Desejar
14 Point of no returm - parte final
Notas iniciais
DEZ
Point of no returm
Parte final
Kushina’s pov.
–Hush now, don't you cry. –cantarolou Kushina com a voz baixa, acariciando a bochecha pálida da filha, que adormecia um sono leve. -Wipe away the teardrop from your eye…
Karin tinha acabado de adormecer, havia uma toalha gelada sobre sua testa e o braço esquerdo ligado a um fio de soro. Kushina não tinha certeza se a filha conseguia ouvir sua voz, o som de batuque ainda estava alto, cobria até mesmo o som das ondas quebrando na orla ali pertinho. Era triste ver a sua menininha naqueles fios, Nagato também tinha passado pela mesma coisa, mas a situação era diferente agora.
Ainda assim, o aperto em seu peito ainda não tinha cedido. Aquele pressentimento que só as mães têm, quando sentem que a prole está em perigo. Mas seu filhote estava com seu pai e ela confiava que Hashirama iria cuidar de Naruto, ainda assim...
–You're lying safe in bed… -entoou ela baixinho, enquanto pensava no filho e observava o rosto da filha.
Minato segurou seus dedos com delicadeza, depositando um beijo singelo e delicado nas costas de sua mão e Kushina olhou para ele. O marido estava com bolsas debaixo dos olhos, cansaço o definia, mas lá estava ela, a velha sombra dos olhos de Minato: Ele estava preocupado com ela.
– It was all a bad dream… -ela continuou a cantar no mesmo tom para assegurar Minato. Ela segurou a mão do esposo e a trouxe até seus lábios onde colocou um beijinho ali. -spinning in your head...
Minato sorriu timidamente e ele estava de novo com aquele olhar de bobo apaixonado triste. Kushina sorriu, fechando os olhos e se lembrando dos dias que sua mãe cantava essa música para ela. Todos os dias os garotos e garotas na escola a discriminavam por causa da cor do seu cabelo. Ruivos não eram tão comuns na região e era uma droga. Todo dia ela voltava para casa com o joelho ralado, o uniforme todo sujo e aquela satisfação pessoal de ter passado o recreio inteiro surrando idiotas. Demorou, mas no fim ela conseguiu amigos.
E até mesmo alguém que a fizesse gostar (um pouco, bem pouco) desse cabelo horrível.
Antes, assim que ela viu que seus gêmeos eram ruivos, o seu maior medo foi que Nagato e Karin sofressem o mesmo que ela sofreu na escola, mas nenhum dos dois passou por isso. Naruto até mesmo ficava enfezado porque não tinha nascido com o cabelo vermelho e Minato podia não dizer, mas ela sabia que o esposo ficava muito sentido com isso: Naruto era a luz dos olhos de Minato e todos sabiam disso. Não que seu esposo não amasse menos Karin e Nagato, mas Naruto foi o bebê que Minato filmou o nascimento, já que os gêmeos nasceram bem no dia que Minato prestava o vestibular; Naruto era o bebê que os dois pensavam que ia nascer morto porque ela teve dificuldades no parto dele. Além disso, Naruto era a cara de Minato e isso deixava seu marido tão contente.
Mas qual o sentido daquele medo bobo? Ela se perguntava agora, olhando para a filha adormecida. Havia coisas piores nesse mundo. Kushina passava por mais uma provação agora, mas dessa vez ela não deixaria a tristeza dominá-la como quando seu filhote morreu.
Perder um filho foi muito mais chocante do que perder a sua mãe. Mito foi morta covardemente em um assalto e seu pai ficou devastado, mesmo assim, Hashirama foi quem lhe deu forças. Foi seu pai quem disse que um pedacinho da sua mãe sempre estaria nela e que se ela sentisse saudades, bastava olhar no espelho para lembrar.
Sua mãe dizia coisas nesse sentido também. Segundo a sua mãe, para viver naquele mundo cruel, era necessário se munir com amor primeiro. Amar, amar e amar, mas não um amor falso, um amor sincero pelas coisas boas que existem no mundo, os bons momentos que não tinham hora para acontecer. Um amor tão forte que poderia superar até mesmo as coisas ruins que com certeza aconteceriam na vida, porque viver é um conjunto de momentos bons e ruins.
Kushina amava sua família e seus amigos, mas por amar tanto que era tão difícil aceitar perder. Por amar demais seu filho mais velho, seu menininho de 3,200 kg, que ela quase afundou: mesmo fazendo o impossível por ele, seu garotinho forte não resistiu a doença. Era difícil lidar com isso. Ela era paramédica nas ambulâncias com equipamento de UTI, lidava com a vida e a morte todos os dias no trabalho, mas uma coisa era lidar com um desconhecido e outra completamente diferente era ver o seu filho ali, naquela situação, sabendo que não dá para fazer muita coisa além de acreditar.
A ordem natural dos fatos era que os filhos deveriam enterrar os pais, não o contrário. Nagato tinha só quatorze anos quando morreu e tinha uma vida inteira pela frente, mas ele se foi. Não havia nada que ela pudesse fazer por ele.
Havia um vazio. Um filho não se vai sem deixar esse lugar vago, mas era aqui que as palavras da sua mãe entravam: preencha-se com amor primeiro, Kushina. Era isso o que ela iria dizer, caso ainda estivesse viva, e era isso que Kushina fazia. Ou tentava fazer todos os dias.
Kushina deu um longo suspiro, coçando os olhos com preguiça; estava cansada, mas iria até o hospital com a filha, entretanto, antes ela precisava avisar o filho. Até porque, quando ela viu Naruto ela estava tão zangada com Karin que nem o cumprimentou ou deu uma bronca cavalar nele.
–Querido? Eu vou checar o Naruto, ‘tá? –ela falou com a voz mansa e Minato assentiu.
Kushina saiu do leito improvisado, fechando as cortinas que eram a única privacidade que tinham. Ela foi até a entrada da barraca, onde havia um rapaz alto, de cabelo ruivo natural, o que era uma raridade por si só. O cabelo do jovem tinha um tom mais alaranjado que o seu, mas ainda assim... Kushina teve a ordem dos seus pensamentos desviados quando o tal ruivo perguntou a uma enfermeira sobre sua filha.
E pronto: o botão da raiva foi acionado. Kushina estreitou os olhos, franziu os lábios bem apertados, enquanto fechava os punhos e ia diretamente até o rapaz.
–Você é um daqueles ‘amiguinhos’ da minha Karin, é? –Kushina sibilou, controlando-se para não gritar na enfermaria.
O rapaz (apesar de ser pelo menos uns dois palmos mais alto que ela e ter estilo bombadão) arregalou os olhos castanhos, dando um passo para trás com medo, mas por fim fez um gesto afirmativo com a cabeça. Kushina inspirou profundamente, tremendo de raiva.
–Olha aqui moleque, se você chegar perto da minha filha de novo com drogas, é melhor você tomar cuidado, porque nem que seja a última coisa que eu faça, mas eu faço você se arrepender pelo resto da sua vida! –ela rugiu o mais ameaçadoramente que podia. –‘Tá me entendendo?
O jovem, se possível, arregalou ainda mais os olhos e havia raiva naquele olhar, o que só serviu para que a sua própria cólera quadruplicasse, mas então a fúria desapareceu dos olhos do rapaz, sendo substituída por vergonha e uma súbita apatia. Kushina estava irritada, cansada, com sono e preocupada, mas ainda assim conseguia perceber que aquele cara era estranho. Ela estreitou os olhos em dúvida, enquanto o garoto recuava mais uma vez, em direção a saída.
Kushina o seguiu e aí o bombadão parou, e começou a olhar para a areia com uma timidez patética, que só deixava Kushina com uma vontade assassina.
–A Karin ‘tá bem? –ele perguntou com a voz tímida. -Eu fiquei preocupado com ela... –continuou o rapaz com um tom insuportavelmente tímido e Kushina queria muito espancar aquele cara, assim como ela fazia com os garotos que a irritavam na infância. -Ela disse que só ia conversar com o irmão e até agora nada...
O amigo de Karin olhou em sua direção e Kushina identificou traços de uso do MDMA nele, todavia, a preocupação do rapaz também era genuína.
–Sim. Ela vai ficar bem. –Kushina viu-se respondendo, depois de um suspiro. –Quem é você?
O alívio do rapaz quase a comoveu. Quase. Era obvio que o moleque também era uma má influência, só que era estranho alguém dessa laia se importar e o rapaz realmente se importava com a sua filha. Kushina sentia isso e ela sempre teve um bom faro para detectar pessoas falsas.
–Eu sou o Juugo. –respondeu o jovem com a voz educada. -Eu sou amigo da sua filha... Tento ser... Eu...
–Sei sei sei não diga mais nada, ok? –ela respondeu apressadamente, cansada demais até mesmo para retrucar. -Eu só não entendo porque vocês fazem isso com vocês mesmos! Vocês deviam parar com isso! Faz mal! –ela disse apontando o dedo em riste para o rapaz, que deu outro passo para trás, aparentando estar assustado. -Você já é bem grandinho e devia saber disso!
Os dois agora estavam fora da enfermaria e defronte para o posto de segurança, havia algum barraco acontecendo atrás deles, mas Kushina não se importava com isso agora, só que a reação do bombadão foi algo muito esquisita.
O rapaz estava com as bochechas da cor de tomate pronto para ser colhido e também havia um certo contentamento que ela não soube de onde é que veio. Ninguém nunca ficava feliz em ganhar uma bronca, mas aquele cara realmente ficou contente por isso. Esquisitão esse amigo da sua filha... Kushina tinha medo de conhecer o tal do Suigetsu. O tal Sasuke, na sua mais sincera opinião, merecia um chute do Anderson Silva bem nas bolas, um soco do Gilbert Yvel na boca do estômago e levar todos os golpes possíveis do Gerard Gordeau.
Foda-se a mentalidade pacifista do seu marido, ela queria mais era jogar o tal Sasuke numa gaiola de MMA e ver esse moleque ser trucidado.
–Essa é a primeira vez que uma mãe briga comigo. –comentou Juugo como se tivesse falado consigo mesmo e Kushina ergueu uma sobrancelha. -A Karin tem muita sorte.
Kushina olhou fixamente para a cara do bombadão, tentando ver algum traço de mentira, mas não achou nenhum. Ela bufou descontente e um pouquinho de constrangimento: O garotão não tinha pais, daí caiu nessa.
–É... é... –ela murmurou sem jeito.
–Ô JUUGO PARA DE FICAR QUE NEM MALA E VEM ME AJUDAR CARALHO! –um garoto berrou atrás deles e Kushina se virou.
Cruzes, se ela fosse a mãe desse garoto ele levaria uma surra tão grande por deixar o cabelo ficar elástico daquele jeito! Se era para ter cabelo colorido então tinha que cuidar! Sem falar que o garoto tinha que conhecer um aparelho para endireitar os dentes, porque o caso era sério. O garoto parecia ter os dentes do cavaleiro sem cabeça, naquele filme do Jhonny Deep.
