Desejar
13 Point of no returm - parte II
Notas iniciais
DEZ
Point of no returm
Parte dois.
Naruto.
Após aquela confusão toda eles contornaram o salão de festas, pegando um corredor lateral a piscina que levou ao interior do hotel, logo entrando em um dos acessos ao restaurante com vista para o lago Shinai. Naruto conhecia aquele caminho, mas mesmo assim não gostou muito da ideia. Suas pernas pareciam feitas de gelatina e seus olhos estavam pesados, como se ele fosse desmaiar de sono a qualquer momento. Suas costas também estavam pedindo arrego, mas que escolha ele tinha a não ser seguir aquele cortejo quase fúnebre?
Itachi caminhava ao seu lado, parecendo tão cansado e abatido quanto ele próprio. Mas Naruto não era idiota de fazer qualquer pergunta ao outro, não naquelas circunstâncias. Tudo o que ele desejava era saber se Sasuke e Karin estavam bem. Ele queria muito ver a sua irmã agora, checar se ela estava bem porque, de repente, ele teve o pressentimento que não. Que alguma coisa aconteceu com ela e isso o deixava meio nervoso e inquieto.
Por fim chegaram ao restaurante, mas agora este estava cheio de policiais que ocupavam as mesas com notebooks ou com coletes a prova de bala. Naruto não tinha entendido muito da conversa do Tony Stark com Itachi, mas se aquele cara tinha premeditado aquela emboscada no outro salão, também pensou em como deixar todo mundo vivo no final. Tinha pelo menos uns trinta policiais ali, todos uniformizados e volta e meia olhando para eles. Naruto engoliu um seco, não gostando nada da aura daquele lugar.
–Vou precisar colher os depoimentos de vocês, esperem aqui. –mandou o delegado que precisava conhecer cicatricure gel. Ele havia indicado umas cadeiras perto de uma janela grande com vista para o amanhecer. –Itachi você pode me acompanhar?
O delegado pegou o braço de Itachi e o guiou até o outro lado da sala, onde havia as mesas reservadas. Naruto foi se sentar ao lado do avô, olhando pela janela e vendo o céu escuro começar a ficar mais claro. Deveria ser umas cinco e alguma coisa da manhã, já que em Konoha se amanhecia muito cedo, assim como o sol se punha muito tarde. O burburinho na sala abaixou o volume e Naruto se sentia estranho, como se todos naquele lugar estivessem olhando as suas costas.
–Naruto. –chamou o seu avô com a voz séria e baixa.
Ele se virou para o lado do mais velho, percebendo que seu avô tinha soltado os cabelos castanhos e enormes, com pouquíssimos fios brancos. As mexas cobriam o rosto do seu avô, que se sentava curvado na cadeira, parecendo meditar sobre algum assunto e Naruto soube que estava muito, mas muito ferrado. Ele engoliu um seco e se ajeitou do melhor jeito que conseguiu na cadeira, sentindo a sua bunda doer e suas costas fazerem um “crak” igual ao de um velho com artrose.
–O que foi que aconteceu naquele salão? –inquiriu Hashirama sem lhe encarar de volta e Naruto procurou alguma coisa para desviar a sua atenção.
Ele sabia que esse momento ia chegar, mas precisava ser tão cedo? Ele sabia perfeitamente bem que estava muito ferrado. Que cometera mais uma flagrant fool (1 — termo técnico do basquete que significa uma falta feita de um modo idiota) com a sua família, mas ele devia isso a Sasuke. Seus pais e seus avôs não compreendiam o quanto aquele imbecil era importante para ele, nem poderiam, já que todo mundo pensava que Sasuke era só a merda de mais um drogadinho.
Só que não.
Sasuke Uchiha era mais que isso, mas só Naruto e talvez Karin soubesse disso. É isso aí, Tico e Teco até o final, nas palavras da sua irmã. Naruto queria estar com ela agora, ver se ela parecia menos confusa. Karin sempre ficava diferente quando o Teme estava perto, mas daquela vez ela superou tudo. Enquanto ele se perdia em pensamentos, seu avô virou o rosto em sua direção, com o olhar tão sério e duro que Naruto engoliu um seco.
–Naruto, eu não vou perguntar de novo.
Ele inconscientemente levou a mão direita até o pescoço, ajeitando a gola da camisa que parecia sufocá-lo. Naruto respirou fundo, coçando a cabeça enquanto tentava pensar como começar a contar tudo sem ferrar com as suas chances de continuar em contato com Itachi e consequentemente Sasuke.
–Eu... –gaguejou Naruto pigarreando para limpar a garganta.
Então ele começou a contar.
Contou que ouviu gritos no salão e reconheceu a voz de Sasuke, indo imediatamente para lá. Narrou que Orochimaru não ia com a sua cara e com desgosto contou que esse cara queria que ele estivesse morto há tempos, desde quando ele ainda era usuário, para ver se isso não fodia com a sua intenção de continuar perto dos Uchihas. Naruto narrou o que Orochimaru pretendia fazer com Itachi, contando em detalhes minuciosos como Sasuke sempre tentou protegê-lo de virar um presunto defumado.
Ele fez uma pausa.
Naruto deu uma espiadinha básica para analisar as feições do avô, percebendo que Hashirama mantinha as expressões neutras, o que era um péssimo sinal. Ele cravou as unhas nas palmas de sua mão por um momento e então narrou como Orochimaru fez Sasuke escolher entre a sua vida ou Itachi ser estuprado e a escolha que fez, fechando os olhos bem fechado e mordendo o lábio inferior.
Let it go!
–Espera. –pediu seu avô com a voz chocada. –Deixa eu ver se entendi, você decidiu morrer pelas mãos desse moleque?
Ele virou o rosto para encarar o mais velho, vendo os olhos castanhos arregalados com a surpresa, deixando visível os poucos pés de galinha que seu avô tinha. Mas o pior era a decepção naquele olhar. Ótimo. Mais um para a sua coleção. Naruto suspirou pesadamente, sentindo peso da via láctea nas suas costas e sentindo seu coração afundar dentro do seu peito.
–Sim… –ele murmurou baixinho, inconscientemente franzindo os lábios.
Seu avô não reagiu de imediato e Naruto fez a contagem regressiva. Três… Dois… Um…
–Você é idiota ou seus miolos foram comidos por algum Bitter? -inquiriu seu avô com indignação e Naruto se esparramou mais no banco, olhando fixamente para uma sujeirinha no chão entre seus pés; ele merecia a bronca. -Você parou pra pensar na sua família no meio disso tudo?
Será que pegaria muito mal se ele fizesse o não de Michael Kyle? Naruto não queria descobrir. O fato é que ele não pensou na sua família naquela hora, era por coisas assim que Sasuke era o Tico e ele o Teco. Tico pensava racionalmente nas coisas e o Teco só se metia em furada para ajudar os outros.
Talvez ele estivesse tão cansado, fisicamente e mentalmente, que nem mais importava.
–Eu… -ele murmurou limpando a voz enquanto seu avô o observava atentamente. Naruto o encarou, com simplicidade, mas sem conseguir nem pensar direito. -Eu… Não.
–Eu nada Naruto! -continuou Hashirama no mesmo tom indignado com a sua apatia. Naruto não sabia nem o que sentir, além da tristeza em decepcionar mais alguém que ele não queria decepcionar de forma alguma. -Seus pais iam ficar arrasados se perdessem você desse jeito! Karin não ia conseguir suportar isso! Eu ia ficar arrasado sabendo que por míseros cinco minutos eu não seria capaz de salvar o seu traseiro dessa enrascada!
Era verdade pura. Sua mãe ficou realmente muito arrasada quando Nagato morreu. Ela não queria comer, nem cozinhar, muito menos sair de casa. Ela não brigava e nenhum dos seus sorrisos era de verdade, sempre havia aquela sombra de tristeza. Ao menos o seu pai estava lá por ela e depois veio o trabalho, mas com ele e Karin as coisas foram diferentes. Os dois lidaram com a dor de um jeito muito mais simples: não encarando a dor.
Era por isso que as coisas estavam daquele jeito.
Havia uma chance de que se ele morresse daquele jeito, as coisas iam voltar aos tempos que Nagato morreu. Ou talvez não, talvez seus pais tenham aprendido a lição de que crianças precisam do suporte dos pais para se desenvolverem, talvez eles dessem conta de Karin. Talvez a sua morte pudesse ter feito com que todo mundo resolvesse seus problemas.
Mas quem sabe o que iria acontecer? Ninguém. E Naruto não era tão idiota para querer seguir por esse caminho de pensamentos imbecis e inúteis, mas ele não seria hipócrita em negar que não estava preparado para morrer naquela hora. Só que isso talvez fosse demais para seu avô. Naruto sabia muito bem que certas coisas não devem ser ditas aos adultos, não, certas coisas tinham que ficar bem guardadas, bem longe dos olhares de todo mundo.
“Ah, isso vai legendário!” ele pensou com ironia, enfiando a mão nos cabelos e os bagunçando ainda mais. Ele nem sequer estava conseguindo pensar direito! Estava cansado demais até mesmo para isso e seu corpo pedia cama.
–Arg! Eu sinto muito, vô! –ele disse exaltado, olhando dentro dos olhos do avô sem vacilar. -Eu não pensei nisso na hora! Eu só queria que tudo aquilo acabasse! –ele fez uma pausa e tentou se controlar mais. Aquele era o seu avô ele tinha que tratar com respeito. – Isso é errado? Querer proteger as pessoas que eu me importo?
Seu avô ficou em silêncio, lhe dando um olhar que Naruto não conseguiu desvendar e isso era frustrante. Ainda assim, ele não conseguia desviar o olhar, embora estivesse se sentindo fragilizado e quase afundando em sua própria agonia. Naruto queria muito encontrar o botão de ‘desliga’ dos sentimentos só por uns minutinhos. Não muito porque se não ele ia virar um Uchiha e os Uchihas são como Lannisters modernos, ou seja, uns cusões.
Embora não fosse nada mal se ele virasse um Uchiha por associação com Itachi. “Ele 'tá demorando...” Naruto pensou, lançando um olhar rápido para a salinha improvisada onde prestaria o tal do interrogatório. Seu avô suspirou baixo e suavizou as expressões, embora ainda estivesse com um vinco de preocupação na testa.
–Nada garantiria que esse cara ia parar só porque você ia morrer Naruto. –ponderou Hashirama em um tom neutro.
Dessa vez foi Naruto quem ergueu as sobrancelhas e arregalou o olhar: também era verdade. Ele piscou, absorvendo aquela informação. Na sua cabeça não tinha nada de errado proteger os seus amigos, mas... e se ao tentar protegê-los, ele tivesse causado mais problema? Porque, afinal de contas, Orochimaru não era nenhum pouquinho confiável. O cara queria que ele fosse um presunto defumado há eras, desde quando ele era um usuário, já que Naruto sempre foi o Kevin Costner do Teme imbecil, versão sem o “I Will Always Love You” da Withney Houston.
–Foi muita burrice sua Naruto. –concluiu o seu avô, agora com a voz mais suave, apesar de ainda desaprovar a sua conduta.
Naruto jogou a cabeça para trás, até que encostasse na parede, sentindo uma madeixa da sua franja quase cair nos seus olhos. Ele precisava cortar essa porra, mas sempre esquecia. Em vez disso, ele assoprou a mexa, mas não teve sucesso em tirá-la do seu campo de visão. Ele acabou grunhindo frustrado, cobrindo o rosto com as mãos, tirando a franja da cara enquanto tentava se manter acordado.
