Desejar
18 Don't talk to strangers
Notas iniciais
ONZE
Don’t talk to strangers
Shizune
—Será que eles desconfiaram de alguma coisa? –Shizune perguntou apreensiva enquanto o táxi se distanciava.
O seu sentido aranha pressentia que algo ruim poderia acontecer e isso a deixava muito inquieta, talvez por isso ela não conseguisse parar de bater o pé no chão, não que isso a acalmasse um pouco. Na verdade, a única coisa que acontecia eram os olhares atravessados e muito mal humorados do taxista que muito lhe parecia aquele ator que interpretara um taxista psicopata na primeira temporada de Sherlock Holmes da BBC, por favor. Clássico era um clássico, mesmo que houvesse opiniões contrárias (iguais as do seu marido que preferiam a versão americanizada de elementary).
Definitivamente: ela não deveria pensar em taxistas psicopatas.
Shizune respirou fundo e tentou racionalizar a situação. Talvez ela só estivesse apreensiva porque temia que Shisui soubesse que ela estava agindo pelas costas dele e não ficasse feliz com isso (o mau humor Uchiha era uma doença terrível que durava por dias!), embora não pudesse descartar a possibilidade de ser algo mais preocupante.
A verdade era que Itachi e Naruto não se encontraram ao acaso.
Há dias que Shizune percebeu que trabalhava no mesmo hospital que a senhora Uzumaki e ambas concordavam que a união fazia a força para ajudar Sasuke e Karin. Além disso, Itachi andava de um jeito que fazia Shizune ficar com o coração partido ao vê-lo sempre tão triste e quieto. Shizune esperava que Itachi jamais soubesse o quão ele despertava seu instinto materno porque isso realmente abalaria o orgulho do rapaz, porém era inegável que ele parecia precisar muito de alguém, por mais que não se abrisse a ninguém da casa.
—Não acho! Nossa atuação é digna de um Oscar! –respondeu a senhora Uzumaki animada. –Foi esmagadora como um soco do minotauro!
—Quem? –Shizune perguntou distraída.
—Um lutador de MMA que arrasa nas lutas! –informou a senhora Uzumaki e Shizune assentiu educadamente com a cabeça, indicando que estava prestando atenção, embora seu coração estivesse longe dali.
Os últimos dias foram terríveis. Não era só Itachi quem andava estranho, mas Shisui também. Logo que passou o feriado de natal, Shisui voltou para casa com uma caixa cheia de jornais e revistas velhos, os quais ele passava horas analisando e murmurando coisas para si mesmo. Shizune jurara para si mesma que não ia se rebaixar ao nível de certas mulheres e fuçar nas coisas do marido, mas vontade não faltou. Principalmente porque quando ela o questionou se havia algo errado ou o que era aquele bando de papel velho e fedido, ele se esquivou e ficou irritadinho, no clássico modo de autodefesa Uchiha, o que envolvia: drama, gritos de ‘você não confia em mim?’, uma boa dose de portas batendo e depois uma fatura de mercado atestando a compra de bebidas alcoólicas.
Claro que, no fim, Shisui pediu desculpas e se mostrou arrependido, o sexo depois disso foi muito bom, mas nenhuma resposta saiu daquela cabecinha cheia de titica de coruja.
—Tem algo a mais te preocupando, né? –a senhora Kushina perguntou bondosamente, com um sorriso gentil em suas feições bonitas. –Você pode conversar comigo, sabe?
Isso sobressaltou Shizune, que logo se apressou a sorrir e disfarçar o desconforto. Uma das poucas lembranças que ela tinha do tio era uma recomendação: ‘nunca conte as coisas do seu lar a um estranho’, então mesmo que ela estivesse com um problema enorme, ninguém deveria saber.
Não era um problema: ela não sabia como compartilhar mesmo e nem conseguia pensar em alguém que quisesse ouvir essa história.
No trabalho havia muitas colegas, mas ninguém que ela quisesse desabafar. Até mesmo porque tudo o que a profissão de enfermeiro tinha de bonita, a classe tinha de desunida e isso era realmente triste. Cada profissional, com algumas raras exceções, daria um ótimo vilão de Gothan, mas essa opinião Shizune guardava para si. A sua melhor opção de conversar sobre algo que a incomodou era Shisui, contudo uma vez que o problema era o próprio, ela sabia que não teria um resultado diferente da primeira vez que tentou resolver tudo. Ela conhecia o marido, sabia que quando ele estivesse pronto para falar o que quer que fosse que o afligia, ele viria até ela e que não deveria ficar forçando-o a fazer algo que o incomodava, porém ela o amava; era impossível não se preocupar.
—Não, eu estou bem! –ela assegurou com a voz um pouco espalhafatosa demais. Seus pensamentos iam e vinham a velocidade do Barry, ela só esperava que não desse um bug no sistema e fizesse algo que a Shizune do futuro ficasse encrencada. -Não é nada que eu não aguente!
O sorriso que a senhora Uzumaki deu foi tão doído que por um momento confundiu Shizune. A outra mulher se acomodou melhor na cadeira enquanto Shizune refletia se falara algo de errado.
—Eu costumava dizer isso também... –disse a senhora Uzumaki em um tom nostálgico, olhando para as próprias mãos enlaçadas em seu colo, mas Shizune suspeitava que a outra não estivesse realmente as vendo. –Depois que meu filho morreu, sabe? Mas, claro, eu não aguentei.
A senhora Uzumaki se virou e lhe deu um sorriso pesaroso. Os olhos da mulher pareciam a neblina que encobre o sol e escurece o mundo inteiro. Shizune se perguntou se a outra tinha aquele olhar quando precisava dizer a um parente que infelizmente alguém não sobrevivera aos procedimentos médicos. Uma aura pesada invadiu o carro e até mesmo o taxista parecia sentir a importância do momento, porque parou de lhe lançar olhares atravessados.
Shizune permaneceu calada, aguardando a outra continuar, mas sem realmente compreender o porquê daquela conversa.
—Naquela época eu fiz de tudo pra conseguir os remédios, estive ao lado da cama dele todas as noites, tracei planos, sonhei com o futuro e quando ele se foi... –Kushina continuava com a voz baixa e Shizune suspeitava que enquanto ela falava, estivesse vendo o filho morto ali naquele táxi e isso fez seu coração apertar tanto que lágrimas foram aos seus olhos. Nenhuma caiu por seu rosto. -Tão novinho...! Com um futuro tão grande pela frente...! Eu pensei que a culpa era minha por não ter feito tudo quanto fosse possível.
—Mas isso não era sua culpa. –Shizune se viu dizendo com a voz gentil que podia.
Era o tom que usava quando precisava consolar alguma mãe que chegara ao leito do filho adoentado; do marido assustado quando via o que aconteceu com a esposa; dos filhos amedrontados ao verem seus pais entubados por quaisquer razões. O desespero se apresentava de formas diferentes no hospital, às vezes era a fúria desmedida que atrapalhava a todos, algumas outras em uma tristeza desoladora, porém, em todas essas manifestações, o sofrimento queimava a ferro e fogo a todos que estavam no caminho.
As paredes dos hospitais eram cheias de história, sobretudo, cheias de culpa. Era impressionante a quantidade de pessoas que pareciam desconhecer que, às vezes, por mais que nos esforcemos para ter alguma coisa, às vezes isso não é o suficiente. Às vezes simplesmente não é o nosso destino obter aquilo que mais desejamos e isso dói, mas não deixa de ser verdade. Inclusive não ter o que mais desejamos, talvez, fosse até mesmo uma sorte porque a vida sempre reserva outra coisa igualmente preciosa como forma de consolo. Era tolo, mas Shizune achava que tinha certa justiça dentro da injustiça algumas vezes.
Talvez, também não fosse da sua conta o que quer que esteja perturbando Shisui.
Shizune sabia perfeitamente bem que algumas coisas na vida somente a pessoa pode enfrentar, não importa a quantidade de apoio moral ou o quanto ela seja amada: há obstáculos que só uma pessoa pode desfazer. Entretanto... Como ela poderia saber se isso era o caso? Casara-se com Shisui e jurara que na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza; na vida e na morte, ela o acompanharia. Ela queria estar ao lado dele em todos esses momentos.
Ele não precisava estar sozinho. E nem ela precisava ficar sozinha. Talvez fosse isso o que mais a incomodasse no problema do marido: a sua própria solidão. Em ser deixada de lado e ser incapaz de fazer alguma coisa. Ver alguém que ela amava sofrendo e nada poder fazer. Shizune se sentia absurdamente fraca nesse momento, porque depois de muito tempo, essa era a primeira vez que não sabia o que fazer.
Isso era o pior.
E ela percebia o quão egoísta era por pensar assim, mas ao mesmo tempo não conseguia evitar em se sentir dessa forma. A impotência triplicava a agonia de não poder ajudar Shisui nesse momento difícil, no qual a paciência parecia ser algo em extinção. Kushina voltou a falar e Shizune tentou ouvi-la a fim de parar de pensar.
—Não era minha culpa. A morte convida qualquer pessoa de qualquer gênero, raça, idade ou sexo. É inevitável. Eu sei disso agora, naquela época não. Não parecia... justo, entende? –questionou Kushina e Shizune bondosamente assentiu com a cabeça. -E eu pensei que conseguia lidar com isso sozinha, me fechando em mim mesma. Eu deixei de falar, de me cuidar, de trabalhar, de ser esposa, até de ser mãe.
Por um momento, Shizune tentou compreender como seria viver daquele jeito, sem forças para nada, isolada no escuro do quarto. Era terrivelmente solitário e isso a assustou. Algumas pessoas tinham medo da morte, outras tinham receio da dor, mas Shizune tinha pavor da solidão. Seus pais morreram antes que ela pudesse se lembrar deles, o tio que cuidou dela também se foi muito cedo e ela precisou viver sozinha a partir dos dezessete. Durante muitas noites, Shizune acreditou que conseguia lidar com isso, que aquele vazio um dia sumiria ou então era apenas mais uma parte que ela teria que aceitar.
Ela não tinha família no mundo, e daí? Era só mais uma coisa que ela teria que aceitar, mas então Shisui apareceu e ele virou ‘família’. Por mais complicado que o gênio Uchiha era, por mais que a situação de todos fosse tão enrolada e tenebrosa, os Uchiha a aceitaram. Eram família e ela não queria perdê-los, muito menos vê-los sofrendo daquele jeito. Era doloroso ver Shisui sofrendo e não conversando com ela; era doloroso ver Itachi sozinho no apartamento, sem falar nada; era doloroso ver Sasuke naquele mundo sujo e escuro, mesmo que ela nunca tivesse oportunidade de ter um bom relacionamento com o garoto.