–Suigetsu? –murmurou Juugo aparentando surpresa. –O que você ‘tá fazendo aqui?
Então aquele mocinho era o tal Suigetsu? Kushina sabia que não devia fazer juízo das pessoas apenas com base na aparência, mas poxa vida, por que Karin não andava com gente um pouco mais normal? Sua filha andava com pessoas tão estranhas! Não que Naruto fosse melhor (aquele tal Shino era bizarro, o Genma falava palavrão demais e Kiba tinha as piores ideias de todos os tempos!), mas pelo menos seu filho apresentava para ela todas as pessoas com quem andava.
De vez em quando ele levava os colegas de time de basquete em casa e até mesmo chegou a apresentar a ex-namorada, Hinata, que era uma gracinha de menina. Mesmo que não tivesse dito abertamente, Naruto também apresentou Gaara que não era nenhuma flor que ela cheiraria, mas pelo menos aquele rapazinho gostava do seu filho e o tratava como o príncipe que Naruto era.
Mas Karin? Onde é que ela se meteu para encontrar aquele tipo de gente?
–CALA A BOCA MOLEQUE! –gritou um cara que parecia um trator enfurecido.
Ele era enorme. Um ótimo porte físico para ser um novo Rambo ou Konan, o bárbaro já que parecia jogador de futebol americano e estava puto. Havia pelo menos umas cinco pessoas tentando controlar aquele gigante, só que o tal Suigetsu deveria ter um quê de suicida porque desafiava ainda mais o homem.
–VEM ME CALAR ENTÃO! –berrou Suigetsu ficando frente a frente com o cara. Juugo saiu correndo e foi até o amigo, tentando segurá-lo para que ele não provocasse ainda mais o gigante.
–ORA SEU...! –grunhiu o gigante.
Kushina se tocou que o Rambo devia ser o pai do garoto, os dois tinham feições parecidas, além de que por mais furioso que o homem estivesse, havia aquela tristeza que apenas os pais conseguiam sentir quando os filhos ficavam daquele jeito.
–OS DOIS, PAREM! –gritou uma voz feminina e Kushina reconheceu as feições de Shizune Uchiha.
O Stalone pareceu voltar a si, inspirando profundamente para tentar se acalmar. Juugo tampava a boca de Suigetsu com uma das mãos, com a outra segurava firme o estômago do amigo para impedi-lo de ficar perto demais do pai, os dois se afastaram indo para um canto mais ao fundo. Shizune massageava a testa com força, parecendo absurdamente cansada e estressada. O marido dela, Shisui, se voltou para o grandão, pedindo para que se acalmasse. Kushina sentiu uma pena danada deles e foi quando Shizune lhe viu, vindo em sua direção.
–Oi Kushina-san, que péssima hora, hein? –ela comentou com a voz esgotada. Não que Kushina estivesse melhor, mas ainda assim conseguiu dar um sorriso triste.
–Nem me fale…
Kushina não sabia como outras famílias naquela situação agiam com outras famílias em situações parecidas, mas ela sentia uma forte empatia com Shizune e Shisui. Talvez por isso que, apesar de tudo, era fácil conversar com eles.
Shizune explicou que Suigetsu era filho de Kisame, o Kral Drogo, e que os dois pareciam se odiar, pois estavam brigando desde que se viram há uma hora. Shizune explicou também que o tal Kisame era amigo de Itachi e Kushina não conseguiu evitar sentir pena daquele coitado.
Ela se lembrava bem de Itachi, era aquele rapaz bonito que riu até chorar naquela noite infernal. Kushina sentia tanta pena dele! A sua vida não estava muito melhor do que a de Itachi, mas ela tinha um esposo incrível para lhe dar forças, um pai que era fabuloso, seu sogro e sua sogra eram pessoas estupendas, seu tio podia ser o cara mais ranzinza do mundo, mas também sempre estava lá por eles. Konan e Iahiko eram uns amores que sempre lhes apoiavam também. Mais do que sua família, Kushina ainda tinha amigos extraordinários como Kakashi e Rin, a família Nara... Havia tanta gente por eles! Apesar das mentiras, Naruto também estava lá, tentando ajudar do jeito que podia.
Entretanto, Itachi tinha apenas aos tios ao que parecia, já que até o amigo estava fodido demais para dar apoio. Na noite que ela o conheceu, o rapaz aparentou estar tão desalentado que ela entendeu porque seu filho queria tanto ajudá-lo e por isso não fez nenhuma objeção.
Itachi realmente não parecia ser uma má pessoa e estava passando por tanta coisa ruim. Naruto sempre falava coisas ótimas dele também, talvez até falasse demais, mas enfim, não era nada que a preocupava. Se Itachi realmente fosse o bom rapaz que parecia, ela poderia aceitá-lo como genro sem problemas. O rapaz só teria problemas com seu esposo que, apesar de não aparentar, era extremamente ciumento.
Shizune perguntou o que ela fazia ali e Kushina explicou que sua filha estava doente por causa da droga e que Naruto estava de castigo por saber que tanto o garoto problema quanto sua filha estariam ali e não falar nada para os adultos.
–Seria tão mais simples se eles confiassem na gente, né? –comentou Shizune com a voz baixinha e triste. –Itachi também não contou nada pra gente sobre isso...
Kushina apenas assentiu, se sentindo um pouco magoada com isso. Entretanto, ela tentava entender. Seu filho, assim com ela e Minato, se importava demais com as pessoas que amava e por isso tentava suportar toda a dor sozinho porque pensava que isso ia proteger as pessoas que amava. Isso era tão dela e tão de Minato que às vezes irritava porque não era assim que as coisas funcionavam.
Uma das maiores lições que ela aprendeu no casamento é que ninguém consegue ser forte sozinho. Ela coexistia junto com Minato e os dois eram fortes juntos. Obvio que às vezes ela ficava irritada com o jeito banana do seu esposo (porque Minato podia ser muito mosca morta em alguns momentos), assim como ele ficava apreensivo quando ela perdia as estribeiras, perigando ter uma crise de pânico quando ela tinha seus picos de raiva. Os dois não eram perfeitos, mas confiavam um no outro.
Para fazer uma família dar certo não era só amor, também tinha que ter confiança, respeito e um pouco de admiração. Era apreciar os pontos fortes, aceitar as limitações e engolir os pontos ruins: era uma escolha mútua de caminhar lado a lado, guiando os mais novos no tour pelo mundo.
Nesse ponto existia a grande falha na sua família: A confiança ainda não estava totalmente de volta. Naruto falhou feio em usar drogas por quase um ano, dos treze aos quatorze anos, e era difícil voltar acreditar em uma recuperação milagrosa, quando seu filho era tão amigo de alguém como Sasuke Uchiha. Por outro lado, a única razão do seu menininho ter usado esse tipo de válvula de escape foi porque eles dois relaxaram no dever de cuidar.
Apesar de amá-los (e Kushina nunca duvidava disso), Naruto também saiu machucado disso. Era uma ferida que não sarou para nenhum dos lados e que vez ou outra voltava a sangrar, como naquela noite.
Por amar alguém e querer fazer o melhor, as pessoas podem tomar decisões erradas e isso ninguém diz. Falam que no inferno estão as pessoas que agiram com boas intenções e erraram, mas isso não chega nem perto da verdade.
Não há uma escolha certa quando se ama e essa é a consequência de amar. Todos querem acertar e serem felizes, mas por todos serem humanos é natural existir falhas. A questão toda se resumia em como consertar a merda depois que ela foi jogada no ventilador.
–Quando se ama demais, se quer proteger demais. –Kushina comentou com a voz calma e Shizune a encarou com olhos negros cansados. -As pessoas erram tentando fazer o melhor quando isso acontece. A questão é: o que podemos fazer a partir daí? Não é mesmo?
Shizune deu uma risadinha breve e respondeu:
–Só nos resta seguir em frente, né?
As duas deram uma risadinha fraca e estavam quase se despedindo quando Kushina olhou para trás e viu uma cabeça grisalha muito conhecida sua. Ela tentava espionar por trás do ombro de Shizune, vendo o homem alto e com um terno de bom caimento afrouxar a gravata que parecia muito com uma que ela comprou para que seu pai desse ao seu tio.
–Que inferno... –o homem murmurou com frustração.
–Tio Tobira? –Kushina perguntou erguendo a sobrancelha em surpresa, apontando para o tio que se virou em sua direção, parecendo totalmente perplexo em vê-la ali, mas depois sorriu um daqueles sorrisos contidos dele. -O que o senhor ‘tá fazendo aqui?
–Vocês são parentes? –perguntou Shizune confusa, olhando de um para outro sem entender.
–Sim, ele é... –Kushina estava respondendo quando seu celular tocou. Pelo visor aparecia o nome do seu pai. -Só um minuto. –ela se afastou um pouco, rumando em direção à saída. -Pai?
–Oi filha, onde você ‘tá?
–Eu ‘tou... –Kushina respondia quando foi interrompida.
–Já vi!
Kushina olhou em todas as direções, mas não viu o seu pai e ele já sabia onde ela estava. A razão? Alguém ainda tinha dúvidas que era aquele cabelo fosforescente? Sim, Minato e Naruto amavam a cor do seu cabelo e ela passou a gostar um pouquinho dele, mas como ela odiava ser uma espécie de ponteiro do Google mapa por causa dele!
Logo seu pai apareceu, acenando alegremente para ela. A juba castanha estava solta como sempre, mas seu pai se livrou do sobretudo. A manhã não estava nublada como nos dias anteriores, o que talvez significasse que àquele dia não seria tão frio. Kushina espichou os olhos para ver se Naruto acompanhava o avô, mas o garoto devia ter ficado no quarto.
–O Naruto ‘tá dormindo? –ela perguntou apenas por desencargo de consciência. Talvez seu menino estivesse apenas dormindo tranquilamente no quarto e ela estivesse preocupada por nada.
Seu pai assentiu, entretanto também fechou a cara por alguns segundos, ficando totalmente sério do nada, o que era totalmente não característico dele. “Algo estranho aconteceu.” Kushina pensou, mordendo o lábio inferior com um pouquinho de apreensão. Seu pai tentou disfarçar com um sorriso rápido, mas que não atingiu seus olhos e apenas fez com que ela ficasse duplamente preocupada.
Alguma coisa aconteceu mesmo. Seu pai até desistiu de esconder; Ele era péssimo mentindo mesmo.
–Mais tarde. –disse seu pai com a voz séria e em seguida voltou para o seu jeito bobo alegre habitual. -Irmãozinho! Que bom encontrar você aqui!
–A resposta é não. –retrucou seu tio Tobirama, cruzando os braços e seu pai fez um biquinho contrariado que Naruto também fazia às vezes.
–Mas...! –começou seu pai. –Eu nem terminei de falar!
–Não muda o fato que você ia me pedir alguma coisa. –rebateu seu tio com a voz seca.
Sinceramente, nem parecia que seu pai e seu tio já caminhavam para uma aposentadoria quando os dois brigavam igual criança daquele jeito. Kushina escondeu o rosto com uma das mãos, tendo plena consciência que Shizune olhava em sua direção.