–Eu sei. –ele murmurou de novo, sentindo uma vontade de rir, mesmo que não tivesse nada para rir.–O pior é que eu sei disso...
Durante um bom tempo eles ficaram calados, enquanto Naruto bocejava vez ou outra, sentindo uma leve ardência na sua coluna pelo mal jeito que escolheu para se sentar. Mas foda-se: já estava ferrado mesmo.
Um trecho de uma música começou a soar repetidamente na sua cabeça e Naruto inconscientemente começou a cantarolar, era apenas aquele pequeno trecho. The piper's caling you to joing him... Dear lady can you hear the wind blow and did you know?
Naruto quase ouvia o flautista tocando ao fundo. Mesmo que ele não estivesse nem perto de ser uma lady. Embora ele estivesse só com um pouquinho mais de sorte do que o lobo de Sansa Stark.
–Então? -perguntou o seu avô e Naruto se virou para encará-lo. -Por que você queria fazer uma besteira dessas?
Por essa ele não esperava. Naruto arregalou o olhar com a pergunta, mas logo virando o rosto para frente, evitando encarar o mais velho. Depois ele mordeu os lábios, sentando-se de um jeito menos largado na cadeira.
Ele tinha seus motivos, mas não conseguia contar: Faltava a coragem. Ele queria tanto que Sasuke estivesse ali, o Teme sabia o que fazer nesses momentos! Onde será que aquele Teme idiota estaria naquela hora, além do seu lado? Onde?
–Não vai me dizer? -insistiu seu avô.
“Eu não consigo dizer, é diferente!” pensou Naruto agoniado pelo olhar penetrante que seu avô lhe destinava. Em todo o momento, ele não conseguia sustentar os olhos do avô, até que eventualmente Hashirama desistiu com um suspiro pesaroso.
–O que eu posso fazer com você? -perguntou seu avô com exasperação. -Você não vai largar o pé desse moleque, até o fim, não é?
Seu avô apoiava a cabeça em uma das mãos e lhe lançava um olhar de extrema preocupação. Naruto queria assegurá-lo de que estaria bem, mas o que ocorreu mais cedo só provava que não. Só que infelizmente ou felizmente seu avô estava certo.
Ele iria até o fim por Sasuke.
Naruto deu um sorriso singelo e seu avô escondeu o rosto com as mãos.
–Sometimes all of our thoughts are misgiving ("Ás vezes todos os nossos pensamentos são inquietantes" Led Zeppelin). –explicou Naruto com gentileza, lembrando de uma antiga brincadeira que fazia com o avô.
Não que qualquer outra pessoa conseguisse entender porque ele faria esse tipo de coisa por Sasuke. Não era normal alguém escolher afundar desse jeito ou arriscar tudo assim, Naruto sabia disso. Sasuke sabia disso também, só que ainda assim não era o bastante para mudar o coração do babaca do seu amigo e consequentemente a vida da sua irmã.
Naruto não mentiu para o seu avô quando disse que Sasuke era a chave para Karin. Não era só o seu interesse nisso, mas Karin ainda devia pensar que merecia ser punida e Sasuke punia Karin. Naruto não sabia se a irmã realmente amava Sasuke ou se isso era apenas um jeito de Karin conseguir aquilo que mais queria: sentir dor para compensar todo o mal que ela achava ter feito com Nagato. Mas quando ele perguntava isso, sua irmã sempre explicava de um jeito que ele não conseguia entender. Com dificuldade, Naruto viu que seu avô estava falando e se forçou a prestar atenção.
–Stairway to heaven, Led Zeppelin, Page e Plant, 1970. –comentou seu avô com um sorriso singelo de aprovação. -Clássico, mas não responde a pergunta.
–É o que eu consigo responder vô. –justificou-se Naruto, sentindo seu coração apertar.
Havia outras respostas. Ele sabia disso e seu avô sabia também. Tanto é que ele suspirou daquele jeito frustrado que Naruto odiava. Seu estômago afundou quando viu seu avô abaixar a cabeça e enfiar as mãos no cabelo. Agora até o seu avô doidão estava decepcionado pra valer com ele, mas Naruto já estava decidido e ele não voltaria atrás agora: enfrentaria todos os obstáculos para ter seu amigo de volta, para que a sua irmã parasse de querer sofrer e decidisse ser feliz uma vez para variar.
–E o que mais? –insistiu seu avô sem nem olhar na sua cara.
Naruto se aprumou na cadeira, ficando tão sério quanto a resposta que aquela pergunta pedia. Ele estava com dezessete anos e era suposto que fizesse as decisões que iriam ditar a sua vida. Seus pais e avós poderiam protegê-lo, era para isso que famílias existiam, mas o caminho da sua vida era ele quem escolheria.
Ele já fez uma escolha.
–Não é que eu não me importe, acho que é porque eu me importo demais com tudo isso que eu não consigo não agir. –respondeu Naruto com sinceridade. -Eu quero o meu amigo de volta! Eu quero a minha irmã de volta! Isso é errado?
Naruto respirou fundo para não deixar sua voz ficar embargada com a emoção. Ele sentia tanta falta de Sasuke que às vezes isso se tornava doloroso demais para suportar. Solitário demais para conseguir seguir em frente. Quando ele não tinha ninguém, o Teme idiota estava lá, com a mão erguida. Claro que ele falou para Itachi que Sasuke era importante para si, só que por mais que tentasse explicar, ainda faltaria algo.
Pensar que seu amigo estava ali, em algum lugar, e sofrendo era tão ruim quando pensar nele o tempo inteiro e ficar doido de preocupação, talvez até pior. Naruto respirou profundamente, tentando se controlar, inconscientemente fazendo uma careta ao se lembrar do quanto Sasuke mudou.
E quando Sasuke mudou, Karin mudou também. Ela começou a afundar mais, as suas palavras já nem conseguiam atingir ela. Na sua presença, Karin sorria um pouco e ficava um pouco como era antes, mas aquela tristeza não saia do olhar dela, muito menos aquele olhar de “faça parar por favor!” que ela tinha.
O olhar que ela aprendeu com Sasuke.
Ninguém parecia enxergar isso, só ele. Por isso que ele precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa!
–Eu não consigo me conformar com isso! –ele disse com cuidado, tentando parar de pensar no babaca. -E eu sei que se eu trazer o Sasuke que eu conheço de volta eu consigo trazer a minha irmã de novo! Sasuke é a chave pro sorriso da Karin e do Itachi. — “e do meu sorriso!” ele pensou. -Eu preciso fazer isso vô!
Naruto se virou para olhar o avô de novo, dessa vez com uma determinação que há poucos instantes ele não tinha. O cansaço ainda estava presente, o sono, a fome, a dor nas costas, o desconforto... Tudo estava presente, mas a sua vontade de ajudar aquele casal de imbecis era muito mais forte do que tudo isso.
Ao menos o seu avô tinha que entender isso. Hashirama o encarava de um jeito enigmático, mas Naruto não arredou o pé.
–But what is and what should never be? (3 — Mas o que é e o que nunca deveria ser?) –perguntou seu avô com seriedade. –Você sabe a diferença?
Ele apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça.
–Led Zeppeling, não sei o ano, What is and what should never be. –seu avô assentiu. –Eu não posso mudar minhas atitudes, nem ele, nem ela, mas eu sei que posso mudar o futuro. Eu sei que consigo fazer isso.
“Eu sou o único que pode.” Pensou Naruto no mesmo momento, ainda sendo objeto de análise do seu avô. Mas agora isso não parecia incomodar mais, nem mesmo importar. Sua determinação ia além disso.
Seu pai estava decepcionado, seu avô também estava, provavelmente sua mãe e o resto da família também ficariam. Eles ficariam preocupados e esperneariam, mas Naruto sabia o que precisava ser feito. Era o melhor para todos, disso ele estava convencido.
–Você quase morreu hoje Naruto. –pontuou seu avô em um tom sério, quase solene.
–E eu morreria tentando. –retrucou Naruto com a mesma seriedade. -É o que me importa agora.
–Essa é a sua última palavra?
–É sim.
Seu avô ficou em silêncio por uns longos segundos e Naruto travou uma guerra de olhares, evitando piscar até que seu avô o fizesse alguns segundos mais tarde. Inconscientemente ele prendeu a respiração, só conseguindo voltar a respirar após seu avô relaxar as expressões faciais.
–Eu não posso concordar com essa sua decisão Naruto, é muito arriscado. –concluiu seu avô com a voz gentil, lhe lançando um último pedido de “desista” com o olhar.
Não funcionou, dessa vez ele estava irredutível.
–Não importa, com o senhor me apoiando ou não, com o papai e a mamãe do meu lado ou não, eu não vou desistir do meu amigo. –Naruto finalizou, fechando o punho direito com força. -Eu nunca conseguiria me perdoar se eu não tentasse fazer alguma coisa por ele.
–Você está dizendo que iria me desobedecer? –pontuou Hashirama com incredulidade.
Naruto nem disse que sim, nem que não, tampouco assentiu ou fez qualquer gesto.
–Eu estou dizendo que eu não vou permitir que ninguém me detenha, nem mesmo a minha família. –respondeu Naruto com veemência. -É esse o meu jeito de ser vô!
Durante um bom tempo, tudo o que ficou entre eles foram os burburinhos da sala de delegacia improvisada, ainda assim Naruto conseguia sentir a tensão que se formou entre ele e o seu avô, mesmo que os dois estivessem longe de uma discussão.
–Certo... –pontuou seu avô em tom de derrota. –Isso agora são cenas do próximo capítulo agora. Parece que é a sua vez de depor.
E juntos eles atravessaram o pequeno restaurante e foram ao interrogatório.
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Demorou muito mais do que ele tinha esperado. O delegado fez várias perguntas e sempre parava tudo para ditar ao outro policial, começando cada sentença com ‘que’. Digamos que Naruto ouviu “quês” por uma vida inteira e se antes a conversa com seu avô já tinha lhe esgotado, agora ele estava quase erguendo a plaquinha pedindo arrego.
O pior? Seu avô estava conversando com o policial.
Aquilo era castigo demais.
Naruto correu os olhos pelo restaurante, observando que os primeiros raios solares despontavam no horizonte, fazendo o céu ficar com suaves tons rosados e dourados, embora o azul ainda fosse predominante. Era bonito pra caralho! Em um cantinho mais afastado, sentando como se fosse um samurai em vigília, estava Itachi.
Só que apesar da postura impecável, os sinais da noite não dormida eram evidentes. Itachi estava pálido, o cabelo preto quase solto e meio bagunçado, as bolsas debaixo dos olhos eram perceptíveis naquela distância toda e as roupas do outro estavam amarrotadas. Naruto sabia que não estava muito melhor, mas bem, ossos do ofício.
Ele deu uma espiadinha para trás, vendo que seu avô ainda falava com o delegado e então foi até Itachi, parando defronte ao outro. Itachi ergueu o rosto, a expressão séria como se perguntasse: “E aí? Qual é a desgraça da vez?” e o peito de Naruto se encheu com pesar.
–Oi. –ele murmurou baixinho.
Itachi suspirou com um alívio quase imperceptível e seus ombros curvaram um pouco, enquanto abaixava o rosto. Naruto se sentou do lado do mais velho, colocando as mãos dentro do bolso do jeans, esticando bem as pernas.
–Oi. –murmurou Itachi.