Sobretudo: era muito doloroso ser deixada de lado e ignorada depois que finalmente se encontra alguém para não ficar mais sozinho.
—Não me orgulho dessas coisas. –prosseguiu a senhora Uzumaki com uma nota de tristeza. –Não reparei que meus filhos mal ficavam em casa, também sei que Minato quase me traiu.
—Como...? –perguntou Shizune completamente perplexa.
Se havia uma coisa que ela não poderia nunca suspeitar é que o casamento dos Uzumaki passara por tal provação. Shizune bem se lembrava que o médico sempre ficava tagarelando da esposa e do filho quando cuidava de Itachi no hospital, enquanto o sobrinho estava internado. Céus, fazia tão pouco tempo que Itachi tivera alta, mas parecia ter passado tanto tempo! Todos envelheceram tão rápido naqueles poucos dias!
Entrementes, Kushina apenas deu um sorrisinho conformado, até mesmo com certo divertimento ante ao seu espanto. Shizune se recompôs, ainda surpresa em perceber o quanto uma pessoa ou um aglomerado de gente poderia ter camadas. Em como as pessoas tentam esconder seus podres de todo o mundo, mas a verdade sempre volta à superfície.
—É natural, não? –rebateu a ruiva com simplicidade. -Homens casados, mulheres casadas, que diferença faz? Todos nós queremos nos sentir amados e desejados por quem nos casamos, né? E eu estava presa na minha dor e Minato sofria também, estava carente de afeto também. Parte da culpa era minha, veja só! Quase nos divorciamos nessa época.
—Mas... –comentou Shizune sem exatamente saber como formular a pergunta. Não compreendia o ponto que Kushina fez, ainda assim, era informação demais para acompanhar. Ela não saberia o que faria numa situação daquelas. -Você o perdoou?
A senhora Uzumaki suspirou, enquanto o táxi fazia uma curva e entrava na avenida principal. O trânsito estava lento naquela hora, já que era a hora do rush, porém Shizune estava completamente absorta na história contada. Seu pé até mesmo parou de bater no piso do carro!
—Ele não chegou a trair, não foi pra cama com aquela mulher. Mas serviu como um despertar pra mim, sabe? –esclareceu a senhora Uzumaki com a voz baixa, mas Shizune a ouviu, mesmo quando lá fora buzinas ecoavam. -Quando eu o vi arrumado, nervoso e sem conseguir me encarar eu soube que tinha outra. Foi quando eu consegui falar, foi quando pedi ajuda e desde então nós dois estamos tentando fazer a família funcionar de novo. Juntos, como era pra ser desde o começo.
Uma melodia baixa ecoou no carro, em meio ao som das buzinas e dos motores de carro, criando uma atmosfera que nada combinava com a conversa que tinham. Por outro lado, a diferença de sons trazia um ar de realidade e um tom definitivo na conversa que Shizune simplesmente não sabia como qualificar.
—Eu normalmente não conto essa história pra ninguém, pra ser sincera, nem sei se meus filhos sabem disso. –comentou Kushina com a voz mais aguda e um riso amarelo enquanto coçava a bochecha direita em um ar subitamente tímido. -O passado deve ficar no passado, sabe? E por causa disso Minato e eu não falamos disso, nem relembramos isso. Se é pra seguir em frente, é preciso confiar.
—Por que me contou isso? –perguntou Shizune com a voz igualmente baixa, um pouco aturdida com a última informação.
A senhora Uzumaki deu um sorriso misterioso que logo se tornou uma gargalhada baixinha e Shizune ficou olhando-a sem entender. Olhos cinzentos cintilantes se cravaram nela, contudo Shizune ficou espantada por não ver nenhum pesar neles.
—Porque às vezes é bom falar e não engolir todos os problemas como um sapo come moscas. –respondeu Kushina com sinceridade. –As vezes falar sobre o que aconteceu no passado mostra que a gente superou aquilo. –continuou a ruiva com o tom mais decidido. –Eu não vou mais cometer o mesmo erro de antes dessa vez e se eu conseguir ajudar alguém a não cometer o mesmo erro, então tudo fica melhor ainda.
Por algum motivo que ela ainda não sabia, Shizune se sentiu um pouco menos infeliz. Tudo o que a senhora Uzumaki lhe contou era pessoal, desconcertante, mas de alguma forma também lhe deu alguma esperança e isso minimizou a sensação de mal estar.
Era uma sensação gostosa a de confiar em alguém, talvez isso que fosse ter um amigo. Shizune não sabia bem como era isso, já que não teve muitos amigos ou amigas na vida. Às vezes parecia um mistério como ela tinha se casado! Pensar em Shisui novamente lhe deu aquele sentimento ruim no peito, mas dessa vez não foi tão intenso quanto momentos atrás.
—Eu... –tentou dizer Shizune, mas sua voz estava rouca e falar era difícil. Ela pigarreou e forçou-se a dizer qualquer coisa. -Eu não sei como dizer.
Dessa vez, quando a senhora Uzumaki sorriu, o riso alcançou os olhos cinzentos e Shizune admirou a mulher com quem conversava. Após ouvir essa história, ela conseguia ver alguém que lutou contra o lado negro da força e ainda teve garra para voltar pro lado certo da força.
—Pelo começo. –disse Kushina com a voz suave em tom maternal. –Toda história e todo problema tem um começo.
—Meu marido começou a agir de um jeito estranho depois do natal. –começou Shizune com dificuldade. Era um tópico difícil, mas ao menos Kushina fez um breve aceno com a cabeça. –Ele apareceu com uma caixa cheia de mofo e coisas velhas, que ele não deixa ninguém chegar perto. Desde então ele fica horas analisando aquilo! Não conversa comigo, nem com o Itachi. Está mais pálido, dorme pouco e sempre na sala.
O táxi avançou mais um pouco naquele trânsito caótico, no qual alguns pedestres atravessavam a rua sem ser na faixa e motociclistas passavam tão perto do retrovisor que Shizune não ficaria surpresa se algum deles o quebrasse. Felizmente, bastava dobrar a direita no próximo sinal que logo as duas chegariam ao destino.
Se ela tinha que falar, tinha que ser agora, uma vez que dentro do hospital nenhuma das duas teria tempo e nem encontrariam um local apropriado para conversarem. Da mesma forma que as paredes do hospital estavam repletas de histórias e culpas, as paredes tinham ouvidos e gostavam de repassar informações.
Seria um grey’s anatomy, mas sem a pegação e a gente bonita.
-Tentei perguntar se tinha algum problema, se fiz algo errado e ele nunca responde! Tampouco diz o que tem naquela maldita caixa que deixa ele tão preocupado!–ela contou amargurada, olhando exasperada para Kushina. –Sinto que algo ruim vai acontecer e não consigo tirar isso da cabeça!
Shizune mordeu o lábio inferior, enquanto Kushina lhe encarava com um olhar pensativo. Inconscientemente, Shizune voltou a bater o pé no piso do carro, sentindo uma vontade enorme de andar um pouco e mover-se, porém, como ainda estava no carro, ela nada podia fazer para controlar essa apreensão. Ela observou Kushina segurar o rosto com uma das mãos, antes de fechar a cara em um semblante preocupado.
—Será que não tem a ver com o que o meu tio disse naquele dia? –perguntou Kushina com a voz séria. –No dia que, você sabe...
Por um momento, Shizune não entendeu o que a outra queria dizer, até que seus olhos se arregalaram. Kushina falava do dia da festa e da conversa que Shisui tivera com Tobirama.
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—Nada é o que aparenta ser com os Uchiha, rapaz. –tinha dito o tal Tobirama, olhando de um jeito arrogante para Shisui.
Shizune, por um momento, temeu o pior: que seu marido perdesse o autocontrole e fizesse alguma coisa que fosse se arrepender depois. Os punhos cerrados de Shisui e o jeito como o olho direito dele piscava, naquele velho tique nervoso que ele tinha quando estava perigosamente perto de explodir, eram indicadores alarmantes. Não que Shisui fosse do tipo de homem que saía por aí distribuindo socos, Shizune só o vira partir pra porrada uma vez, quando um homem bêbado não queria aceitar o fora que ela lhe deu e Shisui, então seu amigo, desferiu um soco naquele babaca.
Não parecia, mas Shisui era muito forte. Naquele dia que perdeu as estribeiras foi necessário quatro homens a fim de pará-lo de bater no idiota.
—O que quer dizer com isso? –inquiriu Shisui sem entender, com uma dureza na voz que poucas vezes ela vira. -Você está do lado dele?
—Eu nunca estaria do lado do Madara. –respondeu Tobirama aparentando estar afrontado com o que Shisui dissera, embora mal desse para perceber. –Nós dois nunca nos demos bem, desde quando éramos crianças.
—Então...? –insistiu Shisui e Shizune conseguiu sentir a descrença do seu marido. Ela até mesmo conseguia ouvir a raiva borbulhante dele e, da maneira mais sutil que ela conseguiu, se aproximou dele a fim de tentar evitar uma briga, caso houvesse.
—Então procure as respostas. –respondeu Tobirama impaciente. -As pessoas sempre gostaram de fofocar mesmo!
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—O que? –murmurou ela. –Acha que ele está procurando sobre a família dele?
—É, tipo, os Senju e os Uchiha são duas das famílias mais tradicionais da capital, tem muita informação espalhada por aí e nem todas são digestivas. –esclareceu Kushina fazendo uma careta. –Provavelmente seu marido tenha começado uma investigação sobre os Uchiha, ter descoberto alguma coisa e não esteja sabendo lidar com isso.
—Bem... –sussurrou Shizune baixinho, enquanto o táxi dobrava o sinal. -Isso poderia explicar algumas coisas, mas ainda assim...
Pouco tempo depois, o táxi finalmente parou em frente do hospital e o taxista cobrou a corrida, fazendo com que Kushina momentaneamente não prestasse atenção nela. Shizune se perdeu em seus próprios pensamentos enquanto saía do carro, completamente indiferente ao mundo ao seu redor: “O que Shisui descobriu pra ficar tão apreensivo assim?”.
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Itachi
Itachi se virou em direção ao som da voz e mal fez isso, quando se viu agarrado pela lateral, como se ele fosse um jogador de futebol americano que tinha que ser empurrado para o lado para os jogadores do time correrem e fazer um home run. O cheiro de xampu de camomila e sabonete de flor de laranjeira invadiram a sua narina no mesmo momento que braços mornos rodeavam sua cintura em um abraço apertado e o rosto de Naruto ficava no seu coração, que deu uma disparada em puro prazer.