–Bem, vou deixar vocês sozinhos... –murmurou Shizune de um jeito desconcertado e Kushina se virou para a outra e deu um sorriso de agradecimento. Shizune apenas assentiu com um sorriso educado. -Nós ainda temos que prestar depoimento e depois buscar o Itachi...
–Ah, você é a tal da Shizune? –perguntou seu pai com jovialidade. Shizune se virou para encará-lo. -A tia do Itachi Uchiha? Aquele rapaz que estava naquela capelinha?
–Como? –inquiriu seu tio Tobirama ficando totalmente perplexo. -Vocês são Uchihas?
Kushina piscou sem entender, achando por bem fingir que estava entendendo tudo quando era obvio que nada mais fazia sentido ali. Por que é que seu tio Tobirama parecia tão surpreso com o sobrenome de Shizune, Itachi e Shisui? E de onde é que o seu pai, que tinha chegado em Konoha há uma semana, conhecia Itachi?
Shisui-san se aproximou do grupo e Kushina percebeu que o Konan, o bárbaro vulgarmente conhecido como Kisame deveria estar prestando depoimento. Juugo ainda estava com Suigetsu e os dois adolescentes (isso é, se Juugo fosse um adolescente, porque grandão do jeito que era, definitivamente não parecia). Seu pai se voltou para Shisui, cumprimentando-o com um sorriso. Mas Shisui apenas fez um gesto educado com a cabeça para o seu pai, depois se virando para encarar o seu tio, com uma expressão invocada.
–Somos, algum problema com isso? –inquiriu Shisui com a voz educada, mesmo que seu semblante estivesse tempestuoso.
Seu tio apenas fez um gesto breve com a mão, como se dissesse que aquilo era irrelevante, depois ele deu um daqueles suspiros irritados, típicos de quando o seu pai fazia alguma coisa impensada. Não era à toa que seu tio estava com os cabelos todos brancos a essa altura do campeonato: Ele se preocupava com tudo!
–Não é nada. –respondeu Tobirama com resignação. -Eu só devia ter previsto isso. Sempre se pode contar com um Uchiha para alguma confusão...
... Só que isso ainda foi extremamente mal-educado.
–Tio por favor...! –pediu Kushina com a voz baixa, sentindo seu rosto ficar vermelho de raiva e vergonha da família constrangedora.
–Irmão isso foi muito mal educado. –ralhou seu pai com a voz séria.
–Cala a boca! –brigou seu tio com a voz irritada, o timbre grave soando impiedoso dessa vez. -Vocês não têm que lidar com o gênio ruim do Madara todo dia! Ou com as bizarrices dele na administração da parte dele da empresa!
–Hunf... –seu pai bufou e fez bico.
“Será que Naruto e Karin também ficam com vergonha de mim?” Kushina pensou, tendo plena consciência que suas bochechas deviam estar vermelhas da cor do seu cabelo por pura vergonha, já que o seu pai, um senhor de cinquenta e dois anos, ainda fazia um bico na frente de desconhecidos. Ela amava seu pai, Deus sabia que sim, mas poxa, ele precisava ser tão embaraçoso?
–Pai, pelo amor de Deus, para! –ela resmungou se controlando para não dar um pisão no pé do seu próprio pai.
–Pare de deprimir por qualquer coisa! –resmungou seu tio Tobirama com raiva, apontando para o seu pai. O rosto do seu tio estava até mesmo rosado pela vergonha, o que o deixava engraçado. Às vezes Kushina achava que seu tio cresceu revoltado porque seu pai o deixava envergonhado. -Principalmente na frente dos outros!
–Vocês têm alguma relação com o Madara? –perguntou Shisui com a voz atônita e empalidecendo. Kushina, se possível, ficou ainda mais perdida naquela história toda.
Quer dizer, o único Madara que ela conhecia era um amigo de infância do seu pai. Hashirama falava muito que quando era mais novo tinha um amigo com esse nome e que era mais fresco que queijo frescal. Seu pai falava bastante das competições de ‘quem atira a pedra mais longe’, como Madara empatou o primeiro encontro do seu pai com a sua mãe e como seu pai retrucou colocando um descolorante no shampoo de Madara que apareceu na casa dos seus avôs com cabelos laranja pronto para surrar o seu pai.
Só que seu pai não falava mais com esse cara desde que casou com a sua mãe, ou seja, quando ele tinha por volta dos dezesseis anos por aí.
–Infelizmente... –resmungou Tobirama, fazendo uma careta de desagrado. -Aquele excêntrico é meu sócio na empresa.
Shisui arregalou o olhar, empalidecendo um pouco e quando Kushina olhou para Shizune, esta não parecia muito melhor. Mas Shisui se recuperou mais rápido do que a esposa, ficando com a expressão séria de quem analisava alguma coisa.
–Faz muito tempo que eu não falo com ele. –respondeu seu pai com muito mais afabilidade que o seu tio. –Ele é um amigo de infância meu, mas a gente não se fala há mais de trinta anos.
Ainda assim Shisui não parecia muito certo ou contente com isso. Ele trocou um olhar breve e apreensivo com a esposa. Kushina viu logo de cara que naquele ovo tinha pelo para aquelas reações e começou a se questionar do por que, mas, talvez, não fosse da sua conta.
–Enfim, sou Hashirama Senju, o avô do Naruto. Pelo visto vocês já conhecem a milha filha Kushina e o meu irmão mais novo Tobirama. –seu pai se apresentou no mesmo tom cordial. -Seu sobrinho está com o meu neto lá no hotel, no quarto onde estou hospedado. Os dois estão descansando um pouco, não dormiram nada essa noite... Espero que não se incomodem com isso.
–Itachi está bem? –perguntou Shisui com a voz preocupada.
E aqui, senhoras e senhores, estava aquela reação tão não Hashirama de novo. Alguma coisa grave aconteceu e nada tirava essa ideia de Kushina. Seu pai voltou a ficar sisudo, o sorriso e o charme natural dele morrendo, sendo substituídos por aquele olhar sério. Seu tio Tobirama também percebeu, porque estreitou os olhos de um jeito curioso.
–Bom, aconteceram algumas coisas bem desagradáveis, mas é melhor que ele conte pra vocês. –explicou seu pai de um jeito calmo. –Mas eu asseguro que ele ‘tá bem.
Kushina sentiu seu peito palpitar desconfortavelmente com a palavra “desagradáveis”. Shisui e Shizune ofegaram, ambos com um olhar horrorizado enquanto que seu tio Tobirama franzia as sobrancelhas, aparentando preocupação. Sem dúvidas ele tinha alguma ideia do que teria acontecido e pela cara dele, não era nada bom.
–Mas não se preocupem: ele realmente ‘tá bem, não ‘tá ferido e nem nada, parece que o problema foi resolvido também. –concluiu seu pai de um jeito tranquilizador. Shizune e Shisui relaxaram um pouco mais. -Agora ele ‘tá descansando um pouco na suíte presidencial, pedi para que Naruto deixasse ele tomar um banho e dormir um pouco. Vocês não precisam se preocupar com ele por enquanto, resolvam seus problemas com calma, certo?
–Eu... –comentou Shizune com a voz suave. -Eu nem sei como agradecer.
–Não é necessário. –disse seu pai com a voz suave e grave. -Isso é o mínimo que podemos fazer por ele, depois de tudo.
–Depois de tudo...? –inquiriu Shisui com a voz preocupada, seus olhos castanhos arregalados em um pavor crescente. –Foi alguma coisa muito séria?
Seu pai desviou o olhar, fugindo da questão e Kushina começou a ter medo do que é que aconteceu. Shisui devia ter o mesmo medo que ela, pois começou a bagunçar os cabelos que já eram bem bagunçados. Shisui parecia ser um Naruto dois, cujos cabelos não conheciam uma ferramenta chamada pente. Depois de um suspiro profundo, Shisui parou de bagunçar os cabelos e se virou para o seu pai com a expressão mortalmente séria.
–Madara fez alguma coisa ruim com ele? –perguntou Shisui com uma nota de desespero, mesmo que estivesse tentando se controlar.
Seu pai voltou a encarar Shisui, franzindo a testa como se não entendesse a questão, mas nada disse. Shizune mordia os lábios, apertando as mãos umas nas outras como se estivesse extremamente preocupada com alguma coisa. Kushina não entendia aquela comoção toda em relação a esse tal Madara e isso estava começando deixá-la irritada, principalmente por causa da agonia de saber o que aconteceu porque era muito provável que seu Naruto estivesse envolvido nisso.
Ela sentia que sim.
–Não. –quem respondeu foi seu tio Tobirama. –Por mais perigoso que Madara seja, ele não tem intenção nenhuma de fazer mal há qualquer um de vocês. Ele ainda considera a família mais do que qualquer outra coisa.
–Você sabe de alguma coisa? –inquiriu Shisui estreitando os olhos ao se virar para seu tio Tobirama.
–Não, não tenho ideia do que se passa naquela cabeça. –seu tio respondeu com uma franqueza palpável, até mesmo seus olhos se suavizaram enquanto respondia a Shisui. –Mas é bom que vocês fiquem com uma coisa em mente: Madara ainda considera a família a coisa importante do mundo, mas ele não tem escrúpulos para conseguir o que quer. Se ele quer alguma coisa de vocês, ele vai ter. Tomem cuidado com ele.
–Irmão, Madara também não é assim... –tentou intervir o seu pai.
–Não fale das coisas que não sabe! –resmungou seu tio em resposta, sua voz soando cansada. -Você é gentil demais e Madara é um manipulador nato!
Um silêncio incômodo e pesado se instaurou entre eles. Seu tio Tobirama não era má pessoa. Era ranzinza e até meio brucutu no trato com as pessoas, mas ele realmente não queria o mal dos outros. Acima de tudo, seu tio era ótimo em avaliar a intenção das pessoas e se ele dizia que esse tal de Madara era um inescrupuloso, Kushina acreditava.
–Como pode dizer isso? –inquiriu Shisui com a voz dura. –Como pode dizer que ele considera a família mais que tudo? Depois de tudo o que ele...!
–Você já viu o escritório dele? –interrompeu seu tio Tobirama com a voz calma, até mesmo suave.
Shisui piscou sem entender a mudança de assunto.
–Como...?
–O escritório de Madara. Coberto de retratos da família. –respondeu seu tio no mesmo tom pensativo. –Ele ainda mora na casa no lago, a casa onde ele e os irmãos passaram a infância.
Assim que seu tio falou, uma imagem de uma fotografia velha onde tinha uma casa toda construída no estilo vitoriano veio em sua mente. A casa no lago, toda feita em madeira, com amplas janelas abertas e que parecia esconder um monte de fantasmas, onde seu pai costumava passar verões. Hashirama tinha muitas fotos desse lugar, desde quando era pequeno, lá do tempo do ronca, as fotos todas tinha aquela cor de sépia bonita e eram guardadas como um tesouro de família.