Por um momento, Naruto não sabia o que dizer. Um silêncio pesado mostrava as garras naquele instante, porque naquele segundo Naruto queria fazer mil e noventa perguntas, mas não sabia como começar. “Cargas d’água! Comece pelo começo!” sua consciência lhe disse e Naruto quase arrancou os cabelos de tanta raiva que sentiu de si mesmo.
Como sempre acontecia nessas horas, Naruto sofreu de diarréia mental e falou a primeira coisa que veio em mente após ele ficar frustrado consigo mesmo.
–Não pensei que ia te ver por aqui.
“Isso, genial começar por aí Naruto! Falta de jeito, a gente se vê por aqui!” ele pensou frustrado, começando a suar frio em pura agonia. Era a primeira vez que conversar com Itachi lhe deixava tão desconfortável. Ele olhou em direção ao mais velho, só que Itachi deu um daqueles sorrisos que não era bem um sorriso.
Para ser um sorriso era necessário estar feliz, se não se estava feliz, então era apenas uma mentira. Era isso o que Naruto pensava e era isso o que Itachi fazia.
–Nem eu imaginei que vinha. –foi a resposta baixinha e melancólica, apesar do tom suave da voz de Itachi.
“Seja macho, Naruto, vamos lá! É só uma pergunta!” ele pensou reunindo toda a sua coragem, tirando a mão esquerda do bolso e cerrando o punho com resolução.
–Como... –ele começou a perguntar e pigarreou para clarear a voz. -Como você ‘tá?
–Considerando tudo o que aconteceu? –inquiriu Itachi virando o rosto para o seu lado, parecendo que sabia exatamente onde ficava o seu rosto.
Naruto engoliu um seco.
–Uhum.
Itachi deu mais um daqueles sorrisos sem riso.
–Eu estou ‘bem’. –mentiu.
Dessa vez foi a vez de Naruto suspirar em frustração, revirando os olhos antes de esconder o rosto com as palmas das mãos.
–Eu odeio essa mania dos adultos! –ele comentou completamente frustrado.
–Que mania?
–De dizer que estão ‘bem’ quando não ‘tão! –explicou Naruto tomando cuidado para não aumentar o tom de voz. Itachi arregalou o olhar rapidinho, mas logo voltou a ficar com aquela cara de educado interesse. -Dá pra ver que você não ‘tá bem, Itachi. Eu sei disso!
Dessa vez quando Itachi sorriu Naruto conseguiu ver uma ponta de riso, embora os olhos esbranquiçados do outro ainda cintilasse com aquela tristeza que parecia emanar dele.
–Nem você está. –acrescentou Itachi bondosamente, com a voz tão suave e macia que só fazia aquela constatação ser mais dolorosa.
Bem, sim? E daí? Mudava os fatos? Não. Se não mudava, para que omitir? Fingir que não está lá, quando está? Naruto confiava em Itachi o suficiente para não se sentir envergonhado quando ele não se sentia aquela coca cola toda. Era muito pedir que Itachi o tratasse do mesmo jeito?
Agora a pergunta que valia um milhão de reais: valeria a pena entrar numa briga por isso? A resposta que lhe daria as barras de ouro correspondentes ao seu prêmio era “não”.
Naruto não era burro e sabia que Itachi já lhe oferecia mais do que há qualquer outra pessoa naquela sala, com exceção Sasuke, supondo que seu amigo estivesse ali. Os ombros curvados eram a prova mor disso. Daí a única coisa que ele podia fazer era aceitar essa limitação e pronto. Era o jeito de Itachi, não significava que ele não se importava, era outra coisa.
–Mas eu não menti pra você! –ele retrucou só pelo prazer de retrucar e inconscientemente fez bico, bufando em seguida, cruzando as mãos sobre o peito.
O sorriso de Itachi agora podia ser chamado assim: sorriso. E Naruto se sentiu um pouquinho satisfeito por ser o autor disso.
–E como você está, Naruto? –perguntou Itachi bondosamente, ainda com aquele sorriso singelo nos lábios.
Naruto descruzou os braços, sorrindo um bocadinho, mesmo que Itachi não pudesse vê-lo sorrindo, embora Naruto tivesse o pressentimento que o outro sabia que ele estava sorrindo.
–Considerando tudo? –arremedou Naruto.
Itachi nem se abalou, apenas assentiu com a cabeça em um gesto simples.
–Sim.
–Numa escala, eu diria que ‘tou menos dez. –respondeu Naruto com franqueza.
–Não pensei que você fosse do tipo nerd que fazia piadas matemáticas. –comentou Itachi erguendo a sobrancelha esquerda e ficando adorável.
–Pra ‘cê ver o quão ruim eu ‘tou... –acrescentou Naruto com um último sorriso e Itachi revirou os olhos.
O silêncio voltou a ficar confortável de novo e Naruto refletiu que era isso o que mais gostava em Itachi. As coisas nunca ficavam muito pesadas entre os dois, mesmo que a vida deles estivesse um apocalipse, só que dessa vez sem os carros legais.
Naruto deu uma olhada ao redor e percebeu que seu avô tinha saído da salinha onde ocorreu o interrogatório e o procurava. Com um suspiro pesaroso, Naruto acenou e seu avô veio em sua direção.
–Você vai ficar bem? –Naruto perguntou baixinho, se levantando.
Itachi respirou fundo, fazendo um gesto afirmativo com a cabeça por alguns segundos, depois se virando em sua direção.
–Eu vou.
De novo Itachi voltou a ficar com a postura de um samurai prestes a cometer seppuku em pleno século XXI e Naruto ficou tão indignado que fechou os punhos, inspirando profundamente e já ia abrir a boca para reclamar quando uma mão segurou seu ombro.
–Então vamos? –perguntou seu avô com tom morno.
Naruto se sentiu murchando.
–‘Tá... –ele respondeu mal humorado. –A gente se vê Itachi...
“Pelo menos, é o que eu espero.” Pensou Naruto se sentindo muito cansado de uma hora para outra.
–Ah, você é o Itachi? –comentou o seu avô com um bom humor que chegou a assustar Naruto.
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–Pode dizer. –falou Itachi com a voz séria e Naruto piscou sem entender.
–O que? –ele perguntou completamente perdido no assunto. Depois piscou outra vez e entendeu, virando o rosto, meio envergonhado. -Eu não ia dizer nada!
Itachi ficou de frente para si, com a sobrancelha erguida em descrédito total, o que foi desastroso para Naruto porque sua reação natural foi olhar para baixo e ver o corpo muito nu de Itachi por um milésimo de segundo antes de fechar os olhos com força e depois morder os lábios para não dar um gritinho efeminado. “Se controle!” ele pensou se reprimindo, começando a olhar para as paredes do Box tentando ignorar o rubor que queimava suas bochechas.
–Certo. –ele murmurou contra a vontade. -Isso é estranho...
Com muito cuidado, Naruto voltou a olhar para Itachi se sentindo completamente estúpido e malvado ao agradecer aos céus pelo mais velho ser cego e não ser capaz de ver como seu rosto estava tomado pela vergonha.
–Muito estranho... –ele murmurou cabisbaixo, fazendo beiço.
Havia muitas situações estranhas e embaraçosas em séries e filmes, quando isso acontecia, Naruto morria de rir porque o personagem sempre fazia uma cara de “what the fuck” que depois virava um gif viral no tumblr. Era coisa de filme e série de TV, então... Por que raios isso estava acontecendo na sua vida, tipo, naquela altura da manhã?
Naquele exato momento, ele estava pelado, num Box, com Itachi, igualmente pelado, para os dois supostamente tomarem banho e descansarem um pouco até Shisui e Shizune vierem buscar Itachi. Júnior, a cabeça de baixo, queria dar um ‘oi’ espirituoso em Itachi e Naruto não sabia mais o que fazer para controlar seus hormônios.
Ele pensava que seu avô ia querer exorcizar Itachi da sua vida, mas Hashirama Senju era mesmo o vovô mais descolado do século. Sem que Naruto fizesse qualquer coisa para controlar a matraca do avô, Hashirama não só se apresentou a Itachi como ainda soltou um “ah, você é um Uchiha? Então é quase da família!”, algo que horrorizou Naruto a tal ponto que ele pensou que fosse morrer engasgado com a própria saliva. Quando as coisas não podiam ficar piores, seu avô, descolado do jeito que era, ainda fez Itachi aceitar esperar Shisui e Shizune no quarto onde ele estava hospedado e depois “vazou igual menstruação”, como diria Karin.
O pobre Itachi ainda tentou negar, mas se os Uchihas eram orgulhosos com pinta de serem as bruxas supremas bem no estilo Jessica Lange em coven, sempre se podia contar com a teimosia de um legítimo Senju para equilibrar as forças do universo: Itachi não teve a menor chance. Sem nem escutar mais uma negativa educada de Itachi, seu avô conversou com um monte de policiais com quem fez amizade, justificou o que faria, reportou a todo mundo onde Itachi ia ficar e em menos de um minuto depois ele e Itachi estavam no elevador.
Seu avô disse que Itachi podia usar algumas das suas roupas, que os dois deveriam tomar um banho enquanto ele ia falar com seus pais lá no posto.
E agora estavam ali.
Itachi deu um suspiro pesado que chamou a atenção de Naruto. Os cabelos negros caiam como cascata pelos ombros delgados, contrastando com a pele clarinha que o outro tinha.
–Não quero ser incômodo. –disse Itachi com pesar. –Eu dou o meu jeito aqui.
E só com aquela frase Naruto conseguiu vestir as calças de menino grande. Não dava para deixar Itachi se virar sozinho naquele banheiro grande com alguns declives e azulejo liso: Itachi podia se machucar feio ali e era tudo o que menos precisavam. Naquele momento, Itachi precisava de ajuda, confiava nele para isso e era isso o que Naruto se comprometeu que faria.
–Você nunca seria um incômodo pra mim. –ele disse resoluto. Itachi não parecia muito certo, mas Naruto o ignorou, ligando o chuveiro de uma vez.
A água gelada ajudava a clarear os pensamentos. Ele colocou uma boa quantidade de sabonete líquido numa esponja, fazendo bastante espuma e dando para Itachi se lavar. Havia uma daquelas duchinhas chiques típicas de filme pornô lésbico, quando Itachi terminasse de se ensaboar, Naruto ia dar essa duchinha para o outro se lavar. Naruto ficou debaixo da ducha, cantarolando uma música qualquer enquanto ensaboava seu corpo com um sabonetinho pequeno e com cheiro de erva doce.
Não era a primeira vez que ele tomava banho com alguém. Quando ele era pequeno, ele e Nagato tomavam banhos juntos, isso durou até mais ou menos os seus cinco anos.
–Sabe... –ele começou a dizer, enquanto esfregava os cabelos. -De certa forma eu me lembro do nii-san... A gente costumava tomar banho junto também.
Quando seu irmão ficou doente, os dois voltaram a tomar banhos juntos, mas era mais porque Nagato estava fraco demais e Naruto o ajudava porque tinha medo que o irmão se machucasse.
Lembrar do seu irmão era algo bom, mas tão doloroso e assustador. Naruto se perguntava se outras pessoas que perderam entes queridos sentiam aquele mesmo sentimento. Era bom se lembrar de alguém que ele amou e continuava amando tanto; era doloroso porque quando ele se lembrava do quão incrível seu irmão era, ele sentia muita saudade; e era assustador porque às vezes ele tinha medo de esquecer Nagato.
Isso o deixava confuso e ele sempre evitava pensar sobre o assunto, mas quando ele começava era impossível parar.