—Naruto! –ele chamou um pouco tímido. Ele não era muito fã de demonstrações públicas de afeto, ainda mais com a mãe do garoto bem ali, mas Itachi se sentia tão feliz naquele momento que ele se sentia até mesmo tolo por isso. -Hei...!
O adolescente não disse nada, apenas o abraçou mais apertado ainda, aproximando seus corpos de um jeito inocente e Itachi acabou sorrindo. Seria a última vez que ele ‘veria’ Naruto. Esse pensamento era triste e ele não queria desperdiçar esse momento. Com movimentos lentos, Itachi envolveu seus braços ao redor das costas de Naruto, depositando seu queixo sobre o topo da cabeça ruiva de Naruto e sentindo ainda mais a fragrância de camomila que aquelas mechas emanavam.
A posição era igualzinha a daquele abraço que compartilharam na véspera de natal, mas lembrar daquele dia fez Itachi se lembrar dos pesadelos que tinha a cada noite e com isso ele inconscientemente apertou mais o corpo de Naruto contra o seu. O adolescente estava bem, sem nenhum furo de bala ou tira de pele faltando. Estava nos seus braços agora, por algum tempo. Itachi fechou os olhos e se concentrou apenas em sentir o contato físico e o cheiro que Naruto tinha, gravando aquilo bem fundo, para que fosse uma marca igual à deixada pelos seus pais e assim quando ele tivesse pesadelo, ele pudesse evocar essa lembrança para escapar das sombras que cresciam noite a após noite dentro dele.
Ele sentiu Naruto suspirar satisfeito em seus braços, relaxando mais o abraço, mas ainda sem soltá-lo e Itachi imitou o mais novo. Provavelmente ele se permitiria ficar mais tempo assim, se não ouvisse o som dos passinhos de Shizune se aproximando e ter a vaga consciência que a mãe de Naruto não estava nem a dez passos de distância dali, sem falar que Minato poderia sair do hospital a qualquer momento e topar com a cena.
—Você não vai me soltar? –ele perguntou com algum humor, parando de descansar seu queixo no topo da cabeça de Naruto e dar um passo para trás, ainda que os dois estivessem meio abraçados.
O adolescente fez um barulho de quem engolia ar ao abrir a boca para responder, mas subitamente travou todo, em seguida começando a tremer em seus braços. Até mesmo os dentes de Naruto batiam uns nos outros, Itachi não entendia o porquê, já que não estava tão frio assim.
—Naruto!–sibilou Kushina de um jeito maligno, como se prometesse uma morte lenta e dolorosa. Itachi imediatamente sentiu um calafrio passar pela coluna de Naruto e automaticamente entendeu o medo do garoto. -É ASSIM QUE EU TE ENSINEI A CUMPRIMENTAR OS OUTROS?
—Na-não! -gaguejou Naruto em pânico, largando-o quase que imediatamente. –É que eu...! Perdão!
Os passos de Kushina estavam pesados quando ela pisava, Naruto respirava sem fôlego a cada passo da mãe, gemendo baixinho em pavor, até que Kushina parou de caminhar e Naruto ficou muito quieto, parando de murmurar incoerências. Por um motivo que estava além da sua imaginação, Itachi fez uma imagem mental do filme jurasik park 1, quando aquelas crianças confrontavam o T-Rex na cena do carro. Itachi suspeitava que algo semelhante ocorria naquele instante e ao mesmo tempo que ele sentia pena de Naruto, também estava morrendo de vontade de rir.
—Foi mal pelo mal jeito desse tonto do meu filho, Itachi. –se desculpou Kushina voltando a falar com docilidade, embora houvesse desgosto na sua voz.
A respiração aliviada de Naruto quase arrancou uma gargalhada sua.
—Não se preocupe, Kushina-san, eu já estou acostumado com os picos emotivos do Naruto. –respondeu Itachi polidamente e Naruto bufou indignado. -Isso é apenas algo que eu espero de alguém que chorou vendo dark side of the moon.
Com isso, Naruto fez um barulho de surpresa e choque apenas para demonstrar sua indignação; Itachi deu um sorriso pequenino com isso. Como ele tinha sentido falta disso nessa última semana!
—Hei! Pera lá você! –rebateu Naruto com a voz espalhafatosa e irritada. Itachi fez uma leve careta pelo volume alto da voz. -Qualquer um chora com dark side of the moon!
—Eu não chorei. –pontuou Itachi satisfeito consigo mesmo.
—Mas você é desprovido de sentimentos! -acusou Naruto mordido e ficando ainda mais barulhento que antes. -Você não conta!
Dizendo isso, Naruto bufou indignado e Itachi sorriu um pouquinho mais com isso. Kushina suspirou brevemente, aparentando estar farta do jeito espontâneo do filho, em meio a isso, os passinhos apressados de Shizune pararam e alguém encostou ao seu lado. A tia desculpou-se e disse que era hora deles irem embora, pois o táxi estava a caminho, só que ela cometeu a gafe de dizer que estava atrasada para o trabalho.
Acontece que a mãe de Naruto também estava e, pior: trabalhava no mesmo hospital onde Shizune fora empossada, o hospital estadual de Konoha. Itachi revirou os olhos enquanto ambas as mulheres trocavam figurinhas sobre como a diretora do hospital era o próprio Satã na terra, o que deixou Shizune assustada, principalmente porque não tinha como ela evitar em chegar atrasada.
O hospital de Estadual de Konoha ficava a uns vinte minutos de onde estavam, entretanto a casa de Shisui ficava a uma hora dali, o seu apartamento era mais próximo, há uns quarenta e cinco minutos, se fossem de táxi, mas se atalhassem pelo parque demoraria uma meia hora para chegar. O grande detalhe era que faltavam dez minutos para as seis horas e o trabalho de Shizune só tinha dez minutos de tolerância em atrasos, o que certamente a deixaria mal vista perante seus supervisores, em observância ao fato de que ela ainda estava em estágio probatório.
Para piorar ainda mais, ao que parecia, Kushina também estava atrasada. Tinha ido resolver umas pendências com o pai e passado na clínica de Minato para ganhar uma carona até o hospital, mas Naruto assegurou que o pai demoraria pelo menos vinte minutos até deixar tudo arrumado para o próximo dia de consultas, algo que fez Kushina praguejar baixinho e Itachi ficar com a estranha sensação de que era exatamente isso que Naruto queria.
Isso sem entrar no mérito que Shisui estava no trabalho e a editora ficava no litoral, a uma hora e meia dali, mas Shisui demorava muito mais que isso para chegar ali, tendo em vista que Madara sugava a alma do seu tio. Ainda por cima, a ventania ao redor deles aumentava significativamente, trazendo uma umidade característica de chuva iminente.
—Nós podíamos ligar pro Kisame vir me buscar. –recomendou Itachi. Ele não queria decepcionar Minato, já devia muito ao médico e não queria piorar a relação familiar de Naruto.
Mas mesmo isso estava complicado, pois Kisame estava com as mãos cheias com o filho. Se Kisame ia ao mercado, Suigetsu aproveitava para tentar fugir ou então tentava destruir os móveis da casa só de pirraça para ver Kisame irritado.
—Isso não ia resolver muita coisa. –ponderou Shizune com pressa.
—E se eu e a Shizune-san fossemos pro trabalho de táxi, rachando a conta, e o Naruto levasse o Itachi na bicicleta até o apartamento antigo, ficasse com ele lá, até alguém buscar ele? –sugeriu Kushina pensativa. -Porque aí já daria pra fazer o pagamento dos dias que o Naruto trabalhou, a gente não chegaria atrasada e o Itachi ia ficar em um lugar seguro dessa chuva.
—Sério? –inquiriu Naruto com a voz surpresa e desacreditada. –Pensei que a senhora e o pai não quisessem que eu ficasse... Iau!
—Não fala dessas coisas em público moleque! –ralhou Kushina com raiva e Naruto choramingava baixinho, implorando perdão depois de um tabefe. –Só se a Shizune-san concordar em dividir o táxi... –continuou Kushina parecendo incerta.
Para o horror e ao mesmo tempo alegria de Itachi, a buzina do táxi soou alto, fazendo-o se sobressaltar. Era uma opção lógica o que Kushina sugeriu e não é como se elas tivessem muita alternativa ou que eles não tivessem a vontade de não pagar Naruto, parecia lógico e certo Naruto acompanhá-lo até o apartamento. Parecia até que o universo conspirava naquela situação! Isso fez Itachi se sentir feliz e apreensivo, porque era como alimentar uma esperança que ele não podia ter.
Mesmo Naruto sabia que Kushina e Minato não queriam que os dois ficassem juntos nem como amigos pelos riscos envolvidos. Shisui também não queria se envolver mais com a família de Naruto por causa de uma possível relação com Madara, embora Itachi tivesse a sensação que Shisui estava equivocado quanto a isso. Eram muitos problemas, mas aquela situação era realmente peculiar. Itachi fechou os punhos, mordendo de leve o interior da boca e franzindo os lábios.
O táxi buzinou mais uma vez, o motorista parecia irritado porque colocou força demais no aperto e Itachi deu um passo para o lado. Foi quando Shizune murmurou um “sem problemas” e em seguida ele escutou o som de zíper sendo puxado e o titilar de um molho de chaves soou. Shizune murmurou algumas instruções para Naruto, algo como comprar alguma coisa para ele jantar e em seguida murmurou um “se cuide, ok?” para ele, antes de caminhar até o carro.
—Um dedinho fora da linha e eu jogo você numa gaiola de MMA! –ralhou Kushina com a voz irritada.
—Mas... E o pai? –inquiriu Naruto surpreso e um pouco confuso. –E o castigo?
—Deixa que com ele me viro eu! –afirmou Kushina com um timbre decidido. –Juízo, viu!
Com um vento frio, Kushina se virou e começou a ir embora. A temperatura estava ficando mais e mais baixa, o vento úmido trazendo o cheiro de fumaça e uma promessa de chuva. Os passos apressados de Kushina ainda eram ouvidos, o salto do sapato que ela usava produzia sons altos e secos a cada pisada, entretanto Naruto correu até a mãe, o tênis amortecendo suas pisadas, e logo Itachi ouviu o som da colisão de dois corpos.
—O que...? –murmurou Kushina confusa.