Uma fotografia em específico veio em sua mente. Nela o seu pai e seu tio estavam nos jardins dessa casa, seu tio tinha uns seis anos no máximo, mas já era todo rabugento porque não sorriu na foto. Ele estava ao lado esquerdo do seu pai, o qual sorria amplamente enquanto segurava no colo uma menininha linda de uns quatro anos que parecia uma boneca de porcelana com seu vestidinho de babados brancos.
Havia outro adolescente na foto, do lado direito do seu pai. O outro rapaz olhava irritado para Hashirama e atrás das pernas dele estava uma criança da mesma idade que o seu tio na foto. Um garoto bonitinho olhando para seu tio Tobirama timidamente.
–Madara faz o impossível para preservar aquelas memórias, principalmente as referentes a Izuna e Mikoto. –concluiu Tobirama. –Essa é a única coisa que eu sei dele.
A informação não foi bem digerida por Shisui, ao que parecia, pois ele balançou a cabeça de um lado para o outro em negação. Shizune nem parecia respirar direito e havia alguma coisa ali. Kushina conseguia sentir a apreensão do casal e isso estava sufocando-a.
–Você ‘tá errado. –afirmou Shisui com a voz baixa, erguendo a cabeça e olhando de frente para o seu tio. –Ele não se importa. Se ele se importasse com a família, ele não teria matado ela!
O queixo de Kushina caiu e o seu pai teve a mesma reação que ela, mas em vez de ficar quieto, seu pai ficou completamente indignado. Seu tio Tobirama sequer se abalou com o que Shisui disse.
–Que? Isso não faz sentido! Madara era louco pelos irmãos! Vocês são a família dele e ele se importa com vocês! –explicou Hashirama com vigor. –Eu sei que ele não mudaria isso, mesmo depois de ter parado de falar com ele por ter sido expulso de casa!
Seu pai estava virado para Shisui, tentando convencê-lo, mas Shisui apenas olhava com descrédito para Hashirama. Seu tio Tobirama começou a massagear a testa de novo, talvez para espantar alguma dor de cabeça. Kushina se virou para encarar Shizune e percebeu que a outra a encarava também, tentando entender as coisas. Mas nenhuma das duas conseguia entender o que acontecia ali e ambas só conseguiam se sentir apreensivas com isso.
–Você tem certeza disso? –por fim perguntou seu tio Tobirama se virando para Shisui. -Nada é o que aparenta ser com os Uchiha, rapaz.
–O que quer dizer com isso? –inquiriu Shisui sem entender. -Você está do lado dele?
–Eu nunca estaria do lado do Madara. –respondeu Tobirama com a voz séria. –Nós dois nunca nos demos bem, desde quando éramos crianças.
–Então...? –insistiu Shisui com incerteza.
–Então procure as respostas. –respondeu Tobirama em um tom definitivo. -As pessoas sempre gostaram de fofocar mesmo...
Uma áurea pesada estava entre eles e essa densidade fez com que Kushina, de repente, se conscientizasse que, talvez, eles estivessem cutucando um passado que não era para ser mexido. Que àquilo que estava escondido era ainda mais profundo e pior do que já qualquer coisa que eles pudessem esperar e essa perspectiva a assustou como o diabo.
Shisui ficou muito sério e compenetrado, muito perdido em seus próprios pensamentos, mas dava para ver que ele não estava com raiva do seu tio ou do seu pai. Havia outra coisa atormentando o homem e não precisava ser um gênio para notar isso. Seu pai olhava o seu tio com o olhar cheio de pesar, enquanto Tobirama aparentava ser muito mais velho do que realmente era.
Kushina não gostava daquela atmosfera. Todos já estavam com grandes problemas sem mais alguma coisa com que se preocuparem, especialmente com esse sentimento horrível que se instalava dentro dela. Algo que lhe dizia que esse tal Madara, talvez, estivesse envolvido em tudo isso. Naquela trama maldita que Naruto tinha se metido e ela temeu mais do que tudo pela integridade do seu filho e do seu pai.
Porque se ela se importava mais do que tudo com a família e os amava tão profundamente ao ponto de nunca desistir de alguém, ela aprendeu com ele. Hashirama a ensinou ser o tipo de pessoa que ela era. E Naruto também aprendeu com ele. Seu pai não desistiria de um amigo, por mais que não falasse com ele há tanto tempo.
Era simplesmente o tipo de pessoa que o seu pai era. O tipo de pessoa que ela era e o tipo de pessoa que Naruto escolheu ser. A teimosia estava no sangue. Uma herança genética. Uma vontade além de qualquer escolha.
Isso a angustiou. Seu peito novamente se contraiu com aquele desconforto de que sim, alguma coisa ruim aconteceu e outras piores aconteceriam em breve por conta desse novo problema que surgia. Alguma coisa que ela estava apavorada em saber.
–Certo... –agradeceu Shisui com a voz cansada. -Nós vamos resolver aqui e depois vamos pegar o Itachi. Mais uma vez, obrigado.Vamos Shizune.
Kushina olhou os dois Uchihas darem as costas para eles, entrando no posto de segurança e sumindo de sua vista. Seu tio Tobirama murmurou alguma coisa sobre voltar ao hotel para averiguar a limpeza do salão e saiu quase marchando pela areia. De modo que, de repente, ela estava a sós com o pai.
–Kushina, a gente pode conversar um pouco a caminho do hotel? –perguntou Hashirama com o tom de voz sério, seu rosto sendo iluminado pelo sol.
Ela apenas assentiu, caminhando pela orla com lentidão. As ondas quebravam não muito longe dali, a luz do sol revelava o tom de verde-jade do mar que lembrava muito as águas mornas do Caribe.
–Pai, o que aconteceu? –Kushina perguntou com a voz séria, sem parar de andar, mas virando o rosto em direção ao mais velho para olhar o semblante anormalmente sério de seu pai.
–Naruto está bem. –assegurou o seu pai com a voz comedida. -Não está ferido e nem nada.
Kushina assentiu com a cabeça e seu pai fez o mesmo. Uma onda quebrou na praia e a água quase molhou seus pés. Havia os sons de batuque atrás deles, mas pelo menos os dois eram os únicos que caminhavam naquela praia àquela hora.
–Mas aconteceu alguma coisa com ele, né? –insistiu Kushina com a voz séria, parando de caminhar.
Seu pai deu alguns passos à frente, lentamente se virando para encarar o mar. Outra onda se findou na praia e dessa vez Kushina sentiu a água molhar seus pés calçados com uma rasteirinha. O vento gélido trazia o cheiro das algas que viviam no oceano. Seus cabelos foram carregados pelo vento e o mesmo aconteceu com o seu pai, que finalmente se virou para encará-la com a expressão séria e triste.
–Ele quase foi morto hoje, Kushina.
Nada no mundo a teria preparado para o choque que foi ouvir essas palavras. Kushina sentiu que seu queixo caiu com a informação e que seu corpo inteiro travou. Seus olhos se arregalaram e, por um momento horrível, ela nem lembrava como é que fazia para respirar.
Seu filho mais novo quase morreu.
Lentamente, seus lábios começaram a tremer, seu rosto inteiro ficando com uns tiques esquisitos, enquanto uma leve ardência era sentida em ambos os seus olhos que lentamente começavam a se encher de lágrimas não derramadas.
–Kushina, ele está bem. –lembrou o seu pai com a voz urgente, mas ainda assim com uma suavidade extrema. -Não está machucado e nem nada. Se acalme... Respire fundo agora.
Ela fechou os olhos com força, forçando o seu corpo a respirar profundamente. Naruto estava bem. Inspira. Seu filhote não estava morto. Expira. Ele estava bem. Inspira. Seu filho não estava machucado. Expira. Naruto estava no quarto dormindo. Inspira. Ele estava bem. Expira. Ela não perdeu mais um filho. Inspira. Mas ela quase perdeu!
Kushina soluçou e braços fortes a rodearam no mesmo instante. Todo o estresse, desespero e medo que ela sentiu naquela noite inteira pareciam cair em forma de lágrimas. Droga, ela era mais forte que isso e ela sabia que sim, mas nesse momento ela se sentia tão miserável.
Ela não era a mãe que gostaria ser e ela se sentia culpada por isso.
Quando seus filhos mais precisaram, ela não conseguiu ser forte o bastante para suportar o sofrimento de Karin e Naruto após a morte de Nagato. Ela não conseguiu evitar que Karin começasse a usar drogas e sua filha até mesmo passou mal naquela noite por causa disso. Teve uma convulsão, precisaria ficar alguns dias tomando soro e isso era apenas parte do problema, porque ela sabia que o principal problema de sua filha era algo maior. E enquanto ela cuidava de um filho, o outro quase morria!
Hashirama a abraçava com ternura, dizendo que Naruto estava bem e Kushina se concentrou na voz do pai, se esforçando para acreditar nele. Seu pai era um péssimo mentiroso e se Naruto estivesse mesmo machucado, ele já teria dito. Ela conseguia ser mais forte do que essas lágrimas chatas.
Ela precisava ser mais forte que isso.
Kushina se concentrou em respirar profundamente, inalando o cheiro do mar, até que conseguisse ficar mais calma. Ela fechou os olhos, lembrando de Minato e de todas as outras pessoas que precisavam da ajuda dela, lembrou de todas as coisas que poderia fazer por eles e isso finalmente fez com que ela conseguisse se controlar.
Ela conseguiria ser mais forte que a dor dessa vez.
–Mais calma? –perguntou o seu pai preocupado.
Kushina assentiu e ele se afastou.
–Como? –ela perguntou com a voz cheia de determinação.
Kushina não ia se permitir ficar fraca naquele momento. Não iria cometer o mesmo erro de novo. Era humana e ela já errou uma vez, a única coisa que poderia fazer agora era aprender com seu erro passado e consertar as coisas. Ela precisava ser forte para isso e ela o seria. Por sua família, ela viraria uma loba se isso fosse preciso.
Rapidamente, ela limpou as lágrimas do seu rosto e encarou seu pai com olhos decididos. Hashirama assentiu com a cabeça e começou a narrar.
Ele explicou que Naruto ouviu um grito de Sasuke Uchiha vindo da capela, por isso foi até lá e viu que um traficante tentava estuprar Itachi Uchiha. Kushina tapou a boca incapaz de conter o horror que sentia ao ouvir o relato; ela estava apavorada com tudo aquilo e com muita pena do pobre rapaz. Hashirama continuou a contar que seu filho, por aparecer naquele momento, quase levou um tiro por impedir o ato e isso fez o sangue de Kushina gelar em suas veias.
Por mais que a intenção fosse justa, os Uchihas seriam a ruína do seu filho e ela não conseguia parar de pensar nisso. Kushina estava contendo a muito custo uma crise de pânico com esse pensamento e seu pai tornou a explicar que o bandido errou a mira e que Naruto não tinha nenhum arranhão disso. Ela fez um gesto para que ele continuasse e seu pai continuou.