–Ele lavava minhas costas e eu lavava as costas dele... –narrou Naruto com a voz distante, sem nem perceber que aos poucos seus movimentos iam ficando mais lentos. -A gente costumava usar a espuma do xampu pra fazer penteado de cabelo igual ao do Elvis e depois cantava Jailhouse Rock, usando xampu e condicionador como microfone.
Naruto deu uma risadinha ao lembrar. Ele conseguia lembrar que fez isso, mas por um momento de puro horror ele não conseguiu se lembrar do rosto do seu irmão, mas lembrava que o azulejo do banheiro era verde musgo. Se ele fechasse os olhos com força e se obrigasse a lembrar, ele veria na sua mente o topete castanho escuro com alguns pontos de espuma branca, mas não o rosto de Nagato.
“Se esforce!” Naruto pensou desesperado. Ele lembrava que após o banho sua mãe ficava furiosa com a bagunça deixada e ela sempre pegava uma folha de espada de São Jorge para bater neles. Naruto recordava que era um Deus nos acuda e que ele e Nagato corriam pela casa toda de mãos dadas, tentando escapar da locomotiva vermelha ensandecida.
Ele se lembrava dos gritos da sua mãe, assim como de uma figura mais alta que ele correndo ao seu lado, cabelos acaju ao vento. Quando Nagato corria, a franja não cobria a sua testa e mostrava os olhos de um tom lavanda bem claro e as sardas ao redor do nariz. Naqueles momentos, mesmo com o risco de morte iminente, Nagato sorria para tranquilizá-lo.
Nagato Uzumaki, ele se lembrava desse cara.
–Ele parecia ser um cara e tanto. –comentou Itachi com um tom divertido e Naruto foi trazido à realidade.
Ele engoliu um seco, tentando tampar a grande quantidade de sentimentos que aflorou dele de uma hora para a outra. Era a primeira vez que ele falava abertamente de Nagato para Itachi e por alguma razão o pensamento lhe fez rir, mesmo que estivesse sentindo vontade de chorar. Será que se ele tivesse chutado o balde hoje, Nagato estaria do outro lado para dizer algo como: “Você é um idiota! Eu disse que não queria te ver tão cedo!”?
Itachi sentiu que havia algo diferente com ele, porque parou de se ensaboar e estava com aquela expressão preocupada no rosto, como se pedisse desculpas por algo que nem era culpa dele. De novo. Itachi tinha uma mania feia de carregar o mundo nas costas, uma espécie híbrida de Atlas com Sisífo.
–Ele era! –prosseguiu Naruto aproveitando a ducha na sua cara e ficando de costas para Itachi. –Em algumas coisas ele me lembra você...
–Por quê? –inquiriu Itachi com a voz cautelosa de repente.
Naruto abaixou a cabeça, sorrindo de um jeito triste, tentando prender o sorriso tímido de Nagato na sua memória.
–Porque apesar de ser completamente não intencional, ele... Ele era muito bom em ser o melhor irmão do mundo. –Naruto mordeu o lábio inferior e seus olhos começaram a arder. -Eu sinto falta dele, muito mais do que eu deixo parecer.
Naruto esperava que Itachi pedisse desculpas e continuasse a tomar banho, deixando-o em paz naquele instante, mas o mais velho tinha outros planos:
–Como... –inquiriu Itachi com delicadeza. -Como ele era?
A pergunta ecoou em seus ouvidos por uns segundos, enquanto ele fechava os olhos, evocando a imagem mental de Nagato. Um adolescente desengonçado, alto e magro apareceu na sua mente no mesmo instante. O garoto tinha cabelos vermelhos e lisos, com uma franja emo enorme cobrindo metade da cara porque seu irmão tinha vergonha das sardas que tinha no nariz e esse pensamento fez com que Naruto sorrisse.
–Meu Nii-san era muito tímido, quando ele ficava com vergonha era engraçado porque ele ficava todo vermelho, da cabeça até o pescoço! Até as orelhas ficavam vermelhas! –ele respondeu com um sorriso, ainda de olhos fechados, apenas sentindo a água gelada em seu corpo. Itachi murmurou alguma coisa. -Ele era bem inteligente e gente fina, ele entendia todas as minhas piadas e sempre me ajudava a fazer brincadeiras.
Naruto abriu os olhos, saindo um pouco da ducha e dando o chuveirinho para Itachi. O mais velho começou a se lavar e Naruto passou a esfregar os cabelos.
–Bingo. –murmurou Itachi com a voz ligeiramente travessa, para a surpresa de Naruto.
–O que? –perguntou Naruto olhando para as costas de Itachi.
–Eu sabia que você era uma peste na escola. –comentou Itachi com um sorrisinho prepotente e Naruto soube de cara quem foi o mentor de Sasuke naquela arte de dar sorrisos irritantes.
A diferença é que quando Sasuke fazia isso, Naruto sentia vontade de cair na porrada com o amigo; quando Itachi fazia isso, ele percebia que o outro apenas queria distraí-lo dos pensamentos tristes e estava conseguindo ter sucesso nisso. Naruto riu gostosamente ao se lembrar das travessuras que ele, Nagato e Karin aprontavam na escola. Seu irmão era um nerdzinho incurável e Karin era meio Pati, só que os dois sempre iam ver o que ele ia aprontar e acabava que os três participavam das brincadeiras.
Itachi sorriu junto. Nesse momento Naruto percebeu que toda a estranheza entre eles tinha sumido de novo.
–Pior que eu era! Eu colocava figurinha com cola pro professor sentar, espinho, o velho e clássico cesto de lixo apoiado na porta!-ele respondeu com entusiasmo e Itachi começou a fazer barulhos de desgosto, mas Naruto sabia que o outro estava rindo. — Colocaram até grades na minha primeira escola porque eu incentivava o pessoal a pular janela nas brincadeiras de pira!
–Você é terrível. –concluiu Itachi em um tom de voz divertido.
–Ow, sou um garoto regenerado!
Com isso os dois começaram a rir e logo eles terminaram o banho, se vestiram e Naruto guiou Itachi até o quarto, onde tinha uma cama king size para eles descansarem. Agora que eles tinham tomado banho, Naruto se conscientizou da fome gigantesca que estava e pegou algumas batatas que ficavam no quarto, oferecendo a Itachi, que aceitou algumas.
–Isso não vai ficar muito caro? –perguntou o mais velho com curiosidade. –Esses mimos de hotel costumam encarecer a diária e esse hotel parece ser chique.
–Não. –respondeu Naruto comendo uma batatinha. -Meu avô é um dos donos daqui.
Foi engraçado. Itachi ia comer uma batata, mas parou os movimentos, ainda com a boca aberta e com a batata há meros três centímetros da sua boca quando ouviu o que ele tinha dito. Naruto deu uma risadinha baixa.
–Desculpe? –perguntou Itachi ainda sem entender.
–Bom, você não é o único senhor misterioso aqui. –retrucou Naruto com satisfação, colocando uma batata na boca e mastigando, para a frustração de Itachi. –Minha família por parte de mãe é bem rica, mas isso não significa que a minha família é, nós somos tipo a família Buscapé, só que sem o lance do poço de petróleo. É um lance complicado que não sei muito os detalhes, tipo, é igual a herança que vocês nunca recebem.
Naruto comeu mais uma batata, olhando pela janela e vendo o amanhecer. O sol nascia do lado onde ficava o lago Shinai, mas ali no quarto eles tinham uma visão privilegiada do lago e do mar. Itachi mastigava uma batata, parecendo compenetrado, talvez estivesse perdido na Itachilândia de novo.
–Sasuke te contou isso? –perguntou Itachi com cautela.
–Sim. –respondeu Naruto sem pestanejar. –Não é como se eu tivesse acreditado muito na época. Achei que ele só queria competir comigo, até porque ele não me contou muito. –relembrou Naruto enquanto mastigava outra batata. –Eu só acreditei quando vi que ele entrava em pânico sempre que lembrava o Tony Stark do mau.
Durante um bom tempo eles não falaram nada, apenas comeram o pote de batata até terminar. Agora que ele estava alimentado e devidamente banhado, Naruto só queria se jogar naquela cama e dormir, mas sabia que não podia fazer isso. Primeiro Itachi estava ali de visita e segundo seus pais provavelmente iriam querer ir para casa, só que toda aquela demora para isso estava deixando Naruto verdadeiramente preocupado.
A última coisa que ele queria no momento era que Karin estivesse doente, algo que ele realmente estava começando a achar no mínimo razoável e isso não contribuía em nada para que ele relaxasse.
–O que Sasuke te contou sobre a nossa família? –perguntou Itachi e Naruto se forçou a prestar atenção no outro.
–Não muito. –ele respondeu com cuidado. Itachi estava sentado em posição de lótus na cama, os cabelos soltos faziam uma diferença enorme nele, deixando-o ainda mais bonito. -Ele disse que os pais morreram, que ele tinha um irmão e um tio, e que vocês têm uma grana pra receber que nunca sai, isso só porque eu contei do lance do meu avô virar o novo bacana do pedaço.
–Entendo... –murmurou Itachi, voltando a ficar perdido em pensamentos.
Isso era muito comum. Itachi era o tipo de cara que queria uma resposta racional para qualquer problema ou circunstância mundana, aí ficava lá, perdido da Itachilândia. Naruto às vezes ficava irritado com isso porque de vez em quando ele sentia como se conversasse com uma porta, só que ao mesmo tempo ele entendia que isso era um aspecto de Itachi e que ele devia engolir isso.
Itachi não era um cara que se abria ou falava dos seus pensamentos com facilidade, mas naquele instante, Naruto sabia que se escolhesse as palavras certas, Itachi ia abrir o bico. E ter esse tipo de poder no outro fazia com que Naruto caísse um pouco mais por Itachi e se sentisse ainda mais apaixonado, mesmo sabendo que não tinha a menor chance.
O pior disso era aquela sensação fantasma de ter borboletas passeando no seu estômago, aquela vontade de rir sem motivo nenhum e um puto bug no sistema do seu cérebro, o que, para variar só um pouco, fazia como que ele falasse a primeira coisa que vinha na sua cabeça:
–Itachi... Qual é a do Tony Stark do mau? –ele perguntou e isso chamou a atenção do outro. -Eu quero dizer... Eu já vi o Sasuke na merde, mas nunca vi ele ficar tão desesperado quanto ainda pouco...
O Uchiha pareceu ponderar a pergunta, mas deu um daqueles sorrisos sorrateiros que Sasuke dava às vezes, algo que realmente irritava Naruto de um jeito que Itachi provavelmente não tinha a menor noção. Sim, ele ficava todo mocinha de novela mexicana apaixonadinho por Itachi, mas isso não o impedia de querer estrangular o mais velho quando Itachi começava com a síndrome Goku de querer salvar o mundo sozinho.
–Eu não acredito que você aprendeu a xingar em francês pensando que ia me enganar. –comentou Itachi com um ligeiro traço de bom humor.
–E eu não acredito que você vai tentar mudar de assunto! –reclamou Naruto bravo de verdade com Itachi. –Eu sei que sou a porra de um moleque de dezessete anos, mas bota um pouco de fé em mim! Você não pode levar tudo no lombo sozinho!
Itachi fez uma leve careta quando ele xingou, agora estava franzindo os lábios e as sobrancelhas, como se estivesse pensando em um plano de emergência. Naruto expirou frustrado, se aproximando do mais velho, que voltou a ter aquela postura vigilante e impecável.
–Por favor... –ele pediu com a voz baixa, o mais convincente que conseguia. –Eu preciso saber Itachi.