—Obrigado. –sussurrou Naruto feliz. –Bom trabalho mãezinha! –acrescentou Naruto com a voz sorridente.
Demorou alguns segundos para Kushina fazer alguma coisa, talvez tivesse ficado em choque, Itachi não soube ao certo, mas uma alegria sem motivo o tomou. Aquilo talvez tenha significado um passo a mais na relação mãe e filho, mas depois ele perguntaria para Naruto. Kushina sorriu e mais uma buzina soou, o motorista de táxi devia estar mesmo muito estressado e Itachi se irritou com essa falta de educação.
A mãe de Naruto deu mais um tchau, dessa vez sem parecer uma máquina mortífera, entrou no carro batendo a porta com suavidade e logo o motor do veículo foi acionado com um ronco alto, exalando o cheiro de gasolina e fumaça ao sair dali.
—Enfim sós. –comentou Naruto bem humorado. –Quanto você pesa?
—Eu não sou uma noivinha para você carregar. –comentou Itachi com suavidade, não que ele achasse que Naruto ia tentar algo imbecil assim.
Ainda assim, o Uzumaki deu uma risada baixa que quase foi suprimida pela ventania que deu de repente, o ar ficando ainda mais úmido e Itachi poderia prever uma chuva ia cair dali uma hora mais ou menos. Seu corpo inteiro tremeluziu com a queda de temperatura e ele sabia que se não se apresassem, os dois iriam tomar um banho não muito agradável.
—Nem que eu fosse o Hulk eu faria isso! –retrucou Naruto em tom divertido. E inevitavelmente Itachi pensou se ele ganhou peso. -É pra você ir na garupa!
—Naruto, olhe bem pra minha cara. –iniciou Itachi com a voz calma e dócil. –Acha que eu andaria na garupa com esse frio?
—Bom, é uma pena. –pontuou Naruto com a voz marota e Itachi ergueu a sobrancelha desconfiadamente. –Você ia ficar fabuloso com os cabelos ao vento no melhor estilo L’oréal Paris!
Graças a Deus que ele estava de óculos, porque se Naruto tivesse visto que ele revirou os olhos com o comentário, certamente a piadinha da garota do filme exorcista ressurgiria do além igual aos mortos em ‘a madrugada dos mortos vivos’.
—Muito engraçado. –resmungou Itachi.
—Obrigado, eu me esforço! –brincou o adolescente.
Em seguida, Naruto o instruiu a segurar um dos guidões da bicicleta, já que assim o adolescente poderia guiá-lo pelo parque, dando um pouquinho mais de independência a Itachi. Em parte, Itachi poderia admitir que ficou um pouco desapontado com isso, já que ele gostava de andar de braços dados com Naruto e sabia que não teria oportunidade para isso dali em diante, por outro lado, ele gostava da independência de se locomover sozinho, ser tratado como um adulto e o melhor de tudo: sem demonstrações públicas de dependência.
O Uzumaki o ajudou a atravessar a rua e logo o cheiro de fumaça de carburador se extinguiu quando eles entraram no parque. Em vez disso, Itachi sentia cheiro de óleo quente, banana frita e pipoca recém feita, havia ainda mais ventos gélidos dentro do parque e mais sons de crianças correndo.
De sexta a domingo o parque Sarutobi sempre era palco de eventos culturais, onde pequenos artistas se apresentavam ou vendiam seu trabalho, micro-empreendedores aproveitavam a visita das famílias para venderem comidas ou brinquedos, daí havia sempre muitas barraquinhas com pula-pula, piscinas com bolinhas na área. Dentro do parque até mesmo tinha uma mini pista de carrinhos elétricos para as crianças trafegarem com tranquilidade, sendo acompanhadas pelos pais.
O lugar ganhava vida com risadas infantis, o burburinho das conversas e negociações, também havendo um pouco de música baixa, parecia algo instrumental e folclórico, mas Itachi não conseguia definir bem que som era aquele, só sabia que era algo com um violoncelo. Conforme eles caminhavam para dentro do parque, os sons iam diminuindo um pouco, o movimento maior ficava nas quatro vias de acesso e no centro do parque, onde havia os pequenos concertos e era destinado a um público mais adulto.
—Como tão as coisas? -perguntou Naruto depois que os sons diminuíram consideravelmente o volume. Itachi conseguia sentir que a trilha que Naruto pegou estava praticamente vazia agora, já que não escutava os passos de mais ninguém ali. -Eu andei te procurando, mas vi que você se mudou e ninguém sabia pra onde.
—Você não devia desobedecer os seus pais por minha causa. –pontuou Itachi. –Eu reparei que você ‘tá de castigo.
—Você é meu amigo! –afirmou Naruto com teimosia pura e Itachi quase revirou os olhos, caminhando tranquilamente e concentrando-se em ouvir os barulhos que as rodas da bicicleta faziam enquanto eles andavam. -E o Sasuke também é!
—Isso não justifica. –insistiu Itachi sem se incomodar. -Você quase morreu por nossa causa.
O rosnado baixo de Naruto não lhe passou despercebido e Itachi suspirou pesadamente. Sim, ele gostava do adolescente, mas por que é que Naruto tinha que ser tão teimoso? Ok, ele podia não conhecer muito a vida do garoto, mas aquilo era um fato realmente preocupante: alguém tinha que colocar um pouco de razão naquela cabecinha oca!
—Olha, eu sei que é chato, mas você é muito novo, Naruto. –iniciou Itachi, ouvindo Naruto rosnar de novo, mas isso não o fez perder a lógica do seu raciocínio, nem a sua calma. -Ficar perto da gente não é o melhor pra você e os seus pais sabem disso, e ficam preocupados com o que pode acontecer.
—Ah não! –reclamou Naruto em voz alta, completamente irritado. -Você também não! O que é isso? Hora de dar sermão no Naruto? Fala sério!
A vontade de retrucar naquele momento não lhe faltou, mas Itachi ficou quieto, apenas acompanhando a direção que Naruto ia pelo guidão da bicicleta. O adolescente puxou o guidão oposto ao seu, desviando a rota que seguiam e lentamente os dois fizeram uma curva, com Naruto respirando ruidosamente, em um silêncio carrancudo.
—Você pode não reconhecer, mas essa é a verdade. –continuou Itachi e Naruto bufou indignado, para a sua exasperação. -Você sabe que é! Seus pais só querem te proteger de problemas, querem a sua segurança e eu não posso garantir que você vai ficar inteiro com as coisas que rondam a minha família! É melhor que...
—Para! Não! Chega, ok? –ralhou Naruto tão exasperado quanto ele. -Itachi, eu tenho dezessete anos! Eu sou quase um adulto! Eu sei julgar caráter, ok? Eu sei que você é uma boa pessoa e que o Sasuke também é! -o garoto suspirou pesadamente, passando a mão nos cabelos. -Droga, ele só foi naquela porcaria de rave porque o maldito do Suigetsu pediu e ele parece que tem problemas com o pai, ou algo assim!
Aquilo Itachi não sabia e, sem que ele mesmo percebesse, ele acabou virando o rosto para o lado onde sabia que Naruto estava.
—Como você sabe?
—Minha irmã me disse. –respondeu Naruto de mal grado.
Aquela informação era ao mesmo tempo surpreendente e incrivelmente perigosa, porque Itachi sentia que tudo o que ele conversou com Sasuke na noite de véspera de natal teve algum efeito no seu irmão. Mas acima disso, se Sasuke apenas foi naquela festa esquisita por um amigo, então também significava que havia mais vestígios do antigo Sasuke naquela pessoa desconhecida.
Itachi conseguia trabalhar com isso. Ou trabalharia se Sasuke não estivesse recolhido em uma instituição municipal para adolescentes com problemas legais. O promotor de justiça do plantão havia dito que o caso de Sasuke era complicado, mas que por causa de uma tal “questão de ordem pública” (algo que Itachi não dava a mínima, só para constar), seu irmão iria ficar naquele lugar até depois do ano novo, quando o recesso judiciário ia acabar e o caso seria analisado por outro promotor titular.
Mas isso era para depois. Ele teria tempo para pensar sobre isso, mas não teria outra oportunidade de conversar com Naruto e ele definitivamente não ia querer sair brigado com o outro naquela despedida.
—Em todo o caso, esse não é o ponto.
—Não mesmo! –rebateu Naruto agressivamente.
—Não muda o fato que você quase morreu! –afirmou Itachi com a voz um pouco mais alta do que ele pretendia. Às vezes Naruto o tirava do sério.
—E não muda o fato que eu salvei o seu traseiro e o do Teme! –retrucou Naruto com raiva. -Literalmente ainda por cima, o que é pior!
—Se colocando em risco? –brigou Itachi ficando realmente nervoso com isso.
Itachi se forçou a respirar fundo: ele não era assim. Ele não perdia a calma desse jeito, mas os pesadelos... A briga com Shisui... Tudo estava tão pesado! Ele sentia tudo isso se revirando dentro dele, tomando proporções gigantescas e por mais que ele tentasse resolver aqui e ali, nunca ficava menor ou parecia doer menos. Ao contrário: tudo parecia ficar ainda mais sombrio e pior, não parecia que tinha alguma solução. Daí ele tentava enxergar a saída de novo e de novo, só para enxergar ainda mais sombras, mais escuridão.
Era como se afogar.
Uma vez, quando Itachi era pequeno, seus pais o levaram para conhecer o lago Shinai. Ele devia ter uns cinco anos na época, Sasuke era um bebê e dormiu o passeio inteiro, mas Itachi e Shisui aproveitaram que sua mãe cuidava de Sasuke e seu pai cochilava para explorar, coisa de criança, o problema é que ele caiu no lago sem saber nadar. Ele nunca conseguiu esquecer a sensação. Por mais que ele se mexesse, seu corpo não conseguia flutuar, a água fazia seu corpo ficar pesado e conforme o ar saia dos seus pulmões um desespero irracional crescia dentro dele, fazendo com que ele se mexesse ainda mais e assim o ar ficar ainda menor, porque ele não conseguia prender a respiração por muito tempo. Durou uma eternidade, mesmo que fossem só alguns segundos antes de Shisui tirá-lo da água.
O pânico que ele sentia agora era na mesma intensidade do desespero que ele sentiu naquele dia, mas era muito mais sorrateiro. Naquele dia era como se alguém tivesse apertado um botão, acionando o desespero e a adrenalina de fazer qualquer coisa para não morrer; o medo que ele sentia agora surgia nos momentos que ele se sentia mais fraco, quebrando tudo o que ele era em uma fração de segundos que se perduravam no tempo.