Quando ela pensava que não tinha como piorar, tudo ficou ainda pior: o traficante fez Sasuke escolher entre a vida do seu filho ou ver o irmão sendo estuprado e ainda bater no seu filho. Ela teve que pedir um tempo para assimilar aquilo, alguns segundos para respirar e aceitar o fato que por algum tempo, a vida do seu filho ficou nas mãos daquele garoto problema. Só que não era tão simples lidar com isso e Kushina precisou inspirar e expirar muitas vezes até conseguir voltar a ter o sangue frio necessário para ouvir o resto.
E foi quando o seu pai soltou a bomba: foi Naruto quem fez a escolha de ser morto por Sasuke. Foi Naruto quem escolheu, não o garoto problema. Foi Naruto que decidiu ir até mesmo contra a vontade de Itachi, aquele rapaz que seu filho parecia idolatrar. Seu filho, sua carne, seu sangue, tinha escolhido morrer! Isso poderia ser considerado suicídio? O que esse moleque tinha na cabeça? Vento? Titica de galinha?
Esqueça o medo e o pavor, Kushina agora estava tomada pela raiva. Como é que Naruto podia pensar uma merda dessas? Como é que ele poderia fazer isso com ela e com Minato? Ele estava doido? Tinha batido a cabeça? Ah, quando ela colocasse as mãos nele!
Seu pai terminou de contar a história, dizendo que o bandido foi preso e que os dois estavam no quarto dormindo, mas Kushina já não estava mais interessada no fim. Sua irritação era maior do que qualquer outra coisa que ela já sentiu na sua vida.
–Isso é um absurdo! Esse garoto vai levar uma surra tão grande quando eu puser minhas mãos nele! –exclamou Kushina completamente lívida de raiva pela estupidez do seu filho mais novo. Ela queria tanto estrangular ele por aquela decisão imbecil, idiota e...! Arg! -O que ele ‘tava pensando? Se deixando...! Eu não quero nem pensar no que teria acontecido e ele...!
–Isso não vai adiantar! –contra-argumentou o seu pai com paciência.
Kushina estava ofegante de tanta raiva que estava sentindo. Nunca na sua vida ela ficou com tanta raiva quanto naquele momento. Seu filho tinha escolhido morrer! Morrer! Sem nem pensar nela ou em Minato ou mesmo em Karin. E tudo por quê? Por causa de um drogadinho que era uma das razões para Karin ter afundado ainda mais!
Não, seu filho não estava em um juízo perfeito para fazer aquela decisão e a culpa tinha que ser de Sasuke Uchiha. Naruto os amava e ela sabia disso, mas Sasuke fazia com seu filho saísse do seu comportamento habitual para fazer essas imprudências e isso ela não iria permitir.
–Então Naruto nunca mais vai ver esse garoto! –ela bufou com indignação, olhando dentro dos olhos do seu pai. -Nem mesmo esse Itachi! Agradeço o que ele tentou fazer e tudo, mas não! Chega! Não me interessa que esse bandido ‘teja preso, eu nunca mais quero ver meu filho metido com...!
Ela respirava ruidosamente, enquanto cravava as unhas na palma da sua mão para que a dor disso a ajudasse a ter foco no que precisava ser feito. Seu pai balançava a cabeça de um lado para o outro em negativa, como se aquilo fosse mais uma ideia de jerico dela. Mas não importava! Era o que precisava ser feito!
Kushina sabia que Itachi era tão vítima quanto Naruto e que todo mundo estava no olho do furacão, mas ela precisava cortar o mal pela raiz nesse caso, era o único jeito de proteger seu filho. Depois ela conversaria com Naruto e as coisas iam ajeitar de algum jeito, ela também conversaria com Karin e isso teria que bastar. Talvez se ela e Minato colocassem os dois em algum cursinho para fazerem outros amigos, os trocasse de escola, qualquer coisa nesse sentido ia dar certo.
Decerto que ia ser difícil no começo, mas com o tempo... Com o tempo seus filhos iam ver que era melhor para eles! Ela tinha certeza que se ela e Minato conversassem sobre isso, os dois juntos conseguiriam colocar um fim nisso.
–Kushina, não vai funcionar. –repetiu o seu pai com a voz urgente e determinada. Ela o encarou e viu os olhos castanhos cintilando com severidade. –Naruto está decidido a salvar esse garoto e nada do que você possa fazer vai impedir ele agora!
“Eu quero é ver!” Kushina pensou com desafio, encarando o pai de volta com a mesma intensidade no olhar, inconscientemente fazendo um bico desafiador. Ela sabia que isso poderia soar infantil aos olhos do pai dela, ela sempre seria inferior a ele, mas Kushina sabia que aquilo era o melhor. Naruto e Karin estavam obcecados por aquele garoto, nada de bom ia sair disso. Ela era a mãe deles, era o dever dela protegê-los da encrenca!
Ela precisava fazer alguma coisa! Qualquer coisa que fosse!
–Você sabe como é o seu filho. –argumentou o seu pai com o timbre de voz calmo, mas imperioso que fazia Kushina se sentir uma adolescente que fez alguma imprudência de novo. –Você sabe que não vai adiantar proibir ou qualquer coisa assim porque você sabe que ele vai desobedecer você! E você sabe que se ele sentir que falhou com essa gente, você sabe o que pode acontecer com ele de novo!
Kushina se traiu ao sentir seus lábios tremendo com aquela verdade. Se ela proibisse Naruto de ver Sasuke ou Itachi, o seu filho ia desobedecer. Se ela pedisse para que Itachi, Shizune e Shisui não permitissem o contato, Naruto ia ficar completamente arrasado e tentaria dar um jeito sozinho, sem confiar nela ou mais em qualquer pessoa da sua família. Porque Naruto era esse tipo de pessoa: quando ele amava, ele amava pra valer e se esforçaria em ver a pessoa amada bem.
Era esse tipo de amigo que o seu filho era.
Naruto iria ficar ainda mais triste do que estava e iria descontar essa tristeza em alguma coisa que o feriria. Seu caçulinha se considerava um bom mentiroso, mas Kushina via a tristeza escondida atrás daqueles sorrisos. Seu filho sentia falta de Nagato, mas desde antes disso, ela enxergava que Naruto não se sentia digno deles. Era uma idiotice total, porque Naruto era a criança mais esforçada e doce que ela jamais sonhou que poderia ter como filho, se levasse em conta o quão peste ela foi quando criança, ainda assim era algo que seu garoto de 2,100 Kg sempre sentiu.
Kushina sentiu seus ombros se curvarem com um peso invisível e o seu pai lhe olhou com tanta tristeza que só fazia tudo doer ainda mais, porque ela odiava vê-lo daquele jeito.
–O senhor ‘tá querendo me dizer que não tem nada do que eu possa fazer? É isso? –ela perguntou com a voz fraca, se esforçando para não chorar de novo. -Quer dizer que eu tenho que ver meu filho fazer essas burrices e ficar de braços cruzados? É isso? –a raiva voltava a se apoderar dela junto com a angústia. -Eu sou a mãe dele, pai! Eu tenho que fazer alguma coisa!
Ela quase gritou às últimas palavras, outra onda quebrou na orla da praia molhando até as suas canelas, mas nem a água fria do mar conseguiu amenizar a raiva que ela sentia. Kushina odiava não ter o controle da situação, odiava se sentir uma inútil quando havia coisas tão importantes em risco. Ela odiava isso!
–Filha... –chamou Hashirama com docilidade. -Será que você não percebe que já perdeu seus filhos?
Kushina abaixou o olhar, sentindo que perdia todas as forças.
–Eu sei.
Era difícil admitir isso e doía como uma estaca sendo cravada no seu coração, mas ela sabia que seu pai dizia a verdade. No momento que Karin e Naruto escolheram fazer coisas contra a sua vontade, escondidos, ela já os perdia de novo. A cada dia que passava, ela perdia um pouquinho mais dos dois filhos.
Kushina sabia que os filhos não confiavam nem nela, nem em Minato e que por isso os desobedeciam. Assim como ela sabia disso e não conseguia confiar nos dois, sempre iria pensar que os dois estariam escondendo alguma coisa dela e isso não ajudava na situação em que estavam. Minato não dizia, mas ele também pensava o mesmo. Sua família estava quebrada há muitos anos e as peças estavam difíceis de serem juntadas de novo.
–Naruto é uma criança! –ela insistiu, voltando a fechar os punhos e a encarar o pai. -Ele não tem noção no que ‘tá se metendo! Como é que eu posso permitir isso?
Hashirama a encarou com um olhar sério e altivo, do jeito que a encarava quando ela aprontava alguma coisa na escola ou quando vinha para casa com uma anotação no caderno por causa do mau comportamento. Isso a fazia se sentir tão pequena e tão inexperiente que era quase dolorosamente humilhante.
–Nenhum dos dois é mais criança, Kushina. Karin tem dezenove anos e Naruto tem dezessete anos, é quase um adulto. –pontuou o seu pai com serenidade. -Se você quer ajudar eles, você tem que ganhar a confiança deles de novo.
Ela sabia disso. O problema era como ela poderia fazer isso?
–Naruto não vai parar enquanto não ajudar esse amigo. Ele acredita que se fizer isso, ele vai ajudar a Karin. –continuou o seu pai, parando de olhar em sua direção para observar o oceano. -Nada do que você ou eu diga vai mudar a cabecinha dele e você sabe como é o seu filho, né? Colocou algo na cabeça...
–... Ele vai até o fim... –Kushina completou com pesar.
–Isso.
Kushina suspirou pesadamente, sentindo uma dor de cabeça colossal, muito embora estivesse emocionalmente esgotada. Foi uma noite interminável. Karin estava bem agora e assim Naruto parecia estar. Isso deveria ser o bastante, mas não, não era o suficiente. Ela precisava de alguma outra garantia que estava muito além do seu poder.
–Eu me sinto tão inútil... –ela comentou se sentindo tão fraca e incapaz de proteger a sua família.
Ela era uma mãe e mães tinham como função natural cuidar da prole, mas ela estava de braços atados em uma situação que não era para ficar omissa. E isso era a coisa mais angustiante que ela jamais pensou que poderia ser possível ou que ela jamais pensou que aconteceria com ela, com a sua família, com seus filhos. Mas estava acontecendo e alguma coisa precisava ser feita. Então o quê? O que ela podia fazer?
–Eu também me sinto assim... -comentou o seu pai com um sorriso triste.
Os dois voltaram a caminhar pela orla da praia, chegando às escadarias que davam acesso ao hotel e subiram por elas. Havia um grupo de policiais trabalhando em uma área cercada por fitas amarelas e Kushina estremeceu ao olhar para aquele lugar. Só podia ser o local do crime. O buraco na porta de madeira era prova o suficiente disso. Ela desviou o olhar, enquanto engolia um seco.
–O que eu posso fazer, pai? –ela perguntou baixinho, olhando o chão.
–O bandido foi preso e aquele garoto não queria matar Naruto. –ponderou Hashirama com a voz calma. -Mesmo que o irmão dele estivesse com risco de ser... Você sabe, o garoto não conseguiu, entende? –Kushina se virou para encarar o pai. -Talvez esse garoto não seja mal, só esteja perdido...