Naruto olhava atentamente as feições do amigo, vendo cada vinco de preocupação lentamente sumir, enquanto o outro suspirava em derrota. O mais velho assentiu com a cabeça, se ajeitando melhor na cama, voltando a relaxar mais uma vez, curvando os ombros. Dessa vez Itachi ia abrir a matraca... E Naruto não poderia se sentir mais feliz e mais arrasado por isso.
–Madara... Meu tio... –começou Itachi com a voz cansada. Ele respirou fundo e continuou. -Ele matou a minha mãe.
Ok. Aquilo era muito mais do que ele esperava. Naruto piscou, uma, duas, três vezes, antes de arregalar os olhos e seu queixo cair com o espanto. Itachi mordeu o lábio inferior, esperando qualquer reação dele, mas hei! Não se joga uma bomba dessas sem chocar qualquer um.
–Eu... Como? –ele perguntou ainda muito confuso com a revelação. -Por que ele não ‘tá preso?
–Disseram que foi um acidente. Homicídio culposo (4 — Homicídio culposo é quando a morte acontece por algum ato ou omissão de origem imprudente ou negligente quando a uma omissão no dever de cuidar de algo ou imperícia, quando quem deveria agir não tinha habilidade para isso). –explicou Itachi com paciência, abaixando a cabeça e brincando com o lençol da cama. -Minha mãe estava voltando para casa, ia pegar ônibus e o meu tio estava dirigindo o carro, perdeu controle da direção, invadiu a calçada e...
O silêncio que se seguiu foi muito pesaroso. O cabelo encobria parcialmente o rosto de Itachi, mas Naruto tinha o pressentimento que o outro estava preso em lembranças dolorosas e também estava quase que com medo da reação dele, qualquer que fosse esta. Aquilo era muito mais do que Naruto poderia esperar e isso meio que justificava porque Sasuke ficava tão agitado quando o tal de Madara aparecia.
Esse cara era problema para os irmãos Uchiha, só que por mais cretino que fosse, seu avô era amigo desse tal de Madara; isso devia significar alguma coisa. Além do que, por mais filho da puta que o Tony Stark do mal fosse, o infeliz salvou o seu pescoço e a integridade do orifício anal de Itachi e Sasuke.
O grande problema para Naruto é que ele não sabia o que dizer. Ele, mais do que ninguém, entendia que ‘sinto muito’ ou ‘meus sentimentos’ e o clichê “meus pêsames” nunca iam preencher aquele vazio deixado por alguém que partiu desse mundo.
Eram só palavras.
Não tinha como preencher aquela lacuna, muito menos como entender aquela dor. Não era pena, nem nada semelhante a isso, era algo mais que ele não sabia nomear ainda. Naruto engoliu um seco, se sentindo desconfortável e ficando com raiva de si mesmo por exigir que Itachi falasse sobre esse tema. Só que agora que começaram a falar desse assunto, (e sendo algo que eles não poderiam seguir em frente sem deixar tudo muito claro) eles não podiam mais parar.
–Eu não sei o que dizer... –comentou Naruto com sinceridade.
O mais velho ergueu o rosto em sua direção e Itachi pareceu respirar aliviado pela primeira vez desde que soltou a bomba... O porquê do alívio? Naruto não tinha a menor ideia. Inconscientemente ele buscou pela mão de Itachi e a segurou entre as suas, acariciando de leve as covinhas entre os dedos.
–Ela era uma bailarina profissional... –continuou Itachi com um tom leve. -Chegou a dançar o lago dos cisnes como a personagem principal. –acrescentou com uma nota de orgulho e Naruto sorriu, sem nunca parar de acarinhar a mão do outro. -Você entende porque eu quis jogar aquilo fora?
Naruto ergueu o rosto, vendo a expressão séria de Itachi.
–Eu teria feito a mesma coisa. –ele respondeu em um tom sério. E acrescentou com um tom maldoso. -Ou talvez ter feito ele engolir aquilo!
Com um suspiro pesaroso e frustrado, Itachi cortou o contato entre eles, para tatear pelo colchão e o balde de água fria fez com que Naruto se conscientizasse do que fez. “Ah, no que eu estava pensando!” ele pensou, ficando completamente congelado, sentindo suas bochechas esquentarem de vergonha enquanto Itachi se deitava de costas na cama. Provavelmente Itachi devia estar pensando que ele tinha invadido seu espaço pessoal e...
Então, depois de ter se ajeitado melhor, Itachi deu duas batidinhas no colchão, como se dissesse que era para Naruto se deitar ao lado dele. Naruto respirou aliviado, percebendo só agora que ele tinha prendido a respiração. Em todo o caso, ele obedeceu ao pedido mudo de Itachi, se deitando ao lado do outro, mas mantendo uma distância saudável entre eles. O mais velho se virou para o seu lado assim que ele se deitou.
–Violência nunca é a resposta Naruto. –continuou o Uchiha com tranquilidade. — Só vai gerar um ciclo cada vez mais violento e nunca vai ter fim.
Naruto se espichou um pouco mais na cama, pegando um travesseiro para cada um deles. Itachi agradeceu o gesto, com um ‘hm’ de aprovação e Naruto observou o outro por alguns instantes, se conscientizando do quão grande eram os cílios de Itachi pela primeira vez.
Urg. Aquela situação estava estranha, mesmo para os padrões deles.
Tipo, Naruto tinha consciência que era uma pessoa espaçosa, mas ele sabia que havia um limite que tinha a ser respeitado para não invadir o espaço pessoal das pessoas. Só que sempre havia alguma coisa que fazia com que ele não soubesse quando parar quando havia Uchihas na parada, aconteceu com Sasuke e acontecia com Itachi. A diferença é que Sasuke sempre colocava uma distância mínima e isso nunca aconteceu com Itachi desde a primeira vez.
Não era apenas joelhos se tocando ou ficar ombro a ombro, não parecia ter limites à aproximação física deles. Em parte porque Itachi era cheiroso para caramba, com certeza era o seu segundo cheiro favorito, mas também acontecia porque era estranhamente confortável demais pros dois. Naruto sabia muito bem que Itachi não era o tipo de pessoa que permitia uma aproximação de qualquer pessoa, mas sempre o autorizava a seguir em frente, mesmo que nunca demonstrasse qualquer sinal de que queria outra coisa.
Talvez para o mais velho ele fosse uma espécie de substituto do Sasuke, mesmo que ele e Sasuke fossem tão parecidos quanto o Denzel Washington e o Jackie Chan.
Pensar nisso lhe deixava confuso pra caralho.
–Você precisa ser insuportavelmente inteligente até mesmo agora? –comentou mais para calar seus pensamentos do que por vontade.
Felizmente, Itachi levou na esportiva. Ele sempre levava. Naruto percebeu que isso também fazia parte do que os dois vinham construindo ao longo daquelas semanas, mesmo que Sasuke insistisse em tentar atrapalhar. Era algo que estava ali o tempo inteiro e que parecia não ter limites, fazendo Naruto ficar ainda mais envolvido nisso tudo.
Nos últimos dias, todas as vezes que eles inconscientemente buscavam pelo outro, Sasuke sempre se intrometia e agora Naruto percebia que a tensão entre eles finalmente chegou a outro patamar. Algo que quase o fazia pensar que alguém do calibre de Itachi pudesse se sentir atraído por ele, mesmo que Itachi nunca lhe desse alguma pista de que tinha alguma tendência para o lado rosa da força.
Não, Itachi chegou a mencionar uma namorada, muito brevemente. Era hetero, ainda assim... Por que ele não colocava um limite? Por que ainda parecia querer isso tanto quanto Naruto passou a querer? Isso era confuso demais para seus neurônios acompanharem.
–Um de nós tem que ser. –brincou Itachi em um tom jocoso.
–Chato! –resmungou Naruto sem realmente está muito sentido com isso.
Ainda assim, pelo seu orgulho, ele ia dar um soquinho no ombro de Itachi, quando o mais velho resolveu de uma hora para a outra se deitar de costas de novo, causando um leve desequilíbrio em Naruto, que acabou com a cara no ombro de Itachi e o braço sobre o torso do mais velho.
Por um segundo inteiro, Naruto não sabia o que fazer e ficou completamente em choque pela posição que estavam. Itachi era ossudo, não muito confortável, mas como cheirava bem! E como Naruto se sentia bem daquele jeito! Sua vontade era apenas de usar Itachi de travesseiro, e dormir inalando aquele cheiro de menta e cacau.
–Você realmente me deixou assustado hoje. –comentou Itachi passando o braço pelas suas costas, fazendo com que um arrepio involuntário subisse da base da sua coluna até a sua nuca.
De algum jeito que ele ainda não entendia bem (e duvidava que fosse entender), Itachi autorizou a posição. Ele queria aquele contato, assim como Naruto queria. Esse pequeno pensamento iluminou toda a sua manhã desastrosa e fez com que o seu coração batesse mais rápido do que os acordes que um guitarrista de Power Metal conseguia tocar.
Só que, como alegria de pobre dura pouco, Naruto se lembrou do que obrigou Itachi a passar naquela noite. Não era tão simples assim passar a borracha no fato de que ele tinha decidido morrer pelas mãos de Sasuke, mesmo com Itachi berrando para ele não fazer aquela merda, principalmente quando estaria abdicando de sua própria integridade física para manter o seu pescoço intacto.
–Desculpa. –ele murmurou baixinho.
Durante um bom tempo os dois não falaram nada, Naruto fechou os olhos, apenas sentindo o peito de Itachi subir e descer lentamente, e ouvindo outro respirar quase de forma inaudível. Seus olhos estavam ficando muito pesados e ele sentia que estava quase dormindo, percebendo que ele se sentia em paz quando estava com Itachi. Como se nenhum problema fosse grande demais ou importante demais para tirá-lo dali.
Naquele instante não importava o apocalipse que ia acontecer na sua vida quando saísse daquela cama, quando seus pais descobririam a sua burrice e ele soubesse que Karin realmente tinha ficado doente, ou qual seria o destino de Sasuke depois daquela noite.
Ele estava salvo e protegido disso tudo, por enquanto.
–Você realmente... –começou Itachi com a voz incerta e Naruto grunhiu para dizer que estava ouvindo. -Teria deixado ele te matar?
Bem, não era como se ele não estivesse esperando uma pergunta dessas de Itachi. De todas as pessoas, Itachi seria o único que iria querer saber isso. Naruto estava positivamente correto que Sasuke ia ter muito medo de descobrir a resposta, embora devesse querer indagar o mesmo.
Entretanto, justamente por ser Itachi, era fácil rebater aquela pergunta.
–Você teria deixado aquela coisa fazer... Aquilo? –perguntou Naruto em tom sério, se ajeitando melhor sobre o corpo do mais velho para poder ver o rosto de Itachi.
Ambos os braços de Itachi o envolviam agora e Naruto praticamente tinha se deitado sobre o outro. Seus rostos estavam muito próximos, Naruto até conseguia ver pequenos cravos nascendo no queixo fino de Itachi.
–É claro que sim. –respondeu Itachi com firmeza, quase como se Naruto tivesse perguntado alguma coisa realmente estúpida, cuja resposta fosse muito obvia. -Meu irmão não seria um assassino, você estaria vivo, seus pais não iam odiar meu irmão ou a mim e mais uma série de outras coisas. –pontuou Itachi com a voz controlada, como se estivesse apenas explicando a trama de um filme. -Era a resposta mais sensata naquele momento.
Aquela era uma resposta típica de Itachi, mas ainda assim não era menos frustrante ouvir. Naruto bufou baixinho, completamente devastado com a franqueza daquela resposta, sabendo que sim, seu amigo tinha um ponto.