-Isso... –ele voltou a falar com a voz fraca. –Naruto, você consegue imaginar o que seus pais devem ter sentido com isso?
—É claro que sim! –retrucou Naruto irritado. -Na hora eu não pensei, só agi, mas depois eu pensei e muito sobre isso! Mas por mais que eu pense, separar a gente ou tentar colocar uma pedra e ignorar o que aconteceu ou o quanto nós podemos nos ajudar não parece certo!
Uma parede prestaria mais atenção às suas palavras do que Naruto, pelo menos era isso o que Itachi constatava com tristeza.
—Eu não vou conseguir alcançar a Karin desse jeito! –confessou Naruto com a voz irritada e ao mesmo tempo miserável. -Nem você vai alcançar o Sasuke sozinho! Tudo ‘tá ligado! Se a gente se separar...! –Naruto ofegou baixinho ainda com raiva. -Os esforços de família não vão adiantar porque não importa qual família seja: nenhuma ainda é família!
Com apenas um argumento, Naruto quebrou toda a sua linha de raciocínio e deixou toda a sua mente em branco. Itachi sequer conseguiu impedir seu queixo de cair de tão atônito que ele ficou.
-Não há confiança ainda, seja na minha família e seja na sua. –explicou Naruto com tristeza e irritação. -Eu sei disso! Aquele dia...!
—Não sei se quero falar sobre isso. –encerrou Itachi de modo definitivo e Naruto suspirou tristemente. -De qualquer modo, seus pais têm um ponto importante a ser considerado: eles querem o seu bem, a sua segurança. É direito deles te proteger! Os filhos tem que obedecer os pais, Naruto, eu me sinto horrível por você não fazer isso por minha causa ou culpa do meu irmão!
—Você ‘tá com o mesmo discurso dos meus pais. –disse Naruto em tom desgostoso. –Mas isso que vocês dizem não é a solução! A gente ainda não é família!
—Que discurso?
—“Nós vamos fazer dar certo!”, “vamos proibir você disso e daquilo!”, “o que você faz ‘tá errado!” — arremedou Naruto fazendo a voz em falsete. Seria engraçado, se não fosse trágico. –Mas quer saber a verdade Itachi? Não é apontando o erro que vai adiantar, porque, sabe? Nós temos alguma razão pra fazer o que fazemos! Boa ou má, têm um motivo!
—Os pais servem para guiar o caminho e impedir que vocês cometam erros. –afirmou Itachi com uma calma que ele não sentia. -Também estão lá quando vocês ‘tão se sentido fracos e sem saber o que fazer. Vocês ainda não sabem como é o mundo aqui fora, não tem a menor ideia do quanto a vida de adulto é difícil!
—Mas isso não muda que a vida de adolescente também tenha problemas que vocês adultos esquecem quando crescem! -rebateu Naruto com insistência. -Vocês dizem que estão bem quando não ‘tão! Querem mascarar a realidade ou pensar em coisas que mudem ela! Querem tirar isso da gente, quando a gente berra que não ‘tá bem!
Naruto tinha um ponto. Itachi sabia que não era muito velho, era até hipócrita ele chamar Naruto de muito jovem, quando ele próprio estava no começo da vida adulta, mas o fato é que ele não se sentia mais como Naruto se sentia. Ele não duvidava que adolescentes tinham que encarar seus próprios medos e incertezas, isso era parte da vida, mas era um fato que adolescentes não encaravam os mesmos problemas de um adulto. Não sabiam o que era ter que lidar com fofoca no trabalho, nem abuso sexual ou moral pelo chefe, não lidavam com uma falsidade louca que existia, uma inveja que não acabava nunca e que poderia te demitir.
Adolescentes não pagavam as contas, não sabiam como uma calça jeans custava ou o quanto era caro ir no mercado fazer a compra do mês, sem falar na conta de água, luz, IPTU, pagar o cartão, compras eventuais, imposto de renda e outras coisas. Não sabiam nada sobre como as pessoas usavam suas fraquezas para pisarem em cima dos outros ou que mesmo que toda a realidade fosse uma droga, ter que se submeter a tudo isso porque não há outro jeito de garantir um mínimo para viver.
O mundo tornava o adulto uma pessoa seca, porque quem tem mais responsabilidades precisa pensar mais antes de fazer alguma coisa. Um gasto a mais com uma besteira poderia faltar para algo essencial, o que poderia aprisionar a um emprego horrível. Mas ainda assim era melhor um emprego ruim do que não ter nada e afundar ainda mais.
Itachi se sentia como um adulto desde que seus pais morreram e tudo isso virou a sua responsabilidade. Ele tinha que garantir o mínimo para ele e para Sasuke, isso não mudou, ele é quem mudou porque o mundo fazia isso: o mundo obriga as pessoas a mudarem para continuar buscando um jeito de viver nele. Quem não se adequava às regras do jogo não conseguiria sobreviver.
Todos seriam descartados, mais cedo ou mais tarde, porque a existência humana era simples daquele jeito, mas ninguém tinha escolha a não ser encarar as adversidades e fazer o melhor o possível. Naruto voltou a falar e Itachi prestou atenção no garoto, se sentindo extremamente vazio naquele momento.
—Sejamos francos Itachi, eu estou contra meus pais enquanto eles pensarem que sabem o que é melhor pra mim, quando nem eu mesmo sei o que eu quero fazer. –insistiu Naruto com a voz mais calma. -Eu, Sasuke, Karin, todos nós precisamos saber onde é que nós podemos ir, precisamos aprender a fazer as decisões. Eu sinto que eu estou fazendo o certo em querer combater isso com vocês!
Às vezes Naruto podia ser tão denso que Itachi acabava ganhando uma dor de cabeça. Ele deu um suspiro pesado e desgostoso, percebendo que havia um som de burburinho e música baixa de algum lugar. Provavelmente eles estavam se aproximando do meio do parque, onde provavelmente estaria acontecendo algum evento.
—Por que você é tão teimoso? –ralhou Itachi cansado de discutir em vão.
—Herança genética da mãe. –respondeu Naruto de um jeito quase travesso. -O que vocês ‘tavam falando afinal?
—Coisas de adulto. –contrapôs Itachi em um tom azedo.
—Às vezes eu te odeio tanto...! –comentou Naruto indignado, mas tão indignado que Itachi quis rir.
—Só porque eu não sou fofoqueiro como você? –ele rebateu com um pouquinho de bom humor.
—Bah, você é irritante quando quer! –aduziu Naruto meio irritado, meio indignado e isso o deixava uma gracinha na opinião de Itachi. E isso porque Itachi tinha jurado para consigo mesmo não usar “gracinha” como adjetivo para seres do sexo masculino com idade superior a dois anos. -Mas como eu sou um ser magnânimo, eu falo: eu senti falta de você.
Com apenas uma frase, se ainda restava alguma raiva ou tristeza dentro dele, tudo mudou, para contragosto de Itachi: ele realmente não conseguia ficar irritado com Naruto, mesmo quando ele queria ficar irritado! Era completamente irritante, a pessoa que disse que estar apaixonado era uma coisa boa devia sofrer alucinações, porque definitivamente não era.
Uma frase estúpida como aquela tinha lhe deixado feliz como há dias ele não se sentia. Ele gostou do abraço que compartilharam a pouco e queria mais que isso, droga, isso era frustrante! Itachi se sentia patético por querer sorrir por tão pouca coisa, quando ele sequer podia rir, se não Naruto ia tomar isso como vitória e não havia uma vitória nenhuma porque Itachi não ia desistir de colocar bom senso na cabeça ruiva do adolescente.
Ainda por cima, o vento gelado trouxe o som de uma música alegre, feita com sanfonas e gaitas, fazendo ainda o público aplaudir no mesmo ritmo da melodia. O cheiro de maçãs do amor se misturava com o cheiro de crepes recém feitos e isso estava lhe deixando com fome, mas pior ainda: dando a falsa aparência de que os dois estavam em um encontro romântico.
Muitos casais apareciam no parque Sarutobi, afinal quem não gosta de ter diversão barata? Além de que muita gente tinha o fetiche de fazer sexo no mato, não que Itachi entendesse isso. Qual era a graça de rolar na grama com alguém, só para servir de alimento de formigas e mosquitos? Ainda correndo o risco que lesmas, aquelas coisas nojentas e geladas subirem no corpo e... Não, Itachi já pisou em uma lesma descalço e era algo que ele nunca ia querer repetir.
—Eu ainda estou com raiva de você. –ele comentou tentando manter a pose, mesmo que ele estivesse sentindo vontade de sorrir.
—Como se eu não estivesse com raiva de você! –retrucou Naruto enfezado e birrento.
Itachi franziu o cenho, desconfiado do leve empurrão no guidão da bicicleta.
—Por que é que eu estou com a impressão que você ‘tá dando a língua pra mim?
-Enfim! –encerrou Naruto em tom solene. -Proponho um acordo: vamos comer alguma coisa, esse cheirinho de crepe ‘tá tão bom!
—Só se eu pagar. –consentiu Itachi se traindo ao deixar um sorriso escapar.
—Eu nem pretendia! –comemorou Naruto com um sorriso. -Você me deve um encontro, senhor certinho!
Era verdade. Naruto tinha lhe chamado para um encontro e isso fez Itachi se recordar de outros detalhes importantes que prontamente fizeram suas entranhas se revirarem de nervosismo. Como era estar em um encontro? Itachi não sabia. Quando ele namorou Konan as coisas ficaram praticamente as mesmas, com a diferença que os dois se beijavam na boca e faziam sexo, mas os passeios ao parque Sarutobi para tomar sorvete e o cinema uma vez por mês existiam antes disso. Nessas ocasiões todas era só a Konan, sua amiga, independentemente deles andarem de mãos dadas e eventualmente se beijarem.
“As coisas não são diferentes.” Itachi tentou racionalizar e ignorar o desconforto de um milhão de borboletas voando entre as suas entranhas e o súbito suor que brotava em suas mãos. “É só o Naruto!”.
É claro que era só o Naruto! Era só o adolescente que dormiu em seus braços, respirando em seu rosto, depois de beijar a curva do seu pescoço e quase morrer para salvá-lo. Só o Naruto! Aquele que tomou banho com ele e que admitiu que sentiu saudade dele nessa semana que não se falaram. Era somente o Naruto, aquele moleque que era bissexual e... Será que Naruto se sentiria atraído por um tipo como ele? Itachi sabia que era boa pinta, mas será que ele seria do tipo de Naruto?