Isso não a fazia se sentir melhor e Kushina desviou o olhar, observando a piscina grande do seu lado. O garoto podia estar apenas perdido e confuso, mas isso não mudava o fato de que ele estava causando muita dor a muita gente. Seu silêncio não impediu Hashirama de continuar.
–Além disso, esse moleque é um Uchiha, a família dele deve ter grana pra pagar algum tratamento pra ele e mesmo que não tenha, no caso deles não quiserem a ajuda do Madara ou do Izuna, o irmão dele não é má pessoa também, nem os tios pelo que eu vi... –continuou Hashirama com a voz pensativa. -Além disso, esse rapaz, Itachi... Ele preferia ser estuprado do que deixar Naruto morrer. Se ele estava disposto a ir tão longe pra proteger o Naruto, nós temos que dar um pouco de confiança nele...
–O que o senhor me sugere? –ela perguntou com a voz seca, novamente parando de andar. -Que eu não faça nada?
Lentamente seu pai parou e se virou para trás, observando-a atentamente durante alguns bons segundos com a feição astuta, mas logo em seguida ele amenizou suas expressões e suspirou.
–Eu não estou dizendo isso.
–Então o quê? –ela perguntou com raiva, cruzando os braços, sem sequer perceber o bico enfezado que fez.
–Que você observe, Kushina. –recomendou o seu pai com a voz soando pensativa demais.
Kushina desfez o bico, mas, em vez disso, ela ergueu uma das sobrancelhas, lançando um olhar desconfiado ao pai. Que viagem era aquela? Observar? Só? O que ele queria dizer?
–Isso fica apenas entre nós, ok? –disse o seu pai deu uma piscadela e Kushina estreitou ainda mais os olhos, ficando ainda mais enfezada. -Naruto está apaixonado por esse tal de Itachi e pelo pouco que eu pude ver, acho que há uma boa chance desse cara retribuir o sentimento.
Por céus, onde é que seu pai queria chegar com aquela conversa? Ele queria dar uma de cupido por um acaso? Ela nem sabia se Itachi era mesmo um bom menino! Kushina tinha pena do rapaz, fato, Itachi parecia ser o cara mais azarado do planeta, mas o que esse namorico tinha a ver com o problema?
–Pai, o senhor bebeu de novo? –ela perguntou com raiva, apontando o mais velho que ficou completamente indignado com sua acusação.
–Não, eu não bebi! –resmungou Hashirama fazendo um bico tristonho, que fez com que Kushina quase desse um esporro no pai. -Kushina, será que você não percebe que esse é um ótimo jeito de você conseguir a confiança do Naruto de novo?
–Hein? –ela perguntou completamente surpresa.
–Pensa comigo, se você garantir ao Naruto algo que ele quer, então a desconfiança dele contigo vai diminuir aos pouquinhos. –argumentou seu pai com um sorriso besta na cara. –Se você ir ficando atenta aos detalhes, você vai conseguindo ver o que ele quer e aí conseguir negociar com ele, o que vai fazer vocês dois se aproximarem de novo. É uma jogada arriscada, mas se aquele cabeça dura vai se jogar de paraquedas nessa loucura toda, então o melhor jeito de proteger ele é...
–... Se meter nessa burrice toda pra ser cúmplice dele, ficar alguns passos a frente e assim proteger ele. –ela concluiu o raciocínio.
–Isso. –concluiu seu pai.
Era um ponto, apesar de ser um bem ruim. Kushina segurou o queixo com a mão direita e o cotovelo com a esquerda, pensando na situação. O bandido estava preso, Shizune, Shisui e Itachi realmente não pareciam pessoas ruins, ela realmente simpatizou com Shizune e Shisui, apesar de não saber se eles ainda queriam manter contato após todo esse lance com o tal Madara. Não que seu filho fosse saber disso ou considerar isso na sua investida Kamikaze.
Independentemente dos sentimentos de Naruto por esse Itachi, Kushina precisava se certificar que esse rapaz ia mesmo corresponder os sentimentos do seu filho e se não iria magoá-lo em algum momento.
–Deixa eu ver se eu entendi: meu filho quase morreu hoje, o pai dele vai surtar com isso e vai ser tão radical quanto eu, mas eu não posso proibir ele de ver esse Sasuke porque seria dar um tiro no meu pé e jogar Naruto na boca do leão. –pontuou Kushina com seriedade e seu pai assentiu com um gesto afirmativo com a cabeça. -Meu menino ‘tá apaixonado por um cara que eu nem tive tempo de conhecer e nem sei se é apropriado. Mas tudo o que eu posso fazer é observar, pra jogar meu bebê nas mãos de um cara mais velho que vai violar ele?
Hashirama sorriu tristemente para ela, enquanto um vento gelado acariciava o seu rosto.
–Ás vezes um pai e uma mãe não podem fazer nada pelo filho a não ser observar. –respondeu seu pai com uma nota de pesar e tristeza, mesmo que houvesse um sorriso gentil em seus lábios. -Essa é a pior lição que um pai e uma mãe devem aprender. Pense nisso.
Kushina ainda ficou observando o seu pai por longos segundos, antes de balançar a cabeça afirmativamente e com isso fazendo o seu pai sorrir de verdade.
–Eu vou pensar. – ela disse com a voz um pouco mais calma. -Mas agora eu só quero ver meu filho!
Os dois voltaram a caminhar, entrando no salão de festas do hotel. Eles passaram por seu tio Tobirama, que estava dando um esporro em alguma pobre faxineira. Os dois andaram mais rápido e foram até o elevador, que tocava uma versão pra lá de antiga de “blue moon” na rádio.
Kushina precisava reconhecer que, por mais esdrúxulo que fosse, aquele plano ainda tinha alguma lógica. As pessoas se esforçavam quando queriam alguma coisa, mas muitas vezes precisariam de ajuda para concretizar esse objetivo e seu filho não era diferente. Se ela pudesse ajudar o seu filhote nesse percurso, ela invariavelmente iria conseguir a confiança dele de volta. Naruto também era ciente que Minato não ia engolir qualquer namoradinho ou namoradinha com facilidade, ainda mais nessa situação. Daí se ela usasse aquilo a seu favor para ganhar a confiança do filho, ela conseguiria protegê-lo melhor e talvez os dois conseguissem finalmente contornar aquela barreira que foi erguida nos últimos anos.
No contexto atual, a única coisa que ela podia fazer era isso mesmo. Não, antes ela precisava ter uma conversinha com esse Itachi para ver se ele merecia o seu filhote. Não era qualquer um que merecia alguém como seu filho e Kushina precisava saber disso antes de se arriscar nesse plano idiota. Outra coisa que ela podia fazer era conversar com Shizune e Shisui acerca do que eles poderiam fazer a respeito de Sasuke, porque isso com certeza também poderia ajudá-la com Naruto.
Bom, não era muita coisa, mas já era um começo.
Hashirama passou o cartão magnético na porta e eles entraram na suíte presidencial que naquela altura da manhã estava completamente iluminada com os raios solares. Kushina atravessou a sala de estar, contornando os móveis elegantes e foi até o quarto principal que, felizmente, estava com a porta entreaberta e ela a empurrou lentamente, fazendo um ruído suave e...
Ela quase gritou de espanto quando viu seu filho dormindo sobre o peito Itachi, que tinha uma das mãos nos cabelos louros do seu menininho e a outra segurando uma das mãos de Naruto carinhosamente. Os dois estavam profundamente adormecidos porque nem se abalaram com a porta sendo escancarada por seu pai que parou ao seu lado, com olhos arregalados para a cena.
–Tem certeza que eles não são namorados? –ela cochichou urgentemente para o pai, virando-se para encará-lo.
–Não! –respondeu seu pai murmurando baixinho, os olhos ainda pregados na cena. -Naruto teria me dito!
Kushina se virou para encarar o pseudo casal. Seu filho dormia tranquilamente, como se não tivesse nenhum problema em seus ombros, o que era algo que ela não via há muitos anos. Desde antes da morte de Nagato, Naruto não tinha uma boa noite de sono. Acordava várias vezes durante a noite e não raro ela o flagrava no computador quando era hora de dormir. Naquele momento, seu filho estava com uma expressão serena no rosto, como há muito tempo ela não via e que ela sentiu muita falta.
Ela observou o rosto do filho com afeição alguns instantes a mais, depois olhou para o rosto de Itachi que exibia uma feição bem similar a do seu filho. Itachi era realmente um homem muito bonito, mas só agora que Kushina veio reparar. Naquela noite que ela o viu, Itachi parecia mais uma criancinha assustada do que um homem, alguém que precisava de proteção, mas agora ela via que, talvez, o rapaz pudesse ser mais forte do que ela poderia ter imaginado.
–Vamos! –ela cochichou para o seu pai e os dois saíram do quarto, fechando a porta com um clique quase imperceptível.
Não havia decisões certas ou erradas quando se amava alguém, mas não se custava nada tomar as precauções devidas para não magoar alguém amado. Kushina ainda tinha muitas dúvidas se estaria fazendo a escolha certa em seguir aquele plano maluco, mas, se fosse para ver seu filhinho daquele jeito mais vezes, ela não via em por que não arriscar.
–Eu vou topar. –ela disse ao seu pai quando os dois se sentaram nas poltronas da sala de estar, enquanto seu pai pedia um café da manhã reforçado pelo serviço de quarto.
–O que? –ele perguntou confuso, ainda segurando gancho.
–Essa ideia maluca. –ela esclareceu com a voz decidida. –Seja o que Deus quiser.
Seu pai deu um sorriso satisfeito, que não a deixou muito segura de si, mas pelo menos ela não se sentia tão só naquilo tudo. Hashirama estaria lá por ela e por Naruto, ela podia contar com ele e com um pouquinho mais de fé, Naruto ia confiar nela também.
E que Deus não a punisse pelas coisas que ela não podia imaginar.
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Itachi’s POV
“Que cheiro é esse?” Itachi pensou semi-acordado, inalando profundamente o perfume de erva doce e alguma coisa adocicada cheirosa. Ele exalou o ar e inspirou aquele cheiro de novo, reconhecendo a fragrância: era camomila. Mas não era só, quanto mais ele respirava aquele aroma, mais ele percebia que havia outro odor igualmente gostoso de sentir. Parecia com flores de laranja. Itachi inalou aquele perfume mais uma vez e, definitivamente, era o cheiro de flores de laranja. Ele adorava aquele cheiro e inevitavelmente ele suspirou satisfeito, se sentindo ainda mais preguiçoso, mesmo que sua bexiga, a grande responsável por acordá-lo, clamasse para ser esvaziada.
Com um suspiro preguiçoso, Itachi inclinou a cabeça para sentir mais daquele cheiro e a ponta do seu nariz encostou em algo que era diferente da fronha do seu travesseiro, porque ele não conhecia nenhum travesseiro que se arrepiava. Tinha algo de errado ali. Seu travesseiro estava de um ângulo diferente naquela manhã, um pouco mais desconfortável por ser meio duro, mas ainda assim se amoldava perfeitamente ao seu corpo. Algo macio pressionava deliciosamente a sua ereção matinal, mas a parte de cima não parecia em nada com um travesseiro.