Mas não era isso o que verdadeiramente incomodava. Itachi não era o seu avô Hashirama, mas o conhecia o suficiente para detectar uma história e o mais terrível: sabia que tinha poder de fogo para conseguir a resposta que queria. Era esse o tipo de vínculo que ele construiu com o outro desde o começo: confiança mútua, sem andar para trás.
Naruto começou a ter medo do rumo daquela conversa.
–Tudo acaba com a morte. –continuou Itachi no seu melhor tom professoral. -Enquanto estivermos vivos, nós temos uma chance de mudar nosso destino. –a voz do outro abrandou um pouco após uma longa pausa. -Eu achava que você sabia disso e que não ia desistir tão fácil assim.
E aqui, senhoras e senhores, foi o golpe de misericórdia. Naruto sabia que podia mentir e Itachi também sabia dessa possibilidade, entretanto os dois sabiam que ele não faria isso. O tempo de postergar as respostas não existia mais, não tinha como existir depois do que eles fariam um pelo outro naquela noite. Não dava para fugir disso, mesmo que ambos possuíssem motivações diferentes: Estava lá e não havia como não ver. Naruto não poderia mudar de assunto, não após ter forçado o mais velho a falar aquilo sobre a morte da mãe.
Não havia ponto de retorno a partir de agora.
–Eu sei disso. –admitiu Naruto com pesar, voltando a deitar a cabeça no ombro de Itachi. -Eu... Eu queria morrer naquela hora.
Pronto. Era a sua vez de soltar a bomba. Naruto fechou os olhos, esperando a reprimenda que ia ouvir do mais velho, porém os segundos continuavam a se passar e nada veio. Ele enrijeceu no mesmo instante. Seu coração batia lentamente agora, seu sangue corria em suas veias mais gelado do que as águas do lago Cocyto: ele estava com medo que Itachi o julgasse por isso.
Todavia Itachi agiu diferente e começou a acariciar a seu ombro com uma suavidade tão grande que Naruto não conseguiu evitar um suspiro de alívio, relaxando toda a postura de seu corpo.
–Por quê? –perguntou Itachi com simplicidade.
Naruto inspirou o cheiro de Itachi até se acalmar, repetindo o processo umas duas vezes até conseguir pensar nas palavras certas para se explicar. Durante todo esse tempo Itachi ficou calado, apenas fazendo a leve carícia em seu ombro, movendo a mão para cima e para baixo com vagar.
–Todo mundo tem um medo, eu não sou uma exceção e eu... –Naruto tentou dizer, controlando a sua voz para que ela não ficasse falha, mas era difícil agora que o botão do pânico tinha sido ligado. -Eu tenho pavor de falhar... –Naruto engoliu um seco, tentando disfarçar o medo com uma risadinha baixa. – De não ser capaz de proteger as pessoas que amo ou desapontar elas...
Naruto fechou os olhos com força, tentando impedir que eles ardessem ao ponto das lágrimas começarem a rolar. Ele respirou lenta e profundamente, tentando controlar seus próprios sentimentos. Itachi estava calado, aguardando a sua resposta e ainda acariciava seu ombro com gentileza, como se quisesse dizer com aquilo que tudo estava bem.
Mas não estava.
–Só que hoje eu falhei de novo! Mesmo fazendo o meu melhor pra ajudar meu amigo e a minha irmã... Eu! Eu falhei com eles e eu falhei com meu pai e meu avô! –continuou Naruto sem querer fungando baixinho e a primeira lágrima caindo do seu rosto. –Meu pai não confia em mim Itachi!Isso... Eu queria fazer diferente, sabe? Eu... Eu queria ser tão bom quanto meu irmão era, mas eu não consigo ser!
Sem que Naruto sequer percebesse, ele começou a dar uma risada forçada e sem riso nenhum, enfiando o seu rosto na curva do pescoço de Itachi, inalando o cheiro de menta e cacau em uma tentativa frustrada de se acalmar, mas... Nada acalmava.
–Eu nem sei o que eu quero ser quando crescer e isso me assusta! –ele confidenciou. Ele sabia que era um medo patético, se comparado com todos os problemas que Itachi passava. Ele sabia!
Mas...! Mas...! Nagato era incrível. Seu irmão era tão inteligente quando estava vivo! Vivia ganhando as feiras de ciência do colégio militar, que ele tinha ganhado bolsa integral. Passou em um teste super concorrido em primeiro lugar e ainda era um dos melhores alunos da classe! E tudo antes de completar quinze anos. Antes de ficar tão doente que nem mesmo a sua inteligência restou. Naruto desejou ser médico para salvar outras crianças na mesma situação, para que outras famílias não passassem por isso, só que ele não tinha certeza se queria passar a sua vida inteira num hospital.
Só que isso deixava seu pai tão feliz e satisfeito... Ele tinha que fazer o vestibular no final daquele ano, escolher uma carreira, ter uma profissão, mas ele não tinha ideia do que ele queria fazer! Havia tantas possibilidades... E ele não queria minar nenhuma delas, assim como ele queria fazer seus pais incríveis ficarem orgulhosos dele. Naruto sabia que era o filho menos talentoso da casa, se bobeasse, na família inteira e ele precisava tomar uma decisão logo, mas o tempo não estava ao seu favor.
O tempo nunca estava.
–Meu pai acha que eu quero ser médico, mas, não, eu não quero! –ele continuou com a voz baixa e desesperada. Ele queria ver o rosto de Itachi. Precisava ver o rosto de Itachi e se afastou do outro, percebendo que o Uchiha estava com as feições sérias, porém não o julgava. -Mas eu tenho medo de que quando ele souber disso ele fique ainda mais desapontado comigo do que ele já está! Ele...!
Naruto não conseguia parar agora. Ele estava com vergonha de falar disso para Itachi e mais vergonha ainda porque não conseguia conter o choro. Itachi ainda estava com um dos braços atravessando suas costas, mas não forçou uma aproximação. O mais velho parecia que estava lhe enxergando, mesmo que Naruto soubesse que não. Ele queria que Itachi dissesse qualquer coisa para fazer melhorar, qualquer coisa mesmo, mas o mais velho não disse. Só que isso não era o pior: lembrar era o pior.
Quando Nagato morreu, tudo desandou. Naruto sabia que a sua mãe não conseguia lidar com a morte do seu irmão: era algo que estava fora da esfera do que ele podia fazer, porque se ele ficasse perto dela, isso não ajudava. Sua mãe ficou tão devastada por ser uma médica e não conseguir salvar o próprio filho que tinha medo de não conseguir fazer o mesmo por ele e Karin. Ela ficou com medo de perdê-los ao mesmo tempo em que tinha medo de estar com eles.
Doía tentar ver a sua mãe e ela chorar quando o enxergava. Machucava demais tentar fazer alguma coisa para agradá-la e ela pedir desculpas por alguma coisa que estava além do que qualquer um deles podia fazer. Não era culpa dela que Nagato tinha morrido, nem de ninguém. Não há culpa na morte, ela acontece. Naruto sabia disso agora, mas na época ele não conseguia entender.
Quando tudo parecia que estava descarrilando de novo, seu pai aparecia para tentar ser a luz da sua mãe, como a sua mãe foi a luz para seu pai quando Nagato estava doente. Ela foi a luz da família inteira nesse período, ela quem mais acreditou que Nagato iria melhorar. Naruto sabia agora que se a sua mãe morresse, o seu pai ia morrer junto, mas naquela época...
Naquela época ele conseguia enxergar a palavra “divórcio” na testa do seu pai. Não era falta de amor, nunca foi por falta de amor, mas porque doía demais ver a sua mãe do jeito que ela ficou. Naruto entendia que devia ter dias seu pai pensou em desistir, ele sentiu isso.
Esses eram os piores dias.
Seu pai podia negar isso até a morte, mas, hei adultos, ‘crianças’ sentem quando alguma coisa está errada. Naruto sentiu isso. E por sentir isso ele fazia o impossível para não ficar em casa.
Sasuke o chamava para sair todo o dia e ele aceitava. Quando não, era ele quem chamava Sasuke para sair. Não importava para onde, desde que fosse para algum lugar bem longe daquela casa. Quantas vezes ele e Sasuke cogitaram fugir de casa nesses dias? Quantas vezes os dois brigaram até ficar manquejando e resmungando de dor só para conseguir esquecer daquilo?
Foram mais vezes do que ele poderia se lembrar. Sasuke sempre estava lá por ele, com a mão erguida quando ele caia. A recíproca também era uma verdade. Depois da briga, os dois fumavam um baseado só para desligarem as suas mentes um pouco, só um pouco. E ficavam juntos, lado a lado, vendo o por do sol. Eles não precisavam de palavras para conversar, bastava a presença do outro e tudo entraria nos eixos alguma hora. Às vezes eles ficavam juntos até a lua ficar bem no meio do céu, quando era tarde demais para qualquer outra coisa.
Naquele dia na piscina...
–Naruto... –murmurou Itachi com a voz macia.
A voz de Itachi o trouxe à realidade de uma maneira brusca, fazendo Naruto perceber que estava tremendo e que isso devia ter deixado Itachi preocupado. Um sorriso triste curvou seus lábios por um momento, enquanto ele relaxava seu corpo de novo, permitindo que Itachi o deitasse novamente na posição anterior.
–Sasuke nunca entendeu porque eu quis parar de usar maconha, ele não sabe que um dia eu tive paranoia e... Foi horrível! –contou Naruto um pouco mais controlado, mas ainda sentia um gosto amargo na sua boca. –Minha mãe finalmente estava melhorando da morte do meu irmão quando eu ‘tive isso, Itachi. Você consegue imaginar como foi ver meu pai tão decepcionado comigo?
A resposta de Itachi foi abraçá-lo bem apertado, uma das mãos correndo pelo seu corpo até tocar o seu rosto e limpar o caminho das lágrimas. Naruto aconchegou seu rosto na mão do mais velho quase que inconscientemente. “Fodeu...” Naruto começou a pensar, enquanto sentia os dedos de Itachi acariciarem a sua bochecha lentamente. “Eu gosto mesmo desse cara...” ele concluiu seus pensamentos com um suspiro baixo e pesaroso.
–Eu senti tanta vergonha de mim nesse dia que... –continuou Naruto com a voz fraca e embargada. -Eu jurei que nunca mais ia desapontar eles, só que eu não consigo parar de desapontar eles, entende?
Itachi produziu um som gutural de que entendia e Naruto suspirou baixinho, se sentindo cansado demais e com sono demais para dizer ou fazer qualquer coisa. O disque foda-se estava ligado e naquele momento tudo o que importava era o conforto que Itachi estava lhe oferecendo, por mais estranho que fosse dois caras ficarem daquele jeito numa cama de hotel.
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–Eu sei... Só que naquela hora eu pensei... –Naruto tentou se justificar, porém era difícil pensar em alguma coisa para rebater Itachi quando o outro estava sendo tão carinhoso com ele. -Eu pensei que se eu sumisse do mundo para tentar salvar vocês então... Eu ia poder morrer como herói e deixar eles felizes, entende?
Itachi bufou.
–Essa foi a sua pior ideia. -resmungou Itachi.
–Eu sei... –murmurou Naruto, sentindo que ganhou o troféu: ‘o idiota do ano’.
Naruto fechou os olhos com força, tentando não se sentir muito idiota, mas, bem, ele era. Itachi suspirou pesadamente, parando de acariciá-lo, mas ainda o abraçando.