“Por que é que eu faço isso comigo mesmo?” Itachi pensou com raiva de si mesmo, automaticamente levando a mão livre até a testa e a massageando. Mesmo que ele fosse do tipo de Naruto, nada ocorreria entre eles: aquela era a última vez que se veriam, ponto final.
—Sabe, eu vou começar a te chamar de “Di lua” Lovegood, se você continuar assim. –murmurou Naruto com a voz divertida.
Itachi agradeceu a quebra do silêncio, ele estava quase ficando mentalmente insano.
—Nada de “Moony”? –perguntou Itachi bondosamente. –Eu acho que combino mais com Griffindor do que Ravenclaw.
—Só se eu for o Sirius. –concordou Naruto após um breve instante de ponderação. –Aí nós poderíamos fazer uma siren no dormitório! Epa!
Por algum motivo, Naruto deu uma risada alta e nervosa enquanto eles caminhavam para o centro do parque, onde a música estava ainda mais alta. Itachi não entendeu a piadinha do mais novo. Ele gostava de Harry Potter, tinha todos os livros e os DVD’s, mas Naruto era aquele que estava no fandom, nos fóruns da internet e lendo fics ou o que quer que isso seja.
—Se importa em explicar? –perguntou Itachi meio enfezado.
—Er... –vacilou Naruto depois de alguns momentos. -E que graça isso teria?
Por algum motivo, Itachi achou que Naruto não estava sendo muito sincero, talvez porque quando o mais novo fizesse alguma brincadeira sempre ficava com a voz marota em vez de trêmula, mas se Naruto não queria dizer, não seria Itachi quem o obrigaria a falar. Em vez disso, o Uzumaki o guiou mais alguns passos à frente e Itachi se sentiu sugado para outra realidade que ele não experimentou em nenhum dos dias que ficou preso no apartamento.
Ele e Naruto estavam parados perto da entrada para o meio do parque e o barulho da música ficou consideravelmente mais alto que antes, dessa vez junto com milhares de vozes de pessoas conversando sobre coisas que ele não fazia questão de saber e vendedores tentando atrair fregueses. Havia o som das pessoas caminhando, de carne sendo grelhada, coisas sendo removidas de lugar, cadeiras sendo arrastadas, celulares tocando, risos e palmas.
O ar cheirava a um monte de odores, desde pizza expressa de presunto a maçãs cobertas de açúcar caramelizado, sanduíches de carne grelhada com cebola e alho, muffins de chocolate e ainda havia os perfumes que algumas pessoas usavam. Cheiros fortes de desodorante, suor, fumaça de cigarro, as mais variadas fragrâncias femininas e masculinas se misturavam naquele ambiente.
Tudo deixava Itachi perdido, havia um encantamento desolador nisso tudo que ele não sabia como classificar ou como reagir. Sem que ele percebesse, Naruto se aproximou dele, fazendo-o se encostar em uma mureta, mas nem foi isso o que mais o surpreendeu: o mero roçar dos lábios de Naruto junto a sua orelha direita lhe fizeram prender a respiração por um momento, enquanto o Uzumaki dizia que ia comprar alguma coisa para eles comerem e que voltaria logo, porque não dava para eles andarem por ali com a bicicleta.
Naruto foi embora com a mesma rapidez que havia se aproximado e isso, se possível, confundiu ainda mais Itachi, mas logo ele realizou que ele estava sozinho naquele mundo de odores e barulhos. Alguém poderia se aproximar dele, assim como Orochimaru se aproximou naquele sábado, pegar aquela bicicleta de suas mãos sem que ele pudesse fazer nada para impedir ou se defender. Naquele momento, apenas naquele instante, Itachi sentiu todo o peso que era ficar cego.
A sensação de ser vulnerável não era algo que ele sentia, ele nunca se permitiu ser vulnerável, mas era exatamente o que ele era naquele momento. Mesmo no natal, quando ele negociava com Orochimaru, ele não se sentiu daquela forma como se sentia agora. Naquela madrugada, a sua mente só processava em proteger Sasuke, não importasse quais as consequências traria para si. Isso seria irrelevante, se Sasuke ficasse bem no fim. Mas agora ele estava sozinho naquele pedaço de mundo e ele não era nada mais do que uma peça quebrada. E era certamente assim que as pessoas de fora o viam, por isso sua família queria tanto protegê-lo ao ponto de tudo se tornar patético.
Itachi era um peso porque não havia como ele fazer alguma coisa para impedir ou ajudar. Ele estava vulnerável. Muito mais até do que ele se recusava a acreditar, mas uma vez que ele entendia isso, como é que ele poderia mudar as coisas?
—Voltei! –chamou Naruto alegremente e Itachi ergueu o rosto meio assustado. Ele não percebeu quando o outro se aproximou dele. –O que foi?
—Eu sou um peso. –ele respondeu com a voz baixa.
Um vento gelado sorrateiro, com os muitos cheiros do lugar, fez a sua franja ondular e ele quase comeu o próprio cabelo, o que fez Naruto soltar uma risadinha baixa. O Uzumaki se sentou ao seu lado, ficando bem pertinho dele e Itachi conseguiu distinguir o cheiro do cabelo de Naruto, dentre todos os outros cheiros.
—Por que acha isso?
—Sendo franco? Eu não posso fazer nada enquanto não enxergar, muitos dos meus problemas vem disso. –ele explicou com a voz baixa, mantendo a cabeça inclinada. –Eu sei que vou enxergar logo, mas até lá eu só sou um peso pra todo mundo.
—Sabe, eu te respeito muito, mas eu odeio essa droga de orgulho Uchiha que você e o tonto do seu irmão tem. –replicou Naruto com indignação e cansaço. –Não dá pra ser assim! Ninguém precisa ser forte e caminhar sozinho o tempo todo! Até o Clark Kent tem a kriptonita que o deixa vulnerável! –pontuou Naruto com veemência. -Isso só faz a gente ser humano! É pra isso que existe família e amigos! Você não é um peso pra mim e nem pra ninguém que ama você, porque a gente quer ver você bem e ok de novo! Não é fardo nenhum te carregar!
Itachi acabou dando um sorriso triste ao ouvir isso.
—Você fala de mim, mas... –ele comentou com tristeza. –Você faz a mesma coisa Naruto. Você também encara tudo sozinho, mesmo sendo tão vulnerável quanto eu e é tão orgulhoso quanto eu, porque também não quer aceitar a ajuda quando ela vem.
Naruto bufou indignado, bagunçando os próprios cabelos e grunhindo insatisfeito ao seu lado; Itachi não sabia se ria ou se afundava no próprio desamparo. Ele não era assim e ele sabia que Naruto não era assim, os dois juntos não funcionavam dessa maneira, mas parecia ter tantas coisas mudando e tantos assuntos inacabados entre eles. Havia muitas coisas que ele queria dizer a Naruto, do mesmo modo como havia muitas coisas que ele queria saber de Naruto. Mas não havia tempo. Tudo estava dito e não dito, absolutamente tudo o confundia naquele instante e ele não sabia mais o que podia esperar daquilo tudo.
—‘Tou começando a achar que nós somos dois bastardos egoístas! –resmungou Naruto com raiva. –Por sua causa!
—Pelo menos dessa vez você me ouviu. –Itachi comentou com docilidade, embora ainda não estivesse se sentindo melhor.
—E se a gente fizer um acordo? –propôs Naruto com ânimo renovado. Itachi ergueu a sobrancelha, estava um pouco desconfiado disso. –Sempre que você se sentir sozinho e que sentir que não dá mais, você se apóia em mim. Quando eu me sentir do mesmo jeito, eu vou recorrer a você. Assim a gente não ficaria sozinho!
Por um segundo mágico, Itachi quase respondeu sem pensar: sim. Durante esse segundo mágico, ele capturaria os lábios de Naruto nos seus e os dois começariam a namorar, porque aquela proposta ia além de algo fraterno: era quase um pedido de casamento. Mas o segundo passou e a realidade voltou.
—Claro, aí seu pai descobre isso, fica com raiva de mim e resolve cortar a minha cabeça com a gelo. –ele respondeu com brandura.
—Estraga prazeres!
—Bom, o que eu posso dizer? –ele comentou com docilidade. –Faz parte do meu charme.
Naruto bufou indignado de novo, aparentando estar verdadeiramente frustrado e Itachi, sem querer, acabou rindo. Por mais que as coisas em sua vida o fizessem ficar desolado ou com raiva, ele não conseguia sentir a intensidade de seus problemas quando estava perto de Naruto. Era como se a tristeza encontrasse o caminho da saída e ele pudesse aproveitar alguns minutos de tranquilidade. Ele não se sentia sozinho com Naruto e quando ele percebia isso, mesmo que ele evitasse a todo custo, Itachi se sentia um pouco mais cativado pelo adolescente e um pouco mais apaixonado.
Apesar de todas as circunstâncias ruins em sua vida, ele agradecia a oportunidade de ao menos sentir isso em relação à Naruto porque aquele sentimento era quase como ser abraçado por algo morno e enxergar um feixe de luz em meio a um quarto escuro.
Dizia-se que a paixão começa com uma ilusão e Itachi odiava viver em uma ilusão, mesmo que inconscientemente ele fizesse outras pessoas viverem ilusões, só que quando a ilusão convergia para Naruto, Itachi não conseguia se livrar do desejo de vivenciá-la, nem que seja em apenas um delírio seu.
Era o suficiente para lhe dar a esperança que ele precisava para afastar um pouco a solidão. Gostar de Naruto do jeito que ele gostava aquecia o seu corpo e clareava seus pensamentos, silenciando todas as dificuldades por alguns instantes onde ele poderia respirar, reunir forças e então voltar a realidade para encarar todos os seus problemas mais uma vez.
Itachi não tinha um nome para esse sentimento, mas talvez não fosse preciso nomear. Aquela força talvez fosse igual ao vento: algo que era para sentir, não ver, nem tocar. Algo que existia, sem qualquer estímulo ou razão: estava lá, carregando para longe a dor, nem que por apenas uns poucos instantes que se tornavam memórias preciosas. Itachi não ignorava mais esse sentimento e por percebê-lo, apenas por senti-lo, Itachi se sentia mais forte e mais disposto a seguir em frente, mesmo que nada tivesse mudado a sua situação.
—Obrigado... –Itachi murmurou mais para si mesmo do que para Naruto.
—Que? –inquiriu o mais novo distraidamente.