Itachi tateou pela superfície lisa, macia e quentinha, até encontrar ainda mais tecido, algo que parecia um elástico de pijama ou moletom, o que o deixou bastante confuso. Sua mão parou e imediatamente as memórias de quando ele adormeceu vieram em sua mente, fazendo com que ele quase tivesse uma crise de pânico: era Naruto.
Ele estava dormindo de conchinha com Naruto.
Isso o acordou completamente, afastando completamente a preguiça e o sono remanescente. Principalmente porque a sua consciência lhe alertou que a sua mão estava dentro da camisa de Naruto, pois ele sentia a pele morna do garoto subir e descer em uma respiração suave e cadenciada.
“Se acalme! É só tirar a mão daí e se virar pro outro lado sem acordar ele!” Itachi pensou um pouco em pânico, movendo a sua mão com cuidado para não acordar Naruto, entretanto, o adolescente escolheu justo aquele instante para se virar na cama, sem dar qualquer chance de Itachi tirar a mão. Pior. Naruto forçou uma das pernas para ficar entre as suas, já que agora estava de frente para ele, o abraçando em seu sono. Era uma posição muito mais confortável que a anterior, já que a seu braço agora estava em volta das costas do garoto. Itachi sentia respiração morna do adolescente batendo em seu rosto, a franja do Uzumaki fazendo cócegas na sua bochecha e aquele cheiro bom estava ainda mais forte agora.
Itachi não conseguiria sair daquela posição sem acordar Naruto. Mas se ele acordasse o garoto a situação ia ficar extraordinariamente constrangedora. Especialmente agora que ele lembrava tudo o que eles conversaram momentos atrás e sobre como conversaram sobre isso. O que ele poderia fazer?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Indiferente a sua crise de pânico, Naruto o abraçou com ainda mais força, aproximando ainda mais os seus corpos até que a ponta de seus narizes se tocarem, fazendo com que um arrepio, totalmente desvinculado da sua crise de pânico, atravessasse sua espinha dorsal.
Itachi jamais se deixaria ficar naquela posição com outras pessoas e, apesar de ser extremamente constrangedor e estranho, a verdade é que ele não se incomodava com esse súbito grau de intimidade com o Uzumaki. Não depois deles terem falado de coisas muito mais íntimas antes disso. A única pessoa com quem ele quis dormir assim foi Konan, mas sua ex-namorada nunca gostou de dormir de conchinha. Depois que eles faziam sexo, era cada um no seu canto. Itachi não foi apaixonado por Konan, mas ele realmente gostou dela.
O pedido de namoro que ela lhe fez foi uma das coisas mais não românticas e engraçadas que já ocorreu na sua vida. Konan estava muito magoada e irritada com a lerdice do garoto que ela gostava, um cara chamado Yahiko, daí resolveu esquecê-lo de uma vez por todas, resolvendo que iria namorar alguém para esquecê-lo, já que havia a crendice que um amor novo fazia com que um amor velho fosse esquecido. Foi então que ela se virou para o lado e lhe pediu em namoro, e ele aceitou.
Os dois foram mais amigos do que namorados, mas ainda assim, Itachi gostou muito dela. Provavelmente se o pai dela não tivesse sido designado para atuar em uma delegacia especializada em outro lugar, os dois ainda estariam namorando. Tsunade-san parecia querer muito que os dois casassem na vez que o viu e Jiraya-san era uma figura. Ele só não conheceu o irmão de Konan e nem a família dele, Konan dizia que o irmão estava com grandes problemas e que era muito ciumento com ela, daí eles iam esperar as coisas melhorarem para que ele fosse devidamente apresentado.
Bem, isso nunca aconteceu e agora ele estava ali, dividindo a cama com outra pessoa além dela. Só que o que acontecia naquele momento era ainda mais íntimo que sexo na sua opinião. Sexo era uma coisa que dependia de um momento oportuno, de se sentir a vontade de estar com aquela pessoa e ter um tempo agradável juntos. Mas dormir junto com alguém era uma variação mais íntima ainda, porque só se dorme junto com alguém que você quer na sua vida. E ainda assim ele se sentia confortável naquela situação.
Aquela noite foi a pior da sua vida inteira, muito pior do que saber que sua mãe foi assassinada, ou descobrir que seu pai estava morto, ou quando Sasuke se envolveu com drogas e tentou assediá-lo, e até mesmo aquela noite horrível onde sua casa foi palco de um barraco épico. Sasuke quase foi estuprado. Ele quase foi estuprado. Naruto quase foi morto, duas vezes ainda por cima!
Apesar da lógica lhe dizer que ele agiu certo naquela hora (quando gritou para Naruto parar de ser idiota e aguentar a surra, enquanto ele aguentava ser estuprado, pois esse era o melhor jeito de proteger Sasuke), Itachi nunca tinha ficado tão apavorado quanto naquele salão. Ouvir Sasuke gritando desesperado, sem poder fazer nada para ajudá-lo enquanto sentia aquele cara respirando em cima dele, com aquela língua áspera no seu corpo era algo extremamente repulsivo.
Mesmo agora, Itachi estava apavorado com o que a polícia ia fazer com Sasuke, já que seu irmão parecia estar com droga na hora que os salvaram. Aquele delegado Ibiki lhe disse que Sasuke seria encaminhado a uma casa de apoio no município vizinho, para que não se envolvesse em confusão até o promotor do plantão ser chamado. Itachi ainda tinha em mente o que Madara disse, que aquele lugar não era bom, mas não era como se ele entendesse de leis, afinal.
Só que isso nem era o pior: Itachi estava morrendo de medo com o psicológico de Sasuke. Seu irmão ficou na posição de juiz naquela hora ao ter que escolher entre Naruto ou ele e, apesar de Itachi não saber muita coisa sobre o Sasuke atual, deu para entender que sim: Sasuke se importa muito com Naruto. Se realmente não se importasse, seu irmão teria matado Naruto sem nem pensar duas vezes. Sasuke era ‘na lata’ assim.
Itachi se perguntava sobre como seu irmão estava. Como é que Sasuke estaria agora? No que estaria pensando? Itachi estava preocupado com o caçula.
E ele também estava quebrado de tantas formas... Se antes tudo já estava horrível, naquela noite Itachi aprendeu que tudo poderia ficar ainda pior. Ele se sentiu miserável, algo ainda mais insignificante que um micróbio, apenas um objeto.
Mas Naruto apareceu antes que ele pudesse afundar no desespero.
A vida era irônica. Ele afundava por um irmão mais novo e era alguém mais novo que ele quem o salvava. Naruto apareceu no momento certo para impedir que aquele maldito o humilhasse e também apareceu quando a sua mente pregava peças. O Uzumaki estendeu os braços justo quando ele mais precisou, só que sem tratá-lo como alguém que era digno de pena.
Itachi sorriu com isso, relaxando o corpo e escutando atentamente a respiração baixa de Naruto. Podia não parecer, já que Naruto parecia ser sempre tão forte, mas Itachi sabia que o mais novo precisava dele, tanto quanto ele precisava de Naruto. Às vezes parecia que os dois ficavam mais forte juntos e que isso fosse a coisa mais certa que Itachi já tinha visto, embora também soasse meio forte demais por algum motivo.
Ele não entendia exatamente quando esse laço que formaram ficou tão profundo, mas estava lá. Era inegável agora, mesmo que também fosse muito assustador ficar tão envolvido com alguém que acabou de entrar na sua vida.
Entretanto, Itachi achava que entendia algumas coisas agora.
Verdade fosse dita: ele se sentiu feliz quando Naruto começou a falar sobre Nagato, mesmo que ele soubesse que o garoto estivesse triste, porque o ato de falar sobre o passado significava que Naruto queria dividir alguma coisa importante com ele. E ele seria um hipócrita se não admitisse para si mesmo que ficou ainda mais feliz quando Naruto falou as suas razões para fazer aquela tolice toda, mesmo que ele não concordasse.
Não foi nada fácil falar ao adolescente sobre seus maiores medos ou falar sobre Madara. Itachi não gostava de se expor, muito menos de revelar seu lado fraco para outras pessoas, especialmente alguém mais novo que ele, entretanto não parecia justo não dizer essas informações a Naruto. Ele quis que Naruto soubesse, só teve medo que o garoto finalmente percebesse o quão ruim as coisas eram para o seu lado e então virasse as costas para ele, mas Naruto não fez isso.
Também era verdade que Itachi ficou completamente desesperado quando Naruto teve a pior ideia do século em se deixar ser morto por Sasuke. A ideia de seu irmão ser um assassino era medonha, tanto quanto saber que era a razão da morte de alguém. Mas o pensamento de ser Naruto morrendo por eles dois era simplesmente insuportável e Itachi sabia que seu irmão concordaria com ele quanto a isso.
A grande verdade de tudo isso é que ele se sentiu feliz em confortar e em ser confortado por Naruto. Aquilo era certo e estava muito claro agora.
Cada um daqueles toques não foi sem sentido: ele apreciou cada um deles, até mesmo quando Naruto beijou seu pescoço. Naquela hora ele se sentiu tão confuso por permitir aquela carícia estranha e gostar tanto disso que ele quase cedeu mais lugar para que Naruto continuasse, até falou em voz alta seus pensamentos para consigo mesmo. Porque, se ele fosse muito franco, Itachi sequer tinha percebido o quanto queria Naruto em seus braços daquele jeito até que Naruto estivesse ali e...
Putz...
Kisame estava certo: ele gostava de Naruto.
“Como isso aconteceu?” pensou Itachi gelando no mesmo instante. Seu corpo enrijecendo no mesmo momento que seu coração deu um salto na caixa torácica: ele gostava de Naruto. Itachi ofegou por alguns segundos completamente em choque com isso, mas forçou-se a se acalmar para poder pensar com lógica.
Os fatos sempre estiveram lá: ele não se importava em ser tocado por Naruto, nem em falar tudo aquilo que ele queria deixar guardado, ao contrário, Itachi queria manter Naruto perto de si e isso era... Confuso.
Parecia que era algo repentino demais, mas não, não era. Estava lá há mais tempo e só agora que ele percebeu. Era muito pouco tempo para ter algo tão forte quanto isso, mas Itachi confiava em Naruto da mesma forma que o mais novo confiava nele. Kisame, aquele malandro, percebeu desde o começo, mas... E Minato?
Minato foi o médico que salvou a sua vida, era gentil e realmente quis que ele ficasse melhor, além de ser alguém bonito. O médico esteve lá quando tudo estava tão insuportável e era alguém que ele admirava tanto que Itachi acabou tendo uma paixão. Era um tipo diferente de confiança, uma fé de que Minato ia cuidar bem dele. Nunca houve qualquer coisa além da relação de confiança entre médico e paciente.
