém que é perigoso). Por isso peço que sejam pacientes, ‘tá? ._. A fic ainda tá muito no começo ._.’ Outro ponto muito importante é que eu estou tentando fazer os personagens ficarem humanos nessa fic, o que significa que mesmo o Itachi pode fazer julgamentos precipitados e equivocados aqui. :/ Alguns personagens serão mais conservadores que outros e todos esses pontos de vista devem ser considerados por vocês :/ Essa fic é pra diversão, mas também possibilita que vocês tenham senso crítico sobre algumas coisas, pelo menos, esse é um dos meus objetivos, sabe? ^^” Não é querer fazer com que vocês pensem x ou y, mas que vocês questionem alguma coisa e talvez a gente possa debater sobre isso ^^ É algo que soa muito legal pra mim, sabe? ^^’ (tou me sentindo meio boba, mas eu supero isso ^^’) Enfim, apenas tenham em mente que o que Itachi diz não é uma verdade absoluta (às vezes nem é o que eu penso xP). A fic vai ter pov’s diferentes a partir do capítulo 8 e vocês entenderão melhor esse tópico. ^^ E por último: é MUITO importante que vocês entendam que essa fic é uma ficção. Por mais que eu tente fazer pesquisas aqui e ali para dar um elemento de veracidade na coisa (porque é mesmo a minha intenção que vocês parem e pensem: “oh, existe gente passando por isso em algum lugar! D:”), isso nunca vai mudar o fato de que eu não vivenciei nada do que está escrito e por isso eu posso errar (não é a intenção, mas acontece, né? ._.’). ._. E mais: eu posso querer alterar algumas coisas pela conveniência da estória que eu quero contar e eu faço isso sempre que eu achar conveniente. ‘-‘ Quando pesquisei os efeitos das drogas eu pensei: “ótimo, isso se amolda com o que eu quero para os personagens”, mas aparentemente eu errei na escolha :/. Se ofendi alguém, eu peço perdão por isso, não era esse o objetivo da coisa. :/ Vou aprender com isso para em próximas fics não errar :/ Galera desculpa o tamanho dessa última nota, tá? Mas era algo que eu tinha que explicar pra vocês ._. Qualquer dúvida que vocês tiverem, por favor, não tenham medo de perguntar, tá? Eu respondo mensagens e reviews, e ficarei feliz em poder esclarecer alguma coisa pra vocês ^^ Ah e última coisa! Amei o feedback do último capítulo! Fiquei tão feliz que vocês comentaram ^^ Reviews animam meu dia, principalmente quando um monte de merde acontece na minha vida ^^” (e ultimamente tem acontecido um monte -.-‘) Eu sei que já respondi todo mundo, mas, de verdade gente, valeu. Eu estou passando por uns momentos complicados e ‘desejar’ é a única coisa que me alegra atualmente, daí é muito bom pra mim ver que tem gente que gosta dela também. ^^ Espero que tenham gostado do cap!