Itachi apenas sorriu, sem se atrever a responder. Uma vez ele leu um conto de Stephen King chamado: “o outono da inocência”, cujo início havia um trecho que Itachi jamais esqueceu. As palavras exatas fugiam da sua mente, mas o significado estava cravado nele: era algo referente aos sentimentos extraordinários serem ilimitados quando dentro de você, mas que, ao serem expressos, a normalidade os tornaria limitados no mero prisma do ‘comum’.
Era desse jeito que os segredos nasciam: pela falta de quem os ouvisse. Itachi se sentia assim naquele momento, com aquele sentimento ilimitado dentro dele, tornando-o um ser extraordinário que sentia acima de todas as outras coisas. O sentimento estava nele, preso em sua garganta e louco para se tornar palavras que o reduziriam a mera dimensão do finito.
O silêncio era a única resposta que ele poderia ter naquele momento e, com pesar, ele sorriu, sem ter qualquer indicação de como a pessoa que o fazia se sentir ilimitado reagiu a sua falta de réplica. Naruto o chamou de esquisito, mas felizmente não insistiu no assunto, dizendo que tinha comprado torta de frango para eles e uma sobremesa, porém ele informou que o céu estava bastante escuro e que por isso não tinha jeito: Itachi teria que ir na garupa da bicicleta.
Sendo bem franco, Itachi não sabia se concordava muito com aquela opinião, se estavam no meio do parque, seria melhor apenas apressarem o passo, entretanto discutir com Naruto era tão produtivo quanto encontrar uma agulha num palheiro e ele acabou desistindo de contra-argumentar. Enquanto Naruto bolava um jeito seguro dele subir na garupa, Itachi se sentou sobre uma mureta baixinha para separar as plantas da via de acesso. Ele estava ouvindo a música no fundo e Naruto praguejar baixinho, quando uma senhora com a voz aguda resmungava tão alto que parecia falar aos berros; às vezes Itachi ficava espantado pela falta de educação de algumas pessoas.
—É um absurdo! Aqueles dois deviam ter vergonha na cara! –esbravejava a mulher sem noção, passando ao seu lado e Itachi fez o melhor o que pôde para controlar sua expressão de desagrado. -Dois marmanjos se agarrando na frente de crianças! Um lugar público!
—Ai mãe, pelo amor de Deus, fala mais baixo! –resmungou uma adolescente com a voz mais baixa e constrangida. –A senhora ‘tá me fazendo passar vergonha!
—Vergonha devia ter aqueles...! –rugiu a senhora sem se importar. –Eu pensei que esse fosse um parque de família!
A filha ainda brigou com a mãe uma última vez, antes de Naruto chamar a sua atenção e pedir para que ele se aproximasse. Foi preciso uma operação tática minuciosa para que ele conseguisse uma proeza tão simples. A primeira parte foi fácil: o Uzumaki tinha equilibrado a bicicleta e só o instruiu a pisar sobre o apoio para os pés do passageiro, porém a manobra do passar a perna para o outro lado... Itachi até agora não entendia como é que conseguiu fazer isso, só sabia que atingiu esse objetivo e que seu traseiro estava desconfortavelmente disposto sobre a garupa da bicicleta de Naruto.
—Conseguimos! –comemorou Naruto com felicidade, dando um pulinho satisfeito e um constrangedor “hip hip hurra!” sem nem se importar se ele era visto ou não.
—Anda logo! –grunhiu Itachi.
—‘Tá bom! ‘Tá bom! –bufou Naruto indignado, antes de checar mais uma vez se os seus pés estavam no suporte para pés e consequentemente longe das rodas. Em seguida subiu o apoio, montou na bicicleta e começou a pedalar. –Ô, você é mais pesado que eu pensei!
—‘Tá me chamando de gordo?
Por algum motivo que Itachi não achava a menor graça, Naruto começou a rir enquanto se esforçava para pedalar mais rápido, fazendo com que o vento batesse de encontro ao seu rosto com intensidade.
—Nah! Só não pensei que pele e ossos pesassem tanto! –disse Naruto com bom humor. -Você ‘tá mais pra aqueles modelos que aparecem em comercial de cueca e que a mulherada fica com a calcinha molhada!
Itachi umedeceu os lábios, subitamente satisfeito consigo mesmo, embora o que o mais novo disse não tenha sido uma afirmação que o próprio Naruto o achava atraente. Naruto começou a assoviar o tema de “mudança de hábito” e a bicicleta deu um solavanco suave, quando a roda passou por alguma irregularidade da pista. Itachi estava se esforçando em se segurar na bicicleta e não se sentir enjoado por se sentir em movimento sem ter a menor noção do que acontecia.
Cada pequeno solavanco da bicicleta parecia tirar o seu equilíbrio e lhe dar um tipo diferente de vertigem que ele sequer sabia que existia. Uma agonia de sentir o corpo se locomovendo, o vento de encontro a sua pele e não ter a menor ideia da paisagem ao seu redor para dar alguma segurança de onde se apoiar, como reagir ao próximo obstáculo ou qualquer coisa. Itachi estava começando a ficar meio irritado com essa sensação estranha que sentia quando estava em qualquer coisa que se movia.
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—Naruto... –chamou Itachi baixinho, após pigarrear ainda sem saber de que assunto poderiam falar: tinha tantos! -Posso te fazer uma pergunta?
—Obviamente, você já fez uma, meu caro Watson. –respondeu Naruto em um tom falsamente pomposo e Itachi revirou os olhos. –Mas eu lhe concedo outra.
—Tonto. –afirmou Itachi e Naruto riu gostosamente. Antes mesmo que Itachi pudesse pensar com calma, a pergunta ecoou em seus ouvidos. –Você não se incomoda com os comentários de gente como aquela mulher de ainda pouco? Com, você sabe...
—Com o lance de eu ser bi? –inquiriu Naruto curioso e Itachi murmurou uma concordância. –Nenhum pouco! Eu sou eu e o jacaré é o bicho!
Itachi piscou em descrédito, sem conseguir entender muita coisa do que Naruto disse. Ás vezes parecia que o mais novo falava gírias que ele não conhecia de propósito só para ele ficar sem entender e ter que perguntar de novo.
—Quê?
Naruto riu baixinho, fazendo uma curva não muito suave e muito menos na velocidade que Itachi julgava ideal para tanto. Para o horror e espanto de Itachi, sua têmpora até mesmo latejou com o súbito movimento da bicicleta.
—Tipo, eu não me importo com que os outros vão pensar de mim. –respondeu Naruto com sinceridade. –Eu estando feliz é o que importa, mesmo que eu não saiba como meu pai e a minha mãe vão reagir.
—Eles não sabem?
—Nop, mas meu vô doidão sabe e ele apóia. –informou Naruto. Itachi imediatamente se lembrou do jeito descolado de Hashirama e como ele lembrava Naruto. –A Karin também sabe, a minha tia também. Minha avó e meu ero vô desconfiam e acho que a minha mãe também desconfia, mas não é como se importassem com isso, eles todos são do tipo que iam me aceitar não importa pra que lado eu jogue... Embora meu ero vô me encha de conto pornô daqueles tipo uou urg!
Naruto continuava falando, mas Itachi já não estava mais prestando atenção. Durante todas aquelas semanas, ele se julgou atraído por Minato e até mesmo conseguia imaginar uma ou outra aproximação romântica, mas ele nunca tinha pensado em como os outros veriam o relacionamento. A ilusão que ele criou para com Minato era apenas isso: uma ilusão onde os detalhes mais realísticos ficavam fora de contexto e eram facilmente ignorados, até porque Minato era casado e Itachi nunca foi pretensioso de imaginar uma relação com o médico.
Mas a questão é que um relacionamento homoafetivo era considerado diferente pelos outros. Entretanto, isso levava a um questionamento: qual era a distinção de um envolvimento entre pessoas do mesmo sexo e pessoas do sexo oposto? Se tudo era baseado na mesma tríplice (amor, confiança e atração física), o que tornaria um tão diverso do outro? Itachi não conseguia entender esse conceito de “aceito” e “não aceito”, da mesma forma como ele percebia que enxergava tudo de uma forma abstrata demais para um julgamento mais acurado do mérito.
Um relacionamento amoroso, no qual ambos os indivíduos buscavam se tornar um casal, necessitava do sentimento, da confiança e de atração física para funcionar. Itachi sabia que ele confiava em Naruto e definitivamente existia um sentimento mais forte que amizade ali, um conforto físico muito diferente de uma amizade normal. Mas a atração física de um casal era diferente: era carnal. Era físico e ancestral, pois era puramente as vontades do corpo, o desejo lascivo.
Para ele era imprescindível se sentir confortável com a pessoa que possivelmente seria seu par. Konan era sua amiga e aumentar o nível de intimidade entre eles não foi impactante. Com Minato as coisas fugiram ao padrão um pouco, ele se sentiu atraído após confiar que o médico seria capaz de ajudá-lo. Com Naruto parecia ter um pouquinho dos outros dois. Antes de pensar no gênero, havia a necessidade de algo a mais que ele não sabia nomear ainda.
Ocorre que com o adolesce ele experimentava um sentimento com um alcance muito maior, o que aumentava progressivamente as possibilidades dele confundir tudo. Havia chance de erro nisso, ele estava fragilizado demais por todos os eventos externos a ele e essa probabilidade de ele estar confundindo tudo de novo poderia macular a única coisa realmente boa que aconteceu com ele desde que os problemas começaram.
Mas então, como é que... Infelizmente, Naruto cortou a sua linha de raciocínio.
—Vai, faz a pergunta. –comentou Naruto com a voz marota e brincalhona. -Eu ‘tou sentindo o cheiro da fumaça daqui...
—Como é que você descobriu que... –Itachi perguntou se sentindo um pouco constrangido e extremamente invasivo. -Se sentia atraído por outros homens?
—Na moral? –se certificou Naruto e Itachi grunhiu em concordância. -Foi quando eu percebi que ficava de barraca armada por outros caras ao ponto de bater uma punheta, daí não teve jeito, sabe?
—Naruto! –ralhou Itachi um pouco mais alto do que pretendia. -Não fale assim em público!
—Que? Não tem ninguém além de mim e você aqui. –explicou Naruto e Itachi podia apostar um donuts que o adolescente tinha feito um gesto de desdém com os ombros. –E é verdade! Eu só descobri que também me atraia por caras quando percebi que não era nojento beijar um ou deixar um cara me chupar ou colocar um pinto na boca...