Mas Naruto era diferente disso.
Naruto foi com quem ele dividiu afinidades, falando sobre coisas que ele gostava e sobre as quais ele sempre quis conversar, mas não podia porque as outras pessoas não gostavam das mesmas coisas que ele. Os dois também conversaram sobre amenidades e coisas muito importantes. Coisas íntimas e que não era para ninguém saber, mas que eles conversaram. O adolescente nunca o tratou como uma peça quebrada, muito menos o tratou como um prodígio ou ser superior ou qualquer coisa assim. Antes de tudo, Naruto o enxergou como Itachi. Sem mais e sem menos. Naruto lhe fez rir quando nada mais era capaz de fazê-lo rir, também lhe deu forças quando nem mesmo ele conseguia encontrar o caminho de volta. Naruto estava lá.
Itachi gostava de Naruto por isso. Só de pensar no que Naruto fez nos poucos dias que passaram juntos, Itachi sentia seu coração ficar mais calmo e seu corpo ficar morno, relaxado. Não era aquela aflição de quando ele sentia o cheiro de Minato ou ouvia a voz dele, era um tipo diferente de alegria, uma espécie nova de confiança que era cultivada dia-a-dia.
Ele gostava de Naruto.
Não havia porque negar isso e não era nada mal esse sentimento, Itachi se sentia feliz do mesmo jeito. Apesar de saber que não tinha a menor chance de qualquer coisa mais física vingar entre eles, já que Naruto o considerava equivalente a um irmão. Talvez até o visse como substituto a Nagato ou alguma coisa assim, além de que, devia existir alguma regrinha de etiqueta tipo: ‘não namore os amigos do seu irmão’ em algum lugar.
“Eu devo ser a pessoa mais romanticamente azarada do mundo...” Itachi pensou com pesar, sorrindo tristemente. Era esquisito, ele estava desapontado por não ter chances com Naruto, mas ao mesmo tempo estava feliz só porque o garoto estava ali. Não importava que depois de cinco anos sem ninguém, Itachi subitamente se sentisse atraído pelo pai do garoto e agora estivesse gostando de Naruto, o que importava é que Naruto estava ali.
Enquanto ele pensava nisso, alguém fez um barulho alto do lado de fora do quarto, algo como rodinhas se mexendo, porcelana chacoalhando, mas ele não tinha muita certeza. Parecia que umas três pessoas estavam conversando, mas Itachi não conseguia ouvir o que eles diziam e foi quando Naruto começou a se remexer na cama.
Itachi gelou no mesmo instante: e se vissem o jeito que ele e Naruto estavam dormindo e pensassem que ele era um pedófilo? Pior: e se Naruto acordasse? Como é que iria ficar as coisas entre eles? Naruto abaixou o rosto, começando a se espreguiçar com manha, deslizando o braço que antes estava nas suas costas até os seus cabelos. Ele estava acordando e Itachi começou a ficar em pânico de novo.
No outro lado do quaro, ele reconheceu a voz de Shizune, conversando com o avô de Naruto e outra mulher, provavelmente a mãe de Naruto; isso não ajudou em nada a sua saúde cardíaca, já que seu coração parecia que ia explodir no peito de tanta apreensão. Naruto parou de se mover e Itachi parou de respirar.
–Hn...? –murmurou Naruto com manha, completamente sonolento e provavelmente sem entender nada. –Itachi?
“Fique calmo e mantenha a pose!” Itachi pensou com urgência, controlando suas reações ao se atentar somente a sua respiração e sentindo o mau hálito do mais novo, não seria educado pontuar isso e ele estava nervoso demais para se importar. Um passo por vez, era assim que os problemas eram resolvidos.
Mesmo que aquela fosse a situação mais embaraçosa da sua vida inteirinha. Mais até do que tirar a calcinha de Konan pela primeira vez. Os dois estavam imóveis, um nos braços do outro, sem dizer nada, com pessoas no outro cômodo. “Estranho” e “constrangedor” definiam muito bem o momento.
–Oi. –ele disse com a voz baixa, tentando cortar o clima tenso entre os dois.
Itachi estava preparado para qualquer reação, mas nada veio por parte de Naruto. O adolescente nem sequer se moveu por um segundo inteiro e Itachi não sabia o que fazer. Ele não queria soltar Naruto, mas ele sabia que tinha que fazer isso. E...
Naruto fungou.
–Eu er... –ele ia se desculpar, rapidamente parando de envolver o corpo de Naruto.
Nunca antes na sua vida Itachi tinha experimentado a vontade de se enterrar num buraco e nunca mais sair de lá. É claro, até aquele momento. Só que em meio a sua vergonha, ele ouviu Naruto fungar de novo.
–O que foi? –ele inquiriu, sentindo que Naruto parou de abraçá-lo também.
Só que nenhum dos dois se moveu para longe.
–Você comeu carniça antes de dormir? –Naruto inquiriu com a voz espalhafatosa e barulhenta.
Ok, ele podia gostar de Naruto, mas ele também tinha princípios. Itachi se afastou imediatamente do outro, se sentando na cama.
–Como se você estivesse falando e o cheiro estivesse igual a bom ar, né? –retrucou Itachi com a voz irritada e envergonhada. Naruto começou a rir de repente, sem motivo nenhum. –Não tem graça!
–Tem sim! –disse Naruto jogando um travesseiro em cima dele.
–Não. –ele disse enquanto pegava o travesseiro e jogava de novo para Naruto, orientando-se pelo som da voz e sabendo que o mais novo estava a sua direita. –Não tem!
Quando Itachi menos esperava, Naruto deu aquele sorriso que significava que iria aprontar alguma coisa e ele foi atacado por uma travesseirada covarde que o fez deitar na cama de novo. Mas não parou por aí Naruto veio em sua direção e continuou a bater nele com o travesseiro, rindo aquele riso que ele gostava de ouvir, o que fez com que ele acabasse sentindo vontade de rir porque aquilo não fazia sentido nenhum.
Só ficou pior quando ele lembrou que teve a pior noite da sua vida, mas que agora parecia ter sido só um pesadelo ruim, com Naruto o acordando daquele jeito descontraído. Itachi acabou rindo junto com Naruto. Coisas horríveis aconteceram, nada estava melhor, mas... Naquele momento, nada disso parecia importar. Um dos maiores motivos para ele gostar de Naruto era justamente essa leveza que surgia quando tudo parecia impossivelmente ruim.
–Que ‘cê tá fazendo? Para! –ele pediu entre risos. –Para!
Naruto devia estar sentado na cama porque não errava uma travesseirada e Itachi colocou os braços para proteger a cabeça, mesmo que ainda estivesse rindo. Fazia muito tempo que ele não brincava de guerra de travesseiros. Era Shisui quem começava a disputa antes e terminava com um Sasuke cheio de penas de ganso no cabelo; sempre foi uma das razões para Itachi chamar o caçula de patinho.
Itachi se virou na cama bem em tempo de conseguir puxar o travesseiro das mãos de Naruto, que acabou caindo por cima dele e o travesseiro indo parar no chão. A respiração de Naruto batia em seu rosto de novo, pela posição que Naruto caiu, ele devia estar com o rosto bem acima do seu e Itachi engoliu um seco, parando de rir e tentando ficar o mais calmo o possível.
Durante um instante inteiro, Naruto não fez nada e a tensão parecia ficar mais palpável ainda. No início daquele dia, o mais novo tinha ficado tão ou mais perto do que eles estavam agora. Itachi quase pensou que Naruto iria beijá-lo naquela hora, mas nada disso aconteceu; ele queria cortar aquela distância, mas não se moveu um milímetro.
Naruto se afastou, pigarreando ao fazer isso.
–Foi mal... –se desculpou o Uzumaki com a voz sem jeito.
–Tudo bem... –ele disse com a voz impassível, tentando controlar seu desapontamento consigo mesmo.
Se antes Itachi não queria que ninguém entrasse no quarto, agora era tudo o que ele mais desejava, só para que aquele clima tenso entre eles acabasse. Não era para ser assim, mas ele não conseguia evitar ficar um pouquinho chateado por não ter acontecido nenhum acidente e ele tivesse beijado Naruto. Até mesmo a vontade de ir ao banheiro tinha passado e as pessoas do lado de fora pareciam estar tomando café da manhã.
–Então... –murmurou Naruto, aparentando um pouco de incerteza. Itachi se virou para o mais novo. -Eu fiquei sabendo que inaugurou uma barraquinha nova de doces naquela pracinha que a gente normalmente anda.
Itachi ergueu a sobrancelha, um pouco desconfiado pela súbita mudança de assunto, mas ficou quieto. Fazia muito tempo que ele não ia à docerias. A última vez que ele fez o seu passeio habitual, ele teve que chantagear Kisame para que os dois passassem naquela lojinha no centro da cidade que tinha os melhores pastéis de Belem do Estado.
–Dizem que lá tem uma torta de maçã ótima e... –continuou Naruto parecendo extremamente desconcertado, algo que não combinava em nada com o jeitão espontâneo do adolescente.
–E...? –insistiu Itachi.
–E supondo que eu sobreviva ao ataque da Abadon... –prosseguiu Naruto, um pouquinho menos constrangido.
–Quem é Abadon? –perguntou Itachi com interesse.
Naruto fez um ruído irritado que desfez completamente o jeito desconcertado de alguns segundos atrás, ao que Itachi se sentia muito grato. Todo o clima entre eles pareceu abrandar de novo e isso era o que ele mais queria.
–Urg, às vezes eu esqueço que você parou na quinta temporada! –resmungou Naruto com um muxoxo irritado. -É uma demônio fodona...
–Não fale palavrão. –ralhou Itachi por costume.
–... De supernatural! –concluiu Naruto sem sequer se importar com a sua recomendação e Itachi revirou os olhos. Não pela série, mas pelo vocabulário de Naruto. -Ela é uma diva! Tão incrível quanto a Lilith! Só que ruiva! Enfim, supondo que eu sobreviva a minha mãe... Você quer ir lá? Sabe, qualquer dia desses...
Itachi nem piscou.
–Só se eu pagar. –ele condicionou com a voz séria.
–Fechado! –exclamou Naruto alegremente.
Os dois não tiveram mais tempo para conversar porque logo Shizune invadiu o quarto, pedindo para que ele pegasse suas coisas, pois já estavam indo. A primeira coisa que Shizune perguntou foi se ele tinha notícias de Sasuke, Itachi suspirou e disse que sim, que os três deveriam conversar mais tarde.
Ele tinha uma boa noção sobre o que o esperava, principalmente as reações que seu tio teria quando ele contasse o que ocorreu naquele salão, e isso era extremamente desanimador. Se ele soubesse que teria que enfrentar tudo isso tão rápido, ele teria aproveitado mais seus momentos de calmaria com Naruto.
Mas como infelizmente nada estava sobre seu controle, Itachi pegou as suas coisas e sumiu pelo hotel junto com Shizune, rezando aos céus que pelo menos seu irmão não estivesse tão ferrado quanto ele achava que estava.
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