–Você sabe o que pode fazer pra compensar agora? –perguntou o mais velho com um tom de voz que fez Naruto abrir os olhos e erguer uma sobrancelha, meio desconfiado.
–Não... O que?
–Viva. Nunca mais tente fazer algo estúpido quanto isso de novo. –respondeu Itachi com a voz séria, exalando uma firmeza que Naruto nunca tinha visto nele. -Sempre que estiver pensando que está decepcionando alguém pense se você está decepcionando a si mesmo.
–Como assim? –ele perguntou surpreso.
–Antes de ser filho do Minato-san, você é Naruto Uzumaki. Você tem que ser fiel a você mesmo e aprender a querer as coisas que importam pra você mesmo. –continuou Itachi no mesmo tom. Naruto se ajeitou melhor para poder encarar o rosto de Itachi. -Sua família te ama e vai entender as decisões que você fizer quando você entender isso. E eles vão sentir orgulho de você!
Naruto suspirou baixinho, voltando a deitar sua cabeça no ombro de Itachi, enquanto brincava com uma mecha de cabelo do mais velho.
–Você fala de um jeito que parece tão fácil... –ele comentou de um jeito que soou birrento demais até mesmo aos seus ouvidos.
Itachi percebeu isso e sorriu.
–E é.
–Hum... –murmurou Naruto.
Ele pegou outra mecha do cabelo de Itachi e começou a brincar com ela, pensando que o mais velho deveria causar inveja nas mulheres, já que o cabelo dele era tão liso que parecia até efeito de chapinha. Não muito tempo atrás, mas ele, Karin e Sasuke costumavam sair juntos e era ele quem arrumava o cabelo vermelho da irmã. Era uma afronta do destino ter dois irmãos mais velhos com o cabelão lindo da sua mãe e ele pegar o cabelo sem graça e cheio de redemoinhos do pai.
Naruto fez um beiço e mirou rapidinho o rosto de Itachi, percebendo que o Uchiha estava de olhos fechados, um vestígio de riso nos lábios. O mais velho parecia tão relaxado e tão diferente agora.
–Hein, Itachi? –chamou Naruto, com a voz baixa, mais para saber se Itachi ainda estava acordado do que qualquer outra coisa.
–Hn? –murmurou o mais velho ainda de olhos fechados.
–Você não estava com medo? –ele perguntou com a voz baixa.
Por um momento, Naruto pensou que o outro não fosse responder, mas Itachi deu um suspiro suave e respondeu:
–Apavorado.
–Você não espera que eu compre só essa resposta, né? –ele resmungou com birra, parando de brincar com o cabelo de Itachi para acariciar de leve o maxilar do outro, recebendo um suspiro satisfeito do mais velho. -Eu paguei pelo pacote inteiro, sabia?
Itachi suspirou de novo, inclinando o corpo para ficar de lado e automaticamente Naruto se moveu, dando espaço para o mais velho se virar e ficar de frente para ele. Só que não foi como antes, já que o braço de Itachi repousava sobre a sua cintura protetoramente, enquanto que segurava o braço no qual o mais velho repousava a cabeça. A respiração morna de Itachi tocava em seu rosto delicadamente.
–Eu não sou bom dizendo essas coisas, Naruto. –murmurou Itachi com a voz suave.
O bafo dele tinha cheiro de batata.
–Tenta. –encorajou Naruto com gentileza, sorrindo mesmo que Itachi não pudesse ver. Uma mecha de cabelo caiu no rosto do mais velho e Naruto a afastou com delicadeza. –É melhor que engolir esse óleo de rícino todo sozinho!
Itachi soltou uma risada nasal e depois mordeu os lábios, como se refletisse por onde deveria começar. Naruto voltou a acariciar o rosto do mais velho, sentindo a pele macia e morna sobre seus dedos. “Ele tem uma pele legal” Naruto pensou de repente, mas logo se controlou pensando: “O que eu sou? Um Ronald Weasley? Pelo menos ele era ruivo...”.
–É só que eu... Me sinto nojento. –revelou Itachi com a voz baixa, logo em seguida mordendo os lábios. Seu rosto parecia preocupado com alguma coisa. -Mesmo que eu tome banho, parece que a sujeira nunca vai embora.
Na sua sincera opinião, Itachi nunca poderia estar mais enganado. O cara poderia facilmente ganhar o concurso de miss Universo, desbancando modelos de todo o mundo e ainda se achava nojento? Naruto sabia que Itachi não tinha nenhum cuidado com a aparência, até quando vestia moletom velho cheio de bolinha e desbotado, Itachi parecia um modelo. Mesmo com o cabelo bagunçado ou a cara inchada de sono, Itachi sambava no recalque das invejosas.
–Por que acha isso? –ele perguntou verdadeiramente surpreso. E o mais velho pareceu ainda mais temeroso, o que deixava Naruto ainda mais preocupado.
–Aquele cara queria... –Itachi fez uma pausa para engolir um seco. -E Sasuke também já tentou isso.
Naruto arregalou o olhar, parando de respirar por alguns instantes. Sasuke tentou fazer alguma coisa contra Itachi? Sasuke? Naruto tentou afastar o misto de sentimentos como a raiva para bem longe, embora estivesse muito difícil controlar isso. Sua vontade era dar um grito e quebrar alguma coisa, mas ele não podia. Itachi estava mordendo a boca com força de novo e Naruto passou o polegar no lábio inferior do Uchiha.
–Não se machuque. –pediu Naruto. –‘Tá tudo bem.
O mais velho suspirou pesadamente, fazendo um leve gesto afirmativo com a cabeça, parando de morder o lábio inferior. Itachi parecia extremamente desolado e desgostoso consigo mesmo e ver isso tirou qualquer raiva que Naruto estivesse sentindo. Mas como ele tampouco sabia o que dizer, a única coisa que ele fez foi acariciar a bochecha de Itachi mais uma vez.
–Continua. –pediu Naruto com a voz suave.
Itachi suspirou e assentiu.
–Eu não sei como lidar com isso. –confessou Itachi com a voz triste. -Já teve gente que quis isso antes, mas... Nunca... Eu fico com nojo disso! Quanto mais penso nisso, mais eu quero que as coisas sejam diferentes, mas tudo está fora do meu controle e isso é frustrante.
Naruto continuou acariciando o rosto de Itachi por muito tempo, esperando que o mais velho fosse dizer alguma outra coisa, mas o Uchiha ficou silencioso, com os olhos fechados. Era a sua vez de dizer alguma coisa que confortasse Itachi, mesmo que Naruto não tivesse a menor ideia do que dizer.
Claro que devia ter toneladas de pessoas desejando comer ou serem comidas por Itachi, já que seu amigo ainda não percebeu que exalava feromônios por onde andava. Ele próprio desejava Itachi, todas as noites o Júnior o lembrava disso.
Só que aquela não era bem a questão.
Para ele, Itachi era muito mais do que um cara com um rosto lindo e um corpo bonito: Itachi era uma pessoa incrível. Era o conjunto que fazia com que ele, Naruto Uzumaki, desejasse ter Itachi para si, como amigo e como amante. Talvez aí estivesse a diferença que fazia com que Itachi não entendesse a situação e se sentisse enjoado.
Por mais que Naruto ficasse puto com Sasuke e estivesse morrendo de ciúmes, ele conhecia o seu melhor amigo muito bem, apesar de ainda não ser o suficiente para ajudar aquela mala sem alça. Naruto sabia que se Sasuke tentou qualquer coisa com Itachi era porque realmente tinha sentimentos pela pessoa Itachi, algo que ia além do aspecto físico. Até porque se Sasuke quisesse apenas comer Itachi, bastava enfiar o dedo no cu na frente do espelho, já que os dois irmãos poderiam se passar por gêmeos facilmente.
No apartamento, havia um retrato de Sasuke, Itachi e Shisui juntos e por aquela foto era óbvio como os dois irmãos eram parecidos. Itachi tinha os mesmos olhos negros da cor de ônix que Sasuke. A diferença é que o Teme tinha cabelo preto-azulado, que parecia azul elétrico no sol, enquanto Itachi tinha cabelo preto, cor de asfalto. Itachi também era uns bons dez centímetros mais alto que ele e Sasuke. Acabava ali as diferenças.
Além disso, verdade seja: Sasuke não era tão narcisista quanto parecia. Na realidade, se existia alguém que não tinha a menor noção do quanto era foda esse era Sasuke, mesmo que agisse de um jeito que fazia com que os outros acreditassem que ele sabia. Sasuke e suas sasukices... Um dia Naruto ia acordar e ver que todos os seus cabelos estavam brancos e tudo seria culpa de Sasuke.
Itachi abriu os olhos e Naruto percebeu que tinha parado de acariciar o rosto do mais velho. Sem nem questionar, Naruto voltou a acarinhar a bochecha do outro e Itachi voltou a fechar os olhos.
–Sabe, aquele cara é um porco tarado. –começou Naruto com a voz séria. Itachi franziu os lábios. –Ele é nojento. Ele faz coisas nojentas! Isso não tem nada a ver com você! Isso não te torna nojento, Itachi, nem um pouquinho sequer!
A reação de Itachi foi de partir o coração de qualquer um. O mais velho arregalou o olhar parecendo acreditar, só para depois fechar os olhos bem fechados, apertando os lábios até que sua boca ficasse uma linha fininha, enquanto ele balançava a cabeça em uma negativa. Naruto sentiu seu peito se apertar com aquela visão, toda a pouca alegria que ele conseguiu reunir se esvaindo no mesmo instante. Em nenhum momento ele parou de acariciar a bochecha de Itachi, mas nem isso parecia confortar o mais velho.
Entretanto, Naruto sabia por que o outro estava assim: Itachi se sentia enojado por causa de Sasuke. Talvez Itachi estivesse se sentindo responsável pelo sentimento que Sasuke nutria ou qualquer outra coisa, mas isso deixava Itachi desconfortável. Naruto tentou se colocar na posição de Itachi por um momento, tentando imaginar Karin apaixonada por ele.
Era nojento, só que ao mesmo tempo não era.
Mesmo que Karin o amasse e desejasse dormir com ele, ter filhos com ele (cruzes!) ela ainda seria a sua irmã mais velha. Isso não mudaria a imagem que Naruto teria dela e nenhuma lembrança que ele tivesse: Ela sempre seria a garota das canelas finas e sorriso grande que arrebentava no beqs. Não tinha como Naruto parar de amar a sua irmã, nem mesmo que se sentisse enojado se ela tivesse esse tipo de sentimento por ele. Só que aqui vinha algo novo e algo que ele achava que Itachi devia estar sentindo naquele instante: culpa. A culpa de sentir nojo de alguém amado.
E talvez isso fizesse com que Itachi se sentisse com nojo de si mesmo. Mas não há como impedir uma enxurrada de sentimentos desse tipo em uma situação como essa! Era tudo complexo demais e Naruto queria esmurrar Itachi por guardar esse tipo de coisa por tanto tempo, no mesmo instante que queria encher o outro de beijos até aquela dor passar.
–Hei... –chamou Naruto com suavidade.
Mas Itachi não abriu os olhos. Naruto lentamente foi aproximando seu corpo do de Itachi, que automaticamente permitiu que suas pernas ficassem entrelaçadas. Havia uma distância de meros cinco centímetros entre seus lábios, seus narizes quase se tocavam, mas Naruto não deixou que isso desviasse o seu foco.
Ele só queria que Itachi soubesse que ele estava lá.
Itachi não precisava sofrer sozinho e achar que isso era normal, porque definitivamente não era.