Itachi ficou tão chocado com o que Naruto disse que acabou engolindo de mau jeito, sentindo sua garganta arder enquanto a saliva descia goela a baixo e seu rosto esquentava de constrangimento. Ele via pornô, era um homem afinal, mas ele nunca imaginou alguém fazendo as coisas que os casais do Xvideos faziam nele, menos ainda na possibilidade dele fazer aquelas coisas em alguém; Itachi sempre achou sexo tão anti-higiênico! Não que não fosse bom, era gostoso, mas também era uma das coisas mais selvagens que existia no comportamento humano.
Além disso, ninguém nunca conversava de sexo com ele e menos ainda usavam termo chulo na sua presença, só que não era só essa a razão do seu constrangimento: o problema mesmo foi que a conversa acionou um link que acessou o seu arquivo de pornô, associando um Minato ruivo batendo uma para nele. E a imagem mental disso era muito diferente do nojo.
No mesmo segundo que Itachi chegou a essa conclusão, ele conseguiu até mesmo imaginar um toque fantasma da mão de Naruto dentro das suas calças, acariciando seu pênis e rindo daquele jeito maroto que o adolescente sempre fazia quando ia aprontar alguma coisa. Itachi ofegou baixinho com essa imagem mental, sentindo um início de pânico pelo Naruto real estar há uns quinze centímetros à sua frente e ele tendo esse tipo de pensamento, constatação essa que apenas fez seu constrangimento subir mais um degrau e seu rosto queimar ainda mais intensamente.
-Naruto... –Itachi murmurou com a voz baixa demais, sentindo suas bochechas tão quentes que ele não tinha dúvida nenhuma que ele estava com o rosto vermelho igual ao de um tomate maduro.
—Eu ainda amo peitos, sabe? –comentou Naruto com vagar e Itachi tinha que concordar. –Acho o corpo feminino lindo e gosto de sexo com mulheres, mas foder com um cara é tão gostoso quanto! É mais apertado e quentinho... Embora eu confesse que seja meio esquisito ouvir um cara gemer no meu ouvido...
“Apertado e quentinho”, Naruto tinha dito e agora Itachi percebia com um choque embaraçoso que ele adoraria descobrir se o corpo de Naruto o abrigaria daquela forma ou se gemeria rente ao seu ouvido, vez ou outra beijando a curva do seu pescoço igual no sábado passado. Um arrepio que não tinha nada a ver com o frio correu pela sua coluna, espalhando pequenos arrepios por todo o seu corpo, deixando seus pêlos em pé. Essa memória não o ajudou em nada porque ele acabou se lembrando de como o corpo do adolescente era morno, como os cabelos de Naruto eram macios entre os seus dedos e como era gostoso quando os dois enlaçavam as pernas enquanto estavam deitados.
“Meu Deus, pare de pensar nisso!” Itachi pensou com desespero, enquanto uma corrente de pensamentos nada castos, todos baseados no seu arquivo de pornô, rapidamente fazia que o sangue resolvesse circular em certa região do seu corpo que definitivamente não precisava de tanta atenção assim.
Ok, com isso ele já tinha uma resposta.
—Mas é isso. Sexo com um cara é bom, só meio melequento, afinal são dois caras soltando porra, mas é gostoso. –concluiu Naruto sem se importar. –Que bosta, Itachi! Fiquei com vontade de transar por sua culpa!
-Naruto! –ralhou Itachi indignado, pensando que aquilo era um golpe baixo: quem queria transar era ele. E ele nem era do tipo de cara que frequentemente cede ao lado carnal! –Excesso de informação, ok?
—Você ‘tá constrangido? –perguntou Naruto com a voz zombeteira em meio a uma risada que só deixou Itachi ainda mais envergonhado e com raiva, ainda bem que Naruto estava na sua frente a uma distância segura porque se visse o quão ‘animado’ ele estava ia ser um enorme problema. -‘Tá vermelho? Que gracinha!
—Não use esse adjetivo para indivíduos do sexo masculino maiores de dois anos! –recriminou Itachi com raiva, respirando fundo e tentando voltar ao normal. Principalmente se livrar do problema inesperado que surgiu.
—Mas você é que... Porra! –grunhiu Naruto de repente.
De uma hora para outra, Naruto colocou os pés no chão para parar a bicicleta, apertando o freio como se sua vida dependesse disso e a bicicleta deu um tranco tão grande que ele se sentiu ser içado do banco. Itachi se forçou a se sentar de novo, batendo o traseiro na garupa desconfortável e imediatamente uma dor gigante o atingiu com o choque da sua carne e do banco da bicicleta, mas isso não o impediu de se segurar com todas as forças para não perder o equilíbrio e nem mover seus pés para perto da roda, mas mesmo assim não adiantou muito porque ele deu de cara nas costas de Naruto, quase caindo da garupa.
Naruto praguejou irritado e Itachi estava quase dando um grito no adolescente quando um trovão soou alto, fazendo mais pessoas gritarem. Havia muitos choros de crianças e mulheres berrando assustadas, Itachi prendeu a respiração assustado sem nem saber o porquê. A pontada na sua têmpora voltou com força dobrada pelos movimentos vagos que teve que fazer para se segurar, mas mesmo a dor não o impediu de notar que não havia mais música no parque, apenas os estampidos e as vozes desesperadas das pessoas lá no centro.
A bicicleta estava parada, enquanto Naruto respirava de um jeito ofegante, tateando os bolsos do jeans. Perto deles um sapo coaxou e isso fez com que o Uzumaki ficasse ainda mais em pânico.
—O que é que aconteceu? –Itachi perguntou alarmado.
—Ai Deus! Ai meu Deus! Cadê! –resmungava Naruto completamente apavorado. –Cadê essa porra caralho?!
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Shisui
Durante muitos anos, Shisui nunca se questionou muito sobre o passado. Ele sabia que sua mãe morreu há muitos anos e que ele nasceu depois que ela se divorciou de Tajima Uchiha, mas ninguém respondeu nada quanto aos detalhes disso. Não foi apenas porque sua irmã sempre fez uma cara triste quando ele ou Itachi tocavam no assunto, tampouco pelas ameaças de castigo que ouviam de Fugaku, talvez a explicação mais simples fosse porque, bem no íntimo, ele sempre suspeitou que não fosse tristeza o que via nos olhos da sua irmã, mas sim completo pavor.
Como se fosse perigoso fuçar o passado.
‘Pior que tá não fica’, ele havia pensado quando seguiu o conselho de Tobirama Senju e revirou todas essas feridas. Mas, claro, ele estava errado! Tão, tão errado e agora a dor em seu peito se espalhava por todo o seu corpo, seu sangue quente sujando suas vestes de trabalho. “Preciso fugir!” ele pensou desesperado, tentando sair daquele lugar, mas quem o acudiria? O deque ficava na parte mais rural da cidade, poucas pessoas moravam ali! Mas com um chute bem dado nas suas costelas, ele perdeu o equilíbrio e caiu na água.
A água estava terrivelmente gelada e seu corpo pesado e dolorido demais, suas costas se machucaram ainda mais com o impacto, mas Shisui estava eufórico, cheio de adrenalina e com aquele instinto natural de se salvar. Sua visão estava turva, seu corpo inteiro parecia chumbo e ainda tinha aquela sensação horrível como se diversas agulhas estivessem espetando seu corpo. Estava cada vez mais difícil manter a consciência, não havia ar, só havia a água que logo logo entupiria seus pulmões e ele morreria, isso se a ferida feita pela bala não o matasse antes, ou talvez a perda de sangue.
Ele fora tão idiota! Era tão difícil de acreditar, ainda faltavam tantas peças para montar o quebra cabeça, mas uma coisa ficou clara: Madara não era o pior problema! Em vez de passar um filme sobre a sua vida inteira, o que ele enxergava em seus momentos finais era tudo o que descobrira nos últimos dias.
Como um editor, ele sabia que as notícias nem sempre eram verdadeiras, porém toda grande fofoca tinha certo resquício de verdade. Separar o joio do trigo nunca foi tão difícil, mas ele conseguiu alguma coisa, não? Não foi isso que fez com que ele fosse um burro? Mas, sim, a briga com os Senju era verdadeira, duelos, brigas públicas, duas editoras que foram criadas com o intuito de se hostilizarem, incêndios criminosos e toda uma série de baixezas serviam de prova. A amizade de Hashirama e Madara também era verdadeira, em razão da trégua de alguns anos que se iniciou em uma alardeada festa numa casa do lago e muito, muito dinheiro.
Shisui só queria entender por que. Ele supunha que as fotos de comercial de margarina que estampavam as manchetes da coluna social do jornal escondiam a alta possibilidade da notícia de que Tajima Uchiha tivesse se apaixonado por uma artista local ser verdadeira, talvez a gravidez dessa mulher fosse a causa da primeira tentativa de suicídio da sua mãe. Mas nada disso foi dito oficialmente, não mesmo? O que definitivamente aconteceu foi a internação de sua mãe em uma clínica psiquiátrica por longos meses e que o casal ficou fragilizado por isso.
O divórcio aconteceu anos depois, muitos anos depois. E depois vieram as tragédias, ou melhor, os assassinatos. Sua mãe cometeu suicídio pouco tempo após o seu nascimento, em pleno processo de divórcio e quando já estava com o seu pai, quem, aliais, Shisui não tinha nem ideia de quem era. Tantas fofocas e nenhuma especulando a respeito disso! Tajima se casou com a tal atriz, mas pouco depois do casamento um fã enlouquecido da mulher o esfaqueou diversas vezes no abdômen, ensejando a sua morte. A clínica onde sua mãe foi internada pegou fogo e o irmão de Tajima ficou em estado gravíssimo por inalar a fumaça. Mikoto foi sequestrada e se não fosse a atitude nobre de um empregado da família, ela teria sido morta; talvez por isso ela tivesse desaparecido.
Talvez ela soubesse mais... Por isso tinha aquele pavor, mas o que isso importava agora?
Shisui estava delirando, a dor estava indo embora e a inconsciência chegando. Seu corpo afundava dentro da água que ele sequer sabia se estava gelada, já que tudo parecia inerte ao seu redor. Ninguém saberia que ele estava ali, quem poderia prever? Ele acreditou no homem errado! Shizune... Como ele pôde ter feito isso com sua esposa? Ele tinha jurado não deixá-la sozinha... Ser a família dela. Como ele queria vê-la só mais uma vez e dizer o quanto a amava só mais uma vez. E ainda tinha Itachi e Sasuke, céus, eles estavam em perigo!
Não tinha como ele protegê-los, Shisui fez um esforço para respirar e a dor da água invadindo seus pulmões o dilacerou por dentro, matando restinho de consciência que ele tinha.
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