–Você não ‘tá errado em se sentir confuso. –iniciou Naruto com a voz suave, ainda acarinhando a bochecha de Itachi, sentindo o outro expirar ar morno no seu rosto. -E eu sei que você não aceita o que o Sasuke sente por você, mas... Se ele ‘tá tentando o seu amor... Então não é algo assim tão nojento.
Isso fez com que Itachi abrisse os olhos, mas nem por isso seu rosto parecia menos miserável. Naruto sabia que precisava explicar tudo com calma a partir de agora.
–Como não? –inquiriu Itachi com a voz cansada e desgostosa. -Ele é meu irmão de sangue, Naruto. –continuou Itachi murmurando. -Eu ajudei a trocar as fraudas dele, contava estórias de dormir, eu vi ele crescer!
Naruto deixou um sorriso triste escapar dos seus lábios, mesmo que estivesse se sentindo miserável. Ele conseguia imaginar o que Itachi disse, conseguia ver uma criança de cinco anos bonitinha com um bebê no colo, cantando canções de ninar. Itachi era o tipo de criança que pediria um irmãozinho no natal, porque Itachi era esse tipo de pessoa solitária.
Uma pequena lágrima escorreu pelo olho direito de Itachi e Naruto delicadamente a limpou, fazendo o mais velho fechar os olhos com suavidade, suspirando baixinho.
–Como... –continuou Itachi, ainda com a voz extremamente triste. -Como isso não seria nojento?
Foi por um instante de muito controle próprio, mas Naruto conseguiu se refrear antes de beijar os lábios de Itachi. Em vez disso, ele tocou a ponta do seu nariz com a do outro por um momento, até que suas testas estivessem coladas uma na outra e suas bocas a uma distância segura.
–Eu não disse que seria confortável ou que você precisava amar ele desse mesmo jeito. –rebateu Naruto, mantendo seus olhos fechados. -Eu só ‘tou dizendo que você não precisa se sentir culpado por isso.
Itachi puxou o ar pela boca, parecendo verdadeiramente surpreso com o que ele tinha dito e Naruto riu pelo nariz: também era a cara de Itachi não ter percebido que sentia isso. O Uchiha tendia a racionalizar demais, deixando a parte sentimental de lado.
–Eu não tinha pensado nisso... –Itachi murmurou.
–Então... Se o Sasuke tentou, a motivação dele é completamente diferente daquele monstro: ele não queria transar com você, ele quer o seu amor. –explicou Naruto percebendo que Itachi emitiu outro ruído surpreso. –E ele continua sendo o Sasuke, do mesmo jeito que você conhece, apenas com uma ideia de amor diferente da sua...
Delicadamente, Naruto se afastou de Itachi, percebendo que o outro estava com os olhos arregalados em surpresa, mas não de um jeito negativo. Era como se Itachi estivesse analisando as coisas daquele outro modo de enxergar os fatos e isso mostrava que ele estava voltando a ganhar controle de si de novo. Naruto sorriu satisfeito com isso.
–Você não precisa concordar com o que ele sente, nem retribuir. –ele concluiu sua linha de raciocínio, voltando a chamar a atenção de Itachi. –Se sentir desconfortável com isso não te faz uma pessoa nojenta ou qualquer coisa assim, se é o que você ‘tá pensando.
Itachi voltou a fechar os olhos, expirando baixinho e Naruto sentiu a mão do mais velho descer pela sua cintura até repousar na base da sua coluna, fazendo diversos arrepios se espalharem pelo seu corpo e ele precisar suprimir um gemido baixo. Seu coração estava disparado e ele se sentia muito consciente de si agora, notando o quão próximos eles estavam enquanto Itachi voltava a colar suas testas, a ponta de seus narizes se tocando, como se fosse um beijo de esquimó.
–O que você faria se estivesse na minha pele? –Itachi perguntou com a voz baixa e rouca, um pouquinho sonolenta.
Estava difícil pensar, tudo o que Naruto mais queria era cortar aquela distância mínima e beijar Itachi de uma vez, só para acabar com aquela tensão ocasionada pelo gênio Uchiha ao colocar aquela mão na base da sua coluna. “Se concentra! Se concentra!” sua mente gritava e Naruto inspirou profundamente, mordendo os lábios com força e fechando os olhos.
Não era momento para pensar em mãos bobas, nem em beijos e nem em nada disso. Itachi ainda não estava convencido de que estava tudo bem, de que não fazia sentido se sentir nojento por algo que estava fora do seu controle. Itachi não estava bem e pensar nisso o ajudou a se concentrar mais. O que ele faria se a sua irmã se declarasse para ele?
Naruto respirou profundamente, enquanto pensava na resposta. Não havia como ele aceitar os sentimentos dela, nem se ela insistisse e ele deixaria claro os seus próprios sentimentos, deixaria Karin entender o fora pelo tempo que ela achasse melhor. E como é que seria a convivência, depois que ela tivesse revelado isso? Naruto não tinha ideia, mas ele se conhecia bem o suficiente para saber que ia fingir que a declaração não teria existido e que ele tentaria recomeçar de novo com a sua irmã. Ia ser algo bisonho, mas era o que ele faria.
–Eu não ia aceitar namorar meu irmão ou minha irmã, mas também não ia tirar eles da minha vida. –ele respondeu com sinceridade abrindo os olhos e percebendo que Itachi o encarava. -Nem ia tratar diferente... Eu ia só... Seguir em frente, sabe? Eu acho que se é amor então...
–Então...? –interrompeu Itachi.
–Então a gente tem que ser feliz porque a outra ‘tá feliz, né? –respondeu Naruto com um sorriso. –Se o meu irmão ou a minha irmã me amasse mesmo desse jeito, então eles iam querer que eu fosse feliz e se vissem que eu não conseguiria do jeito deles, daí eles teriam que se contentar do meu jeito, ou algo assim... Eu acho...
–Você fala como se fosse tão simples... –resmungou Itachi com um sorriso singelo , subindo a mão que estava na base da sua coluna até o meio das suas costas e acariciando a região por cima da roupa.
Naruto riu baixinho porque Itachi tinha arremedado o que ele disse há alguns poucos minutos atrás. Ele respirou mais tranquilamente agora, se sentindo mais calmo e leve, desejando que aquele momento não acabasse nunca mais.
Eles iam ficar bem, Naruto conseguia sentir isso. Ele fechou seus olhos mais uma vez, sentindo suas pálpebras ficando pesadas de novo.
–E é... –ele murmurou baixinho. -Não tem nada de nojento em você, Itachi.
–Mas eu me sinto. –teimou Itachi com um murmúrio, sem nunca parar de acariciar suas costas. -É como se eu ainda conseguisse sentir o cheiro daquela coisa em mim, mesmo agora.
Naruto bufou, abrindo os olhos e percebendo que Itachi estava com o rosto sério, apesar de estar com os olhos fechados. Um feixe de luz adentrava no quarto e iluminou o pescoço de Itachi, onde havia uma marca vermelha e que devia ter sido feita pela anaconda do mau. Não era para menos que Itachi estava se sentindo incomodado e que bom que ele não podia enxergar aquela marca de chupão.
Sem parar para pensar no que estava fazendo, Naruto se inclinou para frente e beijou a curva do pescoço de Itachi, depositando pequenos beijos em toda a área avermelhada. Ele sentiu Itachi enrijecer por um segundo, mas logo voltou a relaxar o corpo, suspirando em contentamento e não o impedindo de continuar a trilha de beijos da nuca até a parte de trás da orelha.
–O que você ‘tá fazendo? –perguntou Itachi com a voz mansa, quando Naruto ia começar a beijar a linha do maxilar do Uchiha até os lábios do mais velho.
E o clima foi totalmente arruinado com isso.
Naruto sentia vontade de sair correndo daquela cama e se jogar pela janela de tanta vergonha que ele estava sentindo. Seu rosto devia estar da cor dos cabelos da sua mãe, porque ele sentia a sua cara inteira arder. Até suas orelhas ardiam! Itachi abriu apenas um olho e Naruto percebeu que o mais velho ainda esperava uma resposta e puta-que-pariu Itachi era a pessoa mais sem noção do planeta! Como é que o mais velho não interpretou o humor, hein?
Mas isso era bom! Muito bom, significava que Itachi era idiota e ia comprar qualquer asneira que ele contasse!
–Limpando, oras! –respondeu Naruto com a voz espalhafatosa. -Agora quando você se sentir com nojo, só vai lembrar da minha baba e não daquele cara!
Naruto tentou controlar uma risada nervosa enquanto rezava um mantra recém criado: Por favor, acredite e não me ache um estranho! Depois de todo o inferno que ele passou na noite anterior, os céus atenderam o seu pedido e Itachi soltou uma risadinha aliviada, fechando o olho de novo e ficando com aquela expressão calma, de quem estava satisfeito com alguma coisa. Oh, merda, Itachi estava uma gracinha e Naruto estava derretido igual manteiga na chapa.
–Obrigado... –murmurou Itachi em tom agradecido.
Naruto voltou a relaxar, se sentindo satisfeito consigo mesmo por pelo menos ter feito uma coisa certa naquela manhã e ter feito Itachi se sentir melhor consigo mesmo. Os dois ficaram um bocado de tempo em silêncio, só escutando o som de suas respirações. Naruto parou de acariciar o rosto de Itachi, que, dessa vez, não reclamou da ausência de contato.
O mais velho se moveu na cama, subindo alguns centímetros de modo que Naruto agora tinha seu rosto levemente pressionado contra o peito de Itachi, embora pudesse sentir o queixo do mais velho tocando na sua testa. O cheiro de menta e chocolate imediatamente adentrou por suas narinas, fazendo com que o seu corpo inteiro relaxasse e ele inconscientemente repousasse uma de suas mãos na cintura de Itachi.
A mão que antes estava nas suas costas, agora estava sobre sua cabeça, fazendo carinho nos seus cabelos e isso era um golpe baixo. Se ele estava morrendo de sono antes, agora seu sono quadruplicava com essa carícia.
–Hein, Itachi? –ele murmurou sonolento.
–Hn...? –Itachi murmurou também com sono.
–Você se importa se eu cochilar só um pouquinho? –ele perguntou, só para ter certeza.
Itachi soltou uma risada nasal breve, aconchegando-o ainda mais seus corpos. Naruto começou a pensar que talvez ele também tivesse um efeito calmante em Itachi, porque nada mais justificava o mais velho querer isso.
–Vai em frente... –murmurou Itachi satisfeito com alguma coisa que Naruto não entendeu.
–‘Tá... –ele sussurrou, inalando o cheiro de Itachi que agora estava misturado com o cheiro de seu avô.
A inconsciência se derramava sobre ele sorrateiramente, fazendo com que ele não conseguisse pensar em mais nada, nem mesmo nos inúmeros problemas em que estava metido. Foi uma noite difícil, ele não dormiu, fez mil e uma coisas. Seu corpo inteiro estava cansado e ele estava emocionalmente esgotado, só que naquele momento Naruto se sentia tão bem.
Ele sabia que era porque Itachi estava ali e estava deixando aquilo, isso lhe fazia se sentir especial de algum jeito, fazendo com que tudo ficasse ainda melhor. Só por alguns minutos, ele queria sentir isso só por mais alguns minutos, mas o sono era forte demais para que ele resistisse.
–Itachi? –ele tentou uma última vez.
–Hn?
–Bom dia... –ele murmurou quase que manhoso demais.
–Bom dia. –mas não manhoso o suficiente para não reparar na voz feliz de Itachi.
E Naruto dormiu.
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